sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Em minha cidade há um rio



Water Lilies and Japanese Bridge (Claude Monet)


Em minha cidade há um rio de pequeno porte onde pescava e nadava quando adolescente.
Hoje o rio está podre devido ao crescimento urbano lançando esgoto em suas águas.

Às vezes ele revive, em ocasião de grandes chuvas, ao inundar e invadir suas margens e ruas com água bastante para limpar a atual podridão.

Nas pescarias de garoto meu sonho nunca realizado era pescar um grande piau, peixe raro e bonito que pouco aparecia nas águas de Mimoso do Sul. Eis que tempos depois, já adulto, fui de novo pescar em nosso rio com meu filho Frederico ainda criança de uns 9 anos.

Levei uma bacia em que pretendia colocar vivos e nadando os peixes pescados, mais para divertir Frederico.

Eis que, surpreendentemente, pesquei o tal piau sonhado. Era grande e lindo, nunca antes visto desse tamanho, o bastante para compensar meus frustrados desejos de adolescente.

Com todo o cuidado, tirei o peixe do anzol. Levei para a bacia, onde ele permaneceu vivo e hábil, admirado por nós.

Voltei a pescar, orgulhoso, ainda sem bem saber o que fazer com o piau...

...se o levava para casa, campeão exibindo a meus irmãos esse meu fruto da pescaria conquistado ou se retornava o peixe para as águas do rio.

Frederico resolveu o impasse. Com seus nove anos de vida nascente, ao me perceber distraído de volta à pescaria, pegou o piau com suas pequenas mãos e, quando vi, lá estava o belo peixe de novo nadando vivinho em seu reino fluvial, salvo e livre, restando-me, em casa, contar prosa, numa conversa de pescador sem provas... foi o que aconteceu e o que fiz...

...hoje certo de que desde então meu filho se preparava para ser médico, pois é o que é, salvando vidas.

domingo, 18 de setembro de 2016

Os rios são lindos, mas são traiçoeiros e matam


"Viver é muito perigoso"
(Riobaldo - Guimarães Rosa, em 
Grande Sertão: Veredas)



O rio São Francisco: belo e traiçoeiro, como todos os rios

A trágica morte do ator Domingos Montagner no rio São Francisco me fez pensar em duas coisas. Uma diz respeito à condição humana na sua relação com a natureza. A outra tem a ver com uma experiência pessoal.

A condição humana
Como diz povo do interior, você nunca entra no mesmo rio duas vezes. Um rio muda. Ontem ele era um, hoje é outro. A correnteza, os galhos, as pedras e o acaso se aliam numa espécie de complô da natureza contra o qual o ego, nossa teimosia em dominar a natureza, não pode nada. O ser humano sempre terá a impressão de que a natureza está sob seu domínio, mas não está. Não existe nada mais traiçoeiro do que as águas dos rios.

Lamento pela morte de Montagner, que, pelos relatos, era uma pessoa bacana. Mas a verdade é que os rios matam. Não se esqueça disso.

Uma experiência pessoal
Tive uma experiência com rio que poderia ter me custado muito caro. Estávamos na cidade de Barra Bonita, à beira do rio Tietê, onde você pode nadar (pelo menos era assim há uns dez anos). Havia uma pequena ponte de madeira de onde os meninos mergulhavam no rio, numa algazarra alegre típica de criança.

Vendo aquilo, decidi ir até a pontezinha e também dar um mergulho. Não era uma ponte de uma margem a outra, claro, porque o Tietê é bastante largo. Era uma espécie de pinguela ligando dois braços de terra. A altura da ponte de madeira às águas do rio era bem pequena, uns dois metros apenas. Animado, cheguei à ponte onde havia vários meninos de 12 a 15 anos do lado direito. Do lado esquerdo, célere, quase imediatamente saltei pra mergulhar. Nesse momento, no lapso de uns dois segundos entre o salto e o mergulho, eu ouço a voz de um menino dizendo: 

– Aí nããããããoo!!

A frase bateu diretamente no meu corpo. Num reflexo, eu fiz o que se pode chamar de uma arremetida (como se diz na aviação), e ao invés de mergulhar estiquei o máximo que pude os braços para cima e entrei na água de barriga. 

Ao voltar do mergulho abortado, dentro do rio, um rapaz de uns 16 anos nadou até mim e perguntou preocupado:

– Tudo bem, véio? 

– Tudo – respondi. 

É que eu tinha saltado justamente do lado da ponte em que era muito raso e cheio de pedras, tipo a um metro ou menos da superfície. Não fosse aquela vozinha de criança ("Aí nããããããoo!"), eu poderia ter quebrado a mão ou os braços, a cabeça, a coluna cervical ou mesmo ter morrido. Por sorte, aquele menino agiu como um anjo da guarda.

Por isso, eu sempre digo. Cuidado com o rio, se você não o conhece. E mesmo se pensa que conhece.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Crônica sobre o golpe – a República de bananas e a esperança



Algumas sementes vão virar árvores

Comentei ontem no Facebook achar engraçado que, por ingenuidade ou falta do que falar, as pessoas perguntavam na semana passada, ironizando: “Cadê a Lava Jato?, cadê o Moro?, cadê, cadê???”

Para os incautos que parecem não compreender o que se passa no país, a resposta veio ontem, com a denúncia do procurador Deltan Dallagnol contra Lula, baseada em uma apresentação tosca de powerpoint que culminou com a já histórica frase: “Não temos como provar, mas temos convicção”.

