quinta-feira, 15 de junho de 2017

Míriam Leitão, Reinaldo Azevedo, Sheherazade: esquerda brasileira precisa deitar no divã




"Detesto as vítimas quando elas respeitam seus carrascos" (Sartre)


O Kiko Nogueira escreveu o que, em linhas mais fragmentadas próprias à rede social, eu escrevi em postagens efêmeras no Facebook. Por isso economizo o trabalho de construir um texto e reproduzo abaixo. A ideia é: por que setores da esquerda brasileira fazem papel tão subserviente? Por que tanta solidariedade a gente como Reinaldo Azevedo, Rachel Sheherazade e Míriam Leitão? Até o PT divulgou uma nota oficial sobre o caso do "ataque de violência verbal" contra a pobre jornalista da Globo! Na minha opinião, Freud explica. A esquerda brasileira precisa deitar no divã.


Por Kiko Nogueira, no DCM 

O caso do voo de Míriam Leitão jogou luz novamente sobre uma peculiaridade de certa esquerda brasileira: a solidariedade automática.

Imediatamente após a publicação da coluna da jornalista sobre um episódio de "violência verbal" de que teria sido vítima, perpetrada ao longo de mais de duas horas por "delegados petistas" e "representantes do partido", muita gente boa acorreu em sua defesa.

Foi covardia, canalhice, fascismo, machismo, intolerância, linchamento, estupidez, mata, esfola, desgraçados, assim não dá, é tudo igual, coitada da Míriam etc etc.

A questão é que Míriam mentiu.

A não ser que tenha na manga alguma evidência que não usou ainda — o que seria igualmente estranho —, os fatos simplesmente não ocorreram como ela contou depois de transcorridos dez dias.

Há pelo menos dois depoimentos de presentes a desmentindo em pontos chaves, além de um vídeo e da própria companhia aérea.

Toda a empatia a Míriam foi baseada em sua história manca. Seus defensores não se preocuparam em checar nada. Bastou enquadrar tudo num formato apriorístico e mandar bala.

Para ficar apenas num exemplo, o bom colunista Leonardo Sakamoto escreveu que "rasgamos o pacto que os membros da sociedade fizeram entre si para poderem conviver (minimamente) em harmonia".

"É um Fla-Flu, um nós contra eles cego, que utiliza técnica de desumanização de quem participa do debate público, transformando pessoas em coisas descartáveis", diz. Etc.

Noves fora o fato de que Sakamoto comprou a versão da colunista do Globo na maior, é preciso lembrar que o clichê idiota do "Fla-Flu" já expirou a data de validade há décadas.

Um lado, o Fla, bate. O outro, o Flu, apanha. Republicanamente.

Num excelente artigo sobre a polarização, o professor Aldo Fornazieri, diretor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, anotou que "nas repúblicas democráticas bem constituídas não é o consenso, não é a paz dos cemitérios, não é a passividade que constroem bem estar e boas leis".

Essa é a hipocrisia nacional, aponta Fornazieri.

É evidente que não se advoga a porrada. Mas é preciso dar às coisas o nome que elas têm. 

Há uma certa noção equivocada de superioridade moral nessa esquerda, que acaba provocando reação desse tipo. A vaidade da falsa humildade. De quem se acha tão acima do adversário que o afaga, por mais criminoso que o outro seja. 

Quando Rachel Sheherazade foi "humilhada" por Silvio Santos, seu patrão e ídolo, a mesma grita se deu.

No dia seguinte, Sheherazade estava rindo das mulheres que a apoiaram incondicionalmente. Nossa colunista Nathalí Macedo comentou sobre essa sororidade.

Sheherazade e Míriam não precisam da sua imensurável bondade cristã porque têm as costas muito mais quentes que a sua e jogam o jogo.

"Detesto as vítimas quando elas respeitam seus carrascos", disse Sartre.

Míriam deseja denunciar o ódio que grassa no Brasil? Ódio mesmo? Ódio figadal?

Que tal, ao invés de falar de si mesma, apelando para seu passado contra a ditadura, meia dúzia de palavras sobre o fato de Sérgio Moro não absolver Marisa Letícia mesmo depois de morta? Sim: depois de morta.

Que tal um auto exame?

Se alguém merece desculpas, são os militantes retratados como uma turba ignóbil de stalinistas no texto — usarei um eufemismo — obscuro de Míriam Leitão, espancados à direita e à esquerda.

Monstros que cantaram "a verdade é dura, a rede Globo apoiou a ditadura".

Mas, com esses, ninguém gasta vela.


terça-feira, 6 de junho de 2017

Putin e Erdogan alertaram Dilma e Lula sobre manifestações de 2013, diz Fernando Haddad


"Tenho para mim que o impeachment de Dilma não ocorreria não fossem as Jornadas de Junho", diz ex-prefeito de São Paulo


Ainda bem que é Fernando Haddad quem fala, e não eu (quando falei que o início do golpe foram as manifestações de 2013, colegas e até amigos vieram pra cima de mim como se eu fosse um blasfemo).

O trecho abaixo é de Haddad publicado na Piauí, agora em junho.

"Durante os protestos de 2013 no Brasil, a percepção de alguns estudiosos da rede social já era de que as ações virtuais poderiam estar sendo patrocinadas. Não se falava ainda da Cambridge Analytica, empresa que, segundo relatos, atuou na eleição de Donald Trump, na votação do Brexit, entre outras, usando sofisticados modelos de data mining data analysis. Mas já naquela ocasião vi um estudo gráfico mostrando uma série de nós na teia de comunicação virtual, representativos de centros nervosos emissores de convocações para os atos. O que se percebia era uma movimentação na rede social com um padrão e um alcance que por geração espontânea dificilmente teria tido o êxito obtido. Bem mais tarde, eu soube que Putin e Erdogan (presidentes da Rússia e da Turquia) haviam telefonado pessoalmente para Dilma e Lula com o propósito de alertá-los sobre essa possibilidade."

A íntegra do texto de Haddad está aqui.

