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quinta-feira, 3 de setembro de 2015

O que é ser de esquerda? [1]
Fernando Haddad, a política de trânsito e os 50 km por hora



Há tempos quero escrever uma série de posts sobre o que é ser de esquerda. Os temas perpassados por essa ideia são muitos: racismo, literatura, políticas públicas, linguagem etc. Começo por um tema aparentemente banal: as medidas que vêm sendo adotadas pelo prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, e que incorporam muito do que se chama de politicamente correto, mas nem tanto de uma visão verdadeiramente de esquerda.




Mesmo com a queda do Muro de Berlim, ser de esquerda não diz respeito a um conceito abstrato que deixou de ter razão no mundo contemporâneo, como querem alguns (ignorantes ou direitistas). Muito resumidamente, quem se situa no espectro da esquerda necessariamente se identifica com a defesa de princípios universais tais como humanismo, solidariedade, tolerância, harmonia entre as raças e gêneros, direitos humanos, igualdade, assim como com a prevalência dos direitos coletivos sobre os individuais, dos direitos dos trabalhadores sobre os do capital, da paz sobre a guerra, a prevalência do Estado laico, entre outros princípios.

Aqui entre nós brasileiros, devido aos curtos períodos de democracia espremidos entre ditaduras, e, em consequência disso, do desconhecimento histórico, as pessoas se arvoram em determinar o que é ser de esquerda com um simplismo assustador. Ser de esquerda muitas vezes se resume à identificação com pequenas políticas, sejam quais forem, desde que venham dos heróis eleitos (literal ou simbolicamente) para representar as pequenas políticas, hoje muitas vezes traduzidas pelo que se conhece como o politicamente correto.

Com esta série de posts pretendo falar de atitudes ou políticas elencadas numa espécie de cartilha tacitamente aceita para ser seguida pelos "esquerdistas" de hoje.

Começo então a série com temas que dizem respeito ao cotidiano dos paulistanos. Aqui, o fato de a capital de São Paulo ter uma tradição conservadora e ter sido governada por direitistas como Paulo Maluf ou Gilberto Kassab, ironicamente ministro das Cidades de Dilma Rousseff, obscurece a mente das pessoas que se dizem de esquerda ou acham que são de esquerda.

Disso, decorre que as pessoas, principalmente as mais jovens, rezam uma cartilha segundo a qual há verdades absolutas. Se o prefeito adota uma medida, não importa se bem ou mal executada, inteligente ou burra, técnica ou politicamente justificável, você tem de ser a favor, desde que a medida esteja de acordo com a cartilha. Se você não for a favor, você não é de esquerda.

Por exemplo, não importa se você sempre se posicionou (não só em palavras, mas sobretudo em atos) na defesa dos princípios universais citados acima. Se você tem críticas à implantação das ciclovias na capital de São Paulo tal como foi (muito mal) feita, ou se não está de acordo com a decretação de velocidade máxima de 50 km por hora na via local da Marginal, pronto. Você é um reacionário. Você não é de esquerda.

Eu concordo com a redução de velocidade em São Paulo. Mas não da maneira como foi feita, autoritária e sem critério. O limite é de 50 km/h tanto numa avenidazinha de pista única e estreita, como uma aqui perto de casa, como numa via expressa ou grandes avenidas de duas pistas e quatro faixas. Não faz o menor sentido. A redução de maneira linear e sem critério como foi feita só dá "brecha" a gente de direita, que aproveita para capitalizar o erro. Dá a impressão de que, como tudo o que Jilmar Tatto faz, é implementado sem estudos e por decreto.

É mais do que óbvio que o transporte público deve prevalecer sobre o individual; é mais do que urgente que a cidade deve incorporar o uso da bicicleta (ou a bike, como se prefere dizer hoje em dia) como um direito. É claro também que a cidade de São Paulo precisa se humanizar, o que pressupõe o uso racional dos automóveis e limites aos abusos e à irracionalidade.

