terça-feira, 24 de abril de 2012

Barcelona cai


*Atualizado às 21:06

Com o empate em 2 a 2 no Camp Nou diante do Chelsea e pênalti perdido por Messi, "melhor time do mundo" é eliminado da Liga dos Campeões


Isso é futebol. Para tristeza dos baba-ovos, dos apressados e colonizados que não se cansam de enfadonhamente repetir a cada 10 minutos de narração (vide Paulo Andrade) que o atual Barcelona é “um dos melhores times de todos os tempos”, o Chelsea eliminou os catalães em pleno estádio Camp Nou com gols de Ramires (ironicamente, um golaço de cavadinha, à la Messi) e Fernando Torres. E aqui a segunda ironia: Torres, que pelo Atlético de Madrid havia anotado sete gols em dez jogos contra o rival Barcelona, entrou no lugar do leão Didier Drogba para cumprir a sina de carrasco com o golaço que foi a pá de cal na trajetória do time de Pep Guardiola na temporada. Querem a terceira ironia? Messi, o amado Lionel, foi quem perdeu o pênalti que faria 3 a 1 e certamente teria desclassificado os londrinos.


Manchete do jornal Marca na edição online


Os gols estão neste link (pelo You Tube, os vídeos estão bloqueados em nome dos direitos da UEFA). Na narração, Galvão Bueno, que vibrava pelo "Barça" como se fosse o Brasil, após o segundo gol dos espanhóis previu: “segura que vem chocolate!".

Para uma equipe considerada a “melhor do mundo”, convenhamos, as coisas estão meio fora do eixo. Vem de uma derrota no jogo de ida da Liga dos Campeões (1 a 0 para o Chelsea*), outra para o Real Madrid (2 a 1) que lhe custou o título espanhol e agora a desclassificação da liga européia. Nos dois jogos contra os ingleses, a pressão de ter que marcar deixou o time nervoso, que usou até chuveirinhos.

Melhor do mundo, ma non troppo

Aqui entre nós (e não se trata de mero despeito de santista): o “Barça”, como dizem os encantados brasileirinhos, não chega nem aos pés do Santos dos anos 60 (que encantou o mundo durante uma década), nem do Ajax dos anos 70 com seu futebol revolucionário (do qual Pep Guardiola é um discípulo). O time catalão para mim não é melhor do que Flamengo dos anos 1980 de Raul, Leandro, Mozer, Júnior, Adílio, Andrade e Zico, um time fabuloso que parece ter sido esquecido ante a moda catalã. Para não falar de outros times da história. Ou seja, o Barcelona precisa comer muito feijão ainda, e manter uma hegemonia mais consistente por mais tempo, para entrar na galeria dos “melhores de todos os tempos”.

Outra: o futebol baseado na posse de bola não foi inventado pelo atual “melhor do mundo”. Essa era a principal característica dos times de Carlos Alberto Parreira, como a seleção de 1994 e o Corinthians de 2002. Claro, o Barcelona joga infinitamente mais bonito, tem jogadores diferenciados, e por isso sua normalmente enorme posse de bola é fatal. Não se trata de dizer que é um time qualquer. Mas o Santos, em dezembro, perdeu daquela maneira porque entrou na onda e amarelou.

Por fim, se “um grande time começa com um grande goleiro”, então o Barcelona precisa pensar nesse conceito, pois seu camisa 1, Victor Valdés, é medíocre.

Deusa fortuna e milagre

Inferior, o Chelsea jogou como um ferrolho em forma de time de futebol. Tinha tudo contra. Tomou 1 a 0. Perdeu os dois zagueiros titulares ainda no primeiro tempo: John Terry expulso e Cahill machucado. Levou o 2 a 0. Mas Ramires fez o gol que o manteve com vida ainda na primeira etapa. Completamente recuado, tomou uma pressão impressionante durante todo o jogo, mas, como diz o jornal espanhol Marca, o time de Messi “caiu ante uma equipe inferior como o Chelsea, que se aliou com a deusa fortuna para lograr um milagre”.

E é disso que vive o futebol. De jornadas espetaculares. De alianças com os deuses. De lutadores como Drogba e Ramires, que hoje superaram qualquer coisa que se pudesse esperar deles, já normalmente aguerridos.

