terça-feira, 27 de dezembro de 2011

A retrospectiva 2011 segundo Fatos Etc.

Como não poderia deixar de ser, chega ao fim este longo 2011 (que para alguns foi rápido, é tudo uma questão de perspectiva). Do ponto de vista do blog, este é um resumo do que foi destaque no ano que se extingue. Claro que esses destaques não poderiam deixar de ser retirados do que aqui foi postado no período. Exemplo: na política, nada foi mais importante do que a posse da primeira mulher a presidir o Brasil. A queda de Palocci foi emblemática da série de peões caídos no tabuleiro da Esplanada dos Ministérios. As questões em torno do Estado da Palestina e da "primavera árabe" foram, para mim, dominantes no mundo.

No esporte, são-paulinos e palmeirenses não têm a reclamar se seus times não ganharam nem torneio de bocha. Santos e Corinthians foram os times paulistas cujas salas de troféus ficaram mais ricas em 2011.

A morte de Amy Winehouse e a de Estamira (que muitos nem sabem de quem se trata) marcaram o ano com notas tristes no mundo da arte ou da cultura.

Muito obrigado aos colaboradores e amigos que ajudaram no crescimento do blog, com comentários muitas vezes acalorados (principalmente sobre futebol, com destaque para os loucos do bando) e ótimas polêmicas, e aos leitores em geral.

Que 2012 venha, e certamente este não será o ano do fim do mundo, apesar de canais pagos estarem à exaustão explorando as tais profecias maias.

Segue a retrospectiva, com os respectivos links.

Janeiro

Dilma Rousseff é a presidente do Brasil

Fevereiro

Mubarak cai e povo Egípcio emociona o mundo

A queda do ditador do Egito no início do ano, saudada como um evento histórico, infelizmente não representou a "primavera árabe" tal como está implícito na simbologia da estação que para nós é o renascer. Infelizmente, os fatos das últimas semanas (leia aqui) mostram que a liberdade no Oriente Médio, e particularmente no Egito, ainda é um sonho distante que esbarra em interesses gigantescos das potências mundiais.

Março

Brother, não seja burro, a visita de Obama é importante

A visita do presidente Barack Obama ao Brasil foi encarada com infantilismo por um setor da "esquerda" brasileira que não consegue entender que governar o Brasil é muito diferente de comandar um grêmio estudantil.


Abril


O acordo entre o Fatah e o Hamas


Maio

Robert Fisk: o que importa não é a morte de Bin Laden, mas a "primavera árabe"

Santos de Neymar bate o Corinthians e é campeão mais uma vez

Comandado pelo jovem craque, o Peixe chegou ao seu 19° título estadual, o bi de 2010 e 2011 e o quarto no século XXI (havia conquistado o bi também em 2006 e 2007).

Junho

A queda de Palocci

Santos é tricampeão da Libertadores

O sonho do tri continental foi realizado na noite de 22 de junho no Pacaembu. No estádio, em Santos e em todo o país a torcida santista finalmente comemorou uma conquista histórica, pondo fim ao tabu que remontava à era Pelé. Veja vídeo da festa no estádio aqui.

Julho

Amy Winehouse morre em Londres

A grande cantora e compositora se foi em 23 de julho, aos 27 anos, em circunstâncias até hoje não devidamente esclarecidas.

Agosto

Estamira, do filme de Marcos Prado, morre no Rio



Setembro

Criação do Estado da Palestina é a causa mais importante do início do século

Dilma Rousseff abre a 66ª Assembleia Geral da ONU

Outubro

Occupy Wall Street contra o Tea Party

Novembro
Política tucana para educação: tropa de choque

A escalada autoritária na USP (por Felipe Cabañas da Silva)

Gelson Domingos, uma vítima da cultura trope de elite


Dezembro


No dia da morte de Sócrates, Corinthians ganha o quinto título brasileiro

A Fiel festejou no dia em que morreu o doutor Sócrates, o que dá à conquista um caráter místico que tem tudo a ver com a história do Corinthians.


Dia histórico: bandeira palestina é hasteada na sede da Unesco


Aula do Barcelona termina só 4 a 0

O Santos de Neymar e Ganso não deu nem para o começo e perdeu de lavada para o Barcelona de Messi, Xavi, Iniesta e companhia. O que incomodou mais não foi a derrota e nem mesmo a goleada, mas a forma como o time se comportou em campo, muito em razão da postura covarde adotada por Muricy Ramalho ao improvisar um esquema e deixar Elano fora do jogo. Mas, com um paulista e uma Libertadores, a temporada alvinegra foi vitoriosa e entra para a história.

*Atualizado à 00:40 (28/12/2011)

sábado, 24 de dezembro de 2011

So this is Christmas






Happy Xmas (War Is Over)
John Lennon

So this is Christmas
And what have you done
Another year over
And new one just begun

And so this is Christmas
I hope you have fun
The near and the dear one
The older and the young

A very merry Christmas
And a happy new year
Let's hope it's a good one
Without any fear

And so this is Christmas (war is over...)
For weak and for strong (...if you want it)
The rich and the poor one
The world is so wrong

And so happy Christmas
For black and for white
For the yellow and red one
Let's stop all the fight

A very merry Christmas
And a happy new year
Lets hope it's a good one
Without any fear

And so this is Christmas
And what have we done
Another year over
And new one just begun...

And so happy Christmas
We hope you have fun
The near and the dear one
The older and the young

A very merry Christmas
And a happy new year
Let's hope it's a good one
Without any fear

War is over
If you want it
War is over
Now

Está mais do que na hora do Santos negociar Paulo Henrique Ganso


O presidente do Santos, Luis Álvaro Ribeiro, finalmente falou grosso sobre a postura do jogador Paulo Henrique Ganso e do grupo DIS, que comanda a cabecinha do atleta. Lembremos: na última quarta-feira, Ganso notificou oficialmente o Santos, informando que o clube tem um prazo de 10 dias para se manifestar sobre se vai ou não cobrir a oferta do grupo de investidores de comprar os 10% dos direitos econômicos pertencentes ao próprio atleta (o Santos tem 45% e o DIS outros 45%).
Foto: Ricardo Saibun/SFC
Luis Álvaro interrompeu o repórter da rádio Estadão ESPN quando este falou que Ganso “abraça a idéia” do grupo DIS. “Se abraça a ideia então morram juntos e abraçados”, disparou o mandatário santista. Mais à frente: “Aparece uma informação plantada na cabeça dele [Ganso] por essa gente que tem um procurador de péssima qualidade ética e ficam botando palavras na boca dele. A obrigação é que o Santos tem que ser notificado e vai decidir, ou não, no meu tempo e na minha hora".

Lembremos ainda: de novo, o jogador resolveu criar um atrito com o clube, publicamente, por questões financeiras, desta vez na semana em que o time estrearia no Mundial do Japão. O presidente Luis Álvaro diz: "Mais uma vez, às vésperas de uma partida importante, colocaram o coitado do Ganso na roda".

No post sobre a os 4 a 0 que o Peixe tomou do Barcelona, o Felipe Cabañas comentou: “todo mundo fica dizendo que o Ganso tem mais cabeça que o Neymar, mas o Neymar tem se mostrado muito mais centrado que o Ganso”. É verdade. Acrescento que foi notória a apatia do meia na partida, assim como a indiferença após o prélio.

E, de resto, só faço uma ressalva ao que diz Luis Álvaro. Ganso não é “coitado” coisa nenhuma. Está na hora de o clube resolver, de modo que seja bom para todos os lados, desfazer-se desse atleta. Mas o camisa 10 vai ter que baixar a bola para se transferir. Ou então jogar mais bola, pois hoje não tem mercado senão, e olha lá, em times pequenos da Europa. E nos concorrentes brasileiros. Só. Quem dá mais?

PS: eu havia dito que este blog não falaria mais de futebol em 2011 porque “o futebol brasileiro está de férias”, mas tive que abrir esta exceção.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

“Primavera árabe” foi apenas um espasmo de luz nas trevas do Oriente Médio?


Não resta dúvida de que, em âmbito internacional, se o hasteamento da bandeira da Palestina na sede da Unesco, semana passada, é simbolica e mesmo politicamente importante, a violência no Egito é um duro golpe na crença de uma verdadeira "primavera árabe".

Clique para ampliar
A praça Tahrir, centro da capital Cairo, viveu ontem, quarta-feira, 20, o quinto dia concecutivo repressão contra manifestantes que exigem abertura política. O país que derubou Hosni Mubarak (leia aqui) vive hoje a dura realidade de uma ditadura militar. Segundo o Ministério da Saúde egípcio (sic), 13 pessoas morreram na semana passada em decorrência dos conflitos, e 815 ficaram feridas.

O país vive hoje um longo processo de eleições parlamentares previsto para durar um mês e meio e o governo acena com a possibilidade de realizar eleições presidencias em junho. Mas as cenas teríveis da violência (entre as quais se destaca a foto de uma mulher sendo espancada brutalmente por “agentes de segurança”) não deixam margem a otimismos.

No fim de novembro, Kamal Ganzouri foi nomeado primeiro-ministro no país. Hoje com 78 anos, ele já havia ocupado o cargo na ditadura de Mubarak entre 1996 e 1999. A "novidade" foi o estopim para a mais nova revolta. Em entrevista a Brasil de Fato de 8 de dezembro, o jornalista Pepe Escobar falou do início de um período “contrarrevolucionário” nos países árabes. Disse ele:

“Os militares arrumaram um sistema onde botaram uma ditadura militar de fato, se livraram do chefe do regime, e de seu sucessor, que é o Omar Souleiman, hoje isolado. O regime ficou intacto.

“Nada mudou essencialmente para os Estados Unidos porque eles continuaram a cooptar esse regime militar.”

