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sábado, 4 de junho de 2016

Muhammad Ali (1942-2016)



Na morte todos se lembram. Tudo parece já ter sido dito de ontem para hoje sobre o maior lutador de todos, o guerreiro que se negou a lutar no Vietnã e se converteu ao islamismo. O que não é pouco nos Estados Unidos dos 1960 e 1970 em que ele reinou. 

Nascido em Louisville, no Kentucky, foi proibido de atuar por três anos e meio, pela recusa a ser soldado do império. O soldado se foi. Mas, mais do que palavras que se esforçam por ser diferentes, registro as imagens. As dele próprio, quando nocauteou o gigante Foreman no Zaire (hoje Congo), na até hoje chamada luta do século, em 1974, e na entrevista histórica que muita gente já viu. 

Ele foi um dos que ajudaram a tornar o mundo melhor, pela estética e pela sabedoria. O dançarino se foi. As imagens e palavras (dele) ficam.


 A luta




As palavras

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O racismo é inadmissível e é crime, mas é à Justiça que cabe julgar. E condenar





Concordo plenamente com a exclusão do Grêmio de Porto Alegre da Copa do Brasil pelas atitudes racistas de sua torcida contra o goleiro Aranha, do Santos, na semana passada. Aliás, defendi isso na minha página do Facebook: “Enquanto não houver severas punições aos clubes (perda de pontos, multas pesadas etc) casos absurdos como o do goleiro ... vão continuar acontecendo”, escrevi lá no dia 28. Por incrível que pareça, houve quem discordasse de que o clube deveria ser punido.

Acho que não apenas a garota Patrícia, mas todos os que têm esse tipo de comportamento devem ser alvo da justiça, de acordo com investigações sérias e isentas, e impedidos de entrar nos estádios. As investigações devem chegar à torcida organizada, no caso a gremista, que, segundo depoimentos, incentiva, dissemina e pratica o racismo em suas manifestações.

O racismo é hoje inadmissível de acordo com qualquer parâmetro legal e de defesa dos direitos humanos. E é absurdo principalmente no Brasil, país multicultural e que tem na miscigenação das raças e culturas uma de suas maiores belezas.

Mas acho também que o devido processo legal e o direito à ampla defesa devem ser assegurados às pessoas que são acusadas de qualquer coisa. O Direito prevê punições e também atenuantes para qualquer crime, dependendo de inúmeras circunstâncias.

À Justiça é que cabe julgar. Estamos numa República, e não em um Estado teocrático. Determina a Constituição brasileira que “aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa” (inciso LV do artigo 5º) e que “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória” (inciso LVII do mesmo artigo).

Violência e linchamentos morais ou físicos, midiáticos ou perpetrados por pessoas, o ódio e a vingança não levam a construir nada. Não são justiça. Pelo contrario, só alimentam o conflito e fomentam o ódio num moto-contínuo sem fim. Há incontáveis casos para comprovar isso, é só buscar na memória. 

Essa histeria punitiva que cerca o caso Grêmio é apenas um exemplo. Há outros, de outro gênero, como o caso do "mensalão",  muito diferente, que vai ser esclarecido pela história, isso é certo, mas até lá a injustiça, a afronta a direitos constitucionais básicos, já estará mais do que consumada. Há o antigo caso da escola Base.

Na mídia, o que não falta são justiceiros, mas não cabe à mídia fazer justiça, embora ela própria tenha se autodenominado "o quarto poder" e seus representantes acreditem nisso.

Há alguns meses uma mulher inocente foi linchada por ser confundida com uma criminosa no litoral de São Paulo porque uma horda de ignorantes e criminosos achou por bem fazer justiça pelas próprias mãos, talvez alguns deles com a cabeça cheia de recalques alimentados por ódios pessoais e midiáticos bem-intencionados e politicamente corretos.

A sede de vingança distorce e deteriora as relações sociais.

E, como se diz, de boas intenções o inferno está cheio.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

A banana, o futebol e o Brasil






Só brasileiro mesmo, pra ter uma atitude de tamanha presença de espírito como a de Dani Alves. Com a disseminação dos atos racistas cada vez mais frequentes e (diga-se) impunes na Europa, o gesto do lateral direito do Barcelona e da seleção brasileira de pegar e comer a banana jogada no campo no jogo contra o Villarreal (vitória do time catalão por 3 a 2) entra para a antologia do futebol.

Por essas e outras é que acho inadmissível que os mal humorados (ou mal intencionados) torçam "contra" o Brasil, seja para a Copa do Mundo dar errado, seja para perdermos o Mundial.