Como disse o Kiko Nogueira , parece que definitivamente “transformaram o Brasil no Paraguai”.

A verdade é que não se pode mais prever aonde chegaremos na história desta triste República de Bananas.

Mas, realmente, só os incautos (“que ou o que não revela malícia; crédulo, ingênuo” – Michaelis) poderiam esperar algo diferente em relação a nossas instituições. Na semana passada, o escritor Fernando Morais, em entrevista, afirmou: “Só um idiota completo pode imaginar que Globo, Fiesp, extrema direita, Folha, Estado, Editora Abril, Ministério Público, Policia Federal vão fazer o que fizeram para entregar a presidência da República de bandeja pro Lula de novo”.

No mesmo dia 31 em que o espetáculo farsesco do impeachment no Senado derrubou Dilma Rousseff, conversei com o velho socialista Roberto Amaral, que vaticinou: “para se precaver, no que for possível, tentarão destruir o Lula. Destruir o Lula como imagem, como símbolo, até destruí-lo como político, com essas tentativas de processá-lo para ver se até 2018 conseguem uma condenação que o afaste do processo eleitoral. Isso é um jogo tão evidente, as cartas estão tão claramente postas na mesa que eu não entendo que possa haver qualquer dúvida”. A entrevista está neste link .

Outra figura que tem o estranho hábito de teimar em compreender a conjuntura e interpretar os sinais é o sociólogo Laymert Garcia dos Santos, de quem tive o privilégio de ser aluno na PUC-SP, lá se vão anos. Em novembro do ano passado, num evento na Assembleia Legislativa, ele disse que a sociedade está “enfeitiçada” pela manipulação da mídia. “Só as versões se tornam realidade, ao ponto de as pessoas não saberem mais o que é real e o que não é.”

Em março (mais de um mês antes de o impeachment passar na Câmara), em entrevista que fiz com ele, Laymert disse: “Não acho que o fascismo vai vir, ele já está aqui”. Acrescentou: “Estamos vivendo uma espécie de fascismo de rua, mas ele é concomitante com toda uma argumentação jurídica que está sendo construída, que é ilegal e inconstitucional, uma ruptura com o regime democrático e com os princípios da Constituição. Estamos vendo a construção disso tudo, através das violências jurídicas e do estabelecimento de uma nova jurisprudência, entre aspas, que lembra muito o tempo do fascismo” (a entrevista de março está aqui).

Precisamos deixar de ser crédulos. Eu deixei de clamar "Não vai ter golpe" em 17 de abril de 2016, quando daquele espetáculo dantesco na Câmara dos Deputados, que manchou a história do Brasil. O golpe foi ali, sob o comando de Eduardo Cunha, que só caiu quando não interessava mais.

É preciso reconhecer que a esquerda não está unida, como alguns fingem acreditar, e entender que é preciso bem mais do que a esquerda se unir pela democracia. É preciso a união de todos os democratas do país, de Jean Wyllys a Kátia Abreu, dos socialistas aos liberais progressistas. Não tem outra saída.

Em 26 de agosto, no decorrer do espetáculo de teatro no Senado, a senadora Gleisi Hoffmann, dirigindo-se ao presidente do STF que presidia a sessão, Ricardo Lewandwski, manifestou a angústia que milhões de brasileiros hoje sentem: “Não querem sequer que tenhamos direito à indignação? A quem vamos recorrer? Será que vamos poder recorrer ao Supremo Tribunal Federal quando a nossa Constituição é vilipendiada?”

O que se pode acrescentar a essa justa manifestação de indignação de Gleisi?

Talvez só haja uma esperança, e ela está dentro de uma frase que Lula disse hoje em seu discurso para se defender das acusações do Ministério Público: "Essa meninada que evitou o Alckmin de fechar escolas, que está vindo para as ruas para reivindicar democracia, essa meninada é o Lula multiplicado por milhões”.

O amigo José Arrabal, da geração que, como Laymert, sofreu as mazelas do regime militar, também vê motivos de otimismo na geração que vem por aí, e acredita numa nação simbolizada "em Dilma e em Rafaela Silva, a campeã olímpica da Cidade de Deus”, como disse no dia do golpe no Senado (aqui).
A esperança é essa: que as sementes (como o menino da foto deste post) deem frutos. “Para ver que algumas sementes chegam a árvores”, como escreveu minha amiga Camila Claro em dedicatória que fez num livro pra mim, em 2002, e lá se vão 14 anos.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Bem-vindos ao admirável Brasil novo


Anselmo Cunha / Mídia NINJA
"Neblina de gás lacrimogênio nas ruas de Porto Alegre"  (1°/09/2016)

“Prometo manter, defender e cumprir a Constituição, observar as leis, promover o bem geral do povo brasileiro, sustentar a união, a integridade e a independência do Brasil.”

A frase é do agora não mais interino presidente da República, Michel Temer, ao tomar posse ontem, em cerimônia no Congresso Nacional. É a mesma frase protocolar proclamada por todos os presidentes. Seja Castelo Branco, seja Lula.

Mas na boca de Temer soa conforme a expressão usada por Laymert Garcia dos Santos, na entrevista de ontem: "A palavra precisa com relação ao que aconteceu com Dilma e o julgamento é: ignomínia” (leia aqui).

O professor Roberto Amaral, com quem também falei ontem, dia 31 de agosto de 2016, que vai ficar marcado como a data da ignomínia, disse: “Temer não é um sujeito do processo histórico, não é um ator, é um mamulengo. Está aí em função de uma contingência e uma necessidade”.