Essa cooptação, destaca Escobar, é feita política e economicamente: “Eles estão cooptando não só diretamente, mas via seu aliado principal na região, a Arábia Saudita, que há pouco ‘doou’ US$ 4 bi para a ditadura militar do Egito se manter nos próximos meses. O Egito é um país quebrado, tem que comprar comida de fora, tem que pagar funcionários públicos e é um país que está à beira da bancarrota”.

Em nossa ingenuidade, imaginamos que o gigante Egito, às portas de Israel no Mediterrâneo, fosse dar um alento nessa estratégica e conflagrada região do planeta. Mas a verdade é que a “primavera árabe” pode ter sido apenas um espasmo de luz nas trevas do Oriente Médio.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Aula do Barcelona termina só 4 a 0


Palmas para o Barcelona, que deu uma aula de futebol, como aliás vem dando faz tempo. Pelo menos os santistas temos a experiência de ter no currículo uma derrota acachapante para o melhor time do mundo. O placar de 4 a 0 foi até pouco. O time de Valdés; Puyol, Piqué e Abidal; Busquets, Xavi, Iniesta e Fábregas; Daniel Alves, Messi e Thiago (que jogou pelas ausências de David Villa e Alexis Sanchez) é um dos maiores que já vi jogar.

Barça comemora primeiro gol, do camisa 10

É como se fosse uma evolução, uma versão mais amadurecida do maravilhoso Ajax e da seleção da Holanda de 1974. Que só era mais espetacular do que o Barça de hoje porque tinha um futebol mais avassalador, e por isso entrou para a história como a Laranja Mecânica de Cruyff, Neeskens, Rep, Krol, Haan, Suurbier e companhia, que os mais jovens, para azar seu, não conheceram.

Mas, se o Barcelona é um esquadrão para o qual perder é o normal, como bem sabem Real Madrid, Manchester United e tantos outros, a forma como o Santos foi derrotado é que incomoda, e o incômodo ficou estampado na cara de Neymar após o verdadeiro vareio de bola, que vai ficar guardado nas nossas retinas santistas tão fatigadas.

É que o time de Muricy caiu com uma postura pusilânime. A começar pela escalação e esquema tático, no 3-5-2, que (não há santo que me convença do contrário) não casa com o futebol brasileiro. E a opção parece ter sido feita meio de improviso, de repente. Vai ver que Muricy resolveu acatar a sugestão de Paulo Vinícius Coelho. O time ficou seis meses cozinhando o Campeonato Brasileiro para chegar no jogo do ano como se seu próprio treinador estivesse perdido. E estava.

E, cá entre nós, se você tem Elano e Henrique no elenco, não consigo enxergar por que escolher Henrique, cujo nome praticamente não foi pronunciado na narração. Mas, também, de que adianta Elano, artilheiro do campeonato paulista, jogar atrás como um mero marcador?

Veja os 4 a 0 e o show de Messi




Futebol hipnótico

De fato acho que não se pode agora cair de pau no Santos, que afinal termina a temporada com os títulos paulista e da Libertadores. Mas também não dá para varrer os erros para debaixo do tapete. Se eu sempre me refiro ao complexo de vira-lata da imprensa brasileira, não posso me esquivar de dizer que o Peixe entrou em campo contaminado por esse complexo. Encarou o Barcelona com medo, como a rã hipnotizada pela lanterna do caçador. De fato, o futebol do Barcelona é hipnótico, mas no time de Neymar ninguém brilhou nem nos momentos em que teve chance de fazer um golzinho que fosse. A postura de Ganso chamou a atenção pela apatia e falta de movimentação. Um jogador estático. A idéia do time como um todo parecia ser assistir Messi, Xavi e Fábregas estraçalharem a zaga santista.

E Pep Guardiola deu uma declaração no mínimo importante: disse que o futebol requintado de passes certos e futebol envolvente antigamente era o brasileiro. Onde foi parar esse futebol?, nos cabe perguntar. Soa agora o máximo da ironia dias atrás Muricy ter afirmado que Guardiola só ganharia nota 10 (“minha”, disse o brasileiro) “quando trabalhar no Brasil e for campeão". Será que não seria mais aconselhável Muricy ir para Barcelona fazer um estágio lá, para ver se relembra o futebol brasileiro esquecido?

sábado, 17 de dezembro de 2011

Jornalismo, futebol e mídia


A um dia de um dos maiores fatos esportivos dos últimos tempos, Santos x Barcelona pela final do Mundial de Clubes, um jogo esperado por todos os que gostam de futebol, a home page da ESPN Brasil dá como destaque o Tite (maior) e a luta UFC.


A um dia de Santos x Barcelona, destaques da ESPN Brasil são Tite e UFC

No caso da ESPN Brasil, existe a justificativa mercadológica, já que a emissora não tem direitos de transmissão do Mundial de clubes da FIFA. Na programação do canal está previsto o seguinte para as 08:30 de domingo (horário de Santos x Barcelona): "Turfe - Troféu Carlos Pellegrini".

Mas se têm justificativa mercadológica, as edições do site da ESPN Brasil pecam jornalisticamente, porque privilegiam um corintianismo irritante. Porque até as pedras sabem que pelo menos hoje o Santos é mais importante do que o Corinthians. Já a TV Globo, que detém o monopólio da transmissão da Libertadores e do Mundial em canal aberto, simplesmente não transmitiu Santos 3 x 1 Kashiwa Reysol na quarta-feira para o Brasil. O jogo foi ao ar apenas para o estado de São Paulo. Os santistas de todo o resto do país que não têm condições de ter TV a cabo ficaram com a Ana Maria Braga.

Essa opção tosca da Globo gerou protestos nas redes sociais da internet que, por sua vez, provocaram até desculpas esfarrapadas da emissora dos Marinho, tentando justificar a não-transmissão do jogo do Santos (nem vale a pena reproduzi-las). Pergunto: se fosse Corinthians ou Flamengo, a Globo optaria por Ana Maria Braga? Não.

No ano que vem a norte-americana Fox entrará pesado na transmissão da Libertadores no Brasil. Sabiam?

Até lá, a Globo talvez entenda que precisa ser mais democrática para, a longo prazo, manter o seu poder. Até porque isso tem tudo a ver com a propalada, e ainda tão distante, democratização dos meios de comunicação, a regulamentação dos artigos 220 a 223 da Constituição de 1988, e por aí vai.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Barcelona, Santos e o complexo de vira-lata

Atualizado às 22:04 de 16/12/2011

Domingo, 18, às 08:30 da manhã, Santos x Barcelona fazem a final do Mundial de Clubes

Reprodução

Vi um pedaço do jogo Barcelona 4 x 0 Al-Sadd, até o ridículo goleiro Mohamed Saqr receber um recuo do zagueiro e ficar na indecisão até o brasileiro Adriano resolver mandar às redes. Um gol de futebol de várzea. Um gol patético que mostra quão frágil é o formato atual do Mundial da FIFA, cujo pretexto é a democracia da disputa entre todos os continentes, mas a razão é apenas a política.

E o fragilíssimo do time do Qatar, muito mais fraco do que o Kashiwa Reysol (que o Santos derrotou por 3 a 1, link aqui), até justifica o Barça ter entrado em campo sem cinco de seus titulares absolutos: Daniel Alves, Piqué, Fábregas, Busquets e Xavi. Nota triste do jogo foi a fratura de David Villa na tíbia.

Mais ridículo do que o goleiro árabe, porém, é o post de Juca Kfouri em seu blog, em formato de poeminha concreto que é uma ode tacanha, no estilo babação de ovo, ao Barcelona. Intitulado “O Barcelona é sádico”, o texto termina assim: “E o time árabe, todo de branco, como o Santos, só viu o misto catalão jogar e saiu com a camisa imaculada”.

Essa associação chega, na minha opinião, a ser ofensiva aos torcedores do Santos. A mim, é. É claro que o Barcelona é favorito, até pelas falhas demonstradas pelo Santos no último jogo. Mas o Santos não é o Al-Sadd, como ficou sugerido no fim do post do jornalista. Francamente, Nelson Rodrigues já denominou essa postura de Kfouri: “Complexo de vira lata”.

Arte x toquinho

Para completar, cito meu amigo Xico Santos, que comentou o seguinte no post anterior sobre a vitória do Santos: “não gosto daquele negocinho de toquinho de bola pralá e pracá [do Barcelona]... (que saco!); de posse-de-bola-interminável... Não é possível que aquela coisinha de toquinho vá superar a arte! É nisso que coloco todas as minhas fichas: na arte”.

Publicado originalmente às 14:12 de 15/12/2011

Leia também post sobre o jogo Santos 3 x 1 Kashiwa ReysolSantos passa por time de “formigas” japonesas. Que venga El Barça


Fotógrafo Rogério Ferrari lança
seu novo livro: Ciganos

O fotógrafo baiano Rogério Ferrari, que entrevistei em setembro para o blog (link abaixo neste post), lança às 19 horas desta sexta-feira, 16, no foyer do Teatro Castro Alves, em Salvador (BA), seu novo livro. Ciganos é resultado da itinerância do fotógrafo, que durante três meses, entre 2010 e 2011, percorreu 40 municípios registrando o cotidiano dos ciganos da Bahia.


Assim como em outros trabalhos, notadamente o belíssimo A Eloquência do Sangue (que reúne fotografias feitas entre janeiro e março de 2002 na Cisjordânia e na Faixa de Gaza), a intenção de Ferrari com Ciganos é iluminar essa cultura milenar e muitas vezes perseguida para além dos estereótipos e estigmas. Segundo Rogério, “o projeto não surgiu de uma escolha estética ou da busca do exótico para fotografar. Se fez pelo propósito de retratar os ciganos numa perspectiva distante dos estigmas e dos estereótipos, e próxima o possível para tentar revelar o cotidiano desse povo”.

Diz ainda Ferrari: “Seria forçoso e equivocado incluir os ciganos nesse barco se perdêssemos de vista a relação da luta política com a luta pela defesa de uma cultura. O chumbo macio das TVs e a massificação antecede e cumpre a tarefa de eliminar existências, resistências e povos distintos. A passividade e o engano tornaram-se conduta”.