E, abaixo, o link de um artigo de F. William Engdahl, publicado logo após a reeleição de Dilma, em novembro de 2014, no qual o pesquisador chamou a atenção para uma coincidência envolvendo a visita do então vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, ao Brasil, em maio de 2013:

"Dilma Rousseff tinha uma taxa de popularidade de 70 por cento. Menos de duas semanas depois da visita de Biden ao Brasil, protestos em escala nacional convocados por um grupo bem organizado chamado 'Movimento Passe Livre', relativos a um aumento nominal de 10 por cento nas passagens de ônibus, levaram o país virtualmente a uma paralisação e se tornaram muito violentos. Os protestos ostentavam a marca de uma típica 'Revolução Colorida', ou desestabilização via Twitter, que parece seguir Biden por onde quer que ele se apresente. Em semanas, a popularidade de Rousseff caiu para 30 por cento."

O link com o artigo de Engdahl: BRICS’ Brazil President Next Washington Target

Acho que não precisa desenhar.

O único comentário que me ocorre: como podem Lula, Dilma e seus assessores serem tão ingênuos, ou "republicanos", como preferiam dizer? Certamente não foram só Putin e Erdogan que  os alertaram. Mas quantos tenham sido, foi inútil.

sábado, 3 de junho de 2017

O caso Andreas von Richthofen e a esquerda brasileira


"A construção do pós-guerra foi uma coisa fantástica. Daquela tragédia saímos para um momento em que foi possível preservar a liberdade melhorando as condições da igualdade. Ser de esquerda quer dizer isso, queremos liberdade com igualdade. Não queremos tropelias e totalitarismo" (Luiz Gonzaga Belluzzo - Unicamp/31 de maio de 2017).



Os irmãos Richthofen, Andreas e Suzane (Foto: Reprodução)

Ao escrever estas curtas impressões, esclareço que minha preocupação, aqui, não tem a ver com filtros do senso comum. A premissa é que escrevo pensando em algo "más allá", mas sempre dentro da esquerda brasileira.

Dito isso, quero dizer que a esquerda brasileira tem que evoluir muito para ser transformadora. Penso no mestre Pier Paolo Pasolini.

Uso para esta modesta análise impressionista o caso Andreas von Richthofen. Como era de se esperar, após vir a público a informação de que Andreas -- o irmão de Suzane, condenada por ser a autora intelectual do assassinato dos pais em 2002 -- foi encontrado em condições precárias e com "sinais de uso de drogas", não tardaram as abordagens simplistas e, eu diria, espiritual e filosoficamente limítrofes, sobre o caso, por parte da nossa nobre esquerda.

Uma dessas abordagens, típicas, diz o seguinte: "é fácil ter compaixão e empatia pelo Andreas. Bem nascido, loirinho, frequentou os melhores colégios e vivemos, todos, a sua dor. Vimos a destruição da sua família. Solidarizamos a dor dele, quando teve os pais assassinados. Difícil mesmo é enxergar humanidade e ter compaixão e empatia com o viciado que parece vindo de outro mundo. Que é analfabeto. Que sempre morou na rua e que já passou pela cadeia algumas vezes". 

É o que diz Marcelo Feller, advogado criminal.

Data venia, é o mesmo tipo de argumentação que encara um atentado como o de Paris em 2015, ou o de Manchester, no mês passado, com afirmações do tipo: é fácil lamentar as mortes de Paris, mas difícil mesmo é enxergar a humanidade dos assassinados nas periferias de São Paulo etc etc etc.

É como se a pessoa "bem nascida, loirinha", abençoada por ter frequentado "os melhores colégios", fosse destituída de humanidade. É um argumento filosoficamente indefensável. Um argumento que, no limite, justificaria os atentados de Paris de 2015.

Ambos, Andreas e o menino pobre da periferia, merecem a mesma compaixão. A dor de ambos dói igualmente, na alma. Mas na alma deles. A dor é espiritual e física, e existencial. 

Se ser humanista é ser antiquado, eu sou antiquado. A questão de Andreas estar ou não na Cracolândia não importa.

A esquerda, da qual eu faço parte, precisa ir além do materialismo e do determinismo.

É óbvio ululante, como diria Nelson Rodrigues, que o país, e particularmente São Paulo, estão submetidos a políticas higienistas e fascistas. Voltamos décadas no tempo. Sofremos um golpe (que, aliás, foi conseguido de maneira tão fácil que chega a ser deprimente ser brasileiro na atual conjuntura - mas isso é outro assunto).

E não é isso que discuto aqui. Aqui, parto do pressuposto de que o fascismo é incabível no século XXI. Mas, repito: a esquerda brasileira precisa ir além do materialismo e do determinismo.

A esquerda brasileira deveria ler Nietzsche, Dostoiévski, Sartre e Baudelaire, para interpretar a história sob perspectivas menos materialistas e deterministas. Perspectivas que possam superar as abordagens fáceis. Entender o sofrimento de Raskólnikov (o protagonista de Crime e Castigo, de Dostoiévski) da mesma maneira que entende o sofrimento dos perseguidos pelo higienismo fascista de João Doria. São dimensões diferentes. Mas dimensões que precisam ser compreendidas como paralelas. 

A esquerda brasileira precisa se desvencilhar de seus moralismos e ir "más allá", se quiser transformar este pobre Brasil em algo digno de ser chamado de uma nação.

É só isso. Data venia.

domingo, 28 de maio de 2017

Os bichos, George Orwell e o Brasil dos ruralistas


Ainda estamos longe dos porcos de George Orwell


Imagens: Reprodução (esq.) e CHARLESJSHARP / CC 2.0 / WIKIMEDIA


Por Paulo Maretti 

Em A Revolução dos Bichos, George Orwell retrata não a corrupção e o autoritarismo do poder na Rússia pós-revolução, mas o espírito de sadismo crônico que o homem carrega irremediavelmente em sua alma. Orwell personifica os bichos e os transforma em gente, ou, pra quem preferir, espelha em porcos a ganância sem freios e quase sem leis que nos contorna como num desenho.

Pois bem. O problema agora é um Projeto de Lei do deputado federal Valdir Colatto, do PMDB de Santa Catarina e da bancada ruralista (link abaixo), que pretende simplesmente liberar a caça a animais silvestres da fauna brasileira, entre eles a onça pintada, uma das mais colossais belezas da natureza na Terra, que Maias, Incas e Astecas viam como um deus.

Mas o homem branco brasileiro do século XXI, da democracia enformada, da fome psicótica de lucro e da sede seca por poder enxerga como alvo para vender a pele.

Li num site semanas atrás que as baratas vivem, segundo pesquisas científicas, num coletivo solidário, que toma decisões, sempre, em benefício de todos os componentes do grupo.

Ainda estamos longe dos porcos de George Orwell.

