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sábado, 21 de junho de 2014

Argentina sofre, Alemanha derrapa e França surpreende


Resenha da Copa do Mundo [4 - sábado 21 de junho]



Divulgação/AFA


Injusta vitória argentina contra o Irã por 1 a 0. O futebol é impressionante. Todo mundo esperava que a Argentina passeasse frente aos persas, mas o que se viu foi os iranianos conseguirem bloquear o oponente com uma retranca eficiente e ainda terem as três melhores chances de gol, um pênalti a favor não marcado pelo juiz e, como imerecido castigo ("a bola pune"), o Irã acabou tomando um gol de Messi no finzinho do jogo. A Argentina é um time desorganizado e sem criatividade, apesar de contar com jogadores como Di María, Agüero e Higuaín. Se não fosse Messi ter feito dois gols decisivos contra Bósnia e Irã, os hermanos poderiam hoje estar amargando dois míseros empates.

Mas a vitória da Argentina acabou sendo dramática em um jogo sensacional, o que ninguém imaginava.




O empate da Alemanha com Gana em 2 a 2 foi outro belo jogo, que todo mundo esperava que fosse uma barbada, e não foi. A Alemanha cantada em prosa e verso quase perde de Gana, o que colocaria o grupo G (que ainda tem EUA e Portugal) num surpreendente equilíbrio.

A França começou desacreditada, mas depois dos 5 a 2 na Suíça, com um futebol agressivo de contra-ataques fulminantes, se credencia a pelo menos ir mais longe do que se esperava. É um time muito rápido, tecnicamente muito bom e disciplinado taticamente. Se o Brasil chegar às semifinais tendo sido primeiro do grupo A na fase de grupos e a França também chegar à semi como primeira do E, Brasil x França farão uma semifinal. Isso se a França passar pela Alemanha nas quartas (e se a Alemanha chegar às quartas...). O Brasil pega nas oitavas Chile ou Holanda e, pelo andar da carruagem, Uruguai ou Itália nas quartas.

Talvez seja cedo pra dizer isso, mas a última vez que o Brasil ganhou da França em Copas do Mundo foi em 1958 (5 a 2). Depois, foram três jogos decisivos e três vitórias francesas: 1986 (quartas-de-final, nos pênaltis), 1998 (final, 3 a 0 em Paris) e 2006 (quartas-de-final).

O Brasil, como a Argentina, é um time até aqui sem criatividade e nervoso. A responsa de jogar em casa está visivelmente pesando para o time, que, como já falei, não tem um líder em campo. A sorte é que o jogo decisivo de segunda-feira é contra o fraquíssimo Camarões.

A Costa Rica, zebra das zebras, no grupo D já garantiu uma vaga e deixou para Itália e Uruguai decidirem a outra, numa chave em que a Inglaterra caiu fora no segundo jogo. O Chile, no B, despachou a campeã Espanha d’El Rey. Quem poderia imaginar?

Uma nota: ao fazer seu 15° gol em copas do mundo, o alemão (de origem polonesa) Miroslav Klose iguala Ronaldo. Ao contrário do que se poderia esperar, muitos brasileiros não apenas aplaudem o feito do alemão como torcem para Klose superar Ronaldo. Estou entre esses brasileiros.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A violência em Homs, minha história e o que importa ao mundo: qual o futuro da Síria?



Batalha em Homs/ Reprodução: Vídeo You Tube

A crise síria e a violência na cidade de Homs, supostamente perpetrada pelo governo de Bashar al-Assad, além de triste, tem algo de pessoal para mim na distância das décadas e, por que não, dos séculos.

É que uma curiosa e dupla coincidência me liga, mesmo que longinquamente, à história de Homs: o avô materno (que não conheci) de minha mulher, Carmem, que se chamava Nadin Hussni, veio dessa cidade hoje com pouco menos de 1 milhão de habitantes, localizada a oeste da Síria e a 150 km de Damasco.

