sábado, 20 de agosto de 2016

Considerações sobre as andorinhas


Para Carmem, Ivani, Roseli e Tania


Fotos: Carmem Machado


Nessa época do ano, em determinadas horas do dia, tem uma revoada de andorinhas por aqui, na árvore abaixo da janela da sala, no Butantã. Dezenas e dezenas delas voando em revoada. Uma ou outra pousa na árvore desfolhada pelo inverno.

As andorinhas voando são algo lindo de se ver. Em conjunto, formam um redemoinho  no ar. Individualmente, têm as costas azul-marinho, as asas pretas e o peito branco, de modo que em voo passando perto da janela causam uma impressão forte, porque são muito bonitas. Vendo-as pousadas, como a da foto, não dá a ideia. É preciso vê-las voando - mas esse espetáculo é impossível de fotografar, a não ser que você tenha um equipamento do tipo National Geographic.

Você escuta um leve dialogar, sutil, um piado suave que vem daquele redemoinho como se viesse do éter, de todas as partes.

Vendo esse balé aéreo, fico espantado ao lembrar de ver colegas ou amigos na infância matar passarinhos como esses. Eu nunca matei sequer um, embora matar sempre tenha sido, ao longo dos séculos, uma prova de virilidade masculina e supremacia humana diante da natureza.



(Quando eu e meus irmãos éramos moleques, nós e dois de nossos amigos tínhamos uma espingarda de chumbo cada um. Eu nunca nem mesmo mirei em um pássaro. O único ser vivente que matei com aquela arma foi um rato que tinha caído na piscina do quintal da casa de um amigo: fizemos uma competição da qual participaram quatro de nós, pela qual cada um tinha sua vez de atirar no rato, de uma distância grande, creio que a uns 7 ou 8 metros dos atiradores, até que eu acertei o rato bem na espinha, e fiquei com dó, porque o tiro paralisou as patas traseiras mas ele ficava batendo as dianteiras enquanto afundava morto. Mas rato é rato.)

Eu, não. Passarinho nunca matei. Nunca me senti superior à natureza. Pelo contrário, diante dela não sou quase nada, sou apenas um fruto dela e estou sujeito a seus caprichos e belezas. 

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Juca Kfouri: "Eu não acredito no quanto pior, melhor. Eu acho que quanto pior, pior"


Pedro França/Agência Senado



Conversei ontem com o Juca Kfouri, sobre Olimpíada. A entrevista foi publicada originalmente na RBA.

Ele acha perfeitamente relacionável o comportamento da torcida brasileira que vaia atletas nos Jogos Olímpicos com o dos que ofenderam Dilma Rousseff na abertura da Copa do Mundo.

“É claro (que tem a ver uma coisa com a outra). Na abertura da Copa do Mundo, diante de sei lá quantos chefes de Estado, uma presidente eleita, legítima, mandaram ela tomar no cu. Você quer mais o quê? Nesse particular, aliás, o povo carioca foi mais educado do que o povo paulista. No Maracanã, na abertura (da Olimpíada), limitou-se a um 'fora Temer', mas não mandou tomar no cu.”

Ele diz também que os ataques à nadadora Joanna Maranhão caracterizam "o homem da elite no Brasil".

E ainda: "Não interessa à elite que os excluídos se eduquem".

A entrevista:

Como você contextualiza a Olimpíada no Brasil de hoje?

Com uma sensação ambígua. É uma festa que, tenho certeza, o Rio de Janeiro jamais esquecerá, com os problemas brasileiros que não adianta a gente querer esconder, porque eles existem e são visíveis. No caminho para a Cidade Olímpica, você se depara com um Brasil que é a cara do Brasil, muito diferente da zona sul do Rio de Janeiro. Mas, enfim, na minha maneira de ver as coisas, vejo como uma Olimpíada que não estava ainda na hora de o Brasil fazer, porque uma Olimpíada deve coroar uma política de esportes e o Brasil não tem uma política de esportes até hoje, aos 516 anos. Não é nem sequer capaz de tratar o esporte como um fator de saúde pública. Mas é indiscutível, inegável que é uma festa. O carioca não vai esquecer nunca mais.

Nesse sentido de o Brasil não ter uma política de esportes, como você compara, por exemplo no futebol, os jogadores brasileiros, muitos dos quais neopentecostais e sem preparo intelectual algum, com os alemães e os uruguaios da seleção de Óscar Tabárez, que são preparados em todos os sentidos?

Aí não é uma questão que se resuma, infelizmente, ao esporte, aos nossos atletas. É fruto de um sistema educacional abafado pela elite brasileira. Não é à toa que nosso sistema educacional é o que é, porque é uma maneira que a elite encontra para subjugar a maioria da população. Não interessa à elite que os excluídos se eduquem. E todos os esforços feitos nos últimos anos nesse sentido acabam sabotados. Estamos vendo o tamanho da sabotagem.

Os ataques a Joanna Maranhão são sintoma do ódio disseminado nos últimos tempos no país, na sua opinião?

É o sintoma mais claro da intolerância a que nós chegamos, infelizmente. Desta coisa machista, homofóbica, misógina, que caracteriza o homem dessa elite no Brasil. O cara que tem acesso às redes sociais e se aproveita do anonimato para fazer esses ataques covardes a uma mulher como ela.

E as vaias a atletas estrangeiros, como no caso do francês, podem ser vistas como uma coisa simplesmente de torcedor?

Não. É outro fruto da falta de educação. O que se fez com o francês que concorreu no salto com vara é absolutamente indesculpável. Você vaiar um atleta na hora em que ele está concentrado para competir, ou no pódio, não há o que justifique. Uma coisa é você torcer para o seu, outra coisa é você tentar desequilibrar o adversário. Num campo de futebol, isso faz parte. No atletismo, na natação, na ginástica, não faz. Mas, de novo: quem está assistindo a Olimpíada (nos estádios)? É quem tem dinheiro para pagar. Que é intolerante e mal educado. É grosseiro. E cometeu-se uma grosseria com o francês, não tenho dúvida nenhuma.

