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sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Pensamento para sexta-feira [63] - My Death (Minha Morte), de David Bowie





Minha Morte (My Death - David Bowie)

Minha morte espera como uma velha libertina 
Então, confiante seguirei seu caminho 
Assobiarei para ela e o tempo que passa...

Minha morte espera como uma verdade da Bíblia 
No funeral da minha juventude 
Estamos orgulhosos por isso e o tempo que passa?

Minha morte espera como uma bruxa na noite 
Tão claramente quanto nosso amor é certo 
Não vamos pensar no tempo que passa...

O que quer que esteja atrás da porta 
Não há muito a fazer 
Anjo ou demônio, eu não me importo 
Porque na frente daquela porta está você 

Minha morte espera como um mendigo cego 
Que vê o mundo através de uma mente opaca
Dê uma moeda a ele pelo tempo que passa...

Minha morte espera para permitir a meus amigos
Alguns bons momentos antes do fim 
Então bebamos a isso e o tempo que passa

Minha morte espera lá entre suas coxas 
Seus dedos frios fecharão meus olhos 
Não vamos pensar sobre o tempo que passa

O que quer que esteja atrás daquela porta
Não há muito a fazer 
Anjo ou demônio, eu não me importo 
Porque na frente daquela porta está você 

Minha morte espera lá entre as folhas 
Nas misteriosas mangas do mágico 
Coelhos e cachorros e o tempo que passa...

Minha morte espera lá entre as flores 
Onde as mais escuras sombras se encolhem 
Então vamos colher lilases pelo tempo que passa...

Minha morte espera lá em uma cama de casal 
Panos do esquecimento e minha cabeça 
Então, puxe teus lençóis contra o tempo que passa

O que quer que esteja atrás da porta 
Não há muito a fazer
Anjo ou demônio 
Eu não me importo, porque na frente daquela porta está você



segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Documentário Amy, de Asif Kapadia, desmonta a historinha contada por Mitch Winehouse



Gravação de Back to Black no estúdio: emocionante

O documentário Amy, do diretor britânico Asif Kapadia, vira a página da história contada pelo pai de Amy Winehouse, Mitch.

O filme mostra que o pai-biógrafo, que cuidava da carreira e da conta bancária da filha, era uma pessoa manipuladora, egoísta e que claramente usava Amy como escada para seus próprios interesses. O ex-marido de Amy, Blake Fielder-Civil, que a introduziu na heroína, é ainda pior. Cercada por gente como essa, seus problemas só aumentaram com o sucesso.

Sucesso que ela não fazia questão de alcançar e mesmo repelia. “Eu enlouqueceria”, disse ela antes de explodir e virar alvo da mídia, que em sua vida exerceu papel tão ou mais pernicioso do que Blake Fielder-Civil. Ao ver o documentário, fica esclarecido que a condescendência de Mitch com a agressiva perseguição da mídia e dos paparazzi a Amy foi um comportamento calculado ao escrever seu relato biográfico da filha. Ele não queria ficar mal com eles.  

A omissão dos pais diante dos problemas da filha desde sua infância é notória no filme. A própria mãe conta que Amy, ainda menina, pediu mais atitude dela, que pegasse "mais pesado". A menina nunca ouvia "não". A omissão da família diante da bulimia, por exemplo, é declarada pela mãe.

Havia pessoas sinceras e mais interessadas na saúde e bem-estar da estrela do que nos dividendos de sua arte, como Nick Shymansky, o primeiro empresário e amigo dela. O próprio depoimento do segurança, Andrew, parece demonstrar sincera dor. Mas no mundo em que Amy viveu, é preciso ser mais forte do que ela.

Amy não queria e não sabia lidar com a fama. “Se me deixarem em paz eu vou escrever músicas”, disse.

Um dos produtores diz no filme que Amy “era uma velha num corpo de jovem”.  É uma definição muito interessante. Toni Bennet declarou que Amy deveria ter sido encarada e tratada como uma Billie Holiday ou uma Ella Fitzgerald, porque “era tão grande” quanto elas.

Acho que o filme de Asif Kapadia dá exagerado destaque ao longo relacionamento com Blake. Nesse ponto poderia ter equilibrado mais, com um pouco menos de tempo dedicado aos aspectos da intimidade, e pelo menos um pouco mais de espaço à pura arte, como a cena emocionante da gravação de Back to Black com Mark Ronson.