Mas as medidas que mexem no cotidiano de milhões de pessoas têm de ser discutidas. De repente aparece uma animosidade política entre pessoas que usam bicicleta e as que usam carro muito como consequência de uma visão autoritária do atual prefeito (e eu posso garantir que o prefeito é considerado autoritário inclusive por deputados do PT paulista). Um pouco como o que aconteceu com os fumantes, que viraram inimigos públicos número 1 quando a lei do (lembremos) José Serra passou a vigorar em São Paulo. Fumar um cigarro ou dirigir seu carro parecem ter virado atos moralmente condenáveis como se fossem os fumantes e motoristas os responsáveis pelos males do mundo.



Se não me engano foi Roland Barthes quem escreveu o seguinte (citação de memória): as revoluções não acabaram com a opressão do homem pelo homem porque a opressão está na linguagem, não no poder político. Não concordo integralmente com tal redução, acho que as coisas são mais dialéticas, mas o que disse Barthes é uma variável que tem de ser considerada.

Nesse contexto, é negativamente muito significativa a seguinte afirmação do secretário municipal dos Transportes de São Paulo, Jilmar Tatto, em entrevista publicada na Rede Brasil Atual: "Sobre os que defendem o carro, não acho que é má-fé ou ideológico, acho que é burrice, mesmo. É um problema de inteligência". É obtusa, para dizer o mínimo, tal declaração de um secretário de governo que se diz de esquerda.

Se é fundamental numa sociedade justa e mais evoluída que o transporte público deve prevalecer sobre o individual e que haja espaço para o ciclista, são condições para isso que o transporte público seja decente e que haja diálogo entre o poder público e os cidadãos.

Mas não há diálogo, muito menos transporte público decente. O metrô de São Paulo (gerido pelo governo do Estado, nas mãos do PSDB há 20 anos) tem um terço da extensão necessária. A Cidade do México, que começou a construir seu metrô mais ou menos na mesma época que São Paulo, tem hoje cerca de 200 km de linhas, enquanto São Paulo tem 74 km. E o serviço de ônibus na nossa cidade só melhorou na gestão Fernando Haddad na velocidade, com os corredores e faixas exclusivas. Mas o serviço em si continua péssimo. Os carros que a prefeitura chama de ônibus são quase literalmente carroças com uma capa de metal chamada carroceria.

Dia desses peguei um ônibus que rangia e fazia tanto barulho que fiquei curioso para saber qual era o ano de fabricação do carro. Perguntei ao motorista. Resposta: 2015. É esse tipo de serviço que temos em São Paulo, com Kassab ou com Haddad no fim do terceiro ano de sua gestão.

Outra constatação: muitos dos que aplaudem cegamente as medidas de Haddad referentes ao trânsito não dirigem ou não têm carro, o que pressupõe desconhecimento ou um certo ressentimento, talvez.

O prefeito de uma cidade como São Paulo tem de procurar proporcionar ciclovias planejadas e implantadas com fundamentos técnicos, não no improviso e na imposição, como tem sido feito; tem de procurar desenvolver um sistema de transportes moderno, eficiente e confortável; tem de procurar proporcionar, sim, aos motoristas, vias (ruas e avenidas) bem sinalizadas, modernas, e pensar numa política de trânsito do século XXI, com um sistema de semáforos inteligente, ao invés de impor por decreto que a partir de hoje você é obrigado a andar a 50 km nas marginais.

Enfim, o prefeito tem de procurar governar para tentar construir uma cidade realmente inclusiva, cujas diferentes formas de linguagem convivam de maneira harmônica. Se isso é uma utopia, é em busca da utopia que um governo de esquerda deve caminhar. E não por imposições, como faz a gestão Haddad, cujo secretário chama os cidadãos de burros.

O prefeito tem de ser o mediador dessas linguagens, sobretudo quando falamos de uma megalópole como São Paulo. Quero crer que inconscientemente, o prefeito alimenta divisões com suas disputas e bandeiras do politicamente correto contra o politicamente incorreto, que é tudo o que um governo dito de esquerda não deve fazer na atual conjuntura de animosidade política no país, e principalmente em São Paulo.

Citei Roland Barthes acima porque me parece oportuno falar em linguagem, que tem a ver com cultura, que tem a ver com poder. Não é porque o cara adora bicicleta que é do bem e porque o cara gosta, prefere ou precisa de carro que é do mal. É comum atitudes de ciclistas francamente contrárias ao bom senso, à educação e a qualquer princípio de esquerda ou cidadania. Muitos deles desrespeitam leis de trânsito e pessoas e adotam posturas agressivas incompatíveis com o que quer que se entenda por esquerda.