No jornal As, Messi é humano
E, ao contrário da imprensa tupiniquim, na Espanha o “melhor do mundo” Messi também é tratado como um mortal: “Messi não esquecerá desta temporada seus erros desde a marca de pênalti”, comentou o Marca, já que o argentino tem perdido penalidades frequentemente, em jogos importantes.

E agora não é mais possível a revanche Santos x Barcelona no Mundial de clubes em dezembro. Que pena.

14 comentários:

Leandro disse...

"Para tristeza dos baba-ovos, dos apressados e colonizados"… Sem dúvida!
Já escrevi aqui sobre os motivos que me fazem não simpatizar muito com o Chelsea, mas os dez guerreiros que se desdobraram para compensar a superioridade técnica e a ausência do (imbecil) Terry mereciam essa classificação. Foi uma "vitória" tipicamente corinthiana dos londrinos pela aplicação, entrega e superação que demonstraram, e são coisas assim que tornam o futebol fascinante.
Ainda sobre os colonizados e baba-ovos de plantão, lembro bem como destacaram e deram razão indevida a uma baita abobrinha do Guardiola na entrevista do pós-jogo contra o Santos, em dezembro.
Ao ser perguntado se o poderio econômico tinha prevalecido e construído um triunfo fácil dos espanhóis, o técnico argumentou que não caberia falar-se em poderio econômico já que a maioria do time é formada na base, sem gastar um tostão.
Mentira. Os melhores jogadores são "sudacas" (Messi, Alves e Sánchez), jovens de origem humilde aliciados e arrancados de suas pátrias ainda jovenzinhos, e o time do Barcelona conta hoje com um entrosamento capaz de fazer muitos desavisados (como Galvão Bueno) pensarem que Puyol e Piqué são grandes jogadores.
A verdade é que estes dois, por exemplos, são bem mais-ou-menos e se beneficiam de um entrosamento absurdo, pois em termos técnicos, Jucilei e Arouca colocam aqueles dois no bolso, conforme venho dizendo aos meus amigos santistas desde o último mundial de clubes.

Gabriel Megracko disse...

Leandro, o seu comentário tá quase perfeito, mas, Jesus-Cristo-Armado-São-Jorge-Dragão, quando você toma um copo com água você diz que ela é insípida, inodora e incolor, purinha assim, porque, assim como o Corinthians, a terra a tornou pura com uma raça inacreditável? É que acabei de ver um daqueles negócios que vão passando quadros com mensagens e piadas, de um amigo corintiano, e a coisa não acabava nunca, acho que era uma combinação infinita, aí cheguei aqui e vi você dizer que o Chelsea jogou com uma raça à Corinthians e tive um espasmo gerado pela overdose.

Sobre o jogo, que coisa linda! O Messi com a camisa na cara e os 12$3&24*56#567% de posse de bola começando e acabando com um Ciao! do Di Matteo. Fica a lição pro Muricy.

Salve Ghost Drogba!

Edu Maretti disse...

Bela lembrança. Esse Di Matteo... A estrela do cara, o "treinador interino", brilhou contra o "melhor time do mundo". Em alguns aspectos lembra o Cristóvão Borges do Vasco. Mas isso é um assunto pra depois. Ou não.

Leandro disse...

Gabriel,
O que eu afirmei sobre a raça do Corinthians não tem nada de original, e sei que você concorda com isso, pois escreveu em postagem recente que o Timão "tem uma política que dá lucro para incrementar seu futebol raçudo".
Se o Santos e o Palmeiras são marcados por times de "magia", de grande habilidade e futebol vistoso, também é consenso que o Corinthians é marcado pela raça, pela luta, pela superação dentro e fora de campo.
Claro que tivemos exceções ao longo da história de cada um dos três times usados em meu exemplo, mas o "caráter" de cada um deles tem estas marcas impressas, e ontem o Chelsea, que tem um elenco tecnicamente inferior e que jogava com inferioridade numérica, valeu-se desta raça que faz lembrar o Timão para eliminar a coqueluche do momento.
Conforme comentei na postagem do FUTEPOCA, os ingleses "plagiaram o Corinthians" nesta jornada heróica, sem sombra de dúvida.
Mas as comparações ficam só nisso e no fato dos ingleses também não terem nenhum título continental, pois noutros aspectos, trata-se de um time que lembra o SPFC por ter seu estádio também ultrapassado para os dias de hoje encravado num bairro esnobe da cidade, com torcida igualmente esnobe, cheia de preconceitos de classe e de sectarismos, e que também lembra o Palmeiras pelo grande número de ultra-racistas em suas arquibancadas.

