sábado, 21 de janeiro de 2017

Donald Trump: uma besta ou a besta?


Ou: Considerações acerca de uma incógnita


White House/Twitter

Enquanto assistia à posse do novo presidente dos Estados Unidos, pensamentos contraditórios passavam pela minha cabeça.

Não conseguia chegar a me definir se Trump seria um besta, ou a besta. No primeiro caso, segundo o Michaelis, “Que ou aquele que é grosseiro ou ignorante; burro”. Na segunda acepção, de acordo com o mesmo dicionário, termo bíblico que significa “animal simbólico, tido como responsável por grandes catástrofes” e que pode levar o mundo ao Apocalipse.

No discurso de posse, o 45° presidente dos Estados Unidos seguiu a receita da campanha vencedora e, depois de elogiar Obama e Michelle pela postura “magnífica” no processo de transmissão do cargo, logo assumiu sua personalidade truculenta e disparou: “Não estamos apenas transmitindo o poder de uma administração a outra, ou de um partido para outro, estamos transferindo o poder de Washington, DC, e devolvendo para vocês, o povo. Por tempo demais um pequeno grupo na capital da nação recebeu os louros do governo enquanto as pessoas pagaram pelo custo”.

Trump é um louco ou um demônio? Nenhum dos dois. É o resultado de inúmeros fatores conjugados. Logo após a eleição que colocou o republicano na Casa Branca, em 9 de novembro, Glenn Greenwald, no The Intercept, escreveu o que para mim é o melhor texto sobre os porquês da eleição que surpreendeu analistas e apostadores do mundo todo, principalmente os ligados ao establishment democrata norte-americano, texto que você pode ler na íntegra aqui: Democratas, Trump e a perigosa recusa em entender as lições do Brexit.

Dois trechos do texto acima mencionado:

1)as elites formadoras de opinião estavam unidas de uma forma extremamente incestuosa e tão distantes da população que decidiria essas eleições, sentiam tanto desprezo por ela, que não foram capazes de observar as tendências em favor de Trump e, além disso, aceleraram essas tendências involuntariamente com seu próprio comportamento”.

2)a escolha conivente que o Partido Democrata fez décadas atrás: abandonar seu apelo popular e se tornar o partido dos tecnocratas proficientes, dos gerentes do poder da elite pouco benevolentes. Essas são as sementes de cinismo e interesse próprio que foram plantadas, e agora essa plantação está sendo colhida. (E este trecho faz, não tão vagamente assim, lembrar o nosso Partido dos Trabalhadores no processo que – embora por meio de um golpe – o apeou do poder em 2016.)

Acredito que, se não se comportar de modo minimamente aceitável de acordo com que esperam dele os poderes ocultos e não ocultos dos Estados Unidos, a Roma contemporânea potencializada com um arsenal nuclear capaz de destruir o mundo várias vezes, Donald Trump será igualmente apeado do poder, de uma forma ou de outra, e não acredito que com gentileza. Como me disse o professor Luis Fernando Ayerbe, do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais da Unesp: “O receio do establishment é pelo estrago que Trump pode causar, por incompetência, improvisação, falta de visão estratégica. Ele preocupa fundamentalmente os setores do establishment tradicional, representados pelos que se reúnem em Davos, as chamadas elites orgânicas do capital" (a matéria da RBA com Ayerbe está aqui).

Embora eu tenha a tendência de não desconsiderar nem mesmo forças místicas que giram em torno do poder neste mundo de matéria densa, e apesar de em alguns momentos me parecer que Donald Trump pode até mesmo ser a besta, penso que ele está mais para um besta alucinado mesmo, do qual o povo americano pode se cansar bastante cedo, e aí o establishment terá a faca e o queijo na mão.

Seja como for, para nós brasileiros (e esta é outra coisa em que cada vez acredito mais), é provável que, se Donald Trump fosse presidente dos Estados Unidos no ano passado, Dilma Rousseff não teria sido deposta, pelo menos não com tanta facilidade. Trump parece não estar tão preocupado em interferir na vida de outros países como os “falcões” Obama e Hillary Clinton, como lembrou Ayerbe na matéria acima linkada. O que, aliás, pode até mesmo ser um dos motivos da irritação do establishment com o novo presidente. 

Teori Zavascki e o moralismo da esquerda brasileira


Nelson Jr./STF
As discussões, teses, análises e interpretações em torno da morte do ministro do STF, relator da Lava Jato no Supremo, vão continuar por muito tempo. No caso, a teoria da conspiração se justifica (e faço questão de dizer isso porque eu não sou adepto de teorias da conspiração, mas o caso Teori é muito estranho).  É bastante difundida a idéia de que coincidências não existem, seja sob a ótica espírita, seja sob a de analistas políticos racionalistas de credibilidade, para citar apenas duas vertentes.

O propósito deste post é só registrar meu espanto pela postura moralista, machista (e portanto injustificável) de setores da esquerda brasileira que usam como argumento contra Zavascki a "informação" de que ele estaria na companhia de uma (traduzindo) garota de programa no avião que caiu. São usados eufemismos, mas a tradução (maldosa) é de que ele estaria no avião na companhia de uma prostituta.

Quem difunde essa "informação" como argumento precisa refletir sobre seu papel, que não é, neste caso, digno de ser chamado de esquerdista. Quem difunde essa "informação" é direitista, mesmo sem saber. Roland Barthes afirmou que a opressão do homem pelo homem não se extinguiu com governos de esquerda (Rússia, Cuba etc.) porque a opressão está na linguagem, e não no sistema político.