César Ogata/SECOM
Haddad e seu secretário de Transportes, Jilmar Tatto, 
que prefere xingar cidadão de "burro" do que dialogar 

Vamos falar francamente: 1) Sob alguns aspectos, Haddad está agradando gente mais próxima do pensamento de uma Soninha Francine do que de pessoas que votaram nele, muitas das quais estão irritadas com seu afã de querer radicalizar; 2) essa restrição exagerada à velocidade obedece muito fielmente à necessidade de a prefeitura arrecadar com as multas, a chamada “sanha arrecadatória” do estado.

Algumas medidas que Fernando Haddad adota no seu afã de radicalizar e “falar” a linguagem dos jovens o levam a esquecer que São Paulo é uma megalópole multicultural.

Nesta megalópole há também muitos milhares de pessoas que estão aborrecidas com o prefeito porque aqui há quem, como eu, é de esquerda, respeita os direitos dos outros, anda a 10 km por hora quando tem um ciclista perto de seu carro, que nunca atropelou sequer um cãozinho, mas é um cidadão, também gosta de dirigir, gosta de vias decentes e de uma política de trânsito competente. Que pecado há nisso?

Curiosamente, hoje a imprensa (a chamada mídia conservadora) publica balanço segundo o qual caiu em 27% o número de acidentes com vítimas nas marginais com o novo limite. Esse é o argumento principal. Vamos considerar, com boa vontade, que o balanço da CET seja fidedigno, e não manipulado. Mas tal argumento, levado ao limite, nos levaria a concluir que a melhor solução seria então que todos os carros ficassem parados, o que reduziria os acidentes em ideais 100%. O que me parece fundamental é que houvesse punição real a quem provoca acidentes criminosos. É comum que ricos cheios de dinheiro atropelem e matem (não raro, dirigindo bêbados) e fique tudo por isso mesmo. Se esses criminosos fossem punidos exemplarmente, se a lei previsse enquadramento inafiançável e outras sanções severas, não haveria necessidade de se recorrer ao mais simples.

O ex-presidente Lula, de cujo governo Haddad foi um ótimo ministro da Educação, como sempre foi preciso ao fazer o comentário em tom de brincadeira, no dia 1°, no lançamento do Memorial da Democracia no ABC paulista: "O Haddad tinha se comprometido a vir, mas não compareceu. Vai ver que ele tá vindo a 50 por hora, não chegou ainda aqui em São Bernardo. Ou tá vindo de bicicleta."

Humor (tão em falta hoje em dia), ironia e mordacidade. E não digam que Lula não é de esquerda. Ou pelo menos de centro-esquerda, como se depreende da leitura de Os sentidos do lulismo, de André Singer. Mas aí já é outro (longo) assunto.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Vereadores de São Paulo aprovam projeto que autoriza animais em ônibus; Haddad precisa vetar



O prefeito Fernando Haddad tem a obrigação e o dever de vetar o projeto de lei 131/2013, do vereador David Soares (PSD), aprovado nesta quarta-feira (11), que autoriza o transporte de animais domésticos em ônibus municipais da capital paulista.

Como se já não bastasse a dificuldade que é andar de ônibus, sempre lotados, por mais que qualquer administração faça para melhorar essa realidade, agora teremos que conviver com animais disputando espaço com trabalhadores, estudantes e todo tipo de pessoas, inclusive deficientes?

Esse projeto é uma excrescência.

Leia também, da série vivemos numa sociedade humana ou canina? 


Vivemos numa sociedade humana ou canina?


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Cadê os ônibus, Jilmar Tatto?


Apesar das medidas espetaculosas do secretário Municipal de Transportes de São Paulo, Jilmar Tatto, e do próprio prefeito ter resolvido mostrar que, como cidadão, deve andar de ônibus, muitas coisas estão erradas na cidade de São Paulo na área de transportes, quase 14 meses após Fernando Haddad assumir a prefeitura.

