quinta-feira, 10 de novembro de 2011

A escalada autoritária na USP


Por Felipe Cabañas da Silva*

Fato: houve excessos por parte do movimento que ocupou dois prédios administrativos da USP nas últimas semanas. Houve claramente danos ao patrimônio e, segundo relatos de funcionários, violência (não se sabe exatamente de que intensidade, porque os relatos são, obviamente, parciais) quando da entrada nos edifícios.

Além do mais, a maioria do movimento estudantil não deliberou por essa ocupação da reitoria, diferentemente do que ocorreu em 2007, e há uma parte da organização estudantil que parece não conseguir pensar estrategicamente (essencial para quem quer fazer política em qualquer nível), e os excessos cometidos terminaram dando munição para certo senso comum estúpido, que reverberou especialmente na Veja, segundo o qual estudante universitário é baderneiro, vagabundo, maconheiro, não honra o investimento que recebe e tem mais é que levar cacetada – e essa espécie de sub-campanha de estupidez ganhou as redes sociais, nas quais a estupidez, a ignorância e o senso comum ganham adeptos em progressão geométrica.

É preciso compreender que as tensões entre polícia e estudantes na USP não começaram na semana passada “porque os estudantes querem fumar seu baseadinho em paz”, mas estão presentes desde que a reitoria percebeu que imbróglios com estudantes sempre podem ser resolvidos na base da Tropa de Choque, que a USP já usou desse expediente em outros tempos e que vivemos, afinal, numa sociedade policialesca, que geralmente tende a apoiar que rebeldes “antiquados” – de qualquer espécie e com qualquer agenda programática – devem ser tratados na base das cacetadas.

08/11/2011

No dia 9/6/2009, a Polícia Militar reprimiu, com gás de efeito moral, balas de borracha e cacetadas (e em operação circense transmitida em tempo real na televisão, no rádio e na internet) uma manifestação pacífica de estudantes (veja links abaixo). A confusão chegou ao prédio de História e Geografia, e muita gente que não tinha nada a ver com o protesto e que estava no prédio trabalhando, como gosta o cidadão de bem brasileiro, que lê a Veja e paga seus impostos “para que na USP impere a ordem”, teve que engolir os gases da Tropa de Choque. Houve correria, gritaria e foi opinião geral que a polícia passou completamente da conta e terminou agredindo quem não tinha nada a ver com a manifestação... pacífica.

Violência gera violência. Insensatez gera insensatez. É o que vêm repetindo todos os que, proliferando suas opiniões de banca de jornal, lançam-se nas últimas semanas ao linchamento moral de meia dúzia de estudantes extremamente perigosos, que espalharam colchões num prédio, escreveram algumas besteiras na parede e empunharam livros. Vejam bem: livros!

“Crusp sitiado como nos tempos áureos de ditadura” (08/11/2011)



Além dos sucessivos circos policiais, temos 21 estudantes na USP ameaçados não só de expulsão, mas de eliminação da universidade (expulsão somada a mais cinco anos de afastamento obrigatório da instituição) com base no decreto 52.906 de 27 de março de 1972, que determina as normas disciplinares da universidade, e que pouco foi mudado, transformado ou revisto. Há um novo regime disciplinar que precisa ser aprovado pela Comissão de Legislação e Recursos. Enquanto isso, usa-se uma lei que imperou na USP durante a ditadura, aprovada quando o presidente da República era Garrastazu Médici, o governador do estado Laudo Natel e o Magnífico reitor da USP Miguel Reale, reputado líder do integralismo – ou fascismo à brasileira.

Vejamos o que diz o inciso IV, do artigo 205 do decreto 52.906 de 1972: “Constituem infração disciplinar do aluno, passíveis de sanção segundo a gravidade da falta cometida: IV- Praticar ato atentatório à moral ou aos bons costumes”. Moral e bons costumes? Esse inciso faz referência a práticas de atentado ao pudor? Ou é mais uma norma genérica e dúbia que podia ser aplicada a qualquer ato incômodo justamente nos anos que se seguiram ao AI-5, período de maior radicalização da ditadura brasileira?

