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sábado, 19 de julho de 2014

Um brinde a João Ubaldo Ribeiro (1941-2014)



Foto: Nerivaldo Góes (ASCOM/FPC)

Uma vez, como repórter de cultura do Estadão (lá se vão 25 anos), tomei um uísque com João Ubaldo Ribeiro, acho que por ocasião da 20ª Bienal Internacional do Livro, em 1989, ano em que ele lançou o romance O Sorriso do Lagarto, que eu havia resenhado para o jornal (isso não tem na internet, naquela época ainda não existia nem Windows, a gente usava na redação um sistema DOS).

Lembro de um pequeno caso que ele contou à mesa durante aquele uísque. O caso foi que ele ficou sabendo de “fofocas” segundo as quais tinha sido visto passeando de mãos dadas com “uma moça” muito, mas muito mais jovem do que ele, no Rio de Janeiro. O que não era recomendável a um homem de 48 anos, casado. E mesmo que não fosse casado, era um pequeno escândalo, digno de ser comentado por aí.

– Só que aquela moça com quem eu estava andando é minha filha! – contou, entre risos, mas ao mesmo tempo indignado com a bisbilhotice tosca da sociedade, sedenta por saber (e falar mal) da vida alheia.

Ao contar isso, sorria aquele sorriso próprio dos baianos, divertindo-se com a estupidez dos fofoqueiros. Em João Ubaldo, o sorriso baiano ao narrar uma história fazia parte da linguagem, fosse a linguagem literária, fosse a de sua expressão facial.

Em palestras, João Ubaldo se referia a muitas pessoas como amigas (“fulano é meu amigo”; “beltrano é muito meu amigo”). Podia ser Antônio Carlos Magalhães, podia ser Jorge Amado, mas principalmente era Glauber Rocha.

Ubaldo era um ser político: todos que o conheciam minimamente sabiam que ele tinha uma amizade sincera, de irmão mesmo, pelo baiano Glauber Rocha, a quem amava, ou pelo baiano Jorge Amado, a quem igualmente amava, mas, no caso de Jorge, mais como uma espécie de padrinho espiritual-literário; e todos que o conheciam minimamente também sabiam que sua amizade pelo oligarca baiano Antônio Carlos Magalhães, ou pelo maranhense José Sarney, seu colega de Academia, era política.

João Ubaldo era um homem que transitava pela cordialidade, entendida sob a ótica mais ampla segundo o conceito de Sérgio Buarque de Holanda. Não estou dizendo que ele era o homem cordial, mas que entendia o que era esse conceito. Entendia vivendo.

Para ele, ser amigo independia de posições políticas. Podia ser o jardineiro, o senador, o cineasta, o porteiro do prédio ou o grande escritor, qualquer um desses podia ser seu amigo, se aquele cara merecesse esse epíteto, segundo o modo de ver o mundo de João Ubaldo, incapaz de trair qualquer tipo de lealdade.

Além de tudo, João Ubaldo era um grande escritor.

Quando muito jovem, muito tempo antes de conhecê-lo ou escrever sobre ele, li o livro que até hoje é o que mais gostei entre os que li de sua bibliografia: Sargento Getúlio, uma obra-prima da literatura brasileira, em exemplar do saudoso Círculo do Livro, há muito tempo extinto. Recomendo, seja em que edição for.

Enfim, espero que São Pedro, ou seja lá quem estiver ali na portaria, perdoe os pecadilhos do baiano de Itaparica João Ubaldo Ribeiro, que morreu na madrugada deste 18 de julho de 2014, e o deixe passar, e quem sabe ainda tomar uma última e prazerosa dose de uísque, de saideira.


terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Lêdo Ivo (1924-2012)


Morreu o poeta alagoano Lêdo Ivo. Ele estava em Sevilha, na Espanha, com familiares, onde passaria o Natal, quando se sentiu mal, parece que ao jantar num restaurante. Tinha 88 anos. Ele nasceu em Maceió, a 18 de fevereiro de 1924.

Tive contato com Lêdo Ivo entre 2001 e 2002, quando eu organizava o livro Escritores – 43 entrevistas da Revista Submarino (editora Limiar). É que ele era um dos entrevistados. Na ótima entrevista concedida à repórter Camila Claro (então a mais jovem e mais erudita da equipe) ele mencionou que tinha em seu arquivo um poema inédito de Carlos Drummond de Andrade. Durante a organização, conseguimos que ele nos enviasse o poema de Drummond. Chama-se “Greta Garbo”. Está lá, publicado logo após a entrevista dele, na página 130 de Escritores.

Na época do lançamento, liguei para o poeta, conversamos um pouco e anotei seu endereço para enviar-lhe um ou dois exemplares. Graças a isso o livro Escritores está lá na biblioteca da Academia Brasileira de Letras, da qual ele era membro.

Lêdo Ivo era assim, solícito, simples, afável, receptivo, bem-humorado. Começou a longa jornada pelas letras muito jovem. “Aos 16 anos, em 1940, ligou-se ao grupo do poeta e ensaísta Willy Levin e participou do I Congresso de Poesia do Recife, a seu lado e de João Cabral de Mello Neto”, nos conta Camila na introdução da entrevista. Nesta, Lêdo Ivo revela muitas histórias de sua geração. Fala de literatura e de bastidores (ótimos bastidores), das gerações de 22 e de 45, de suas relações com os poetas João Cabral, Oswald de Andrade, Drummond e outros. Conta sobre suas divergências com Oswald de Andrade, narra um caso que mostra a vaidade e a ambição do poeta paulista.

Mordaz e bem-humorado, fala de um volume de correspondência trocada entre João Cabral, Drummond e Manuel Bandeira: “...há uma parte desse livro em que Cabral me trata com certa ironia. Ele envia para Drummond uma antologia e diz que ‘os Lêdos Ivos da Espanha também estão presentes nesse volume’. Mas isso é muito engraçado porque, ao mesmo tempo em que ele me ironiza, em 1947 escreve para mim falando mal de Drummond (risos)”.

Sobre a geração de 1922: “certos círculo literários achavam que a poesia só tinha um caminho, quando a poesia tem mão dupla, mão tripla, não é?”

Apesar das divergências, disse sobre Oswald de Andrade: "Existem amizades e inimizades, mas aí vem o tempo e apaga tudo. Tenho muitas saudades de Oswald de Andrade".

Humilde, disse também na entrevista: “o melhor de mim, se é que há algum melhor, são os versos longos, os respiratórios, o poema grande, narrativo. Em minha geração sempre fui considerado uma espécie de ovelha negra, fui expulso da geração de 45 sete vezes! (risos)”.

São muitas as histórias que Lêdo Ivo tinha em sua memória, algumas das quais estão na entrevista de Camila no Escritores. Agora, as histórias que ele contou e as que não contou, leva todas consigo para a escuridão do tempo.


*Publicado originalmente às 13:04 de 23 de dezembro de 2012