O filme mostra que o pai-biógrafo, que cuidava da carreira e
da conta bancária da filha, era uma pessoa manipuladora, egoísta e que
claramente usava Amy como escada para seus próprios interesses. O ex-marido de
Amy, Blake Fielder-Civil, que a introduziu na heroína, é ainda pior. Cercada
por gente como essa, seus problemas só aumentaram com o sucesso.
Sucesso que ela não fazia questão de alcançar e mesmo
repelia. “Eu enlouqueceria”, disse ela antes de explodir e virar alvo da mídia,
que em sua vida exerceu papel tão ou mais pernicioso do que Blake Fielder-Civil. Ao ver o documentário,
fica esclarecido que a condescendência de Mitch com a agressiva perseguição da
mídia e dos paparazzi a Amy foi um comportamento calculado ao escrever seu relato biográfico da filha. Ele não queria ficar mal com eles.
A omissão dos pais diante dos problemas da filha desde sua infância é notória
no filme. A própria mãe conta que Amy, ainda menina, pediu mais
atitude dela, que pegasse "mais pesado". A menina nunca ouvia "não". A omissão da família diante da bulimia, por exemplo, é declarada pela mãe.
Havia pessoas sinceras e mais interessadas na saúde e
bem-estar da estrela do que nos dividendos de sua arte, como Nick Shymansky, o
primeiro empresário e amigo dela. O próprio depoimento do segurança, Andrew, parece
demonstrar sincera dor. Mas no mundo em que Amy viveu, é preciso ser mais forte
do que ela.
Amy não queria e não sabia lidar com a fama. “Se me deixarem
em paz eu vou escrever músicas”, disse.
Um dos produtores diz no filme que Amy “era uma velha num
corpo de jovem”. É uma definição muito
interessante. Toni Bennet declarou que Amy deveria ter sido encarada e tratada como uma Billie Holiday ou uma Ella
Fitzgerald, porque “era tão grande” quanto elas.
Acho que o filme de Asif Kapadia dá exagerado destaque ao
longo relacionamento com Blake. Nesse ponto poderia ter equilibrado
mais, com um pouco menos de tempo dedicado aos aspectos da intimidade, e pelo menos um pouco mais de espaço à pura arte, como a cena emocionante da
gravação de Back to Black com Mark Ronson.
Mas o fato importante é que Amy, de Kapadia, desmonta a historinha contada pelo
mau caráter Mitch Winehouse. Não é por outra razão que a família ficou muito contrariada e afirmou que o filme é “enganador".
Para Tania Lima e Paulo Maretti (para a gente fechar 2015 com arte e espírito)
"Ao ouvido parece afroamericana, mas é judia britânica. De aparência sexy, não faz uso desse recurso. É jovem, mas tem voz de velha. Canta com sofisticação, mas fala grosso. Suave na melodia e agressiva nas letras." (jornal The Guardian)
Certa vez perguntaram ao Chico Buarque qual o melhor livro que
já tinha lido (aquele tipo de pergunta tola de jornalista). “O melhor livro é
sempre o último que a gente lê”, respondeu ele. Nem sempre essa sentença se
aplica. Não dá pra dizer, por exemplo, que Amy – minha filha (editora Record - 2012), de Mitch
Winehouse, que acabo de ler, seja melhor que Os degraus do Pentágono, de Norman Mailer, que li
antes.
Mas é muito agradável a leitura da biografia de Amy
Winehouse escrita (na verdade, ditada) pelo pai. Claro, isso para quem gosta e
admira Amy e ama sua música (como eu), mas quer saber como se deu a trágica história
da cantora e compositora nascida num hospital no norte de Londres, em 14 de setembro de 1983, mesma cidade onde morreu em 23 de julho de 2011.
Ela nasceu “em
típico estilo Amy: chutando e gritando”, conta o pai-biógrafo. “Juro que seus
gritos eram mais altos do que os de qualquer bebê que jamais ouvi. Gostaria de
dizer a vocês que eram melodiosos, mas não – eram só altos. Amy estava 4 dias
atrasada, e isso nunca mudou. Por toda sua vida, ela sempre chegou atrasada.”
Infelizmente, com seu espírito atormentado, Amy Winehouse só
produziu dois discos em sua carreira: Frank e Back to Black, sua obra-prima, que a levou ao apogeu. Este álbum tem algumas de suas canções mais importantes (como
a que dá nome ao CD e "Rehab", por exemplo). Porém, a história de Back to Black
se mistura à própria tragédia: as experiências das quais Amy trouxe a
inspiração visceral para produzir Back to Black (álbum e canção) vieram essencialmente
de seu relacionamento apaixonado e turbulento com Blake Fielder-Civil, que a
introduziu na heroína e outras drogas pesadas, um jovem perdido, sem rumo.
Mesmo assim, não foram as drogas pesadas que a mataram, mas
o álcool, segundo a narrativa do pai. Quando morreu, Amy estava limpa de
drogas, após longa e dolorosa batalha dela e da família, e havia rompido com Blake dois anos antes. Desde 2009 Amy tinha um
relacionamento mais maduro com o diretor de cinema Reg Traviss, um cara boa
praça e tranquilo, que, junto com a família dela, se empenhou o quanto pôde
para tirá-la do vício do álcool e da mania de autodestruição. Segundo a comovente narrativa do livro, apesar
da vigilância de seguranças de confiança da família, Amy morreu após uma ingestão suicida de bebida alcoólica.
A magistral interpretação de Back to Black
Mas o mais interessante numa biografia de celebridade como
Amy é quando essa biografia traz a dimensão humana da personalidade, como no
livro de Mitch Winehouse, que, com sua linguagem simples, evidentemente foi
ditado a um ghost writer. O que, na verdade, em nada diminui o livro, já que
sua importância é a de ser um testemunho, e não uma obra literária.
De família judia relativamente tradicional, Amy tinha
características psicológicas bastante problemáticas, principalmente a baixa autoestima e a insegurança, o que a levava à autoflagelação: ao se relacionar
com Blake Fielder-Civil ou ao se drogar (com drogas pesadas ou álcool), por exemplo. É interessante notar que a artista, que tinha influência decisiva do jazz, do reggae (de maneira incidental) e do estilo (visual e musical) dos anos 1960, tinha um bordão que acabou se transformando num dramático símbolo de sua consciência: "Depois do lançamento de Frank, Amy costumava começar suas apresentações entrando no palco batendo palmas e repetindo um slogan: 'droga pesada não está com nada'", conta o pai-biógrafo.
A
influência dominadora do pai e da avó são absolutamente marcantes na
personalidade de Amy, apesar de que a relação era a de uma família unida, na
qual existia amor e intenso relacionamento. Amy e seu pai se falavam praticamente
todos os dias, onde quer que um e outro estivessem.
Num cartão (desses que as crianças fazem na escola), quando
tinha 12 anos, a pequena menina Amy escreveu ao pai: “Papai, você é o rei de
todos os pais. Feliz aniversário (...) Beijos desse desastre ambulante que é
sua filha, Amy”. Isso é Freud. Mas é também bonito e poético, atributos que eram inerentes a Amy Winehouse.
É bonito no livro como o autor revela uma Amy que poucos (a
não ser a família) conheceram: uma garota que tinha um humor agudo, era muito
inteligente e intuitiva, mas absolutamente passional e irrefreável. Que não
conseguia compor se estivesse feliz, daí o fato de seu grande álbum, Back to
Black, ter sido composto na “fusão com as trevas” (título de um dos capítulos
do livro). “Seu hábito de escrever canções com alto teor autobiográfico
significava que, quando estava feliz, ela não pegava muito no violão”, diz o
pai. Amy era, nesse sentido, uma figura baudelairiana.
E de fato uma figura fascinante.
Por tudo isso, adorei ler Amy – minha filha, de Mitch
Winehouse.
Amy foi também, lembremos, vítima da estranha “maldição dos 27 anos”.
Como ela, vários ícones do rock’n’roll morreram nessa mesma idade: Kurt
Cobain (Nirvana), Brian Jones (da primeira formação dos Rolling Stones), Jimi
Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison (The Doors), entre outros. Não é pouca coisa.
A música de Ozzie Gheirart, segundo ele, é produzida
"de forma caseira, usando garage band". O próprio autor assim define seu trabalho:
"O projeto Baladeur saiu do meu doutorado - em antropologia. É
um personagem que aposta no pensamento poético como possibilidade de reinventar
a vida. Seria um flaneur do mundo contemporâneo.
Ele transita por diversas camadas da realidade e aproveita a
pluralidade de formas criativas para se expressar. Como o nome Baladeur tem
vários sentidos (walkman em inglês; balada é caminhada, é um tipo de poema e um
tipo de composição musical), tento mesclar diversas linguagens e narrativas.
Para compor, utilizei ferramentas simples, a que qualquer
pessoa tem acesso: computador, celular etc. Convidei artistas para participar,
músicos, pintores, poetas, estilistas etc. O projeto é coletivo e investi
pouquíssimo dinheiro.
A música é eletrônica, mas na sua totalidade flerta com
vários estilos. Em especial, o rock."
Excelente o filme publicitário criado pela agência AlmapBBDO,
usando o rock’n’roll como mote. A
produção de 1’40”, feita para a rádio Kiss FM, mostra um ritual de “endorcismo”, um exorcismo ao contrário,
em que o padre é substituído por um músico com uma guitarra, cuja missão é fazer
o espírito do rock voltar ao corpo de um desgraçado “possuído” por espíritos
musicais inferiores, axé e (cruz credo) funk. A produção é repleta de referências a ícones visuais e musicais do rock.
Há uma semana, a artista, música e compositora Laurie Anderson divulgou uma
carta no jornal East Hampton Star, sobre a morte de Lou Reed, no dia 27 de
outubro, na casa deles em East Hampton, no
estado de Nova York.
A carta de Laurie Anderson:
"Aos nossos vizinhos: que outono lindo! Tudo brilhando
e dourado e toda aquela incrível luz suave. Água ao nosso redor. Lou e eu
passamos muito tempo aqui nos últimos anos e, embora sejamos pessoas da cidade
grande, esse é nosso lar espiritual. Na última semana, eu prometi a Lou que o
tiraria do hospital e voltaria com ele para casa, em Springs. E conseguimos!
Lou era um mestre do tai chi e passou seus últimos dias aqui sendo feliz e
atordoado pela beleza e pelo poder e pela suavidade da natureza. Ele morreu no
domingo, observando as árvores e fazendo a famosa posição 21 do tai chi, com
apenas suas mãos de músico se mexendo no ar. Lou era um príncipe e um lutador,
e eu sei que suas canções de dor e beleza no mundo vão encher muitas pessoas
com a incrível alegria que ele tinha pela vida. Vida longa à beleza que
descende e atravessa e sobrevoa todos nós."
Veja interpretação da dupla de "I'll be your
mirror", em Paris, em 2009