CC/DRAGO/SELVASP
Gostaria de fazer algumas considerações sobre o que estou observando no meu país, com o intuito de contribuir com o debate nas redes sociais.
- Está claro que a juventude não está mais indo às ruas por conta do aumento generalizado de tarifas de transporte pelo Brasil afora. Embora criticar os aumentos abusivos seja uma causa justa, isso está sendo o estopim para a expressão de uma insatisfação política muito maior. A esse estopim vem se somar a postura inflexível dos governantes eleitos pelo povo, mas que com o povo não aceitam sentar para negociar, além da ação truculenta e irresponsável da Polícia Militar.
- Os reprimidos de ontem se tornam os repressores de hoje. Embora o PSDB seja hoje um partido pseudo-social-democrata, que migrou para o liberalismo mas ainda não teve coragem de mudar o nome, ainda tem em seus quadros muita gente que lutou contra a ditadura militar. Sobre o PT, é ainda mais lamentável ver gente como José Eduardo Cardozo tratando manifestantes como vândalos e baderneiros. O problema é que o meu ceticismo me diz que os reprimidos de hoje tendem a se tornar os repressores de amanhã. Essa é uma marcha histórica que infelizmente nunca foi rompida.
- O discurso cínico de restabelecimento da ordem não cola mais. Está claro, até pela cobertura da imprensa (que invariavelmente é intolerante e boçal em relação à rebeldia, mas que teve de engolir a realidade dos fatos), que quem começou a desordem de ontem foram as "forças da ordem", que aplicaram força desproporcional e contribuíram para generalizar o caos ao contrário de garantir que uma manifestação pacífica continuasse transcorrendo de forma pacífica, sem degenerar em violência.
- O movimento está crescendo, e a truculência e intolerância com que está sendo tratado é que está contibuindo para que vire uma bola de neve. Uma hora os donos do poder vão ter que sentar para conversar com os "baderneiros", ou então a tendência é que a situação se agrave cada vez mais. Não é com tropa de choque e cacetadas que se tratam as manifestações democráticas. E isso prova que o governador do Estado não tem moral para falar jamais em "aula de democracia".
*Felipe Cabañas da Silva, 29 anos, é professor de Geografia
