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domingo, 28 de maio de 2017

Os bichos, George Orwell e o Brasil dos ruralistas


Ainda estamos longe dos porcos de George Orwell


Imagens: Reprodução (esq.) e CHARLESJSHARP / CC 2.0 / WIKIMEDIA


Por Paulo Maretti 

Em A Revolução dos Bichos, George Orwell retrata não a corrupção e o autoritarismo do poder na Rússia pós-revolução, mas o espírito de sadismo crônico que o homem carrega irremediavelmente em sua alma. Orwell personifica os bichos e os transforma em gente, ou, pra quem preferir, espelha em porcos a ganância sem freios e quase sem leis que nos contorna como num desenho.

Pois bem. O problema agora é um Projeto de Lei do deputado federal Valdir Colatto, do PMDB de Santa Catarina e da bancada ruralista (link abaixo), que pretende simplesmente liberar a caça a animais silvestres da fauna brasileira, entre eles a onça pintada, uma das mais colossais belezas da natureza na Terra, que Maias, Incas e Astecas viam como um deus.

Mas o homem branco brasileiro do século XXI, da democracia enformada, da fome psicótica de lucro e da sede seca por poder enxerga como alvo para vender a pele.

Li num site semanas atrás que as baratas vivem, segundo pesquisas científicas, num coletivo solidário, que toma decisões, sempre, em benefício de todos os componentes do grupo.

Ainda estamos longe dos porcos de George Orwell.

***

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

A adolescência segundo J. D. Salinger e John Fante


Um dos prazeres da leitura é a comparação. Comecei o ano lendo 1933 Foi um Ano Ruim, de John Fante, e não houve como não me lembrar de um dos maiores clássicos da literatura norte-americana, O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger. Ambos narram, em primeira pessoa, a história de adolescentes.

Adolescentes, como se sabe, são criaturas problemáticas, em transição. Não sabem o que querem ou, se sabem (ou pensam saber), têm certeza absoluta dos objetivos, mesmo que a realidade teime em desmentir seus sonhos. Às vezes têm todas as certezas do mundo. Outras, todas as dúvidas do mundo. Muitas vezes têm certezas demais e dúvidas de menos, maneira inconsciente de superar as inseguranças.

Salinger
O personagem de Salinger é Holden Caulfield, um garoto de 17 anos, de família rica (ou classe média alta), que não vê sentido na vida, na escola que frequenta na Pensilvânia, nos amigos e professores, nos valores burgueses onde se forjou, no futuro ou no passado. Não tem ambições e vive esmagado pela angústia. É um niilista. Mas é capaz de amar: ama seus irmãos, principalmente o que já morreu e a menininha caçula, a encantadora Phoebe. Pólos inatingíveis e opostos: o morto e a infância que não volta mais. Apesar de tudo, é um rapaz sensível e incapaz de fazer o mal.

Já Dominic Molise, de Fante, também de 17 anos, é uma figura socialmente muito diferente, para dizer não dizer o oposto, de Caulfield. Molise é pobre, filho de um pedreiro nascido na Itália, assolado por dúvidas e angústias adolescentes, mas tem uma certeza inabalável: a de que será um grande jogador de beisebol. Nesse sentido, o personagem é muito identificável com milhões de crianças e jovens que sonham em ser jogador de futebol, um grande astro do rock ou da MPB e acreditam que nasceram predestinados ao sucesso até que, cedo para uns, tarde para outros, descobrem que são apenas pessoas comuns, como todos nós.

Fante
A narrativa de 1933 Foi um Ano Ruim é direta e sem rodeios de linguagem, à tradição de Hemingway e Bukowski, com sua poesia seca. Porém, o livro não conta apenas a história do jovem, pobre e sonhador, Dominic Molise, mas o enquadra no contexto politizado e feroz dos Estados Unidos da depressão pós-1929, onde famílias como a dele foram empurradas para a pobreza sem remédio. O conflito capital-trabalho é claro e permeia o romance, que, aliás, não é de modo algum panfletário ou engagé, o que quase sempre é característica da literatura menor e desimportante, já que os grandes escritores de ficção, de modo geral (salvo raras exceções – como Sartre), não se submetem à História, mas a transcendem – daí a imortalidade dos clássicos. O livro de Fante transcende o próprio contexto histórico.

Mais sofisticado, O Apanhador no Campo de Centeio, cuja narrativa se desenvolve em 1949, difere do livro de Fante, entre outros aspectos, porque explora com maestria um recurso de que poucos são dotados: a ironia, esse legado que nos deixou Kierkegaard. Como nos ensina o mestre dinamarquês, a ironia não é uma solução fácil que você coloca numa frase, mas é o próprio espírito de uma obra. Portanto, é difícil você pinçar uma frase ou outra para ilustrar o caráter irônico de uma obra: a ironia está na obra, a envolve como um manto. Mesmo assim, apenas a título de exemplo, destaco isso, dito pelo personagem Holden Caulfield: “Magnífico. Se há uma palavra que eu odeie é magnífico”.

Ou esta passagem:

“Puxa, depois que a gente morre eles fazem o diabo com a gente. Tomara que quando eu morrer de verdade alguém tenha a feliz ideia de me jogar num rio ou coisa parecida. Tudo, menos me enfiar numa porcaria dum cemitério. Gente todo dia vindo botar um ramo de flores em cima da barriga do infeliz, e toda essa baboseira. Quem é que quer flores depois de morto? Ninguém”.

Já o personagem de Fante não tem tempo para ironia – e nem o autor maneja esse recurso. A poesia está na realidade. O Dominic de Fante é um prisioneiro da realidade; o Holden Caulfield de Salinger a despreza e odeia. O primeiro, filho de imigrante italiano, é católico; o segundo, um cético.

Seja como for, é um exercício interessante conhecer a adolescência segundo um e outro escritor. Tema que foi também abordado na obra de um dos maiores mestres da literatura, Gustave Flaubert, no romance Novembro, cujo protagonista é obcecado pelo Oriente mas não consegue abandonar o tédio de seu próprio quarto. Mas ficarei no critério de me restringir aos norte-americanos, ao século XX. O adolescente de Flaubert soaria deslocado, aqui.

O Apanhador no Campo de Centeio – o que muitos observam como se fosse um atributo do próprio livro – é dotado de uma aura “maldita”, já que era o livro que o assassino de John Lennon, Mark Chapman, tinha consigo quando matou o ex-beatle com cinco tiros. Um estigma que a obra-prima de J. D. Salinger não merecia.


Jerome David Salinger nasceu em Nova York, em 1° de janeiro de 1919, e morreu em Cornish (New Hampshire), em 27 de janeiro de 2010. O livro O Apanhador no Campo de Centeio foi publicado em 1951. No Brasil, é encontrado em belíssima edição da Editora do Autor.