Discuta-se o papel de Teori Zavascki enquanto relator da Lava Jato politicamente, suas relações com o empresário dono do avião etc. Ele tinha relações suspeitas com empresários? Que se investigue. Mas ninguém tem nada a ver com sua vida pessoal.

Quem se considera de esquerda e julga Teori Zavascki por supostamente estar na companhia de mulheres moralmente "suspeitas" no avião está fazendo o jogo da TV Globo. Mas, muito pior do que isso, reproduz uma visão moralista, machista e imbecil que assola o país.

Afinal, o que os esquerdistas têm contra as prostitutas?

sábado, 14 de janeiro de 2017

Um pouco mais sobre Interestelar



Cooper (Matthew McConaughey) com dra Brand (Anne Hathaway )

Depois de rever Interestelar, confesso ser necessário escrever um segundo post sobre este belo filme, que é um dos que hoje eu colocaria entre os dez de uma lista de DVDs que levaria a uma ilha deserta (onde tivesse como reproduzir, é claro), para fugir da solidão.

Também minha crítica ao diretor Chris Nolan foi talvez um pouco exagerada. Meu amigo Emerson Lopes esclareceu, via Facebook, que Nolan já declarou que Interestelar foi uma singela homenagem a 2001, de Kubrick. Humildade faz bem. É evidente que minha ranzinzice do primeiro post não tem a capacidade de diminuir o trabalho de Nolan como diretor do filme.

O fato é que Interestelar emociona.

O som como que primevo a perpassar o filme; o som metafísico quando aparece a nave Endurance; o som que marca o tempo no planeta de Miller, som de relógio que dá uma carga de dramaticidade extrema à cena (uma das mais espetaculares do filme) naquele planeta de água onde cada hora equivale a sete anos terrestres  e onde a gravidade é 130% a da terra.

A discussão sobre o tempo. A impossibilidade de mudar o passado.

O diálogo do astronauta Cooper (Matthew McConaughey) com a filha Murph (Mackenzie Foy): "Só estamos aqui como lembrança dos filhos... Quando você tem filhos, você se torna fantasma do futuro deles", diz ele à filha inconformada pela partida do pai para uma jornada talvez sem retorno.

A sequência da partida de Cooper, da fazenda para o espaço.

A sequência do relógio quando Murph entende o código binário.

Achados. Como Cooper, na varanda de sua fazenda com o sogro Donald (John Lithgow), em cena que depois se repete quase exatamente, mas num contexto em que seu interlocutor já não é humano, mas um robô.

O desespero para comunicar à filha Murph os dados quânticos em alguma região da quinta dimensão.

A busca humana por sua perpetuação diante de um cenário de morte em que a Terra está se extinguindo ("A humanidade nasceu na terra mas não está destinada a morrer aqui").

No post anterior eu critiquei o fato de o filme necessitar de um vilão. Mas até isso é justificável, já que uma pessoa na situação de dr. Mann (hibernando num tanque em um planeta onde a vida é impossível) facilmente enlouqueceria, mesmo sendo um genial cientista. Aliás, a interpretação de Matt Damon é magistral. Até mesmo dentro de um capacete sua expressividade é impressionante. "Máquinas não funcionam bem (numa missão a outro mundo) porque não se programa o medo da morte", diz ele a Cooper enquanto exploram o planeta gelado e morto.

As interpretações dos atores, até mesmo de Anne Hathaway como dra. Brand (mea culpa), que se não é nenhuma Meryl Streep, pelo menos tem uma atuação discreta. No post anterior creio que fui um pouco inclemente na minha crítica com a atriz.

Três atrizes interpretam a filha de Cooper e cientista Murph. Mackenzie Foy (na infância), Jessica Chastain (juventude e fase adulta) e Ellen Burstyn (na velhice). Três belas interpretações. Isso para não falar de Michael Caine como dr. Brand, pai da astronauta.

Os robôs TARS e CASE, que podem ser programados para ter senso de humor e graus de sinceridade, que parecem aranhas geométricas inteligentes e desempenham papel importante como personagens.

A fotografia deslumbrante do filme, combinada à música.

O conteúdo científico e a onipresente Teoria da Relatividade Geral, de Einstein, assim como outros conceitos, entre os quais do "buraco de minhoca", e elementos cósmicos como o buraco negro.Li alguns textos idiotas na "grande mídia" que procuravam defeitos científicos no filme. Todos textos rasos e estúpidos, escritos por gente que não conhece nada de ciência. (A má-fé e/ou ignorância da mídia não tem a ver apenas com a política.) 

Li também um tal crítico num blog falando mal do filme por sua "inconsistência tonal". Provavelmente um acadêmico mal humorado com problemas no fígado que quer aparecer em cima de algo infinitamente maior do que ele. Deve adorar Gritos e Susurros de Bergman.

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Leia também: Interestelar: ficção inteligente, apesar de Hollywood

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Marco Aurélio sobre impeachment: "O que houve foi uma deliberação das duas casas do Congresso"


Reproduzo aqui, ipis litteris, a entrevista que fiz hoje, para a Rede Brasil Atual 


Carlos Humberto/STF


O ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, refuta a ideia de que a mais alta corte do país tenha sido conivente com o impeachment, segundo a expressão jurídica, ou golpe, de acordo com o termo político utilizado pelos representantes da esquerda brasileira. “O que houve foi uma deliberação, e deliberação das duas casas do Congresso. Em segundo lugar, nós ocupamos uma cadeira de envergadura maior. E não estamos engajados em qualquer política governamental”, disse Marco Aurélio à RBA.

A reversão do impeachment de Dilma Rousseff é defendida como viável por juristas como o procurador da República Eugênio Aragão.

Empossado em 13 de junho de 1990, o ministro Marco Aurélio discorda de que o país sofreu um golpe. “Não, de forma alguma”, diz.