***

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Jobim pode ser o curinga e o Palácio do Planalto seu destino?


José Cruz/ABr

Desde o processo do golpe até seu desfecho e mesmo depois, com esse governo de impostores, eu vinha dizendo a amigos mais próximos que meu relativo otimismo se baseava na tradição brasileira de conciliação.

Por causa dessa tradição, acreditava que em algum momento os representantes dos setores civilizados da política brasileira acabariam entrando num acordo para, pelo menos, salvar a democracia e a Constituição.

Ontem, conversando com o velho e bom socialista Roberto Amaral para uma matéria, ele fez a seguinte consideração sobre o cenário sombrio da crise brasileira, agravada com a tal lista do Fachin: “A tradição da política brasileira, lamentavelmente, é sempre a conciliação. Podemos estar diante de uma grande crise ou de uma grande composição. Nenhuma das duas hipóteses interessa à República”.

O professor, como eu o chamo, ex-presidente do PSB, falou sobre as articulações que, pelo que se especula, estariam sendo conduzidas por Nelson Jobim, ex-ministro da Defesa (de Lula), da Justiça (de FHC) e ex-presidente  do STF. O que não é pouca coisa para uma biografia...

No fim de março, Jobim saiu-se com uma pregação de paz, propondo que “os personagens de oposição e os da situação” entrem num acordo para evitar o que ele chamou de “um Trump caboclo”. Jobim também fez enfática defesa de Lula e condenou veementemente a perseguição contra o ex-presidente para evitar que ele se candidate e, possivelmente, venha a ser eleito. "Se nós o proibirmos de ser candidato, estamos fazendo a mesma coisa que fizeram os militares. Contra nós!”, exclamou.

Disse ainda: "Qualquer tipo de linha de proibição [contra a candidatura de Lula], nós aguçamos a radicalização. Nós podemos impedir, agora, que ele seja candidato? Por quê? Porque temos medo de que seja eleito?"

O problema é que a criminalização da política está destruindo o país, suas lideranças políticas, a economia, a Petrobras, que está sendo retalhada e seu patrimônio entregue às petroleiras estrangeiras. O pré-sal, tesouro de valoro incalculável, vendido a preço de banana. Apesar da indignação de setores esclarecidos da sociedade, a sanha punitivista e denuncista levou o país a um patamar tão baixo que é cabível perguntar se existe volta, se há possibilidade de isto aqui um dia poder ser chamado da nação.

Hoje, “o sistema político brasileiro está absolutamente prisioneiro do poder Judiciário e do Ministério Público", disse o deputado Wadih Damous na mesma matéria acima citada. "Eles dão as cartas, são os senhores do tempo (...) Ao manipular o tempo, se manipula a política.”

E, como nota o cientista político Vitor Marchetti, da Universidade Federal do ABC, a lista de Fachin é o clímax de um processo que acaba com as lideranças políticas do país. “E liderança não é uma coisa que se produz em cada esquina, a toda hora. A lista abre caminho a uma nova era da democracia, muito mais sujeita ao voluntarismo, amadorismo e aventureiros.”

Nesse cenário de terra devastada, não sei se ainda cabe algum otimismo. Mas é possível arriscar a especular que Nelson Jobim pode ser o nome da conciliação. Ele pode ser o curinga e o Palácio do Planalto o seu destino.

Leia também:

(de 18/junho/2017): Roberto Amaral: país está diante de golpe dentro do golpe, mas ruas apontam para democracia


Post publicado originalmente em 15/04/2017 (15:44)
Atualizado em 19/05/2017

sábado, 13 de maio de 2017

Um sábio deixou a terra


Marcos Santos/USP Imagens


Por Ulisses Capozzoli, no Facebook – via Bem Blogado


O país que não é pródigo em singularidades perde hoje Antonio Candido.

Dele, vou me lembrar sempre que partilhamos uma fatia de bolo de fubá.

Num café distante, num encontro que não me lembro mais sobre o que.

Ofereci a ele, que me pareceu interessado, a única fatia sobre a mesa.

E ele me propôs, com a generosidade & afeto que marcaram toda sua longa vida:

─ Vamos dividir?

Eu ainda insisti, numa atitude que me pareceu acertada:

─ O senhor pode se servir, por favor… ─ E ele:

─ Não. Vamos dividir, vamos dividir entre nós dois…

Aceitei, deixando que ele fizesse a divisão.

Foi o que ele fez, com um sorriso delicado, que me pareceu prazeroso.

A partilha. O ato que marcou toda sua longa vida.

A partilha do essencial para os humanos:

cultura, afeto, solidariedade &, claro, a inteligência refinada.

Além do pão, naquela tarde distante, uma fatia de bolo de fubá.

Marcel Proust, com sua escrita que desce ao nível subatômico, & que antecipou a existência de quarks como constituintes elementares da matéria, retirou toda sua enorme obra do perfume de uma “Madeleine”.

Eu, que cheguei ao mundo num pontinho das Minas Gerais, devo fidelidade a uma fatia de bolo de fubá.

Como forma de expressar gratidão a esse homem “imprudentemente poético”, num empréstimo feito junto a Walter Hugo Mãe.

Esse homem delicado, mas seguro como árvore de pau-ferro, o autor de “Parceiros do rio bonito”, investigação do caipira paulista & a transformação de sua realidade.

Antônio Candido, que nasceu no Rio de Janeiro, então a capital do Brasil.

Com abrangência fora de compreensão do que agora é a realidade.

Investigando as raízes de São Paulo.

Rio de Janeiro, Minas Gerais & São Paulo, durante longo tempo, uma única província.

Que o ouro uniu & separou.

Minas Gerais, uma invenção das bandeiras paulistas.

Uma ruptura dramática a partir da Guerra dos Emboabas.

Coisa que não interessa a mais ninguém.

Mas, que marca a ferro & fogo a realidade mais dura que se vive agora.

Um ancestral de Eduardo Cunha, o igualmente camaleão & corrupto, Manuel Nunes Viana.

Antonio Candido, em sua passagem, aparece identificado como “sociólogo”.

Mas sociologia é uma carga pontual.

Antonio Candido foi um campo magnético inteiro, atuando sobre um vasto
território da cultura nacional.

Já tinha certa idade, quanto partilhamos nossa fatia de bolo de milho.

Uma das delícias das Gerais, deixadas por lá pela “gente paulista”.

Tinha ele aquela auréola de luz, que só um observador atento percebe.

