domingo, 6 de agosto de 2017

Pequena crônica sobre xadrez e passarinhos


Para Gabriel


Eu tinha 7 anos. Minha mãe, a Leila, me levava e buscava num certo ponto onde o ônibus escolar me pegava e deixava. Eu era muito magrinho e relativamente pacífico -- mas era de escorpião. Por ser magrinho, franzino, os moleques vinham pra cima de mim na escola, e eu era meio "arregão". (A escola é a primeira grande prova a que a civilização nos submete.)

Tinha um menino (chamava-se Marcos) que encanava de me dar uns tapas, e eu não reagia. Minha mãe via.

Um dia, minha mãe, indignada, disse:

- Eduardo, se você apanhar desse menino mais uma vez, você vai apanhar dele e de mim.

Nunca vou esquecer essa lição muito valiosa que dona Leila me deu. Ela estava me ensinando, ela queria dizer que eu tinha que me defender, senão eu estava morto. 

Desde aquele dia, entendi que, neste mundo, ou você se defende e reage, ou os caras montam em você. Aí, então, eu passei a não mais tomar a primeira porrada. 

Quando via que uma briga era inevitável (o que procurava evitar ao máximo), quando eu via que ia apanhar, eu não esperava e dava a primeira porrada, antes do meu oponente. Eu era rápido, pegava ele de surpresa e saía em vantagem. E assim foi. Os outros, fisicamente mais fortes, passaram a me respeitar. Minimamente, porque, afinal, eu continuava magrinho e não tinha muita chance.

Essa estratégia do ataque súbito passou a ser a melhor defesa que eu tinha (eu que era magrinho, mas ágil) diante de um mundo selvagem em que os moleques matavam passarinhos e batiam nos outros moleques.

Mais tarde tomei gosto por jogar xadrez, e meu ídolo era o Garry Kasparov. Um gênio, cuja estratégia era sempre o ataque. 

Eu não matava passarinhos, e ver os guris matarem me deixava indignado.

sábado, 29 de julho de 2017

Milton Leite: "Lula foi o melhor presidente da República que o Brasil já teve"



Para jornalista do SporTV, Michel Temer é "golpista" e "traidor"



Reprodução/Uol


Interessante a entrevista do jornalista e narrador Milton Leite, do SporTV, ao Uol. Milton é atualmente, na minha opinião, o melhor narrador de futebol da TV (essa questão do narrador renderia um post à parte, mas não tenho tempo para isso agora).

É que, de Milton Leite, por ser funcionário do SporTV, e portanto da Globo, não se esperaria uma entrevista em que falasse de política com tanta naturalidade como falou ao Uol. Eu li a edição do Brasil247. A original do Uol é tão editorializada que me cansou. É mais gráfica do que textual, e isso me incomoda.

Na entrevista, Milton diz que o Brasil é hoje governado por uma quadrilha. "Porque não houve crime para o impeachment (de Dilma). Acho que estamos vivendo uma fase lamentável. A gente tem uma quadrilha no poder. Tem reformas absurdas sendo feitas para tirar direitos trabalhistas, de Previdência. Estamos vivendo um dos piores momentos da história porque, diferentemente da ditadura, que foi militar e violenta do ponto de vista físico, de constrangimento e censura, agora estamos em um estado de exceção, praticamente com a permissão da Justiça”, disse.

Uma passagem da entrevista que chama a atenção é o que o jornalista tem a dizer sobre o ex-presidente Lula: "Eu acho que o Lula foi o melhor presidente da República que o Brasil já teve. Conseguiu tirar tanta gente da pobreza. Mas acho também que ele cometeu erros inaceitáveis para quem vinha de um partida popular trabalhista como ele vinha".

Sobre Michel Temer: "Esse é golpista. É traidor porque fazia parte da chapa da Dilma. Isso não dá direito de não só derrubar a Dilma, como fazer o contrário do que eles haviam se proposto a fazer. Então, esse é um político pelo qual eu não tenho o menor respeito".

E sobre Sérgio Moro, o príncipe de Curitiba: "É um juiz que ficou embevecido com o poder, com o sucesso e com a popularidade. É um cara que tem cometido uma série de arbitrariedades".

Como eu disse, a edição do Uol é editorializada (e certamente não por acaso). Então fica difícil saber por essa edição o que o Milton Leite considera "erros inaceitáveis" de Lula. Mas até eu (apesar do inconformismo de amigos próximos) tenho críticas não muito palatáveis ao Lula.

Mas, enfim, fica o registro. Registro que tem a ver com o fato de, em alguns momentos, vendo as narrações de Milton Leite, eu me pegar perguntando "mas o que será que o Milton pensa de política?". Algumas respostas ele deu nessa entrevista.

Acho interessante observar o seguinte: nem Juca Kfouri, nem José Trajano, dois dos poucos jornalistas da área esportiva que são muito respeitáveis -- que não escondem nada, nem puxam o saco de ninguém --, disseram (que eu saiba) essa frase: "Lula foi o melhor presidente da República que o Brasil já teve". Para minha surpresa, Milton Leite disse.

Abaixo seguem os links com a edição do Brasil247 e a original do Uol:


A edição original do Uol

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Dez minutos e meio com Marco Aurélio Garcia



Foto: Eduardo Maretti

A morte transforma as pessoas, na imprensa, em um título e alguns atributos. O intelectual Marco Aurélio Garcia (1941-2017), que morreu ontem, se transformou em "ex-assessor especial de Lula e Dilma". É só o que as manchetes anunciam.

O único encontro pessoal que tive com Marco Aurélio Garcia, quando pude conversar com ele em particular (e fiz a foto que ilustra este post), foi há apenas dois meses, em rápida entrevista de exatos 10 minutos e 33 segundos para a RBA, antes de um encontro reservado que ele teria com alguns jornalistas e ativistas, do qual não participei porque ainda tinha de escrever a matéria (que está aqui).

O papo foi de certa forma frustrante, já que ele era uma figura de pensamento amplo e os poucos dez minutos e meio eram claramente insuficientes para uma entrevista satisfatória, mas era o tempo que tínhamos acordado, para não atrasar o debate para o qual ele se dirigira.