Dá para relacionar esse comportamento com o que foi dirigido a Dilma Rousseff na Copa do Mundo?

É claro. Na abertura da Copa do Mundo, diante de sei lá quantos chefes de Estado, uma presidente eleita, legítima, mandaram ela tomar no cu. Você quer mais o quê? Nesse particular, aliás, o povo carioca foi mais educado do que o povo paulista. No Maracanã, na abertura, limitou-se a um “fora Temer”, mas não mandou tomar no cu.

No contexto atual, com tudo que a gente está vendo no país, você vê alguma luz no fim do túnel?

Eu sempre vejo uma luz no fim do túnel. É a coisa gramsciana: pessimista na análise, otimista na ação. Se eu não acreditasse que o Brasil pode mudar para melhor e ser um país mais justo, eu já tinha desistido de ser jornalista e ia fazer coisas que dão mais dinheiro. Mas eu acredito que são etapas. Nós temos ainda muito a fazer. Temos que fazer um sistema educacional que esteja à altura das necessidades do Brasil. E temos que ter uma política de esportes que, antes de mais nada, pense em saúde pública, não em fazer campeões. 

Raramente um jornalista esportivo citaria Gramsci. Na sua opinião, Gramsci continua atual?

Não tenho a menor dúvida. Eu acho que dos autores marxistas ele é dos mais atuais.

Por quê?

Porque ele foi um cara capaz de compreender as mudanças que aconteceram em função da prevalência do sistema capitalista, foi capaz de entender o papel das religiões, embora eu seja absolutamente descrente, e entendeu a sociedade moderna capaz de dar um passo adiante na teoria marxista, no sentido de um entendimento do que seja uma sociedade moderna. Não é à toa que o PCI foi certamente o partido comunista mais avançado de todos os partidos comunistas do mundo.

Você concorda com quem torce contra o Brasil ou a seleção brasileira?

Não. Não porque eu não acredito no quanto pior, melhor. Eu acho que quanto pior, pior. Uma coisa é a disputa esportiva. Outra é a questão política. Eu não acho que o fato de o Brasil ir mal em qualquer competição necessariamente mudará o sistema político. Não é por aí.

Mas é difícil torcer para a CBF, não?

Eu não torço para a CBF. Eu torço por Neymar, por Luan, por Gabriel Jesus. Eu torço por nossos jogadores. Eu esqueço a CBF.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Elke Maravilha: uma baita história de vida


Texto extraído de Wikipédia (Creative Commons)

Elke Georgievna Grunnupp (Leningrado, 22 de fevereiro de 1945 - Rio de Janeiro, 16 de agosto de 2016)
Creative Commons - CC BY 3.0
Wikimedia Commons
Filha de um russo e de uma alemã, Elke nasceu na antiga Leningrado, hoje São Petersburgo. Seus pais resolveram imigrar para o Brasil, um país visto como promissor e bom acolhedor de estrangeiros, onde havia muitas colônias de imigrantes. O casal junto com seus três filhos, instalaram-se em Itabira, no interior de Minas Gerais, em um sítio, onde Elke e seus dois irmãos, passaram toda a sua infância, convivendo com todo tipo de animais rurais, realmente vivendo como uma camponesa. O casal não quis se mudar para uma colônia pois queria viver realmente como brasileiros e aprender os hábitos do país, tanto que Elke se surpreendeu ao conhecer pessoas de diversas etnias e orientações sexuais, um misto de pessoas que não havia em seu país, na época.

Quando Elke se tornou adolescente, a família se mudou para um sítio em Jaguaraçu, outra cidade do interior mineiro, onde Elke continuou a conviver na vida rural, com trabalhos do campo. Lá nasceram seus dois outros irmãos. Muito inteligente, na adolescência já falava, segundo ela mesma afirma, nove idiomas: russo, o português, o alemão, o italiano, o espanhol, o francês, o inglês, o grego e latim. Alguns desses idiomas foram aprendidos em casa, por causa de sua raízes germânicas, e outros aprendeu em cursos, que seus pais pagaram com dificuldade.

Querendo sua independência, já possuindo um bom currículo por conta dos idiomas que falava, saiu de casa aos 20 anos para morar sozinha no Rio de Janeiro, onde pagava seu aluguel trabalhando como secretária bilíngue em escritório. Por sempre gostar de estudar, Elke fez faculdade de Letras, e se formou em professora, tradutora e intérprete de línguas estrangeiras. Para pagar seu aluguel e sua faculdade, Elke trabalhou como bancária, secretária trilíngue. Foi também a mais jovem professora de francês da Aliança Francesa e de inglês na União Cultural Brasil – Estados Unidos.

Morou em Porto Alegre entre 1966 e 1969, onde cursou cadeiras nas faculdades de Filosofia, Medicina e Letras da UFRGS. Em 1971 se casou pela primeira vez, com o escritor grego Alexandros Evremidis.

Elke foi presa no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, em fins de 1971, depois de rasgar, aos gritos de "covardes, como ousam, vocês já o assassinaram!", cartazes com a fotografia de Stuart Angel Jones, filho de sua amiga Zuzu Angel, já então morto depois de torturas na Base Aérea do Galeão. Foi enquadrada na Lei de Segurança Nacional, o que a deixou apátrida.[5][6] Só foi solta depois de seis dias após a intervenção de amigos da classe artística. Anos depois, requisitou a cidadania alemã, a única que possuía.

Sua vida pessoal sempre fora muito conturbada. Morou em diversos países e teve oito casamentos, com homens de diversas nacionalidades. Fez três abortos, fruto de seus três primeiros casamentos, pois jamais quis ser mãe, e sempre achou que com seu jeito rebelde de ser, jamais poderia educar uma criança de forma digna.