A nova obra do fotógrafo está inserida, segundo o jornalista Raul Moreira, no projeto Existências-Resistências, que Rogério Ferrari “desenvolve há alguns anos e que inclui outras publicações sobre povos e movimentos sociais”.

Clique na imagem para ampliar
Foto: Rogério Ferrari

Ciganos tem duzentas páginas, 96 imagens em preto e branco fotografadas com película, e traz o prefácio da antropóloga Florencia Ferrari, autora do livro Palavra Cigana (editora Cosac Naif). Apesar de ser uma produção independente, o novo livro de Rogério foi parcialmente financiado por edital do Fundo de Cultura da Bahia.

Livro: Ciganos
Lançamento: Foyer do Teatro Castro Alves - Salvador (BA)
Sexta-feira, 16 de dezembro, às 19 horas
Esse e outros livros do fotógrafo podem ser adquiridos pelo telefone ou e-mail abaixo

Telefone: (71) 9254-1972
e-mail: ambai7@gmail.com
Blog do autor: existências resistências

Leia também (e conheça outros títulos do fotógrafo) a entrevista concedida a Fatos Etc.: “Na Palestina, a câmera era a minha pedra”

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Santos passa por time de “formigas” japonesas. Que venga El Barça

Atualizado às 13:21

Peixe bate Kashiwa Reysol por 3 a 1 e agora espera o Barcelona para a final do Mundial de Clubes, no domingo às 8:30 da manhã


Clique para ampliar/Foto: Reprodução


Superada a tal ansiedade da estreia, o Santos desencantou pela individualidade de Neymar, que fez um golaço aos 19 minutos, e depois de Borges (aos 24), que também deixou sua marca em grande estilo.

Na etapa inicial o Alvinegro errou passes em demasia (o que contra o Barcelona é fatal) e teve uma peça que comprometeu a ligação meio-ataque, o volante Henrique, cujo lance de maior destaque foi um pisão que deu no tornozelo de Neymar.

A equipe japonesa ficou a maior parte do tempo com a bola. O Santos fez um jogo típico de Muricy Ramalho, sem se arriscar muito. E o Kashiwa, aplicado como um time de formigas, marcou em todo o campo e dificultou os contra-ataques santistas, solução que pouco apareceu, apesar da rápida vantagem de 2 a 0.

No segundo tempo o time da Vila começou mais tranquilo. Mas depois de perder duas grandes chances (com Danilo e Ganso) de ampliar e matar o jogo, tomou um gol bobo, de escanteio. Toda a zaga ficou olhando Sakai cabecear e fazer 1 a 2 aos 8.

Mas quando o Kashiwa ameaçava pressionar, Danilo cobrando falta com imensa categoria deu números finais ao placar aos 18. A forte pressão dos japoneses deu vários sustos no Peixe.

Veja os gols de Santos 3 x 1 Kashiwa Reysol




Comentários:

- Diante da aplicação e marcação japonesa, o Santos errou mais passes do que se esperava, no meio de campo e até na defesa. Isso tem de ser corrigido diante do Barcelona, caso este vença o poderoso Al-Sadd do Qatar...

- A lateral esquerda com Durval (bom beque, mas lento na atual posição atrás e inexistente no apoio) foi o ponto mais frágil do time do Santos, e muito bem explorado pelo time japonês. Perguntado sobre isso na coletiva, Muricy saiu pela tangente e disse que “a gente faz o que acha melhor”.

- Elano, ainda sem sua melhor forma física, fez partida discreta, mas muito porque joga no sacrifício no sistema tático de Muricy, muito atrás e longe de uma zona onde possa criar e ajudar o ataque. No jogo de hoje, sua principal função foi segurar Jorge Wagner.

- O volante Henrique, na minha opinião, pelo menos pelo que vejo desde que estreou e também hoje, é um jogador medíocre. E ainda quase tirou o companheiro Neymar do time, ao cair sobre o tornozelo do atacante, que aparentemente teve seu desempenho comprometido (ele disse após a partida que a pancada incomodou bastante).

PS: Meu pai, seu Oswaldo, que é palmeirense mas está torcendo pelo Santos no Mundial, justificou assim seu otimismo: “em 1950 o Uruguai não ganhou do Brasil?” Pues, entonces, que venga El Barça!

Ficha técnica

Kashiwa Reysol 1 x 3 Santos
Gols: Neymar, aos 18min, e Borges, aos 23min do 1º tempo; Sakai, aos 8min, e Danilo, aos 18min do 2º tempo

Kashiwa Reysol
Sugeno; Sakai, Masushima, Kondo e Hashimoto (Hyodo); Kurisawa e Otani; Leandro Domingues, Tanaka (Sawa) e Jorge Wagner; Kudo (Kitajima). Técnico: Nelsinho Baptista

SantosRafael; Danilo (Bruno Aguiar), Edu Dracena, Bruno Rodrigo e Durval; Elano (Alan Kardec), Henrique, e Arouca; Ganso; Borges (Ibson) e Neymar. Técnico: Muricy Ramalho

Árbitro: Nicola Rizzoli (ITA)
Local: Toyota Stadium, Toyota (JAP)

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Dia histórico: bandeira palestina é hasteada na Unesco, em Paris


"A paz também é construída com a educação e a cultura", diz diretora-geral da Unesco, Irina Bokova

Clique na foto para ampliar
© UNESCO/D. Bijeljac

Texto publicado nesta terça-feira no site da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco):

A bandeira palestina foi hasteada na sede da Unesco [em Paris] hoje para marcar a admissão da Palestina à Organização.

"O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, a diretora-geral da Unesco, Irina Bokova, o presidente da Conferência Geral Katalin Bogyay, o presidente do Conselho Executivo Alissandra Cummins e os presidentes dos grupos regionais estiveram presentes na cerimônia.

"A Palestina foi eleita como o 195° Membro da Unesco em 31 de Outubro, durante a sessão 36 da Conferência Geral da Organização.

A Unesco é a primeira agência da ONU para admitir a Palestina como um membro pleno.”


Não é ainda o ideal, está muito longe disso, mas é um passo inegavelmente importante e histórico, política e simbolicamente. O presidente palestino, Mahmoud Abbas, declarou: "É emocionante ver nossa bandeira hasteada em uma sede da ONU". E disse ainda: "Nossa admissão hoje (terça-feira) é motivo de orgulho. A Palestina, a terra onde as civilizações se encontraram (...) volta a renascer. Apesar de todas as dificuldades impostas pelo bloqueio, sempre conservamos nosso patrimônio".

A diretora-geral da Unesco, Irina Bokova, afirmou que "a admissão na Unesco é uma oportunidade de demonstrar que a paz também é construída com a educação e a cultura".

Em setembro, manifestação em São Paulo pediu o reconhecimento da Palestina na ONU e o embaixador palestino no Brasil, Ibrahim Alzeben, falou ao blog: Ato em São Paulo pede reconhecimento do Estado da Palestina

Leia também: entrevista com o fotógrafo Rogério Ferrari: “Na Palestina, a câmera era a minha pedra”

domingo, 11 de dezembro de 2011

Santos pega time japonês e Barcelona, após detonar o Real Madrid, encara equipe do Qatar

Santos x Kahiwa Reysol fazem uma semifinal do Mundial de Clubes nesta quarta-feira, 14, às 08:30 da matina (cidade de Toyota).

Barcelona x Al-Sadd (Qatar) disputam a outra no dia seguinte, no mesmo horário (em Yokohama).

Assisti à partida Real Madrid 1 x 3 Barcelona, vitória inapelável dos catalães, de virada. No time de Messi, quem brilhou foi Iniesta. Lionel mesmo, que deu bons passes (inclusive o do primeiro gol do Barça) teve atuação quase discreta, embora tivesse tido disposição até de combater no meio de campo, o que podia ter lhe rendido um cartão vermelho, que o árbitro preferiu não dar por se tratar de Messi. Mas como Messi é um craque, acho que o árbitro acertou em contemporizar nesse lance. Não houve maldade em sua falta a ponto de justificar um segundo amarelo (já tinha tomado um por reclamação) e o vermelho.






O Real Madrid mostrou que quando pressionado o Barcelona também erra. Foi assim logo aos 25 segundos (!) do primeiro tempo, quando o goleirão Victor Valdés entregou de presente uma bola a Di Maria e o resultado foi o gol de Benzema. Até aproximadamente 25 min do primeiro tempo, a pressão do Real em seu campo de ataque forçou outros erros do Barça e os merengues poderiam ter feito 2 a 0. Mas não fez, e ninguém consegue exercer tanta pressão o tempo todo. Quando o Real afrouxou um pouco, levou o empate, com Alexis Sánchez, aos 29 do primeiro tempo. No segundo, em que o Barcelona controlou o jogo com seu conhecido toque de bola, a virada veio quase fácil: Xavi, aos sete, e Fábregas, aos 20 minutos do segundo tempo.

Assim, terminamos essa pequena crônica futebolística deste domingão sem futebol brasileiro.

Contra o Kashiwa Reysol do técnico Nelsinho Batista (ô, carma!), que eliminou o Monterrey do México nos pênaltis neste domingo, o futebol brasileiro estará em campo na quarta-feira, representado pelo Santos Futebol Clube, provavelmente com a seguinte escalação: Rafael; Danilo, Dracena, Bruno Rodrigo e Durval; Arouca, Henrique, Ganso e Elano; Borges e Neymar.

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Leandro Amaral / Divulgação

Claro que para muitos torcedores (são-paulinos, corintianos e palmeirenses) o Santos não é o Brasil na Libertadores (eu mesmo não costumo torcer para os grandes rivais quando eles disputam Libertadores e mundiais. Vou falar que sim por quê?).

Seja como for, os japoneses adoram o futebol brasileiro.

Muito provavelmente acordaremos cedo no domingo que vem para assistir ao duelo mais esperado dos últimos anos: Santos x Barcelona.