Edu Maretti disse...

PS: Acabei esquecendo de dizer (e lembrei disso jantando): também acho que Puyol e Piqué se beneficiam do entrosamento incrível do time e são bem "mais ou menos" mesmo. E o Barcelona tem outros jogadores muito medianos: hoje jogaram Alexis Sánchez e Cuenca (depois Tello). O Campeonato Brasileiro está cheio de jogadores melhores (mas com menos sorte) do que esses. O chileno Alexis Sánchez é muito meia-boca, ruinzinho. Cuenca, quase cueca, ou Tello... francamente, são bem fraquinhos pra um dos "melhores times de todos os tempos"...

A alma do Barcelona se concentra em Fábregas, Xavi, Iniesta e Messi. Se tirar dois daí, fica um time comum, cheio de toquinho inútil.

Gabriel Megracko disse...

Tudo bem, Leandro, como disse, foi só uma overdose, porque os corintianos estão sempre a gritar "(alguma coisa) Corinthians!" ou "Corinthians (alguma coisa)" por aí, felizes e simpáticos com a vitória e bêbados enlouquecidos pela noite com a derrota. Não me incomodo, não invejo. Um amigo diz que "nasci corintiano, por ter afinidade com o povo, com a rua". Acho estranho, mas logo entendo que ele, como todo corintiano, vê Corinthians até no mais genuíno santista de olhar perdido no Mar e bem acomodado com o jogo peixeiro, irreverente e glorioso. Mas não se importe com estas observações, não sou imparcial. Rs... Torço por um Santos x Corinthians na Libertadores. Seria um jogo memorável.

Felipe Cabañas da Silva disse...

Bom, o que acontece com o Barcelona é simples (inclusive aconteceu recentemente com o futebol do próprio Muricy Ramalho, guardadas as devidas proporções e especificidades): o Barcelona desenvolveu uma escola, um jogo próprio. Durante um tempo (bom), as peculiaridades técnicas do time reinaram absolutas, com resultados acachapantes, indiscutíveis, oferecendo aos adversários uma tal dificuldade que fomentou as fantasias de melhor de todos os tempos (na qual nunca entrei, pois acho tudo isso bastante relativo, inclusive para todos os outros times citados pelo Edu). Mas, depois de um tempo, como a concorrência fomentada pelo futebol é selvagem, os adversários, na Europa, na Espanha ou no resto do mundo, param para estudar, se armar e encontrar "antídotos" contra o veneno. Os resultados começam a cair. Um empate aqui, outro ali, com times inferiores, derrotas para os grandes adversários, e a partir daí o time começa a entrar na decrescente. Seis meses após ser decretado o melhor time do mundo, absoluto (e até o melhor da história pelos incautos), cai o time de seu pedestal. Simples assim: os adversários aprenderam a enfrentar o Barcelona.

Era o melhor time do mundo. Agora é um time questionado.

PS: O Chelsea mostrou como se joga contra esse Barcelona de Lionel Messi: como time pequeno. Com 15 homens na defesa. "Bola pro mato que o jogo é de campeonato". Futebol covarde, irritante, para o qual o "Barça" não encontrou antídoto a não ser tocar e tocar a bola, ciscar na frente da defesa sem evoluir. O segundo tempo do jogo foi um joguinho de várzea, a bem da verdade.

Gabriel Megracko disse...

Só comentando coisa que me ocorreu: aquele time do Santos de 2010, que ganhou o Paulista e a Copa do Brasil, se estivesse num país rico, teria tido chance de se manter inteiro, ganhar uma Libertadores avassalando e ganhar do Barcelona. O que aconteceu é que, assim como todos os times da América Latina, os times que foram para a Libertadores de 2011, não eram os mesmos que para ela se classificaram. O time do Santos que jogou contra o Barcelona era inferior àquele de 2010, que foi um escândalo. Era um time rápido, não ficava tocando a bola. Com três toques parava dentro do gol. Fez 10, 9, 8, 7, 6, 5 gols num jogo só... sendo que 5 era comum. Agora sendo imparcial, eu gostava mais daquele futebol rápido como um raio e dos espetáculos de Neymar, Ganso, Robinho, André, Wesley e companhia do que esses toquinhos do caralho! Rs... Ah, como eu torci pro Chelsea! Pro inferno!
E, será que alguém reparou que o Barcelona ataca como time grande mas se defende como a Catanduvense, matando todas as jogadas no campo do adversário, e ganham só um ou outro amarelinho pra não ficar chato?