O professor Amaral disse mais: “Vemos o comportamento do governo de São Paulo (de Geraldo Alckmin-PSDB). Vemos as notícias de repressão às manifestações contra o golpe. Todas as aparências vão ser quebradas. Não há mais necessidade de aparências”.

Em manifestação em São Paulo contra o golpe parlamentar na noite do dia 31, a aluna da Universidade Federal do ABC Deborah Fabri, do Levante Popular da Juventude, foi atingida por estilhaços de bomba e hoje se confirmou que a jovem perdeu a visão do olho esquerdo.

Ao responder minha pergunta sobre que país espera a partir de agora, Roberto Amaral disse: “Minha expectativa é de um país em conflito”. 

E assim chegamos ao Admirável Brasil Novo.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Dilma, estadista, dá aula histórica de política e democracia no Senado



"Não esperem de mim o obsequioso silêncio dos covardes"
(Dilma Rousseff, 29 de agosto de 2016)



Marri Nogueira/Agência Senado

A defesa que a presidente Dilma Rousseff fez de si mesma no espúrio processo de impeachment no Senado Federal no dia de hoje foi histórica. O que não sou eu quem diz, mas pessoas como o jurista Luiz Moreira, para quem Dilma deu uma “aula” no Congresso. Escolhi a foto acima, apesar de haver outras melhores, porque me parece simbólica da coragem dessa mulher no contexto grotesco a que chegou o país.

Seria demasiado cansativo, para mim que estou desde o início da audiência de Dilma trabalhando, esmiuçar ou discorrer sobre o assunto. Chamou minha atenção a resposta dela a uma questão colocada pelo senador Telmário Mota (PDT-RR): “com quem a senhora vai governar (se voltar ao cargo)?”

Dilma lembrou o PMDB de Ulysses Guimarães para fazer uma análise política sobre os danos causados ao país pelo esvaziamento do centro democrático. Disse que o Brasil sempre teve um centro democrático que congregou lideranças progressistas, mas esse centro se esfacelou, o que é simbolizado pelas assombrações (termo meu) de Eduardo Cunha e Michel Temer.  

“Esse PMDB, que teve no deputado Ulysses Guimarães a sua maior força, mas não só, esse centro sofreu uma alteração profunda, deixando de ser democrático.”

“O centro democrático perdeu a hegemonia dos progressistas e passou a ter a mais retrógrada posição que o país já assistiu”, disse.

Respondendo a um senador que vai entrar para a história como alguém que jogou sua biografia no lixo, Cristovam Buarque, que ardilosamente quis saber por que ela escolheu Michel Temer duas vezes como vice de sua chapa e hoje o chama de golpista, ela lembrou o diálogo entre o senador Romero Jucá (PMDB-RR) e o delator Sérgio Machado, que veio a público em maio, em que Jucá afirma: “O Michel é Eduardo Cunha”.

Disse ainda: “Supúnhamos que (Temer) fosse desse centro democrático progressista, transformador. Achamos que representava o que havia de melhor no PMDB.”

“Quando (Jucá) disse que Michel é Cunha, quis dizer que Temer integra o grupo de Eduardo Cunha. Quando o centro democrático deixa de ser progressista e passa a ser golpista e conspirador, ele tem um líder. Michel Temer é um coadjuvante. O líder é, ou era, Eduardo Cunha”, continuou.

Luiz Moreira, a quem entrevistei, explicou por que o discurso no Senado foi histórico, entre outros motivos: “Ela responde com muita altivez essa onda misógina, de dizerem que ela é frágil, que estaria justificada essa violência por ser uma mulher e uma mulher frágil. Ela responde isso com muita personalidade, muito domínio técnico e político da questão. Dilma hoje deixa uma grande mensagem para o Brasil” (leia aqui)

Ela terminou a aula falando de economia, explicando à feroz advogada Janaina Paschoal questões que você pode ler aqui.

O que me pareceu muito importante – mais do que isso, digno de nota – foi a avaliação de que os atores políticos precisam de maturidade para superar as mesquinhas disputas políticas e o malfadado “quanto pior, melhor”, e a frase com que definiu essa necessidade: “Ou se entende esse processo ou vamos continuar a fazer mal a nós mesmos”.

É inquestionável que, se havia dúvidas de que Dilma é uma estadista, ela tratou de esclarecer que é. Se perder a votação, é porque o Brasil merece a tragédia.

domingo, 28 de agosto de 2016

Pequena crônica de um golpe anunciado


Por Tatiana Fernández


Lula Marques/ AGPT

O cheiro de napalm pela manhã já se sente em Brasília.

O povo brasileiro entregou seus filhos de presente para serem consumidos pelo mercado a um grande bando de criminosos organizados.

Como diz Pepe Escobar, ficam somente paralisados.

Michel Temer é o mais veloz privatizador do oeste, é água, semente, educação, energia, saúde e presídio, porque basta criminalizar os inocentes que aí os criminosos ganham escravos, negócio redondo. Eles contam com a inércia do povo.

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*Tatiana Fernández é artista plástica, doutora em Arte e professora do Departamento de Artes Visuais do Instituto de Arte da Universidade de Brasília (UnB)

sábado, 20 de agosto de 2016

Considerações sobre as andorinhas


Para Carmem, Ivani, Roseli e Tania


Fotos: Carmem Machado


Nessa época do ano, em determinadas horas do dia, tem uma revoada de andorinhas por aqui, na árvore abaixo da janela da sala, no Butantã. Dezenas e dezenas delas voando em revoada. Uma ou outra pousa na árvore desfolhada pelo inverno.

