Mostrando postagens com marcador Estados Unidos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Estados Unidos. Mostrar todas as postagens

sábado, 21 de janeiro de 2017

Donald Trump: uma besta ou a besta?


Ou: Considerações acerca de uma incógnita


White House/Twitter

Enquanto assistia à posse do novo presidente dos Estados Unidos, pensamentos contraditórios passavam pela minha cabeça.

Não conseguia chegar a me definir se Trump seria um besta, ou a besta. No primeiro caso, segundo o Michaelis, “Que ou aquele que é grosseiro ou ignorante; burro”. Na segunda acepção, de acordo com o mesmo dicionário, termo bíblico que significa “animal simbólico, tido como responsável por grandes catástrofes” e que pode levar o mundo ao Apocalipse.

No discurso de posse, o 45° presidente dos Estados Unidos seguiu a receita da campanha vencedora e, depois de elogiar Obama e Michelle pela postura “magnífica” no processo de transmissão do cargo, logo assumiu sua personalidade truculenta e disparou: “Não estamos apenas transmitindo o poder de uma administração a outra, ou de um partido para outro, estamos transferindo o poder de Washington, DC, e devolvendo para vocês, o povo. Por tempo demais um pequeno grupo na capital da nação recebeu os louros do governo enquanto as pessoas pagaram pelo custo”.

Trump é um louco ou um demônio? Nenhum dos dois. É o resultado de inúmeros fatores conjugados. Logo após a eleição que colocou o republicano na Casa Branca, em 9 de novembro, Glenn Greenwald, no The Intercept, escreveu o que para mim é o melhor texto sobre os porquês da eleição que surpreendeu analistas e apostadores do mundo todo, principalmente os ligados ao establishment democrata norte-americano, texto que você pode ler na íntegra aqui: Democratas, Trump e a perigosa recusa em entender as lições do Brexit.

Dois trechos do texto acima mencionado:

1) “as elites formadoras de opinião estavam unidas de uma forma extremamente incestuosa e tão distantes da população que decidiria essas eleições, sentiam tanto desprezo por ela, que não foram capazes de observar as tendências em favor de Trump e, além disso, aceleraram essas tendências involuntariamente com seu próprio comportamento”.

2) “a escolha conivente que o Partido Democrata fez décadas atrás: abandonar seu apelo popular e se tornar o partido dos tecnocratas proficientes, dos gerentes do poder da elite pouco benevolentes. Essas são as sementes de cinismo e interesse próprio que foram plantadas, e agora essa plantação está sendo colhida. (E este trecho faz, não tão vagamente assim, lembrar o nosso Partido dos Trabalhadores no processo que – embora por meio de um golpe – o apeou do poder em 2016.)

Acredito que, se não se comportar de modo minimamente aceitável de acordo com que esperam dele os poderes ocultos e não ocultos dos Estados Unidos, a Roma contemporânea potencializada com um arsenal nuclear capaz de destruir o mundo várias vezes, Donald Trump será igualmente apeado do poder, de uma forma ou de outra, e não acredito que com gentileza. Como me disse o professor Luis Fernando Ayerbe, do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais da Unesp: “O receio do establishment é pelo estrago que Trump pode causar, por incompetência, improvisação, falta de visão estratégica. Ele preocupa fundamentalmente os setores do establishment tradicional, representados pelos que se reúnem em Davos, as chamadas elites orgânicas do capital" (a matéria da RBA com Ayerbe está aqui).

Embora eu tenha a tendência de não desconsiderar nem mesmo forças místicas que giram em torno do poder neste mundo de matéria densa, e apesar de em alguns momentos me parecer que Donald Trump pode até mesmo ser a besta, penso que ele está mais para um besta alucinado mesmo, do qual o povo americano pode se cansar bastante cedo, e aí o establishment terá a faca e o queijo na mão.

Seja como for, para nós brasileiros (e esta é outra coisa em que cada vez acredito mais), é provável que, se Donald Trump fosse presidente dos Estados Unidos no ano passado, Dilma Rousseff não teria sido deposta, pelo menos não com tanta facilidade. Trump parece não estar tão preocupado em interferir na vida de outros países como os “falcões” Obama e Hillary Clinton, como lembrou Ayerbe na matéria acima linkada. O que, aliás, pode até mesmo ser um dos motivos da irritação do establishment com o novo presidente. 

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Analista de The Wall Street Journal diz que chance de Sanders vencer Hillary é real


Fotos: Reprodução/Youtube


O analista político Douglas E. Schoen escreveu ontem, no jornal The Wall Street Journal, um veículo conservador, que há hoje bem mais "do que uma possibilidade teórica de que Hillary Clinton não seja a candidata democrata" para as eleições presidenciais norte-americanas em novembro.

Até agora considerada inevitável, a nomeação de Hillary poderá começar a fazer água se ela perder as primárias na Califórnia, dia 7 de junho, para Bernie Sanders. Segundo o analista, essa possibilidade pode "muito bem" acontecer.

Segundo Schoen, a Califórnia reúne fatos que demonstram que o Estado tende para Sanders. Por exemplo: em meados de maio haveria cerca de 1,5 milhão de eleitores democratas recém-registrados desde janeiro, o que representaria um crescimento de 218% nos registros de eleitores democratas em comparação com o mesmo período em 2012. Esse seria um forte sinal a favor de Sanders.

Se se confirmar, uma vitória Sanders na Califórnia seria um poderoso sintoma de que Hillary  pode não ter a força que se imaginava, como candidata democrata, avalia o analista. "E se Sanders vencer em Montana, Dakota do Norte (cenário aliás do grande filme Fargo, de Joel Coen) e se mostrar competitivo em Nova Jersey", poderia conseguir mudar votos de superdelegados democratas antes a favor de Hillary.

Nas últimas semanas, a avaliação de que a ex-secretária de Estado de Barack Obama seria a mais forte contra Donald Trump "se evaporou", diz o analista. Pesquisas mostram um empate técnico entre ela e Sanders na Califórnia.

E há ainda outra "fratura" no argumento a favor de Hillary, diz Schoen: "Sanders corre consistentemente mais forte do que ela (num eventual embate) contra Trump nacionalmente, batendo-o por cerca de 10 pontos percentuais em uma pesquisa recente.

A pergunta que fica, no momento, é: será?

sábado, 5 de setembro de 2015

A tragédia síria e a hipocrisia



Reprodução


Há três anos e meio publiquei neste blog o post linkado abaixo (ou aqui). Na época, poucos estavam interessados no que acontecia na Síria, um dos países mais importantes do Oriente Médio, e consequentemente do mundo. Sua capital, Damasco, além de ser historicamente riquíssima, sempre foi talvez a mais laica e culta daquela região. Damasco ainda permanece de pé e se mantém como bunker do presidente Bashar al-Assad. É como se a capital estivesse sendo preservada enquanto o resto do corpo (o país) vai sendo consumido pela doença.

A Síria é um ponto geopoliticamente estratégico do planeta, como qualquer pessoa minimamente informada pode entender vendo o mapa aqui publicado.

Era óbvio em 2012, na verdade desde o início do conflito, em 2011, o interesse na destruição da Síria como país, pois sua simples presença era uma ameaça à hegemonia israelense e estadunidense na região. A Síria era uma nação militar, cultural e politicamente incômoda. Uma ameaça tênue, é verdade, pois não poderia ameaçar de fato o maior império da Terra e seu preposto sionista. Mas, tênue ou não, uma ameaça não pode ser tolerada pelo império americano e sionista.

Mas ninguém falava nada. Na época, havia um silêncio quase unânime sobre a tragédia anunciada. O silêncio e a indiferença estavam na mídia, no jornalismo "alternativo", nas reuniões de amigos.