Também veio da cidade o pai de outra pessoa que conheci muito tempo antes de Carmem. Muitos tiveram o melhor amigo da infância e adolescência, aquele com quem você divide dúvidas e inquietações, aprende junto e descobre que com ele é capaz de mudar o mundo. O tempo passa, os amigos viram adultos e a vida segue, cada um no seu rumo, e o mundo continua. Essa personagem em minha vida chamou-se Ibraim Salum Barchim, filho de Hanna Ibraim Barchim, que veio também de Homs. Tanto os ascendentes de Carmem como de Ibraim são da minoria cristã da Síria.

Para quem acredita em desígnios espirituais, reencarnação etc., essa coincidência por certo tem muito significado, mas não se trata aqui de discutir isso. E sim apenas constatar que os acontecimentos em Homs têm o poder de mexer comigo de uma maneira que não existiria se eu não tivesse nem a mais distante ligação com essa cidade, afinal meu filho Gabriel tem entre os sangues que correm em suas veias também uma parcela do sangue sírio de Homs.

Qual é a verdade?

A verdade é que as informações sobre o que acontece em Homs e na Síria hoje são desencontradas e estão muito longe de ser claras, sejam quais forem as fontes. Uma das mais gabaritadas, o jornalista Pepe Escobar, diz o seguinte no blog redecastorphoto: a crise síria “está fazendo aumentar os temores, no mundo em desenvolvimento, de uma insurreição armada apoiada pelo ocidente, para tentar recriar, na Síria, o caos criado na Líbia”. Segundo Escobar, o governo Assad não cai porque mais da metade da população síria ainda o apoia.

O jornalista afirmou no início do mês que “o número de mortos [nos conflitos] divulgado pela ONU (...) não discrimina as vítimas favoráveis ao governo e da oposição; e a ONU simplesmente ignorou a morte de mais de 2.000 soldados do exército sírio.”

Já o jornal argentino de esquerda Página12, que também questiona o cinismo ocidental, não poupa porém os “progressistas do mundo” que fecham os olhos para a “matança de Homs”: “onde estarão as forças de esquerda que se escandalizaram com os bombardeios da OTAN na Líbia e agora parecem emudecidos como se a moral e os valores valessem em um território e não em outro?”, escreveu Eduardo Febbro.

Na semana passada, a jornalista americana Marie Colvin (do britânico Sunday Times) e o fotógrafo francês Rémi Ochlik (Paris Match) morreram vítimas de bombardeios em Homs. Mas ninguém pode dizer de fato quais foram os autores do ataque que os vitimou.

Futuro obscuro

O atual presidente sírio herdou o poder de seu pai Hafez al-Assad, que governou de 1970 até 2000, quando morreu. O partido Baath (ou Ba'ath ) dos Assad é secular, e, diferentemente dos que governam inúmeros países do Oriente Médio, não tem diretrizes religiosas. A Síria sob os Assad é aliada histórica da União Soviética e por consequência da Rússia. Cerca de 90% dos sírios são muçulmanos (75% sunitas e 15% outras tendência). Os cristão são talvez pouco menos de 10% .

O temor maior dos detentores do poder e também dos minoritários cristãos é que a “insurreição” leve o país a ser governado por muçulmanos fundamentalistas, o que não interessa nem mesmo aos Estados Unidos e seus aliados. O que interessa aos EUA e seus aliados é derrubar Assad e dividir o país.

Mas, diferentemente do que aconteceu na Líbia, Rússia e China sustentam Assad e, com seu poder de veto na ONU, bloqueiam e bloquearão qualquer tentativa legal do Ocidente de intervir na Síria e derrubar Assad com aval das Nações Unidas. Geopoliticamente, a Síria é fundamental para os interesses americanos, por um lado, e russos e chineses do outro. A queda de Damasco representaria para os EUA ganhar um território fundamental para minar a “ameaça” iraniana e enfraquecer o que veem como séria ameaça a Israel. Russos e chineses não podem aceitar tal hegemonia americana. E Israel já avisou que está em seus planos um ataque ao Irã "em breve", sem avisar os Estados Unidos.

E assim está o mundo na segunda década do século XXI.