Contou em entrevistas que tomava pílula anticoncepcional, mas fora enganada por alguns desses maridos, que queriam ser pais, e em vez de tomar a pílula certa, Elke tomava a pílula de farinha. Após descobrir isto, começou a usar DIU. Elke também foi usuária de todos os tipos de drogas ilícitas, além de todos os tipos de bebida alcoólica, e dizia que não tinha preferência por nenhum tipo de homem, e sim, que tinha pressa de namorar.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Michael Phelps e Usain Bolt: as duas lendas que passaram pelo Rio de Janeiro


Desde já se pode dizer que duas lendas marcaram época nos Jogos Olímpicos do Rio de
Janeiro em 2016. O nadador norte-americano Michael Phelps e o atleta jamaicano Usain Bolt. Dois monstros. O esporte é uma das  atividades humanas que transcendem a política.





Phelps nos fez (coisa rara) torcer aqui em casa por uma equipe dos Estados Unidos, justamente pelo time que ganhou o ouro no revezamento 4x100m medley na noite de sábado 13 de agosto. Nessa prova (que Phelps promete ser a última, mas pode não ser) ele chegou a 28 medalhas olímpicas: 23 ouros,três pratas e dois bronzes.

Usain Bolt chegou à terceira medalha de ouro nos 100 metros rasos na Olimpíada do Rio, com 9s81. A prova é considerada a "mais nobre" competição do atletismo.

Não é o propósito deste post fazer estatísticas, contar número de medalhas ou detalhar a carreira de cada um.




A intenção é só registrar no blog os nomes das duas lendas  que fizeram história na Rio-2016: Michael Phelps e Usain Bolt. Cada um no seu  estilo: Phelps, o maior medalhista da história, mais introspectivo; Bolt, o  tricampeão olímpico nos 100 metros rasos, uma figura extrovertida que cativa o povo por onde passa. Ambos extremamente carismáticos.

Daqui a 100 anos, Phelps e Bolt serão lembrados como os dois grandes que passaram pelo Rio de Janeiro em 2016. Como se fossem a reencarnação de figuras que estiveram nos Jogos iniciados na Grécia, no século VIII a.C.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Liminar libera "Fora Temer" nos Jogos do Rio


"Defiro o pedido de concessão da tutela de urgência para o fim de determinar aos réus que se abstenham, imediatamente, de reprimir manifestações pacíficas de cunho político nos locais oficiais, de retirar do recinto as pessoas que estejam se manifestando pacificamente nestes espaços, seja por cartazes, camisetas ou outro meio lícito permitido durante os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos Rio 2016.”

Clique para ampliar


Este é um trecho da liminar concedida pelo juiz federal substituto do Tribunal Regional Federal 2ª Região (TRF2) João Augusto Carneiro de Araújo. Ele acatou pedido feito pelo Ministério Público Federal (MPF) contra a posição do Comitê Rio 2016 de reprimir manifestações pacíficas contra o governo interino em estádios e ginásios.

Pelo menos no momento, em relação a isso, o Estado de Direito está preservado e o "Fora  Temer", liberado.

A decisão é de primeira instância e pode cair no tribunal. Esperemos que não e a tão violentada Constituição prevaleça.

sábado, 30 de julho de 2016

Donald Trump se aproxima da Casa Branca


Reprodução/Youtube
O magnata Donald Trump, terror do pensamento progressista no mundo, um outsider, representante republicano descolado do establishment político, que ameaça construir um muro para separar os Estados Unidos do México, entre outras propostas consideradas absurdas, pode ganhar as eleições dos Estados Unidos em novembro, contra todos os prognósticos de até poucos meses atrás?

A poderosa máquina democrata comandada por Hillary Clinton, que envolve poderes de Wall Street, do aparato de guerra e dos setores de informação e tecnologia dos Estados Unidos, pode ser derrotada por um candidato considerado histriônico e fanfarrão, ou protofascista, pelos analistas políticos?

O cineasta Michael Moore não apenas acha que Trump pode ser o próximo presidente do país mais poderoso da Terra, como enumera cinco razões para respaldar sua opinião. Em primeiro lugar, ele diz que parcelas dos trabalhadores insatisfeitos com o desemprego podem enxergar em Trump, com seu discurso populista, uma saída para a crise de emprego que abala o país.

A segunda razão é que o magnata republicano pode representar uma reação à ameaça que os neoconservadores acreditam existir num partido (o Democrata) que já elegeu Barack Obama, um negro, duas vezes, e agora pode eleger uma mulher. “Vamos deixar que uma mulher nos governe por oito anos? Depois haverá gays e pessoas transgênero na Casa Branca”, pensariam os conservadores, segundo Michael Moore.

O terceiro e quarto motivos pelos quais o documentarista Moore acha que Trump chegará à Casa Branca se confundem. Podem ser resumidos pela rejeição a Hillary por parte eleitores democratas mais à esquerda (que só votariam na candidata como voto útil) e pela indisposição dos jovens que preferiam Bernie Sanders em relação a uma representante da “velha política”.

Por fim, haverá, segundo Moore, o voto de protesto de parcela considerável dos eleitores contra o sistema político norte-americano, cujas mazelas associam aos democratas e a Obama, o presidente que está há oito anos no poder.

Para Reginaldo Nasser, professor de Relações Internacionais da PUC-SP, as projeções de Michael Moore fazem sentido. Mais do que isso: “É difícil prever, mas Trump, hoje, é favorito, mantidas as circunstâncias atuais, já que os Estados Unidos mudam muito e pode acontecer um fato novo.”

Segundo ele, como Hillary assumiu uma posição conservadora dentro do Partido Democrata para tentar ganhar votos do centro, os jovens que ajudam a compor o perfil de esquerda dos eleitores democratas estão arredios à candidata. A crise que atinge os Estados  Unidos, onde a pobreza vem crescendo, também deve prejudicá-la.