Atualizado às 17:06

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Finalmente vem à luz A Privataria Tucana


O tão aguardado livro A Privataria Tucana – cujo lançamento chegou até a ser colocado em dúvida pelos mais céticos – chega às livrarias neste fim de semana.

Reproduzo abaixo entrevista feita por Rodrigo Vianna, do blog Escrevinhador, com o autor, o jornalista Amaury Ribeiro Jr.



Amaury Ribeiro Jr. explica: “os tentáculos da privatização levam a José Serra”

Por Rodrigo Vianna


Por que Ricardo Sergio (ex-caixa de FHC e Serra) é tão importante nessa história?

Por 3 motivos.

Primeiro, na condição de diretor internacional do Banco do Brasil, ele assinou uma portaria que permitia a bancos brasileiros possuir contas em bancos correlatos no Paraguai, e vice versa. Essa medida tinha como pretexto facilitar a movimentação de dinheiro dos brasileiros que possuem comércio no Paraguai. No entanto, se transformou no maior duto para lavagem de dinheiro. Em vez do dinheiro vir para o Brasil, os doleiros passarama a usar esse mecanismo pra mandar toda a grana para uma agência do Banestado em Nova York. Pode-se dizer que Ricardo Sérgio atuou nessa ponta da lavanderia do Banestado.

Segundo ponto, Ricardo Sergio foi o grande artesão dos consórcios das empresas de telecomunicações durante as privatizações, no governo FHC. Ele conseguia manipular a formação dos grupos porque controlava o Previ (milionário Fundo de Previdência dos funcionários do Banco do Brasil), e decidia a forma como o Previ participaria dos consórcios. Ele conseguia isso porque o presidente do Fundo era um aliado dele – João Bosco Madeiro da Costa.

Por fim, Ricardo Sérgio criou a metodologia de usar as “offshores” nas Ilhas Virgen Britânicas, principalmente no Citco. Essas “offshores” eram usadas pra internar [trazer de volta ao Brasil] dinheiro que saiu ilegalmente do país, por meio de uma rede de doleiros.

Ricardo Sergio foi indicado para o Banco do Brasil por quem?

Clovis Carvalho, homem muito próximo de FHC (foi ministro da Casa Civil) e Serra.

O livro mostra uma rede de pessoas muito próximas a Serra e que teriam ligação com o esquema das “offshores”. Quem faz parte dessa rede?

A filha de Serra, Verônica. O genro dele, Alexandre Bourgeois. O primo de Serra, Gregorio Marin Preciado. Além de Madeiro da Costa.

Qual a relação do banqueiro Daniel Dantas com Serra?

Os documentos mostram que a empresa Decidir, aberta na Flórida,era uma sociedade entre a irmã do banqueiro e a filha de Serra – as duas Verônicas. A empresa foi aberta com recursos das próprias empresas de Dantas. Depois, a Decidir foi transferida para as Ilhas Virgens Britânicas, no mesmo escritório da Citco onde Ricardo Sérgio opera com várias “offshores”, desde a década de 80. A exemplo das empresas de Ricardo Sergio, as offshores de Verônica e Alexandre Bourgeois eram usadas pra internar dinheiro em empresas deles no Brasil.

Isso está provado por documentos?

Sim. Tudo está documentado, papéis obtidos de forma lícita em cartórios , na Junta Comercial, nos arquivos da Justiça brasileira e no governo da Florida, além de papéis obtidos nas Ilhas Virgens.

No governo tucano, Serra era tido como um “desenvolvimentista”, em oposição aos “liberais” que queriam privatizar tudo. Sua investigação mostra que Serra foi mesmo um personagem secundário nas privatizações?

Não, ao contrário. Todos os personagens importantes na privatização eram muito próximos a Serra, a começar pelo Ricardo Sérgio, que foi caixa de campanha do Serra antes de ir para o Banco do Brasil. Isso mostra que Serra era um personagem central no processo, não era figura secundária, aliás ele fez questão de bater o martelo pessoalmente em mais de um leilão . Se fizermos um gráfico com as pessoas citadas no livro, vemos que os tentáculos da privatização levam ao José Serra. O nome dele aparece em poucos documentos, mas nos papéis surge gente muito próxima ao Serra – a filha, o genro, o Ricardo Sérgio…

Ano passado você virou pivô de um escândalo durante a campanha. Não tem medo de retaliações agora?

Fui colocado no foco das eleições, com dois objetivos: evitar que os papéis desse livro fossem divulgados e afetar a candidatura da atual presidenta Dilma. Mas o livro está aí para provar que nenhum desses papéis é fruto da suposta quebra de sigilo de que fui acusado no ano passado. Quanto a retaliações, estou preparado pra tudo, e aviso: tudo que relato no livro está muito bem documentado.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Lennon e os Beatles no topo do edifício da Apple Studios


Volto aos Beatles porque hoje, 8 de dezembro, é aniversário do assassinato de John Lennon, triste efeméride que já abordei aqui por ocasião de seus 30 anos no ano passado de maneira mais completa, assim como dias atrás postei um pequeno tributo pelos dez anos da morte de George Harrison (ambos os links abaixo do vídeo).

O vídeo que se segue é um trecho (a canção "I've Got a Felling") da lendária apresentação da banda no topo do edifício da Apple Studios na tarde de 30 de janeiro de 1969. O filme mostra os quatro Beatles com aspecto meio deprê – o que era sintoma visível da então já degradada relação entre Paul McCartney e John Lennon, que já estavam virtualmente separados – e é muito bonito em seu estilo de documentário e surpresa: as pessoas, em Londres, não sabiam do evento e foram se apercebendo aos poucos do que ocorria. A presença da polícia londrina, que pode ser vista nas imagens, interferiu na apresentação, pedindo para abaixar (sim, abaixar) o som.

Edifício da Apple Studios – 30 de janeiro de 1969




Veja também:

Pequeno tributo a George Harrison (1943-2001)

Em 8 de dezembro morreram John Lennon (em 1980) e Tom Jobim (em 1994)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A espetacular despedida da torcida do Santos em Guarulhos

O time embarcou na noite desta segunda-feira ao Japão. Antes, fará escala em Frankfurt, na Alemanha (créditos do vídeo para @lufthansa_br).




A lista dos atletas santistas que embarcaram é a seguinte:

Goleiros: Rafael, Aranha e Vladimir. Zagueiros: Edu Dracena, Durval, Bruno Aguiar, Bruno Rodrigo e Vinicius Simon. Laterais: Danilo, Léo e Pará. Volantes: Arouca, Henrique e Anderson Carvalho. Meias: Elano, Paulo Henrique Ganso, Felipe Anderson e Ibson. Atacantes: Neymar, Borges, Alan Kardec, Diogo e Rentería.

O único desfalque será o volante Adriano, com lesão no joelho, que seria o encarregado de marcar Lionel Messi.

domingo, 4 de dezembro de 2011

No dia da morte de Sócrates, Corinthians ganha seu quinto título brasileiro


Com um 0 a 0 que a Fiel considerará algo como "digno da tradição de sofrimento" do Timão, com direito à morte de um mito, Sócrates, que se foi justamente na madrugada deste domingo, dando a conotação dramática ao epílogo do espetáculo, o Corinthians sagrou-se campeão brasileiro pela quinta vez.

Sobre o Doutor, rendo aqui uma pequena homenagem, que é apenas uma lembrança. Não me lembro exatamente em que ano, eu estava no Morumbi num Santos x Corinthians que parecia um jogo de xadrez, equilibrado, estudado, bonito em seu equilíbrio. De repente, do nada, de costas para seu ataque, na intermediária, o Doutor deu um passe de calcanhar para Palhinha, que, na velocidade, sofreu pênalti. Corinthians 1 a 0 (acho que o jogo acabou 2 a 0). Num toque genial, o Magrão destruiu todas as possibilidades de equilíbrio. Assim era Sócrates.

Voltando a 2011, não há o que discutir sobre a justiça do título alvinegro, que terminou a competição após liderá-la por 27 rodadas. O que não se pode deixar de dizer, e eu não aceito a pecha de parcialidade por dizer isso, é que o time de Tite não deu espetáculo nenhum, é só a menos ruim das equipes que disputaram o título brasileiro de 2011. É um campeão sem brilho, sem craque, sem golaço, sem ginga e com um futebol pragmático que não empolgou nem os corintianos mais exigentes que entendem de futebol.

Apesar de ser considerado um campeonato muito emocionante, o Brasilerão de 2011 foi tecnicamente muito fraco.

Os méritos do título são todos de Tite, que, com sua pragmaticabilidade, colocado sob desconfiança desde sempre, manteve a toada sem estardalhaços, sem lantejoulas, e com humildade chegou à conquista mais sua do que de qualquer outro personagem.

Por fim, infelizmente este é um post de final de campeonato que não tem gols para linkar. O jogo do Pacaembu foi muito ruim e o resultado mais justo foi mesmo o triste 0 a 0. Ao Vasco da Gama, os aplausos por ter lutado até o fim pela inexpressiva Copa Sul-Americana e pelo título brasileiro, que, com o 1 a 1 com o Flamengo no Engenhão hoje, não teria conquistado nem se o Palmeiras tivesse jogado algum futebol e houvesse batido o Corinthians no Pacembu.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Números justificam título corintiano, e Vasco conta com ajuda dos deuses do futebol


Noves fora zero, como se dizia antigamente, pode-se dizer que, se o Corinthians ganhar o campeonato, os pontos decisivos terão sido conquistados exatamente no embate com o Vasco da Gama. O confronto direto entre o líder e o vice-líder foi o seguinte:

6/07/2011: Corinthians 2 x 1 Vasco (Pacaembu)

2/10/2011: Vasco 2 x 2 Corinthians (São Januário)

O time paulista (hoje com 70 pontos) ganhou quatro pontos da equipe cruzmaltina (68), que levou apenas um no duelo. Se, por exemplo, tivesse havido empate nas duas partidas, o Vasco chagaria à última rodada com 69 pontos e o Corinthians teria 68.