Ele não falava sobre conjuntura de maneira direta e suas respostas não eram fáceis. Como era historiador, precisava construir um panorama e estabelecer inúmeras relações entre os fatos políticos e históricos para responder a uma pergunta sobre a crise política ou o que poderíamos esperar do atual cenário obscuro do país, por exemplo.

O respeito que Marco Aurélio inspirava era visível quando havia reuniões do PT. Suas aparições -- que não eram comuns, mas se restringiam a eventos importantes do partido -- eram motivo de euforia: você via alguns repórteres da grande imprensa ávidos por algumas palavras que fossem de Marco Aurélio Garcia, os mesmos repórteres que dali a pouco escreveriam as reportagens sobre o mensalão ou, mais recentemente, sobre a Lava Jato, reportagens que obviamente alimentariam e alimentam até hoje as "provas" da força-tarefa. Afinal, algumas palavras dele poderiam dar brilho a qualquer reportagem, mesmo que mentirosa ou medíocre.

Os repórteres ávidos não são bobos. Afinal, Marco Aurélio era um dos principais quadros do PT, um dos que de fato não se deixaram vencer pelo apego ao poder.

Como um dos arquitetos da política externa de Lula e Dilma, ele foi dos que preferiram atuar mais nos bastidores e na construção do que sob os holofotes.

Talvez por isso, um dos maiores trunfos da "grande imprensa" em relação a ele foi ter conseguido flagrá-lo "fazendo um gesto obsceno enquanto assistia a um telejornal", o que foi exibido em manchetes como um troféu, já que era preciso de alguma forma "pegar" Marco Aurélio. Mas nunca pegaram.

Ele se manteve íntegro até o fim.

Segundo seu amigo Roberto Amaral, do velho PSB que já não existe, Marco Aurélio tinha planos. Diz Amaral, sobre o último encontro com ele, no artigo "Tributo a Marco Aurélio de Almeida Garcia":

"Estivemos juntos, pela última vez, há cerca de dois meses. Marco Aurélio, alegre, nos apresentou seu novo apartamento paulistano, da qual destacava, como salões nobres, sua cozinha-copa-sala de estar “montada como um bistrô”, dizia ele, e o espaço reservado para sua imensa e rica biblioteca que ainda não conseguira pôr em ordem. Eu lá estava, na companhia da cineasta e produtora Cláudia Furiati que desejava seus conselhos para um filme (que ainda pretende rodar) sobre a esquerda latino-americana. A visita começou com um belíssimo jantar, elaborado por ele enquanto degustávamos um majestoso vinho sacado de sua adega. A noite não tinha pressa. Terminamos esse encontro, que eu jamais pensei ser o último, ouvindo-o dissertar sobre o plano de seu livro de memórias. O infarto traiçoeiro nos proibiu dispor de uma peça literária de grande porte, e de um depoimento crucial sobre a política brasileira de nossos dias."

Que vá em paz.

Moro e a F1000 de Lula, por Flavio Gomes






Por Flavio Gomes, no Facebook

O pavãozinho de Curitiba resolveu sequestrar os bens de Lula. Encontrou três apartamentos em São Bernardo do Campo e um terreno no Riacho Grande, além de um Ômega 2010 (não gosto do modelo) e uma Ranger 2012 (idem).

Na lista, não aparece o "bem" que resultou em sua condenação, o triplex no Guarujá. Nem sítio algum. O triplex foi confiscado na condenação, mas a Justiça ainda não achou o dono para comunicá-lo do fato -- detalhe irrelevante. Portanto, ele continua lá, onde sempre esteve, e vazio, como sempre esteve.

Não sei bem o que o magistrado pretende com esse confisco, além de dar sequência a uma perseguição abominável ao seu alvo predileto, seu objeto de onanismo, o combustível que lhe faz levantar todos os dias pela manhã para dar o nó na gravata preta sobre a camisa idem.

Mas me chamou a atenção o desprezo por um dos veículos do ex-presidente, que como chefe do maior esquema de corrupção da história do planeta conseguiu amealhar patrimônio decididamente invejável: além de três apês e um terreno no ABC, um incrível Ômega, uma possante Ranger e uma... INACREDITÁVEL PICAPE FORD F1000 1984!!!!

Caralho, uma F1000! E 1984! DIESEL, PORRA!!!! IGUAL A ESSA AÍ EMBAIXO!!!!

Não sei o estado dela, porém. Tomara que esteja linda como essa da foto que achei na internet.

De fato, Lula roubou muito. É notória a preferência, na história dos grandes larápios de dinheiro público do planeta, por apês em Bernô e terrenos no Riacho Grande, assim como por caminhonetes usadas.

Aliás, queria dizer uma coisa. Esse negócio de avião, helicóptero, casa de 20 mil metros nos Jardins (com muros imaculados e IPTU sonegado), mansão em Campos do Jordão (com terreno invadido para colocar o gerador), apartamento em Miami (não declarado), estúdio em Paris, cobertura na Vila Olímpia, contas na Suíça, joias, Porsches, Ferraris, Lamborghinis, iates, lanchas... Sério, alguém acha que isso pode ser fruto de dinheiro sujo? Isso é coisa de jeca, mesmo, de novo-rico que curte um Romero Britto, sua arte.

Roubalheira de gente grande resulta em uma F1000 1984, que o pavãozinho de Curitiba, inclusive, decidiu não confiscar. No seu despacho de sexta-feira, que veio à tona hoje, está lá, com todas as letras: "A constrição do veículo Ford F1000, de 1984, indefiro pela antiguidade do veículo, sem valor representativo".

Gostaria de me ater a este rasgo de generosidade do togado do rosto quadrado, uma vez que é área na qual milito, a dos automóveis e afins.

COMO ASSIM, UMA F1000 NÃO TEM VALOR REPRESENTATIVO? DE QUE PLANETA VEIO ESSE CIDADÃO? COMO PODE DIZER ISSO DE UM CLÁSSICO DA FORD, QUE VEIO PARA DESBANCAR A D10 DA CHEVROLET E FEZ DAS PICAPES UM SONHO DE CONSUMO DOS JOVENS URBANOS, TIRANDO-AS DAS ESTRADAS POEIRENTAS DO BRASIL?