Hillary tem contra si um grande contingente do eleitorado à esquerda que a identifica com causas muito distantes do pensamento jovem e dos setores progressistas. “Ela é bastante conservadora. Por exemplo, é claramente pró-Israel, é belicista e apoia a guerra. O eleitorado democrata mais à esquerda não vota nela. Pode votar, mas como voto útil. Mesmo assim, vai pensar muito”, diz Reginaldo Nasser.

MARC NOZELL/FLICKR CC


Do lado dos conservadores que Hillary quer atrair, também há problemas. “Na cabeça deles, o terrorismo no mundo aumentou com Obama e os latino-americanos estão tomando seu emprego. Vão colocar tudo isso na conta de Obama. Hillary pode ser vítima tanto do descontentamento dos democratas de esquerda como do voto dos conservadores que temem que os democratas de esquerda comecem a mandar no governo”, diz Nasser.

Por fim, há quem considere absurdo que um “maluco” como Trump chegue à Casa Branca. Mas não seria a primeira vez que um “ator”, de fato ou simbolicamente, conseguiria tal proeza. “Ronald Reagan, um ator de fato, não ganhou duas vezes?”, lembra Nasser. O republicano Reagan, presidente dos Estados Unidos de 1981 a 1989, foi ator em Hollywood de 1937 a 1964.

Para o professor da PUC, a força da candidatura de Trump pode ter sido subestimada: "o que a gente não pode esquecer, e aí divirjo um pouco do Moore, é que ele denigre a imagem do Bush e a gente ri. Só que esses caras, Reagan, Bush ou Trump, têm uma equipe de primeira. O sociólogo Erving Goffman fazia uma analogia com o teatro: é preciso ver o palco e o que está atrás. No palco estão os idiotas. Mas os que estão atrás do palco (backstage, os bastidores) não são idiotas, são competentes e poderosos.”

Apesar de tudo, Michael Moore, com seu estilo irônico, previu que o republicano Mitt Romney venceria as eleições em 2012. Mas quem ganhou e acabou reeleito foi Barack Obama.

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*Escrevi este texto para ser publicado originalmente na RBA


Lula propôs apenas um acordo com o capital, mas foi traído


"Por que essa ofensiva diante de um projeto, de um governo que o tempo todo tentou conciliar, desde 2003 até agora, e jamais apostou na ruptura e no enfrentamento?" (André Singer, em debate na USP - 13/04/2016)





Lula ter ido à ONU denunciar abuso de poder e violação da Convenção Internacional de Direitos Políticos e Civis, na "condução da Operação Lava Jato pelo juiz Sérgio Moro e os procuradores da investigação", nas palavras da CartaCapital, foi um fato político relevante. Mais simbolicamente do que na prática, já que, como se sabe, a ONU é uma espécie de "rainha da Inglaterra".

A ONU nada faz de concreto, a partir de sua sede (não por acaso) em Nova York. A destruição e a tragédia da Síria, que era talvez o mais laico e com certeza o mais belo país árabe do Oriente Médio, são a prova definitiva de que a ONU não serve para nada.

Mas, ONU à parte, aqui no Brasil a ofensiva segue na mesma toada, como mostra a capa da Folha deste sábado. Decisões judiciais alimentam manchetes, que por sua vez dão o tom de "verdade" às decisões judiciais, que citam as reportagens em seus arrazoados, e assim sucessivamente. O objetivo é óbvio: seja como for, tirar Lula da disputa pela presidência da República em 2018. A priori, a estratégia talvez não seja prendê-lo, o que poderia ser um tiro no pé.

Mas, voltando à manchete da Folha que ilustra este post, paradoxalmente, a própria Folha de S. Paulo publicou um texto que foi muito reproduzido pelo pessoal de esquerda nas redes sociais. No artigo do dia 26, intitulado "Escracho", a repórter especial do jornal Eleonora de Lucena escreveu:

" O impeachment trouxe a galope e sem filtro a velha pauta ultraconservadora e entreguista, perseguida nos anos FHC e derrotada nas últimas quatro eleições. Privatizações, cortes profundos em educação e saúde, desmanche de conquistas trabalhistas, ataque a direitos.

"O objetivo é elevar a extração de mais valia, esmagar os pobres, derrubar empresas nacionais, extinguir ideias de independência. Em suma, transferir riqueza da sociedade para poucos, numa regressão fulminante. Previdência, Petrobras, SUS, tudo é implodido com a conversa de que não há dinheiro. Para os juros, contudo, sempre há."

O texto da articulista é um dos melhores sobre o golpe, porque não fica apenas no episódio em si, mas resume de maneira cirúrgica o percurso golpista da elite brasileira desde 1932. É um texto precioso (leia a íntegra aqui).

Fico a me perguntar (como diria Mino Carta, cá com meus botões): como pode, um jornal que poderia desempenhar papel importante na defesa dos direitos constitucionais, mais uma vez embarcar num golpe oligárquico e mesquinho?

A elite brasileira e, particularmente, a paulista, poderia apresentar uma proposta de governo a partir da qual pudesse debater com a esquerda. Mas o que eles querem na verdade é só a destruição e o entreguismo.

O velho Claudio Abramo já escrevia, na antiga página 2 da própria Folha, que a burguesia brasileira é burra a ponto de não entender que um povo desenvolvido, esclarecido e inserido no mercado de consumo seria muito bom para o crescimento de todos, inclusive e principalmente do capital.

A perseguição a Lula é absurda. Lula nem mesmo tentou rompimentos. Ele propôs justamente e apenas uma aliança com o capital. Mas nem isso eles entenderam. O objetivo de Lula era superar a miséria para que todos crescêssemos, como mostra André Singer no livro Os sentidos do lulismo, que não chegou a abranger o primeiro mandato de Dilma, já que foi publicado em 2012, mas obviamente escrito antes. 