Tite/ Reprodução
A matemática também justifica o título ficar no Parque São Jorge se se levar em conta o número de rodadas que cada equipe ficou na liderança.

O Vasco da Gama liderou a competição por cinco rodadas (ou 13,5%): 24ª, 25ª, 26ª, 27ª e 31ª.
O São Paulo foi líder nas rodadas de número 3, 4, 5 e 6, o que equivale a 11%.

O Atlético-MG terminou na ponta a segunda rodada e o Flamengo a primeira, ou seja, ambos os times comandaram a tabela por meros 2,7% da competição.

Todas os outros 26 rounds (70% do campeonato) terminaram com a liderança corintiana.

Além de todos esses números, a matemática ainda dá enorme vantagem ao Timão na rodada final, já que precisa de um empate com o Palmeiras, enquanto o Vasco tem de derrotar o Flamengo e torcer por vitória do Palmeiras no derby paulista (essa combinação dá a probabilidade de 1/9 ao time do Rio, ou 11% apenas).

Os deuses do futebol e o imponderável

Mas, como o ludopédio é um esporte mágico em que não raro o imponderável caminha pelos campeonatos e os deuses do futebol costumam impor suas vontades insondáveis e ilógicas, é exatamente nisso que o Vasco deposita suas esperanças.

Ricardo Gomes/ Reprodução
 Acho que o time da Cruz da Malta tem a seu favor a impressionante união, motivação e determinação do elenco, que foi enormemente influenciado pelo problema de saúde do comandante Ricardo Gomes, que, segundo se divulgou, estará no vestiário amanhã para participar da preleção antes do duelo com o Flamengo. Esse fator espiritual não deve ser desprezado, e acho que ele faz com que o Vasco seja favorito contra o Flamengo.

Do outro lado, no Pacaembu, não vejo favoritismo nesse jogo específico. Consta que, apesar do jogo de cena de Luiz Felipe Scolari, que fala da partida com certo ar blasé, dentro do clube a motivação do elenco palmeirense é muito grande e certas estratégias não reveladas, até para irritar os corintianos, estão sendo preparadas. O Palmeiras ressuscitou nesse final de Brasileirão; o ambiente melhorou 100% com a chegada de César Sampaio e a saída de Kléber; Marcos Assunção é um terror permanente com sua bola parada; Valdívia, apesar da inconstância, é um jogador perigoso e catimbeiro, que pode ser decisivo; e, enfim, clássico é clássico e vice-versa.

O Corinthians deve escalar Wallace, um zagueiro, para ocupar o lugar de Ralf, e isso pode ser perigoso, pois sinaliza ao adversário uma estratégia medrosa e pode atraí-lo para cima. O desfalque de Danilo me parece que será superado com vantagens por Alex, que é mais jogador, mais rápido, versátil e pode desequilibrar, seja no drible, seja no chute. E Jorge Henrique na vaga de Emerson Sheik é uma incógnita.

Resumindo tudo. O Corinthians é amplamente favorito ao título. Na minha opinião, o Vasco é favorito contra o Flamengo. E não há favoritos no derby do Pacaembu. Como vocês veem, será um domingo para corações fortes. E os deuses do futebol estarão à espreita.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Para Gabriel Priolli, uma solução como a Ley de Medios argentina é utopia no Brasil


“O Estado é laico no Brasil, mas teme a Deus e a força de suas igrejas”


ENTREVISTA

Atualmente diretor de conteúdo da Fabrika Filmes, de Brasília, Gabriel Priolli é jornalista, professor, apresentador e diretor de televisão. Foi membro do Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional, do Conselho Superior do Cinema (Ministério da Cultura) e do Comitê Consultivo do Sistema Brasileiro de TV Digital (Ministério das Comunicações).

Entre outras atividades, Priolli foi editor do Jornal Nacional, implantou e dirigiu o Canal Universitário de São Paulo e comandou a TV PUC (SP), da universidade onde lecionou por vários anos.

Começou como repórter na TV Cultura de São Paulo, emissora onde dirigiu o programa "Vitrine". Gabriel Priolli ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo na categoria Informação Cultural em 1988. Ele não está otimista quanto às perspectivas da TV brasileira e à democratização da mídia no país. Leia a entrevista e veja por quê.

Por Eduardo Maretti

Fatos Etc: O parágrafo 5° do artigo 220 da Constituição Brasileira prevê: "Os meios de comunicação social não podem (...) ser objeto de monopólio ou oligopólio". Apesar das inúmeras propostas tiradas da Conferência Nacional de Comunicação, a regulamentação dos artigos 220 a 223 não parece próxima, seja pela pressão e poder dos meios de comunicação, seja pelo “corpo mole” evidente do governo. É possível ser otimista diante desse quadro? Uma solução tipo Ley de Medios argentina é uma utopia no Brasil?

Gabriel Priolli: – Não é possível ser otimista, quando o assunto é regulação de mídia no Brasil. Esse é um setor praticamente sem controle, com uma legislação defasada e parcial, mas com um poder político imenso. Não apenas porque a mídia manipula a opinião pública à sua vontade, constrangendo governos, mas também porque controla o parlamento, já que 20% dos parlamentares e quase todas as lideranças expressivas são ligados a meios de comunicação. Raramente são aprovados decretos, leis, normas ou portarias que contrariem os interesses da mídia. Quando acontece, os autores são demonizados como "censores" e as medidas acabam neutralizadas, revistas ou inteiramente revogadas. A boa regulamentação, para a mídia brasileira, é regulamentação nenhuma. Dessa forma, é uma completa utopia imaginar que possamos ter algo avançado e moderno como a Ley de Medios argentina.

Sobre a democratização das verbas publicitárias, houve avanços no governo Lula. Mas é evidente certo desinteresse em uma ampla reformulação, até porque o governo, entidades públicas e políticos (e já ouvi lideranças petistas admitirem isso) preferem pagar o preço da poderosa oposição midiática mas continuar desfrutando do espaço publicitário dos grandes meios. Qual seria um ponto de equilibrio aceitável no rumo da tal democratização?
    O aceitável é que todos os veículos, independente de seu porte, tenham acesso às verbas publicitárias públicas. O Governo Lula caminhou bastante nessa direção, mas ainda há muito por fazer. Essa é uma área que precisa de uma "política afirmativa", semelhante à política de democratização racial, que favorece etnias historicamente prejudicadas. A grande mídia acha que a verba publicitária estatal deve ser partilhada por critério de audiência e circulação, isto é, do número de consumidores de cada veículo. Isso garante a ela a parte do leão, deixando migalhas aos veículos pequenos. Eu penso que eles devem ser incentivados pelo Estado, para que possam se qualificar e desenvolver. Mas sob estrito controle público, para que esse processo não se transforme em cooptação, compra de noticiário e opinião favorável.

Como encara o crescimento do espaço de programas e “canais de aluguel” religiosos na TV brasileira, considerando-se que, constitucionalmente, a TV é uma concessão pública e o Brasil, em tese, um estado laico?
    Como mais um desrespeito ao interesse público e à democracia no país. As religiões são abusivamente privilegiadas e não apenas nas concessões de canais de TV. O Estado é laico no Brasil, mas teme a Deus e a força de suas igrejas. Procura ser bem obediente a eles, para não ter problemas.

Sendo ex-membro do Conselho Superior do Cinema (Ministério da Cultura), qual sua avaliação da gestão da ministra Ana de Hollanda, criticada por grande parte do setor cultural do país?
    Não vejo um projeto claro de ação, nesta gestão do MinC. Não vejo a ministra se pronunciar publicamente em nenhum assunto relevante, nem se apresentar ao debate das inúmeras questões que envolvem a cultura e a comunicação. Não a vi reclamar do corte de orçamento que teve, nem reivindicar mais recursos. Em contrapartida, vejo retrocesso em quase todos os programas implementados nas gestões de Gilberto Gil e Juca Ferreira. Vejo descuido com projetos e políticas democratizantes. Vejo ampla insatisfação, de vários segmentos da cultura. Não posso ter, dessa forma, uma avaliação favorável de Ana de Hollanda.

Você, que conhece bem a TV Cultura, vê alguma perspectiva para a emissora?
    Apenas quando acabar a gestão de João Sayad e dependendo de quem o substituir. Mas não são muito boas as perspectivas, em princípio. Com o PSDB no governo de São Paulo, a televisão pública paulista nunca terá muito incentivo. O partido deixou claro, no combate ferrenho que fez e faz à TV Brasil no plano federal, que é contrário ao uso de recursos públicos no financiamento de canais de TV. Acredita que o modelo comercial-privado é suficiente para o país. Logo, a TV Cultura será mantida à míngua, padecendo de falta de recursos e da impossibilidade de ousar, criar, avançar. Acabar com ela talvez tenha um custo político muito alto. A opção é fazer de conta que ela existe e mantê-la no limbo da irrelevância.

A eterna discussão sobre a necessidade ou não do diploma de jornalista continua, apesar de o STF ter derubado a exigência. Duas propostas de emenda à Constituição voltam a propor a volta da exigência para “resgatar a dignidade dos jornalistas” e “garantir um jornalismo de qualidade”. Entre os argumentos contra, o de que o diploma incentiva a reserva de mercado e a “indústria do canudo” e afronta liberdade de manifestação do pensamento. Qual solução você defende?
    Sou totalmente a favor da exigência de diploma universitário específico, para profissionais de jornalismo. A desregulamentação da profissão só interessa ao empresariado, que quer ter flexibilidade total na contratação de mão de obra. Para os jornalistas, o diploma fortalece as conquistas profissionais, preserva o piso salarial, evita o ingresso de oportunistas e desqualificados. Para a sociedade, interessa um jornalismo feito por profissionais bem capacitados, que os cursos superiores de comunicação podem oferecer. Outros profissionais, de outras categorias, podem e devem ter acesso ao jornalismo. Mas na condição de articulistas, comentaristas, especialistas. Como sempre lhes foi assegurado.