O jornalista Pepe Escobar era um dos únicos que rompiam essa indiferença diante da catástrofe anunciada da Síria. No meu post de 2012, eu citava uma análise do jornalista:

A crise síria “está fazendo aumentar os temores, no mundo em desenvolvimento, de uma insurreição armada apoiada pelo Ocidente, para tentar recriar, na Síria, o caos criado na Líbia. Segundo Escobar, o governo Assad não cai porque mais da metade da população síria ainda o apoia". O texto mencionado de Pepe Escobar, de 2012, está aqui.

Assad ainda não caiu, mas seu governo é hoje como uma alma sem corpo. O Departamento de Estado dos Estados Unidos defende que o presidente sírio renuncie para “facilitar” a luta contra o Estado Islâmico (EI – ou ISIS na sigla em inglês). É o cinismo habitual do país de John Wayne.

E agora, depois de anos de indiferença, agora que apareceu o corpo de uma criança morta numa praia da Europa, todo mundo ficou indignado. Todo o mundo parece ter acordado de um sono indigno. Muitos manifestam sentimentos verdadeiros, mas isso tudo seria piegas, se não estivéssemos falando de uma tragédia planetária e histórica. Mas estamos.

Meu coração está partido pela Síria, mas não é porque agora apareceu aquela criança morta. Eu já estava triste antes.

A tristeza do mundo já deveria ter batido antes, a indignação precisaria ter se manifestado antes. Muitas crianças já morreram antes. Agora é tarde. A indignação agora é tardia e hipócrita.

Ainda: A violência em Homs, minha história e o que importa ao mundo: qual o futuro da Síria?



sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O preço do petróleo, Estados Unidos, Rússia, o Brasil e o fusca do Mujica



Ou: peças de um quebra-cabeça


Roberto Stuckert Filho/PR
Dilma cumprimenta Putin em reunião de cúpula dos Brics (22/11/2014)

A crise do preço do petróleo, que tem queda violenta e chega a 60 dólares esta semana é uma pancada considerável em países como Rússia, Venezuela e Irã. Principalmente para a Rússia.

Por incrível que pareça, a desvalorização do preço do petróleo pode favorecer o Brasil. Por quê? Porque pode reduzir o déficit que o país e a Petrobras assumiram ao manter artificialmente o preço do óleo abaixo do mercado internacional em tempos recentes. E porque o Brasil importa muito petróleo, ainda, embora tenha reservas enormes.

Para a Rússia, a situação é catastrófica. Cito matéria da Agência EFE:

"Como gás e óleo respondem por cerca de 75% das exportações russas, teme-se que o país perca condições de gerar divisas necessárias para cumprimento de seus compromissos comerciais e financeiros com o exterior.

O petróleo caiu devido a uma decisão unilateral da Arábia Saudita — maior exportador mundial do combustível e principal aliado dos EUA no Oriente Médio, ao lado de Israel."  

Leia a matéria da Agência EFE neste link: Putin afirma que EUA querem fazer da Rússia um 'troféu de caça'

Fecho aspas.

De outro lado, o restabelecimento das relações entre os Estados Unidos de Barack Obama e a Cuba de Raúl Castro, e a muito pouco divulgada, em nossas plagas, aproximação visível da Rússia com a Argentina.

O Brasil ao lado de Rússia, Índia, China e África do Sul nos Brics.

As poderosas Alemanha e China em estratégico silêncio.

E, no Leste, a preocupante situação na Ucrânia, sob um governo neofascista com apoio das potências ocidentais, Estados Unidos da América à frente.

O mundo é uma panela de pressão.

Enquanto isso, aqui na terrinha a galera está encantada com as sandálias e o fusca do Mujica.

terça-feira, 29 de julho de 2014

De Palestina, política externa e falência moral



“Não podemos aceitar impassíveis a escalada de violência entre Israel e Palestina. Desde o princípio, o Brasil condenou o lançamento de foguetes e morteiros contra Israel e reconheceu o direito israelense de se defender. No entanto, é necessário ressaltar nossa mais veemente condenação ao uso desproporcional da força por Israel na Faixa de Gaza, do qual resultou elevado número de vítimas civis, incluindo mulheres e crianças.”

Esta fala da presidente Dilma Rousseff, no discurso de hoje (29 de julho) na Cúpula do Mercosul, é de entendimento fácil para quem sabe ler. Ela lembrou também, para quem tem um pouco de história na cabeça, que o posicionamento da diplomacia brasileira é historicamente favorável à coexistência entre dois Estados soberanos. “O Brasil, em todos os fóruns, em todas as aberturas da Assembleia-Geral da ONU, que nós temos o privilégio de dar início, manifestou que a construção da paz naquela região do mundo passa pela construção de um Estado de Israel já operante, já construído e já sólido, e por um Estado Palestino.”

Clique na imagem para ampliar
Votação na ONU sobre investigação de genocídio na Palestina

Na semana passada, o governo brasileiro divulgou nota oficial convocando o embaixador brasileiro em Tel Aviv “para consultas” (o que na linguagem diplomática significa discordância de uma determinada política). “Condenamos energicamente o uso desproporcional da força por Israel na Faixa de Gaza, do qual resultou elevado número de vítimas civis, incluindo mulheres e crianças”, disse a nota oficial do governo brasileiro.

Como resposta, o porta-voz do ministério das Relações Exteriores israelense, Yigal Palmor, com a arrogância peculiar e cínica do Estado de Israel, disse que a manifestação do Planalto Central "não contribui para encorajar a calma e a estabilidade na região" e que “o Brasil, um gigante econômico e cultural, continua a ser um anão diplomático".

Também na semana passada, o Conselho de Direitos Humanos da ONU aprovou uma resolução que determina a formação de uma comissão internacional para investigar o genocídio na Palestina. A determinação foi aprovada por 29 votos a favor. Foram 17 abstenções e um voto contra. De quem? Dos Estados Unidos da América. Entre os 17 abstinentes, todos os europeus que votaram e Japão. Entre os que votaram a favor (contra os interesses sionistas), os países da América Latina e os dos Brics: Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul (clique na imagem acima para ver a votação por país).

Dilma também falou hoje da crise da Argentina: "O problema que atinge hoje a Argentina é uma ameaça não só a um país irmão, atinge a todo o sistema financeiro internacional. Não podemos aceitar que a ação de alguns poucos especuladores coloque em risco a estabilidade e o bem-estar de países inteiros".

O mundo está mudando. Quanta dor e sofrimento a queda do status quo que vigora desde o fim da Segunda Guerra vai custar é difícil prever, mas o mundo está mudando. Infelizmente a história é lenta demais e uma vida humana diante dela é muitíssimo curta.
 Reprodução
A falência moral de uma revista
Enquanto isso, a revista Veja que está nas bancas esta semana traz uma matéria de capa justamente sobre a política externa do governo Dilma. Diz a revista semanal na chamada de capa: “Silêncio sobre o crime do Boeing cometido pela Rússia, ataque a Israel, o alvo número 1 do terror, e, em Brasília, tratamento servil ao ditador de Cuba mostram a falência moral da política externa de Dilma”.

Não tem como alguém minimamente sensato levar a sério a afirmação da decadente publicação da Abril, que muitos ainda leem, e muitas vezes para ficar com problemas no fígado. Eu há muito tempo sequer folheio essa revista. Olho na banca a capa de vez em quando, mas geralmente nem isso.

Acho aliás curiosa a expressão “falência moral” dessa revista ao se referir a um governo que tenta construir uma relação geopolítica no mundo que coloque o Brasil como sujeito da história, juntamente com ouras nações que não aceitam mais a subserviência aos interesses norte-americanos e israelenses.