O governador do Estado afirmou que esses estudantes que invadiram a reitoria “precisam ter uma aula de democracia”. Eu até concordo, mesmo porque conheço muitos colegas dos movimentos da esquerda mais extremista, e sei que muitos ainda não se libertaram de seu ranço stalinista e de suas ideias dicotômicas e reducionistas a respeito de um mundo dividido entre a burguesia espoliadora e os trabalhadores espoliados, uns maus, outros bons.

Mas quero questionar o seguinte: a aula de democracia que dá a reputada melhor escola do país é Tropa de Choque e eliminação? Se é assim, separei os vídeos das aulas de democracia que têm nos fornecido a USP e o governo do estado de São Paulo.

Videos da PM na USP (clique nos links)

- Polícia contra estudantes - 09/06/2009

Vídeo 1

Vídeo 2


Polícia contra professores próximo ao Palácio dos Bandeirantes no dia 26/03/10, quando a categoria estav aem greve. A negociação do então governador do Estado foi a que se vê abaixo:

Vídeo 3

Vídeo 4

*Felipe Cabañas da Silva é bacharel e licenciado em Geografia pela USP, autor do blog Versejar

6 comentários:

Paulo M disse...

Acho até importante que alunos da Letras, Filosofia e História da USP se insurjam e apareçam nos jornais contra a ordem estabelecida e pelo menos façam sua revolta aparecer nos jornais. Concordo com o post do Felipe, de repente faltou mais estratégia mesmo. Mas essas faculdades (Letras, Filosofia, História e Geografia) da maior universidade da América Latina estão jogadas pras traças, não há salas de aula nem professores suficientes pra "atender a demanda", e os pobrezinhos frequentemente têm de esticar o pescoço pra assistir às aulas do corredor, à noite, depois de se contorcer por uma ou duas horas dentro de um ônibus abarrotado em horário de pico. Aí alguém foi acender um cigarro de maconha na Letras e encostou a brasa no pavio de pólvoras que já estava pronto. Apóio o movimento, embora tenha caído mesmo politicamente no vazio, e acho inclusive que inventaram boa parte daquela baderna toda que alguém montou pra imprensa tirar foto. Nem todo mundo é Nem. Deve ser difícil pra quem lida com armas receber flores em vez de armas. O Felipe Cabañas mencionou muito bem as pichações. E havia uma que citava Rosa Luxemburgo: "Aquele que não se movimenta não sente as correntes que o prendem".

Rice Araújo disse...

O mais lamentável é que a falta de inteligência demonstrada pelo movimento deu um enorme passo atrás no que diz respeito a sensibilidade da população às questões reais que envolvem a USP e sua reitoria. O esforço para trazer a opinião pública em favor de qualquer coisa relacionada aos estudantes de lá, por mais justas que sejam, agora será muito maior.
Trocar a força das redes sociais e os diversos instumentos que hoje existem para disseminação de informação por porretes, rostos cobertos e um discurso polifônico e confuso na tentativa de chamar a atenção da "grande mídia" foi um erro lamentável em minha opinião. Esperava mais da elite intelectual do país e de nossos possíveis futuros líderes...
Espero sinceramente que esse evento seja um aprendizado.

Felipe Cabañas da Silva disse...

Pois é. O resultado foi uma grande repulsa por parte do cidadão médio em relação ao movimento estudantil, e não podemos colocar tudo exclusivamente na conta da "imprensa marrom manipuladora". A grande imprensa é formada por mega-empresas de comunicação que têm seus interesses, todos sabem disso, e dentro de seus interesses não está proteger do escárnio público "rebeldes antiquados" que vituperam contra ela. Faltou inteligência. E falta muita inteligência ao movimento estudantil, embora eu tenha conhecido alguns líderes bastante sensatos.

O saldo na minha opinião é um passo atrás na discussão dos problemas reais da USP, que não começaram por causa desse malfadado evento dos jovens pegos com maconha. O movimento estudantil sai desmoralizado, a repressão policial sai bem vista aos olhos da sociedade, e ainda tem colega meu que quer cuspir na cara do cabo da polícia, um soldadinho que executa ordens e ponto final - ou alguém por aí acha que 400 homens, 50 carros, 10 caminhões e 1 helicópetero águia foram deslocados às 5h da manhã sob as ordens exclusivas da comandante Yamamoto?