Dani Alves mostrou com ironia e bom humor a alma brasileira para o mundo todo ver que nós adoramos banana, adoramos futebol, adoramos carnaval, somos hospitaleiros e nossa resposta à intolerância e à imbecilidade é essa: comer banana, que é amarela como a camisa da seleção e tem potássio, que evita cãimbras.

Cada vez mais me convenço de que o futebol é uma metáfora da vida.

A Veja, esse magnânimo veículo do jornalismo marrom, já deu matéria tentando desqualificar o gesto. Ótimo. A Veja detesta a cidadania. O que é bom para a Veja não é bom para o Brasil... E vice-versa. Logo, se a Veja quer destruir, é porque é bom.

PS: e mais uma coisa: se o gesto é aproveitado pelo marketing, tanto melhor: é marketing do bem.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

O Brasil racista que envergonha o Brasil



Vergonha. Os brasileiros moralmente sadios só podemos sentir isso diante do povo cubano e principalmente dos médicos cubanos, hostilizados pelos bem nascidos da classe média odiada por Marilena Chaui.

© Jarbas Oliveira/Folhapress

Esse é um dia que vai com certeza entrar para a história.

Uma jornalista potiguar chamada Micheline Borges que diz para todo mundo ler no Facebook: "essas médicas cubanas tem (sic) uma Cara de empregadas domésticas". Notem como é significativo: ela coloca a palavra "Cara" com "C" maiúsculo, graficamente enfatizando o significado que quer dar à palavra, carregando-a de seu preconceito tosco, visceral, a expressar a cara racista da classe média brasileira travestida de doutores.

Negros vindos de Cuba são vaiados, chamados de "escravos" e hostilizados por médicos brancos que não têm noção de quantas vidas podem ser salvas nos rincões em que se negam a trabalhar, nem que seja por um tempo, como forma de devolver, em forma de trabalho, o dinheiro público que pagou muitos dos seus diplomas, que penduram em suas paredes nos consultórios cheirosos dos Jardins, em São Paulo, ou nos bairros classe média de qualquer capital do país.

Aliás, acho que me engano. Esses médicos brancos têm, sim, noção de quantas vidas podem ser salvas por alguns médicos naqueles rincões. Por isso merecem desprezo e repulsa.

Facebook da jornalista
Muito já se falou hoje (na verdade ontem) sobre o assunto. A palavra vergonha foi inclusive muito utilizada para registrar o sentimento de muitos brasileiros indignados com a atitude dessa gente egoísta e cínica e, em duas palavras, racista e xenófoba. Por isso não vou me alongar.

“(...) tem muita truculência, muita incitação ao preconceito e à xenofobia. (...) Lamento veementemente a postura de alguns profissionais - porque eu acho que é um grupo isolado - de ter atitudes truculentas, [que] incitam o preconceito, a xenofobia. Participaram de um verdadeiro 'corredor polonês' da xenofobia, atacando médicos que vieram de outros países para atender a nossa população”, disse o ministro da saúde, Alexandre Padilha.

Faço uma ressalva às palavras de Padilha. Tenho sérias dúvidas se são de fato "um grupo isolado". Pois eles expressam um pensamento disseminado e na maioria das vezes oculto, pronto a aflorar em momentos propícios, como uma doença. A chegada dos médicos cubanos (e não só cubanos, diga-se) serviu como catalisador desse preconceito recalcado e desse corporativismo sem-vergonha.

E, por fim, sim, parte significativa do Brasil é racista. Mas não só. Morre de medo do comunismo, também. Mas isso é o de menos. No fim, vai ser feito o trabalho que precisa ser feito.


quarta-feira, 30 de março de 2011

Professor espera que, desta vez, Bolsonaro "tenha o que merece"

Ricardo Dias/ Foto: Eduardo Metroviche

Professor do departamento de Comunicação Social do Unifieo, em Osasco, Ricardo Dias falou ao blog sobre o deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ). Na última segunda-feira, no programa CQC, ao responder a uma pergunta da cantora Preta Gil sobre o que ele diria se seu filho se apaixonasse por uma negra, o parlamentar afirmou: “não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja”.

Diante da repercussão, em entrevista a Terra Magazine o deputado disse, depois, que tinha entendido a pergunta errado: “Eu entendi que ela me perguntou o que eu faria se meu filho namorasse um gay”. Leia depoimento do professor Ricardo Dias.

Fatos Etc - Como o senhor recebe as declarações racistas e homofóbicas do deputado Bolsonaro ao programa CQC?
Ricardo Dias - É uma pessoa desclassificada, uma pessoa desprezível. Nós sabemos que ele tem um histórico de denúncias, de ter sido denunciado por crimes e não ter sido condenado. Eu imagino o seguinte: se o tipo de declaração que ele deu já não tem algum propósito no sentido de criar essa dúvida na cabeça das pessoas. Então, na verdade, ele estava se referindo ao negro ou estava se referindo aos homossexuais? Como se uma declaração dessas, com relação aos homossexuais, não fosse também passível de crime de homofobia. Mas eu fico pensando se ele não fez isso de propósito para confundir qualquer julgamento por parte da Justiça. Eu espero que isso não aconteça e que ele, se possível, seja condenado não só por racismo, como também por homofobia.