Nota-se que o meritíssimo não entende um caralho de carro, entre outras coisas.


sexta-feira, 7 de julho de 2017

O Brasil finalmente é um "anão diplomático"



Foto: Agência Brasil

Em 2014, quando Dilma Rousseff chamou para consultas seu embaixador em Tel Aviv, a diplomacia israelense disse que o Brasil era um "anão diplomático", nas palavras do então porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, Yigal Palmor. O motivo da agressão era o fato de a presidente brasileira ter repudiado o uso desproporcional da força sionista contra os palestinos em Gaza. Três anos depois, o Brasil de fato é um "anão diplomático". Por ironia da história, justamente porque o governo Dilma foi derrubado por um golpe parlamentar que levou Temer ao poder e transformou o Brasil nesse anão.

Em termos de política externa, o governo Temer é pequeno, de fato um anão diplomático. Não apenas, mas principalmente, por sua política ideologizada e medíocre. Por exemplo ao liderar um boicote mesquinho contra a Venezuela, junto com a Argentina de Mauricio Macri, jogando no lixo a própria tradição do Itamaraty, que sempre primou pela diplomacia e o equilíbrio -- seja com Collor, Fernando Henrique, Lula ou Dilma.

"Temos uma posição, no caso da Venezuela, muito equivocada. Tudo para procurar se alinhar com a política exterior americana  (...)  Estamos manchando a imagem do Brasil com um país que respeita os outros", me disse o diplomata Samuel Pinheiro Guimarães em entrevista para a RBA.

Mas o governo é um "anão diplomático" na política externa não só pela ideologização, como também por protagonizar episódios rocambolescos, risíveis mesmo, na pessoa do próprio presidente da República. No final de junho, em visita oficial à Noruega, Temer chamou o rei norueguês Harald V de "rei da Suécia". Isso num evento oficial, dirigindo-se à primeira-ministra da Noruega, Erna Solberg, em pessoa.

Para não dizer que é perseguição de jornalista de esquerda, o incensado colunista Bernardo Mello Franco, da Folha de S. Paulo, anotou (em 23 de junho): "A viagem de Michel Temer à Europa produziu um vexame internacional. Enquanto o presidente passeava em Oslo, o governo da Noruega anunciou que cortará pela metade a ajuda ao Fundo Amazônia. O motivo é o fracasso do Brasil no combate ao desmatamento".

"Os jovens estão muito preocupados com a desmoralização do Estado brasileiro em nível internacional", disse Samuel Pinheiro Guimarães na entrevista acima citada, ao comentar o manifesto de diplomatas brasileiros em nome do "restabelecimento do pacto democrático" do país, após a violenta repressão às manifestações em Brasília no final de maio.

E assim caminha o Brasil na segunda década do século 21. 

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Míriam Leitão, Reinaldo Azevedo, Sheherazade: esquerda brasileira precisa deitar no divã




"Detesto as vítimas quando elas respeitam seus carrascos" (Sartre)


O Kiko Nogueira escreveu o que, em linhas mais fragmentadas próprias à rede social, eu escrevi em postagens efêmeras no Facebook. Por isso economizo o trabalho de construir um texto e reproduzo abaixo. A ideia é: por que setores da esquerda brasileira fazem papel tão subserviente? Por que tanta solidariedade a gente como Reinaldo Azevedo, Rachel Sheherazade e Míriam Leitão? Até o PT divulgou uma nota oficial sobre o caso do "ataque de violência verbal" contra a pobre jornalista da Globo! Na minha opinião, Freud explica. A esquerda brasileira precisa deitar no divã.


Por Kiko Nogueira, no DCM 

O caso do voo de Míriam Leitão jogou luz novamente sobre uma peculiaridade de certa esquerda brasileira: a solidariedade automática.

Imediatamente após a publicação da coluna da jornalista sobre um episódio de "violência verbal" de que teria sido vítima, perpetrada ao longo de mais de duas horas por "delegados petistas" e "representantes do partido", muita gente boa acorreu em sua defesa.

Foi covardia, canalhice, fascismo, machismo, intolerância, linchamento, estupidez, mata, esfola, desgraçados, assim não dá, é tudo igual, coitada da Míriam etc etc.

A questão é que Míriam mentiu.

A não ser que tenha na manga alguma evidência que não usou ainda — o que seria igualmente estranho —, os fatos simplesmente não ocorreram como ela contou depois de transcorridos dez dias.

Há pelo menos dois depoimentos de presentes a desmentindo em pontos chaves, além de um vídeo e da própria companhia aérea.

Toda a empatia a Míriam foi baseada em sua história manca. Seus defensores não se preocuparam em checar nada. Bastou enquadrar tudo num formato apriorístico e mandar bala.

Para ficar apenas num exemplo, o bom colunista Leonardo Sakamoto escreveu que "rasgamos o pacto que os membros da sociedade fizeram entre si para poderem conviver (minimamente) em harmonia".

"É um Fla-Flu, um nós contra eles cego, que utiliza técnica de desumanização de quem participa do debate público, transformando pessoas em coisas descartáveis", diz. Etc.

Noves fora o fato de que Sakamoto comprou a versão da colunista do Globo na maior, é preciso lembrar que o clichê idiota do "Fla-Flu" já expirou a data de validade há décadas.

Um lado, o Fla, bate. O outro, o Flu, apanha. Republicanamente.

Num excelente artigo sobre a polarização, o professor Aldo Fornazieri, diretor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, anotou que "nas repúblicas democráticas bem constituídas não é o consenso, não é a paz dos cemitérios, não é a passividade que constroem bem estar e boas leis".

Essa é a hipocrisia nacional, aponta Fornazieri.

É evidente que não se advoga a porrada. Mas é preciso dar às coisas o nome que elas têm. 

Há uma certa noção equivocada de superioridade moral nessa esquerda, que acaba provocando reação desse tipo. A vaidade da falsa humildade. De quem se acha tão acima do adversário que o afaga, por mais criminoso que o outro seja. 

Quando Rachel Sheherazade foi "humilhada" por Silvio Santos, seu patrão e ídolo, a mesma grita se deu.

No dia seguinte, Sheherazade estava rindo das mulheres que a apoiaram incondicionalmente. Nossa colunista Nathalí Macedo comentou sobre essa sororidade.

Sheherazade e Míriam não precisam da sua imensurável bondade cristã porque têm as costas muito mais quentes que a sua e jogam o jogo.