John Fante era filho de italianos. Nasceu em Denver, em 8 de Abril de 1909, e morreu em Woodland (Califórnia) em 8 de Maio de 1983. 1933 Foi um Ano Ruim foi publicado postumamente, em 1985. É editado aqui pela L&PM, em edição pocket.

sábado, 19 de julho de 2014

Um brinde a João Ubaldo Ribeiro (1941-2014)



Foto: Nerivaldo Góes (ASCOM/FPC)

Uma vez, como repórter de cultura do Estadão (lá se vão 25 anos), tomei um uísque com João Ubaldo Ribeiro, acho que por ocasião da 20ª Bienal Internacional do Livro, em 1989, ano em que ele lançou o romance O Sorriso do Lagarto, que eu havia resenhado para o jornal (isso não tem na internet, naquela época ainda não existia nem Windows, a gente usava na redação um sistema DOS).

Lembro de um pequeno caso que ele contou à mesa durante aquele uísque. O caso foi que ele ficou sabendo de “fofocas” segundo as quais tinha sido visto passeando de mãos dadas com “uma moça” muito, mas muito mais jovem do que ele, no Rio de Janeiro. O que não era recomendável a um homem de 48 anos, casado. E mesmo que não fosse casado, era um pequeno escândalo, digno de ser comentado por aí.

– Só que aquela moça com quem eu estava andando é minha filha! – contou, entre risos, mas ao mesmo tempo indignado com a bisbilhotice tosca da sociedade, sedenta por saber (e falar mal) da vida alheia.

Ao contar isso, sorria aquele sorriso próprio dos baianos, divertindo-se com a estupidez dos fofoqueiros. Em João Ubaldo, o sorriso baiano ao narrar uma história fazia parte da linguagem, fosse a linguagem literária, fosse a de sua expressão facial.

Em palestras, João Ubaldo se referia a muitas pessoas como amigas (“fulano é meu amigo”; “beltrano é muito meu amigo”). Podia ser Antônio Carlos Magalhães, podia ser Jorge Amado, mas principalmente era Glauber Rocha.

Ubaldo era um ser político: todos que o conheciam minimamente sabiam que ele tinha uma amizade sincera, de irmão mesmo, pelo baiano Glauber Rocha, a quem amava, ou pelo baiano Jorge Amado, a quem igualmente amava, mas, no caso de Jorge, mais como uma espécie de padrinho espiritual-literário; e todos que o conheciam minimamente também sabiam que sua amizade pelo oligarca baiano Antônio Carlos Magalhães, ou pelo maranhense José Sarney, seu colega de Academia, era política.

João Ubaldo era um homem que transitava pela cordialidade, entendida sob a ótica mais ampla segundo o conceito de Sérgio Buarque de Holanda. Não estou dizendo que ele era o homem cordial, mas que entendia o que era esse conceito. Entendia vivendo.

Para ele, ser amigo independia de posições políticas. Podia ser o jardineiro, o senador, o cineasta, o porteiro do prédio ou o grande escritor, qualquer um desses podia ser seu amigo, se aquele cara merecesse esse epíteto, segundo o modo de ver o mundo de João Ubaldo, incapaz de trair qualquer tipo de lealdade.

Além de tudo, João Ubaldo era um grande escritor.

Quando muito jovem, muito tempo antes de conhecê-lo ou escrever sobre ele, li o livro que até hoje é o que mais gostei entre os que li de sua bibliografia: Sargento Getúlio, uma obra-prima da literatura brasileira, em exemplar do saudoso Círculo do Livro, há muito tempo extinto. Recomendo, seja em que edição for.

Enfim, espero que São Pedro, ou seja lá quem estiver ali na portaria, perdoe os pecadilhos do baiano de Itaparica João Ubaldo Ribeiro, que morreu na madrugada deste 18 de julho de 2014, e o deixe passar, e quem sabe ainda tomar uma última e prazerosa dose de uísque, de saideira.


quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Simone de Beauvoir





Hoje, Simone de Beauvoir (1908-1986) faria 106 anos. Muitas jovens feministas de hoje, que consideram revolucionário, que acham demais fazer manifestações de nudismo para reafirmar sua independência, o que só reproduz uma visão de mundo hedonista sem nenhum conteúdo relevante, provavelmente desconhecem que essa francesa que nasceu e morreu em Paris publicou, em 1949, O Segundo Sexo, o primeiro ensaio importante que discutiu filosoficamente a condição da mulher na civilização contemporânea e mais tarde inspirou e em parte embasou o movimento feminista.

Para não ficar, aqui, numa análise superficial de obra tão vasta, tão complexa e tão importante, para não repetir os velhos chavões de sua relação com Jean-Paul Sartre, e também porque eu não teria nada mais bonito a dizer, reproduzo abaixo trechos de um belíssimo texto da nossa grande Lygia Fagundes Telles no livro de crônicas (memória e ficção) Aquele Estranho Chá, em que Lygia narra um encontro seu com a fundamental escritora francesa.

“Ela, de traços delicados que ainda guardavam uma discreta beleza da juventude, cabeça pequena de aristocrata, corpo atarracado de camponesa. Mãos fortes e olhar tão intenso que recuei um pouco quando ela firmou o olhar em mim e começou com suas perguntas sobre a condição da mulher no Brasil. Essas perguntas prosseguiram nos contatos seguintes que tivemos, era inesgotável sua curiosidade. Interessou-se muito pela ditadura de Vargas, como os jovens reagiram? E como o país, ou melhor, como a mentalidade brasileira interferiu no processo da minha profissão de escritora?”

(...)

"Fomos almoçar num bistrô do bairro, era outono e a folhagem das grandes árvores estava esbraseada. Achei-a mais magra. Mais envelhecida no casaco de couro e botas da cor da folhagem. Voltou aos seus temas preferidos, o movimento feminista. Política. Literatura. E de repente, a pergunta incisiva: “Você tem medo de envelhecer?” Comecei a ramificar nas minhas curvas mas ela queria a linha reta. Tocou com firmeza na minha mão: “Então está com medo.” Não pude deixar de sorrir: ali estava a pensadora tão lúcida, tão racionalista, a ensaísta que esgotara tão terrivelmente num alentado ensaio todo o problema da velhice [referência ao livro A Velhice – 1970] e ainda preocupada com a idade da decadência, vulnerável como uma dona de casa que se procura no espelho e se assusta. Num dos seus belos romances, a personagem em plena l’âge de discrétion também se encolhera como um coelho: “Tenho medo. E não posso chamar ninguém para me socorrer. Tenho medo.” Fiquei olhando o vinho vermelho no copo transparente. O pão dourado na cesta.

“Setenta anos? Setenta anos. Em toda sua obra ausente de Deus, a mesma preocupação constante com a fragilidade da condição humana, a mesma marca da insegurança, do medo. O antigo espanto diante da velhice e da finitude e a busca desesperada de uma resposta que pudesse romper o mistério. Evidente sua obsessão – comum a todo artista – de permanência, de duração. E a tranqüila filosofia estruturada na certeza de que a imortalidade seria a morte da vida. Só a idéia da morte, última chave da última porta – só essa idéia, apesar de tudo, torna nossa existência mais feliz.”