O fato é que a aliança proposta por Lula não deu certo porque o capital (a indústria e o mercado financeiro) rompeu o acordo unilateralmente, traiu Lula e Dilma e deu o golpe. E mais nada. Como a reacionária UDN faria. Triste país, o nosso.


segunda-feira, 18 de julho de 2016

O encantador canto do bem-te-vi e a histeria do periquitinho verde


Fotos: Reprodução
O lindo bem-te-vi e o passarinho histérico

Um dos maiores poetas do ocidente e fundador da poesia moderna, o francês Charles Baudelaire introduziu uma questão interessante que pode ser discutida até hoje: a natureza não é apenas a vida, mas também a morte. Óbvio. O que é difícil de aceitar.

Mas digo isso para apenas perguntar: você gosta de passarinhos? Eu gosto, mas alguns me agradam e outros me irritam profundamente. O canto do bem-te vi nunca é incômodo; já a histérica maritaca, quando chega em bando e começa a berrar embaixo da sua janela, você pode desistir de tudo: do filme que você está vendo, da soneca que está tirando, de qualquer coisa. É um bichinho realmente chato.

O bem-te-vi encanta. Ele é tão bonito fisicamente como seu canto é encantador e agradável. Ele canta logo que o dia amanhece, e também no fim da tarde. Seu canto não provoca insônia. Como que se mistura aos sons da natureza e do mundo. Parece que está aí desde sempre.

Já a maritaca (que eu prefiro chamar de baitaca) é o oposto. É um bichinho extremamente irritante. Em bandos, esses passarinhos predominantemente verdes ocupam enormes espaços no pouco verde que há na cidade, e você tem a impressão de que eles são tantos que nada mais pode cantar ou se manifestar na natureza urbana - se é que se pode admitir esse termo paradoxal, natureza urbana.

Por quê? Porque (sejamos racionais) para esses bandos de passarinhos verdes histéricos faltam predadores. Simples assim. Não existem gatos suficientes para abater uma parte dessa espécie insuportavelmente chata. E então ela vai tomando conta de tudo, quase como uma praga urbana. Como pequeninas pombas verdes.

É incrível a diferença entre a natureza de uma espécie agradável (o bem-te-vi) e uma espécie irritante (a maritaca). É o que sinteticamente mostram os curtos vídeos abaixo.


O canto do bem-te-vi:




A histeria da baitaca:

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Hector Babenco (1946-2016), um diretor diferenciado


Reprodução/Wikipédia
São Paulo – O cineasta Hector Babenco morreu na noite de ontem (13), em São Paulo, de parada cardíaca, aos 70 anos. Ele era argentino (nascido em Mar del Plata) naturalizado brasileiro e radicado no Brasil há 50 anos.

O diretor tornou-se um dos principais diretores do cinema nacional. Dirigiu Pixote – a Lei do Mais Fraco (1982), O Beijo da Mulher Aranha (1985, indicado ao Oscar de Melhor Diretor), Carandiru (2003), Lúcio Flávio - O Passageiro da Agonia (1977), Ironweed (1987),  Brincando nos Campos do Senhor (1991) e Coração Iluminado (1998). O último longa de Babenco, Meu Amigo Hindu, foi lançado em 2015.

Eu não sou ufanista, do tipo que defende o cinema nacional por ser nacional, o que me parece uma miopia crítica. Pelo contrário, o cinema brasileiro muitas vezes me irrita, dadas a precariedade técnica de incontáveis filmes, a carga extremamente teatral das direções e interpretações, a exploração desmedida e ordinária do sexo, além do abuso de temas relacionados à violência.

Mas a competência de Babenco fazia dele um diretor diferenciado. Dois de seus principais filmes, Pixote e Lúcio Flávio, me marcaram justamente por tratar da violência com extrema lucidez. São cinema, e não teatro filmado. Abordam a violência sem exageros vulgares. Não vi Carandiru: na época (2003), como agora, estava cansado da estética da violência do cinema nacional e me parecia que Babeco tinha se rendido a um gênero de filme ("favela movie") que explorava a violência com objetivos comerciais então dominantes.

O cinema brasileiro perde um de seus expoentes.


domingo, 10 de julho de 2016

Grande título português foi não apenas bonito, mas sobretudo merecido



Reprodução
Lisboa, 10 de julho de 2016

O improvável título de Portugal no Stade de France, em Paris, mostra por que o futebol é um esporte inigualável. Foi um episódio comparável a grandes momentos do futebol, como a vitória do Uruguai na final de 1950 contra o Brasil no Maracanã.

Se já era difícil antes, tornou-se ainda mais improvável a partir dos 10 minutos do primeiro tempo, quando o francês Payet deu uma entrada criminosa no joelho de Cristiano Ronaldo na primeira bola que o craque português tentou dominar. O juiz não deu nem falta. O camisa 7 do time luso saiu de campo (claro, chorando) e foi então que o que era difícil tornou-se improvável.

Mas aí entra o imponderável que ronda o futebol e faz desse um esporte mágico como nenhum outro. Unido, o time português cresceu. Tornou-se compacto. Venceu a Eurocopa batendo os franceses em Paris. O time da França mostrou que tem muitos talentos, mas é um time desorganizado, que não achou forças para vencer a incrível defesa portuguesa comandada por Pepe.

Curiosamente, em certo momento o comentarista Lédio Carmona, do Sportv, comentou que tinha sido um erro do técnico português Fernando Santos tirar Renato Sanches e colocar Éder. Eu comentei (e há pelo menos uma testemunha disso aqui em casa): "o Lédio Carmona vai queimar a língua". Cerca de 5 minutos depois, Éder faz o golaço que dá o título aos ibéricos. Portugal 1 x 0 França. Espetacular.