Abaixo, na íntegra, os textos citados neste post:

Síria: sombras por trás do espelho, por Pepe Escobar

La matanza de Homs, por Eduardo Febbro

Leia também: “Primavera árabe” foi apenas um espasmo de luz nas trevas do Oriente Médio?

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Dilma já incomoda os iranianos

José Cruz/Agência Brasil

Deu no Estadão que o governo iraniano não está nada satisfeito com a postura crítica da presidente Dilma Rousseff em relação ao tema direitos humanos no país dos aiatolás. Segundo o jornal, “diplomatas brasileiros em Teerã relatam que um assessor especial do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, telefonou para o embaixador brasileiro no Irã, Antonio Salgado, para se queixar” de Dilma.

Em entrevista ao jornal The Washington Post logo após ser eleita, em 18 de novembro, a presidente do Brasil criticou o próprio governo brasileiro, que se absteve de votar contra as violações de direitos humanos no Irã. "Não concordo com o modo como o Brasil votou. Não é a minha posição", disse Dilma, que mencionou ainda as "práticas medievais aplicadas [pelo Irã] quando se trata de mulheres", em alusão à condenação da iraniana Sakineh Ashtiani à morte por apedrejamento.
Mulher iraniana - Foto Marcello Casal Jr.

Enfim, era o que se esperava de Dilma. A muitos de nós causou grande desconforto a postura conchavista do presidente Lula com o chefete de Estado Ahmadinejad, quando disse, sobre a mesma Sakineh Ashtiani, no ano passado, que o Brasil não podia se meter nos assuntos internos do Irã, tendo depois que voltar atrás para oferecer a ela a hospitalidade brasileira.
É óbvio que a substituição de Celso Amorim por Antonio Patriota no comando do Itamaraty é um “sintoma” dessa mudança na postura brasileira. É auspicioso que, com sua enorme liderança emergente no mundo de hoje, o Brasil não se cale diante da barbárie em nome de falsos interesses diplomáticos e econômicos.

"Estamos muito satisfeitas em ver declarações vindas do Brasil de que a brutalidade contra mulheres será pelo menos questionada publicamente", disse Khadijeh Moghaddam, uma dissidente iraniana, ainda segundo o Estadão.

Nessa área, Dilma já começou dando sinais de que seu governo terá uma cara muito própria.

Leia mais sobre Sakineh Astiani clicando aqui.
Leia também: A realidade do Irã governado por fanáticos

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

TV do Irã diz que Sakineh Ashtiani continua presa

"Ao contrário da vasta campanha da mídia ocidental segundo a qual a assassina confessa Sakineh Mohammadi Ashtiani foi libertada, uma equipe de produção da emissora da emissora da Press TV conseguiu com autoridades o direito de seguir com Ashtiani até a casa dela para produzir uma reconstituição visual do crime na cena do assassinato."

Esta é parte da nota divulgada pela emissora de TV iraniana Press TV em sua página da internet, negando que Sakineh Ashtiani tenha sido libertada, como relatado neste blog e em toda a imprensa ontem.

Bom, ao postar a notícia da libertação, eu dizia esperar que "o fato que acaba de ser noticiado não seja um blefe (...). Sabe como é, na 'democracia' iraniana..."

A ativista Mina Ahadi, que ontem comemorava a libertação, disse hoje em entrevista exclusiva ao Uol que "ao torturar e expor seus prisioneiros a emissões televisivas falsas, o regime tenta mascarar seus crimes e reduzir a pressão contra ele. Dessa forma, esse caso torna explícita a natureza criminosa desse regime e de seu sistema judiciário”.

Quer dizer, não era blefe, mas um teatro canalha. A emissora afirma que são políticos os motivos pelos quais o Ocidente faz a campanha pela libertação. De modo que aparentemente nada muda na realidade do Irã governado por fanáticos e o destino de Sakineh continua tão obscuro como antes. O governo iraniano não se pronunciou oficialmente ainda, mas como a Press TV é estatal, conclui-se que a versão é a do governo.

A quem interessar, a matéria da Press TV, em inglês, está neste link.