Como o sr. avalia a tese de que a única forma de o país sair da crise é a anulação do impeachment, cujo julgamento está no STF?

Se está no STF eu não posso antecipar qualquer ideia. Vamos aguardar. Mas, evidentemente, foi uma fase que ficou para trás. Precisamos esperar. Não conheço inclusive a articulação que se faz. Eu não poderia mesmo emitir (opinião) por uma questão de dever profissional.

Qual articulação?

A articulação nas ações. Há vários mandados de segurança no Supremo.

Há muito questionamento sobre por que o Supremo não se pronuncia, já que o impeachment é um caso muito importante. Por quê? Poderíamos explicar?

Porque a sobrecarga é inimaginável, considerando uma Suprema Corte. Nós não somos mais operadores do Direito, nós somos estivadores do Direito. É algo que, se você revela, por exemplo, a um integrante de um tribunal estrangeiro, a esse nível, ele pensa até que é irreal. Por isso é que viemos apagando simplesmente incêndios, e a jurisdição fica prejudicada em termos de celeridade.

Alguns juristas afirmam que, por omissão, o STF participa do que eles chamam de golpe. O sr. teria algum comentário sobre isso?

Não, de forma alguma. De forma alguma. Primeiro, não cogito, em si, de golpe. O que houve foi uma deliberação, e deliberação das duas casas do Congresso. Em segundo lugar, nós ocupamos uma cadeira de envergadura maior. E não estamos engajados em qualquer política governamental. A política presente no Supremo é institucional e voltada a tornar prevalecente a lei das leis da República, que é a Constituição.

O Legislativo representa a sociedade hoje?

É a premissa, e eles devem estar atentos aos anseios de sociedade.

Mas parece que não estão, não é?

Não, eu não emito impedimento a respeito. Que cada qual faça a sua parte. E apenas digo que em época de crise devemos guardar princípios, sendo até um pouco ortodoxos nessa guarda. 

Como um dos ministros mais antigos do STF, o sr. vislumbra alguma saída para o país, que continua mergulhado numa crise profunda?

Nós estamos sangrando por motivos diversos. Evidentemente, devemos procurar correção de rumos, dias melhores para o povo brasileiro.

Procurar um outro sistema político?

Não, precisamos ter uma compenetração maior, principalmente da parte dos homens públicos quanto ao avanço cultural.

Avanço cultural que no nosso caso continua no século passado...

Pois é, e com um mercado desequilibrado em que os jovens não têm a menor chance de se realizarem. Isso é preocupante. Nós temos um desequilíbrio marcante entre empregos e mão de obra. Houve um crescimento demográfico desenfreado. Basta lembrar o chavão da Copa de 1970: “90 milhões de brasileiros em ação”. Hoje, em plena crise, somos quase 210 milhões, um crescimento de mais de 130% em cerca de 45 anos.


quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

O Brasil de 2016: o país do golpe, do desencanto e da barbárie





Alguns amigos não entendem muito bem minha desesperança com a política e com o Brasil. A questão é que esse desencanto não tem a ver apenas com política, mas com o nível moral (espiritual) em que está ancorado este país, este povo, e não apenas a chamada classe dominante, as "elites" - "não há vítimas inocentes" (Sartre). Tenho amigos que desprezam a religiosidade, outros que dela zombam, mas outros alimentam as coisas do Espírito.

Para ilustrar o que quero dizer, repito o que disse no Facebook: A selvageria assassina materializada no metrô de SP esta semana (quando o vendedor Luiz Carlos Ruas, de 54 anos, foi assassinado por dois monstros por defender travestis agredidas por esses mesmos monstros) só mostra algo que tenho pensado e falado para as pessoas mais próximas: o Brasil é um lixo de país.

Eu sou espírita. Tenho amigos católicos e de religiões afro. Principalmente entre os católicos, há entre eles quem tenha sido barbaramente torturado durante a ditadura iniciada em 1964. Depois de décadas de luta pela democracia, vimos o que aconteceu em 2016: um golpe sórdido, mas no entanto tão fácil como tirar pirulito da boca de uma criança.

Esse trágico desenlace (que pode fazer o país retroceder décadas do pouco avanço que conseguiu depois de séculos de exploração feudal) mostrou quão pusilânime é o chamado "povo" brasileiro. Perdoem-me, mas, de certa maneira, os monstros assassinos do metrô são como que a cara moralmente radicalizada desse mesmo povo. Claro, só psicopatas como os assassinos do metrô teriam coragem de protagonizar a barbárie, mas muitos e muitos a apoiam. Sim, apoiam. Basta ler comentários em sites e redes sociais.

Vejo esse povo nas ruas, no supermercado, na padaria. Ou vocês acreditam que esse povo vai sair às ruas, às centenas de milhares, defender... a democracia, os direitos do cidadão e do trabalhador?!

***

Estou terminando de ler um livro sobre o qual já escrevi neste blog, Os Cátaros e a Heresia Católica, de Hermínio C. Miranda . É uma abordagem historiográfica (sob um ponto de vista espírita) muito interessante sobre os cátaros, um povo que tentou implementar no mundo (a partir da Europa, particularmente no sul da França), entre os séculos 12 e 13 de nossa era, o cristianismo do Cristo, e que foi sufocado e eliminado brutalmente pela Igreja Católica de Roma.

Os cátaros, considerados hereges pela Santa Sé, foram perseguidos pelas Cruzadas e pela Inquisição implacavelmente, humilhados e queimados vivos em fogueiras enormes em nome de... Cristo!, eles que pretenderam justamente defender as ideias trazidas pelo próprio Jesus. Morreram queimados como morreram apedrejados e crucificados e nas arenas romanas os primeiros cristãos, no início.