O grande título da história da seleção de Portugal foi não apenas bonito, mas sobretudo merecido. Principalmente para o camisa 7 português, que saiu do jogo após a entrada de Payet, mas continuou a comandar o time do banco de reservas.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Por que torço para Portugal de Cristiano Ronaldo contra a França

Eurocopa


Reprodução/Youtube
Craque português cumprimenta craque de País de Gales

Não pude ver os jogos das semifinais da Eurocopa. Como a Itália (meu time na Europa, para horror de alguns amigos) foi eliminada pela Alemanha no domingo, nos pênaltis, e esta caiu hoje inapelavelmente batida por 2 a 0 pela anfitriã França, em Marselha, torcerei para os patrícios na final entre franceses e Portugal. Aliás, torceria mesmo se a final fosse Portugal x Alemanha.

Sim, o time português é limitado. Joga, muitas vezes, contra times poderosos, por “uma bola”. Joga feio. Costuma apostar nos pênaltis para se classificar, embora tenha batido País de Gales por 2 a 0 para ir à final.

Mas, mesmo assim, torço para os patrícios contra os franceses porque, primeiro, sempre torço contra a França; segundo, quase sempre torço para Portugal, talvez por algo atávico e cultural, afinal, quem não gosta de uma padaria de português e de uma bacalhoada da hora?; e, terceiro, sou fã do “arrogante”, “nojentinho” e “insuportável” Cristiano Ronaldo. Como joga bola, o gajo, para mim o melhor jogador do mundo, apesar de a mídia preferir Lionel Messi, tanto que o argentino-catalão foi eleito quatro vezes o melhor do mundo pelo FIFA Ballon d'Or nos últimos anos (2010, 2011, 2012 e 2015), enquanto o português ganhou apenas duas (2013 e 2014).

Mas, para mim, lances como esse, abaixo, o primeiro de Portugal contra País de Gales, mostram por que o português está, literalmente, num patamar superior. O que não acontece por acaso. Segundo se sabe, o jogador não confia apenas em seu enorme talento, mas treina como um “doente” e não se cansa de buscar a perfeição, segundo seu ex-companheiro de seleção portuguesa Deco.

CR7, como é chamado no atual mundo de siglas, nunca foi campeão com a seleção de seu país. Mas, ao contrário de Messi, que joga na atual vice-campeã mundial Argentina, uma das melhores seleções nacionais do mundo (onde também nunca ganhou nada), Ronaldo leva sua seleção praticamente sozinho. É o maior artilheiro da história de Portugal, com 61 gols (20 a mais que o mito Eusébio). Na Espanha, jogando no Real Madrid, detém o recorde de marcar pelo menos 30 gols em cinco temporadas seguidas, 17 gols pela Liga dos Campeões em 2014 (marca inédita até então), maior artilheiro da história da Liga dos Campeões (com 93 gols), eleito três vezes melhor jogador do mundo (2008, 2013 e 2014), entre outras marcas.

E tem ainda posições surpreendentes. Em 2013, ao receber a Bola de Ouro, emocionado, citou duas personalidades que considera importantes para si mesmo. “Queria também mencionar os nomes de Eusébio e Madiba (Nelson Mandela), pessoas muito importantes para mim. É um momento muito emocionante. Tudo o que eu posso dizer é obrigado”, declarou, entre lágrimas.


Com Nelson Mandela, em 2010

Em 2010, durante a Copa do Mundo da África do Sul, o craque português encontrou-se com Mandela em Joanesburgo, enquanto seus companheiros de seleção visitavam o zoológico da cidade.

Sobre o espetacular gol contra País de Gales abaixo, o tabloide Daily Mail calculou que o atleta subiu 76,2 centímetros do solo e, considerando que tem 1,85 m de altura, cabeceou a bola a 2,61 m, 17 centímetros acima da altura do travessão. Parou 7 décimos de segundo no ar e a bola saiu de sua cabeça a 71,3 km/h. É incrível.

Nada é por a caso. Por isso, não é por acaso que torço para Portugal de Cristiano Ronaldo contra a França, um país, aliás, que sempre foi racista, mas só ganhou sua primeira Copa do Mundo, em 1998, quando resolveu incorporar os negros a sua seleção. 

Mas a França é mais time, joga em casa e é franca favorita.

Vejam o gol:

quinta-feira, 30 de junho de 2016

A derrota de Messi e a demagogia sentimentalista



Reprodução/Youtube


A perda da Copa América pela Argentina no último domingo, mas principalmente a derrota de Messi, o herói, deu margem a todo tipo de dramatizações. Algumas sinceras, outras demagogas e midiáticas; umas emocionadas, outras calculistas (em busca de audiência), outras ainda simplesmente tolas.

Faço este breve comentário com tranquilidade, pois estou muito longe de alimentar em mim mesmo a rivalidade globeleza e falsa entre Brasil e Argentina, que embala o canal de televisão patrocinador do golpe no Brasil.

Adoro o futebol argentino, que, para mim, junto com o outrora (e hoje degradado e horrível) futebol brasileiro e o italiano, sempre formaram a tríade do melhor futebol do mundo -- como tradição e escola, e não apenas como fruto de fenômenos episódicos, do tipo Hungria de 1954 e Holanda de 1974.

Mas, mais do que de seu futebol, adoro a Argentina, país onde é sempre um prazer estar, nem que seja para simplesmente caminhar pela inigualável avenida de Mayo. Julio Cortázar, embora morasse em Paris, certa vez disse que caminhar por Buenos Aires era o maior ou um dos maiores prazeres de sua vida. Conheço vários argentinos e argentinas agradabilíssimos.