Paulo M disse...

Não acho que tenha que existir tanta coesão, ou coerência, ou proposta política, Rice. Simplesmente porque as coisas são de outra forma agora. Não existe mais uma união nacional de estudantes, hoje é facebook, orkut, sexo pela internet, jogos eletrônicos e individualismo. As coisas mudaram muito. Isso não minimiza a necessidade que as pessoas têm de expressar sua raiva. Acho legal essa raiva ocupar lugar na mídia, sim. A polícia dá de ombros pros crimes que acontecem na cidade universitária e fica caçando aluno que fuma maconha nas dependências da USP! Politicamente, o movimento foi até babaca mesmo, mas a vontade de gritar não é só política, é necessária, é uma forma de discordar com veemência, de cobrar atitudes de um governo que está devendo. E não à toa saiu dizendo à imprensa que os alunos precisam ter aula de democracia. Ele precisou dizer isso porque incomodou. Sentiu uma pedra no sapato, mas é ele que precisa ter aula de democracia, de civilidade. Apóio o movimento (ou a baderna, como queira) dos estudantes. Incondicionalmente.

carmem disse...

"Politicamente, o movimento foi até babaca mesmo, mas a vontade de gritar não é só política, é necessária, é uma forma de discordar com veemência, de cobrar atitudes de um governo que está devendo."

Que frase essa! Aconteceram movimentos que que derrubaram ditaduras no oriente médio, e que se estenderam até os EUA no tal do occupy. Há, de fato, um grito preso na garganta. Se esse movimento na USP foi despolitizado melhor ainda. Acredito que é uma reação que nem eles mesmos sabem a dimensão. Não é bom dar pedrada em ninguém, mas vejam bem, foi uma atitude. certa ou errada: "Tome uma atitude sua besta / Seja uma besta com atitude
Pode ser uma atitude besta / Mas que seja uma atitude" (Samba de um janota só /Zeca Baleiro).
Acho que é coisa pra se pensar, não demonizar e nem desprezar.
Muitas coisas aconteceram na história pela simples coragem de se ter tomado uma atitude.

Gabriel Megracko disse...

É saudável notar que esquerda e direita agem sempre em oposição proporcional. Estamos observando, nesse suposto "novo período histórico se desenhando", uma polarização entre direita e esquerda, assim como muitas manifestações expressas em outros níveis de abrangência: se uma pessoa está fumando maconha e outra vem e diz que isso é proibido, a pessoa que está fumando imediatamente se volta contra aquele, estabelecem um choque de energias. Suma: se a polícia não tivesse quem confrontar, não estaria na USP. Óbvio, não? Agora, o que os estudantes estavam combatendo ao invadir a reitoria? Estavam combatendo o que os desagradava. Se os estudantes descumpriram o que foi votado na assembléia e se eles são ignorantes politicamente, pouco importa, porque são crias daquela sociedade... eles refletem o nível educacional da instituição. Mas creio que seja mais amplo: essa minoria mais bruta ou ignorante ou corajosa ou digna que decide agir, existe em qualquer aglomeração humana.
Tudo o que está desequilibrado tende ao equilíbrio com mais força que o necessário, e quando essa força é aplicada e a balança se inverte, então temos a tendência inversa. Esse jogo de energias é eterno, e a sociedade, com o seu conhecimento pífio da organização da matéria/energia, apenas consegue, com a sua ignorância, o sofrimento.
Nota: esse balanço de energias pode ser observado por qualquer ser humano sem nenhum recurso intelectual apenas comparando-se sociedades de formigas, de baratas, de amebas e de homens. Nisto reside a explicação de por que um homem sem cultura eventualmente é capaz de ser mais evolutivo que um detentor de muitas informações. Aí pergunto: o que é informação? Aí, respondo: um mendigo de bom coração é mais desenvolvido que a ratazana do governador e sua ninhada. Sim, homens, o governador é mais ignorante que um mendigo de bom coração. Que me perdoem os mendigos por usá-los na comparação com vermes.