Mostrando postagens com marcador Millôr Fernandes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Millôr Fernandes. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 28 de março de 2012

Papos com Millôr Fernandes


Em uma entrevista de 2001, o escritor me falou o seguinte sobre o quadro Abaporu, de Tarsila do Amaral: "é a pintura mais feia do mundo"


Morreu hoje, aos 88 anos, em Ipanema, Millôr Fernandes, escritor, humorista, dramaturgo, desenhista e outras coisas mais.

Quando Jorge Amado morreu, em agosto de 2001, o jornalista chileno então radicado no México Enrique Portilla me pediu uma matéria para o jornal Reforma, do México (Reforma.com), repercutindo a morte do grande escritor baiano junto a intelectuais e colegas brasileiros de literatura. A matéria ("El heroe de Bahia"), que deveria conter a opinião dessas personalidades sobre a importância da obra do autor de Gabriela, Cravo e Canela, está até hoje no site do jornal, mas infelizmente só para assinantes do impresso mexicano.

Entre outras personalidades, como Lygia Fagundes Telles, Moacyr Scliar e Autran Dourado, entrevistei Millôr Fernandes para a matéria. Millôr era o tipo do cara que você podia tentar entrevistar abordando-o num evento, num lançamento de livro, se conseguisse que ele o atendesse, ou valendo-se de um amigo ou conhecido comum. Em outras circunstâncias, era impossível. Eu tinha o telefone da casa dele. Sabedor de sua fama de um homem que não dava entrevistas facilmente, muito menos por telefone (ao qual raramente atendia), liguei meio sem esperança de obter uma declaração. Mas, eis que ele atende!

– Alô?
– Millôr?

Ele disse que sim, era ele. O primeiro desafio estava vencido. Millôr atendera o telefone! O segundo, talvez mais difícil, pensei, seria conseguir as aspas para minha matéria. Fui o mais direto possível, pois uma falha, um gaguejo, um vacilo teria sido suficiente para ele me dispensar. Além de objetivo, tentei agradar seu ego:

– Millôr, sou o jornalista Eduardo Maretti. Estou fazendo uma matéria para o jornal Reforma, do México, e preciso da opinião de pessoas importantes da cultura e da literatura brasileiras sobre Jorge Amado.

Num primeiro momento ele quis recusar. Disse que gostava de A Morte e a Morte de Quincas Berro D’água (1959), deixou transparecer que não era nem um pouco fã de Amado e completou dizendo que não queria julgar um autor que havia morrido e que, portanto, não lhe poderia responder. Entendi que, ao afirmar que Jorge Amado não poderia retrucar, ele não teria nada muito elogioso a dizer, e, evitando irritá-lo (e um jornalista irritá-lo não era nada difícil), usei de rodeios para tentar uma opinião mais clara.

Millôr era de uma inteligência feroz e fulminante e acho que gostou de uma interlocução que, suponho, ele entendeu que deliberadamente fazia seu jogo, e, enfim, falou algo bastante claro sobre o que pensava do escritor baiano, mas, como era de seu estilo, fugindo ao lugar-comum, por meio de uma associação com a pintora modernista Tarsila do Amaral. “Uma vez escrevi que Abaporu, o quadro de Tarsila do Amaral, é a pintura mais feia do mundo. O quadro se transformou num mito. Jorge Amado já faz parte da mitologia brasileira; não se discute. É inútil discutir”.

Enfim, tinha eu para minha matéria o depoimento de Millôr, heroicamente obtido por telefone!, irônico, metafórico, por assim dizer totalmente Millôr, e em que era cristalina sua falta de amor, digamos assim, pela obra de Jorge Amado. Ou, por outras palavras: ele não partilhava da unanimidade em torno da literatura do escritor.

Do que eu discordo, pois acho a literatura de Jorge Amado de uma grandeza inigualável na literatura brasileira.

xxxxxx


"A tragédia vem embutida em piadas"

No meu livro Escritores (pela editora Limiar, que reúne 43 entrevistas com autores brasileiros e internacionais organizadas a partir de material produzido para Revista Submarino, hoje extinta), tem também uma entrevista com Millôr Fernandes, obtida a fórceps pela repórter Camila Claro quando do relançamento de seu Livro Vermelho dos Pensamentos (Ed. Senac). A entrevista – intitulada "A tragédia vem embutida em piadas" – fazia parte de uma edição especial sobre os 20 anos da morte de Nelson Rodrigues, por isso o autor de Vestido de Noiva é o foco.

Segue um trecho da improvisada e quase telegráfica entrevista (adoro entrevistas improvisadas) de Camila com Millôr:

Como e quando você conheceu Nelson Rodrigues?
Eu era menino (13 anos) quando comecei a trabalhar na revista O Cruzeiro, Nelson teria uns 12 mais do que eu. Vivemos horas, diariamente, dentro e fora da redação. Só muitos anos mais tarde nos separaríamos, mas nunca deixamos de nos ver, ocasionalmente.

Você se lembra do apelido “Filósofo” ou outros que Nelson teria dentro da redação de O Globo?
Não. Nem nunca soube desse. E [olha que] mesmo quando não estava com ele, até o fim de sua vida, sabia dele diariamente por amigos comuns.

Você se lembra de Nelson como alguém de hábitos religiosos?
Não que visse.

Na biografia O Anjo Pornográfico, Ruy Castro escreveu que as três irmãs de Nelson eram apaixonadas por você. É verdade?
Ruy é um excelente ficcionista. Pergunte a ele.

Ruy conta também que, na redação de O Cruzeiro, você e o Hélio Jaguaribe aproveitavam as saídas de Nelson para adicionar algumas linhas a seus textos. Ele não percebia essas malandragens (...)?
Claro que percebia. E não se importava. Quem escrevia como Suzana Flag [pseudônimo de Nelso Robrigues] não pensava estar escrevendo um texto irretocável. Nossa vida era uma brincadeira permanente. A tragédia inúmeras vezes vem embutida em piadas.