O que diria aos jovens que hoje sonham em fazer jornalismo?
    Que se preparem para uma carreira profissional difícil, onde os sonhos rapidamente revelam-se ilusões. É uma profissão bonita, digna, apaixonante. Mas as condições em que é exercida, neste país, são muito difíceis. Manter o espírito livre, o pensamento autônomo e a consciência crítica, numa mídia que exige a máxima subserviência de seus funcionários, é uma tarefa hercúlea. Como disse um colega, antigamente a gente apenas trabalhava em jornal. Hoje é preciso ser "filiado" dele, pensar como ele. Isto costuma ser bem doloroso. Para não falar das condições de trabalho, as jornadas abusivas, a precariedade, a insegurança. É preciso muito amor pela profissão, para não desistir no caminho.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Senado deve voltar a debater acordo ortográfico *

A senadora Ana Amélia (PP-RS) solicitará que a Comissão de Educação do Senado (CE) promova no início do ano que vem uma audiência pública sobre o novo acordo ortográfico. Enquanto o Brasil deve concluir a implementação do acordo em 2013, outros países de língua portuguesa enfrentam resistências - inclusive Portugal. Uma das providências que podem ser estudadas pelo Senado é a criação de um grupo de trabalho sobre o assunto.

Ana Amélia anunciou a audiência logo após se reunir, nesta segunda-feira (28), com o professor Ernani Pimentel. Autor de diversas críticas ao novo acordo ortográfico, o professor criou o Movimento Acordar Melhor para divulgar suas ideias.

Pimentel defende a simplificação das regras, porque, segundo ele, o novo acordo contém "incoerências, incongruências e muitas exceções". Um dos vários exemplos que citou foi a dificuldade para se compreender quando se deve usar ou não usar o hífen. “Por que 'mandachuva' se escreve sem hífen e 'guarda-chuva' se escreve com hífen? É ilógico. E há muitos outros exemplos”, afirmou.

De acordo com Pimentel, "nenhum professor de português de nenhum país signatário é capaz de escrever totalmente de acordo com as novas regras e, como os professores não têm condições de compreender, os países não terão condições de implantá-las".

Pimentel apoia a criação de um grupo de trabalho, no âmbito da Comissão de Educação do Senado (CE), para discutir o acordo. Ele também sugeriu que os países signatários criem um órgão similar à Real Academia Espanhola, que seria responsável pela uniformização da ortografia nos países de língua portuguesa.

Ao comentar as resistências externas ao acordo, ele lembrou que alguns países alegam - "com razão", observou - que as novas regras foram pensadas somente a partir de Brasil e Portugal, ignorando especificidades culturais de outras nações de língua portuguesa. Ele também disse que há uma divisão em Portugal, entre os que defendem o acordo e os que preferem adiá-lo devido aos interesses do mercado editorial português (que, dessa forma, não enfrenta a concorrência de livros brasileiros em seu próprio país e também nos países africanos de língua portuguesa).

Sobre a atuação do Ministério das Relações Exteriores, Pimentel declarou que "o Itamaraty está correto ao querer a unificação, mas está errado ao permitir que o interesse político desconsidere as questões educacionais, pedagógicas e culturais". “Ao forçar o acordo, o Brasil está sendo visto como impositor. É importante que haja discussão entre os países”, avalia.

* Da Agência Senado


*PS do blog
: Para este blogueiro, e nada me convencerá do contrário, a reforma ortográfica, implementada por um conselho de notáveis escolhido a dedo, não passa de uma política cínica para incrementar a venda de livros, milhões de livros, e engordar os lucros do setor livreiro do país e fora dele. Dicionários e gramáticas novos, livros didáticos e paradidáticos encabeçam o mercado brasileiro.

Para se ter uma ideia, o segmento didáticos faturou, em 2010, R$ 2,1 bilhões, para um faturamento total do setor de cerca de R$ 4,5 bilhões. Precisa dizer mais?

Quanto às regras propriamente ditas, as confusões, exceções contraditórias e falta de critérios mostram que a reforma, além de tudo, empobreceu e violentou a língua. Fora os exemplos citados acima no texto da Agência Senado, o fim do trema etc, há coisas absurdas. Exemplo: a queda do acento para diferenciar o verbo parar no presente do indicativo (pára) da preposição.

Vejam essa manchete de jornal, que li esta semana: “Cidade para após problema em ponte”. A frase tem dois significados. Como verbo, o para indica o sentido de que a cidade ficou paralisada depois de problemas com a ponte; mas, como preposição, podemos ler assim: [como ficará] a cidade depois de resolvido o problema da ponte.A língua portuguesa é como a Constituição brasileira. Uma colcha de retalhos e de emendas.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Pequeno tributo a George Harrison (1943-2001)


Não poderia passar sem uma singela homenagem ao grande George Harrison, que morreu há exatos dez anos. Ele nasceu em Liverpool, em 25 de Fevereiro de 1943, e se foi no dia 29 de Novembro de 2001, em Los Angeles, aos 58 anos.

Como muitos sabem e já escreveram, os Beatles não teriam sido os Beatles sem a fabulosa guitarra de Harrison. Por isso estou muito distante dos que se fixam na dupla Lennon e McCartney como se a maior banda de todos os tempos pudesse ter prescindido de George, que foi, diga-se, o introdutor do orientalismo na música do quarteto, como se pode ver (ouvir) na música "Within You Without You" (abaixo), do álbum Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band, em que ele toca cítara e conta com a participação de músicos indianos.

Nos vídeos abaixo, a célebre guitarra de George Harrison em "Day Tripper", o orientalismo de "Within You Without You", também presente (embora com maior simplicidade musical) em "My Sweet Lord", canção lançada já depois da separação dos Beatles.


Day Tripper





Within You Without You




My Sweet Lord




Acesse outro post, com a canção "He comes the sun", neste link.

domingo, 27 de novembro de 2011

Corinthians entra em semana de "decisão" com Palmeiras e Valdívia fala em "questão de honra"


Voltei de merecida semana de férias na praia a tempo de acompanhar a penúltima rodada do Campeonato Brasileiro (preferia estar na praia, onde não vejo TV, mas... c'est la vie). Vi o primeiro tempo de Santos e Bahia, na despedida alvinegra de sua casa antes do embarque para o Japão, mais preocupado com o risco de outra contusão como a que tirou o volante Adriano do Mundial de clubes, peça importantíssima no esquema santista, justamente o jogador que seria o encarregado de grudar em Messi, caso Barcelona e Santos façam a final.

O 1 a 1 dos primeiros 45 minutos (que acabou sendo o placar final, com gol de quem? - Neymar) satisfazia a ambos, e no segundo tempo da rodada, toda no mesmo horário, fiquei zapeando entre Figueirense x Corinthians e Fluminense x Vasco, depois de ouvir comentários dando conta de que a primeira etapa em Floripa havia sido pavorosa (o Timão, “melhor time do campeonato”, deu um, um chute “a gol”, que vi depois, um tiro bisonho de Willian que saiu a uns sete metros da trave). Vasco x Fluminense faziam e fizeram um jogo bem melhor. Mas Liedson anotou 1 a 0 no Orlando Scarpelli aos 23min.





Com o 0 a 0 de Vasco x Flu, o título ia ficando no Parque São Jorge. Mas Alecsandro pôs o Vasco em vantagem aos 31 e tudo continuava como antes do início da rodada. Fred, sempre ele, fez um golaço empatando para o Flu sete minutos depois, e os rojões espoucavam sem parar pela cidade de São Paulo.

Era o título corintiano. Que não veio. Pois Bernardo, no apagar das luzes no Engenhão, deu a vitória ao Vasco por 2 a 1.




Na rodada final, enquanto o Vasco enfrenta o Flamengo, o Corinthians faz o derby com o Palmeiras. Para ser campeão, o Vasco precisa vencer e torcer por vitória do Verdão (matematicamente, a chance vascaína de ficar com a taça é de uma em nove, ou 11%). O clube do Parque São Jorge só depende de um empate.

O Palmeiras bateu o São Paulo, que ficou longe da Libertadores, e Felipão promete um time motivado contra o Corinthians. Valdívia disse que ganhar do rival alvinegro “é questão de honra”. A Fiel tem motivos para se preocupar. Se Tite jogar pelo pontinho que lhe resta e com a cabeça no jogo do Rio, pode ver escapar o título que durante boa parte do segundo tempo de hoje esteve em suas mãos.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Pensamento para sexta-feira [23] – Lhasa de Sela

POESIA


Lloro por ti, querida
(Poema de Gabriel Megracko)

É injusto!
Que fazem estes vivos a perambular
por estradas que não irás mais pisar?
Que susto!

Te foste
antes de eu saber que existias
Suerte maldita! Eu não sabia
Perdoa

Acordarei te ouvindo cantar
Farei-te tributo, farei-te crescer
E serás minha canção de ninar

E farei todo mundo entender
Que a suprir o teu descansar
Serás-me a moção do viver





Lhasa de Sela (27 de Setembro de 1972 - 1 de Janeiro de 2010) foi uma cantora nascida na pequena cidade de Big Indian, no estado de Nova Iorque. Sua ascendência era de um lado mexicana e de outro americano-judeu-libanesa. Filha de um professor não convencional, que percorria os EUA e o México, difundindo o conhecimento, e de uma fotógrafa. Assim passou sua infância, de maneira nômade, junto com seus pais e suas três irmãs.

Sua obra musical mescla tradição mexicana, klezmer e rock e é cantada em três idiomas: espanhol, francês e inglês. Morreu em 1° de Janeiro de 2010, em Montreal, Canadá, vítima de câncer de mama. (Fonte: Wikipedia)

domingo, 20 de novembro de 2011

Henri Matisse - Le Gouter

Amigos, vou passar uns poucos dias na praia, então não atualizarei o blog nesse período.