O mais assustador é que ele é um homem público, eleito deputado federal, que deliberadamente comete um crime inafiançável que é o racismo, como se nada o amedrontasse. O senhor teme a impunidade mais uma vez, nesse caso?
Temo. Temo sim, porque a questão foi colocada nesses termos, para causar dúvida. E infelizmente nós sabemos que, por questões jurídicas, é em dúvida pro-réu [In dubio pro reo, princípio jurídico da presunção da inocência]. Mas nós estamos sentindo bons ventos soprando com relação à Justiça, que tem se posicionado de forma cada vez mais coerente, mais clara. Então quem sabe desta vez ele tenha o que merece.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

É preciso estar atento e forte. Sempre

Em post publicado aqui no auge das tensões eleitorais, a leitora e amiga Mayra comentou com uma frase que ficará registrada: “o povo das sombras saiu das sombras e mostrou que existe”.

Essa constatação foi como que materializada pelo caso (como se já não existissem tantos) da estudante de Direito Mayara Petruso, que, como se sabe, escreveu em seu twitter, após a vitória de Dilma Rousseff: “Nordestino não é gente. Faça um favor a SP: mate um nordestino afogado”, pelo que será processada em ação da OAB seccional Pernambuco pelos crimes de racismo e incitação pública a prática de crime*.

Tal “pregação” de uma jovem estudante, supondo-se que se preparando para exercer a carreira de advogada, é proferida pelo mesmo tipo de gente que xinga uma mulher de “vagabunda” por ela fazer pacificamente campanha para sua candidata nas ruas (leia aqui). O ódio, e os exemplos são muitos, estava em toda a parte na campanha e não foi plantado pela candidatura petista.

Fiquei chocado com a postura da coordenadora da campanha serrista Soninha Francine em um debate com o prefeito de Osasco Emidio de Souza na TV Terra no momento em que a vitória de Dilma ficava óbvia. Agressiva, fora de si com a derrota, sem o menor respeito para com o prefeito a seu lado (homem educado e cordial, que conheço), demonstrando a índole da campanha pela qual trabalhou, ela vociferava, negava a baixaria da campanha tucana e nem mesmo admitiu que fosse baixaria um vídeo que mostrava um Brasil que seria destruído com a eleição de Dilma, o qual muitos viram.

Segundo a ex-petista e agora fanática tucana, tal vídeo não era uma baixaria, mas “humor de mau gosto”. Curioso, porque, para o ministro Joelson Dias, do TSE, que obviamente não usa o termo “baixaria”, o vídeo é muito mais do que isso. Ele suspendeu a exibição da produção (apócrifa, ao estilo tucano) no dia 29, determinando a retirada de tal peça do ar, por se valer do anonimato (violando o artigo 5°, inciso IV, da Constituição, que diz: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato"), além de conter “teor ofensivo e inverídico” e “comprometer o aprimoramento do Estado Democrático de Direito”. Só isso.

Assim como a descontrolada coordenadora de sua campanha na internet, José Serra despediu-se, como muitos viram, dizendo que sua “mensagem de despedida nesse momento não é de adeus, mas com um até logo”. E, com a ameaça velada que toda a sua campanha sórdida transpirou (assim considerada até mesmo por declarados eleitores do PSDB inconformados, como o jornalista Paulo Nogueira: leia aqui), completou: “Para os que nos imaginam derrotados, devo dizer que estamos apenas começando. A luta continua”.

Mas queiram os tucanos ou não, o duro e sofrido processo eleitoral de 2010 finalmente chegou ao fim tendo deixado uma lição: a de que a luta realmente continua, senhor José Serra.

Do lado de cá, é preciso estar atento e forte sempre (como aliás já comentaram os companheiros deste blog), pois a truculência, a ignorância, o racismo e o ódio a um povo soberano e feliz estão aí, para todo mundo ver. Por isso, é motivo para se comemorar, sim, a derrota de Serra e sua gente.

Em tempo: um dos motivos da derrota parlamentar de Barack Obama nos EUA na terça-feira foi justamente ter-se acomodado na espetacular vitória de 2008 e baixado a guarda. Não podemos incorrer no mesmo erro fatal.

*Atualizado às 17h29

Assista a trecho do debate entre Soninha Francine e o prefeito de Osasco, Emidio de Souza