Mas voltemos a Messi. Até mesmo eu fiquei um pouco condoído pela dor do craque com a perda do pênalti que custou a derrota para o Chile. Porque a derrota é de fato triste. Mas a pieguice que embalou muitos e o oportunismo mancheteiro que motivou outros, sinceramente, é da dar tédio, ou raiva, dependendo do momento. 

Para mim, "A tristeza de Messi é a tristeza do futebol", como escreveu Mário Magalhães em seu blog no Uol, francamente, superou tudo em tolice, inclusive o sentimentalismo piegas dos amigos ou amigas que se emocionaram a não mais poder com a imagem de uma mulher enxugando as lágrimas de Messi.

Só para ficar no futebol: e a alegria do Chile, construída com talento e aplicação, um time taticamente impressionante, a seleção de Alexis Sánchez e Arturo Vidal, não conta? Conta só o que dá ibope? O triunfo chileno e "tudo isso é importante, mas a tristeza do Messi é mais", escreveu o blogueiro. Ora, por quê? 

Por acaso, quando Roberto Baggio, um dos maiores craques do futebol italiano, e portanto do futebol mundial, em 1994, perdeu o pênalti contra o Brasil não foi "a tristeza do futebol" também, só porque o vencedor foi a seleção pragmática e covarde de Carlos Alberto Parreira venerada por Galvão Bueno?

Ou, voltando um pouco mais, quando Zico, um dos maiores que vi jogar (para mim mais jogador do que Messi) perdeu o pênalti contra a França em 1986, não foi "a tristeza do futebol" também, só porque perdemos, e então o sentimento tinha de ser outro que não o da pena? "A decepção da seleção de Zico", pode-se achar facilmente hoje numa busca no Google sobre o tema.

Messi perdeu. O esporte é assim. Perde-se. Até Pelé perdeu. Aliás, não foi nem a primeira, nem a segunda, nem a terceira vez que Messi perdeu um título junto com a Argentina. Messi, um dos maiores craques do século 21, nunca ganhou nada por seu país, onde, diga-se, nunca jogou profissionalmente, já que saiu dos infantis do Newell's Old Boys aos 13 anos para alçar a glória no Barcelona.

A mídia precisa de heróis, para vender manchetes. Mas Messi não chega ao maravilhoso pé esquerdo de Maradona, que ganhou sozinho a Copa do Mundo de 1986 para seu país, num dos momentos épicos e inigualáveis da história do futebol.

Messi hoje é um herói, há anos é o queridinho da mídia, esta semana virou o símbolo da tristeza e vende muitas manchetes. Por isso mesmo, porque o mundo precisa de manchetes e de quem as compre, virão outros.

Podem ficar tranquilos. O craque nascido em Rosario que perdeu o pênalti no domingo continuará feliz lá na Catalunha. E os chilenos, outrora menosprezados por seus próprios compatriotas, estão muito felizes com o bicampeonato. É muito justo.


sábado, 18 de junho de 2016

O fenômeno Dilma



Roberto Stuckert Filho/PR
Dilma na sexta 17, na Universidade Federal de Pernambuco

A história costuma ser irônica. Mais uma prova disso é que, duramente criticada inclusive por seus pares de PT, Dilma Rousseff pode ser a via pela qual o próprio PT pode vir a se recuperar como partido, pelo menos em parte. Com toda a crise que levou o Brasil a uma das fases mais obscuras de sua história, Dilma tem protagonizado nas últimas semanas um fenômeno extremamente interessante: sua popularidade cresce a olhos vistos. Mais do que isso: ela está  superando a popularidade que poucos (ou ninguém) esperavam que poderia ter.

Dilma merece algumas das críticas já conhecidas, como o caráter centralizador de seus governos e a mediocridade de seus ministros, com algumas exceções, assim como ter entregado alguns de seus ministérios a próceres da direita - e Gilberto Kassab é o mais acabado exemplo. Mas tenho visto de maneira diferente a crítica sobre sua incapacidade de "fazer política", que, se é procedente até certo ponto, deve ser relativizada. Seria incompetência "não saber negociar" com uma geração de políticos e um Congresso que são a própria materialização da corrupção e do ideário da direita?

A própria Dilma questionou essa crítica, que se faz a ela diuturnamente (e que eu mesmo já fiz), na entrevista a Luis Nassif na segunda-feira 13 (leia aqui). “Atribuía-se a mim (o problema de) não querer negociar. Mas não tem negociação possível com certo tipo de prática”, disse, em referência a Eduardo Cunha e seu bando.

Esse "problema" ou "defeito" de Dilma é, antes, uma virtude.

Minha imaginação me leva, conduzido por Platão, a uma situação. Imaginemos que o Brasil fosse hoje um país que, com todas as suas características (a diversidade principalmente), estivesse no patamar de uma nação desenvolvida e politicamente respeitada, na qual as oligarquias espúrias tivessem sido reduzidas a sombras da história e não mais influenciassem a vida do país.

Nessa hipótese platônica, governando um país que tivesse superado sua triste vocação a colônia, Dilma Rousseff seria uma presidente e líder sofisticada. Que poderia sofrer derrotas e conquistar vitórias políticas, mas não precisaria se submeter à canalha politicagem brasileira. Sem precisar "negociar" com chefes de gangs, Dilma apenas governaria.

Embora acusada de ser uma tecnocrata, ela poderia tocar seus projetos para o pré-sal, por exemplo, o maior tesouro da indústria do petróleo descoberto neste século, e um dos principais motivos do golpe que, como se sabe, tem a mão do imperialismo (leia aqui). Digo que o pré-sal é um dos principais motivos do golpe porque não é o único: nossa água é outro.

Por falar em império, lembremos Barack Obama, para fazer uma comparação. O presidente dos Estados Unidos teve muitas dificuldades a partir de novembro de 2014, quando passou a ter minoria no Congresso. Mas a democracia norte-americana é estável e Obama não ter maioria não significa golpe. Muito longe disso. No Brasil, afrontar o mercado financeiro (como Dilma fez ao rebaixar a taxa de juros Selic entre 2012 e 2013) e se recusar a negociar com bandidos no Congresso foram gasolina no fogo do golpismo.