Atualizado às 17h34

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Sakineh está livre

A iraniana Sakineh Ashtiani, de 43 anos, foi libertada da prisão no Irã, afirmou nesta quinta-feira Mina Ahadi, líder da Comissão Internacional contra a Pena de Morte e o Apedrejamento, de acordo com matéria de O Globo trazendo inclusive fotos da ex-presa com seu filho. Mina "destacou a participação" do presidente Lula e de Dilma Rousseff no processo.

Foto: Reuters (detalhe)
Sakineh Ashtiani

Sakineh era condenada, por adultério, a morrer apedrejada no Irã. Antes de mais nada, a informação é motivo de comemoração e alegria, não só pelo fato em si como porque as pressões de governos, instituições, ONGs e blogs no mundo todo contra essa barbárie medieval e revoltante surtiram efeito.

Espero que o fato que acaba de ser noticiado não seja um blefe, espero que nada aconteça à mulher agora que está livre. Sabe como é, na "democracia" iraniana...

A matéria de O Globo está aqui.

Leia também: A realidade no Irã governado por fanáticos

terça-feira, 3 de agosto de 2010

A realidade no Irã governado por fanáticos

Meses atrás, a revista CartaCapital deu uma foto que me fez lembrar da velha máxima “uma imagem vale mais do que mil palavras”. A fotografia – de uma mulher iraniana condenada por adultério e enterrada até o peito para ser executada por apedrejamento – teve também o poder de me tirar o humor naquele domingo.

O tema está em pauta nas últimas semanas, devido aos apelos de pessoas e entidades do mundo todo pela vida de outra mulher, Sakineh Ashtiani (foto acima), de 43 anos, presa em Tabriz, noroeste do Irã, condenada à morte pela mesma maneira cruel, medieval e bárbara. Pelo que li, como foi condenada em primeira instância, ela ainda vai ter um segundo julgamento, do qual pode se livrar do apedrejamento... para ser executada na forca. Essa é a clemência dos iranianos dos aiatolás.

Segundo a Anistia Internacional, Sakineh obteve o voto por sua absolvição de dois de cinco juízes no julgamento, mas “os outros três, incluindo o presidente do tribunal, a consideraram culpada com base em ‘conhecimento do juiz’, uma cláusula na lei iraniana que permite aos juízes determinarem subjetivamente, e possivelmente arbitrariamente, se o acusado é culpado”. Leia mais aqui, no site da Anistia Internacional, onde você pode obter endereços de autoridades iranianas e participar da campanha pela vida da mulher.

Diante dos clamores, o presidente Lula ofereceu asilo a Sakineh, e ainda não obteve resposta oficial (*). Se é que vai receber. Rejeitando a oferta brasileira, o governo iraniano de Mahmoud Ahmadinejad, acusado pelos Estados Unidos e aliados de enriquecer urânio para fins militares, dirá “não” a um dos poucos países importantes hoje no mundo com quem pode dialogar. Se é que é possível dialogar com esse regime de bárbaros.

Diante da visão maniqueísta antiamericana, às vezes corremos o risco de achar que tudo o que é contra os Estados Unidos é bom. Eu sempre procuro evitar maniqueísmos (para mim sempre equivocados) e suas conseqüências deturpadoras. Por exemplo, não concordo de modo algum com a política dos EUA sobre o Irã, mas tampouco acho que os aiatolás e seu regime merecem clemência. Fanáticos, radicais, doentes, mantêm um status quo de obscurantismo medieval injustificável e macabro. Tudo bem, dizem, é problema deles.

Não é só deles, não. Hoje, no último ano da primeira década do século XXI, as coisas que acontecem do outro lado do mundo são cada vez mais próximas. O que provoca duas sensações: a de que os acontecimentos em qualquer parte do mundo nos dizem respeito; e a sensação de impotência diante de casos como o de Sakineh.

