sexta-feira, 13 de abril de 2012

O Espírito do Santos (parte 1)



CENTENÁRIO



Fotos: Ricardo Saibun (Neymar) e Reprodução
As quatro geraçôes: Juary, Pelé, Neymar e Robinho


Introdução e o time de Neymar

Neste sábado, 14 de abril, o Santos Futebol Clube completa 100 anos. Para marcar a data, escrevi um ensaio que publicarei aqui em quatro partes, a partir desta sexta-feira e nas próximas três quintas, dias 19 e 26 de abril e 3 de maio de 2012.

Um amigo aconselhou-me a registrar este trabalho, a partir de seu título (O Espírito do Santos), na Fundação Biblioteca Nacional. Estou seguindo esse conselho, já que no futuro talvez venha a publicá-lo em livro, possivelmente com um desenvolvimento maior.

Este ensaio não se propõe a falar da história do Santos F. C de um ponto de vista estatístico/historiográfico, tarefa importante mas pouco literária e não tão apaixonante. E, de resto, números e estatística não faltam - o que uma simples busca no Google demonstra.

A ideia é fazer um recorte. Algo que seja também simbólico e significativo, eu diria espiritual, na história do clube fundado em 14 de abril de 1912, segundo seu site na internet, “por iniciativa de três esportistas da Cidade (Francisco Raymundo Marques, Mário Ferraz de Campos e Argemiro de Souza Júnior).

Uso a palavra espírito deliberadamente, para caracterizar uma espécie de “reencarnação” desse futebol que se confunde com a arte, do futebol moleque, do futebol ousadia – termo este consagrado por Neymar.

Espírito que se manifestou essencialmente em quatro gerações santistas:

A dos anos 1960, de Pelé, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe, mas que começou a se configurar em meados de 1950, exatamente em 1956, quando o menino Pelé chegou à Vila levado por Waldemar de Brito.

Que se manifestou em 1978, naquela esquadra conhecida pela mortal linha de frente com Nilton Batata, Juary e João Paulo, um time que também tinha no meio de campo feras como Ailton Lira, Clodoaldo e Pita, mas que me marcou menos porque foi um time muito efêmero, embora à época, adolescente, eu não perdesse os clássicos no Morumbi (onde o São Paulo era freguês) que disputavam os então chamados “meninos da Vila”.

Em 2002, com o time que levantou os Brasileiros de 2002, tirando o Alvinegro de uma fila de 18 anos sem um “título importante”, e 2004, e teve nos meninos Robinho e Diego os porta-estandartes a carregar a bandeira do espírito do Santos, embora Diego não tenha permanecido até o fim da temporada de 2004.

E que se manifesta agora, na geração de Neymar e Ganso, cuja história ainda está sendo contada.

As quatro gerações que representam o Espírito do Santos em toda sua história têm em comum um outro dado relevante: todas foram frutos de apostas na base, a alma do clube. Os símbolos negros dessas quatro gerações que construíram a lenda dos meninos da Vila são Pelé, Juary, Robinho e Neymar. Claro que os gigantes das conquistas foram muitos: Gilmar, Mauro Ramos de Oliveira, Ramos Delgado, Zito, Pepe, Clodoaldo, Edu, Cejas, Ailton Lira, Rodolfo Rodriguez, Elano, Fábio Costa, Renato e incontáveis outros. Citar nomes no caso do Santos é ser injusto, porque em qualquer lista sempre haverá muitos esquecidos. No caso do time de 1978, aliás, Juary nem era o principal jogador do time, cujos maiores craques estavam no meio de campo: Clodoaldo, Ailton Lira e Pita.


A geração do Rey

Foto: Ricardo Saibun/Santos FC


Se a geração de Pelé foi a mais importante, pois introduziu o clube definitivamente no rol dos grandes do país e do mundo, a de Neymar já alcança também níveis elevados. Existem curiosas coincidências na história do Santos. Por exemplo: lá, jogou o Rei. E depois de 48 anos, com os santistas já cansados da ladainha dos adversários (“ o Santos ganhou a Libertadores quando era com bola de capotão”, ouvi certa vez), eis que surge outro menino, Rey, que rima com mar e com futebol arte (como observou o santista Gabriel Megracko em comentários neste blog que não sei em que posts estão), que os invejosos, os colonizados e os intere$$ados (como um certo “Fenômeno”) querem ver na Europa. E eis que o time finalmente ganha a Libertadores, entrando na galeria aonde tantos queriam ter chegado e não chegaram, alcançando o tricampeonato, após os longínquos títulos de 1962 e 1963. Por isso a geração de Neymar (mas essencialmente ele) é grande: desfez um mito, um tabu: o de que a Libertadores não seria mais possível, para o Santos, depois de Pelé e da bola de capotão.

E por isso esta série (que não será publicada em ordem cronológica, mas segundo a importância que cada um dos quatro times teve para mim) começa com a geração bicampeã paulista (2010 e 2011), campeã da Copa do Brasil (2010) e da Libertadores (2011). Esse time vitorioso teve variações no elenco de 2010 para 2011. As saídas importantes foram a de André e Robinho do elenco de 2010 (quando o Santos era mais ofensivo, jogando a maioria das partidas com três atacantes) – Robinho que, voltando da Europa, foi, como é Léo, um remanescente da geração anterior. Nem Zé Eduardo nem, depois, Borges são tão bons na companhia de Neymar quanto foi André, das divisões de base. O ótimo Wesley também deixou o time mas foi substituído por Elano, que jogou bem no primeiro semestre de 2011, mas mal no segundo. No gol, ganho de qualidade, com a saída de Felipe para Rafael assumir o posto (o atual titular é um bom goleiro, mas muito longe das lendas Cejas – anos 1970 – e Rodolfo Rodriguez – anos 1980). Na lateral direita, com Danilo no lugar de Pará, houve melhora, mas Danilo foi vendido e o time ficou mais frágil na posição, com Fucile.