"Detesto as vítimas quando elas respeitam seus carrascos", disse Sartre.

Míriam deseja denunciar o ódio que grassa no Brasil? Ódio mesmo? Ódio figadal?

Que tal, ao invés de falar de si mesma, apelando para seu passado contra a ditadura, meia dúzia de palavras sobre o fato de Sérgio Moro não absolver Marisa Letícia mesmo depois de morta? Sim: depois de morta.

Que tal um auto exame?

Se alguém merece desculpas, são os militantes retratados como uma turba ignóbil de stalinistas no texto — usarei um eufemismo — obscuro de Míriam Leitão, espancados à direita e à esquerda.

Monstros que cantaram "a verdade é dura, a rede Globo apoiou a ditadura".

Mas, com esses, ninguém gasta vela.


terça-feira, 6 de junho de 2017

Putin e Erdogan alertaram Dilma e Lula sobre manifestações de 2013, diz Fernando Haddad


"Tenho para mim que o impeachment de Dilma não ocorreria não fossem as Jornadas de Junho", diz ex-prefeito de São Paulo


Ainda bem que é Fernando Haddad quem fala, e não eu (quando falei que o início do golpe foram as manifestações de 2013, colegas e até amigos vieram pra cima de mim como se eu fosse um blasfemo).

O trecho abaixo é de Haddad publicado na Piauí, agora em junho.

"Durante os protestos de 2013 no Brasil, a percepção de alguns estudiosos da rede social já era de que as ações virtuais poderiam estar sendo patrocinadas. Não se falava ainda da Cambridge Analytica, empresa que, segundo relatos, atuou na eleição de Donald Trump, na votação do Brexit, entre outras, usando sofisticados modelos de data mining data analysis. Mas já naquela ocasião vi um estudo gráfico mostrando uma série de nós na teia de comunicação virtual, representativos de centros nervosos emissores de convocações para os atos. O que se percebia era uma movimentação na rede social com um padrão e um alcance que por geração espontânea dificilmente teria tido o êxito obtido. Bem mais tarde, eu soube que Putin e Erdogan (presidentes da Rússia e da Turquia) haviam telefonado pessoalmente para Dilma e Lula com o propósito de alertá-los sobre essa possibilidade."

A íntegra do texto de Haddad está aqui.

E, abaixo, o link de um artigo de F. William Engdahl, publicado logo após a reeleição de Dilma, em novembro de 2014, no qual o pesquisador chamou a atenção para uma coincidência envolvendo a visita do então vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, ao Brasil, em maio de 2013:

"Dilma Rousseff tinha uma taxa de popularidade de 70 por cento. Menos de duas semanas depois da visita de Biden ao Brasil, protestos em escala nacional convocados por um grupo bem organizado chamado 'Movimento Passe Livre', relativos a um aumento nominal de 10 por cento nas passagens de ônibus, levaram o país virtualmente a uma paralisação e se tornaram muito violentos. Os protestos ostentavam a marca de uma típica 'Revolução Colorida', ou desestabilização via Twitter, que parece seguir Biden por onde quer que ele se apresente. Em semanas, a popularidade de Rousseff caiu para 30 por cento."

O link com o artigo de Engdahl: BRICS’ Brazil President Next Washington Target

Acho que não precisa desenhar.

O único comentário que me ocorre: como podem Lula, Dilma e seus assessores serem tão ingênuos, ou "republicanos", como preferiam dizer? Certamente não foram só Putin e Erdogan que  os alertaram. Mas quantos tenham sido, foi inútil.

sábado, 3 de junho de 2017

O caso Andreas von Richthofen e a esquerda brasileira


"A construção do pós-guerra foi uma coisa fantástica. Daquela tragédia saímos para um momento em que foi possível preservar a liberdade melhorando as condições da igualdade. Ser de esquerda quer dizer isso, queremos liberdade com igualdade. Não queremos tropelias e totalitarismo" (Luiz Gonzaga Belluzzo - Unicamp/31 de maio de 2017).



Os irmãos Richthofen, Andreas e Suzane (Foto: Reprodução)

Ao escrever estas curtas impressões, esclareço que minha preocupação, aqui, não tem a ver com filtros do senso comum. A premissa é que escrevo pensando em algo "más allá", mas sempre dentro da esquerda brasileira.

Dito isso, quero dizer que a esquerda brasileira tem que evoluir muito para ser transformadora. Penso no mestre Pier Paolo Pasolini.

Uso para esta modesta análise impressionista o caso Andreas von Richthofen. Como era de se esperar, após vir a público a informação de que Andreas -- o irmão de Suzane, condenada por ser a autora intelectual do assassinato dos pais em 2002 -- foi encontrado em condições precárias e com "sinais de uso de drogas", não tardaram as abordagens simplistas e, eu diria, espiritual e filosoficamente limítrofes, sobre o caso, por parte da nossa nobre esquerda.

Uma dessas abordagens, típicas, diz o seguinte: "é fácil ter compaixão e empatia pelo Andreas. Bem nascido, loirinho, frequentou os melhores colégios e vivemos, todos, a sua dor. Vimos a destruição da sua família. Solidarizamos a dor dele, quando teve os pais assassinados. Difícil mesmo é enxergar humanidade e ter compaixão e empatia com o viciado que parece vindo de outro mundo. Que é analfabeto. Que sempre morou na rua e que já passou pela cadeia algumas vezes". 

É o que diz Marcelo Feller, advogado criminal.

Data venia, é o mesmo tipo de argumentação que encara um atentado como o de Paris em 2015, ou o de Manchester, no mês passado, com afirmações do tipo: é fácil lamentar as mortes de Paris, mas difícil mesmo é enxergar a humanidade dos assassinados nas periferias de São Paulo etc etc etc.

É como se a pessoa "bem nascida, loirinha", abençoada por ter frequentado "os melhores colégios", fosse destituída de humanidade. É um argumento filosoficamente indefensável. Um argumento que, no limite, justificaria os atentados de Paris de 2015.

Ambos, Andreas e o menino pobre da periferia, merecem a mesma compaixão. A dor de ambos dói igualmente, na alma. Mas na alma deles. A dor é espiritual e física, e existencial. 