Digo isso como uma livre-associação.

Encerro dizendo: depois de tudo o que aconteceu politicamente em 2016, notícias como a desse crime bárbaro no metrô de SP apenas reforçam que este país é isso mesmo, um lixo. Desculpem a sinceridade. Mas, se fosse possível, eu gostaria de fazer um acordo com Deus: que na próxima encarnação me permita nascer em outro lugar. Neste aqui não acredito mais.

Cada vez mais acredito que só há uma solução: a transformação interior, a partir da qual se pode espraiar a transformação do mundo. Como ensinaram entidades como Jesus, Buda, Mahatma Gandhi e outros.


sábado, 24 de dezembro de 2016

O Natal, segundo Carlos Drummond de Andrade




Organiza o Natal*

Carlos Drummond de Andrade


Marc Chagall, Solitude (1933) - Óleo sobre tela

Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom.

Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas. Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagüi ou com o vestido de baile. E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.

Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afetuoso. A crítica de arte se dissolverá jovialmente, a menos que prefira tomar a forma de um sininho cristalino, a badalar sem erudição nem pretensão, celebrando o Advento.

A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro.

A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.

Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz.

O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.

Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível.

A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã.

O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive.

E será Natal para sempre.

Ah! Seria ótimo se os sonhos do poeta se transformassem em realidade.

*Texto extraído do livro "Cadeira de Balanço", Livraria José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1972, pág. 52.

Ainda sobre religiosidade:

Pensata sobre Maria Madalena a partir de uma notícia

Os cátaros, a política, o espiritismo

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Duas passagens que tive com Dom Paulo Evaristo Arns


Reprodução/Youtube


Não vou repetir dados e informações biográficas sobre dom  Paulo Evaristo Arns, que foram divulgadas à exaustão hoje (ontem).

Quero apenas contar duas passagens de minha vida em que tive a honra de, mesmo que rapidamente, trocar algumas palavras com esse grande homem.

Uma foi em 2000, no dia da eleição que levou Marta Suplicy à prefeitura de São Paulo. Chegávamos à PUC-SP, para votar. Quando passávamos pela entrada da universidade, à rua Monte Alegre, um carro parou e dele desceu dom Paulo Evaristo Arns. Surpresos com a feliz coincidência (mas dizem que coincidências não existem) dirigimo-nos a ele, dizendo algo como "veio votar, Dom Paulo?", só para ter algo o que ouvir dele.

Com o olhar carismático e expressivo, e o falar calmo característico dos homens que têm todas as coisas para dizer, e, sabedores disso, sempre falam sem pressa, ele fixou os olhos nos olhos da Carmem e disse: "chegou a hora das mulheres", com um sorriso convicto e alegre.

A outra ocasião foi ainda antes, cerca de um ano depois da eleição de Luiza Erundina (1988). Era um evento no Tuca, o teatro da PUC de tantas histórias, e eu, jornalista ainda muito jovem, me candidatei a fazer uma pergunta ao arcebispo. Lembro que, diante daquela sumidade que tanto e sempre respeitei, ao dirigir-me para pegar o microfone eu tremia. A insegurança de jovem  jornalista cresceu enormemente naquele momento, naquela situação. É que a gente se sente pequeno às vezes, quando está diante de alguém espiritualmente poderoso como ele.

Minha pergunta foi o que ele podia comentar sobre o papel decisivo da Igreja, a qual ele comandava em São Paulo como arcebispo, na eleição de Erundina. (No dia da eleição, a Folha de S. Paulo dera uma matéria de página inteira, sob o título: "Igreja libera fiéis para voto em Erundina" -- cito o título de memória, que pode ser diferente em algum detalhe, mas era esse essencialmente. Não há dúvida de que Dom Paulo foi decisivo naquela eleição.)

Hoje, 27 anos depois, não me lembro nem mesmo qual foi exatamente a resposta de Dom Paulo. Mas foi uma resposta política, como se dissesse que o que tinha de ser feito já fora feito.

Enfim, dom Paulo Evaristo Arns, aos 95 anos, terminou sua missão. Uma grande missão, cumprida com honra, serenidade e disposição para ajudar a melhorar o mundo. 

sábado, 3 de dezembro de 2016

Interestelar: ficção inteligente, apesar de Hollywood



Anne Hathaway: cenas espetaculares, atuação medíocre

Sou apaixonado por filmes de ficção científica. Infelizmente, são poucos os que se salvam. Dos que vi, 2001: Uma Odisseia no Espaço (direção de Stanley Kubrick de 1968 - baseado no livro de Arthur Clarke), é o melhor. Não à toa, já que Kubrick é um gênio que soube usar as benesses de Hollywood para fazer uma obra definitiva no cinema. Blade Runner (Ridley Scott - 1982) é outro. E podemos pôr um etcétera aí.

Mas quero falar, brevemente, do filme Interestelar (no original, Interstellar), de 2014, dirigido pelo obscuro Christopher Nolan, o tipo de diretor que não faz diferença, já que, se não fosse ele, outro faria a mesma coisa -- mais ou menos melhor ou pior.

Mas o filme, como resultado, é interessante e inteligente, descontando os hollywoodianismos (a tendência ao happy end, a necessidade do vilão, da luta física etc.).

Interestelar traz à ficção científica no cinema abordagens que a ciência dominante, a ciência canônica, não considerava comprováveis há apenas algumas décadas, como o buraco de minhoca, que em inglês é wormhole (este termo, na legenda do canal HBO, não é traduzido - o termo inglês worm significa mais "verme" do que "minhoca"). O buraco de minhoca continua sendo uma teoria contestada, mas já é considerada mais do que mera teoria. Outro conceito abordado pelo filme é o do buraco negro.