Não é só a rica história persa que é fascinante no Irã. Há, no presente, coisas preciosas, como o belo e importante cinema feito por diretores como, entre outros, Majid Majidi (diretor de Filhos do Paraíso), Abbas Kiarostami (Gosto de Cereja), Ebrahim Foruzesh (O Jarro) e Mohsen Makhmalbaf (que dirigiu Gabbeh e o belíssimo A Caminho de Kandahar, cujo tema é a condição da mulher não no Irã, mas no Afeganistão). Nesse cinema, impera a poesia e a delicadeza, antíteses da brutalidade do regime dos aiatolás.

E é isso.

* PS: escrevi acima que ainda não houve "resposta oficial" à oferta de Lula de receber Sakineh Ashtiani no Brasil. E continuo afirmando. As declarações do porta-voz do Ministério do Exterior iraniano, Ramin Mehmanparast, divulgadas e repetidas durante todo o dia de hoje na internet, não me parecem suficientes para ser aceitas como uma resposta "oficial". Considerando o regime centralizador e autocrata (ou teocrata) do Irã, um mero porta-voz não tem a palavra final sobre nada, muito menos uma resposta oficial.

Atualizado às 21h21.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Casa Branca já reconhece oficialmente Brasil como liderança mundial emergente

A Casa Branca anunciou sua Nova Estratégia de Segurança dos Estados Unidos nesta quarta-feira, 27, num documento de 60 páginas. Nele, o Brasil é tratado com grande destaque, geopolítica e economicamente.

“Nós damos as boas-vindas à liderança do Brasil e procuramos ultrapassar as datadas divisões Norte-Sul para perseguir um progresso em questões bilaterais, hemisféricas e globais”, diz o documento.

Presidente Lula recebe primeiro-ministro da Turquia,
Recep Tayyip Erdogan, em Brasília, nesta quinta

“O sucesso macroeconômico do Brasil, aliado com seus passos para diminuir as desigualdades socioeconômicas, fornece importantes lições para os países em toda América e África”, afirma o texto.

O Brasil é considerado ainda “líder em combustíveis renováveis” e “um parceiro importante para enfrentar a mudança climática global e para promover a segurança energética”.

Sobre a liderança militar exercida pelos EUA, o documento afirma: “esgotaremos todas as outras possibilidades antes de iniciar uma guerra, e analisaremos cuidadosamente os custos e riscos dessas ações".

Diz também que será preciso isolar Irã e Coréia do Norte se esses países não cooperarem na busca pela paz.

"Boas-vindas”
Ao contrário dos relatórios da era Bush, que destacavam o termo “guerra ao terror”, o primeiro texto de estratégia de segurança da gestão Obama propõe parcerias “profundas e mais efetivas com outros centros de influência fundamentais”. Além do Brasil, nesse contexto são citadas China, Índia, Rússia, África do Sul e Indonésia.

Uma observação que não quer calar: mesmo com a importância da notícia, um texto de cerca de 4.600 caracteres do Estadão na internet não cita sequer uma vez a palavra Brasil. O título do texto: “EUA renovam estratégia de segurança e reconhecem outras lideranças mundiais”.

PS (à 0h33): Antes que alguém questione: não é contraditório que a Casa Branca divulgue esse documento, ao mesmo tempo em que a secretária de Estado Hillary Clinton combate a mediação de Brasil e Turquia por um acordo nuclear com o Irã?

Não, não é contraditório. Porque a Estratégia de Segurança dos Estados Unidos é um documento divulgado periodicamente, a cada governo, que traça as diretrizes geopolítcas dos Estados Unidos. Por exemplo, os últimos relatórios são de 2002 e 2006, assinados por George W. Bush, e eles consagravam a doutrina dos falcões de Washington, a "guerra ao terror", doutrina tão importante aos republicanos, que produziu a invasão do Iraque. A questão do Irã é conjuntural.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Em pesquisas, Dilma supera Serra; no Irã, Lula promove acordo pela paz mundial

Analistas políticos globais e quetais estavam eufóricos na semana passada, uma "semana ruim" do governo e de "sua candidata" (entre outros motivos, pelo fator Romeu Tuma Júnior). Mas, nesta segunda, 17, os ventos mudaram um pouco de rumo.

