quinta-feira, 4 de agosto de 2011

São Paulo à venda

Por Fernando de Barros e Silva
no Observatório de Segurança Pública

Sem que isso seja muito evidente, Gilberto Kassab está patrocinando um novo ciclo de especulação imobiliária na cidade. O mesmo setor que contribuiu com milhões para a eleição do prefeito em 2008 está sendo beneficiado em operações urbanas mais do que duvidosas, justamente a um ano da próxima campanha municipal. De várias maneiras, regiões de São Paulo estão sendo terceirizadas, alienadas ou vendidas para o mercado. O caso mais flagrante é o da "troca" de áreas públicas por creches - ideia que partiu do Secovi, o sindicato do setor imobiliário.

Kassab havia prometido zerar a carência de vagas nas creches. Há mais de 140 mil crianças na fila de espera. Perto do fim do mandato, o problema social se transforma em oportunidade de negócio. Afinal, alguém precisa lucrar com a promessa que não será cumprida. Quem acredita que as construtoras beneficiadas com áreas nobres farão adequadamente 200, 300, 400 creches na periferia?

Não é só. Kassab vai dar à iniciativa privada o poder de desapropriar uma enorme extensão da Pompeia, como já ocorre, a passo de cágado, na Nova Luz (ou cracolândia). Este é um tipo de concessão que só parece ter sentido numa região arruinada, onde as empresas não investiriam sem atrativos. Mas na Pompeia? Por que facilitar lucros privados gigantescos numa área já valorizada? Não cheira bem.

Por fim, a prefeitura está prestes a aprovar um novo polo de escritórios de luxo na avenida Chucri Zaidan, continuação da Berrini. É mais um capítulo de uma dinâmica perversa: enquanto a região central, com infraestrutura já pronta, permanece subocupada, em estado de degradação, os impostos do paulistano vão financiar a expansão de transporte público, luz, água etc. até os confins da cidade, para onde fogem os ricos seguindo a corrida do ouro do mercado imobiliário. Tudo somado, o kassabismo é uma espécie de neomalufismo. Essa é a escola em que ele se formou.

Publicado originalmente no Observatório de Segurança Pública domingo, 31 de julho de 2011

5 comentários:

Mayra disse...

É impressionante como uma única má administração é capaz de destruir tão rápido uma cidade. SP tá devastada.
Edu, linkei lá onde você colocou, mas não cai no artigo do FBS. O bom foi conhecer esse portal.

Edu Maretti disse...

Então, eu dei o link do site onde está o texto. Achei melhor que dar o link do mesmo texto reproduzido...

Mayra disse...

Tudo certo, foi boa ideia mesmo!

Ó tô tentando compartilhar no facebook, mas cai no meu comentário e não no texto que você postou. Será que há algum problema burocrático-internético?

Felipe Cabañas da Silva disse...

Kassab é herdeiro do que há de pior na política nacional, e não é demais lembrar, se é possível colocar alguma coisa na cabeça do povo conservador do Estado e da cidade de São Paulo, que Kassab foi resgatado da sarjeta da era Pitta por um certo José Serra. Kassab foi secretário de "planejamento" do Pitta. Com essa turma no planejamento não há planejamento urbano, há selvageria urbana.

Terceirizar desapropriações, para mim, é um crime hediondo. E, segundo diversas interpretações, completamente inconstitucional. Vejamos se é possível compreender a direita brasileira: invadir terras improdutivas no campo para reivindicar reforma agrária é terrorismo, mas expropriar o que é dos outros na cidade para fazer dinheiro é "empreendedorismo".

Fora tudo isso, vejamos nosso cotidiano na "cidade" (está mais para babilônia) de São Paulo: ônibus imundos cobrando passagens de R$3,00, metrô insuficiente a R$2,90, caos piorando a cada dia no trânsito, infraestrutura abandonada para lidar com o nosso volume de chuvas do verão, cracolândia se expandindo. Mas todo Natal na avenida Sumaré temos luzes de "champs elysées" para alegrar o circo. Isso é PSDB/DEM, e, segundo a interpretação democrática, é isso o que o povo paulista fez por merecer...

Edu Maretti disse...

sobre o pensamento da direita brasileira: "invadir terras improdutivas no campo para reivindicar reforma agrária é terrorismo, mas expropriar o que é dos outros na cidade para fazer dinheiro é 'empreendedorismo'".

Perfeito.

Ótimo comentário. De repente vale até ser usado em um post futuramente...