De fato emociona a maneira como o filme mostra o passado como uma dimensão irrecuperável, inclusive considerando Albert Einstein e sua Teoria da Relatividade. Não há na física a possibilidade de você mudar o passado. O filme Interestelar joga fora abordagens tolas como a do filme De Volta para o Futuro (filme fascinante, mas tolo, do ponto de vista da Física). 

Interestelar é um filme antropocêntrico, como a visão do cientista Marcelo Gleiser, por exemplo. Ou seja, incorpora a concepção de que o ser humano é a única entidade comprovadamente (mas comprovada pelo homem) inteligente do cosmos e está destinado a povoar o universo. É  uma tese hoje contestada. Há setores na Ciência que discordam de que o ser humano seja o único inteligente no cosmos. O problema é que não há provas de que não estamos sós. Mas há muitas indicações de que está prestes a ser comprovado que não, nós não somos os únicos: o ceticismo de Marcelo Gleiser está ultrapassado.

Para finalizar, a produção de Interestelar resolveu muito mal o papel da astronauta dra. Brand, interpretada pela péssima Anne Hathaway, que mais parece uma coelhinha da Playboy do que uma cientista ou uma astronauta. Mesmo assim, ela protagoniza cenas espetaculares, como quando a missão da Nasa chega a um planeta estranho coberto por água, e os astronautas são surpreendidos por... Mas não vou contar.

Já o galã Matthew McConaughey, como o astronauta Cooper, foi uma aposta vencedora. Está muito bem no papel do comandante da missão destinada a encontrar um destino para a espécie humana para além de nossa galáxia. De resto, o desempenho de Jessica Chastain (no papel de Murph como filha adulta de Cooper) é muito superior ao da medíocre Anne Hathaway como a protagonista dra. Brand. No filme, o excelente Michael Caine faz o pai da dra. Brand.

Infelizmente, como é Hollywood, os pecados se sucedem. Por exemplo: o filme tem um elenco estelar, com o perdão do trocadilho. Além de Michael Caine, traz como coadjuvante Matt Damon, uma real estrela da nova geração de Hollywood (junto, por exemplo, com Leonardo DiCaprio). Um luxo, ter Matt Damon como coadjuvante. Só que, ao invés de aproveitar o personagem de Matt Damon, a produção-direção, na minha modesta opinião, desperdiça a chance. Porque Hollywood precisa de heróis e vilões, precisa do bem e do mal, e jogam fora o luxo de ter o ator em seu elenco.

Seja como for, Interestelar é um filme bastante interessante. Merece ser visto. Assista.

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Leia mais: Um pouco mais sobre Interestelar

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Os cátaros, a política, o espiritismo

"Renegar a política é renegar a humanidade"
(Marco Ferreira, por e-mail)



"Quem sabe estudando as razões pelas quais tanto se matou por mera discordância ideológica possamos alcançar mais adiante um estágio evolutivo, em que se discorde tolerantemente."

A frase não é sobre o Brasil de Michel Temer ou sobre alguma ditadura latino-americana. É do livro Os Cátaros e a Heresia Católica, de Hermínio C. Miranda, que estou lendo.

Cátaros (do grego καϑαρός - katharós - "puro" ou "limpo") são um povo cristão que, em torno do ano 1.200, principalmente no sul da França, foi perseguido e exterminado pela Igreja Católica e suas Cruzadas, sob todas as formas de massacres, torturas e execuções, incluindo fogueiras em que se queimavam dezenas de pessoas de todas as idades.

Acusados de hereges, os cátaros foram perseguidos por pregarem um cristianismo não contaminado pela doutrina católico-romana, corrupta, defensora dos interesses terrenos, que destruiu incalculável patrimônio histórico e todo conhecimento (livros, culturas e povos) que de alguma forma ameaçava seu império. O cristianismo dos cátaros seria uma doutrina mais próxima de Cristo, personagem do qual, de resto, pouco se sabe.

Esse Cristo na realidade é uma entidade dual, contraditória - considerando as diferentes versões ou interpretações. As histórias em torno dele expressam posições antagônicas: ao mesmo tempo em que recomenda, a quem levar uma bofetada, oferecer a outra face, ele declara, segundo Mateus (10:34): "Não penseis que vim traz paz à Terra; não vim trazer paz, mas espada".

Qual é o verdadeiro Jesus? O construído por Roma com certeza não é o de Pier Paolo Pasolini, diretor do belíssimo Il Vangelo secondo Matteo (1964), cujo Cristo veio trazer a espada.

Se, de acordo com a igreja romana, Jesus foi concebido por uma mãe virgem, os relatos históricos a que se tem acesso (filtrados por 2 mil anos e quase totalmente apagados pela genocida "Igreja de Pedro") dão margem a interpretações bem menos fantasiosas. Por exemplo: Maria Madalena, mulher reduzida a uma prostituta pela "Tradição", teria sido, na verdade, companheira e amante de Jesus, e inclusive mãe de descendentes seus. Tomé, presumem intérpretes, era irmão de Jesus. Ou, pelo menos, um outro, como diria Borges.

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Papa Gregório IX instituiu a "Santa Inquisição"
"A campanha militar (contra os cátaros) encerrou-se tecnicamente com a tomada de Montségur, em 1244, onde foram queimados vivos mais de 200 cátaros, numa só fogueira gigantesca, que iluminou os céus com as chamas do ódio e deixou espalhadas no chão da história 'as cinzas da liberdade', na expressão que Michel Roquebert colocou no título de um de seus livros", escreve Hermínio C. Miranda.