Se ser humanista é ser antiquado, eu sou antiquado. A questão de Andreas estar ou não na Cracolândia não importa.

A esquerda, da qual eu faço parte, precisa ir além do materialismo e do determinismo.

É óbvio ululante, como diria Nelson Rodrigues, que o país, e particularmente São Paulo, estão submetidos a políticas higienistas e fascistas. Voltamos décadas no tempo. Sofremos um golpe (que, aliás, foi conseguido de maneira tão fácil que chega a ser deprimente ser brasileiro na atual conjuntura - mas isso é outro assunto).

E não é isso que discuto aqui. Aqui, parto do pressuposto de que o fascismo é incabível no século XXI. Mas, repito: a esquerda brasileira precisa ir além do materialismo e do determinismo.

A esquerda brasileira deveria ler Nietzsche, Dostoiévski, Sartre e Baudelaire, para interpretar a história sob perspectivas menos materialistas e deterministas. Perspectivas que possam superar as abordagens fáceis. Entender o sofrimento de Raskólnikov (o protagonista de Crime e Castigo, de Dostoiévski) da mesma maneira que entende o sofrimento dos perseguidos pelo higienismo fascista de João Doria. São dimensões diferentes. Mas dimensões que precisam ser compreendidas como paralelas. 

A esquerda brasileira precisa se desvencilhar de seus moralismos e ir "más allá", se quiser transformar este pobre Brasil em algo digno de ser chamado de uma nação.

É só isso. Data venia.

domingo, 28 de maio de 2017

Os bichos, George Orwell e o Brasil dos ruralistas


Ainda estamos longe dos porcos de George Orwell


Imagens: Reprodução (esq.) e CHARLESJSHARP / CC 2.0 / WIKIMEDIA


Por Paulo Maretti 

Em A Revolução dos Bichos, George Orwell retrata não a corrupção e o autoritarismo do poder na Rússia pós-revolução, mas o espírito de sadismo crônico que o homem carrega irremediavelmente em sua alma. Orwell personifica os bichos e os transforma em gente, ou, pra quem preferir, espelha em porcos a ganância sem freios e quase sem leis que nos contorna como num desenho.

Pois bem. O problema agora é um Projeto de Lei do deputado federal Valdir Colatto, do PMDB de Santa Catarina e da bancada ruralista (link abaixo), que pretende simplesmente liberar a caça a animais silvestres da fauna brasileira, entre eles a onça pintada, uma das mais colossais belezas da natureza na Terra, que Maias, Incas e Astecas viam como um deus.

Mas o homem branco brasileiro do século XXI, da democracia enformada, da fome psicótica de lucro e da sede seca por poder enxerga como alvo para vender a pele.

Li num site semanas atrás que as baratas vivem, segundo pesquisas científicas, num coletivo solidário, que toma decisões, sempre, em benefício de todos os componentes do grupo.

Ainda estamos longe dos porcos de George Orwell.

***

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Jobim pode ser o curinga e o Palácio do Planalto seu destino?


José Cruz/ABr

Desde o processo do golpe até seu desfecho e mesmo depois, com esse governo de impostores, eu vinha dizendo a amigos mais próximos que meu relativo otimismo se baseava na tradição brasileira de conciliação.

Por causa dessa tradição, acreditava que em algum momento os representantes dos setores civilizados da política brasileira acabariam entrando num acordo para, pelo menos, salvar a democracia e a Constituição.

Ontem, conversando com o velho e bom socialista Roberto Amaral para uma matéria, ele fez a seguinte consideração sobre o cenário sombrio da crise brasileira, agravada com a tal lista do Fachin: “A tradição da política brasileira, lamentavelmente, é sempre a conciliação. Podemos estar diante de uma grande crise ou de uma grande composição. Nenhuma das duas hipóteses interessa à República”.

O professor, como eu o chamo, ex-presidente do PSB, falou sobre as articulações que, pelo que se especula, estariam sendo conduzidas por Nelson Jobim, ex-ministro da Defesa (de Lula), da Justiça (de FHC) e ex-presidente  do STF. O que não é pouca coisa para uma biografia...

No fim de março, Jobim saiu-se com uma pregação de paz, propondo que “os personagens de oposição e os da situação” entrem num acordo para evitar o que ele chamou de “um Trump caboclo”. Jobim também fez enfática defesa de Lula e condenou veementemente a perseguição contra o ex-presidente para evitar que ele se candidate e, possivelmente, venha a ser eleito. "Se nós o proibirmos de ser candidato, estamos fazendo a mesma coisa que fizeram os militares. Contra nós!”, exclamou.

Disse ainda: "Qualquer tipo de linha de proibição [contra a candidatura de Lula], nós aguçamos a radicalização. Nós podemos impedir, agora, que ele seja candidato? Por quê? Porque temos medo de que seja eleito?"

O problema é que a criminalização da política está destruindo o país, suas lideranças políticas, a economia, a Petrobras, que está sendo retalhada e seu patrimônio entregue às petroleiras estrangeiras. O pré-sal, tesouro de valoro incalculável, vendido a preço de banana. Apesar da indignação de setores esclarecidos da sociedade, a sanha punitivista e denuncista levou o país a um patamar tão baixo que é cabível perguntar se existe volta, se há possibilidade de isto aqui um dia poder ser chamado da nação.

Hoje, “o sistema político brasileiro está absolutamente prisioneiro do poder Judiciário e do Ministério Público", disse o deputado Wadih Damous na mesma matéria acima citada. "Eles dão as cartas, são os senhores do tempo (...) Ao manipular o tempo, se manipula a política.”

E, como nota o cientista político Vitor Marchetti, da Universidade Federal do ABC, a lista de Fachin é o clímax de um processo que acaba com as lideranças políticas do país. “E liderança não é uma coisa que se produz em cada esquina, a toda hora. A lista abre caminho a uma nova era da democracia, muito mais sujeita ao voluntarismo, amadorismo e aventureiros.”

Nesse cenário de terra devastada, não sei se ainda cabe algum otimismo. Mas é possível arriscar a especular que Nelson Jobim pode ser o nome da conciliação. Ele pode ser o curinga e o Palácio do Planalto o seu destino.

