quarta-feira, 24 de agosto de 2011

A cidade de Gilberto Kassab

São Paulo vive um dos mais graves momentos de sua história. Sob a gestão do atual prefeito, comunidades e bairros inteiros são vítimas de projetos excludentes, autoritários e inaceitáveis

Foto: Edu Maretti

A foto acima (clique nela para ampliar) foi feita agora há pouco, na esquina da avenida Corifeu de Azevedo Marques e rua Nossa Senhora da Assunção, no Butantã, próximo à USP. A imagem tomada pelo lixo é literalmente uma metáfora da situação moral e administrativa que vive a cidade de São Paulo gerida pelo prefeito Gilberto Kassab, ex-DEM, e agora tentando viabilizar o fantasmagórico PSD.

A política de Kassab é excludente, privatizante, elitista e, para resumir, claramente fascista.

Fora o problema de uma cidade mal cuidada, administrada segundo interesses bem definidos (por exemplo, asfalto novo em bairros nobres e ruas esburacadas em bairros menos nobres), fora o lixo, o fechamento de vagas nos albergues e outras mazelas, há os projetos que são verdadeiras aberrações urbanas e sociais. Confira alguns:

1) Está pendente de decisão no Tribunal de Justiça de São Paulo ação judicial contra a Lei municipal 14.917/09. A lei, para fazer cumprir o objetivo de revitalização da região de Santa Ifigênia/Luz (centro de da capital), simplesmente delega a empresas privadas o poder de desapropriar imóveis, e autoriza que até 60% dos imóveis do bairro sejam desapropriados e demolidos por e para exploração de empresas particulares. O relator do processo no TJ, desembargador Sousa Lima, já votou pela legalidade da lei. O julgamento foi suspenso e adiado a pedido do desembargador Roberto Mac Cracken. A nova data para a decisão do TJ seria exatamente esta quarta-feira, 24 de agosto.
* (Atualizado às 18:27 de 24/08) - E, infelizmente para a cidade e os moradores, o Tribunal de Justiça de São Paulo decidiu agora há pouco, por unanimidade, manter a lei 14.917/09, autorizando a continuidade do projeto de Kassab.

A ação foi movida pelo Sindicato do Comércio Varejista de Material Elétrico e Aparelhos Eletrodomésticos no estado de São Paulo (Sincoelétrico), em nome de lojistas da região da Santa Ifigênia. Segundo o site Santa Ifigênia On Line , as remoções arbitrárias de moradores da região para a implantação do projeto Nova Luz “estarão entre as novas denúncias da relatora da ONU para moradia adequada, Raquel Rolnik”, para quem o projeto caracteriza uma política de “terra arrasada” e vai destruir o último bairro com “traçado urbanístico do século 18”.

2) A construção do futuro estádio do Corinthians em Itaquera, zona Leste, também é objeto de inúmeras denúncias de desrespeito a direitos e desapropriações compulsórias. Tanto esse caso como o da Santa Ifigênia e do projeto da Água Espraiada (veja abaixo) serão denunciados à ONU, diz Rolnik.

3) O PL 25/2011, aprovado na Câmara Municipal pela maioria kassabista, prevê a construção de um túnel de 2,7 quilômetros para ligar a avenida Roberto Marinho (antiga Água Espraiada) à Rodovia dos Imigrantes. Aproximadamente 40 mil pessoas que moram nas favelas da região serão sumariamente removidas, e para isso receberão uma bolsa-aluguel de 300 reais para deixar seus lares. Imagine o que se pode fazer com 300 reais. Custo da obra? R$ 4 bilhões, isso mesmo, 4 bilhões de reais, quatro vezes o valor estimado do Itaquerão. A comunidade do Jabaquara criou o blog Tragédia Social no Jabaquara para tentar combater o projeto.

4) O prefeito de São Paulo conseguiu também fazer aprovar por seus cordeiros que atendem pelo apelido de vereadores a lei 15.397/2011, que permite a venda de um terreno de 20 mil metros quadrados no Itaim-Bibi, zona Sul de São Paulo. Ali funcionam uma creche, uma pré-escola, uma escola, um posto de saúde, um Centro de Atenção Psicossocial (Caps), um teatro, uma biblioteca e uma unidade da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae).

Por enquanto, essa lei absolutamente inaceitável está suspensa por julgamento do juiz Adriano Marcos Laroca, da 8ª Vara de Fazenda Pública da capital. O juiz se baseia, entre outros, no argumento de que o local que Kassab quer doar à iniciativa [privada] é objeto de tombamento no Condephaat, órgão estadual de preservação do patrimônio histórico e cultural.

Atualizado à 01:26

5 comentários:

Felipe Cabañas da Silva disse...

Um título mais apropriado para o belo post seria "A anti-cidade de Kassab". Com Kassab, ex-secretário do príncipe da lisura Celso Pitta, herdeiro direto do fascismo malufista, a cidade de São Paulo se torna cada dia mais desigual, anti-democrática, suja e sufocante.

Algo interessante a acrescentar ao seu posto, Edu, é que Kassab é o prefeito da especulação imobiliária, já que o SECOVI, o sindicato das empreiteiras, foi um dos maiores doadores de campanha do "prefeito". A especulação imobiliária desenfreada e de proporções quase inéditas gera uma tragédia social de envergadura maior que a tragédia social do Jabaquara, já que um cinturão de novas favelas cresceu em São Paulo como consequência dos preços exorbitantes dos imóveis. Essa questão foi objeto de uma reportagem interessante da folha, que pode ser vista aqui:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1807201101.htm

É para assinantes. Algo que está me incomodando em relação ao governo Dilma é que a lata de lixo política que é o PSD pode ser usada como escudo em caso de crise Dilma x Base, mais especificamente Dilma x PMDB. Que o PT se rendeu à realpolitik, já é sabido. Mas há um limite de sacrifícios a se fazer em prol de governar...

Edu Maretti disse...


Sem comentários, é tudo verdade.

Suely disse...

O Prefeito Gilberto Kassab está lançando projetos faraonicos para tirar da classe média, desapropriando-a, e dar aos bilionários para se locupletar. A população paulistana deveria trabalhar pelo impeachment do prefeito, já que a Declaração de Direitos Humanos está sendo desrespeitada na cidade com a Concessão Urbanística e da Nova Luz, do tunel da Agua Espraiada, da permuta do quarteirão do Itaim, etc. Através seus projetos percebe-se que tal administração é voltada para a satisfação dos desejos dos especuladores imobiliários, tanto da AIB-Associação Imobiliária Brasileira quanto de outras latitudes, sem nenhum compromisso com o bem-estar e os direitos do cidadão paulistano

alexandre disse...

Concordo ao quadrado com vcs. Mas quem votou no Kassab foi a maioria de menor poder aquisitivo. A classe média também votou nele. A mídia colaborou. Eu estou tranquilo com minha consciência, não votei nesse elemento. Agora vão perder suas casas e suas favelas. è um preço que se paga pela mentalidade burra e ignara. agora vai ter que se remediar com ações e medidas para conter essa política fascista. E olha, foto de sujeira não seria problema. Essa foto do blog já ilustra o momento vergonhoso pelo qual passamos.A cidade do kassab é a cidade do lixo.

carmem disse...

nessas horas sempre me lembro do meu amigo xico santos que, depois daquela risada, me disse um dia: "lei, que lei? aquela que sempre foi feita por eles pra eles mesmos?"
Qual é a saída, fazermos a nossa primavera de (xô)praga? pintar a cara de cor-de-rosa-choque e dizer que a gente não quer isso pras gentes da nossa cidade? kem sabe?