Clique nas imagens para ampliar
+ de 1h espera PT – Addad Cadê Os Ônibus?
– diz, literalmente, pichação na av. Eiras Garcia, no Jd. Bonfiglioli

As medidas espetaculosas da gestão incluem as faixas de ônibus, reverberadas como solução para o transporte público por todos os setores, dos ligados a Soninha Francine aos ativistas do MPL.

Este humilde blogueiro ou qualquer pessoa de bom senso apoia a necessidade de se priorizar os ônibus em relação aos automóveis. Mas não à maneira de Jilmar Tatto, que Haddad acata talvez sem conhecer a fundo, apesar de o prefeito andar de ônibus como se fosse um Jânio Quadros.

Riscar avenidas com uma faixa branca e dizer que a partir desse momento, por decreto, a cidade vai funcionar assim ou assado não faz com que a cidade funcione. E a política de Jilmar Tatto não está funcionando. Não foi planejada. É improvisada e mal feita. Ele e o prefeito dizem que os ônibus andam agora mais rápido graças às faixas. Mas cadê os ônibus? 

Deixar o carro em casa em fins de semana e esperar ônibus para passear aos sábados e domingos é um exercício que eu convidaria o secretário Jilmar Tatto a fazer.

Moro no Butantã. E aqui no Butantã, da Vila Gomes ao Jardim Bonfiglioli, em dias úteis a fins de semana, os serviços de ônibus da prefeitura pioraram com a gestão Haddad/Jilmar Tatto. É triste, mas até malufistas dizem isso e você fica sem argumento, porque é uma lamentável verdade.

A linha 577-T, que ligava o Jd. Miriam à Vila Gomes, uma linha importante da cidade (e quem conhece sabe do que falo), subitamente desapareceu, como muitas outras na cidade.

Nesta quinta-feira, 27 de fevereiro, ocorre nova manifestação, em frente à estação Butantã do metrô, pela volta do 577-T, o “Azulzinho”, que a prefeitura permitiu ser suprimida graças à política ainda não muito clara de Tatto.



No último dia 20, o secretário se comprometeu a receber comissões de moradores de regiões que tiveram alterações inexplicáveis em linhas de ônibus população. Leia aqui. A ver.

A causa do Butantã eu conheço e apoio. Jilmar Tatto está devendo explicações sobre sua, até agora, pífia gestão.



quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Fernando Haddad, o transporte público e o sanduíche de mortadela


Reprodução
Tenho lido na imprensa, "tradicional" ou "independente", que o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, teria encomendado um estudo de sua assessoria militar sobre “a possibilidade” de ir trabalhar de ônibus todos os dias, de sua residência, que fica no Paraíso, até a sede da prefeitura, no Viaduto do Chá (Centro).

É preciso ver se a informação é consistente. Mas como ela não se resume a uma única fonte, vamos considerá-la uma conjectura consistente. Começo a achar que Fernando Haddad está dando uma de Jânio Quadros, o prefeito que gostava de comer sanduíche de mortadela nas padarias para mostrar que tinha paladar de povo.

Haddad tem feito enorme esforço para mostrar que o transporte público é prioridade de seu governo. O episódio pós-manifestações de junho, quando o prefeito foi visto ao lado do governador Geraldo Alckmin, que anunciou a redução das passagens dos transportes e deixando o prefeito sem ação, tendo que desmentir à noite o que dissera de manhã (que não reduziria o preço da passagem do ônibus), calou fundo.

A iniciativa de criar as faixas de ônibus à direita de grandes avenidas como 23 de Maio, aplaudidíssima por muita gente, foi uma primeira manifestação do efeito mortadela, populista, digno de Jânio Quadros.

Outro dia eu estava num táxi e o taxista argumentava: “como que essa cidade quer sediar uma Copa do Mundo e ser um exemplo de turismo de negócios se a prefeitura faz isso com os taxistas? Como a gente vai levar turistas se a prefeitura, que já criou essa m***** de faixa, ainda agora diz que vai proibir até os táxis com passageiros de fazer corridas pelos corredores [como da 9 de julho]? Se dizem que os carros vão ter que andar a 40km por hora? Tá errado isso. Nós também fazemos transporte público”, vociferou o revoltado taxista, e com razão.