Leia também:

(de 18/junho/2017): Roberto Amaral: país está diante de golpe dentro do golpe, mas ruas apontam para democracia


Post publicado originalmente em 15/04/2017 (15:44)
Atualizado em 19/05/2017

sábado, 13 de maio de 2017

Um sábio deixou a terra


Marcos Santos/USP Imagens


Por Ulisses Capozzoli, no Facebook – via Bem Blogado


O país que não é pródigo em singularidades perde hoje Antonio Candido.

Dele, vou me lembrar sempre que partilhamos uma fatia de bolo de fubá.

Num café distante, num encontro que não me lembro mais sobre o que.

Ofereci a ele, que me pareceu interessado, a única fatia sobre a mesa.

E ele me propôs, com a generosidade & afeto que marcaram toda sua longa vida:

─ Vamos dividir?

Eu ainda insisti, numa atitude que me pareceu acertada:

─ O senhor pode se servir, por favor… ─ E ele:

─ Não. Vamos dividir, vamos dividir entre nós dois…

Aceitei, deixando que ele fizesse a divisão.

Foi o que ele fez, com um sorriso delicado, que me pareceu prazeroso.

A partilha. O ato que marcou toda sua longa vida.

A partilha do essencial para os humanos:

cultura, afeto, solidariedade &, claro, a inteligência refinada.

Além do pão, naquela tarde distante, uma fatia de bolo de fubá.

Marcel Proust, com sua escrita que desce ao nível subatômico, & que antecipou a existência de quarks como constituintes elementares da matéria, retirou toda sua enorme obra do perfume de uma “Madeleine”.

Eu, que cheguei ao mundo num pontinho das Minas Gerais, devo fidelidade a uma fatia de bolo de fubá.

Como forma de expressar gratidão a esse homem “imprudentemente poético”, num empréstimo feito junto a Walter Hugo Mãe.

Esse homem delicado, mas seguro como árvore de pau-ferro, o autor de “Parceiros do rio bonito”, investigação do caipira paulista & a transformação de sua realidade.

Antônio Candido, que nasceu no Rio de Janeiro, então a capital do Brasil.

Com abrangência fora de compreensão do que agora é a realidade.

Investigando as raízes de São Paulo.

Rio de Janeiro, Minas Gerais & São Paulo, durante longo tempo, uma única província.

Que o ouro uniu & separou.

Minas Gerais, uma invenção das bandeiras paulistas.

Uma ruptura dramática a partir da Guerra dos Emboabas.

Coisa que não interessa a mais ninguém.

Mas, que marca a ferro & fogo a realidade mais dura que se vive agora.

Um ancestral de Eduardo Cunha, o igualmente camaleão & corrupto, Manuel Nunes Viana.

Antonio Candido, em sua passagem, aparece identificado como “sociólogo”.

Mas sociologia é uma carga pontual.

Antonio Candido foi um campo magnético inteiro, atuando sobre um vasto
território da cultura nacional.

Já tinha certa idade, quanto partilhamos nossa fatia de bolo de milho.

Uma das delícias das Gerais, deixadas por lá pela “gente paulista”.

Tinha ele aquela auréola de luz, que só um observador atento percebe.

Antonio Candido parte dessa terra num momento de enorme desconforto.
& nos deixa com um sentimento de orfandade abissal…


quinta-feira, 11 de maio de 2017

O simbolismo da presença de Dilma em Curitiba



HENRIQUE FONTANA
Dilma Rousseff e Lula no aeroporto de Curitiba, com Vagner Freitas da CUT

Dilma Rousseff foi uma figura marcante na noite deste 10 de maio de 2017 em Curitiba, apesar de relegada a um óbvio e natural segundo plano. Não pelo que disse, mas por sua presença até certo ponto surpreendente. Por ter sido a primeira a discursar no ato, depois do depoimento de Lula ao juiz Sérgio Moro na (a partir de hoje) mundialmente famosa 13ª Vara Federal, a chamada República de Curitiba.

A presença de Dilma no evento teve um caráter absolutamente simbólico. Em que pese seus notórios erros políticos (e até por eles), que seria repetitivo enumerar aqui, Dilma é quem foi derrubada pela articulação da qual Michel Temer é apenas uma marionete. Dilma cometeu erros, e não foram poucos, mas ela não pode ser, sozinha, responsabilizada pelo golpe. O seu grande erro foi o início do segundo mandato, mas aí as coisas já estavam meio difíceis (sim, inclusive por erros dela). O ciclo das commodities, que empurraram os dois mandatos de Lula, tinha acabado. E o acordo com o PMDB não foi ela quem fechou, anos antes.

A articulação que levou a marionete Temer ao poder, como se sabe, envolve interesses globais: a destruição do Brasil como nação, da Petrobras (como possibilidade de nação), uma das maiores companhias de petróleo do mundo, colocada na bacia das almas por interesses materializados pela Lava Jato, com seu pretexto de combater a corrupção.

"Tenho certeza que o país não vai continuar  por esse caminho de golpe atrás de golpe", disse Dilma em Curitiba. Os mais exigentes poderiam dizer que faltou uma preposição na frase de Dilma. Sim, faltou a preposição. Mas a frase, aparentemente simples, é carregada de muitas verdades intrínsecas. Porque estamos vendo, desde o ano passado, a comprovação de que Temer não passa mesmo de uma marionete manipulada pelas gigantescas corporações dos Estados Unidos da América, a Roma contemporânea.

E só uma nação mobilizada pode conter a Roma contemporânea. Não depende só de Lula ou de Dilma, nem de ambos juntos. O Brasil precisa ser uma nação.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Por que Sérgio Moro pediu a apoiadores para não irem a Curitiba dia 10?


Quais os motivos que levaram o magistrado da 13ª Vara Federal de Curitiba a pedir a apoiadores e simpatizantes, pelo Facebook (veja vídeo abaixo), para não irem a Curitiba nesta quarta-feira (10), quando está prevista uma grande manifestação a favor de Lula na capital do Paraná, também conhecida como República de Curitiba?

Perguntei a opinião a algumas pessoas. Eis as respostas:



Marco Ferreira, artista plástico (Brasília)  - Isso não merece comentário que não seja de condenação. Ele, Moro, é prefeito de Curitiba? 