(Lygia Fagundes Telles, em Aquele Estranho Chá)



Homenagem do Google a Simone, neste 9/01/2014

Obras de Simone de Beauvoir


A convidada (1943)
Pyrrhus e Cinéas (1944)
O sangue dos outros (1945)
As Bocas Inúteis (1945)
Todos os homens são mortais (1946)
Por uma Moral da Ambigüidade (1947)
A América dia a dia (1948)
O segundo sexo (1949)
Os mandarins (1954)
Privilèges (1955)
A Longa Marcha (1957)
Memórias de uma moça bem-comportada (1958)
Na Força da Idade (1960)
A força das coisas (1963)
Uma Morte Muito Suave (1964)
As Belas Imagens (1966)
A Mulher Desiludida (1967)
A velhice (1970)
Tudo dito e feito (1972)
Quando o Espiritual Domina (1979)
A cerimônia do adeus (1981)

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segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Uma dose de literatura hispano-americana





Em outubro, em Montevidéu, da bela e sofisticada librería Puro Verso (acima), saí com dois livros de Jorge Luis Borges, um autor que me tem sido caro, embora não para ser lido com muita frequência: Poesía Completa (da Editorial Lumen, que ganhei) e a coletânea que ele reuniu, citações de vários autores, intitulada Libro de Sueños (da Random House Mondadori, que comprei). Esses são livros que tenho lido, mas não com a preocupação de começar e terminar. São obras para ter e abrir de vez em quando para um deleite muito particular, que é o trazido pela literatura borgeana. 
São belas edições, livros que valem a pena possuir em sua biblioteca. 

Ao voltar da capital Uruguaia, ganhei de aniversário o belíssimo A Longa Viagem de Prazer, de Juan José Morosoli, uma revelação para mim estimulante e sobre a qual já escrevi aqui.

E acabo de ler o romance Os Passos Perdidos (1953, editora Martins Fontes), de Alejo Carpentier (1904-1980), de leitura mais árdua, às vezes não muito fluente. A literatura de Carpentier é uma das precursoras do chamado realismo fantástico, segundo os críticos, tendo influenciado uma série de autores no século XX. Diz a Enciclopédia Britânica que Carpentier "também foi um musicólogo, ensaísta e dramaturgo. Entre os primeiros praticantes do estilo conhecido como ‘realismo mágico’, exerceu uma influência decisiva sobre as obras de escritores latino-americanos [de língua espanhola] mais jovens, como Gabriel García Márquez”. Embora eu não seja um especialista em literatura hispano-americana, penso que Leopoldo Lugones (1874-1938), que influenciou tanto Borges como Cortázar, entre vários outros, é muito mais importante do que Carpentier no que diz respeito às origens do realismo fantástico, mas isso é outra história (aliás, Carpentier parece mais vinculado ao surrealismo francês, que o influenciou de fato, do que ao próprio realismo mágico...). Os Passos Perdidos não me parece nem de perto pertencente à tradição de García Márquez, mas a uma espécie de realismo barroco-existencialista (sic) (sabe-se que Carpentier reverenciava o barroco). 

O livro conta a história de um musicólogo incumbido por uma instituição acadêmica de coletar instrumentos musicais primitivos e, para isso, viaja para a Amazônia venezuelana. Lá, conhece um local ainda intocado pela civilização e passa a viver o dilema entre ficar nessa nova realidade ou voltar à cidade grande, onde já não há vestígios do sagrado e as pessoas andam como seres sem vontade própria, com o caminhar que “corresponde à ideia fixa de chegar a tempo de ver acender-se a luz verde que lhes permite atravessar a avenida”.

A narrativa de Os Passos Perdidos (ao lado, a feia capa da edição da Martins Fontes) não flui muito facilmente devido ao intrincado estilo detalhista, barroco, do autor, e ao caráter existencialista exagerado, além dos dramas conjugais que ocupam um lugar muito destacado na obra e às vezes são enfadonhos.

Além disso, o vocabulário demasiadamente rebuscado de Carpentier (você precisa de um dicionário para ler o livro) se alia a tecnicalidades ligadas à musicologia, o que configura uma arrogância intelectual um pouco irritante, já que nem todo mundo é versado nos eruditismos do assunto e poucos conhecem as terminologias para iniciados na ciência da música.

Essas características fazem de Os Passos Perdidos, como literatura, exatamente o oposto do livro A Longa Viagem de Prazer, de Morosoli, do qual já falei, autor que deixa os personagens, a cultura e a terra falarem, sem interferir na ação, que não depende das reflexões, desejos ou vaidades estéticas do autor ou narrador; já Carpentier, escritor que nasceu na Suíça e morou na Venezuela e em Cuba (país que, dizia, considerava como sua pátria), abarrota as páginas com reflexões sobre si mesmo, com seu narcisismo estilístico e seus dramas pequeno-burgueses.

Os Passos Perdidos, o quarto e último título da literatura de língua originariamente hispânica que li nos últimos dois meses, é um bom livro, nada mais do que isso.

Por falar em literatura de língua hispânica, não faço muita, na verdade nenhuma questão, de ler obras em espanhol no idioma original: primeiro, porque, confesso, acho a língua espanhola um pouco irritante – curiosamente, me soa como uma língua infantilizada; em segundo, porque uma boa tradução de uma obra em espanhol não compromete em nada o texto original, devido ao parentesco ibérico, e, pelo contrário, não é raro um texto ou um poema traduzido ao português me parecer melhor do que o dos originais em espanhol.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Juan José Morosoli – a solidão, a pureza, a viagem


Reprodução
Juan José Morosoli. Este é o nome de um escritor uruguaio que nasceu em 19 de janeiro de 1899, em Minas (capital do departamento de Lavalleja), e morreu em 29 de dezembro de 1957, na mesma cidade.

Acabo de ler A Longa Viagem de Prazer, infelizmente único título do autor publicado no Brasil. A pequena coletânea de contos da editora L&PM revela (e para mim foi mesmo uma revelação) uma literatura densa e impressionante. Os relatos tratam da vida simples de gente simples, num cenário regionalista do qual o autor dá testemunho.

Sob certos aspectos, é possível fazer um paralelo entre a literatura deste pequeno e precioso livro com a do nosso Guimarães Rosa. Ambos falam de um tipo de gente cuja simplicidade esconde vastidões da alma humana. Ambos falam de criaturas solitárias que parecem não ter mais lugar no mundo ocidentalizado no qual as modernidades, lenta e cruelmente, foram apagando a pureza, cultural e espiritual, mesmo que essa pureza seja bruta para os padrões da civilização que a extinguiu.

Os relatos de Morosoli não são descritivos. Neles, o autor não opina, não dirige e não afirma. Não descreve. Os que falam, e com extrema economia (um pouco como os nossos caipiras ou sertanejos, vá lá), são personagens que às vezes não têm como interlocutor senão um burro ou um cavalo, ou no máximo homens e mulheres que com eles dividem a solidão, e, no entanto, muito à vontade nesse seu pequeno e suficiente universo. Em Morosoli, a solidão fala.

Citei Rosa porque é uma analogia óbvia, mas é preciso dizer que, ao contrário da complexa narrativa do escritor das nossas Minas Gerais, a do uruguaio não se propõe a discutir a linguagem e nem com isso jamais se preocupou. A linguagem são pura e simplesmente os homens de sua terra.