Por incrível que pareça, Dilma já é um passo à frente do petismo lulista. Com todos os seus erros, ela tem incendiado uma militância até outro dia adormecida, o que parecia absurdo um ano atrás, quando era considerada traidora do programa de governo com o qual se elegeu, e graças à militância do movimento social que, diga-se, deu um caráter muito além do PT a sua eleição.

Acho importante lembrar que, no contexto do apodrecido presidencialismo de coalizão brasileiro, se Dilma é responsabilizada por ser politicamente incompetente, não foi ela, mas Lula, quem fechou acordo com o PMDB de Temer e Sarney.

Não foi certamente à toa que o físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite, um mestre insuspeito, em artigo publicado na Folha ontem, 17, comparou Dilma Rousseff a Joana d'Arc (leia aqui).


sexta-feira, 10 de junho de 2016

Dilma: virada contra seu governo "combina com as manifestações de junho de 2013"



Roberto Stuckert Filho/ PR


Ainda há setores da esquerda que, data venia, ingenuamente, continuam a achar que as manifestações de 2013 foram um show de espontaneidade e democracia jovem.

Mas não param de surgir novas manifestações de pessoas insuspeitas, por sua posição ou conhecimento, que mencionam as estranhas coincidências, as quais permitem uma fácil associação entre, por exemplo, o que ocorreu no Brasil e a chamada Primavera Árabe, ou Revolução Colorida, como preferem alguns. Desta vez foi ninguém menos do que a própria presidente Dilma Rousseff.

Na entrevista a Luis Nassif que foi ao ar ontem na TV Brasil, Dilma fez a seguinte observação sobre a “virada” que se deu a partir de determinado momento em que sua tentativa de baixar a taxa de juros Selic desafiou setores muito poderosos do capital financeiro mundial. Lembremos que a taxa Selic era de 7,25% em abril de 2013, mas já estava a 10% no final do mesmo ano. Dilma disse: "Tem um grau de financeirização na economia brasileira em que todos os setores têm interesse na rentabilidade financeira. Havia uma grande resistência à queda da taxa de juros. Agora, se você me perguntar como é que vira, vira num momento muito estranho, porque se combina com as manifestações de junho de 2013."

Em abril, conversei com Analúcia Danilevicz Pereira, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que fez a seguinte análise: não é por acaso que a oposição, que desencadeou um bombardeio desde o primeiro dia após a reeleição de Dilma, tenha conseguido "virar o jogo", que estava a favor do governo, coincidentemente a partir das manifestações de 2013. Notem: a professora usa o mesmo termo que Dilma: “virar”. 

"Sim, este interesse (de que o governo Dilma chegue ao fim) existe. Abriu-se espaço para que a oposição, que estava extremamente fragilizada, conseguisse rapidamente um espaço de atuação. Se considerarmos o momento em que todas essas coisas acontecem, mais claramente a partir de 2013, em três anos a oposição virou o jogo no Brasil", disse Analúcia. Sobre essa e outras questões, ela usou a expressão: “Eu não acredito em coincidências”. (Leia a entrevista na íntegra: "Não acredito em coincidências", diz analista sobre interesse dos EUA na queda de Dilma).

Outro de quem ouvi análise semelhante foi o professor de Ciência Política da Universidade de Campinas (Unicamp) Armando Boito. Segundo ele, "as manifestações de junho de 2013 foram confiscadas pela direita para fortalecer o campo neoliberal ortodoxo".

Mais um, de quem li um artigo muito interessante, F. William Engdahl, engenheiro (Princeton), pós-graduado em economia comparativa (Estocolmo), pesquisador de economia, geopolítica e geologia, escreveu o seguinte, como já registrei neste blog: "Dilma Rousseff tinha uma taxa de popularidade de 70 por cento. Menos de duas semanas depois da visita de Joe Biden ao Brasil, protestos em escala nacional convocados por um grupo bem organizado chamado 'Movimento Passe Livre', relativos a um aumento nominal de 10 por cento nas passagens de ônibus, levaram o país virtualmente a uma paralisação e se tornaram muito violentos. Os protestos ostentavam a marca de uma típica 'Revolução Colorida', ou desestabilização via Twitter, que parece seguir Biden por onde quer que ele se apresente. Em semanas, a popularidade de Rousseff caiu para 30 por cento." Biden, vice-presidente dos Estados Unidos, veio ao Brasil em maio de 2013. O post  com a análise de Engdahl está aqui: Dilma Rousseff, Getúlio Vargas e as coincidências.

De maneira, meus amigos, que basta um mínimo de bom senso para ver que não se trata de impertinência deste blogueiro, conforme já me acusaram. Quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça (Mateus – 13:9).


sábado, 4 de junho de 2016

Muhammad Ali (1942-2016)



Na morte todos se lembram. Tudo parece já ter sido dito de ontem para hoje sobre o maior lutador de todos, o guerreiro que se negou a lutar no Vietnã e se converteu ao islamismo. O que não é pouco nos Estados Unidos dos 1960 e 1970 em que ele reinou. 

Nascido em Louisville, no Kentucky, foi proibido de atuar por três anos e meio, pela recusa a ser soldado do império. O soldado se foi. Mas, mais do que palavras que se esforçam por ser diferentes, registro as imagens. As dele próprio, quando nocauteou o gigante Foreman no Zaire (hoje Congo), na até hoje chamada luta do século, em 1974, e na entrevista histórica que muita gente já viu. 

Ele foi um dos que ajudaram a tornar o mundo melhor, pela estética e pela sabedoria. O dançarino se foi. As imagens e palavras (dele) ficam.


 A luta




As palavras