Mas o fato importante é que Amy, de Kapadia, desmonta a historinha contada pelo mau caráter Mitch Winehouse. Não é por outra razão que a família ficou muito contrariada e afirmou que o filme é “enganador".

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

A maravilhosa Amy Winehouse – e sua biografia


Para Tania Lima e Paulo Maretti
(para a gente fechar 2015 com arte e espírito)




"Ao ouvido parece afroamericana, mas é judia britânica. De aparência sexy, não faz uso desse recurso. É jovem, mas tem voz de velha. Canta com sofisticação, mas fala grosso. Suave na melodia e agressiva nas letras." (jornal The Guardian)


Certa vez perguntaram ao Chico Buarque qual o melhor livro que já tinha lido (aquele tipo de pergunta tola de jornalista). “O melhor livro é sempre o último que a gente lê”, respondeu ele. Nem sempre essa sentença se aplica. Não dá pra dizer, por exemplo, que Amy – minha filha (editora Record - 2012), de Mitch Winehouse, que acabo de ler, seja melhor que Os degraus do Pentágono, de Norman Mailer, que li antes.

Mas é muito agradável a leitura da biografia de Amy Winehouse escrita (na verdade, ditada) pelo pai. Claro, isso para quem gosta e admira Amy e ama sua música (como eu), mas quer saber como se deu a trágica história da cantora e compositora nascida num hospital no norte de Londres, em  14 de setembro de 1983, mesma cidade onde morreu em 23 de julho de 2011.

Ela nasceu “em típico estilo Amy: chutando e gritando”, conta o pai-biógrafo. “Juro que seus gritos eram mais altos do que os de qualquer bebê que jamais ouvi. Gostaria de dizer a vocês que eram melodiosos, mas não – eram só altos. Amy estava 4 dias atrasada, e isso nunca mudou. Por toda sua vida, ela sempre chegou atrasada.”

Infelizmente, com seu espírito atormentado, Amy Winehouse só produziu dois discos em sua carreira: Frank e Back to Black, sua obra-prima, que a levou ao apogeu. Este álbum tem algumas de suas canções mais importantes (como a que dá nome ao CD e "Rehab", por exemplo). Porém, a história de Back to Black se mistura à própria tragédia: as experiências das quais Amy trouxe a inspiração visceral para produzir Back to Black (álbum e canção) vieram essencialmente de seu relacionamento apaixonado e turbulento com Blake Fielder-Civil, que a introduziu na heroína e outras drogas pesadas, um jovem perdido, sem rumo.

Mesmo assim, não foram as drogas pesadas que a mataram, mas o álcool, segundo a narrativa do pai. Quando morreu, Amy estava limpa de drogas, após longa e dolorosa batalha dela e da família, e havia rompido com Blake dois anos antes. Desde 2009 Amy tinha um relacionamento mais maduro com o diretor de cinema Reg Traviss, um cara boa praça e tranquilo, que, junto com a família dela, se empenhou o quanto pôde para tirá-la do vício do álcool e da mania de autodestruição. Segundo a comovente narrativa do livro, apesar da vigilância de seguranças de confiança da família, Amy morreu após uma ingestão suicida de bebida alcoólica.

A magistral interpretação de Back to Black


Mas o mais interessante numa biografia de celebridade como Amy é quando essa biografia traz a dimensão humana da personalidade, como no livro de Mitch Winehouse, que, com sua linguagem simples, evidentemente foi ditado a um ghost writer. O que, na verdade, em nada diminui o livro, já que sua importância é a de ser um testemunho, e não uma obra literária.

De família judia relativamente tradicional, Amy tinha características psicológicas bastante problemáticas, principalmente a baixa autoestima e a insegurança, o que a levava à autoflagelação: ao se relacionar com Blake Fielder-Civil ou ao se drogar (com drogas pesadas ou álcool), por exemplo. É interessante notar que a artista, que tinha influência decisiva do jazz, do reggae (de maneira incidental) e do estilo (visual e musical) dos anos 1960, tinha um bordão que acabou se transformando num dramático símbolo de sua consciência: "Depois do lançamento de Frank, Amy costumava começar suas apresentações entrando no palco batendo palmas e repetindo um slogan: 'droga pesada não está com nada'", conta o pai-biógrafo. 

A influência dominadora do pai e da avó são absolutamente marcantes na personalidade de Amy, apesar de que a relação era a de uma família unida, na qual existia amor e intenso relacionamento. Amy e seu pai se falavam praticamente todos os dias, onde quer que um e outro estivessem.