Edu Maretti disse...

É, acho difícil dizer o que aconteceria se o time de 2010 jogasse com o Barcelona. Mas... com Dorival Junior,que, enfrentando um time que jogava com a mesma proposta tática (o Santo André), quase perdeu a final paulista? Imagine o Barcelona! Ou aquele time mas com Muricy, que com certeza teria outro plano tático e dificilmente escalaria 3 atacantes (André sobraria)? Difícil conjecturar sobre isso...

Quanto ao Barcelona, é notório mesmo que eles tentam interromper qualquer chance de contra-ataque com faltas. Messi mesmo levou amarelo contra o Chelsea. Mas Fernando Torres estava muito longe, benzadeus!, rs.

Gabriel Megracko disse...

Claro, não tô falando do técnico Dorival. O Guardiola é um ótimo técnico, bem melhor que Muricy e Dorival. Mas, enfim, são características de um time de um país com bem menos recursos. Mas como seria se tivesse caído o Dorival e se tivesse mantido o time? São conjecturas, mas o time era bem melhor como conjunto, era uma seleção. Hoje em dia é três quintos de seleção! Rs...

Gabriel Megracko disse...

Desculpem o fato soberbo! Rs... Sim, é provocação.

Augusto Ariente disse...

Essa coisa de se perguntar: Ah, mas e se fosse o time do ano tal? serve para digerir melhor o resultado, mas, sinceramente, quanto ao desempenho na final, talvez fosse pior que o do time de 2011. Vale lembrar que Robinho, na Europa, nunca foi nem sombra do jogador que foi aqui. Basta ele vir ao Brasil que as coisas melhoram pra ele. E, ainda, Borges representava muito bem no ataque do peixe naquele fim de ano. Infelizmente, teríamos de ter um time sólido do meio para trás também. Foi assim que Internazionale, Real Madri e Chelsea passaram pelo jogo de ocupar espaços, movimentação e passe do Barcelona. Faltava um Lampard, pra começar...

Edu Maretti disse...

Augusto Ariente, interessante sua observação sobre Internazionale, Real Madrid e Chelsea e o fato de o Santos não ter, na ocasião do duelo com os catalães (se é que entendi bem), um time "sólido do meio para trás". Isso teve a ver com a derrota de 4 a 0, mas acho que houve uma coisa pior: o Santos entrou em campo derrotado, enfeitiçado pelo Barcelona, deu uma amarelada mesmo.

Quanto a Robinho, tenho uma posição diferente. Como santista, não me importa que ele não tenha sido na Europa nem sombra do que foi aqui.Pois para mim o que interessa é justamente que ele foi aqui, com a camisa do Santos, bicampeão brasileiro em 2002 e 2004 e campeão paulista e da Copa do Brasil em 2010.

Saudações alvinegras.

Felipe Cabañas da Silva disse...

Pois é meu amigo Gabriel, eu também acho que se o Corinthians tivesse ganho aquela final da Copa do Brasil do Sport em 2008, quando ainda estava na série B, e tivesse entrado na Libertadores 2009 com aquele time que barbarizou Campeonato Paulista e Copa do Brasil no primeiro semestre de 2009, que tinha André Santos (que no Corinthians jogava muito), Cristian, Ronaldo inspirado, Jorge Henrique destruindo, William ainda não tinha se aposentado, Elias, Jucilei, Dentinho em boa fase, o time todo muito entrosado, também acho que teríamos tido muito mais chances que em 2010, quando o time de 2009 foi esfacelado e Mano Menezes teve de promover o medíocre Moacir, que fez aquele pênalti infantil contra o Flamengo no Maracanã, desvantagem que não conseguimos reverter no segundo jogo.

Mas, como dizem e já discutimos inclusive aqui no blog, a história não tem "se". O fato é que o Santos faturou a Libertadores, mesmo com um time inferior ao de 2010, e o Corinthians se lascou. Fazer o quê? Mas o mundo segue girando... rsrs...