Depois das pesquisas Vox Populi e CNT/Sensus, divulgadas respectivamente no sábado, 15, e segunda-feira, 17, que colocam Dilma Rousseff à frente de José Serra, e após o acordo fechado por Brasil, Turquia e Irã, importante vitória diplomática do presidente Lula e do Itamaraty, é de se esperar agora quais os próximos lances da oposição e da mídia militante. Torpedos devem estar a caminho. Aguardemos se serão disparados antes ou depois da Copa do Mundo. Creio que depois.

Veja os números das recentes pesquisas:

Vox Populi (divulgada sábado, 15 de maio)
Dilma Rousseff (PT) - 38%
José Serra (PSDB) - 35%
Marina Silva (PV) - 8%
(margem de erro: 2,2 pontos percentuais)

CNT/Sensus (divulgada segunda, 17 de maio)
Dilma Rousseff (PT) - 35,7%
José Serra (PSDB) - 33,2%
Marina Silva (PV) - 7,3%
(margem de erro: 2,2 pontos percentuais)

O acordo com o Irã

Ricardo Stuckert/Agência Brasil
Como se já não bastassem os números favoráveis a sua candidata, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva apostou num diálogo que – a menos que seja boicotado pelas potências – pode vingar. O Irã está com a palavra no momento em que o Conselho de Segurança da ONU estava prestes impor sanções ao país dos antigos persas por sua suposta intenção de construir a bomba nuclear. Até a Rússia já dava sinais de aderir às sanções exigidas pelos Estados Unidos. A China se menteve cautelosa e quieta.

Pelo acordo, o Irã vai enviar à Turquia 1,2 mil quilos de urânio enriquecido a 3,5%, em troca de 120 quilos de urânio enriquecido a 20%. Ainda não está claro até que ponto Mahmoud Ahmadinejad é um interlocutor confiável.

Os EUA continuam apostando no ceticismo retórico, pondo em dúvida justamente a confiabilidade do presidente iraniano, e mirando o fracasso do acordo: "Nós reconhecemos os esforços feitos por Brasil e Turquia", disse o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, com a ressalva: a proposta "precisa agora ser encaminhada claramente à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), antes de ser considerada pela comunidade internacional". ´

Como disse Paulo em comentário no post anterior ao acordo, neste blog, “os EUA estão é morrendo de medo de que a intervenção de Lula dê certo”.

Em entrevista ao site Opera Mundi, o consultor da AIEA Leonam dos Santos Guimarães disse que o acordo entre Brasil, Irã e Turquia é satisfatório e que o ceticismo das potências mundiais “não faz sentido”. Leia aqui.

Segundo a Agência Brasil, “um documento com dez itens foi a base do acordo”. Veja o texto da repórter Renata Giraldi neste link.

sábado, 15 de maio de 2010

A missão ousada e arriscada de Lula no Oriente

O protagonismo do Brasil cresce ainda mais no tabuleiro geopolítico mundial, com a viagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, estes dias, à Rússia. Ele estará hoje, sábado, no Catar e domingo no Irã, onde se encontra com o presidente Mahmoud Ahmadinejad.

A missão do presidente brasileiro recebeu apoio incondicional da Rússia, como “talvez a última oportunidade antes da adoção das medidas que todos conhecemos no marco do Conselho de Segurança das Nações Unidas", nas palavras do presidente russo Dmitri Medvedev nesta sexta-feira, 14, em entrevista coletiva no Kremlin.

Lula e Medvedev, no Kremlin
Os EUA pressionam para que as sanções contra o Irã sejam aprovadas no Conselho de Segurança da ONU, no qual apenas cinco países, os membros permanentes, têm poder de veto: Estados Unidos, França, Reino Unido, Rússia e China.

Lula e seu chanceler, Celso Amorim, defendem a tese de que as sanções exigidas pelo governo Obama só agravariam o conflito, que ainda se mantém no âmbito diplomático. Quanto a Obama, na questão iraniana suas posições não diferem do governo Bush, é triste admitir. Pelo menos na retórica, é justo ressalvar. Os EUA continuam a agir como o eterno ventríloquo de Israel, e não o contrário.