Antonio Candido parte dessa terra num momento de enorme desconforto.
& nos deixa com um sentimento de orfandade abissal…


quinta-feira, 11 de maio de 2017

O simbolismo da presença de Dilma em Curitiba



HENRIQUE FONTANA
Dilma Rousseff e Lula no aeroporto de Curitiba, com Vagner Freitas da CUT

Dilma Rousseff foi uma figura marcante na noite deste 10 de maio de 2017 em Curitiba, apesar de relegada a um óbvio e natural segundo plano. Não pelo que disse, mas por sua presença até certo ponto surpreendente. Por ter sido a primeira a discursar no ato, depois do depoimento de Lula ao juiz Sérgio Moro na (a partir de hoje) mundialmente famosa 13ª Vara Federal, a chamada República de Curitiba.

A presença de Dilma no evento teve um caráter absolutamente simbólico. Em que pese seus notórios erros políticos (e até por eles), que seria repetitivo enumerar aqui, Dilma é quem foi derrubada pela articulação da qual Michel Temer é apenas uma marionete. Dilma cometeu erros, e não foram poucos, mas ela não pode ser, sozinha, responsabilizada pelo golpe. O seu grande erro foi o início do segundo mandato, mas aí as coisas já estavam meio difíceis (sim, inclusive por erros dela). O ciclo das commodities, que empurraram os dois mandatos de Lula, tinha acabado. E o acordo com o PMDB não foi ela quem fechou, anos antes.

A articulação que levou a marionete Temer ao poder, como se sabe, envolve interesses globais: a destruição do Brasil como nação, da Petrobras (como possibilidade de nação), uma das maiores companhias de petróleo do mundo, colocada na bacia das almas por interesses materializados pela Lava Jato, com seu pretexto de combater a corrupção.

"Tenho certeza que o país não vai continuar  por esse caminho de golpe atrás de golpe", disse Dilma em Curitiba. Os mais exigentes poderiam dizer que faltou uma preposição na frase de Dilma. Sim, faltou a preposição. Mas a frase, aparentemente simples, é carregada de muitas verdades intrínsecas. Porque estamos vendo, desde o ano passado, a comprovação de que Temer não passa mesmo de uma marionete manipulada pelas gigantescas corporações dos Estados Unidos da América, a Roma contemporânea.

E só uma nação mobilizada pode conter a Roma contemporânea. Não depende só de Lula ou de Dilma, nem de ambos juntos. O Brasil precisa ser uma nação.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Por que Sérgio Moro pediu a apoiadores para não irem a Curitiba dia 10?


Quais os motivos que levaram o magistrado da 13ª Vara Federal de Curitiba a pedir a apoiadores e simpatizantes, pelo Facebook (veja vídeo abaixo), para não irem a Curitiba nesta quarta-feira (10), quando está prevista uma grande manifestação a favor de Lula na capital do Paraná, também conhecida como República de Curitiba?

Perguntei a opinião a algumas pessoas. Eis as respostas:



Marco Ferreira, artista plástico (Brasília)  - Isso não merece comentário que não seja de condenação. Ele, Moro, é prefeito de Curitiba? 

Roseli Costa, professora (São Paulo) - O juiz Sérgio Moro antevê um vexame na defesa de seu já abalado "sucesso". Prevê um número risível de adeptos da "Farsa-Jato" perante o grande apoio a Lula. Antecipa-se, dizendo que não é para ir e depois, diante do vazio de apoiadores, explicar: "Fui eu quem pediu!". Também com essa declaração posa de cidadão do bem, que não quer confusões, bem como divide as já fragmentadas opiniões dos brasileiros e causa manchetes na mídia golpista, tal como esta: "Depoimento de Lula gera toque de recolher". Tais palavras tentam ainda mais contrapor o "bom moço" Sergio Moro X o "culpado de tudo" Lula...

Tatiana Fernández, professora (Brasília) - A primeira ideia que a mensagem traz é a menos importante. Ele parte da suposição de que há muita gente que apoia esse processo. E pode haver, desde que ´"muita" tenha uma relação com alguma quantidade de alguma coisa. Ele quer dizer então que há muita gente que o apoia, e que ele prefere que não apareçam. As razões para não aparecer que ele dá são mais preocupantes. Ele pede que não apareçam para não dar confusão, para ninguém sair machucado. Parte da imagem de enfrentamento e deixa no ar a ideia de que os apoiadores do ex-presidente Lula são violentos. Ou que são muitos? Mas todos sabem que manifestantes fascistas, que o apoiam, jamais pedem paz e amor. Ele pode estar com medo deles estragarem mais ainda a sua imagem. O que fica cada dia mais evidente é que o apoio à Lava Jato foi artificialmente criado com robots de media social e marketing pago, como os outdoords em Curitiba. Não há gente atrás disso, há corporações. 

Carmem Machado Luz, editora de arte (São Paulo) - Outro dia li ou ouvi no rádio que um juiz soltou os dois policiais que foram filmados executando dois caras rendidos e algemados alegando que foi pelo "clamor popular". Como assim? Isso é justiça ou justiçamento? Além de terem sido filmados (prova) esses policiais respondem por vários inquéritos de "auto de resistência" ou "resistência seguida de morte".
Desde que me entendo como um ser pensante não confio muito na Justiça, depois veio o conceito de que ela é feita pela elite para a elite. Só que nesse processo do Golpe alguns juízes estão extrapolando, além da conta, como esse excelentíssimo senhor Sérgio Moro que com sua fala nas redes sociais prova, mais uma vez, que tem um lado e, pelo que eu saiba, numa democracia, um juiz não pode ter lado nenhum e tem que julgar pelas provas e não por convicção. 

Paulo Maretti, revisor (São Paulo) - Acho que o embate entre a direita e a esquerda está se acirrando e ficando mais difícil pra eles depois da greve geral, das pesquisas apontando o favoritismo de Lula em 2018, e do fato de Lula estar se apoiando nisso pra rechear seu discurso contra as forças malignas deste país. Lula é uma figura poderosíssima, capaz de derrotar todo o aparato político, jurídico e midiático que favorece os golpistas. Tenho percebido que a direita brasileira é fascista mas medrosa. Está com medo não da pessoa do Lula, mas do mito Lula. Derrubar um mito é um tremendo desafio. Moro, além de querer aparecer como porta-voz e defensor leal da ordem e do progresso, pretende evitar um grande contingente de pessoas presentes no depoimento para não atrair holofotes. Quanto mais gente houver, mesmo que em apoio à temporada de caça ao presidente, maior terá de ser a cobertura da mídia, o que não convém aos propósitos golpistas de tornar os fatos o mais ocultos possível. Certamente não à toa Lula vai prestar depoimento dois dias depois das finais dos campeonatos estaduais de futebol em todo o país. O futebol, qualquer um sabe, sempre foi instrumento de manipulação das massas. Sérgio Moro é um pau mandado. É um juiz que apita um jogo de interesses contrários aos interesses dos trabalhadores e favoráveis ao grande capital. Boa enquete. Aproveitando o momento, grande abraço a todos.