Ao falar em “falência moral”, Veja, talvez por um mecanismo inconsciente de seus chefes e capistas, parece falar de si mesma ao espelho. Pois é sua visão moribunda de política e relações internacionais que faliu moralmente. E não sou eu quem diz, são os fatos e a história que demonstram. Pelo mesmo mecanismo psicanalítico, a publicação também fala em "tratamento servil" ao ditador de Cuba. Veja tem saudade do servilismo aos Estados Unidos.

Veja tem saudade de um período quando o embaixador brasileiro nos Estados Unidos no governo militar de Castelo Branco, Juracy Magalhães, disse a célebre frase: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”.

Por tudo isso, as eleições deste ano no Brasil são muito importantes para o próprio Brasil, mas mais ainda para a América do Sul e América Latina, e também, ouso dizer, para o mundo.

Aécio Neves já disse que se eleito pretende “rever” a participação do Brasil no Mercosul. Como a Veja, ele defende uma política pela qual haja mais relações bilaterais. Com quem? Com os Estados Unidos da América. Uma visão de mundo moralmente falida.

Leia também: 




quarta-feira, 4 de setembro de 2013

“Superpotência moral”? Dá um tempo



Gideon Levy
Gideon Levy * - Haaretz
(publicado originalmente, no Brasil, no Carta Maior)


Um exercício de honestidade (e de duplo padrão de julgamento): o que aconteceria se Israel usasse armas químicas? Os Estados Unidos também afirmariam que iriam atacar? E o que aconteceria se os Estados Unidos mesmo tomasse essas medidas? É verdade, Israel jamais usaria armas de destruição em massa, embora as tenha em seu arsenal, exceto sob circunstâncias extremas. Mas o país já usou armas proibidas pelo direito internacional – fósforo branco contra a população civil em Gaza, bombas de fragmentação no Líbano – e o mundo não levantaria o seu dedo. E seria preciso poucas palavras para descrever as armas de destruição em massa usadas pelos Estados Unidos, das bombas nucleares no Japão ao Napalm no Vietnã.

Mas a Síria, é claro, é um outro assunto. Afinal de contas, ninguém pode seriamente pensar que um ataque a Síria sob o regime do Presidente Bashar Assad repousa em considerações morais. 100 000 mortos nesse país infeliz não convenceram o mundo a se coçar para tomar uma atitude, e apenas o informe da morte de 1400 por armas químicas – o qual não foi provado de maneira conclusiva – está persuadindo o exército da salvação mundial a agir.

Tampouco alguém poderia suspeitar que a maioria dos israelenses que apoiam o ataque – 67% de acordo com a pesquisa encomendada pelo jornal Israel Hayom – são motivados pela preocupação com o bem estar dos cidadãos sírios. No provavelmente único país do mundo em que uma maioria da opinião pública apoia um ataque, o princípio que o orienta é completamente estrangeiro: ataque aos árabes; não importa por que, apenas o quanto – muito.

Ninguém pode seriamente pensar que os Estados Unidos é uma “superpotência moral”, como Ari Shavit o definiu nas páginas deste jornal. O país responsável pelo maior derramamento de sangue desde a Segunda Guerra Mundial – alguns falam em algo como 8 milhões de mortos em suas mãos – no sudeste da Ásia, na América do Sul, Afeganistão e Iraque – não pode ser considerado “uma potência moral”. Nem o pode o país no qual um quarto dos prisioneiros do mundo estão encarcerados, em que o percentual de prisioneiros é maior do que na China e na Rússia; e onde 1342 pessoas foram executadas – cumprindo pena de morte – desde 1976. 

Até a afirmação de Shavit, de que “A nova ordem internacional que emergiu após a Segunda Guerra Mundial foi pensada para assegurar...que o cenário de horror e morte por gás não se repetisse” está desconectado da realidade. Na Coréia, no Vietnã, no Camboja, em Ruanda e no Congo, assim como na Síria, essa afirmação infundada pode somente causar um sorriso azedo.

O ataque assim seria um Iraque II. Os Estados Unidos – que nunca foram punidos pelas mentiras do ataque Iraque I e pelas centenas de milhares de mortos em vão nessa guerra - dizem que uma guerra similar deveria ser lançada. Mais uma vez, uma cortina de fumaça, com evidência parcial, e com linhas vermelhas traçadas pelo próprio presidente Barack Obama, e agora ele é obrigado a manter a sua palavra. Na Síria, uma guerra civil cruel se aproxima e o mundo deve tentar barrá-la; o ataque americano não fará isso.

Informes da Síria são aparentemente sobretudo tendenciosos. Ninguém sabe o que exatamente está acontecendo, ou a identidade dos mocinhos e dos bandidos, se assim podem eles ser definidos. 

Devíamos escutar as sábias palavras de uma freira da Síria, a Irmã Agnes-Mariam de la Croix, que se queixou para mim, ao longo do fim de semana – do mosteiro em Jerusalém onde ela estava ficando, a caminho de volta da Malásia para a Síria – a respeito da imprensa mundial. A Irmã Agnes – Mariam descreveu o quadro de maneira diferente da maior parte da imprensa. Há uns 150 000 jihadistas na Síria, ela diz, e eles são os responsáveis pela maior parte das atrocidades. O regime de Assad é o único que pode barrá-los, e a única coisa que o mundo deve fazer é parar de fornecer-lhes militantes e de armá-los. “Eu não entendo o que o mundo quer. Ajudar a Al-Qaeda? Criar um estado jihadista na Síria?”. 

Essa madre superiora, cujo mosteiro está localizado numa via que vai de Damasco a Homs, está certa de que um ataque americano só fortalecerá os jihadistas. “É isso o que o mundo quer? Um outro Afeganistão?”.

Talvez o mundo saiba o que quer, talvez não. Mas uma coisa agora parece clara: um outro ataque dos Estados Unidos poderá se tornar um outro desastre.

*Gideon Levy é jornalista judeu-israelense, do jornal Ha'aretz
Tradução: Katarina Peixoto.

sábado, 31 de agosto de 2013

Obama diz que Estados Unidos estão prontos para ação militar na Síria


A matéria abaixo reproduzo da agência de notícias do governo federal. Antes, só quero dizer que me sinto um completo tolo por ter achado, em 2008, que a eleição de Obama era um avanço pro mundo, como era incrível e simbólico os Estados Unidos da América terem elegido um presidente negro. Qual! Vi ao vivo o pronunciamento do presidente agora há pouco, neste sábado, 31 de agosto, anunciando que o ataque à Síria estava decidido: "Pode ser amanhã, daqui a uma semana, daqui a um mês", disse, feito um John Wayne negro.

Eu realmente não acredito que o regime de Bashar Al Assad seja responsável pelo ataque químico que chocou o mundo na semana passada. O ataque é apenas o pretexto de que os EUA precisavam para atacar.

"Acreditamos no direito dos indivíduos de viver em paz", disse ainda Obama, neste sábado.

Reprodução


Da Agência Brasil

Os Estados Unidos estão prontos para uma intervenção militar na Síria, declarou hoje (31) o presidente norte-americano Barack Obama, em pronunciamento na Casa Branca. Obama ressaltou, porém, que vai pedir o aval do Congresso americano, que está em recesso até 9 de setembro.

O presidente disse que não espera a concordância de todos os países com a ação militar na Síria, mas pediu que aqueles que estiverem de acordo declarem isso publicamente. Ele afirmou que tomará a decisão mesmo sem aprovação do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU).

Segundo o chefe do governo americano, o governo sírio cometeu violência contra a dignidade humana e fere a segurança dos Estados Unidos, uma vez que pode estimular o uso de armas químicas e proliferação de grupos terroristas. Obama reforçou que considera o governo sírio responsável pelo ataque ao próprio povo. Ele destacou que os Estados Unidos têm de que agir diante desse ato na Síria, que, conforme relatos de serviços secretos americanos, provocou a morte de mais de mil pessoas, entre elas crianças.