Roseli Costa, professora (São Paulo) - O juiz Sérgio Moro antevê um vexame na defesa de seu já abalado "sucesso". Prevê um número risível de adeptos da "Farsa-Jato" perante o grande apoio a Lula. Antecipa-se, dizendo que não é para ir e depois, diante do vazio de apoiadores, explicar: "Fui eu quem pediu!". Também com essa declaração posa de cidadão do bem, que não quer confusões, bem como divide as já fragmentadas opiniões dos brasileiros e causa manchetes na mídia golpista, tal como esta: "Depoimento de Lula gera toque de recolher". Tais palavras tentam ainda mais contrapor o "bom moço" Sergio Moro X o "culpado de tudo" Lula...

Tatiana Fernández, professora (Brasília) - A primeira ideia que a mensagem traz é a menos importante. Ele parte da suposição de que há muita gente que apoia esse processo. E pode haver, desde que ´"muita" tenha uma relação com alguma quantidade de alguma coisa. Ele quer dizer então que há muita gente que o apoia, e que ele prefere que não apareçam. As razões para não aparecer que ele dá são mais preocupantes. Ele pede que não apareçam para não dar confusão, para ninguém sair machucado. Parte da imagem de enfrentamento e deixa no ar a ideia de que os apoiadores do ex-presidente Lula são violentos. Ou que são muitos? Mas todos sabem que manifestantes fascistas, que o apoiam, jamais pedem paz e amor. Ele pode estar com medo deles estragarem mais ainda a sua imagem. O que fica cada dia mais evidente é que o apoio à Lava Jato foi artificialmente criado com robots de media social e marketing pago, como os outdoords em Curitiba. Não há gente atrás disso, há corporações. 

Carmem Machado Luz, editora de arte (São Paulo) - Outro dia li ou ouvi no rádio que um juiz soltou os dois policiais que foram filmados executando dois caras rendidos e algemados alegando que foi pelo "clamor popular". Como assim? Isso é justiça ou justiçamento? Além de terem sido filmados (prova) esses policiais respondem por vários inquéritos de "auto de resistência" ou "resistência seguida de morte".
Desde que me entendo como um ser pensante não confio muito na Justiça, depois veio o conceito de que ela é feita pela elite para a elite. Só que nesse processo do Golpe alguns juízes estão extrapolando, além da conta, como esse excelentíssimo senhor Sérgio Moro que com sua fala nas redes sociais prova, mais uma vez, que tem um lado e, pelo que eu saiba, numa democracia, um juiz não pode ter lado nenhum e tem que julgar pelas provas e não por convicção. 

Paulo Maretti, revisor (São Paulo) - Acho que o embate entre a direita e a esquerda está se acirrando e ficando mais difícil pra eles depois da greve geral, das pesquisas apontando o favoritismo de Lula em 2018, e do fato de Lula estar se apoiando nisso pra rechear seu discurso contra as forças malignas deste país. Lula é uma figura poderosíssima, capaz de derrotar todo o aparato político, jurídico e midiático que favorece os golpistas. Tenho percebido que a direita brasileira é fascista mas medrosa. Está com medo não da pessoa do Lula, mas do mito Lula. Derrubar um mito é um tremendo desafio. Moro, além de querer aparecer como porta-voz e defensor leal da ordem e do progresso, pretende evitar um grande contingente de pessoas presentes no depoimento para não atrair holofotes. Quanto mais gente houver, mesmo que em apoio à temporada de caça ao presidente, maior terá de ser a cobertura da mídia, o que não convém aos propósitos golpistas de tornar os fatos o mais ocultos possível. Certamente não à toa Lula vai prestar depoimento dois dias depois das finais dos campeonatos estaduais de futebol em todo o país. O futebol, qualquer um sabe, sempre foi instrumento de manipulação das massas. Sérgio Moro é um pau mandado. É um juiz que apita um jogo de interesses contrários aos interesses dos trabalhadores e favoráveis ao grande capital. Boa enquete. Aproveitando o momento, grande abraço a todos.

José Arrabal, escritor (São Paulo) - A recente fala de Sérgio Moro não surpreende. É farsa midiática, expressão promocional de seu costumeiro espetáculo de ilegalidades processuais. Ele se faz de bom moço justiceiro, mas está ciente de que seus capangas fascistas vão se manifestar com o mesmo ódio e a mesma violência de sempre. Os intolerantes cartazes contra o presidente Lula, nas ruas de Curitiba, comprovam essa prepotência. Triste verdade também é que a Lava Jato de Moro cumpre seus seletivos propósitos políticos através de evidente desrespeito ao Direito, das normas Constitucionais e do Processo Penal. Com procedimentos corruptores da Lei, mantém perseguições pessoais obsessivas. Assim serve ao golpe de Estado e à manutenção dos atentados praticados contra a soberania nacional pelo governo ilegítimo de Michel Temer, que corrói as conquistas democráticas do passado, desqualifica os direitos trabalhistas, produz um quadro criminoso de desemprego na cidade e no campo, interrompe programas de atendimento social, reduz as oportunidades de educação da juventude e de modo perverso prejudica em especial as camadas mais pobres da população, enquanto concentra polpudos bens nas mãos dos poucos mais ricos, distribui as riquezas estratégicas do país às corporações estrangeiras e já principia a entregar a Amazônia para as  tropas do exército dos Estados Unidos. Triste sina, triste momento. Na sua hora e sua vez o povo organizado, mobilizado nas ruas, há de cuidar e dar melhor destino a tudo isso! Fora Temer!  

Alexandre Maretti, fotógrafo (São Paulo) - O bom moço falando, exemplo de ética. Os pregadores da ordem e progresso.

"Tudo que se quer evitar é alguma espécie de confusão e conflito." Pode ser que ele queira dizer exatamente o contrário,.. Tudo que queremos é confusão e conflito, mas que parta dos malditos comunistas. Curioso é que ele não se dirige a manifestantes de apoio ao Lula, mas somente aos que apoiam a Lava Jato. Há uma comitiva se preparando para esse dia e certamente haverá manifestações e não será só em Curitiba.

Ele deve saber disso.