É Morosoli quem define sua própria obra:

"(...) los gauchos no son clásico gauchos. Imagínese. No hay una sola doma de potro. No hay un solo baile. No hay una sola parada de rodeo. Guitarreros menos. En realidad no pasa nada. Son unos trabajadores que sufren el campo aquel. (...) El pueblo de mi libro es igual a muchos. (...) Yo sé que mucha gente cree que estas miserias las inventan los noveleros. Yo escribo lo que veo."

A doutora e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na pequena introdução à edição da L&PM (com tradução de Sérgio Faraco), diz que os contos do livro são “escritos com economia verbal invejável, fruto, com certeza, de muito trabalho e revisão”. “No entanto – continua ela –, o leitor não deve se deixar enganar pela aparente simplicidade da forma: o andamento narrativo é sempre surpreendente.”

A solidão dos personagens é onipresente e às vezes cruel. A singeleza perpassa as páginas. Como em uma passagem em que um personagem leva alguns gauchos para conhecer o mar que nunca viram. Para ele, o mar é sobrenatural em seu mistério e vastidão, e ele quer compartilhar com eles esse sentimento epifânico, inexplicável, único, de presenciar essa obra sem autor, que “é uma cosia soberba e bárbara... Pra mim, o mar não tem explicação”, diz esse personagem. No entanto, seus companheiros de viagem não conseguem compreender essa sensação do infinito. “Que tal?”, pergunta o extasiado Rodriguez, homem simples de alma poética, querendo saber do outro o que ele acha do mar que nunca vira. “Pois... é pura água, não? Mais ou menos como a terra, só que é água”. E assim, um por um, seus amigos vão definindo o mar segundo suas concepções simplórias, telúricas, toscas, incapazes de compreender, para espanto e sofrimento daquele que, por sua vez, não consegue entender a ignorância dos outros diante do infinito, embora Rodríguez também não consiga expressar por palavras a grandeza do que quer definir e não pode.

Não é por acaso que dois dos relatos da coletânea são intitulados “A longa viagem de prazer” (que dá título ao pequeno volume) e “A viagem até o mar”.

A viagem, em Morosoli, parece assumir uma dimensão metafórica, quase como um sonho, para criaturas, “viventes”, que não sabem senão as coisas cotidianas de seu rincão, onde a rotina se resume às coisas mais básicas: acordar, fazer o mate, cuidar do cavalo... “Umpiérrez despertava, começava o mate, acendia o fogo e preparava um churrasquinho nas brasas. Comia, ia para o forno de tijolos onde trabalhava. Ao meio-dia separava-se do grupo de cortadores que faziam o fogo em comum, acendia seu próprio fogo, tomava mate, encostava uma carne e almoçava.”

Em uma palavra, uma maravilha essa literatura que recém-conheço.

Pena que, exceto pela edição da L&PM, os editores brasileiros ainda não descobriram Juan José Morosoli. Eu vou tratar de comprar outros livros dele, em espanhol. 

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

100 anos de Albert Camus – um gênio que morreu cedo demais


Para Gabriel


Reprodução


Hoje, 7 de novembro de 2013, faz 100 anos que nasceu o grande Albert Camus. Argelino de Mondovi (interior da Argélia), ele morreu precocemente, aos 46, num acidente de carro em Villeblevin (França).

Camus foi um gênio inquieto. É autor de inúmeros livros fundamentais, como O Estrangeiro (1942) – romance que nunca deixa de ser atual e inquietante como seu autor; O mito de Sísifo (1942 - ensaio); A Peste (1951 - romance); O Homem Revoltado (1951 – ensaio filosófico); A Queda (romance – 1956); O Primeiro Homem (romance – 1994), entre muitos outros.

Ao contrário de Jean-Paul-Sartre, pensador de classe média com quem teve uma longa e tempestuosa relação, Camus foi muito pobre. Perdeu o pai com um ano de idade, vítima da Primeira Guerra Mundial, e sua mãe passou por enormes dificuldades, tendo de lavar roupas de terceiros para sobreviver.

Os manuscritos da obra-prima O Primeiro homem foram encontrados junto ao corpo de Camus no acidente de carro que o matou em 1960, e que, conta a história, não era para ele ter feito, pois já teria a passagem de trem para ir a Paris. Porém, acabou indo junto com membros da família Gallimard, dona da editora de mesmo nome, no automóvel que se espatifou numa árvore do caminho. Michel Gallimard acabou convencendo-o, conta-se, a desistir da viagem de trem e a literatura perdeu um de seus monstros sagrados por causa dessa infeliz fatalidade. Michel morreu 5 dias depois.

O Primeiro homem

O romance autobiográfico O Primeiro homem é inacabado, o que não o diminui, sendo para mim uma obra-prima. Fiel a esta origem, a Editions Gallimard manteve inclusive as lacunas em que o texto é incompreensível, com os devidos esclarecimentos em notas de rodapé, o que foi seguido pela bela edição brasileira da Nova Fronteira.

O livro tem o status de “testamento” literário. Conta a história de imigrantes franceses, pobres, que se mudam para a Argélia, como colonos, onde tentam uma nova vida. Numa casa velha de aldeia, uma mulher dá à luz o “primeiro homem”, protagonista da história. O pai desse menino é convocado pelo exército francês e vai à guerra da França contra a Argélia. O menino (franco-argelino) é criado nesse ambiente.

No romance, Camus relata a busca das origens (psicológicas, culturais e existenciais) por parte de um estrangeiro que, nessa busca, vai-se conhecendo, e conhecendo a memória, transformando-a, porque conhecimento é transformação. É belíssima e antológica a passagem em que o personagem Jacques Cormery (seu alter-ego) visita o túmulo do pai e se dá conta de que o morto ali enterrado é mais jovem do que ele próprio, o filho. O livro trata, também, da discussão da condição de estrangeiro, real ou psicológica, tema que o autor jamais abandonou.

O Estrangeiro

Outro livro definitivo de Camus (entre outros) é O Estrangeiro, que tem como temas o absurdo da existência e a impossibilidade de o homem ser compreendido pela ética da civilização ocidental. É o primeiro livro de ficção de Albert Camus.

Homem de vida banal e, no entanto, incapaz de responder às mais comuns expectativas do mundo, despojado das ambições mundanas de sucesso profissional e sem desejos de estabelecer vínculos afetivos ou matrimoniais, Mersault, o protagonista do curto mas monumental romance existencialista O Estrangeiro, é uma pessoa espiritualmente indolente, mas na aparência, pois na realidade é consciente até o insuportável para se sentir em paz “neste mundo explicado”, como escreve Rilke (1875-1926) em suas Elegias de Duíno, na tradução de Paulo Quintela, obra que trata, aliás, dos anjos de morte precoce (me perdoem a licença poética).

A leitura de O Estrangeiro é obrigatória, até mesmo como contraponto a O Processo de Kafka. Em ambos, o absurdo determina o destino do homem, embora em Camus seja conseqüência mais da atitude, ou antes, da recusa do indivíduo em aceitar a ética de um mundo que massacra as liberdades, enquanto no escritor judeu-tcheco, a meu ver, o ser esteja submetido sem possibilidade de reação às engrenagens incompreensíveis desse mundo kafkiano.