A "Santa Inquisição" foi instituída pelo "santo" Papa Gregório IX, em 1233, ou seja, 11 anos antes do extermínio definitivo dos cátaros.

Os Cátaros e a Heresia Católica é pois uma interessante abordagem histórica. Como o autor é espírita, sua análise do tema passa por associações que, segundo ele, estranhamente começaram a ser percebidas na Europa, particularmente na Inglaterra, sete séculos depois do extermínio dos cátaros, em meados do século XX. Essas associações apontariam para evidências espiritualistas relacionadas à reencarnação.

Os cátaros também são conhecidos como albigenses, em referência à cidade francesa de Albi, onde se considera que se originou esse movimento.

Ao pesquisar questões relativas aos cátaros, é também muito interessante saber que havia sinais de inegável familiaridade entre esse povo e os Cavaleiros Templários, também perseguidos pela Inquisição de "tenebrosa memória", como diz o autor do livro.

As pessoas fazem confusão entre Templários e Cruzados. É preciso pesquisar um pouco. Suas histórias se imbricam, mas não se confundem.

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Todavia, as sombras do passado e as farsas da história oficial dos séculos não me afastam da minha própria história. Eu quase poderia dizer que prefiro ler Truman Capote, J. D. Salinger ou Graham Greene, que são mais próximos do que eu sou, embora já estejam velhos. Mas acho melhor não dizer. Nos tempos atuais, já não se sabe o que é velho ou o que é novo.


*Publicado originalmente em 26 de novembro de 2016, à 00:56

"De nossa parte, e para sempre, Chapecoense campeã da Copa Sul-americana"




O Atlético Nacional da Colômbia solicita, por meio de nota oficial em seu site, que o título da Copa Sul-Americana 2016 seja entregue à Chapecoense.

Diante da tristeza, da tragédia e da injustiça que vitimou o clube, fica uma notícia consoladora sobre tudo isso. Injustiça porque a Chape é um clube médio transformado em exemplo de gestão, e por isso ascendeu da série D à A e estava numa final internacional, o que nunca um clube catarinense havia conseguido.

E o  Atlético Nacional mostra grandeza. Abaixo a nota do clube colombiano na íntegra.

"Atlético Nacional solicita a Conmebol que el título de la Sudamericana sea entregado a Chapecoense"

"El dolor embarga rotundamente nuestros corazones e invade de luto nuestro pensamiento. Han sido horas lamentables en las que hemos estado consternados con una noticia que nunca quisimos haber escuchado. El accidente de nuestros hermanos del fútbol de Chapecoense nos marcará de por vida y desde ya dejará una huella imborrable en el fútbol latinoamericano y mundial. Todo esto ha sido completamente inesperado, por eso el dolor. Se trataban todos ellos, futbolistas, Cuerpo Técnico, periodistas y tripulación, de personas con muchos sueños, por eso el llanto.

"El lamento mundial se ha hecho extensivo también a toda la familia Verdolaga quienes desde sus patrocinadores, su Junta Directiva, su Cuerpo Técnico, sus jugadores, su parte administrativa y su afición, han manifestado el desconsuelo y la desazón por lo absurdo. La solidaridad no se hizo esperar y de nuestra parte acompañamos de forma rotunda el padecimiento de todos los hermanos que nos abandonaron quienes junto a sus familiares y nosotros, compartíamos una ilusión grande de ser campeones continentales de la Copa Sudamericana.

"Luego de estar muy preocupados por la parte humana pensamos en el aspecto competitivo y queremos publicar este comunicado en donde Atlético Nacional invita a Conmebol a que el título de la Copa Sudamericana le sea entregado a la Associacao Chapecoense de Futebol como laurel honorífico a su gran pérdida y en homenaje póstumo a las víctimas del fatal accidente que enluta nuestro deporte. De nuestra parte, y para siempre, Chapecoense Campeón de la Copa Sudamericana 2016
."

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

São Paulo em imagens – Viaduto Santa Ifigênia


O documentário abaixo, de Alexandre Maretti, em pouco menos de dez minutos, conta uma vasta história. Grande como a de um livro com seus personagens a compor a cena brasileira. História revelada em sucessão de quadros da cidade imensa, concentrada em um viaduto, mergulhada em amor e injustiça, em desigualdade, mas também em fraternidade e esperança.

Movimento. Som dialogando com as imagens. Meio Cinema Novo, meio expressionismo.

sábado, 29 de outubro de 2016

Grandes atores (6): Anthony Hopkins


Fotos: Reprodução
Como o imortal Hannibal Lecter
Já comentei sobre esse monstro da arte dramática num post em que juntei outros monstros (Gene Hackman, Marlon Brando, Rod Steiger). Mas Anthony Hopkins merece um post à parte. Claro que os outros aqui citados também. É que vi anteontem um filme totalmente descartável, que entretanto me remeteu diretamente à infância: A Máscara do Zorro (1998, dirigido pelo medíocre Martin Campbell, diretor hollywoodiano encarregado apenas de executar roteiros pré-fabricados), no qual Hopkins interpreta Don Diego de la Vega/Zorro. Na infância, o Zorro da série de TV que tinha Guy Williams no papel do herói e o eterno sargento Garcia era um de meus programas favoritos na telinha.

Mas, voltando, apesar de A Máscara do Zorro ser um filme muito ruim (uma ideia boa, mas mal aproveitada), com todo tipo de soluções comerciais e clichês made in Hollywood, ver Hopkins compensa: tudo vale a pena se a alma não é pequena. Curiosamente, algo me faz sempre associar esse ator britânico nascido em Port Talbot em 1937 ao nova yorkino Jack Nicholson, coincidentemente nascido no mesmo ano. Porém, apesar da grandeza de Nicholson, acho Hopkins superior.