As andorinhas voando são algo lindo de se ver. Em conjunto, formam um redemoinho  no ar. Individualmente, têm as costas azul-marinho, as asas pretas e o peito branco, de modo que em voo passando perto da janela causam uma impressão forte, porque são muito bonitas. Vendo-as pousadas, como a da foto, não dá a ideia. É preciso vê-las voando - mas esse espetáculo é impossível de fotografar, a não ser que você tenha um equipamento do tipo National Geographic.

Você escuta um leve dialogar, sutil, um piado suave que vem daquele redemoinho como se viesse do éter, de todas as partes.

Vendo esse balé aéreo, fico espantado ao lembrar de ver colegas ou amigos na infância matar passarinhos como esses. Eu nunca matei sequer um, embora matar sempre tenha sido, ao longo dos séculos, uma prova de virilidade masculina e supremacia humana diante da natureza.



(Quando eu e meus irmãos éramos moleques, nós e dois de nossos amigos tínhamos uma espingarda de chumbo cada um. Eu nunca nem mesmo mirei em um pássaro. O único ser vivente que matei com aquela arma foi um rato que tinha caído na piscina do quintal da casa de um amigo: fizemos uma competição da qual participaram quatro de nós, pela qual cada um tinha sua vez de atirar no rato, de uma distância grande, creio que a uns 7 ou 8 metros dos atiradores, até que eu acertei o rato bem na espinha, e fiquei com dó, porque o tiro paralisou as patas traseiras mas ele ficava batendo as dianteiras enquanto afundava morto. Mas rato é rato.)

Eu, não. Passarinho nunca matei. Nunca me senti superior à natureza. Pelo contrário, diante dela não sou quase nada, sou apenas um fruto dela e estou sujeito a seus caprichos e belezas. 

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Juca Kfouri: "Eu não acredito no quanto pior, melhor. Eu acho que quanto pior, pior"


Pedro França/Agência Senado



Conversei ontem com o Juca Kfouri, sobre Olimpíada. A entrevista foi publicada originalmente na RBA.

Ele acha perfeitamente relacionável o comportamento da torcida brasileira que vaia atletas nos Jogos Olímpicos com o dos que ofenderam Dilma Rousseff na abertura da Copa do Mundo.

“É claro (que tem a ver uma coisa com a outra). Na abertura da Copa do Mundo, diante de sei lá quantos chefes de Estado, uma presidente eleita, legítima, mandaram ela tomar no cu. Você quer mais o quê? Nesse particular, aliás, o povo carioca foi mais educado do que o povo paulista. No Maracanã, na abertura (da Olimpíada), limitou-se a um 'fora Temer', mas não mandou tomar no cu.”

Ele diz também que os ataques à nadadora Joanna Maranhão caracterizam "o homem da elite no Brasil".

E ainda: "Não interessa à elite que os excluídos se eduquem".

A entrevista:

Como você contextualiza a Olimpíada no Brasil de hoje?

Com uma sensação ambígua. É uma festa que, tenho certeza, o Rio de Janeiro jamais esquecerá, com os problemas brasileiros que não adianta a gente querer esconder, porque eles existem e são visíveis. No caminho para a Cidade Olímpica, você se depara com um Brasil que é a cara do Brasil, muito diferente da zona sul do Rio de Janeiro. Mas, enfim, na minha maneira de ver as coisas, vejo como uma Olimpíada que não estava ainda na hora de o Brasil fazer, porque uma Olimpíada deve coroar uma política de esportes e o Brasil não tem uma política de esportes até hoje, aos 516 anos. Não é nem sequer capaz de tratar o esporte como um fator de saúde pública. Mas é indiscutível, inegável que é uma festa. O carioca não vai esquecer nunca mais.

Nesse sentido de o Brasil não ter uma política de esportes, como você compara, por exemplo no futebol, os jogadores brasileiros, muitos dos quais neopentecostais e sem preparo intelectual algum, com os alemães e os uruguaios da seleção de Óscar Tabárez, que são preparados em todos os sentidos?

Aí não é uma questão que se resuma, infelizmente, ao esporte, aos nossos atletas. É fruto de um sistema educacional abafado pela elite brasileira. Não é à toa que nosso sistema educacional é o que é, porque é uma maneira que a elite encontra para subjugar a maioria da população. Não interessa à elite que os excluídos se eduquem. E todos os esforços feitos nos últimos anos nesse sentido acabam sabotados. Estamos vendo o tamanho da sabotagem.

Os ataques a Joanna Maranhão são sintoma do ódio disseminado nos últimos tempos no país, na sua opinião?

É o sintoma mais claro da intolerância a que nós chegamos, infelizmente. Desta coisa machista, homofóbica, misógina, que caracteriza o homem dessa elite no Brasil. O cara que tem acesso às redes sociais e se aproveita do anonimato para fazer esses ataques covardes a uma mulher como ela.

E as vaias a atletas estrangeiros, como no caso do francês, podem ser vistas como uma coisa simplesmente de torcedor?

Não. É outro fruto da falta de educação. O que se fez com o francês que concorreu no salto com vara é absolutamente indesculpável. Você vaiar um atleta na hora em que ele está concentrado para competir, ou no pódio, não há o que justifique. Uma coisa é você torcer para o seu, outra coisa é você tentar desequilibrar o adversário. Num campo de futebol, isso faz parte. No atletismo, na natação, na ginástica, não faz. Mas, de novo: quem está assistindo a Olimpíada (nos estádios)? É quem tem dinheiro para pagar. Que é intolerante e mal educado. É grosseiro. E cometeu-se uma grosseria com o francês, não tenho dúvida nenhuma.