A oposição e países ocidentais acusam o regime de Bashar Al Assad de ter usado gás tóxico no ataque do dia 21 deste mês, nos arredores de Damasco, capital síria. O governo sírio rejeita as acusações e atribui a responsabilidade pelo ataque aos rebeldes.

O conflito na Síria já fez, desde março de 2011, mais de 100 mil mortos e levou o país a ser suspenso dos trabalhos da Liga Árabe.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

"Não neguem a política", diz Lula aos jovens



Do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva aos jovens, em conferência a estudantes de ensino superior na Universidade Federal do ABC, intitulada “Brasil no mundo: mudanças e transformações”, na tarde de ontem, quinta-feira 18 de julho:

 “Quando vocês estiverem putos da vida e não estiverem gostando de ninguém, ainda assim não neguem a política. E muito menos neguem os partidos. Quando você estiver puto e quiser negar as coisas, em vez de negar a política, entre na política.”

“A pior coisa que pode acontecer no mundo é aceitar a negação da política. Não existe nenhuma experiência no mundo em que a negação da política deu melhor resultado que a podridão da política (...) Os conservadores não se conformam. Sentem saudade dos tempos em que o continente era subalterno. Em que a miséria era um dado sociológico.”

“Queremos ter relação com os Estados Unidos, o que não podemos é nos tornar dependentes. Por isso nos voltamos para a América Latina.”

“Na década de 90, existia a dúvida de quem era o serviçal mais importante, Menem, FHC etc. Como o Brasil queria ser grande se não cuidava dos que estavam perto? Fizemos um trabalho de reconquistar confiança política. Em dois anos, aconteceram coisas extraordinárias, primeiro o Chávez, depois o Lula, o Kirchner etc. Aquilo que as pessoas jamais imaginaram que iria acontecer nós vivemos, que foi o período mais progressista, socialista e de esquerda da nossa América do Sul.”

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Google, Facebook e Microsoft cobram transparência de Obama


Charge: Rice/ Publicado originalmente no jornal Visão Oeste


Do Opera Mundi

Em raro momento de união no competitivo mercado da internet, mais de 50 empresas assinaram juntas ontem (17) uma carta para o presidente Barack Obama cobrando transparência do governo norte-americano no escândalo de espionagem. O grupo, que inclui Facebook, Google e Microsoft, também promete um comunicado conjunto para hoje (18).

A carta solicita a Washington uma série de medidas para que os usuários da internet tenham mais segurança com suas informações. Segundo o portal All Things Digital, caso o governo norte-americano não atenda à demanda, as empresas prometem revelar por elas mesmas dados da NSA (sigla em inglês para Agência Nacional de Segurança).

Todas as empresas, diz a imprensa dos EUA, querem fugir do estigma que colaboram com a administração Obama no sistema de vigilância. Na carta, também pedem a Obama permissão para publicar os documentos sobre os pedidos de acesso ao banco de dados feitos por Washington.Caso não sejam atendidos, prometem ir à justiça do país.

"Durante anos, estão sendo publicados informações básicas sobre como o governo utiliza as leis para autorizar uma investigação sem que haja nenhum interferência ou controle da Justiça. Queremos que as informações relacionadas à segurança nacional, a mesma que Washington nos solicita, seja colocada à disposição da população. Essa informação – de como é feito e de com que frequência o governo está utilizando os mecanismos legais – é importante para a sociedade", afirma a carta direcionada a Obama. 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Nações Unidas dizem sim à Palestina


Não podia descansar sem registrar um fato que, como eu já disse aqui, é a causa mais importante do início do século XXI: o reconhecimento da Palestina como Estado.

A Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou o pedido da Palestina de ser reconhecida como Estado observador na comunidade internacional. É o mesmo status que tem o Vaticano. O requerimento, apresentado pelo presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, foi aprovado por 138 votos das 193 nações votantes. Outros 41 países se abstiveram e apenas nove votaram contra, claro que Israel e Estados Unidos entre estes. Os outros sete contrários são Canadá, República Tcheca, Palau, Nauru, Micronésia, Ilhas Marshall e Panamá.


Placar da Assembleia Geral das Nações Unidas – quinta-feira, 29/11/2012

O fato tem uma importância política e diplomática enorme. Significa que a partir de agora “o território de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental passam a ser territórios ocupados [por Israel] de um Estado já reconhecido pela ONU”, me disse o embaixador da Palestina no Brasil, Ibrahim Alzeben, para matéria que vai sair nesta sexta na Rede Brasil Atual.

De resto, a posição de Israel e Estados Unidos foi fragorosamente vencida por 138 países contra nove e 41 abstenções (os que votaram envergonhadamente contra os palestinos). Entre os que se abstiveram, duas potências europeias, Alemanha e Grã-Bretanha.

A posição de Israel e Estados Unidos os isola ainda mais numa posição retrógrada que não chega nem perto do acordo de Oslo (Noruega) em 1993 (19 anos atrás), mediado pelo então presidente Bill Clinton e assinado pelo premiê israelense Yitzhak Rabin e o líder palestino Yasser Arafat. Pelo acordo de Oslo, por um momento o mundo acreditou que a paz surgira no Oriente Médio. Mas infelizmente Rabin foi assassinado por um fanático judeu ortodoxo ultradireitista e a paz dançou.

O Estado palestino agora tem poder de voz, e não ainda de voto, o que só chegará quando for admitido como Estado pleno. Mas o avanço é evidente.

Do primeiro ministro israelense, Benjamin Netanyahu, não se podia esperar atitudes enobrecedoras, é preciso admitir. Como direitista que é, prefere a guerra. Com sua intransigência, Netanyahu prefere negar o acordo com o moderado Mahmoud Abbas para continuar tendo como único diálogo o diálogo da guerra com o Hamas.

Mas de Barack Obama esperava-se alguma grandeza. No episódio histórico na ONU hoje, objeto deste post, a postura dos Estados Unidos de Obama mostra que, como estadista, ele é um zero à direita.

Leia também: entrevista com o antropólogo e fotógrafo Rogério Ferrari

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

É melhor o charme de Obama e Michelle do que os cabelos engomados dos republicanos


Acho tão ingênuo as pessoas se dizerem decepcionadas com Barack Obama. Explico: quando ele ganhou a eleição em 2008, muitos acharam que agora as coisas iam mudar. A maior potência da Terra, o império americano, o país de setores e regiões racistas, tão bem retratado no filme Mississipi em chamas, de Alan Parker, elegera um negro, e ainda por cima democrata, presidente da República.

Não me decepcionei com Obama porque nunca achei que Obama fosse mudar o mundo, fazer os Estados Unidos se tornarem um exportador de liberdade e paz, esquecer o protecionismo de seus agricultores e trabalhar pela completa igualdade entre os povos. Sou realista. Mesmo que queira ou quisesse, nem com Platão como secretário de Estado Obama conseguiria. Mas dizer que Obama é igual a Bush parece um pouco a avaliação meio adolescente de partidos brasileiros como PSOL e PSTU, segundo os quais Lula ou Dilma = FHC.


Reprodução
O casal Obama, em 2008

Há quatro anos eu era editor do jornal Visão Oeste, de Osasco, um veículo da chamada mídia independente, feito por valorosos companheiros, e lá dei uma manchete sobre a vitória de Obama na época: “O mundo mudou”. Lembro de alguém ter me falado que eu estava exagerando. Não estava, até porque, para mim, a mudança era simbólica, mas nem por isso menos importante. Foi bonito, então, o discurso da vitória do presidente negro: “Hello, Chicago!”. Assim como foi bonito ele, Michelle e as duas filhas no dia da posse. Uma família negra, tremendamente charmosa, na Casa Branca.