Enquanto o americano, de certa maneira, é freqüentemente ator de si mesmo, na medida em que seus personagens costumam ser um pouco, sempre, o próprio Nicholson, o inglês parece ser mais capaz de ser tanto um padre, com suas expressões cândidas e santas, como um irremediável romântico ou um psicopata de inteligência sobrenatural e mente fria.

É o caso do papel do serial killer Hannibal Lecter, em O Silêncio dos Inocentes (Jonathan Demme, 1991), um dos grandes thrillers da história do cinema. No filme, Hopkins incorpora o espírito de uma criatura que passa a existir graças ao talento assombroso do ator. Nesse sentido, ele opera na arte dramática o que, na literatura, apenas grandes escritores são capazes de fazer: dar vida a um personagem. Mais do que isso, dotá-lo de alma, de tal modo que é como se fosse um ser real.


Jodie Foster, como a policial Clarice, cujo mestre (e sombra) é Lecter

Hannibal Lecter é um desses personagens do qual não se esquece jamais. Como já escrevi no post citado acima, o personagem Lecter se transforma no mestre da policial Clarice Starling exatamente como o ator Hopkins se transforma no mentor de Jodie Foster, que a interpreta. Isso, de um ator (atriz) monstro parecer conduzir aqueles com os quais contracena, é comum no cinema e no teatro. É com uma fascinação ao mesmo tempo iluminada e sombria que Clarice/Foster interage com o criminoso Hannibal/Hopkins. Isso não se daria se o ator fosse outro, ou um ator menor. Provavelmente o filme sequer teria brilho ou importância.

Como também já escrevi, esse "é um filme paradigmático de uma grande atuação, porque Hopkins opera no personagem uma transformação que vai da brutalidade à doçura, da contemplação à explosão assassina, e ele expressa essas nuances em sua face como se fossem, cada uma, a face mesma da brutalidade, da doçura, da contemplação e da selvageria". É uma das maiores atuações que já vi no cinema.


Como Don Diego de la Vega/Zorro, único motivo para ver o filme

A relação mestre-discípulo da qual falei acima, que se dá entre Hopkins e Jodie Foster em O Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs, no original em inglês), acontece também em A Máscara do Zorro, entre o mesmo Hopkins e Antonio Banderas, que é muito bom ator, mas perdeu muito de seu brilho depois de deixar a Espanha (onde atuou em vários filmes sob a direção de Almodóvar) e se transformar num ator secundário de Hollywood, apesar de eu ter lido, não lembro onde, que foi como Zorro que Banderas atingiu importância internacional. Importância em bilheteria, apenas, e decadência como ator.

Como o professor Van Helsing, em Drácula
Em Drácula de Bram Stoker  (1992), do grande Francis Ford Coppola, Hopkins faz o bondoso e sábio professor Abraham Van Helsing, a antítese de Hannibal Lecter, já que é ele o portador do conhecimento capaz de combater o mal.

Em Drácula, é curioso notar que Hopkins não tem a importância dos filmes citados neste post ou em outros. Mas isso acontece por um motivo simples: é que não é possível, dada a força do personagem central, o vampiro, qualquer outro se sobrepor a ele. Gary Oldman, de resto, como Drácula, está excelente no papel, assim como Winona Ryder no papel da amada Mina Harker. O que, de resto, não é nenhuma novidade, já que Coppola é um dos maiores diretores de ator do cinema.

 Leia também, da série Grandes Atores:




sábado, 8 de outubro de 2016

Grandes atores (5): Johnny Depp



No mesmo filme, dois personagens: soldado e travesti

Johnny Depp é um ator que enriquece qualquer filme. Ou melhor, é um ator que pode fazer com que um filme medíocre ganhe vida por sua simples presença. No filme Antes do Anoitecer (2000, direção de Julian Schnabel), que não é medíocre, mas é um hollywoodiano cheio de clichês, Depp dá uma mostra do que pode fazer com a arte dramática.

No filme, Javier Bardem interpreta o escritor cubano Reinaldo Arenas, que era gay e viveu agruras no regime comunista de Fidel Castro. Johnny Depp, neste filme, interpreta dois personagens completamente antagônicos: o travesti Bon Bon e um militar tipicamente sul-americano, o  tenente Victor.

Depp não é um ator do tipo que interpreta sempre a si mesmo, característica de vários atores listados entre os grandes, como é o caso de Robert De Niro. Essa característica não necessariamente desqualifica um ator, mas às vezes cansa. Depp não é desse tipo, ele é um camaleão.

O filme que para mim é seu auge é Dead Man (1995, direção de Jim Jarmusch). Não apenas por sua atuação magistral na obra, em que faz uma espécie de reencarnação do poeta William Blake (são várias as interpretações que se podem fazer desse filme, construído sob densa poética), mas pelo filme em si, na minha opinião o melhor de Jarmusch, com a excepcional trilha sonora de Neil Young que é parte intrínseca ao filme.

Em Dead Man, a transformação do personagem William Blake se processa no desenvolvimento da história.

O inocente e tímido caipira que atravessa os Estados Unidos em busca de emprego na distante cidade de Machine...




... se torna o temível e frio Dead Man...




Depp adora fantasia. Sua parceria com o desenhista e diretor Tim Burton é uma das mais bem-sucedidas do cinema contemporâneo. Sob a direção de Burton, Depp atuou em Edward Mãos de Tesoura (1990), A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, (1999), A Fantástica Fábrica de Chocolate (2005) e Alice no País das Maravilhas, ou Tim Burton's Alice in Wonderland (2010).