Mersault, o personagem de Camus, questionado em âmbito judicial sobre seu comportamento aparentemente frio quando do enterro de sua mãe, reflete consigo mesmo: “É claro que amava mamãe. Mas isso não queria dizer nada. Todos os seres normais tinham, em certas ocasiões, desejado, mais ou menos, a morte das pessoas que amavam”.

Mersault não compreende que o mundo (a sociedade) não quer a verdade. Em narrativa fluente, por meio da qual os fatos, um pouco à maneira telegráfica de Hemingway, se sucedem sem muitas interferências de reflexões filosóficas (esta, uma característica de Sartre), O Estrangeiro, em uma palavra, trata da hipocrisia como prerrogativa moral da nossa civilização.



segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Algumas fotos do lançamento d' O filho da promessa



No último sábado, como muitos sabem, lancei meu livro na loja da Paulinas Editora da Vila Mariana. Segue abaixo uma seleção de fotos do lançamento.

Recebi vários e-mails de amigos perguntando como faz para comprar o livro. Pode ser pela internet, neste link, ou nas lojas físicas da Paulinas: aqui tem uma lista dos endereços em todo o Brasil.

Às fotos!




José Arrabal e minha sobrinha Luiza, estrelas do evento





Gisely, Gabriel (filho do blogueiro), Arrabal e Carla Massabki




O mano Paulo




Com Arrabal e a editora da Paulinas Andréia Schweitzer




O amigo e editor Xico Santos




Esse simpático senhor é seu Oswaldo, meu pai



Na companhia de Arrabal, Luiza e a mãe dela, Clara Bastos



Com o jornalista Paulo Santos Lima (ex-Revista Submarino)




Os primos Adilson, Cida e Silvia




Com Roberto (torcedor da Lusa roxo) e Eliana




Carmem, mulher do autor




Com Rafael, da editora Paulinas




Erika Mazon, minha editora nos anos 1990





Ao lado do brother Alexandre (pai da Luiza) e da cunhada Rose, mulher do Paulo





Gabriel Maretti, Arrabal e irmã Terezinha Dambros, da Paulinas




Alexandre Terra e Cristina




Assinando o livro para a amiga Denise




O jornalista Fernando Augusto





Ao lado de Mathilde Massad




À mesa com a prima Angélica



Com Tadeu Breda (esq.) e João Peres da RBA





quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Lançamento de O Filho da promessa será neste sábado, 19


Lanço meu romance, O Filho da promessa, neste sábado, na Paulinas Livraria. Seguem o convite e as coordenadas. Apareçam!

Lançamento
19 de outubro, sábado
das 14h às 16h
Paulinas Livraria

Rua Domingos de Morais, 660 (próximo ao Metrô Ana Rosa)
Tel. 5081-9330


Clique na imagem para ampliar o convite

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O filho da promessa



Pessoal, estou lançando um pequeno romance, de 88 páginas, intitulado O filho da promessa, pela editora Paulinas.

O livro inaugura a coleção Ponto de Encontro, e já está no mercado (por enquanto, no site da editora).

Não vou me alongar falando de meu próprio livro. Como diria Borges, o julgamento da obra não depende do autor, mas dos leitores e das gerações, e portanto do tempo.

Reproduzo abaixo a sinopse do livro publicada no site da editora, que está neste link.

Neste romance temperado por um clima de suspense, o leitor será conduzido por Miguel, um homem sem fé, que acredita na ciência e nas coisas que se podem entender sob a luz da razão e da lógica. Mas, durante mais uma jornada diária de andanças profissionais pela cidade de São Paulo, um aparente acaso abala suas convicções.

Na plataforma do metrô, enquanto aguarda a chegada do trem, Miguel tem a incômoda sensação de que um homem o observa e se depara com seu olhar penetrante, irradiando algo inefável. Os dois começam a conversar e, num breve e fortuito diálogo, o homem de aparência semita diz ser descendente de uma dinastia que remonta à Galileia de dois mil anos atrás e que seus antepassados fazem parte da história contada por Mateus, no Novo Testamento.

Com palavras e previsões enigmáticas, o homem afirma que o encontro no metrô não é casual: ele está ali para transmitir a história que Miguel contará – uma missão que, depois de cumprida, revelará o "testamento".

Miguel não dá muita importância ao ocorrido, mas, aos poucos, as palavras do misterioso personagem começam a se impor e ele é tomado por uma obsessão inexplicável. Que testamento é esse? Que história deverá ser contada? Quem é esse homem misterioso que mais parece um fantasma ou alucinação? 

Na busca por respostas, uma transformação vai ocorrendo em seu íntimo. Vitória, sua esposa, não percebe a mudança, mas sua inconsciente interferência será fundamental para o desfecho do mistério que tem a ver com a devoção popular a São Judas Tadeu, de quem Miguel é afilhado por promessa de sua mãe.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Os caminhos da liberdade de Jean-Paul Sartre [3] – Com a morte na alma



Com a Morte na Alma é o último volume da trilogia Os Caminhos da Liberdade. A guerra é realidade, Paris é ocupada pelos nazistas, e a consciência dos personagens construídos a partir do inaugural A Idade da Razão, que nas páginas de Sursis torna-se gradativamente a consciência conflituosa e multifacetada da própria Europa, desemboca na amarga realidade de um país, a orgulhosa França, vencido.

Os personagens são levados, pela magnitude dos fatos que os superam, a entender que a História é mais forte do que as idéias de liberdade burguesa de cada indivíduo. Diante da Guerra, há como que uma suspensão dos princípios individuais, queiram ou não os personagens aceitar esse estado de coisas. Os egos se dissipam. A Europa se fragmenta. A França cai. A história sombria e sem saída toma conta das consciências e das ruas abandonadas:

“Ninguém no Bulevar St.-Germain; rua Danton, ninguém. Nem mesmo as portas de ferro estavam abaixadas, os mostruários brilhavam: tinham simplesmente tirado o trinco das portas ao partirem. Era domingo. Era domingo há três dias; em Paris agora havia um só dia em toda a semana. Um domingo como outro qualquer, um pouco mais vazio que de costume, um pouco mais químico, silencioso demais, já cheio de podridões secretas (...) Longas esteiras brancas sujavam os vidros das vitrines. Daniel pensou: ‘os vidros choram’ Atrás dos vidros era uma festa: milhões de moscas zumbiam.”

Diante dessa realidade inóspita, na alma e nos bulevares, em que não há futuro, o protagonista Mathieu Delarue, que nos volumes anteriores da trilogia sufocava diante de uma liberdade vã (o homem está condenado à liberdade) está agora na linha de frente, como combatente. É a consciência da liberdade.

Por meio de um ato gratuito de sacrifício, o homem ilusoriamente pode achar que é livre. O ato de matar um nazista pode ter a aparência de um ato de liberdade, de redenção, mas não o é. É a História, maior do que qualquer consciência, que o engole.


Leia também:

Os caminhos da liberdade de Jean-Paul Sartre [1] – A idade da razão

Os caminhos da liberdade [2] – Sursis

Sartre resiste ao século

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Livros (e filmes) à mancheia!