Vendo Michelle na época, me ocorre, como me ocorreu hoje, a linda canção "Neide Candolina", de Caetano:

"Preta chique, essa preta é bem linda
Essa preta é muito fina
Essa preta é toda glória do brau

Preta preta essa preta é correta
Essa preta é mesmo preta
É democrata social racial."


Bem, mas voltando à realidade, engana-se quem pensa que Michelle Obama é apenas charmosa e que só Obama, além de charme, possui a capacidade masculina do comando. Michelle é muito mais influente e forte do que se pensa e não será surpresa se se tornar uma candidata potencial à Casa Branca. O mundo e a política são cheios de surpresas.

Voltando à atualidade, Barack Obama conseguiu se reeleger mesmo tendo feito um governo muito difícil, em meio a uma crise, a inciada em 2008, que não inventou, mas herdou (aliás, no Brasil, a direita de traço udenista torceu para a crise americana contaminar o Brasil e arrastar o governo Lula pelo bueiro, mas a direita udenista e a mídia se deram mal, e continuam se dando, como se viu nas últimas eleições municipais no país).

Obama não mudou o mundo como Lula mudou o Brasil, nem se poderia esperar tanto. E nem se poderia esperar que Lula e Dilma mudassem tanto o imenso Brasil de dimensões continentais como se muda uma cidade ou um pequeno país.

Mas, sejamos pragmáticos. Se Romney ganhasse, se os republicanos ganhassem, seria outro retrocesso e o mundo estaria mais próximo da intransigência e da guerra do que está hoje.

Voltando ao simbólico, é melhor o charme de Obama e Michelle do que os cabelos engomados e a cara de insanidade protestante dos republicanos.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Cultura: o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil


No governo Dilma, a Cultura, assim como Meio Ambiente, é uma pasta sem importância. Há um ano, já estava claro que a política de Ana de Hollanda só interessa ao governo e à indústria cultural americanos. Mas isso pode custar caro em 2014

Agência Brasil
Muito bom, muito bem. Chegamos a abril de 2012, passamos o Dia da Mentira e, ao contrário de apostas e até “furos” jornalísticos dando conta de que ela cairia “antes do fim do mês” de março, a ministra Ana de Hollanda continua firme e forte na pasta da Cultura. “Ministra da Cultura, Ana de Hollanda, não deve chegar ao fim do mês [de março]”, garantiu o jornalista João Villaverde, do Valor Econômico, em seu twitter, dia 13 do mês passado, conforme postado aqui.

A resistência da irmã de Chico Buarque no Minc – que já parece ter virado um escárnio para com a comunidade cultural que trabalhou muito pela eleição de Dilma Rousseff – é motivada por enormes interesses que vêm lá do Norte da América e está muito longe de ser simples. E por isso ela não cai. A melhor explicação para sua permanência contra tudo e contra (quase) todos está numa matéria de Tatiana de Mello Dias e Rafael Cabral em O Estado de S. Paulo de 20 de março de 2011. Ou seja, de mais de um ano atrás! A matéria, intitulada "Quem tem medo da mudança?" e já citada à época neste blog, dizia o seguinte:

“O Secretário de Comércio dos EUA, Gary Locke, se reuniu na sexta-feira passada, 18 [de março de 2011], com a ministra da Cultura, Ana de Hollanda. O pedido, em forma de ‘visita de cortesia’, partiu do governo americano e tinha como pauta um tema quente para o Ministério no começo de 2011: propriedade intelectual.”

A reforma da lei de direitos autorais, que o ex-ministro Juca Ferreira tentou fazer andar, não interessa aos Estados Unidos. Continuava a matéria acima citada: “Tem sido feita muita pressão para que o Brasil adote uma linha mais amigável aos interesses dos EUA e para que siga suas recomendações em relação aos direitos autorais. A escolha de Ana de Hollanda e suas primeiras ações [no início do governo Dilma] a esse respeito refletem isso”, afirma o sociólogo Joe Karaganis, pesquisador do Social Science Research Council que chefiou um estudo de três anos sobre a pirataria em países emergentes.

Com a democratização da lei de direitos autorais, “o Brasil poderia começar a sofrer retaliações comerciais”, continuava a reportagem do Estadão de março de 2011. E, finalmente, “‘As ações da ministra apontam basicamente para a realização da agenda da indústria cultural’, afirma Pablo Ortellado, do Grupo de Políticas Públicas para o Acesso à Informação da USP”.


Obama e Gary Locke, o secretário de Comércio
dos EUA. O verdadeiro chefe de Ana de Hollanda?
É simples assim, meus amigos. A manutenção de Ana de Hollanda se deve antes e acima de tudo a interesses de governo (ou melhor, governos: americano e brasileiro). Diante desse quadro, uma eventual queda de Ana Hollanda e sua substituição, caso aconteça, seria apenas uma medida cosmética para amansar a comunidade cultural do país. Não representaria mudança de fundo alguma na política do Minc atualmente em vigor, de que favorcimentos ao Ecad e a desarticulação dos pontos de cultura, projeto importante que passou a ser vítima de boicote e cortes orçamentários, são alguns dos principais problemas.

Ironicamente, na campanha de 2010, artistas de várias vertentes se empenharam na campanha de Dilma sob o seguinte slogan: “Cultura com Dilma 13 – Mais cultura para o Brasil seguir mudando” (relembre aqui). Mas a política cultural do governo Dilma tem sido encarada, lamentavelmente (com razão), como uma traição a esse apoio.

No meio ambiente, mais retrocesso

O governo parece também completamente desinteressado nas questões relativas ao Meio Ambiente (o que importa é o “desenvolvimento” a qualquer preço), a ponto de chegarmos à seguinte situação: “Organizações sociais denunciaram que o primeiro ano de mandato da presidente Dilma Rousseff se caracterizou pelo ‘maior retrocesso da agenda socioambiental desde o final da ditadura militar’, revertendo uma tendência sustentada desde 1998. A denúncia consta de um documento que será apresentado ao governo brasileiro e ao secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, junto com uma carta assinada por 39 organizações ecologistas”, informa matéria publicada pela Envolverde no último dia 30.

Essas traições, como dizem muitos artistas e ativistas ligados à cultura e ao meio ambiente, podem custar caro aos projetos de reeleição de Dilma em 2014. Mas a presidente não parece preocupada com essas questiúnculas, por enquanto.

A íntegra da matéria do Estadão de março de 2011: Quem tem medo da mudança?

*A frase do título deste post, "o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil", é de Juracy Magalhães, ministro da Justiça do Brasil entre 1965 e 1966, no governo militar de Castelo Branco.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A violência em Homs, minha história e o que importa ao mundo: qual o futuro da Síria?



Batalha em Homs/ Reprodução: Vídeo You Tube

A crise síria e a violência na cidade de Homs, supostamente perpetrada pelo governo de Bashar al-Assad, além de triste, tem algo de pessoal para mim na distância das décadas e, por que não, dos séculos.

É que uma curiosa e dupla coincidência me liga, mesmo que longinquamente, à história de Homs: o avô materno (que não conheci) de minha mulher, Carmem, que se chamava Nadin Hussni, veio dessa cidade hoje com pouco menos de 1 milhão de habitantes, localizada a oeste da Síria e a 150 km de Damasco.

Também veio da cidade o pai de outra pessoa que conheci muito tempo antes de Carmem. Muitos tiveram o melhor amigo da infância e adolescência, aquele com quem você divide dúvidas e inquietações, aprende junto e descobre que com ele é capaz de mudar o mundo. O tempo passa, os amigos viram adultos e a vida segue, cada um no seu rumo, e o mundo continua. Essa personagem em minha vida chamou-se Ibraim Salum Barchim, filho de Hanna Ibraim Barchim, que veio também de Homs. Tanto os ascendentes de Carmem como de Ibraim são da minoria cristã da Síria.