Fora o western poético Dead Man, Depp atuou em inúmeros filmes de vários gêneros. No gênero máfia, por exemplo, fez Donnie Brasco (1997, direção de Mike Newell).

Embora não seja um gênero de filme que eu pare para assistir, na franquia Piratas do Caribe, como o capitão Jack Sparrow, Depp dá outro show de atuação, fazendo uma espécie de anti-herói cômico com trejeitos gay.

É um ator extremamente expressivo. Sua face muda de acordo com o personagem ou a cena. Para mim é uma pena que ele dedique tanto tempo a fazer os filmes de fantasia com Tim Burton ou Piratas. Poderia fazer coisas mais interessantes. Mas o ator parece que se apegou a esse gênero de cinema e a essa forma de ganhar dinheiro.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Em minha cidade há um rio



Water Lilies and Japanese Bridge (Claude Monet)


Em minha cidade há um rio de pequeno porte onde pescava e nadava quando adolescente.
Hoje o rio está podre devido ao crescimento urbano lançando esgoto em suas águas.

Às vezes ele revive, em ocasião de grandes chuvas, ao inundar e invadir suas margens e ruas com água bastante para limpar a atual podridão.

Nas pescarias de garoto meu sonho nunca realizado era pescar um grande piau, peixe raro e bonito que pouco aparecia nas águas de Mimoso do Sul. Eis que tempos depois, já adulto, fui de novo pescar em nosso rio com meu filho Frederico ainda criança de uns 9 anos.

Levei uma bacia em que pretendia colocar vivos e nadando os peixes pescados, mais para divertir Frederico.

Eis que, surpreendentemente, pesquei o tal piau sonhado. Era grande e lindo, nunca antes visto desse tamanho, o bastante para compensar meus frustrados desejos de adolescente.

Com todo o cuidado, tirei o peixe do anzol. Levei para a bacia, onde ele permaneceu vivo e hábil, admirado por nós.

Voltei a pescar, orgulhoso, ainda sem bem saber o que fazer com o piau...

...se o levava para casa, campeão exibindo a meus irmãos esse meu fruto da pescaria conquistado ou se retornava o peixe para as águas do rio.

Frederico resolveu o impasse. Com seus nove anos de vida nascente, ao me perceber distraído de volta à pescaria, pegou o piau com suas pequenas mãos e, quando vi, lá estava o belo peixe de novo nadando vivinho em seu reino fluvial, salvo e livre, restando-me, em casa, contar prosa, numa conversa de pescador sem provas... foi o que aconteceu e o que fiz...

...hoje certo de que desde então meu filho se preparava para ser médico, pois é o que é, salvando vidas.

domingo, 18 de setembro de 2016

Os rios são lindos, mas são traiçoeiros e matam


"Viver é muito perigoso"
(Riobaldo - Guimarães Rosa, em 
Grande Sertão: Veredas)



O rio São Francisco: belo e traiçoeiro, como todos os rios

A trágica morte do ator Domingos Montagner no rio São Francisco me fez pensar em duas coisas. Uma diz respeito à condição humana na sua relação com a natureza. A outra tem a ver com uma experiência pessoal.

A condição humana
Como diz povo do interior, você nunca entra no mesmo rio duas vezes. Um rio muda. Ontem ele era um, hoje é outro. A correnteza, os galhos, as pedras e o acaso se aliam numa espécie de complô da natureza contra o qual o ego, nossa teimosia em dominar a natureza, não pode nada. O ser humano sempre terá a impressão de que a natureza está sob seu domínio, mas não está. Não existe nada mais traiçoeiro do que as águas dos rios.

Lamento pela morte de Montagner, que, pelos relatos, era uma pessoa bacana. Mas a verdade é que os rios matam. Não se esqueça disso.

Uma experiência pessoal
Tive uma experiência com rio que poderia ter me custado muito caro. Estávamos na cidade de Barra Bonita, à beira do rio Tietê, onde você pode nadar (pelo menos era assim há uns dez anos). Havia uma pequena ponte de madeira de onde os meninos mergulhavam no rio, numa algazarra alegre típica de criança.

Vendo aquilo, decidi ir até a pontezinha e também dar um mergulho. Não era uma ponte de uma margem a outra, claro, porque o Tietê é bastante largo. Era uma espécie de pinguela ligando dois braços de terra. A altura da ponte de madeira às águas do rio era bem pequena, uns dois metros apenas. Animado, cheguei à ponte onde havia vários meninos de 12 a 15 anos do lado direito. Do lado esquerdo, célere, quase imediatamente saltei pra mergulhar. Nesse momento, no lapso de uns dois segundos entre o salto e o mergulho, eu ouço a voz de um menino dizendo: 

– Aí nããããããoo!!

A frase bateu diretamente no meu corpo. Num reflexo, eu fiz o que se pode chamar de uma arremetida (como se diz na aviação), e ao invés de mergulhar estiquei o máximo que pude os braços para cima e entrei na água de barriga. 

Ao voltar do mergulho abortado, dentro do rio, um rapaz de uns 16 anos nadou até mim e perguntou preocupado:

– Tudo bem, véio? 

– Tudo – respondi. 

É que eu tinha saltado justamente do lado da ponte em que era muito raso e cheio de pedras, tipo a um metro ou menos da superfície. Não fosse aquela vozinha de criança ("Aí nããããããoo!"), eu poderia ter quebrado a mão ou os braços, a cabeça, a coluna cervical ou mesmo ter morrido. Por sorte, aquele menino agiu como um anjo da guarda.

Por isso, eu sempre digo. Cuidado com o rio, se você não o conhece. E mesmo se pensa que conhece.