Neste fim de ano dei alguns livros de presente. É legal dar livros de presente, é lúdico. Seguem alguns interessantes:


Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira e Seymour, uma apresentação, de J. D. Salinger (1919-2010), escritor norte-americano mais conhecido pelo best-seller O Apanhador no campo de centeio, que não li. No volume da L&PM, as duas novelas do título, que se passam na primeira metade do século XX, são narradas por um professor universitário recluso relatando reminiscências de sua relação com os seis irmãos, filhos de um casal de artistas. O foco de ambas as histórias é o irmão mais velho e predileto do narrador e de toda a família: Seymour, o irmão-poeta, uma espécie de anjo rilkiano (ver As elegias de Duíno, de Rainer Maria Rilke).

Mas a vida e morte de Seymour não faz da história de Salinger um relato depressivo, ou repleto de comiserações, ou mesmo dramático. Pelo contrário, Salinger não fala da morte, mas da poesia, valendo-se de uma ironia permanente que chega por vezes a tangenciar o sarcasmo (não é por acaso que cita Kierkegaard no segundo relato). “Como é que eu posso registrar o que registrei e ainda sentir-me feliz? Mas me sinto. Alegre, não, nem de leve, porém meu entusiasmo parece ser à prova de qualquer choque”, diz o narrador.

A seta venenosa de Salinger, cuja ponta traz o veneno da ironia, é dirigida a todos, leitor inclusive, críticos literários principalmente. “Você nem pode imaginar os planos grandiosos que eu tinha para estas páginas. Acho que estavam fadados a fenecer no fundo de minha cesta de papéis”, escreve o professor enquanto tenta traçar o perfil do irmão morto (vale observar que o narrador também não esquece, como um de seus múltiplos alvos, da então hegemônica psicanálise, que causou frisson entre intelectuais de todos os segmentos na primeira metade do século passado).

A narrativa da primeira história, Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira, é feita com uma linguagem mais linear – mais fácil de ler – do que Seymour, uma apresentação. Este último relato é daqueles de perturbar editores que amam períodos curtos e parágrafos sucintos, de enervar os resenhistas sem tempo de realmente ler um livro – para uns e outros, é mais prático que o raciocínio obedeça a regras simples de redação e proporcione um entendimento tão imediato quanto raso.


Drácula, de Bram Stoker (1847-1912). Bem, este livro não precisa de muitas apresentações, a não ser que é preciso tomar cuidado com a edição. Recomendo duas: da Nova Cultural (a boa e velha de capa dura) ou a de bolso da L&PM. É a história clássica do vampiro da Transilvânia na qual se basearam depois incontáveis outros autores e os diretores de inúmeros filmes do gênero terror, do qual os melhores filmes são Nosferatu, de Murnau (1922), Nosferatu, de Herzog (1979), e Drácula de Bram Stoker, de Coppola (1992).

O livro Drácula foi publicado em 1897, escrito a partir de pesquisas sobre um nobre do século XV que viveu na região da Transilvânia, na Romênia. Diz a lenda que Vlad empalava seus inimigos e por isso era conhecido como O Empalador. Ele, de fato, existiu, e combateu ferozmente os turcos no século XV. Numa época em que o mercado é inundado de lixos do tipo Crepúsculo, protagonizados por vampirinhos bonitinhos e ordinários, ler o original do autor irlandês Bram Stoker é recomendado. Eu, que na infância adorava assistir a filmes de terror com minha avó Emiliana (só eu e ela na sala), acho imprescindível que os jovens conheçam algo mais denso do que a idiotice dos vampirinhos de crepúsculo, e por isso dei esse livro de presente para uma sobrinha de 15 anos que é uma rara menina que adora ler.


Caninos Brancos, de Jack London (1876-1916). Sobre essa pequena obra-prima, já escrevi neste blog: A natureza selvagem segundo Jack London. As edições recomendadas são: a mais do que esgotada edição do Círculo do Livro (ainda vou escrever um post sobre o saudoso CL), que achei em “ótimo estado” num sebo virtual, e a da L&PM, também em loja virtual. London é um dos escritores mais importantes da essencial literatura norte-americana que se consolida durante o século XX. Ele é precursor de uma linhagem que depois vai passar por Hemingway, Jack Kerouac e Bukowski, por exemplo.

Caninos Brancos é a história de um lobo que tem de conviver com um predador mais poderoso do que ele, o homem. Pode ser lido por adultos e jovens, qualquer um dotado de sensibilidade.

As pessoas que gostam de animais, sobretudo cachorros, vão se envolver muito com a história, sobretudo porque sua narrativa não é a narrativa de qualquer um, é a de Jack London.



Audrey Hepburn é a capa da Cia. das Letras
Bonequinha de Luxo. Eis um pequeno romance, ou uma novela, adorável. É de 1958 e de outro notável escritor norte-americano, Truman Capote (1924-1984), o mais jovem dos citados neste post sobre livros que dei de presente de Natal. Só há um problema no caso desta obra: é que a única edição confiável fácil de achar é da Companhia das Letras: o livro é caro até em sebo, como é normal com as edições desta editora.

É a história de uma “caipira” dos Estados Unidos que vai para Nova York em busca de ambições. Seu “sonho de consumo”, mais do que ser uma atriz de Hollywood, é a famosa joalheria Tiffany's (daí o título do original em inglês, tanto do livro de Capote como do filme dirigido por Blake Edwards: Breakfast at Tiffany's).

A versão hollywoodiana (o filme) acrescenta soluções menos dramáticas do que a história contada por Capote. O conto mostra um cotidiano em que não existe um happy end como quer Hollywood, porque Capote vê a vida em Breakfast at Tiffany's apenas como a vida que flui e se transforma e acaba. Capote era implacável, e não foi à toa que escreveu talvez a obra mais importante da chamada literatura de não ficção, A sangue frio.

Porém, depois de ler o livro de Capote, veja o filme Bonequinha de luxo! Tirando o hollywoodianismo, a película de Blake Edwards conta com uma atuação ma-ra-vi-lho-sa de Audrey Hepburn. Poucas vezes vi uma atriz encarnar uma personagem tão bem como Audrey incorporou a Holly Golightly criada por Capote. Mas se você viu o filme e ainda não leu o livro, leia-o. Comigo aconteceu nessa ordem, e não foi menos encantador.

Por hoje, fico por aqui.


terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Lêdo Ivo (1924-2012)


Morreu o poeta alagoano Lêdo Ivo. Ele estava em Sevilha, na Espanha, com familiares, onde passaria o Natal, quando se sentiu mal, parece que ao jantar num restaurante. Tinha 88 anos. Ele nasceu em Maceió, a 18 de fevereiro de 1924.

Tive contato com Lêdo Ivo entre 2001 e 2002, quando eu organizava o livro Escritores – 43 entrevistas da Revista Submarino (editora Limiar). É que ele era um dos entrevistados. Na ótima entrevista concedida à repórter Camila Claro (então a mais jovem e mais erudita da equipe) ele mencionou que tinha em seu arquivo um poema inédito de Carlos Drummond de Andrade. Durante a organização, conseguimos que ele nos enviasse o poema de Drummond. Chama-se “Greta Garbo”. Está lá, publicado logo após a entrevista dele, na página 130 de Escritores.