Dá para relacionar esse comportamento com o que foi dirigido a Dilma Rousseff na Copa do Mundo?

É claro. Na abertura da Copa do Mundo, diante de sei lá quantos chefes de Estado, uma presidente eleita, legítima, mandaram ela tomar no cu. Você quer mais o quê? Nesse particular, aliás, o povo carioca foi mais educado do que o povo paulista. No Maracanã, na abertura, limitou-se a um “fora Temer”, mas não mandou tomar no cu.

No contexto atual, com tudo que a gente está vendo no país, você vê alguma luz no fim do túnel?

Eu sempre vejo uma luz no fim do túnel. É a coisa gramsciana: pessimista na análise, otimista na ação. Se eu não acreditasse que o Brasil pode mudar para melhor e ser um país mais justo, eu já tinha desistido de ser jornalista e ia fazer coisas que dão mais dinheiro. Mas eu acredito que são etapas. Nós temos ainda muito a fazer. Temos que fazer um sistema educacional que esteja à altura das necessidades do Brasil. E temos que ter uma política de esportes que, antes de mais nada, pense em saúde pública, não em fazer campeões. 

Raramente um jornalista esportivo citaria Gramsci. Na sua opinião, Gramsci continua atual?

Não tenho a menor dúvida. Eu acho que dos autores marxistas ele é dos mais atuais.

Por quê?

Porque ele foi um cara capaz de compreender as mudanças que aconteceram em função da prevalência do sistema capitalista, foi capaz de entender o papel das religiões, embora eu seja absolutamente descrente, e entendeu a sociedade moderna capaz de dar um passo adiante na teoria marxista, no sentido de um entendimento do que seja uma sociedade moderna. Não é à toa que o PCI foi certamente o partido comunista mais avançado de todos os partidos comunistas do mundo.

Você concorda com quem torce contra o Brasil ou a seleção brasileira?

Não. Não porque eu não acredito no quanto pior, melhor. Eu acho que quanto pior, pior. Uma coisa é a disputa esportiva. Outra é a questão política. Eu não acho que o fato de o Brasil ir mal em qualquer competição necessariamente mudará o sistema político. Não é por aí.

Mas é difícil torcer para a CBF, não?

Eu não torço para a CBF. Eu torço por Neymar, por Luan, por Gabriel Jesus. Eu torço por nossos jogadores. Eu esqueço a CBF.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Elke Maravilha: uma baita história de vida


Texto extraído de Wikipédia (Creative Commons)

Elke Georgievna Grunnupp (Leningrado, 22 de fevereiro de 1945 - Rio de Janeiro, 16 de agosto de 2016)
Creative Commons - CC BY 3.0
Wikimedia Commons
Filha de um russo e de uma alemã, Elke nasceu na antiga Leningrado, hoje São Petersburgo. Seus pais resolveram imigrar para o Brasil, um país visto como promissor e bom acolhedor de estrangeiros, onde havia muitas colônias de imigrantes. O casal junto com seus três filhos, instalaram-se em Itabira, no interior de Minas Gerais, em um sítio, onde Elke e seus dois irmãos, passaram toda a sua infância, convivendo com todo tipo de animais rurais, realmente vivendo como uma camponesa. O casal não quis se mudar para uma colônia pois queria viver realmente como brasileiros e aprender os hábitos do país, tanto que Elke se surpreendeu ao conhecer pessoas de diversas etnias e orientações sexuais, um misto de pessoas que não havia em seu país, na época.

Quando Elke se tornou adolescente, a família se mudou para um sítio em Jaguaraçu, outra cidade do interior mineiro, onde Elke continuou a conviver na vida rural, com trabalhos do campo. Lá nasceram seus dois outros irmãos. Muito inteligente, na adolescência já falava, segundo ela mesma afirma, nove idiomas: russo, o português, o alemão, o italiano, o espanhol, o francês, o inglês, o grego e latim. Alguns desses idiomas foram aprendidos em casa, por causa de sua raízes germânicas, e outros aprendeu em cursos, que seus pais pagaram com dificuldade.

Querendo sua independência, já possuindo um bom currículo por conta dos idiomas que falava, saiu de casa aos 20 anos para morar sozinha no Rio de Janeiro, onde pagava seu aluguel trabalhando como secretária bilíngue em escritório. Por sempre gostar de estudar, Elke fez faculdade de Letras, e se formou em professora, tradutora e intérprete de línguas estrangeiras. Para pagar seu aluguel e sua faculdade, Elke trabalhou como bancária, secretária trilíngue. Foi também a mais jovem professora de francês da Aliança Francesa e de inglês na União Cultural Brasil – Estados Unidos.

Morou em Porto Alegre entre 1966 e 1969, onde cursou cadeiras nas faculdades de Filosofia, Medicina e Letras da UFRGS. Em 1971 se casou pela primeira vez, com o escritor grego Alexandros Evremidis.

Elke foi presa no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, em fins de 1971, depois de rasgar, aos gritos de "covardes, como ousam, vocês já o assassinaram!", cartazes com a fotografia de Stuart Angel Jones, filho de sua amiga Zuzu Angel, já então morto depois de torturas na Base Aérea do Galeão. Foi enquadrada na Lei de Segurança Nacional, o que a deixou apátrida.[5][6] Só foi solta depois de seis dias após a intervenção de amigos da classe artística. Anos depois, requisitou a cidadania alemã, a única que possuía.