Para quem acredita em desígnios espirituais, reencarnação etc., essa coincidência por certo tem muito significado, mas não se trata aqui de discutir isso. E sim apenas constatar que os acontecimentos em Homs têm o poder de mexer comigo de uma maneira que não existiria se eu não tivesse nem a mais distante ligação com essa cidade, afinal meu filho Gabriel tem entre os sangues que correm em suas veias também uma parcela do sangue sírio de Homs.

Qual é a verdade?

A verdade é que as informações sobre o que acontece em Homs e na Síria hoje são desencontradas e estão muito longe de ser claras, sejam quais forem as fontes. Uma das mais gabaritadas, o jornalista Pepe Escobar, diz o seguinte no blog redecastorphoto: a crise síria “está fazendo aumentar os temores, no mundo em desenvolvimento, de uma insurreição armada apoiada pelo ocidente, para tentar recriar, na Síria, o caos criado na Líbia”. Segundo Escobar, o governo Assad não cai porque mais da metade da população síria ainda o apoia.

O jornalista afirmou no início do mês que “o número de mortos [nos conflitos] divulgado pela ONU (...) não discrimina as vítimas favoráveis ao governo e da oposição; e a ONU simplesmente ignorou a morte de mais de 2.000 soldados do exército sírio.”

Já o jornal argentino de esquerda Página12, que também questiona o cinismo ocidental, não poupa porém os “progressistas do mundo” que fecham os olhos para a “matança de Homs”: “onde estarão as forças de esquerda que se escandalizaram com os bombardeios da OTAN na Líbia e agora parecem emudecidos como se a moral e os valores valessem em um território e não em outro?”, escreveu Eduardo Febbro.

Na semana passada, a jornalista americana Marie Colvin (do britânico Sunday Times) e o fotógrafo francês Rémi Ochlik (Paris Match) morreram vítimas de bombardeios em Homs. Mas ninguém pode dizer de fato quais foram os autores do ataque que os vitimou.

Futuro obscuro

O atual presidente sírio herdou o poder de seu pai Hafez al-Assad, que governou de 1970 até 2000, quando morreu. O partido Baath (ou Ba'ath ) dos Assad é secular, e, diferentemente dos que governam inúmeros países do Oriente Médio, não tem diretrizes religiosas. A Síria sob os Assad é aliada histórica da União Soviética e por consequência da Rússia. Cerca de 90% dos sírios são muçulmanos (75% sunitas e 15% outras tendência). Os cristão são talvez pouco menos de 10% .

O temor maior dos detentores do poder e também dos minoritários cristãos é que a “insurreição” leve o país a ser governado por muçulmanos fundamentalistas, o que não interessa nem mesmo aos Estados Unidos e seus aliados. O que interessa aos EUA e seus aliados é derrubar Assad e dividir o país.

Mas, diferentemente do que aconteceu na Líbia, Rússia e China sustentam Assad e, com seu poder de veto na ONU, bloqueiam e bloquearão qualquer tentativa legal do Ocidente de intervir na Síria e derrubar Assad com aval das Nações Unidas. Geopoliticamente, a Síria é fundamental para os interesses americanos, por um lado, e russos e chineses do outro. A queda de Damasco representaria para os EUA ganhar um território fundamental para minar a “ameaça” iraniana e enfraquecer o que veem como séria ameaça a Israel. Russos e chineses não podem aceitar tal hegemonia americana. E Israel já avisou que está em seus planos um ataque ao Irã "em breve", sem avisar os Estados Unidos.

E assim está o mundo na segunda década do século XXI.

Abaixo, na íntegra, os textos citados neste post:

Síria: sombras por trás do espelho, por Pepe Escobar

La matanza de Homs, por Eduardo Febbro

Leia também: “Primavera árabe” foi apenas um espasmo de luz nas trevas do Oriente Médio?

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Clint Eastwood é bom até em propaganda. Obama agradece


Um comercial de dois minutos da montadora norte-americana Chrysler, com o ator Clint Eastwood, que foi ao ar no intervalo do Super Bowl, a final do futebol americano, no domingo, fez um enorme sucesso e foi considerado como mensagem claramente pró-Barack Obama. Isso porque este é ano de eleições nos Estados Unidos.

A conotação política é clara: "os times estão discutindo o que fazer para ganhar o jogo no segundo tempo. É intervalo também na América", diz Clint no anúncio, o que seria uma alusão ao período entre os dois mandatos (o atual e o futuro) de Obama. Com a crise de 2008, a Chrysler quase foi à falência. "Detroit está nos mostrando que pode ser feito", afirma Eastwood, referindo-se ao coração da indústria automobilística dos EUA. No final do comercial, a mensagem parece ainda mais óbvia: "Nós nos levantaremos novamente e quando fizermos isso o mundo vai escutar o barulho de nossos motores. Sim, é intervalo na América. E o nosso segundo tempo já vai começar”.




O belíssimo comercial me fez pensar no medonho anúncio da Fiat aqui no Brasil, com aquela música pavorosa do tal Michel Teló, e em como está cada vez mais nojento e sem criatividade o mercado publicitário brasileiro.

Enfim, posto aqui também porque sou um fã do grande Clint Eastwood de Os Imperdoáveis e outros filmes. Estou aliás devendo a mim mesmo um post sobre Os Imperdoáveis para a Série “Favoritos do cinema”, que por falta de tempo até agora só tem dois posts (sobre Quando Explode a Vingança  e sobre Fargo).

A propósito, está em cartaz nos cinemas o novo filme de Clint, J. Edgar, sobre a vida de J. Edgar Hoover, o controverso diretor do FBI. Que ainda não vi.

Sobre a obra anterior do diretor (de 2010), escrevi aqui: O velho e bom Clint Eastwood em cartaz com Além da Vida.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

“Primavera árabe” foi apenas um espasmo de luz nas trevas do Oriente Médio?


Não resta dúvida de que, em âmbito internacional, se o hasteamento da bandeira da Palestina na sede da Unesco, semana passada, é simbolica e mesmo politicamente importante, a violência no Egito é um duro golpe na crença de uma verdadeira "primavera árabe".

Clique para ampliar
A praça Tahrir, centro da capital Cairo, viveu ontem, quarta-feira, 20, o quinto dia concecutivo repressão contra manifestantes que exigem abertura política. O país que derubou Hosni Mubarak (leia aqui) vive hoje a dura realidade de uma ditadura militar. Segundo o Ministério da Saúde egípcio (sic), 13 pessoas morreram na semana passada em decorrência dos conflitos, e 815 ficaram feridas.

O país vive hoje um longo processo de eleições parlamentares previsto para durar um mês e meio e o governo acena com a possibilidade de realizar eleições presidencias em junho. Mas as cenas teríveis da violência (entre as quais se destaca a foto de uma mulher sendo espancada brutalmente por “agentes de segurança”) não deixam margem a otimismos.

No fim de novembro, Kamal Ganzouri foi nomeado primeiro-ministro no país. Hoje com 78 anos, ele já havia ocupado o cargo na ditadura de Mubarak entre 1996 e 1999. A "novidade" foi o estopim para a mais nova revolta. Em entrevista a Brasil de Fato de 8 de dezembro, o jornalista Pepe Escobar falou do início de um período “contrarrevolucionário” nos países árabes. Disse ele:

“Os militares arrumaram um sistema onde botaram uma ditadura militar de fato, se livraram do chefe do regime, e de seu sucessor, que é o Omar Souleiman, hoje isolado. O regime ficou intacto.