José Arrabal, escritor (São Paulo) - A recente fala de Sérgio Moro não surpreende. É farsa midiática, expressão promocional de seu costumeiro espetáculo de ilegalidades processuais. Ele se faz de bom moço justiceiro, mas está ciente de que seus capangas fascistas vão se manifestar com o mesmo ódio e a mesma violência de sempre. Os intolerantes cartazes contra o presidente Lula, nas ruas de Curitiba, comprovam essa prepotência. Triste verdade também é que a Lava Jato de Moro cumpre seus seletivos propósitos políticos através de evidente desrespeito ao Direito, das normas Constitucionais e do Processo Penal. Com procedimentos corruptores da Lei, mantém perseguições pessoais obsessivas. Assim serve ao golpe de Estado e à manutenção dos atentados praticados contra a soberania nacional pelo governo ilegítimo de Michel Temer, que corrói as conquistas democráticas do passado, desqualifica os direitos trabalhistas, produz um quadro criminoso de desemprego na cidade e no campo, interrompe programas de atendimento social, reduz as oportunidades de educação da juventude e de modo perverso prejudica em especial as camadas mais pobres da população, enquanto concentra polpudos bens nas mãos dos poucos mais ricos, distribui as riquezas estratégicas do país às corporações estrangeiras e já principia a entregar a Amazônia para as  tropas do exército dos Estados Unidos. Triste sina, triste momento. Na sua hora e sua vez o povo organizado, mobilizado nas ruas, há de cuidar e dar melhor destino a tudo isso! Fora Temer!  

Alexandre Maretti, fotógrafo (São Paulo) - O bom moço falando, exemplo de ética. Os pregadores da ordem e progresso.

"Tudo que se quer evitar é alguma espécie de confusão e conflito." Pode ser que ele queira dizer exatamente o contrário,.. Tudo que queremos é confusão e conflito, mas que parta dos malditos comunistas. Curioso é que ele não se dirige a manifestantes de apoio ao Lula, mas somente aos que apoiam a Lava Jato. Há uma comitiva se preparando para esse dia e certamente haverá manifestações e não será só em Curitiba.

Ele deve saber disso.

É claro que há um complô. Novas pesquisas indicam que Lula pode voltar à presidência e pra isso a direita já está tomando providências, impedir novas eleições em 2018.  E como sabemos que os EUA conseguiram  manipular o sistema brasileiro, será difícil retomar o desenvolvimento, e esse processo retrógrado é muito profundo, mas sempre temos saída pras coisas.  Mas penso que o sistema embrionário deles está crescendo e num futuro bem próximo, se der tudo certo para eles (já está a meio caminho, embora o momento esteja meio indefinido e confuso), será implantado um sistema definitivo, mais ou menos parecido com a ditadura militar.  Se possível, o Lula não irá novamente ao poder se não tiver uma forte resistência. O Lula é a maior referência de esquerda e uma das mais carismáticas lideranças no Brasil e quem sabe do mundo. Não podemos perdê-lo agora.

A partir de quarta feira as manifestações podem aumentar, o apoio popular a Lula. As manifestações podem ficar mais intensas e aí o bicho vai pegar. Curitiba vai fechar quarta feira porque Moro quer?!! O Moro está com medo e pode precisar de reforços...



terça-feira, 2 de maio de 2017

Prisão preventiva de Dirceu, decretada por Moro, é revogada no Supremo



Foto: Eduardo Maretti


José Dirceu é a partir de hoje um ex-preso político, depois de decisão da 
Seguenda Turma do Supremo Tribunal Federal que, por 3 votos a 2, revogou sua prisão preventiva. Pela segunda vez, diga-se, pois já foi preso político na época da ditadura militar.

Em fevereiro de 2015, o jurista Celso Antonio Bandeira de Mello me disse, numa entrevista em que comentou o chamado mensalão: "Vou citar um caso paradigmático:  (o Supremo Tribunal Federal) condenou, não apenas o Genoino, mas o Dirceu de uma maneira absurda. E tão absurda que dois expoentes da direita, a saber, Ives Gandra da Silva Martins e depois Cláudio Lembo – que aliás é um excelente constitucionalista, um jurista de muito valor –, os dois disseram que a condenação do Dirceu foi sem provas. Foi absolutamente sem prova. Foi tão escandalosa que essas duas pessoas insuspeitíssimas se manifestaram nesse mesmo sentido".

De fato, ao proferir seu voto na Ação Penal 470 ("mensalão") a ministra Rosa Weber foi a autora de uma afirmação de causar perplexidade e que se tornou símbolo da perseguição a Dirceu: “Não tenho prova cabal contra Dirceu – mas vou condená-lo porque a literatura jurídica me permite”.

Hoje, o STF finalmente concedeu Habeas Corpus e revogou a prisão preventiva do ex-ministro, condenado pelo juiz Sérgio Moro no âmbito da operação Lava-Jato. Votaram pelo habeas corpus a favor de Dirceu os ministros Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski e Gilmar Mendes. Foram vencidos o relator, ministro Edson Fachin, e o ministro Celso de Mello, que negaram o pedido de soltura.

Zé Dirceu e Lula são, na minha opinião, os dois mais importantes articuladores e construtores do PT. Não é à toa que o ex-ministro da Casa Civil de Lula foi anulado da vida pública e tornado sinônimo de corrupção.

No final de março passado, em carta publicada pelo site Nocaute, do jornalista Fernando Morais, Dirceu escreve: "Moro não tem uma prova sequer de que eu tinha 'papel central' na Petrobras. Não existe nenhum empresário ou diretor da Petrobras à época que o afirme; não há um fato, uma licitação, um gerente, um funcionário, que justifique ou comprove tal disparate".