O The New York Times abordou o tema, hoje (sexta-feira), enfatizando o óbvio: que a posição brasileira é a de que sanções provavelmente intensificariam o conflito. Mas o mais importante diário dos EUA, sem perder uma espécie de elegância na abordagem, usa o depoimento de fontes para criticar duramente a posição brasileira, na pessoa de Lula.

O NYT menciona preocupações no Brasil de que um fracasso na tentativa de Lula dialogar com Teerã colocaria “Mr. da Silva” como um “amador” em seu intento de conseguir um assento permanente do Brasil no Conselho de Segurança. “Críticos no Brasil questionam por que ‘Mr. da Silva’ abraçou o Irã nos últimos meses sob o risco de se indispor com os Estados Unidos”, diz o jornal.

Finalmente, cita uma fonte, que é Michael Shifter, presidente da Inter-American Dialogue, de Washington, especializada em política exterior. “Há uma sensação em Washington que parte disso é uma tremenda autoconfiança de Lula, que ele acredita ser um mágico que pode operar milagres e conseguir o que outros tentaram e não conseguiram.” O diário estadunidense ironiza, dizendo que, enquanto Lula afirma acreditar que suas chances de êxito no encontro com Ahmadinejad são de 99%, o colega russo Medvedev diz serem de 30%.

Enfim, o New York Times expressa a posição de Washington. Que muitas vezes não precisamos nem traduzir, porque está nas páginas de nossos próprios jornais, como se pôde constatar quando da visita de Lula ao Oriente Médio.

O atual lance do presidente do Brasil no tabuleiro do xadrez mundial é ousado, mas arriscado. Porque ele desafia interesses políticos de Titãs.

O Brasil nunca chegou a tal protagonismo na cena internacional, em que, historicamente, sempre partilhou do princípio nefasto segundo o qual “o que é bom para os EUA é bom para o Brasil”.

Princípio que, envernizado e recoberto de enfeites light, corremos o risco de voltar a viver se José Serra ganhar a eleição. Mas esse já é outro assunto.

Leia a matéria do New York times aqui. (Lógico, se quiser).

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Visita de Ahmadinejad ao Brasil incomoda Obama

Lula e Ahmadinejad/ José Cruz - AgBr
Mais uma mostra de que o Brasil é cada vez mais e protagonista da política internacional. O jornal norte-americano The New York Times publicou ontem, 24 de novembro, a notícia de que o presidente norte-americano, Barack Obama, enviou, na segunda-feira, uma carta de três páginas ao colega brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva. O tema foi a visita do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, ao Brasil, no mesmo dia. A matéria do diário é intitulada "Obama escreve ao líder do Brasil sobre o Irã".

Segundo o NYT, Obama não criticou Lula explicitamente por hospedar o iraniano, cujo país foi incluído por seu antecessor, George W. Bush, no eixo da mal, junto com Coréia do Norte e Iraque.

Na carta, o presidente dos EUA teria demonstrado confiar em que o brasileiro usaria a ocasião para manifestar apoio ao esforço internacional para levar o Irã a um compromisso sobre suas ambições nucleares e que o desenvolvimento da tecnologia para produzir energia atômica deve ter fins pacíficos e civis.

"Mr. da Silva na segunda reiterou seu apoio ao direito de o Irã desenvolver sua tecnologia nuclear para usar na produção de energia, como o Brasil está fazendo", disse o NYT. O jornal menciona ainda a "tensão" recente entre Brasil e EUA devido aos propósitos do governo Obama de militarizar ainda mais a Colômbia e também a questão de Honduras.

O presidente Lula ainda não havia respondido a carta e, segundo o jornal de Nova York, estava pensando em telefonar ao colega estadunidense. Em abril, num encontro do G-20, Obama se referiu ao presidente brasileiro dizendo: “Esse é o cara. Adoro esse cara. Ele é o político mais popular da Terra".

Veja a matéria do New York Times aqui