Sua vida pessoal sempre fora muito conturbada. Morou em diversos países e teve oito casamentos, com homens de diversas nacionalidades. Fez três abortos, fruto de seus três primeiros casamentos, pois jamais quis ser mãe, e sempre achou que com seu jeito rebelde de ser, jamais poderia educar uma criança de forma digna.

Contou em entrevistas que tomava pílula anticoncepcional, mas fora enganada por alguns desses maridos, que queriam ser pais, e em vez de tomar a pílula certa, Elke tomava a pílula de farinha. Após descobrir isto, começou a usar DIU. Elke também foi usuária de todos os tipos de drogas ilícitas, além de todos os tipos de bebida alcoólica, e dizia que não tinha preferência por nenhum tipo de homem, e sim, que tinha pressa de namorar.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Michael Phelps e Usain Bolt: as duas lendas que passaram pelo Rio de Janeiro


Desde já se pode dizer que duas lendas marcaram época nos Jogos Olímpicos do Rio de
Janeiro em 2016. O nadador norte-americano Michael Phelps e o atleta jamaicano Usain Bolt. Dois monstros. O esporte é uma das  atividades humanas que transcendem a política.





Phelps nos fez (coisa rara) torcer aqui em casa por uma equipe dos Estados Unidos, justamente pelo time que ganhou o ouro no revezamento 4x100m medley na noite de sábado 13 de agosto. Nessa prova (que Phelps promete ser a última, mas pode não ser) ele chegou a 28 medalhas olímpicas: 23 ouros,três pratas e dois bronzes.

Usain Bolt chegou à terceira medalha de ouro nos 100 metros rasos na Olimpíada do Rio, com 9s81. A prova é considerada a "mais nobre" competição do atletismo.

Não é o propósito deste post fazer estatísticas, contar número de medalhas ou detalhar a carreira de cada um.




A intenção é só registrar no blog os nomes das duas lendas  que fizeram história na Rio-2016: Michael Phelps e Usain Bolt. Cada um no seu  estilo: Phelps, o maior medalhista da história, mais introspectivo; Bolt, o  tricampeão olímpico nos 100 metros rasos, uma figura extrovertida que cativa o povo por onde passa. Ambos extremamente carismáticos.

Daqui a 100 anos, Phelps e Bolt serão lembrados como os dois grandes que passaram pelo Rio de Janeiro em 2016. Como se fossem a reencarnação de figuras que estiveram nos Jogos iniciados na Grécia, no século VIII a.C.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Liminar libera "Fora Temer" nos Jogos do Rio


"Defiro o pedido de concessão da tutela de urgência para o fim de determinar aos réus que se abstenham, imediatamente, de reprimir manifestações pacíficas de cunho político nos locais oficiais, de retirar do recinto as pessoas que estejam se manifestando pacificamente nestes espaços, seja por cartazes, camisetas ou outro meio lícito permitido durante os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos Rio 2016.”

Clique para ampliar


Este é um trecho da liminar concedida pelo juiz federal substituto do Tribunal Regional Federal 2ª Região (TRF2) João Augusto Carneiro de Araújo. Ele acatou pedido feito pelo Ministério Público Federal (MPF) contra a posição do Comitê Rio 2016 de reprimir manifestações pacíficas contra o governo interino em estádios e ginásios.

Pelo menos no momento, em relação a isso, o Estado de Direito está preservado e o "Fora  Temer", liberado.

A decisão é de primeira instância e pode cair no tribunal. Esperemos que não e a tão violentada Constituição prevaleça.

sábado, 30 de julho de 2016

Donald Trump se aproxima da Casa Branca


Reprodução/Youtube
O magnata Donald Trump, terror do pensamento progressista no mundo, um outsider, representante republicano descolado do establishment político, que ameaça construir um muro para separar os Estados Unidos do México, entre outras propostas consideradas absurdas, pode ganhar as eleições dos Estados Unidos em novembro, contra todos os prognósticos de até poucos meses atrás?

A poderosa máquina democrata comandada por Hillary Clinton, que envolve poderes de Wall Street, do aparato de guerra e dos setores de informação e tecnologia dos Estados Unidos, pode ser derrotada por um candidato considerado histriônico e fanfarrão, ou protofascista, pelos analistas políticos?

O cineasta Michael Moore não apenas acha que Trump pode ser o próximo presidente do país mais poderoso da Terra, como enumera cinco razões para respaldar sua opinião. Em primeiro lugar, ele diz que parcelas dos trabalhadores insatisfeitos com o desemprego podem enxergar em Trump, com seu discurso populista, uma saída para a crise de emprego que abala o país.

A segunda razão é que o magnata republicano pode representar uma reação à ameaça que os neoconservadores acreditam existir num partido (o Democrata) que já elegeu Barack Obama, um negro, duas vezes, e agora pode eleger uma mulher. “Vamos deixar que uma mulher nos governe por oito anos? Depois haverá gays e pessoas transgênero na Casa Branca”, pensariam os conservadores, segundo Michael Moore.

O terceiro e quarto motivos pelos quais o documentarista Moore acha que Trump chegará à Casa Branca se confundem. Podem ser resumidos pela rejeição a Hillary por parte eleitores democratas mais à esquerda (que só votariam na candidata como voto útil) e pela indisposição dos jovens que preferiam Bernie Sanders em relação a uma representante da “velha política”.

Por fim, haverá, segundo Moore, o voto de protesto de parcela considerável dos eleitores contra o sistema político norte-americano, cujas mazelas associam aos democratas e a Obama, o presidente que está há oito anos no poder.

Para Reginaldo Nasser, professor de Relações Internacionais da PUC-SP, as projeções de Michael Moore fazem sentido. Mais do que isso: “É difícil prever, mas Trump, hoje, é favorito, mantidas as circunstâncias atuais, já que os Estados Unidos mudam muito e pode acontecer um fato novo.”

Segundo ele, como Hillary assumiu uma posição conservadora dentro do Partido Democrata para tentar ganhar votos do centro, os jovens que ajudam a compor o perfil de esquerda dos eleitores democratas estão arredios à candidata. A crise que atinge os Estados  Unidos, onde a pobreza vem crescendo, também deve prejudicá-la.

Hillary tem contra si um grande contingente do eleitorado à esquerda que a identifica com causas muito distantes do pensamento jovem e dos setores progressistas. “Ela é bastante conservadora. Por exemplo, é claramente pró-Israel, é belicista e apoia a guerra. O eleitorado democrata mais à esquerda não vota nela. Pode votar, mas como voto útil. Mesmo assim, vai pensar muito”, diz Reginaldo Nasser.

MARC NOZELL/FLICKR CC


Do lado dos conservadores que Hillary quer atrair, também há problemas. “Na cabeça deles, o terrorismo no mundo aumentou com Obama e os latino-americanos estão tomando seu emprego. Vão colocar tudo isso na conta de Obama. Hillary pode ser vítima tanto do descontentamento dos democratas de esquerda como do voto dos conservadores que temem que os democratas de esquerda comecem a mandar no governo”, diz Nasser.

Por fim, há quem considere absurdo que um “maluco” como Trump chegue à Casa Branca. Mas não seria a primeira vez que um “ator”, de fato ou simbolicamente, conseguiria tal proeza. “Ronald Reagan, um ator de fato, não ganhou duas vezes?”, lembra Nasser. O republicano Reagan, presidente dos Estados Unidos de 1981 a 1989, foi ator em Hollywood de 1937 a 1964.

Para o professor da PUC, a força da candidatura de Trump pode ter sido subestimada: "o que a gente não pode esquecer, e aí divirjo um pouco do Moore, é que ele denigre a imagem do Bush e a gente ri. Só que esses caras, Reagan, Bush ou Trump, têm uma equipe de primeira. O sociólogo Erving Goffman fazia uma analogia com o teatro: é preciso ver o palco e o que está atrás. No palco estão os idiotas. Mas os que estão atrás do palco (backstage, os bastidores) não são idiotas, são competentes e poderosos.”

Apesar de tudo, Michael Moore, com seu estilo irônico, previu que o republicano Mitt Romney venceria as eleições em 2012. Mas quem ganhou e acabou reeleito foi Barack Obama.

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*Escrevi este texto para ser publicado originalmente na RBA


Lula propôs apenas um acordo com o capital, mas foi traído


"Por que essa ofensiva diante de um projeto, de um governo que o tempo todo tentou conciliar, desde 2003 até agora, e jamais apostou na ruptura e no enfrentamento?" (André Singer, em debate na USP - 13/04/2016)





Lula ter ido à ONU denunciar abuso de poder e violação da Convenção Internacional de Direitos Políticos e Civis, na "condução da Operação Lava Jato pelo juiz Sérgio Moro e os procuradores da investigação", nas palavras da CartaCapital, foi um fato político relevante. Mais simbolicamente do que na prática, já que, como se sabe, a ONU é uma espécie de "rainha da Inglaterra".

A ONU nada faz de concreto, a partir de sua sede (não por acaso) em Nova York. A destruição e a tragédia da Síria, que era talvez o mais laico e com certeza o mais belo país árabe do Oriente Médio, são a prova definitiva de que a ONU não serve para nada.

Mas, ONU à parte, aqui no Brasil a ofensiva segue na mesma toada, como mostra a capa da Folha deste sábado. Decisões judiciais alimentam manchetes, que por sua vez dão o tom de "verdade" às decisões judiciais, que citam as reportagens em seus arrazoados, e assim sucessivamente. O objetivo é óbvio: seja como for, tirar Lula da disputa pela presidência da República em 2018. A priori, a estratégia talvez não seja prendê-lo, o que poderia ser um tiro no pé.

Mas, voltando à manchete da Folha que ilustra este post, paradoxalmente, a própria Folha de S. Paulo publicou um texto que foi muito reproduzido pelo pessoal de esquerda nas redes sociais. No artigo do dia 26, intitulado "Escracho", a repórter especial do jornal Eleonora de Lucena escreveu:

" O impeachment trouxe a galope e sem filtro a velha pauta ultraconservadora e entreguista, perseguida nos anos FHC e derrotada nas últimas quatro eleições. Privatizações, cortes profundos em educação e saúde, desmanche de conquistas trabalhistas, ataque a direitos.

"O objetivo é elevar a extração de mais valia, esmagar os pobres, derrubar empresas nacionais, extinguir ideias de independência. Em suma, transferir riqueza da sociedade para poucos, numa regressão fulminante. Previdência, Petrobras, SUS, tudo é implodido com a conversa de que não há dinheiro. Para os juros, contudo, sempre há."