A prisão preventiva é considerada uma das mais violentas práticas da Lava Jato. “A partir do Sérgio Moro, a prisão preventivatornou-se a regra, e não a exceção. Vivemos num país punitivo, um país onde só a punição tem resposta”,  me disse o criminalista Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, um dos mais experientes do país, pouco tempo atrás.

As pessoas não têm ideia de que casos como o de Dirceu são muito mais graves do que supõem. Hoje é Dirceu, amanhã poderá ser você o preso sem prova "preventivamente". É contra esse estado de exceção que os mais importantes juristas do país vêm se insurgindo. Dirceu era um preso político. Aguardemos os próximos capítulos.

***

Leia também:


Na RBA
Para Bandeira de Mello, decisão do STF que liberta Dirceu é volta ao Estado de Direito

Neste blog (10 de outubro de 2012), por José Arrabal: A história vai mostrar quem é José Dirceu

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Belchior, a morte e o paradoxo midiático


Belchior é uma figura sem dúvida importante. Não vou me estender sobre isso (a importância ou não do artista) porque a superexposição do assunto Belchior/morte de Belchior se tornou uma histeria midiática tão grande, nas redes, que não há mais o que se possa acrescentar.

A questão é: Belchior voluntariamente se retirou faz tempo. Ele disse adeus a esse mundo de exposição e histeria, ao show business. Não quis mais saber dessa busca obsessiva por mitos e heróis que é a razão de ser da máquina de moer gente e sentimentos que é o showbiz.

É um paradoxo: apesar dessa atitude definitiva e irrevogável (que se pode traduzir como: "deixem-me em paz"), o mundo insiste na mitificação de Belchior (como de todos os mortos ilustres ou que um dia foram ilustres). Cada um a sua maneira, nas redes sociais, procura algum argumento próximo ou distante para justificar por que ele é um deus (com "d" minúsculo, claro, como diria Nietzsche).   

Mas Belchior, conforme suas letras, nunca quis ser herói nem deus. Só que é em herói e num efêmero deus pop post mortem que ele é transformado.

"Eu sou apenas um rapaz / Latino-Americano / Sem dinheiro no banco / Sem parentes importantes", escreveu o compositor.

Tempos depois de escrever isso, Belchior se retirou. Sumiu. E ninguém, ou quase ninguém (tampouco eu), notou sua falta. E depois morreu. E agora que ele morreu, aparecem as demagogias de jornalistas 5 estrelas e os sentimentalismos inconsoláveis, e as opiniões segundo as quais nada nem  ninguém foi tão grande quanto Belchior no universo terreno, nem Chico, nem Caetano, nem Rolling Stones ou Beatles.

Ora, creio que o próprio Belchior talvez achasse isso tudo ridículo, e dissesse: "menos, pessoal". Ao contrário de muitos heróis do mundo pop, onde o que impera é o ego. Ele morreu em silêncio. O resto é mídia e Freud explica.

domingo, 30 de abril de 2017

Chappie e a consciência humana num pendrive




Chappie (2015), dirigido por Neill Blomkamp, é um filme interessante. Filme com não poucos erros, mas, como ficção científica, vale a pena ver. Discute coisas aparentemente antagônicas, como alma e inteligência artificial. Tem sequências tocantes que remetem a Freud. Discute a morte.  

Também discute a imortalidade, mas não mais como a imortalidade perseguida por Drácula, o vampiro que precisa de sangue para se manter "vivo", e sim a imortalidade que pode ser armazenada em um pendrive. A consciência pode ser transferida de um corpo biológico para um robô.

Não vou discorrer sobre o filme, pois seria interminável. Mas a ideia de você transferir a consciência humana para um ser bio-robótico é fantástica, embora assustadora. É aparentemente impossível, hoje. Mas, como diria Carlos Drummond, "segunda-feira ninguém sabe o que será".

O filme é de 2015. Então, ele não estará "em breve nos cinemas", como diz o trailer acima, pois já foi exibido nos cinemas há dois anos. 

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Deus e o acaso, segundo Luis Buñuel



"Em casa": Reprodução do livro Meu Último Suspiro (Ed. Nova Fronteira)

Pelo mergulho profundo na psicologia, na filosofia, na teologia, com sua abordagem que estilhaça o senso comum, com sua ironia devastadora e seu cinema que causou perplexidade e escândalo, o espanhol Luis Buñuel (1900-1983) é um cineasta impossível de ser definido por parâmetros convencionais da crítica de cinema. Ele é diretor de filmes como L'Âge d'Or (1930), Los Olvidados (1950), Viridiana (1961), Simão no Deserto (1965), A Bela da Tarde (1967), La Voie Lactée (1969), Tristana (1970), O Discreto Charme da Burguesia (1972), Esse Obscuro Objeto do Desejo (1977). Todos esses são obras-primas, fora outros. Tenho uma série neste blog, "Favoritos do cinema", em que falo de filmes que me são caros, mas Buñuel fica fora, porque teria de falar de cada um de seus filmes em particular.

Buñuel foi companheiro de surrealismo do maravilhoso poeta Federico García Lorca (assassinado pelo fascismo franquista espanhol em 1936) e do pintor Salvador Dali. Claro que Buñuel transcende o rótulo de surrealista e é inclassificável, assim como Lorca. Já Dali assumiu o surrealismo como modelo de arte e fonte de lucro.

Mas Buñuel está sempre presente na minha mente. Como hoje, por exemplo, durante agradabilíssima tertúlia com amigos queridos, em que falamos de fé e razão, ciência e espírito.

No livro Meu Último Suspiro (publicado em Paris em 1982 e no Brasil pela Nova Fronteira), Buñuel, que se professava ateu convicto, fala de Deus e do acaso. Não vou comentar. Reproduzo o que ele diz:


Sobre o acaso:

"O acaso é o grande senhor de todas as coisas. A necessidade só vem depois (...) Se entre meus filmes tenho uma ternura particular por O Fantasma da Liberdade, é talvez porque ele aborda esse tema inabordável. O roteiro ideal, com o qual sonhei muitas vezes, procederia de um ponto de partida anódino, banal. Por exemplo: um mendigo atravessa a rua. Vê uma mão que se estende por uma janela aberta de um carro de luxo e joga no chão a metade de um charuto. O mendigo para bruscamente para pegar o charuto. Outro carro o atropela e o mata.