Na época do lançamento, liguei para o poeta, conversamos um pouco e anotei seu endereço para enviar-lhe um ou dois exemplares. Graças a isso o livro Escritores está lá na biblioteca da Academia Brasileira de Letras, da qual ele era membro.

Lêdo Ivo era assim, solícito, simples, afável, receptivo, bem-humorado. Começou a longa jornada pelas letras muito jovem. “Aos 16 anos, em 1940, ligou-se ao grupo do poeta e ensaísta Willy Levin e participou do I Congresso de Poesia do Recife, a seu lado e de João Cabral de Mello Neto”, nos conta Camila na introdução da entrevista. Nesta, Lêdo Ivo revela muitas histórias de sua geração. Fala de literatura e de bastidores (ótimos bastidores), das gerações de 22 e de 45, de suas relações com os poetas João Cabral, Oswald de Andrade, Drummond e outros. Conta sobre suas divergências com Oswald de Andrade, narra um caso que mostra a vaidade e a ambição do poeta paulista.

Mordaz e bem-humorado, fala de um volume de correspondência trocada entre João Cabral, Drummond e Manuel Bandeira: “...há uma parte desse livro em que Cabral me trata com certa ironia. Ele envia para Drummond uma antologia e diz que ‘os Lêdos Ivos da Espanha também estão presentes nesse volume’. Mas isso é muito engraçado porque, ao mesmo tempo em que ele me ironiza, em 1947 escreve para mim falando mal de Drummond (risos)”.

Sobre a geração de 1922: “certos círculo literários achavam que a poesia só tinha um caminho, quando a poesia tem mão dupla, mão tripla, não é?”

Apesar das divergências, disse sobre Oswald de Andrade: "Existem amizades e inimizades, mas aí vem o tempo e apaga tudo. Tenho muitas saudades de Oswald de Andrade".

Humilde, disse também na entrevista: “o melhor de mim, se é que há algum melhor, são os versos longos, os respiratórios, o poema grande, narrativo. Em minha geração sempre fui considerado uma espécie de ovelha negra, fui expulso da geração de 45 sete vezes! (risos)”.

São muitas as histórias que Lêdo Ivo tinha em sua memória, algumas das quais estão na entrevista de Camila no Escritores. Agora, as histórias que ele contou e as que não contou, leva todas consigo para a escuridão do tempo.


*Publicado originalmente às 13:04 de 23 de dezembro de 2012


terça-feira, 16 de outubro de 2012

Nota sobre Criação Imperfeita, de Marcelo Gleiser ("Só sei que nada sei")


LITERATURA


Acabo de ler um livro fascinante, que ganhei de presente, já faz quase dois anos, dos queridos cunhados Milton Machado Luz e Ana Rohrer. Aliás, tão fascinante quanto hermético para quem, como eu, é um leigo em física. Daqueles livros que, se você não é do ramo, mereceriam uma leitura cuidadosa, concentrada, sem distrações ou interrupções do cotidiano, para fruir simplesmente. Mas, como é muito difícil essa disponibilidade de tempo no mundo em que vivemos, li como foi possível.

Trata-se de Criação Imperfeita, de Marcelo Gleiser (editora Record), a propósito do qual aliás o tempo – como conceito da física, como motor da imaginação humana e mesmo como poesia – é um dos temas principais.


Nossa Via Láctea é apenas uma de bilhões de outras

O físico Gleiser, que muitos conhecem de documentários e programas de TV que discutem cosmologia em linguagem popular, faz uma verdadeira viagem pelo tempo através da qual tenta nos resumir os caminhos traçados pelos homens que buscaram com a ciência e a física tentar entender ou explicar os mistérios da matéria, da natureza, do tempo e do espaço, que poderíamos chamar de universo. Alguns desses homens são Pitágoras, Kepler, Newton, Faraday, Einstein, Pasteur e outros.

 A busca desses homens levou a ciência a explorar o infinito e o infinitesimal, chegando depois à física quântica e às teorias sobre surgimento e funcionamento do universo, busca que muitas vezes tentou encontrar uma prova final para um modelo científico que se adequasse à visão totalizadora e matematicamente perfeita, que expressasse de alguma forma algo como a ideia de Deus, ou a ideia da Perfeição, de um propósito lógico e ainda desconhecido de que seriam expressões os fenômenos da natureza, inclusive a vida. Para Marcelo Gleiser, o momento a que o estudo da ciência nos trouxe depois de muitos séculos de pesquisas e investigações mostra que, ao contrário da crença de que a natureza é forjada na perfeição e na simetria, na qual muitos cientistas basearam seus modelos e teorias ao longo do tempo, se mostra equivocada.

O átomo e partículas subatômicas:
como sistemas cósmicos
A natureza, o girar de planetas, estrelas e galáxias, talvez universos, ou as partículas subatômicas em seus movimentos às vezes incrivelmente análogos ao dos corpos cósmicos, a composição da matéria interestelar e dos átomos, moléculas e seres vivos, tudo isso, seguindo a visão científica de Gleiser, se deve à imperfeição e à assimetria. Não é à toa, claro, que, dividido em cinco partes, o livro tenha quatro delas assim intituladas: A assimetria do tempo, A assimetria da matéria, A assimetria da vida e A assimetria da existência. Escreve o autor: “Não há dúvida de que adoramos simetria. Basta olhar em torno para confirmar que vivemos cercados de objetos simétricos: computadores, cadeiras, carros, pratos (...) Mesmo antes do surgimento das religiões monoteístas, nas culturas do mundo inteiro ordem e simetria já eram relacionadas com o divino.”

O ideal de beleza clássico ou a iconografia religiosa, a música séculos afora, o movimento dos astros no céu ou o ciclo da natureza com suas quatro estações, entre inúmeros outros exemplos, mostram que concebemos o mundo no qual “ordem foi equacionada com segurança e simetria com o previsível e o confiável”.

No entanto, a arte moderna veio para romper com o conforto da simetria (a música atonal, os quadros cubistas de Picasso, por exemplo).

Assim como a física. Na física, na ciência, acontece a mesma coisa, guardadas as devidas diferenças, claro. Mas, apesar de toda a evolução proporcionada pela ciência baseada na simetria “é necessária uma nova estética para a ciência, um novo tipo de beleza que substitua as antiquadas qualidades de ordem e simetria inspirada na fé monoteísta. Essa nova estética tem um princípio básico: que a natureza cria a partir do desequilíbrio”, escreve Gleiser, e não do equilíbrio e da simetria.

Claro que daí o autor entra numa zona que é árida para um leigo. Como por exemplo: os estudos teóricos que levaram à descoberta da antimatéria mostram, segundo os físicos, que se houvesse um equilíbrio (portanto a simetria) entre matéria e antimatéria, “caso matéria e antimatéria tivessem coexistido em quantidades iguais durante a infância cósmica, teriam se aniquilado em radiação de forma tão eficiente que, hoje, o universo consistiria principalmente em um banho de radiação. A vida, nesse caso, seria impossível”.

“De acordo com a mecânica quântica, é perfeitamente possível que antiátomos existam e que, portanto, possam existir galáxias de antimatéria. O anti-hidrogênio, por exemplo, já foi produzido em laboratório”, continua o autor, já aqui numa passagem menos fácil. E passagens muito menos fáceis se sucedem no livro.

Muito do que sabíamos no passado foi desmentido ou superado pela ciência contemporânea, mas para esse desmentido ou essa superação foi preciso uma inimaginável dedicação e amor ao conhecimento (ou a busca pelo conhecimento) para chegarmos ao que conhecemos hoje. Que será superado no futuro, próximo e distante. Muitos podem contestar a ciência. Mas muitas vezes a ciência se aproxima da poesia.

A origem da vida, por exemplo, continua sendo um mistério. Como ela começou na Terra. Quando? Ao que parece, entre 3,8 e 3,5 bilhões de anos, depois de um longuíssimo processo pelo qual “sistemas químicos autônomos devem ter desenvolvido membranas que os protegessem de ataques externos, permitindo que extraíssem nutrientes e energia (...) uma célula é um reator químico complexo, particularmente isolado, cuja função principal é degradar energia (...)quanto mais células houver, quanto mais eficiente for a reprodução, maior a capacidade coletiva de degradar energia”. Enfim, o assunto é inesgotável.

A busca por Deus ou por uma lógica perfeita deve ser superada para que nós, humanos, sejamos responsáveis pelo nosso destino. Até prova em contrário, estamos sozinhos no universo. Portanto, conclui o autor, devemos lutar pela preservação da vida, que, ao contrário, segundo ele, de ser fruto de um desígnio divino ou consequência da perfeição e simetria de uma natureza e universo “inteligentes”, é decorrente da assimetria e do próprio desequilíbrio das partículas subatômicas, da matéria e antimatéria que compõem o universo (ou universos, ou multiverso – estou sendo quase pueril na minha abordagem, pois o tema é muito complexo). A vida é algo muito raro, talvez único, para ser perdido pela incompetência e prepotência humanas, nos diz o livro.

É incrível pensar que a vida poderia, pelo menos teoricamente, existir sem água e carbono: "É concebível que a vida possa existir sem água como solvente, ou mesmo sem uma química baseada no carbono (...) Talvez o solvente seja a amônia e o elemento básico seja o silício", propõe Marcelo Gleiser, que faz algumas ressalvas, como: "se esse tipo de vida existir, certamente não será muito complexa".

O livro é da editora Record
Bem. Gleiser pode ser ateu. Eu posso não ser. Isso significa pouco perto do que nos sugere o autor de Criação Imperfeita. Até porque ele nunca deixa de reconhecer que, como disse Sócrates, “Só sei que nada sei”.

Como disse o próprio autor em outro livro (que não li), A Dança do Universo, “Nossa galáxia, a Via Láctea, é apenas uma entre bilhões de outras, sendo sua posição perfeitamente irrelevante. Nosso planeta não ocupa uma posição especial no sistema solar, nosso Sol não ocupa uma posição especial em nossa galáxia, e nossa galáxia não ocupa uma posição especial no Universo. O que temos de especial é a habilidade de nos maravilharmos com a beleza do cosmo".

Mas o livro de Marcelo Gleiser de que trata este post é, enfim, perdoem o clichê, uma viagem fascinante e imperdível.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Jorge Amado, 100 anos, eterno intérprete da Bahia


Reprodução
Já cansado da lida de mais um dia que acabou, pois já passa da meia-noite, vou traçar umas poucas linhas para falar de Jorge Amado, que nasceu há cem anos (Itabuna, 10 de agosto de 1912) e morreu há 11 (em Salvador, a 6 de agosto de 2001). Duas efemérides quase na mesma semana.

Quando Jorge Amado morreu, um amigo jornalista, Enrique Portilla (chileno, mas que à época morava no México), figura interessante que eu tinha conhecido tempos antes num bar na região da Paulista em São Paulo, se comunicou comigo para encomendar uma matéria sobre Jorge para o jornal Reforma, do México. Matéria para a qual falei com algumas personalidades das letras brasileiras, como Lygia Fagundes Telles, Moacyr Scliar e Millôr Fernandes. Essa matéria foi publicada no jornal mexicano sob o título "El heroe de Bahia", e ainda está lá, nos arquivos do jornal, mas para acessar o texto (que tenho impresso, guardado numa pasta) é preciso ser assinante do jornal ou fazer um cadastro.

Gosto muito de Jorge Amado. Sempre penso que ele foi menos brilhante quando confundiu as letras com sua militância no Partido Comunista. Mas sempre foi um grande escritor, um contador de histórias cuja sensibilidade era capaz de captar e registrar a cultura de um povo inteiro, o povo da Bahia, como uma antena.

Povo que não eu conheço tão bem como gostaria, embora adore Salvador e tenha me encantado com o Recôncavo quando lá estive fazendo uma reportagem. Sou descendente de italianos pelo lado paterno, mas minha avó materna era baiana de uma cidade antigamente chamada Santana dos Brejos, nome que hoje não existe mais. Hoje é conhecida só como Santana. Tiraram o lado feio (mas poético) do nome da cidade que é mencionada por Euclides da Cunha em Os Sertões, pois Antônio Conselheiro passou por Santana dos Brejos.

É incrível a história e os arquétipos. Pensar que meus bisavós maternos foram contemporâneos do Conselheiro, que podem ter visto o homem passar por ali, até tê-lo visto, ou apenas terem ouvido falar de sua sombra passar por lá. Glauber Rocha.

Mas voltando a Jorge Amado. Sua obra é rejeitada por certos setores academicistas da USP. Puro preconceito da elite intelectual paulistana, diga-se. O Jorge Amado de A morte e a morte de Quincas Berro D’água, de Gabriela cravo e canela, de Mar Morto e tantos outros livros não pretendeu revolucionar a linguagem, mas apenas contar histórias do povo baiano, seus mitos e lendas, suas paixões e sua realidade sem pecado. Daqui a cem anos, com certeza, Jorge Amado será lembrado, e duvido que os irmãos Campos sejam, com toda a sua erudição concretista indefensável, com suas obras brilhantes, sim, mas fragmentárias e sempre caudatárias de algo maior. Jorge Amado, não. Ele não precisa de intérpretes concretistas.

É possível comparar Jorge Amado com Gabriel García Márquez, embora o colombiano trafegue mais pela via do realismo fantástico, e o brasileiro por um outro tipo de linguagem, onde o fantástico existe (Mar morto), mas nunca se afasta tanto da realidade.
Foto: Edu Maretti
O cara sem camisa é o Marujo, pescador de Pedra Furada
Em Salvador existe um lugar chamado Pedra Furada, aonde um amigo que fiz lá, o Zezéu, dono de uma empresa de transporte turístico, me levou uma vez e, depois, outra vez, quando lá estive com Carmem em 2007.

A Pedra Furada fica perto do Bonfim. Depois de descer uma ladeira impressionante, você acaba numa viela de pescadores. Pobre. Onde você come um peixe e uma moqueca absolutamente divinos.

É difícil entender Jorge Amado se você não conhece lugares assim, como a Pedra Furada, perto do Bonfim. Mas é possível, senão entender, pelo menos sentir.