A política de transporte público de Haddad tem me parecido atabalhoada, caracterizada por exemplo por essa medida que careceu de estudos mais aprofundados, do secretário Jilmar Tatto, de reservar faixas à direita de avenidas aos ônibus, solução para mim muito discutível. O secretário de Transportes Metropolitanos do governo de Geraldo Alckmin, Jurandir Fernandes, que não é bobo nem nada, disse na semana passada, na Assembleia Legislativa, que os cidadãos preferem andar no metrô lotado do que em ônibus vazios, “porque sabem que mesmo lotado o metrô chega” ao destino. A EMTU já tem algumas linhas funcionando 24 horas, poucas, mas já serve de marketing para o governo Alckmin. Enquanto isso, Haddad ameaça andar de ônibus.

Esta semana, Haddad disse à rádio CBN: "Essa cidade, goste ou não, é um cemitério de políticos. Ela enterra políticos. Ela não promove políticos porque é uma cidade muito difícil de administrar”.

É melhor então ele ter propostas mais estruturais e menos demagógicas e populistas, para não ser mais um enterrado no “cemitério de políticos”.

O prefeito comer mortadela ou andar de ônibus é a mesma coisa. O paulistano não quer que o prefeito ande de ônibus nem coma mortadela. Ele quer soluções. Seja ele usuário de ônibus, de automóvel particular ou de táxi. Transformar o taxista e o motorista do automóvel em um pária vai custar caro a Haddad (e não estou falando de sentimentos pessoais, estou falando da gestão de um prefeito que disse que governaria para todos).

O Brasil hoje produz automóveis aos milhões, qualquer pessoa compra um carro novo para pagar em dezenas e dezenas de prestações. Haddad não tem poder (ou tem?) para mudar essa lógica (perversa, é verdade) segundo a qual a indústria automotiva é um dos carros-chefe da economia. Sendo assim, ele precisa pensar em políticas mais consistentes do que a apresentada até agora, a política da mortadela.


*Publicado originalmente em 2/10/2013 às 10:09

sábado, 11 de maio de 2013

Passagem de ônibus ficará mais cara em junho, em São Paulo



Da Rede Brasil Atual

Após reunião de 45 minutos com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, no gabinete da Presidência da República em São Paulo, na manhã de ontem (10), o prefeito Fernando Haddad (PT) disse em rápida entrevista coletiva que não há uma data definida para promover algum reajuste no preço da tarifa de ônibus. Mas a majoração é esperada para o mês de junho, segundo a assessoria do prefeito.

Haddad afirmou que o tema não constou da pauta do encontro com Mantega. “Não discutimos esse assunto porque isso já foi discutido em janeiro.” De acordo com ele, continua valendo o que foi dito naquela ocasião. No início do ano, o prefeito e o governador Geraldo Alckmin (PSDB) fizeram um acordo para evitar que a majoração nas passagens tivesse impacto na inflação. “Nos comprometemos, o governador e eu, com o ministro Mantega de que não tomaríamos nenhuma providência até superar aquele momento difícil, em que a inflação estava ameaçando ultrapassar o teto, o que já está superado, felizmente”, declarou o prefeito.

Segundo ele, a discussão com o ministro da Fazenda girou em torno de um projeto de lei que tramita na Câmara dos Deputados sobre a dívida de estados e municípios. “São Paulo tem interesse prioritário nisso. É uma questão de sobrevivência. Discutimos também linhas de financiamento para obras de infraestrutura.” Haddad citou transportes, habitação e saúde como áreas que precisam "de grandes obras” em São Paulo.

Nos cálculos da prefeitura, a renegociação liberaria de imediato R$ 6 bilhões para investimentos. Há quatro propostas em tramitação no Legislativo federal, e o governo Dilma Rousseff tem sinalizado com a possibilidade de mudar o índice pelo qual atualmente é feita a correção dos débitos de estados e municípios com a União.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Pensamento para sexta-feira [número 31] – Nunca discuta com um cobrador de ônibus (fatos reais!)



O Grito, de Edvard Munch

Por Alexandre Indiana

Hoje pensei que fosse tomar uma surra! Papo de cobrador de ônibus. 14 horas. Entrei como sempre, a fim de obter bilhete de metrô. Perguntei ao cobrador se tinha bilhete e ele respondeu que não. Comecei a reclamar, dizendo que a porra da empresa tinha que fornecer e que isso acontecia toda hora. O cara fez cara feia e falou: “desce e pega outro e já era”. Foi o que ia fazer, quando não sei por que cargas d'água fiz um gesto com a mão, tipo vá se danar, mas não disse nada. Nem era pra ele na verdade.