"A partir desse acidente pode ser feita uma série infinita de perguntas. Por que o mendigo e o charuto se encontraram? Que fazia o mendigo àquela hora na rua? Por que o homem que fumava o charuto o jogou fora naquele momento? Cada resposta dada a essas perguntas gerará outras perguntas cada vez mais numerosas. Nós nos encontraremos diante de encruzilhadas cada vez mais complexas, levando a outras encruzilhadas, a labirintos fantásticos, onde teremos que escolher nosso caminho. Assim, seguindo causas aparentes que na realidade são apenas uma série, uma profusão ilimitada de acasos, poderíamos remontar cada vez mais longe no tempo, vertiginosamente, sem uma interrupção, através da história, através de todas as civilizações, até os protozoários originais.

"Claro está que é possível tomar o roteiro pelo outro sentido, e ver que o fato de jogar o charuto pela janela de um carro, provocando a morte de um mendigo, pode mudar totalmente o curso da história e conduzir ao fim do mundo."

***

"Ateu graças a Deus"

"Ao aproximar-se meu último suspiro, muitas vezes imagino uma última brincadeira. Convoco aqueles de meus amigos que são ateus convictos como eu. Tristes, eles se distribuem em torno de minha cama. Chega então um padre que mandei chamar. Para grande escândalo de meus amigos, confesso-me, peço a absolvição para todos os meus pecados, e recebo a extrema-unção. Após o que, viro-me de lado e morro."

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Libertadores, futebol e subdesenvolvimento


Foto: Divulgação/Conmebol

Há quem defenda a Libertadores, na comparação com a Copa dos Campeões da Europa (hoje é mais chique: UEFA Champions League). Eu não estou entre esses. "Isso é Libertadores" é uma frase tão clichê e tão sintomática da subcultura que não discuto mais isso. Não tem como comparar o futebol europeu com o sul-americano. A verdade é que "lá [na Europa] eles jogam futebol e aqui nóis joga bola", como me disse um vizinho de condomínio. Não estou a fim de discutir sociologia ou complexo de vira-lata (coisa mais velha que minha avó), que, no caso do futebol, hoje, é uma discussão distorcida, porque o fato é que um Juventus x Barcelona é muito mais espetacular do que qualquer "crássico" sul-americano, e sinto muito.

Em poucos minutos de Independiente Santa Fé x Santos, pela terceira rodada da Libertadores 2017, o time da Colômbia mostrou como se pode ser criminoso no futebol. Uma entrada de um colombiano, que deu uma voadora no lateral direito do Santos Victor Ferraz logo no início do jogo, foi apenas uma amostra de como é estúpida essa cultura de vale-tudo que vigora sob o manto de "isso é Libertadores". Se o jogador acerta o santista de jeito, poderia inutilizar o atleta para o futebol. O absurdo é que, apesar da violência dos colombianos, quem acabou expulso foi o Jean Mota, do Santos, aos 34 minutos do segundo tempo, por um segundo cartão amarelo burocrático.

A violência não parou por aí. Ela predominou no jogo dos colombianos, que para mim se tornaram símbolo da deslealdade com o lance em que o tal Zuñiga tirou Neymar da Copa de 2014. A esta observação acrescento a exceção honrosa do Atlético Nacional, da mesma Colômbia, que abriu mão da Copa Sul-Americana de 2016 em favor da Chapecoense, devido à tragédia que se abateu sobre o clube catarinense.

Palmeirenses protestaram no Facebook quando reclamei do alviverde ganhar do Peñarol aos 54 minutos do segundo tempo. Segundo palmeirenses, eu não falei da catimba dos uruguaios. Mas os palmeirenses não entenderam exatamente o que falei quando eu disse que, na Libertadores, vigora uma cultura futebolística de subdesenvolvimento, segundo a qual vale tudo e tudo vale. Inclusive a malfadada catimba, a violência e todo tipo de coisas estranhas extra-futebol, tais como um time mandante ganhar com um gol aos 54 minutos do segundo tempo. Eu não quero que meu time ganhe assim.

Mas, voltando ao jogo Santa Fé x Santos, o empate em 0 a 0, fora de casa, foi muito bom para o Peixe num jogo muito ruim. Terminado o primeiro turno (no qual fez dois jogos fora de casa), o alvinegro praiano é líder do grupo com 5 pontos. No segundo turno, fará duas partidas como mandante, contra o próprio Santa Fé e diante do Sporting Cristal (fora será contra o mais forte, o temível The Strongest, da Bolívia - apesar da ironia, o Strongest é enjoado mesmo, e uma boa equipe). Mas a classificação do Santos será tranquila.

E torço muito para o Santos pegar o Palmeiras em um mata-mata nesta Libertadores. Acho que o Santos é muito mais time, apesar de Dorival Júnior, e, se esse encontro acontecer, o Santos eliminará os palestrinos. 

sábado, 15 de abril de 2017

Manifesto do Projeto Brasil Nação - por Luiz Carlos Bresser-Pereira



Foto: Marcia Minillo/RBA


Do Facebook de Luiz Carlos Bresser-Pereira


- um manifesto em busca de um Brasil novamente unido em torno do desenvolvimento e da justiça

O movimento Projeto Brasil Nação nasceu da grande preocupação com o que está acontecendo com o Brasil. É um movimento político para devolver ao Brasil a ideia de nação. Hoje, ao invés de uma nação coesa buscando a democracia e a justiça social, como éramos nos anos 1980, somos uma sociedade dividida, na qual um governo nascido de um golpe parlamentar tenta impor ao povo brasileiro uma política liberal radical. Hoje, ao invés de uma economia que cresce fortemente, a uma taxa superior a 4 % ao ano, somos desde 1980 uma economia semiestagnada, crescendo menos de 1%. Estamos, portanto, diante de uma crise econômica de longo prazo, que foi agravada pela descoberta de um amplo esquema de corrupção envolvendo empresas, políticos, lobistas e funcionários de empresas estatais. Embora a corrupção envolvesse políticos de todos os partidos, ela abriu espaço para um liberalismo radical moralista, de direita, como eu nunca havia visto antes. Uma verdadeira luta de classes de cima para baixo. Dada esse diagnóstico geral, realizamos uma série de reuniões para redigir o manifesto que agora estamos tornando público. 

O nome do movimento Projeto Brasil Nação é constituído de três substantivos unidos que dizem bem o que queremos: um Brasil que volte a ser uma nação e tenha um projeto de desenvolvimento econômico, político, social e ambiental. 