É claro que há um complô. Novas pesquisas indicam que Lula pode voltar à presidência e pra isso a direita já está tomando providências, impedir novas eleições em 2018.  E como sabemos que os EUA conseguiram  manipular o sistema brasileiro, será difícil retomar o desenvolvimento, e esse processo retrógrado é muito profundo, mas sempre temos saída pras coisas.  Mas penso que o sistema embrionário deles está crescendo e num futuro bem próximo, se der tudo certo para eles (já está a meio caminho, embora o momento esteja meio indefinido e confuso), será implantado um sistema definitivo, mais ou menos parecido com a ditadura militar.  Se possível, o Lula não irá novamente ao poder se não tiver uma forte resistência. O Lula é a maior referência de esquerda e uma das mais carismáticas lideranças no Brasil e quem sabe do mundo. Não podemos perdê-lo agora.

A partir de quarta feira as manifestações podem aumentar, o apoio popular a Lula. As manifestações podem ficar mais intensas e aí o bicho vai pegar. Curitiba vai fechar quarta feira porque Moro quer?!! O Moro está com medo e pode precisar de reforços...



terça-feira, 2 de maio de 2017

Prisão preventiva de Dirceu, decretada por Moro, é revogada no Supremo



Foto: Eduardo Maretti


José Dirceu é a partir de hoje um ex-preso político, depois de decisão da 
Seguenda Turma do Supremo Tribunal Federal que, por 3 votos a 2, revogou sua prisão preventiva. Pela segunda vez, diga-se, pois já foi preso político na época da ditadura militar.

Em fevereiro de 2015, o jurista Celso Antonio Bandeira de Mello me disse, numa entrevista em que comentou o chamado mensalão: "Vou citar um caso paradigmático:  (o Supremo Tribunal Federal) condenou, não apenas o Genoino, mas o Dirceu de uma maneira absurda. E tão absurda que dois expoentes da direita, a saber, Ives Gandra da Silva Martins e depois Cláudio Lembo – que aliás é um excelente constitucionalista, um jurista de muito valor –, os dois disseram que a condenação do Dirceu foi sem provas. Foi absolutamente sem prova. Foi tão escandalosa que essas duas pessoas insuspeitíssimas se manifestaram nesse mesmo sentido".

De fato, ao proferir seu voto na Ação Penal 470 ("mensalão") a ministra Rosa Weber foi a autora de uma afirmação de causar perplexidade e que se tornou símbolo da perseguição a Dirceu: “Não tenho prova cabal contra Dirceu – mas vou condená-lo porque a literatura jurídica me permite”.

Hoje, o STF finalmente concedeu Habeas Corpus e revogou a prisão preventiva do ex-ministro, condenado pelo juiz Sérgio Moro no âmbito da operação Lava-Jato. Votaram pelo habeas corpus a favor de Dirceu os ministros Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski e Gilmar Mendes. Foram vencidos o relator, ministro Edson Fachin, e o ministro Celso de Mello, que negaram o pedido de soltura.

Zé Dirceu e Lula são, na minha opinião, os dois mais importantes articuladores e construtores do PT. Não é à toa que o ex-ministro da Casa Civil de Lula foi anulado da vida pública e tornado sinônimo de corrupção.

No final de março passado, em carta publicada pelo site Nocaute, do jornalista Fernando Morais, Dirceu escreve: "Moro não tem uma prova sequer de que eu tinha 'papel central' na Petrobras. Não existe nenhum empresário ou diretor da Petrobras à época que o afirme; não há um fato, uma licitação, um gerente, um funcionário, que justifique ou comprove tal disparate".

A prisão preventiva é considerada uma das mais violentas práticas da Lava Jato. “A partir do Sérgio Moro, a prisão preventivatornou-se a regra, e não a exceção. Vivemos num país punitivo, um país onde só a punição tem resposta”,  me disse o criminalista Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, um dos mais experientes do país, pouco tempo atrás.

As pessoas não têm ideia de que casos como o de Dirceu são muito mais graves do que supõem. Hoje é Dirceu, amanhã poderá ser você o preso sem prova "preventivamente". É contra esse estado de exceção que os mais importantes juristas do país vêm se insurgindo. Dirceu era um preso político. Aguardemos os próximos capítulos.

***

Leia também:


Na RBA
Para Bandeira de Mello, decisão do STF que liberta Dirceu é volta ao Estado de Direito

Neste blog (10 de outubro de 2012), por José Arrabal: A história vai mostrar quem é José Dirceu

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Belchior, a morte e o paradoxo midiático


Belchior é uma figura sem dúvida importante. Não vou me estender sobre isso (a importância ou não do artista) porque a superexposição do assunto Belchior/morte de Belchior se tornou uma histeria midiática tão grande, nas redes, que não há mais o que se possa acrescentar.

A questão é: Belchior voluntariamente se retirou faz tempo. Ele disse adeus a esse mundo de exposição e histeria, ao show business. Não quis mais saber dessa busca obsessiva por mitos e heróis que é a razão de ser da máquina de moer gente e sentimentos que é o showbiz.

É um paradoxo: apesar dessa atitude definitiva e irrevogável (que se pode traduzir como: "deixem-me em paz"), o mundo insiste na mitificação de Belchior (como de todos os mortos ilustres ou que um dia foram ilustres). Cada um a sua maneira, nas redes sociais, procura algum argumento próximo ou distante para justificar por que ele é um deus (com "d" minúsculo, claro, como diria Nietzsche).   

Mas Belchior, conforme suas letras, nunca quis ser herói nem deus. Só que é em herói e num efêmero deus pop post mortem que ele é transformado.

"Eu sou apenas um rapaz / Latino-Americano / Sem dinheiro no banco / Sem parentes importantes", escreveu o compositor.

Tempos depois de escrever isso, Belchior se retirou. Sumiu. E ninguém, ou quase ninguém (tampouco eu), notou sua falta. E depois morreu. E agora que ele morreu, aparecem as demagogias de jornalistas 5 estrelas e os sentimentalismos inconsoláveis, e as opiniões segundo as quais nada nem  ninguém foi tão grande quanto Belchior no universo terreno, nem Chico, nem Caetano, nem Rolling Stones ou Beatles.

Ora, creio que o próprio Belchior talvez achasse isso tudo ridículo, e dissesse: "menos, pessoal". Ao contrário de muitos heróis do mundo pop, onde o que impera é o ego. Ele morreu em silêncio. O resto é mídia e Freud explica.