“Nada mudou essencialmente para os Estados Unidos porque eles continuaram a cooptar esse regime militar.”

Essa cooptação, destaca Escobar, é feita política e economicamente: “Eles estão cooptando não só diretamente, mas via seu aliado principal na região, a Arábia Saudita, que há pouco ‘doou’ US$ 4 bi para a ditadura militar do Egito se manter nos próximos meses. O Egito é um país quebrado, tem que comprar comida de fora, tem que pagar funcionários públicos e é um país que está à beira da bancarrota”.

Em nossa ingenuidade, imaginamos que o gigante Egito, às portas de Israel no Mediterrâneo, fosse dar um alento nessa estratégica e conflagrada região do planeta. Mas a verdade é que a “primavera árabe” pode ter sido apenas um espasmo de luz nas trevas do Oriente Médio.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Occupy Wall Street contra o Tea Party
e o dedo de Al Gore


Reprodução
Saudemos o movimento Occupy Wall Street. Porque é uma reação ao Tea Party. E o combate aos dobermans da ideologia deve ser sistemático e incessante.

Mas o sentimento de euforia não pode ocultar o fato de que nada acontece nos Estados Unidos por acaso. Há pouco mais de dois meses, Al Gore – o democrata derrotado por George W. Bush nas eleições de 2000 – deu entrevista a um programa semanal importante de atualidades políticas, chamado Countdown, do apresentador Keith Olbermann, em que disse isso: “Nós precisamos ter uma primavera americana. Uma mudança não violenta, onde as pessoas das bases voltem a se envolver. Não no estilo do Tea Party. Há pessoas sinceramente aborrecidas com o Tea Party”, disse Al Gore na entrevista, que foi ao ar em 2 de agosto de 2011.

Al Gore, que não é bobo, já se posicionava então como liderança de um movimento de oposição àquele “financiado com o dinheiro semeado pelos bilionários de extrema-direita”, segundo suas palavras. E, claro, usando muito bem a idéia da primavera árabe que seduziu o mundo pouco antes.

E o democrata não ficava por aí. Citou a Fox News como um dos instrumentos que possibilitaram a criação dessa “agenda de direita”. A entrevista de Gore de dois meses atrás foi divulgada pela Current TV, canal de televisão independente dirigido pelo próprio Al Gore e pelo empresário Joel Hyatt.

O desencadear do movimento Occupy Wall Street como contraposição ao truculento Tea Party é auspicioso. Até porque, simbolicamente, confirma a terceira lei de Newton (desculpem a analogia), segundo a qual a toda ação corresponde uma reação. Mas é também necessário reconhecer – sob a premissa de que nada na chamada América do Norte se dá por acaso – que em tudo isso tem no mínimo um dedo de Al Gore. Ou seja, de parte significativa do establishment dos Estados Unidos. O que é uma evolução, considerando que Bush foi eleito graças a financiamento pesado da indústria armamentista norte-americana.

Em benefício do otimismo, e contra meu ceticismo (motivado por tragédias como a da Palestina), é importante dizer que, na velocidade da história hoje (Paul Virilio), com a aliança movimentos sociais + internet, as coisas podem estar mudando até mesmo nos Estados Unidos da América, oprimidos por uma crise econômica que não tem precedentes nem em 1929, porque a de hoje é mais profunda e global.

Ao ver a revolta nos EUA, não consigo tirar da cabeça a imagem (talvez arbitrária?) desses meninos dos condomínios que há por aí, meninos e meninas que, com 11, 12, 13 anos, não sabem sequer atravessar uma rua, pegar um ônibus, conversar com um mendigo, e quando vivem essas experiências é como se fizessem uma revolução.

Espero sinceramente que a “primavera americana” seja um pouco mais do que um movimento de reacomodação das insatisfações pequeno-burguesas dos Estados Unidos. Algo Anonymous, espontâneo, concreto. Até acho que pode ser, porque quando Barack Obama disse “Yes, We can”, muitos lá acreditaram, e talvez não estejam a fim de deixar de acreditar.

Para acessar a página do movimento, clique neste link: Occupy Wall Street

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Kadhafi está no fim

O regime de Muammar Kadhafi está caindo. Não se sabe o que virá a partir de agora na Líbia. Quais serão as conseqüências do apoio da Otan e dos Estados Unidos aos rebeldes que comemoram em Benghazi e na capital Trípoli a ainda não anunciada queda do ditador que em fevereiro prometia banhar o país de sangue (e banha há muito tempo)?

Rebeldes na capital Trípoli - Foto: Reprodução/ Al Jazeera
 O fato é que o regime sanguinário está no fim. Os rebeldes anunciaram a prisão de três dos filhos do patriarca que governa com mão de ferro e muito sangue o país há 41 anos e dizem que já controlam Trípoli. O presidente dos Estados Unidos Barack Obama manifestou-se com as seguintes palavras agora há pouco:

“Nesta noite, a pressão sobre o regime de Kadafi chegou a um ponto crítico. Trípoli está escapando das mãos de um tirano. O regime dá sinais de que está caindo. O povo da Líbia está mostrando que a busca universal de dignidade e liberdade é muito mais forte que o punho de ferro de um ditador.”

Ok, sabemos o que significa o apoio da Otan e dos EUA aos rebeldes. Mas eu, na minha insignificância, saúdo a queda de Kadhafi e espero que se confirme. Ouvi agora na Al Jazeera um homem do povo, simples, em Trípoli, dizer à câmera literalmente: “We are all free”. Confesso que me emocionei.

Assista ao vivo a cobertura da rede Al Jazeera dos acontecimentos na Líbia clicando neste link:

Al Jazeera Live

sexta-feira, 15 de julho de 2011

O Brasil como potência mundial

Uma instituição cuja importância e influência chega até a Casa Branca, o Council on Foreign Relations (CFR), publicou um relatório intitulado "Brasil Global e as relações EUA-Brasil", antecipado na semana passada pelo jornal O Globo e que tem sido divulgado meio timidamente esta semana em nossa imprensa.


Capa do relatório/Divulgação
 No documento, a instituição, que publica a revista Foreign Affairs, amplamente reconhecida nos meios diplomáticos mundiais, faz recomendações absolutamente inequívocas ao governo americano de Barack Obama sobre o Brasil.

Por exemplo: "É de interesse dos Estados Unidos entender o Brasil como um complexo ator internacional cuja influência nas grandes questões mundiais atuais apenas deverá aumentar". Para o CFR, o Brasil já não deve ser tratado mais apenas como uma potência continental, mas global.

E mais: o Council on Foreign Relations espera que os Estados Unidos "apoiem de forma plena a candidatura do país [Brasil] a uma cadeira como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU", pois, segundo os membros da instituição, “um apoio formal dos Estados Unidos ao Brasil reduziria a suspeita dentro do governo brasileiro de que o compromisso americano de uma relação madura e entre iguais não passa de retórica (...) Há pouco a perder e muito a ganhar com um apoio ao Brasil no CS neste momento".

Então, presidente, vai aceitar os conselhos?
O influente grupo recomenda também que o governo estadunidense elimine as tarifas alfandegárias para o etanol brasileiro.

É óbvio que a história do Brasil não começou com Lula. Mas é óbvio também que a crescente influência do país no mundo está sendo conquistada pela mudança de parâmetros da política externa brasileira desde o governo Lula, ao contrário do que era antes, uma política subserviente baseada na máxima “o que é bom para os EUA é bom para o Brasil”. Se não fosse por isso, o relatório não recomendaria uma relação “mais ampla e madura com o novo Brasil”, como o fez.

Só não vê quem não quer.