A última vez que a nação brasileira foi forte e soberana foi nos anos 1980, quando nos unimos para aprovar uma Constituição democrática e social. Mas em seguida começou a divisão, porque os liberais a viram como excessivamente social, envolvendo uma carga tributária alta demais, e porque boa parte dos brasileiros perderam a ideia de nação diante da hegemonia ideológica do liberalismo internacional. Em consequência o Brasil, desde 1990, através da abertura comercial, da abertura financeira, das privatizações de monopólios públicos, e de uma política de altos juros e câmbio apreciado crônica e ciclicamente, passou a ter um regime de política econômica liberal, desindustrializou-se e passou a crescer a uma taxa per capita quatro vezes menor do que a vigente no regime de política econômica anterior, que era desenvolvimentista. No período em que o PT esteve no poder (2003-2015) houve tentativas de mudar esse quadro, mas fracassaram. Afinal, tanto nos governos conservadores como nos progressistas, a alta preferência pelo consumo imediato dos brasileiros refletiu-se no populismo fiscal e principalmente no populismo cambial, que aumentou artificialmente o valor dos salários e dos rendimentos rentistas (juros, dividendos e aluguéis) enquanto causava desindustrialização e baixo crescimento. 

Diante desse quadro, entendemos que precisávamos de um documento que não fosse uma simples manifestação de protesto e indignação contra o atual governo, nem pretendesse ser um projeto para o Brasil que cobrisse todos os campos. Precisávamos de um documento que enunciasse valores, e definisse apenas uma das áreas desse projeto – a econômica. Foi daí que nasceram os cinco pontos econômicos do projeto:  

(1) regra fiscal que não seja mera tentativa de reduzir o tamanho do Estado a força, como é a atual regra;  

(2) taxa de juros mais baixa, semelhante à de países de igual nível de desenvolvimento;  

(3) superavit em conta-corrente necessário para que a taxa de câmbio assegure competitividade para as empresas industriais eficientes; 

(4) retomada do investimento público;  e 

(5) reforma tributária que torne os impostos progressivos. Enfim, precisávamos de um programa que fosse uma clara alternativa tanto ao populismo cambial combinado com desrespeito aos direitos sociais, quanto ao populismo cambial. O manifesto define essa alternativa. 

São dois os próximos passos: obter através de internet um grande número de assinaturas para o documento; e conversarmos com os partidos políticos e movimentos sociais que estiverem interessados em esclarecer e aprofundar as questões e as políticas que estão no manifesto. 

É importante assinalar que o movimento Projeto Brasil Nação não é partidário. Nem pretende ter a chave para todas as questões. É um movimento de cidadãos que quer mostrar que EXISTE UMA ALTERNATIVA PARA O BRASIL – uma alternativa que poderá unir trabalhadores, empresários, classes médias em torno das ideias de nação, desenvolvimento econômico, diminuição das desigualdades e proteção do ambiente. 

Caso queira se juntar a nós, entre no link www.bresserpereira.org.br/ , leia o manifesto Projeto Brasil Nação, o subscreva, e passe a divulgá-lo para que outros também o assinem. E para que todos nós possamos mostrar que a nação brasileira não está morta, que não estamos condenados à dependência, à divisão interna, à desigualdade e ao baixo crescimento.




domingo, 9 de abril de 2017

Dia de Guarani x Portuguesa, dia de tradição e nostalgia


Clássico de hoje pela série A2 do paulistinha: Guarani x Portuguesa. Pode soar como brincadeira ou ironia, mas não é. São dois clubes de grande tradição. 

Hoje, no Brinco de Ouro, a Lusa vencia até os 47 do segundo tempo, quando o juiz deu pênalti pro Guarani. Foi mão na bola, segundo o juiz, apesar de eu achar que foi bola na mão. Dúvida. Mas, na dúvida, a arbitragem sempre foi e sempre vai contra a Lusinha. Eita sina. Final, 1 a 1. O Bugre está em quarto lugar e hoje estaria na semifinal, enquanto a Lusa perdeu a chance de se aproximar dos 4 líderes e, agora em décimo lugar, tem poucas chances de disputar o acesso à primeira divisão estadual.

Grandes histórias


O Guarani foi o primeiro e único time do interior paulista a ser campeão brasileiro (1978). A Lusa era um dos indiscutíveis cinco grandes de São Paulo. Nos anos 70 tinha uma esquadra onde formavam Zecão, Calegari, Badeco, Dicá e o grande Enéas, entre outros. 

Em 1996 foi vice-campeã brasileira, perdendo a final em Porto Alegre para o Grêmio por 2 a 0. O tricolor gaúcho tinha mais time, foi campeão com justiça, mas foi uma pena a Lusa não ter levantado a taça, porque merecia ter sido campeã nacional.

A Portuguesa já foi uma fábrica de jogadores. Entre muitos que revelou para o futebol brasileiro, estava Enéas (nome do herói do poema de Virgílio), que jogou na época de Pelé (Santos), Rivelino (Corinthians), Pedro Rocha (São Paulo) e Ademir da Guia (Palmeiras).


A Lusa de 1975: Enéas é o segundo da esquerda para a direita, agachado

O Guarani era uma indústria fabulosa de craques. Careca, Neto, Zenon, Luizão, Evair, .Djalminha! Todos foram revelados lá. Há quem considere que, se Careca tivesse jogado contra a Itália em 1982 em Sarrià, o Brasil não teria perdido para a Itália de Paolo Rossi por 3 a 2. Mas Careca estava fora, e jogou Serginho Chulapa, que não estava à altura daquele time de craques (apesar do valor de Serginho e de tudo o que fez). Estou entre os que acham isso.

No meu Santos, dois bicampeões brasileiros (2002 e 2004) vieram do Bugre: Elano e Renato.

Estive muitas vezes no Canindé. Numa delas, em 1993, testemunhei o gol de placa de Dener, o jovem craque que morreu tão cedo num acidente de carro (em 1994, com 23 anos). Naquele 1 de maio de 1993, numa partida em que o Santos vencia por 2 a 0 no segundo tempo, de repente baixou o capeta no jovem Dener e, em cerca de 15 minutos, o jogo estava 4 a 2 para a Lusa.

Lusa e Guarani são dois grandes que hoje infelizmente estão mergulhados numa luta melancólica para sobreviver.

O gol de placa (com narração do velho e bom Silvio Luiz) foi esse: