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sexta-feira, 21 de julho de 2017

Dez minutos e meio com Marco Aurélio Garcia



Foto: Eduardo Maretti

A morte transforma as pessoas, na imprensa, em um título e alguns atributos. O intelectual Marco Aurélio Garcia (1941-2017), que morreu ontem, se transformou em "ex-assessor especial de Lula e Dilma". É só o que as manchetes anunciam.

O único encontro pessoal que tive com Marco Aurélio Garcia, quando pude conversar com ele em particular (e fiz a foto que ilustra este post), foi há apenas dois meses, em rápida entrevista de exatos 10 minutos e 33 segundos para a RBA, antes de um encontro reservado que ele teria com alguns jornalistas e ativistas, do qual não participei porque ainda tinha de escrever a matéria (que está aqui).

O papo foi de certa forma frustrante, já que ele era uma figura de pensamento amplo e os poucos dez minutos e meio eram claramente insuficientes para uma entrevista satisfatória, mas era o tempo que tínhamos acordado, para não atrasar o debate para o qual ele se dirigira.

Ele não falava sobre conjuntura de maneira direta e suas respostas não eram fáceis. Como era historiador, precisava construir um panorama e estabelecer inúmeras relações entre os fatos políticos e históricos para responder a uma pergunta sobre a crise política ou o que poderíamos esperar do atual cenário obscuro do país, por exemplo.

O respeito que Marco Aurélio inspirava era visível quando havia reuniões do PT. Suas aparições -- que não eram comuns, mas se restringiam a eventos importantes do partido -- eram motivo de euforia: você via alguns repórteres da grande imprensa ávidos por algumas palavras que fossem de Marco Aurélio Garcia, os mesmos repórteres que dali a pouco escreveriam as reportagens sobre o mensalão ou, mais recentemente, sobre a Lava Jato, reportagens que obviamente alimentariam e alimentam até hoje as "provas" da força-tarefa. Afinal, algumas palavras dele poderiam dar brilho a qualquer reportagem, mesmo que mentirosa ou medíocre.

Os repórteres ávidos não são bobos. Afinal, Marco Aurélio era um dos principais quadros do PT, um dos que de fato não se deixaram vencer pelo apego ao poder.

Como um dos arquitetos da política externa de Lula e Dilma, ele foi dos que preferiram atuar mais nos bastidores e na construção do que sob os holofotes.

Talvez por isso, um dos maiores trunfos da "grande imprensa" em relação a ele foi ter conseguido flagrá-lo "fazendo um gesto obsceno enquanto assistia a um telejornal", o que foi exibido em manchetes como um troféu, já que era preciso de alguma forma "pegar" Marco Aurélio. Mas nunca pegaram.

Ele se manteve íntegro até o fim.

Segundo seu amigo Roberto Amaral, do velho PSB que já não existe, Marco Aurélio tinha planos. Diz Amaral, sobre o último encontro com ele, no artigo "Tributo a Marco Aurélio de Almeida Garcia":

"Estivemos juntos, pela última vez, há cerca de dois meses. Marco Aurélio, alegre, nos apresentou seu novo apartamento paulistano, da qual destacava, como salões nobres, sua cozinha-copa-sala de estar “montada como um bistrô”, dizia ele, e o espaço reservado para sua imensa e rica biblioteca que ainda não conseguira pôr em ordem. Eu lá estava, na companhia da cineasta e produtora Cláudia Furiati que desejava seus conselhos para um filme (que ainda pretende rodar) sobre a esquerda latino-americana. A visita começou com um belíssimo jantar, elaborado por ele enquanto degustávamos um majestoso vinho sacado de sua adega. A noite não tinha pressa. Terminamos esse encontro, que eu jamais pensei ser o último, ouvindo-o dissertar sobre o plano de seu livro de memórias. O infarto traiçoeiro nos proibiu dispor de uma peça literária de grande porte, e de um depoimento crucial sobre a política brasileira de nossos dias."

Que vá em paz.

sábado, 15 de maio de 2010

A missão ousada e arriscada de Lula no Oriente

O protagonismo do Brasil cresce ainda mais no tabuleiro geopolítico mundial, com a viagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, estes dias, à Rússia. Ele estará hoje, sábado, no Catar e domingo no Irã, onde se encontra com o presidente Mahmoud Ahmadinejad.

A missão do presidente brasileiro recebeu apoio incondicional da Rússia, como “talvez a última oportunidade antes da adoção das medidas que todos conhecemos no marco do Conselho de Segurança das Nações Unidas", nas palavras do presidente russo Dmitri Medvedev nesta sexta-feira, 14, em entrevista coletiva no Kremlin.

Lula e Medvedev, no Kremlin
Os EUA pressionam para que as sanções contra o Irã sejam aprovadas no Conselho de Segurança da ONU, no qual apenas cinco países, os membros permanentes, têm poder de veto: Estados Unidos, França, Reino Unido, Rússia e China.

Lula e seu chanceler, Celso Amorim, defendem a tese de que as sanções exigidas pelo governo Obama só agravariam o conflito, que ainda se mantém no âmbito diplomático. Quanto a Obama, na questão iraniana suas posições não diferem do governo Bush, é triste admitir. Pelo menos na retórica, é justo ressalvar. Os EUA continuam a agir como o eterno ventríloquo de Israel, e não o contrário.

O The New York Times abordou o tema, hoje (sexta-feira), enfatizando o óbvio: que a posição brasileira é a de que sanções provavelmente intensificariam o conflito. Mas o mais importante diário dos EUA, sem perder uma espécie de elegância na abordagem, usa o depoimento de fontes para criticar duramente a posição brasileira, na pessoa de Lula.

O NYT menciona preocupações no Brasil de que um fracasso na tentativa de Lula dialogar com Teerã colocaria “Mr. da Silva” como um “amador” em seu intento de conseguir um assento permanente do Brasil no Conselho de Segurança. “Críticos no Brasil questionam por que ‘Mr. da Silva’ abraçou o Irã nos últimos meses sob o risco de se indispor com os Estados Unidos”, diz o jornal.

Finalmente, cita uma fonte, que é Michael Shifter, presidente da Inter-American Dialogue, de Washington, especializada em política exterior. “Há uma sensação em Washington que parte disso é uma tremenda autoconfiança de Lula, que ele acredita ser um mágico que pode operar milagres e conseguir o que outros tentaram e não conseguiram.” O diário estadunidense ironiza, dizendo que, enquanto Lula afirma acreditar que suas chances de êxito no encontro com Ahmadinejad são de 99%, o colega russo Medvedev diz serem de 30%.

Enfim, o New York Times expressa a posição de Washington. Que muitas vezes não precisamos nem traduzir, porque está nas páginas de nossos próprios jornais, como se pôde constatar quando da visita de Lula ao Oriente Médio.

O atual lance do presidente do Brasil no tabuleiro do xadrez mundial é ousado, mas arriscado. Porque ele desafia interesses políticos de Titãs.

O Brasil nunca chegou a tal protagonismo na cena internacional, em que, historicamente, sempre partilhou do princípio nefasto segundo o qual “o que é bom para os EUA é bom para o Brasil”.

Princípio que, envernizado e recoberto de enfeites light, corremos o risco de voltar a viver se José Serra ganhar a eleição. Mas esse já é outro assunto.

Leia a matéria do New York times aqui. (Lógico, se quiser).

terça-feira, 16 de março de 2010

Perguntar não ofende: estamos em Israel
ou no Brasil?

Lula e Shimon Peres/foto: Ricardo Stuckert
Se você ler os dois maiores jornais de São Paulo de hoje (ou nem ler, mas apenas olhar as manchetes nas bancas) provavelmente vai pensar que está em Israel e não no Brasil. A primeira visita de um presidente brasileiro ao Oriente Médio em 100 anos parece uma questão de Estado. Israelense.

"Israelenses cobram de Lula distância do Irã", diz a manchete da Folha de S. Paulo. De modo quase risível, o Estadão usa o mesmo verbo, "cobrar", como se os nobres diários fossem objeto de um ventríloquo. "Governo e oposição em Israel se unem e cobram Lula sobre o Irã", diz o jornal dos Mesquita na manchete.

Visivelmente incomodada (com o quê?), a Folha dedica espaço a ninguém menos que o boss Otavio Frias Filho, para que ele manifeste sua opinião no artigo "Uma política ingênua e errática". No texto, sobre a posição brasileira na visita de Lula a Israel, Frias se refere ao ministro Celso Amorim e ao presidente da República como "nosso simplório presidente e seu trêfego chanceler".

Classifica nossa política externa de "errática, cheia de distorções seletivas" e, como se escrevesse um ditado da embaixada norte-americana no país (já que ele não deve ter acesso tão fácil a Hillary Clinton e outros figurões), o articulista "exorta" o governo brasileiro por uma política de "equidistância comedida".

Diz mais, o artigo. Segundo ele, na política externa do Brasil "a questão dos direitos humanos, por exemplo, deixa de ter qualquer valor no trato com inimigos de Washington, os quais adulamos para sermos vistos como 'independentes'". Ora, todo mundo sabe que os direitos humanos não existem no Irã. Lá, mulheres são executadas a pedradas por cometerem o crime de adultério. É o horror. Mas, curiosamente, Frias se inflama pelos direitos humanos sem mencionar em seu longo texto sequer uma vez a palavra Palestina. Nem territórios ocupados.

Ainda bem que existe imprensa internacional. Nela podemos ler muita coisa interessante. Destaco uma análise de outubro, do articulista David Rothkopf, da prestigiada revista norte-americana Foreign Policy (Política Exterior), em que ele fala da política externa brasileira.

O texto não se restringe a um episódio, mas é uma análise do trabalho do Itamaraty sob Celso Amorim, por isso o artigo se mantém atual e cito-o aqui. “É difícil achar outro ministro das relações exteriores que tenha orquestrado com tanta eficácia uma transformação de tal magnitude do papel internacional de seu país", escreveu Rothkopf sobre o chanceler brasileiro.

Antes que eu me esqueça (os jornais de nosso país se esquecem frequentemente disso): o Brasil defende que não apenas Israel, mas também a Palestina, sejam territórios livres, soberanos e que possam viver em paz.

Observação: Texto também publicado no Observatório da Imprensa