O cara levantou-se da cadeira, pulou a catraca e veio pra cima. Era um touro, físico de peão, do tipo taludo e alto. A porta não abria e pensei: fodeu. Tomei um chute na bunda e nisso a porta se abrindo e eu saindo, não esperando que ela se abrisse por completo. É patético, mas fiquei assustado. Pensei que o cara ia me dar um tiro, sei lá. Desci e o filho da puta desceu também. Daí comecei a correr e o cara correndo atrás de mim. Meu Deus, como corri hoje. Graças a Deus fui mais rápido. Vi o cara a uma boa distância e então pude respirar aliviado. Comecei a falar de longe coisas, tipo "vou anotar o n° do ônibus, seu animal". E o cara voltou a me perseguir, mas já não dava pra ele me alcançar. Finalmente ele se foi e fui me recuperando. Que horror.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Elio Gaspari usa metrô ou transporte público?


O colunista Elio Gaspari publicou hoje na Folha de S. Paulo (para assinantes) um arrazoado sobre a reclamação, por parte de alunos e professores da USP, da dificuldade para achar vagas para seus veículos no campus, já que, com a nova estação de metrô Butantã, “a patuleia passou a usar as vias públicas da universidade para estacionar seus carros”.

Como é normal na mídia (qualquer pretexto serve para tentar desmoralizar a USP) Gaspari critica a reclamação e os privilégios da comunidade uspiana: “Poucas vezes a demofobia do andar de cima nacional exibiu-se com tamanha clareza. A choldra paga impostos, a USP fica com 5,04% da arrecadação do ICMS e neste ano receberá R$ 3,9 bilhões da Viúva”, discorre Gaspari. “É absurdo querer impedir que os demais contribuintes usem esse espaço público.”

A abordagem do articulista, baseada em meias-verdades, merece reparos, pois tanto alunos e professores da USP quanto as pessoas em geral são vítimas do descaso para com o transporte público em São Paulo.

A situação do metrô paulistano
1) Gaspari não usa nem uma linha em sua análise sobre democracia nos espaços públicos para constatar o óbvio: o incrível atraso do sistema do metrô paulistano em relação a qualquer grande cidade e a absoluta precariedade do transporte em São Paulo. Graças a isso, qualquer estação nova fica imediatamente superlotada por multidões.

Na segunda década do século XXI, a maior universidade (pública) do país não tem uma estação sequer dentro de seu campus. Se as pessoas estacionam seus carros nas ruas da USP provocando sentimentos “demofóbicos” na comunidade uspiana, talvez não o fizessem se o sistema de transporte fosse decente.

Quem mora em áreas do Butantã próximas à USP, como o Jardim Bonfiglioli, viu o número de veículos das linhas de ônibus diminuírem a olhos vistos. O cobrador de uma dessas linhas disse a uma pessoa que conheço que “a empresa tirou alguns carros” depois da inauguração do metrô. Um absurdo. Vi outro dia uma cidadã protestar que chega a ficar meia hora no ponto de ônibus que a levaria ao metrô em dez ou quinze minutos.

Pergunto: o que Elio Gaspari sugere? Que as pessoas usem a velha sola de sapato por quatro, cinco km para se transportar até o metrô? Quem conhece a estação Butantã perto da USP sabe que estacionar no local sem invadir o espaço do campus, principalmente de manhã, é quase impossível, pois os gênios do governo estadual e da prefeitura responsáveis pelo projeto urbanístico do entorno não reservaram espaços para estacionamentos públicos. Eu mesmo já fiquei rodando por ali por muito tempo sem encontrar onde parar o carro num dia em que até estacionamentos privados estavam lotados. No geral, a obra do metrô Butantã, enquanto parte de um contexto maior na realidade urbana, é um lixo.

2) Pergunto ainda: a política, que vigora desde sempre, de privilegiar o transporte individual em detrimento do público, não é também uma execrável forma de "demofobia" (termo usado por Gaspari para atacar alunos e professores da USP)?