Reverência: da geração anterior, Robinho "engraxa" a
chuteira de Neymar – Foto: Ricardo Saibun/Santos FC
Essas foram as mudanças básicas do time campeão em 2010 com Dorival Júnior, que era avassalador no ataque (foi campeão estadual com 72 gols a favor e 31 contra) mas extremamente vulnerável na defesa, para a triunfante equipe de Muricy Ramalho, que não joga tão bonito mas é mais equilibrada. Um jogador dessa geração que não pode faltar aqui é o muito criticado Pará, hoje no Grêmio. Limitado, sim, mas com o qual boa parte dos santistas são ingratos, pois ele esteve em campo em todos os quatro títulos conquistados no período, sempre com seu aguerrimento e pronto para atuar nas duas laterais ou como volante.

Os jogos mais marcantes dessa geração, para mim, foram dois: a derrota de 3 a 2 para o Santo André em 2 de maio de 2010, quando, comandado por Paulo Henrique Ganso e reduzido a oito jogadores em campo contra dez do Ramalhão, o Peixe conquistou seu 18° título paulista. Esse vi pela TV. O outro – em que, com Carmem, Gabriel e Gisely, eu estava no Pacaembu – foi Santos 2 x 1 Peñarol, quando o Alvinegro levantou o tricampeonato da Libertadores, no inesquecível 22 de junho de 2011. Foram duas alegrias inigualáveis. Na final do Paulistão, com o coração quase saindo pela boca, abandonei o pessoal na sala no finalzinho e não vi a bola que o time do ABC mandou na trave nos estertores do espetáculo; na da Libertadores, a emoção de ser tricampeão da América parecia um sonho com o lindo mar branco tomando o Pacaembu.

Ganso e a final contra o Santo André

Perguntado por um repórter na semana do centenário qual foi o jogo mais marcante em sua carreira, Paulo Henrique Ganso respondeu de bate-pronto: a final do Paulista contra o Santo André em 2010. Não à toa. Além da partida magistral, ele protagonizou duas cenas inéditas e espetaculares: 1) já com oito em campo, o time era pressionado pelo Santo André, que se fizesse o quarto gol seria campeão. O camisa 10 bate um escanteio apenas encostando na bola, sai dela e fica esperando os adversários entenderem que ele estava apenas ganhando tempo e 2) no fim do jogo, o treinador resolveu tirar Ganso de campo para fechar o time (como se isso fosse possível com oito jogadores) e o meia se recusou a sair. Ele sabia que, segurando a bola, faria o tempo passar e o título viria. E assim foi.

O time campeão paulista de 2010: Felipe; Pará, Edu Dracena, Durval e Léo; Rodrigo Mancha, Arouca, Marquinhos e Paulo Henrique; Neymar (Roberto Brum) e Robinho (André) (Bruno Aguiar).

Capitão Edu Dracena levanta Libertadores
Foto: Ricardo Saibun
Em 22 de junho de 2011, com gols de Neymar e Danilo, o Santos bate o Peñarol do Uruguai e conquista finalmente o cobiçado título continental pela terceira vez. O time jogou com Rafael; Danilo, Edu Dracena, Durval e Léo (Alex Sandro); Adriano, Arouca, Elano e Paulo Henrique Ganso (Pará); Neymar e Zé Eduardo. Relembre aqui: Glorioso alvinegro praiano de Ganso e Neymar é tricampeão da Libertadores

A geração de Ganso e Neymar deve muito ao presidente Luis Álvaro de Oliveira Ribeiro, o popular Laor, que ao assumir em 2010 prometeu em uma entrevista que, a partir dali, só jogariam no Santos os que suassem a camisa, demonstrassem amor pela camisa ou pelo menos fossem dignos do grande Santos (no ano anterior, com Vanderlei Luxemburgo, o Peixe era um time sem alma). Com uma gestão profissional, o mandatário manteve o astro Neymar, resistindo ao assédio dos poderosos Chelsea, Real Madrid e Barcelona. Algo inédito no futebol brasileiro até então.

Leia também:

O Espírito do Santos - parte 2: A geração de Robinho e Diego

O Espirito do santos - parte 3: Os Meninos da Vila

4 comentários:

Zé Roberto disse...

Vida longa ao Santos!

Glauco disse...

Uma história como tem o Santos faz a gente se emocionar não só quando lembramos dos lances que a gente viu, mas também com aqueles que a gente só leu ou ouviu. E essa (não) coincidência de craques e gerações que, de quando em quando, fazem esse escudo encarnar a própria essência do futebol, é um magnífico mistério do esporte. Parabéns, Edu, Carminha, Gabriel e todos os santistas que frequentam aqui. A celebração vai durar muito pros peixeiros e pra todos aqueles que gostam de futebol.

Gabriel Megracko disse...

Parabéns pra você!

Rice Araújo disse...

Ê nosso Santão!! Tirando o cabelo do Neymar achei tudo lindo na comemoração!!

É peixe!