Enquanto isso, fiquem com o quadro de Henri Matisse (1869-1954), um dos gênios da arte.

Henri Matisse - Le Gouter (1904)

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Dois filmes de Majid Majidi

CINEMA/IRÃ

Quem segue este blog sabe que tenho apreço especial pelo cinema iraniano. Seguem duas indicações, ambas de filmes do diretor Majid Majidi, que vi (ou revi) no feriado passado. Vale a pena alugar, ou comprar, ou baixar.

A Cor do Paraíso (1999)

A história, como é comum no cinema do Irã, é simples. Mohammad (interpretado por Mohsen Ramezani - foto ao lado) é um menino de oito anos, cego, que estuda (e mora) em uma escola para crianças na sua condição por um determinado período do ano. Nas férias, as famílias levam as crianças cegas para casa. A família de Mohammad vive na zona rural. O pai do menino (Hossein Mahjoub), viúvo, protagoniza um drama, porque seu filho cego atrapalha suas pretensões de se casar de novo. Mas o pai sofre com isso.

É impressionante no filme o contraste entre a cegueira de Mohammad e as imagens exuberantes, e as cores. Uma das maiores virtudes estéticas do cinema do Irã é o uso das cores e da luz. Em A Cor do Paraíso, essa exuberância contrasta com a cegueira e a tragédia. Vale muito a pena ver um filme como esse, um olhar muito diferente da visão ocidental sobre a vida e a morte, a história e a arte.


Baran (2001)

A realidade dos afegãos em Teerã
O título do filme, Baran, é o nome de uma mulher. Em Teerã, o cenário é uma enorme obra de construção civil. Refugiados do Afeganistão, um país maldito pelas sucessivas guerras patrocinadas pelas potências mundiais, são contratados como mão-de-obra barata (algo semelhante aos bolivianos hoje no Brasil, guardadas as devidas proporções).

E esse é o contexto em que o jovem Lateef (interpretado pelo ator Hossein Abedini) conhece uma jovem (Zahra Bahrami, no papel de Baran) pela qual se apaixona em condições muito impróprias ao amor. Mas o amor floresce, embora impossível.

Leia também: Procurando Elly,de Asghar Farhadi, uma pequena jóia do cinema iraniano

Atualizado à 01:36

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Uma história repulsiva de escravidão sexual na Líbia de Muammar Khadafi

O jornal francês Le Monde publicou ontem a história estarrecedora de uma jovem, hoje com 22 anos, que foi uma escrava sexual do líder da Líbia deposto e morto recentemente. A jovem, “bela como o dia”, mas “despedaçada”, contou ao jornal o seu “calvário”. Não é difícil para nós, no Ocidente, imaginar a vida das mulheres no Oriente Médio. A humilhação e a brutalidade estão presentes mesmo na vida das que estão inseridas no mundo da legalidade e do casamento, como mostra o excelente filme Kadosh, de Amos Gitai.

Clique na foto para ampliar
Mulher no Irã: Foto de Marcello Casal Jr/ ABr
Mas quando essas histórias ocultas são reveladas, a realidade repulsiva das pessoas submetidas ao poder de ditadores ou pequenos ditadores sobre a vida e a morte parecem ganhar uma aura de verdade que antes não tinham.

A jovem contou ao Le Monde que “tinha 15 anos quando, em 2004, foi escolhida dentre as garotas de seu colégio para entregar um buquê de flores ao ‘Guia’ (Muammar Khadafi), que visitava a escola onde ele tinha primos”. Na ocasião, “O coronel colocou a mão em seu ombro e acariciou seus cabelos, lentamente. Era um sinal para seus guarda-costas que significava: ‘Quero esta aqui’”.

Para resumir a horrível história, a menina “foi levada para o deserto”, “convidada” a viver com o ditador líbio sob a promessa de ter tudo o que quisesse. Claro que ela não queria, mas não tinha escolha. “Nas horas seguintes, Safia [nome fictício], assustada, foi vestida com peças íntimas e ‘roupas sexy’. Ensinaram-lhe a dançar, a se despir ao som de música, e "outros deveres". Ela soluçava, pedindo para voltar à casa de seus pais. Mabrouka [serviçal do ditador incumbida de “cuidar” da menina] sorria. Voltar à vida normal não era mais uma opção”.

A partir de então, Safia passou a ser sistematicamente estuprada e submetida a uma tirania atroz, de acordo com a mentalidade doentia e sádica do “Guia” (como era chamado Khadafi entre os humildes servos do seu povo), digna de uma cena de Salò – os 120 Dias de Sodoma, de Pasolini.

"Por que ele roubou minha vida?"

"Quando vi o cadáver de Khadafi exposto à multidão, por um momento senti prazer. Depois, senti um gosto amargo na boca", disse a jovem ao Le Monde. “Ela queria que ele estivesse vivo, que fosse capturado e julgado por um tribunal internacional. Nesses últimos meses, só pensou nisso. ‘Eu me preparava para enfrentá-lo e lhe perguntar, olhos nos olhos: por quê? Por que fez isso comigo? Por que me estuprou? Por que me bateu, me drogou, me insultou? Por que me ensinou a beber, a fumar? Por que roubou minha vida?’”

O pior é pensar que a queda de Muammar Khadafi está muito longe de acabar com essa cultura em que chefes de tribo, chefetes políticos e outros “guias” espalhados pelo país se julgam no direito de subjugar, humilhar e destruir a vida das pessoas, das mulheres especialmente.

Recomendo à ministra Iriny Lopes, da Secretaria de Política para as Mulheres, que pediu a suspensão da propaganda com a modelo Gisele Bündchen para uma marca de lingerie, por considerá-la “sexista”, a fazer uma visita à Líbia, ao Irã, à Arábia Saudita, como uma espécie de estágio. Nesses países, ela poderia estudar melhor o tema direitos das mulheres. Nesses países, não existe humor, nem liberdade, nem direitos.

Leia reportagem na íntegra, no original do Le Monde ou na tradução no Uol.

*Atualizado às 17:31

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Corinthians e Vasco disputam o título


Finalmente um domingo em que os favoritismos vingaram. No post anterior eu dizia que, “com a refugada do Flu, digna de um Baloubet du Rouet, a disputa pelo título volta a ficar mais clara entre Vasco e Corinthians”.

E enfim, com a difícil vitória corintiana sobre o Atlético-PR e o quase tranquilo triunfo do Vasco sobre o Botafogo (que começou o jogo bem, quase fez 1 a 0, mas depois submergiu), o título está definitivamente entre os times do Parque São Jorge e de São Januário, ambos com 61 pontos, o Timão com uma vitória a mais. Posso queimar a língua, mas faltando quatro rodadas parece muito improvável que Fluminense e Figueirense (ambos 5 pontos atrás de Corinthians e Vasco) ou Botafogo e Flamengo (seis) tirem essa diferença.

Gols de Corinthians 2 x 1 Atlético-PR


Na próxima rodada, no meio de semana, o Corinthians tem difícil duelo contra o Ceará em Fortaleza. O time nordestino, em 17° lugar com 35 pontos, é o primeiro da zona da degola e precisa vencer para respirar. O Vasco encara o desalentado Palmeiras no Pacaembu. Na rodada seguinte, no próximo fim de semana, o time de Tite e a equipe do surpreendente interino Cristóvão Borges jogam em casa: o Corinthians recebe o Atlético-MG; o Vasco será anfitrião do virtualmente rebaixado Avaí.

O Vasco é mais time que o Corinthians, tática e tecnicamente. A união do grupo motivada, digamos assim, pelo espírito de Ricardo Gomes, a liderança de jogadores como Felipe e Juninho Pernambucano, a falta de responsabilidade do Vasco, que já tem a temporada ganha e nem precisa do título, se contrapõem à ansiedade corintiana, às inseguranças de Tite e à desconfiança de boa parte da torcida. Seu eu fosse apostar hoje, seria no Vasco.

Dedé, a alma do Vasco

Agora, minha gente, só abro este parágrafo para falar em especial de um jogador. O zagueiro Dedé, do Vasco da Gama. Pelamordedeus, como joga bola esse guri. Ele é uma espécie de Luís Pereira (da Academia do Palmeiras dos anos 1970) mais evoluído. Se é que me entendem. Torço muito para que esse moleque dê certo. O segundo gol vascaíno foi inteiramente dele. Driblou, armou, passou, correu e fez o gol. Vejam bem, é um zagueiro. Por isso lembrei do grande Luís Pereira.

Gols de Vasco 2 x 0 Botafogo



Palmeiras no imbróglio

O detalhe é que Ceará x Corinthians na quarta-feira interessa ao Palmeiras. O Ceará está 7 pontos atrás do Verdão, que tem 42. Como todos vocês sabem fazer operação de soma e subtração, podemos concluir que se o Ceará bater o Timão e o Cruzeiro (16° colocado, 37 pontos) conseguir um empate contra o Avaí em Florianópolis, o Palestra ficará apenas 4 à frente do Ceará e do Cruzeiro.

Se já não colocou, a torcida palestrina tem todos os motivos para colocar as barbas de molho. Neste domingo, o time de Felipão Scolari deixou o Grêmio chegar ao 2 a 2 após colocar 2 a 0 à frente dos gaúchos em pleno Estádio Olímpico.

Santos sempre Santos

E o Santos calou a boca do técnico Antonio Lopes, do Furacão, que reclamou do Peixe mandar seu time reserva para enfrentar o Ceará no Castelão. Mesmo com 11 reservas, o time da Vila bateu os nordestinos por 3 a 2 (torço para o Ceará não cair, é muito bacana aquela torcida fanática lotando o Castelão).

Atualizado à 00:05

sábado, 12 de novembro de 2011

Flu perde do lanterna América-MG, em refugada digna de Baloubet du Rouet

No domingo 30 de outubro, o Corinthians derrotou o Avaí no Pacaembu por 2 a 1 e o Vasco ficou no 0 a 0 com o São Paulo no Rio, perdendo a chance de assumir a ponta, e escrevi aqui: “Tenho a impressão que o principal trunfo do Corinthians é a absoluta incompetência dos concorrentes”.