Não custa lembrar que o metrô paulistano está muito aquém da demanda. E que o transporte público na cidade governada por Gilberto Kassab é uma vergonha e só faz piorar. Desde 1995, o tucanato governa o estado (responsável pelo metrô) e a ampliação do sistema é lento como os passos de um cágado. A incensada revista inglesa The Economist, no fim de março, publicou o seguinte: "Os 71 Km da rede de metrô de São Paulo são minúsculos para uma cidade de 19 milhões de habitantes. Isso dificilmente seria digno de nota em outras cidades internacionais", afirmou a publicação, e ainda: "O metrô da Cidade do México tem mais de 200 Km de extensão. O de Seul, quase 400 Km. Até mesmo Santiago, com um quarto do tamanho de São Paulo, tem uma rede de metrô 40% maior", diz a revista.

The Economist: até em Santiago metrô é maior que em SP
3) A carência de transporte na cidade é tamanha que a esperada Linha 4 Amarela do metrô, inaugurada há poucos meses, já está entupida, principalmente na ligação com o ramal da avenida Paulista. O projeto dessa interligação é um exemplo de incompetência. As pessoas são conduzidas como gado por corredores, esteiras e escadas rolantes superlotados como se estivessem num estádio de futebol em dia de clássico.

Recentemente, a escada rolante travou e de repente várias pessoas caíram por cima de uma grávida. A culpa disso tudo é de quem, da população que precisa de metrô? Não, é dos governos tucanos que levaram quase duas décadas para ampliar o sistema a uma média ridícula de 1,6 km por ano desde que o PSDB assumiu o controle do estado, em 1995, segundo CartaCapital.

Leia também:

O caos nos transportes e o cinismo do governador de São Paulo

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O calvário do transporte público na Grande São Paulo

Fotos: Eduardo Metroviche/Visão Oeste
Os problemas de transporte vividos pela população da Região Metropolitana de São Paulo não se restringem aos atrasos na entrega de estações do metrô, lentidão na ampliação da rede, promessas não cumpridas, regiões importantes da periferia esquecidas pelo governo estadual, falhas frequentes e quase diárias no sistema.

Para tornar a situação ainda mais dramática, faltam ônibus e a malha ferroviária de trens urbanos, da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), não ajuda a população. Os usuários vivem uma realidade humilhante dia a dia, semana após semana, por meses e anos a fio, e parecem achar natural, já que continuam votando nos mesmos governantes de sempre, os candidatos do PSDB de Fernando Henrique Cardoso, José Serra e Geraldo Alckmin.

No bairro da Paulicéia, divisa de Diadema com São Bernardo do Campo, ABC Paulista, uma pessoa pode ficar uma hora, no mínimo (conheço relatos de uma hora e meia), esperando um ônibus que a leve à zona Sul da capital. Aqui, um problema grave: quando duas cidades não se interligam por trem, o cidadão depende do transporte intermunicipal de ônibus, feito por empresas que cobram o que querem, fazem e deixam de fazer o que bem entendem.

Do outro lado da Grande São Paulo, em Osasco e cidades vizinhas, problemas no transporte público também não faltam (foto abaixo). “Superlotação, empurra-empurra, atrasos, quebras, paralisações, falta de investimentos” é a realidade dos usuários dos trens da CPTM, conforme relata o repórter Leandro Conceição, no jornal Visão Oeste, de Osasco.

Como no caso do metrô, o governo estadual não promete nada e o que prometeu não cumpriu. Antes da campanha ao governo do estado, pudemos assistir a uma maciça onda de propagandas na TV prometendo o paraíso e bilhões em investimentos. Agora, o governo estadual diz que melhorias no sistema da CPTM só em dois anos. “Segundo o governador paulista, Alberto Goldman (PSDB), que assumiu para José Serra fazer sua campanha à presidência, o número de falhas nas linhas da CPTM só deve cair dentro de dois anos, quando for concluído o processo de modernização do sistema”, diz ainda a matéria do Visão Oeste. Leia a reportagem clicando aqui.

Leia também, neste blog:

Os problemas no metrô não acabam (sexta-feira, 10 de setembro)

Em meio a adiamentos do cronograma, tragédia que matou sete pessoas fez três anos.