O texto da articulista é um dos melhores sobre o golpe, porque não fica apenas no episódio em si, mas resume de maneira cirúrgica o percurso golpista da elite brasileira desde 1932. É um texto precioso (leia a íntegra aqui).

Fico a me perguntar (como diria Mino Carta, cá com meus botões): como pode, um jornal que poderia desempenhar papel importante na defesa dos direitos constitucionais, mais uma vez embarcar num golpe oligárquico e mesquinho?

A elite brasileira e, particularmente, a paulista, poderia apresentar uma proposta de governo a partir da qual pudesse debater com a esquerda. Mas o que eles querem na verdade é só a destruição e o entreguismo.

O velho Claudio Abramo já escrevia, na antiga página 2 da própria Folha, que a burguesia brasileira é burra a ponto de não entender que um povo desenvolvido, esclarecido e inserido no mercado de consumo seria muito bom para o crescimento de todos, inclusive e principalmente do capital.

A perseguição a Lula é absurda. Lula nem mesmo tentou rompimentos. Ele propôs justamente e apenas uma aliança com o capital. Mas nem isso eles entenderam. O objetivo de Lula era superar a miséria para que todos crescêssemos, como mostra André Singer no livro Os sentidos do lulismo, que não chegou a abranger o primeiro mandato de Dilma, já que foi publicado em 2012, mas obviamente escrito antes. 

O fato é que a aliança proposta por Lula não deu certo porque o capital (a indústria e o mercado financeiro) rompeu o acordo unilateralmente, traiu Lula e Dilma e deu o golpe. E mais nada. Como a reacionária UDN faria. Triste país, o nosso.


segunda-feira, 18 de julho de 2016

O encantador canto do bem-te-vi e a histeria do periquitinho verde


Fotos: Reprodução
O lindo bem-te-vi e o passarinho histérico

Um dos maiores poetas do ocidente e fundador da poesia moderna, o francês Charles Baudelaire introduziu uma questão interessante que pode ser discutida até hoje: a natureza não é apenas a vida, mas também a morte. Óbvio. O que é difícil de aceitar.

Mas digo isso para apenas perguntar: você gosta de passarinhos? Eu gosto, mas alguns me agradam e outros me irritam profundamente. O canto do bem-te vi nunca é incômodo; já a histérica maritaca, quando chega em bando e começa a berrar embaixo da sua janela, você pode desistir de tudo: do filme que você está vendo, da soneca que está tirando, de qualquer coisa. É um bichinho realmente chato.

O bem-te-vi encanta. Ele é tão bonito fisicamente como seu canto é encantador e agradável. Ele canta logo que o dia amanhece, e também no fim da tarde. Seu canto não provoca insônia. Como que se mistura aos sons da natureza e do mundo. Parece que está aí desde sempre.

Já a maritaca (que eu prefiro chamar de baitaca) é o oposto. É um bichinho extremamente irritante. Em bandos, esses passarinhos predominantemente verdes ocupam enormes espaços no pouco verde que há na cidade, e você tem a impressão de que eles são tantos que nada mais pode cantar ou se manifestar na natureza urbana - se é que se pode admitir esse termo paradoxal, natureza urbana.

Por quê? Porque (sejamos racionais) para esses bandos de passarinhos verdes histéricos faltam predadores. Simples assim. Não existem gatos suficientes para abater uma parte dessa espécie insuportavelmente chata. E então ela vai tomando conta de tudo, quase como uma praga urbana. Como pequeninas pombas verdes.

É incrível a diferença entre a natureza de uma espécie agradável (o bem-te-vi) e uma espécie irritante (a maritaca). É o que sinteticamente mostram os curtos vídeos abaixo.


O canto do bem-te-vi:




A histeria da baitaca:

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Hector Babenco (1946-2016), um diretor diferenciado


Reprodução/Wikipédia
São Paulo – O cineasta Hector Babenco morreu na noite de ontem (13), em São Paulo, de parada cardíaca, aos 70 anos. Ele era argentino (nascido em Mar del Plata) naturalizado brasileiro e radicado no Brasil há 50 anos.

O diretor tornou-se um dos principais diretores do cinema nacional. Dirigiu Pixote – a Lei do Mais Fraco (1982), O Beijo da Mulher Aranha (1985, indicado ao Oscar de Melhor Diretor), Carandiru (2003), Lúcio Flávio - O Passageiro da Agonia (1977), Ironweed (1987),  Brincando nos Campos do Senhor (1991) e Coração Iluminado (1998). O último longa de Babenco, Meu Amigo Hindu, foi lançado em 2015.

Eu não sou ufanista, do tipo que defende o cinema nacional por ser nacional, o que me parece uma miopia crítica. Pelo contrário, o cinema brasileiro muitas vezes me irrita, dadas a precariedade técnica de incontáveis filmes, a carga extremamente teatral das direções e interpretações, a exploração desmedida e ordinária do sexo, além do abuso de temas relacionados à violência.

Mas a competência de Babenco fazia dele um diretor diferenciado. Dois de seus principais filmes, Pixote e Lúcio Flávio, me marcaram justamente por tratar da violência com extrema lucidez. São cinema, e não teatro filmado. Abordam a violência sem exageros vulgares. Não vi Carandiru: na época (2003), como agora, estava cansado da estética da violência do cinema nacional e me parecia que Babeco tinha se rendido a um gênero de filme ("favela movie") que explorava a violência com objetivos comerciais então dominantes.

O cinema brasileiro perde um de seus expoentes.