Apesar da veemente discordância dos corintianos naquele post, continuo com a mesma opinião. E, vejam bem, não estou dizendo que o Timão não merece ou não merecerá o título se o ganhar, mas a derrota do Fluminense para o lanterna América-MG por 2 a 1 em pleno Engenhão só vem confirmar que, embora emocionante, o Brasileirão 2011 é nivelado por baixo. Tirando o Santos, que abdicou da competição cedo demais, nenhum dos times que podem levantar o título tem cara de campeão, ou craques que desequilibram ou um futebol que encante.

Vi o jogo do Fluminense e fiquei a me perguntar como um time tão limitado, sem nenhuma estrela (Deco, machucado, não atuou), jogando na base do chuveirinho, pode ganhar o campeonato. Se vencesse o Coelho, o Flu seria hoje líder. Mas, sem Deco, o time de Abel Braga, com um meio de campo acéfalo, foi amplamente dominado pela equipe do técnico Givanildo, que mereceu vencer por placar até mais generoso.

Gols de Fluminense 1 x 2 América-MG




Isolado e sem ninguém para armar as jogadas, o atacante Fred não fez nenhum milagre. Rafael Moura, o He-Man, entrou bem no segundo tempo, deu mais movimentação e alternativas ao ataque. Mas como Abelão é um técnico conservador e medroso, nesse aspecto ao estilo de Tite (vide derrota do Timão para o mesmo América de Minas), ele preferiu não começar jogando com Sóbis, Fred e Rafael Moura, deixando este último no banco. Quando corrigiu o erro, já era tarde.

De futebol e hipismo

Com a refugada do Flu, digna de um Baloubet du Rouet, a disputa pelo título volta a ficar mais clara entre Vasco e Corinthians.

O mítico Baloubet du Rouet e Rodrigo Pessoa
(Um parênteses é necessário: entendo muito pouco de cavalos. Na única vez em que entrei no Jockey, há muitos anos, para fazer uma reportagem, já que estava mesmo lá apostei em um cavalo, por achá-lo muito bonito -todo preto- e ter um número de que gosto – o 7. Resultado: o cavalo chegou em último no páreo e nunca mais apostei nesses belos animais.)

Voltando ao futebol, neste domingo o Timão é favorito contra o desesperado Atlético-PR no Pacaembu e o Vasco (pelo atual alto astral, moral alto e união do grupo), também favorito contra o Botafogo. Mas os favoritos têm sido uma aposta ingrata neste Brasileiro das refugadas. O Flamengo pega o Coritiba no Couto Pereira precisando vencer e torcer por tropeços dos dois líderes para embolar completamente a tabela na reta final.

Para terminar, não quero ser injusto com Baloubet du Rouet, que ganhou muitos títulos, como registrou o Glauco certa vez em post no Futepoca. Só lembrei do grande Baloubet por uma livre-associação inevitável. Aliás, não sei até hoje quem é mais importante no conjunto, se Rodrigo Pessoa ou Baloubet.

Hoje já é 12 de novembro de 2011


Acontece que o 11 de 11 de 2011 passou e tudo continua normal, minha gente. Que bom. Curiosamente, lembrei há poucos minutos que meu blog fez dois anos no tal 11 de novembro, que já é ontem! O primeiro post foi ao ar às 16:40 de 11 de novembro de 2009: Fez a luz!.

O que será que isso quer dizer em termos cabalísticos? Você crê que os algarismos da data influenciam a sua vida ou você é uma pessoa cartesiana? Para mim, foi um dia como qualquer outro. Como diz num filme de Godard: "Hoje já é amanhã".

Falou-se tanto do 11-11-11, até um filme com exatamente esse título estava previsto para estrear na própria data-personagem, película dirigida por Darren Lynn Bousman (Jogos Mortais 2, 3 e 4), diretor que francamente não tenho interesse em conhecer.

Numerólogos e esotéricos se entusiasmaram, e até um deles (não lembro onde li) chamou a atenção para o fato fundamental de que a data não é 11-11-11, e sim 11-11-2011, o que, convenhamos, muda tudo em termos numerológicos, como sabe até um leigo como eu! A data de 11-11-11 aconteceu há exatamente 2 mil anos. Sobre esse período, recomendo o excelente livro Os Manuscritos do Mar Morto, de Edmund Wilson.

Mas, enfim, chegamos ao 12 de novembro como se esperava, sem turbulências, pois constato que já passa da meia-noite, e portanto já é sábado. Muita gente está na estrada, muita gente estará na estrada, e o fim de semana promete ser chuvoso. Vou ver uns filmes e deixar o carro na garagem.

O rádio está tocando a linda Lucy in the Sky with Diamonds, dos Beatles.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

A escalada autoritária na USP


Por Felipe Cabañas da Silva*

Fato: houve excessos por parte do movimento que ocupou dois prédios administrativos da USP nas últimas semanas. Houve claramente danos ao patrimônio e, segundo relatos de funcionários, violência (não se sabe exatamente de que intensidade, porque os relatos são, obviamente, parciais) quando da entrada nos edifícios.

Além do mais, a maioria do movimento estudantil não deliberou por essa ocupação da reitoria, diferentemente do que ocorreu em 2007, e há uma parte da organização estudantil que parece não conseguir pensar estrategicamente (essencial para quem quer fazer política em qualquer nível), e os excessos cometidos terminaram dando munição para certo senso comum estúpido, que reverberou especialmente na Veja, segundo o qual estudante universitário é baderneiro, vagabundo, maconheiro, não honra o investimento que recebe e tem mais é que levar cacetada – e essa espécie de sub-campanha de estupidez ganhou as redes sociais, nas quais a estupidez, a ignorância e o senso comum ganham adeptos em progressão geométrica.

É preciso compreender que as tensões entre polícia e estudantes na USP não começaram na semana passada “porque os estudantes querem fumar seu baseadinho em paz”, mas estão presentes desde que a reitoria percebeu que imbróglios com estudantes sempre podem ser resolvidos na base da Tropa de Choque, que a USP já usou desse expediente em outros tempos e que vivemos, afinal, numa sociedade policialesca, que geralmente tende a apoiar que rebeldes “antiquados” – de qualquer espécie e com qualquer agenda programática – devem ser tratados na base das cacetadas.

08/11/2011

No dia 9/6/2009, a Polícia Militar reprimiu, com gás de efeito moral, balas de borracha e cacetadas (e em operação circense transmitida em tempo real na televisão, no rádio e na internet) uma manifestação pacífica de estudantes (veja links abaixo). A confusão chegou ao prédio de História e Geografia, e muita gente que não tinha nada a ver com o protesto e que estava no prédio trabalhando, como gosta o cidadão de bem brasileiro, que lê a Veja e paga seus impostos “para que na USP impere a ordem”, teve que engolir os gases da Tropa de Choque. Houve correria, gritaria e foi opinião geral que a polícia passou completamente da conta e terminou agredindo quem não tinha nada a ver com a manifestação... pacífica.

Violência gera violência. Insensatez gera insensatez. É o que vêm repetindo todos os que, proliferando suas opiniões de banca de jornal, lançam-se nas últimas semanas ao linchamento moral de meia dúzia de estudantes extremamente perigosos, que espalharam colchões num prédio, escreveram algumas besteiras na parede e empunharam livros. Vejam bem: livros!

“Crusp sitiado como nos tempos áureos de ditadura” (08/11/2011)



Além dos sucessivos circos policiais, temos 21 estudantes na USP ameaçados não só de expulsão, mas de eliminação da universidade (expulsão somada a mais cinco anos de afastamento obrigatório da instituição) com base no decreto 52.906 de 27 de março de 1972, que determina as normas disciplinares da universidade, e que pouco foi mudado, transformado ou revisto. Há um novo regime disciplinar que precisa ser aprovado pela Comissão de Legislação e Recursos. Enquanto isso, usa-se uma lei que imperou na USP durante a ditadura, aprovada quando o presidente da República era Garrastazu Médici, o governador do estado Laudo Natel e o Magnífico reitor da USP Miguel Reale, reputado líder do integralismo – ou fascismo à brasileira.

Vejamos o que diz o inciso IV, do artigo 205 do decreto 52.906 de 1972: “Constituem infração disciplinar do aluno, passíveis de sanção segundo a gravidade da falta cometida: IV- Praticar ato atentatório à moral ou aos bons costumes”. Moral e bons costumes? Esse inciso faz referência a práticas de atentado ao pudor? Ou é mais uma norma genérica e dúbia que podia ser aplicada a qualquer ato incômodo justamente nos anos que se seguiram ao AI-5, período de maior radicalização da ditadura brasileira?

O governador do Estado afirmou que esses estudantes que invadiram a reitoria “precisam ter uma aula de democracia”. Eu até concordo, mesmo porque conheço muitos colegas dos movimentos da esquerda mais extremista, e sei que muitos ainda não se libertaram de seu ranço stalinista e de suas ideias dicotômicas e reducionistas a respeito de um mundo dividido entre a burguesia espoliadora e os trabalhadores espoliados, uns maus, outros bons.

Mas quero questionar o seguinte: a aula de democracia que dá a reputada melhor escola do país é Tropa de Choque e eliminação? Se é assim, separei os vídeos das aulas de democracia que têm nos fornecido a USP e o governo do estado de São Paulo.

Videos da PM na USP (clique nos links)

- Polícia contra estudantes - 09/06/2009

Vídeo 1

Vídeo 2


Polícia contra professores próximo ao Palácio dos Bandeirantes no dia 26/03/10, quando a categoria estav aem greve. A negociação do então governador do Estado foi a que se vê abaixo:

Vídeo 3

Vídeo 4

*Felipe Cabañas da Silva é bacharel e licenciado em Geografia pela USP, autor do blog Versejar