Num cartão (desses que as crianças fazem na escola), quando tinha 12 anos, a pequena menina Amy escreveu ao pai: “Papai, você é o rei de todos os pais. Feliz aniversário (...) Beijos desse desastre ambulante que é sua filha, Amy”. Isso é Freud. Mas é também bonito e poético, atributos que eram inerentes a Amy Winehouse.

É bonito no livro como o autor revela uma Amy que poucos (a não ser a família) conheceram: uma garota que tinha um humor agudo, era muito inteligente e intuitiva, mas absolutamente passional e irrefreável. Que não conseguia compor se estivesse feliz, daí o fato de seu grande álbum, Back to Black, ter sido composto na “fusão com as trevas” (título de um dos capítulos do livro). “Seu hábito de escrever canções com alto teor autobiográfico significava que, quando estava feliz, ela não pegava muito no violão”, diz o pai. Amy era, nesse sentido, uma figura baudelairiana.

E de fato uma figura fascinante.

Por tudo isso, adorei ler Amy – minha filha, de Mitch Winehouse.

Amy foi também, lembremos, vítima da estranha “maldição dos 27 anos”. Como ela, vários ícones do rock’n’roll morreram nessa mesma idade: Kurt Cobain (Nirvana), Brian Jones (da primeira formação dos Rolling Stones), Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison (The Doors), entre outros. Não é pouca coisa.

Leia também:

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Pensamento para sexta-feira [62] - Baladeur de Ozzie Gheirart



Diego Limberti


A música de Ozzie Gheirart, segundo ele, é produzida "de forma caseira, usando garage band". O próprio autor assim define seu trabalho:

"O projeto Baladeur saiu do meu doutorado - em antropologia. É um personagem que aposta no pensamento poético como possibilidade de reinventar a vida. Seria um flaneur do mundo contemporâneo.
Ele transita por diversas camadas da realidade e aproveita a pluralidade de formas criativas para se expressar. Como o nome Baladeur tem vários sentidos (walkman em inglês; balada é caminhada, é um tipo de poema e um tipo de composição musical), tento mesclar diversas linguagens e narrativas.
Para compor, utilizei ferramentas simples, a que qualquer pessoa tem acesso: computador, celular etc. Convidei artistas para participar, músicos, pintores, poetas, estilistas etc. O projeto é coletivo e investi pouquíssimo dinheiro.
A música é eletrônica, mas na sua totalidade flerta com vários estilos. Em especial, o rock." 

Ouça clicando neste link: Naquele Dia/Je Suis Trilili by Baladeur



segunda-feira, 17 de março de 2014

Endorcismo e rock’n’roll – a guitarra salva do mal


Excelente o filme publicitário criado pela agência AlmapBBDO, usando o rock’n’roll como mote. A produção de 1’40”, feita para a rádio Kiss FM, mostra um ritual de “endorcismo”, um exorcismo ao contrário, em que o padre é substituído por um músico com uma guitarra, cuja missão é fazer o espírito do rock voltar ao corpo de um desgraçado “possuído” por espíritos musicais inferiores, axé e (cruz credo) funk. A produção é repleta de referências a ícones visuais e musicais do rock.

Veja o filme:


quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Laurie Anderson: Lou Reed morreu fazendo posição de tai chi


Há uma semana, a artista, música e compositora Laurie Anderson divulgou uma carta no jornal East Hampton Star, sobre a morte de Lou Reed, no dia 27 de outubro, na casa deles em East Hampton, no estado de Nova York.

A carta de Laurie Anderson:

"Aos nossos vizinhos: que outono lindo! Tudo brilhando e dourado e toda aquela incrível luz suave. Água ao nosso redor. Lou e eu passamos muito tempo aqui nos últimos anos e, embora sejamos pessoas da cidade grande, esse é nosso lar espiritual. Na última semana, eu prometi a Lou que o tiraria do hospital e voltaria com ele para casa, em Springs. E conseguimos! Lou era um mestre do tai chi e passou seus últimos dias aqui sendo feliz e atordoado pela beleza e pelo poder e pela suavidade da natureza. Ele morreu no domingo, observando as árvores e fazendo a famosa posição 21 do tai chi, com apenas suas mãos de músico se mexendo no ar. Lou era um príncipe e um lutador, e eu sei que suas canções de dor e beleza no mundo vão encher muitas pessoas com a incrível alegria que ele tinha pela vida. Vida longa à beleza que descende e atravessa e sobrevoa todos nós."

Veja interpretação da dupla de "I'll be your mirror", em Paris, em 2009