Atualizado às 19:38

segunda-feira, 2 de maio de 2011

O que importa não é a morte de Bin Laden, mas a "primavera árabe", diz Robert Fisk



Indagações simples sobre a anunciada morte de Osama Bin Laden levam a conclusões nada tranquilizadoras, muito menos para o povo norte-americano, sedento por vingança, ávido por espetáculos e demonstrações convincentes do poder inesgotável de seu império. Pois, com a morte do impiedoso líder da Al Qaeda, o círculo vicioso da violência sendo alimentada, da qual ele próprio é um produto, e ressurgindo em nuvens de fogo apocalípticas trará mais bombas, mais mortes, mais sofrimento de inocentes, estadunidenses ou não.

Nenhum cidadão que tenha o humanismo em seu horizonte pode concordar com o genocídio perpetrado por Bin Laden no atentado que parou o mundo em 11 de setembro de 2001. Mas, às indagações:

Considerando que ele esteja mesmo morto, morreu de fato na operação anunciada nesta madrugada? Por que exatamente neste momento, em que Barack Obama tanto precisava reconquistar a popularidade perdida e quando acaba de começar sua campanha de arrecadação para as eleições de 2012? Onde está o corpo do terrorista? (Uma foto que circulou com sua face dilacerada era apenas uma montagem e foi tirada do ar pelos sites mais sérios.) Desapareceu no mar? Como assim?

(Segundo a AFP, o presidente do Comitê de Segurança Interna do Senado americano, Joseph Lieberman, disse que "pode ser necessário liberar as fotos [do corpo] – por mais desagradáveis que sejam, e sem dúvida o são, já que ele foi baleado na cabeça – para pôr fim aos questionamentos de que isso seria apenas uma estratégia do governo americano".)

Ataque às torres gêmeas
 Agora, o 11 de setembro de 2001 está vingado na mente estadunidense, no inconsciente coletivo dessa Roma cibernética? Até quando teremos que aplaudir as ações militares dos cowboys da Terra, que invadem países, matam quem, quando e como querem, do terrorista mais procurado até uma criança inocente atingida por uma bomba “inteligente”, sem que nenhum líder mundial esteja pronto para destoar do coro dos contentes? Quantos Bin Ladens ainda serão gerados por esse espírito do fogo e da destruição?

Tantos otimistas que, como eu, saudaram a eleição de Obama em 2008 como tão simbolicamente importante, o primeiro homem negro a presidir os Estados Unidos etc, vimos paulatinamente apenas se confirmarem as vozes mais realistas: a voraz máquina de guerra americana é a mesma da era Bush (pai e filho), da era Clinton, da era Reagan. “Obama não pôde cumprir as promessas de reformas sociais, ambientais e econômicas pelas quais foi eleito, nem sequer fechar a prisão de Guantánamo, mas ao menos cumpriu uma promessa do governo anterior”, como escreveu Antonio Luiz M. C. Costa em Carta Capital sobre a morte do terrorista saudita, que, de aliado dos EUA no Afeganistão, tornou-se o maior inimigo do Império.

O mais sensato de vários depoimentos que li hoje sobre o episódio, do jornalista Robert Fisk, que entrevistou Osama Bin Laden três vezes, foi publicado na Revista Fórum online. “Acho que Osama Bin Laden perdeu a relevância há muito tempo, na verdade. Se eles tivessem matado Bin Laden um ou dois anos depois do 11 de setembro, uma parte dessa bateção no peito poderia ter tido alguma relevância. Esses punhos no ar nos Estados Unidos, celebrando vitória, são boas imagens, mas acredito que elas não significam nada”, disse Fisk.

O mais importante, afirmou, “o fato real que temos no mundo hoje, o que é importante, é um levante de massas e um despertar de milhões de árabes muçulmanos para derrubar ditadores”. Esses levantes são “muito, muito mais importantes que um homem de meia-idade sendo morto no Paquistão”.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Era Mano Menezes começa com a cara do Santos

A era Mano Menezes começou na seleção brasileira. Uma era simbolizada pela alegria de jogar futebol , só nossa. A cara do time não poderia ser outra senão a dos meninos do Santos. No estádio New Meadowlands, em Nova Jersey, com 77 mil pessoas, o Brasil foi comandado por um Paulo Henrique Ganso com porte e futebol de veterano, envergando a camisa 10 que foi de Pelé e Zico e deve pesar uma tonelada. Neymar, quase sempre pela esquerda, jogou tão à vontade que nem parecia ser outro estreante. Robinho, capitão, menino já experiente, se movimentando, e Pato, bem também, completaram a linha de frente da esquadra verde-e-amarela, a deixar aparvalhada a zaga adversária. Final: Brasil 2 a 0 fácil, com gols de Neymar e Pato ainda no primeiro tempo. Triste para mim, santista, foi ver Robinho e André, que entrou no segundo tempo no lugar de Pato, já não mais atletas do histórico Santos de 2010.

Foto: Reprodução

Paulo Henrique Ganso, o maestro

Depois de um início meio inseguro, a equipe foi se tornando consistente e tomou conta do jogo, com segurança e a rapidez nascida do espírito desse ofensivo Santos campeão paulista e da Copa do Brasil. “O que vimos não foi resultado do treinamento, mas da qualidade individual dos jogadores”, disse o treinador Mano Menezes na coletiva pós-jogo.

Mas o amplo domínio brasileiro e a estréia vitoriosa não podem esconder o fato de que a seleção norte-americana, um time normalmente difícil de bater, disputou essa partida de maneira protocolar. Apesar do time de Mano ter entrado em campo para vencer primeiro a ansiedade, e contra um time já montado, que disputou a Copa do Mundo, convenhamos, o selecionado de Donovan e companhia não demonstrou muito interesse na partida.

André Santos, pela lateral esquerda, jogou com segurança, e procurando o jogo com personalidade. A zaga, com Thiago Silva e David Luiz, nos fez esquecer por 90 minutos (e quiçá, para sempre) a interminável dupla Lúcio e Juan. E o meio-campo com os volantes Lucas e Ramires enterra a memória do grotesco Felipe Melo e brucutus de seu tipo.

As notas negativas foram duas: Daniel Alves, um jogador medíocre e nervosinho que destoou do espírito do time, não tem lugar na lateral direita; e Ederson, para mim um ilustre desconhecido, entrou no lugar de Neymar e teve uma noite lamentável, pois não jogou nem um minuto e saiu depois de fazer sua única e bizarra jogada, ao tentar uma pedalada desajeitada, pisar em falso e chutar o vento. Caiu com uma contusão muscular e foi substituído por Carlos Eduardo. Uma ressalva: o goleiro Victor não inspira muita confiança.

Fica como registro a ficha técnica da estréia da seleção brasileira de Mano Menezes, e os gols da partida.

Estados Unidos 0 x 2 Brasil
10/08/2010
Estádio New Meadowlands, Nova Jersey

EUA
Howard (Guzan); Spector, Bocanegra (Goodson), Bradley e Gonzalez; Donovan (Findley), Bedoya (Gomez), Bornstein e Buddle (Altidore); Edu e Benny Feihaber (Kljestan).
Técnico: Bob Bradley.

Brasil
Victor; Daniel Alves, Thiago Silva, David Luiz e André Santos; Lucas, Ramires (Hernanes) e Ganso (Jucilei); Robinho (Diego Tardelli), Neymar (Ederson) (Carlos Eduardo) e Alexandre Pato (André). Técnico: Mano Menezes.

Gols: Neymar, aos 28, e Alexandre Pato, aos 45 minutos do primeiro tempo
Cartões amarelos: David Luiz (BRA)
Público: 77.223 pagantes
Árbitro: Silviu Petrescu (CAN). Auxiliares: Joe Fletcher (CAN) e Daniel Belleau (CAN)

Veja os gols da partida: