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sábado, 25 de fevereiro de 2017

Vamos ver cinema? – uma pequena lista de grandes filmes


Antigamente a gente indicava filmes e as pessoas podiam ir à videolocadora e alugar, levar pra casa e assistir. Hoje, essa era romântica acabou, junto com as videolocadoras. Seja como for, seja no Netflix, na TV a cabo, baixando na internet ou por outra forma, qualquer um desses filmes listados abaixo deve agradar a amantes do cinema que gostam de aproveitar feriados para poder fazer coisas mais úteis do que não fazer nada, como ver um grande filme.

Os Imperdoáveis  (Dir. Clint Eastwood - 1992).

Morgan Freeman e Clint Eastwood 
Os Imperdoáveis é um dos grandes filmes que já vi, e que vale a pena ver, se a alma não é pequena, ou seja, mesmo se você acha que o western é uma coisa imperialista, norte-americana e desprezível, e que a arte deve ser instrumento de luta política. A arte não tem nada a ver com luta política. A arte transcende isso. Um pouco mais sobre essa obra-prima de Clint Eastwood aqui: Os Imperdoáveis .


Era uma vez no Oeste (Dir. Sergio Leone - 1968) - O maior western de todos os tempos. Épico, antológico e genial. O texto publicado no blog é de Nicolau Soares e está no link: Era uma vez no Oeste.



Os outros (dir. Alejandro Amenábar - 2001). No gênero "terror", uma obra-prima. Atuação magistral de Nicole Kidman. Mas o termo "terror" não define este filme, que é mais próximo de uma abordagem que eu considero espírita, comparável a O Sexto Sentido (direção de M. Night Shyamalan – 1999). A resenha de Os Outros está aqui: Os outros, um filme espírita.






Interestelar (dir. de Christopher Nolan - 2014).


Matt Damon em Interestelar: interpretação magnífica
Algumas pessoas têm críticas que me parecem muito acadêmicas sobre este filme que, particularmente, me fascina. Tem que desculpar  alguns hollywoodianismos, como já escrevi. Para quem gosta de ficção científica, é uma maravilha. Para quem gosta de ciência, também. O filme discute questões ligadas à Física com uma abordagem possível, para a linguagem do cinema, dada a complexidade de algumas delas, como a Teoria da Relatividade e outras. Escrevi sobre o filme dois posts, que você pode ler a partir deste: Uma resenha sobre Interestelar.


Melancolia (dir. Lars von Trier - 2011).


Kirsten Dunst como Justine, no belíssimo Melancolia
Um contraponto à ficção científica Interestelar, o filme existencialista Melancolia, do diretor de Dogville e Dançando no Escuro, é inquietante e belo. Quem conhece o cinema da Lars von Trier não deve se surpreender com nada. Melancolia ("Melancholia", no original) é uma obra-prima riquíssima em imagens e metáforas do diretor, dinamarquês como Sören Kierkegaard.


James Coburn e Rod Steiger
Quando explode a vingança, de Sergio Leone. Já escrevi sobre este filme  aqui. Não tem como não gostar, se você gosta de western. É uma epifania.


The Ghost Writer (Dir. Roman Polanski)

The Ghost Writer, de Roman Polanski (2010). Ewan McGregor interpreta um ghost writer que acaba trabalhando para o primeiro-ministro britânico. Um thriller típico de Polanski. 

Kim Cattrall e Ewan McGregor
O thriller de Polanski, não ganhou o Urso de Ouro em Berlim à toa. De fato, é um Polanski em grande forma. O diretor do antológico O Bebê de Rosemary continua com seu estilo peculiar de fazer filmes. Quando você começa a se entediar achando que o filme virou clichê, ele destrói o clichê. Como Coppola, Polanski usa bem a máquina de Hollywood.



Vincent Gallo, em Tetro
Tetro (dir. de Francis Ford Coppola – 2009). É em parte ambientado em Buenos Aires, com destaque para o bairro La Boca. Tetro (Vincent Gallo – na foto) é um homem solitário e enigmático que vive com sua companheira na capital argentina. Ele recebe a visita de seu irmão mais novo, Bennie (Alden Ehrenreich), em busca do contato perdido. Com esse filme, Coppola mostra que ainda existe arte no cinema. Imperdível. Se quiser saber mais sobre Tetro, clique aqui.

Um homem bom (Good, no original em inglês – direção: Vicente Amorim - 2008). O texto que publiquei no blog, Um homem tolo, foi escrito pelo companheiro Felipe Cabañas da Silva. Pode parecer um trocadilho infame, mas esse é talvez o mais delicado filme sobre o holocausto, muito valorizado pela atuação magistral de Viggo Mortensen como John Halder, um professor de literatura na Alemanha dos anos 30 que, devido a sua tese sobre a eutanásia, atrai a atenção do governo nazista. Halder/Mortensen  se deixa envolver. A violência é psicológica, sem a híperdramatização fácil dos filmes do gênero. Uma curiosidade: o diretor do filme, Vicente Amorim, é filho do ex-ministro das Relações Exteriores Celso Amorim.

Sobre o mesmo tema holocausto, outro filme que vale a pena é O Menino do Pijama Listrado (dir. Mark Herman – 2008), uma impactante história de amizade entre dois meninos de sete ou oito anos, um judeu e um alemão.


Frances McDormand
Fargo, um clássico dos irmãos Coen (1996). Em termos de thriller policial, é um dos meus filmes preferidos. A direção de atores de Ethan e Joel Cohen já vale a pena. Frances McDormand (à direita) como a policial provinciana de Dakota do Norte é uma interpretação magistral, assim como de todo o elenco. Com o perdão do trocadilho, crítica violenta à cultura da violência dos Estados Unidos. Escrevi sobre Fargo neste link.




Os Incompreendidos , de François Truffaut, é um filme que sempre vamos assistir com emoção.


A delicadeza com que o cineasta francês trata do tema da difícil adolescência de um menino rejeitado pelos pais – que odeia a escola, que descobre que a mãe tem um amante e, diante de tantas dificuldades, foge de casa – é muito diferente da proposta de permanente manifesto do cinema de seu contemporâneo, colega de Nouvelle Vague e amigo, depois inimigo, Jean-Luc Godard. 




É difícil citar apenas um filme de Pasolini para colocá-lo na série Favoritos do cinema. Não dá para começar a falar do diretor italiano sem citar pelo menos cinco filmes:

- Accattone (1961)
- Mamma Roma (1962)
- Il vangelo secondo Matteo (1964)
- Uccellacci e uccellini (em português, Gaviões e passarinhos, 1966)
- Salò o le 120 giornate di Sodoma (em português, Salò ou os 120 dias de Sodoma, 1975).

Mais sobre esse grande cineasta neste link .



sábado, 29 de outubro de 2016

Grandes atores (6): Anthony Hopkins


Fotos: Reprodução
Como o imortal Hannibal Lecter
Já comentei sobre esse monstro da arte dramática num post em que juntei outros monstros (Gene Hackman, Marlon Brando, Rod Steiger). Mas Anthony Hopkins merece um post à parte. Claro que os outros aqui citados também. É que vi anteontem um filme totalmente descartável, que entretanto me remeteu diretamente à infância: A Máscara do Zorro (1998, dirigido pelo medíocre Martin Campbell, diretor hollywoodiano encarregado apenas de executar roteiros pré-fabricados), no qual Hopkins interpreta Don Diego de la Vega/Zorro. Na infância, o Zorro da série de TV que tinha Guy Williams no papel do herói e o eterno sargento Garcia era um de meus programas favoritos na telinha.

Mas, voltando, apesar de A Máscara do Zorro ser um filme muito ruim (uma ideia boa, mas mal aproveitada), com todo tipo de soluções comerciais e clichês made in Hollywood, ver Hopkins compensa: tudo vale a pena se a alma não é pequena. Curiosamente, algo me faz sempre associar esse ator britânico nascido em Port Talbot em 1937 ao nova yorkino Jack Nicholson, coincidentemente nascido no mesmo ano. Porém, apesar da grandeza de Nicholson, acho Hopkins superior.

Enquanto o americano, de certa maneira, é freqüentemente ator de si mesmo, na medida em que seus personagens costumam ser um pouco, sempre, o próprio Nicholson, o inglês parece ser mais capaz de ser tanto um padre, com suas expressões cândidas e santas, como um irremediável romântico ou um psicopata de inteligência sobrenatural e mente fria.

É o caso do papel do serial killer Hannibal Lecter, em O Silêncio dos Inocentes (Jonathan Demme, 1991), um dos grandes thrillers da história do cinema. No filme, Hopkins incorpora o espírito de uma criatura que passa a existir graças ao talento assombroso do ator. Nesse sentido, ele opera na arte dramática o que, na literatura, apenas grandes escritores são capazes de fazer: dar vida a um personagem. Mais do que isso, dotá-lo de alma, de tal modo que é como se fosse um ser real.


Jodie Foster, como a policial Clarice, cujo mestre (e sombra) é Lecter

Hannibal Lecter é um desses personagens do qual não se esquece jamais. Como já escrevi no post citado acima, o personagem Lecter se transforma no mestre da policial Clarice Starling exatamente como o ator Hopkins se transforma no mentor de Jodie Foster, que a interpreta. Isso, de um ator (atriz) monstro parecer conduzir aqueles com os quais contracena, é comum no cinema e no teatro. É com uma fascinação ao mesmo tempo iluminada e sombria que Clarice/Foster interage com o criminoso Hannibal/Hopkins. Isso não se daria se o ator fosse outro, ou um ator menor. Provavelmente o filme sequer teria brilho ou importância.

Como também já escrevi, esse "é um filme paradigmático de uma grande atuação, porque Hopkins opera no personagem uma transformação que vai da brutalidade à doçura, da contemplação à explosão assassina, e ele expressa essas nuances em sua face como se fossem, cada uma, a face mesma da brutalidade, da doçura, da contemplação e da selvageria". É uma das maiores atuações que já vi no cinema.


Como Don Diego de la Vega/Zorro, único motivo para ver o filme

A relação mestre-discípulo da qual falei acima, que se dá entre Hopkins e Jodie Foster em O Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs, no original em inglês), acontece também em A Máscara do Zorro, entre o mesmo Hopkins e Antonio Banderas, que é muito bom ator, mas perdeu muito de seu brilho depois de deixar a Espanha (onde atuou em vários filmes sob a direção de Almodóvar) e se transformar num ator secundário de Hollywood, apesar de eu ter lido, não lembro onde, que foi como Zorro que Banderas atingiu importância internacional. Importância em bilheteria, apenas, e decadência como ator.

Como o professor Van Helsing, em Drácula
Em Drácula de Bram Stoker  (1992), do grande Francis Ford Coppola, Hopkins faz o bondoso e sábio professor Abraham Van Helsing, a antítese de Hannibal Lecter, já que é ele o portador do conhecimento capaz de combater o mal.

Em Drácula, é curioso notar que Hopkins não tem a importância dos filmes citados neste post ou em outros. Mas isso acontece por um motivo simples: é que não é possível, dada a força do personagem central, o vampiro, qualquer outro se sobrepor a ele. Gary Oldman, de resto, como Drácula, está excelente no papel, assim como Winona Ryder no papel da amada Mina Harker. O que, de resto, não é nenhuma novidade, já que Coppola é um dos maiores diretores de ator do cinema.

 Leia também, da série Grandes Atores:




quarta-feira, 17 de julho de 2013

O vampiro do Polanski


Ainda não é desta vez que vou escrever um post da série Favoritos do Cinema sobre Roman Polanski, embora este seja um dos cineastas mais abordados neste blog, porque, afinal, é não apenas um grande diretor como também uma persona cuja trajetória é em si mesma o roteiro de um grande e misterioso filme.

Não, este post é apenas para falar de um filme que revi dias atrás e que, como havia assistido há muitos anos, provavelmente em circunstâncias desfavoráveis (já que ele se apagara de minha memória), não me lembrava de nada.


Polanski e Sharon Tate em A Dança dos Vampiros (1967)

Trata-se de A Dança dos Vampiros, uma das muitas versões disponíveis no cinema sobre a mitológica criatura cujo maior sofrimento é não poder morrer e que, saindo do túmulo durante a noite, suga a vida das pessoas que encontra pela caminho.

O escritor irlandês Bram Stoker, com o clássico Drácula, foi quem deu forma ao vampiro eternizado nas telas de cinema nos três mais badalados filmes sobre o personagem que se basearam no livro de Stoker, e tirando os antigos e inesquecíveis filmes meio trash, meio cult, mas sem dúvida clássicos, interpretados por Bela Lugosi, deliciosos de ver, mas que mereceriam um post à parte.

Com “três mais badalados” me refiro a Nosferatu (de F.W. Murnau, 1922), com Max Schreck no papel do bebedor de sangue; Nosferatu - O Vampiro da Noite (de Werner Herzog, 1979), com a extraordinária interpretação de Klaus Kinski; e Drácula de Bram Stoker (de Francis Ford Coppola, 1992), a grande e caríssima produção de um diretor que dispensa comentários, cuja grandiosidade faz do intérprete do vampiro, Gary Oldman, o menos brilhante dos três atores, na minha opinião. Em A Dança dos Vampiros, Polanski faz um vampiro quase insignificante, que tem menos importância do que os outros personagens e do que os outros vampiros. Por quê?

O filme de Murnau, forjado no clima expressionista alemão que vicejava na Alemanha pós-Primeira Guerra que prenunciava com suas sombras o terrível porvir nazista, é naturalmente pessimista, e trágico; o de Herzog, igualmente erótico e pessimista (um arquétipo alemão?), entretanto substitui a tragédia pela ironia, que Klaus Kinski incorpora como um mestre; e o filme de Coppola, que privilegia a visão hollywoodiana (emblematizada pelo idiota beijo final do vampiro moribundo e a amada – a espetacular Wynona Rider), mas que tem soluções gráficas e de roteiro que só Coppola poderia fazer, como a sequência inicial, que dá ao filme uma carga histórica que os outros não têm: Coppola interpreta o Drácula de Bram Stoker como uma tragédia shakespeariana que atravessa os séculos, incorpora o ódio ao catolicismo medieval e admite o espiritismo, na medida em que deixa claro que a paixão do vampiro (Gary Oldman) pela amada (Wynona Rider) começara séculos antes.

No filme de Polanksi, de 1967 (feito portanto 45 anos depois do de Murnau e antes que os de Herzog e Coppola 12 e 25 anos, respectivamente), as referências à matriz (Bram Stoker) se diluem. Murnau, Herzog e Coppola seguiram de maneira mais ou menos fiel (mas sempre fiel) o roteiro traçado pelo escritor. Em Polanski, o roteiro é bem diverso. No entanto, é o que melhor preserva as origens nas quais todos beberam, qual seja, a cultura romena e do leste europeu, seus mitos e folclores, o figurino e o cenário a caracterizar o enredo.

Não tenho elementos para dizer quais foram as locações das filmagens de A Dança dos Vampiros, mas de fato ele filma a atmosfera meio fabulosa (na acepção do termo) de um povo camponês, não industrial, e suas crendices.

Polanski filmou a cultura anterior àquela que os outros ignoraram em seus filmes. O vampiro de Murnau é o alemão das sombras expressionistas. O de Herzog é também o alemão, de outra época, pós-Segunda Guerra. O de Coppola, embora incorpore até mesmo a questão da reencarnação, é norte-americano.

O de Polanski não. Ele admite a cultura originária, a romena. E, apesar disso, incorpora também algo que lembra (embora não explicitamente) a época do ácido lisérgico e o espírito dos anos 1960.

O próprio Polanski interpreta o segundo principal personagem do filme, o assistente do professor Abronsius. E dá a ele um caráter cômico, irônico, mas nunca trágico.

E dá ainda, sem querer, um caráter profético e macabro ao filme. A heroína, que no fim se transforma em vampira, é interpretada pela belíssima Sharon Tate, então esposa de Polanski, que foi brutalmente assassinada em 1969 por um louco chamado Charles Manson, líder de uma seita satânica, condenado à prisão perpétua, que continua até hoje preso na Penitenciária Estadual de Corcoran, na Califórnia.

A título de curiosidade, Polanski dirigiu também um dos maiores clássicos do terror, O Bebê de Rosemary, de 1968, um ano antes do crime que vitimou Sharon Tate, filme que conta a história de um jovem casal (interpretado por Mia Farrow e John Cassavetes) que se muda para um prédio habitado por estranhas pessoas que vão se revelando adoradoras do demônio. A jovem (Mia Farrow) é drogada, concebida e dá à luz uma criança: o filho das trevas.

Detalhe: o filme teve como locação o edifício Dakota, onde moraram Judy Garland e Boris Karloff. O Dakota foi cenário da ficção O Bebê de Rosemary e do real assassinato de John Lennon, que morava ali em um apartamento com Yoko Ono. Lennon foi assassinado por Mark David Chapman em 8 de dezembro de 1980 em frente ao edifício Dakota.



quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Livros (e filmes) à mancheia!


Neste fim de ano dei alguns livros de presente. É legal dar livros de presente, é lúdico. Seguem alguns interessantes:


Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira e Seymour, uma apresentação, de J. D. Salinger (1919-2010), escritor norte-americano mais conhecido pelo best-seller O Apanhador no campo de centeio, que não li. No volume da L&PM, as duas novelas do título, que se passam na primeira metade do século XX, são narradas por um professor universitário recluso relatando reminiscências de sua relação com os seis irmãos, filhos de um casal de artistas. O foco de ambas as histórias é o irmão mais velho e predileto do narrador e de toda a família: Seymour, o irmão-poeta, uma espécie de anjo rilkiano (ver As elegias de Duíno, de Rainer Maria Rilke).

Mas a vida e morte de Seymour não faz da história de Salinger um relato depressivo, ou repleto de comiserações, ou mesmo dramático. Pelo contrário, Salinger não fala da morte, mas da poesia, valendo-se de uma ironia permanente que chega por vezes a tangenciar o sarcasmo (não é por acaso que cita Kierkegaard no segundo relato). “Como é que eu posso registrar o que registrei e ainda sentir-me feliz? Mas me sinto. Alegre, não, nem de leve, porém meu entusiasmo parece ser à prova de qualquer choque”, diz o narrador.

A seta venenosa de Salinger, cuja ponta traz o veneno da ironia, é dirigida a todos, leitor inclusive, críticos literários principalmente. “Você nem pode imaginar os planos grandiosos que eu tinha para estas páginas. Acho que estavam fadados a fenecer no fundo de minha cesta de papéis”, escreve o professor enquanto tenta traçar o perfil do irmão morto (vale observar que o narrador também não esquece, como um de seus múltiplos alvos, da então hegemônica psicanálise, que causou frisson entre intelectuais de todos os segmentos na primeira metade do século passado).

A narrativa da primeira história, Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira, é feita com uma linguagem mais linear – mais fácil de ler – do que Seymour, uma apresentação. Este último relato é daqueles de perturbar editores que amam períodos curtos e parágrafos sucintos, de enervar os resenhistas sem tempo de realmente ler um livro – para uns e outros, é mais prático que o raciocínio obedeça a regras simples de redação e proporcione um entendimento tão imediato quanto raso.


Drácula, de Bram Stoker (1847-1912). Bem, este livro não precisa de muitas apresentações, a não ser que é preciso tomar cuidado com a edição. Recomendo duas: da Nova Cultural (a boa e velha de capa dura) ou a de bolso da L&PM. É a história clássica do vampiro da Transilvânia na qual se basearam depois incontáveis outros autores e os diretores de inúmeros filmes do gênero terror, do qual os melhores filmes são Nosferatu, de Murnau (1922), Nosferatu, de Herzog (1979), e Drácula de Bram Stoker, de Coppola (1992).

O livro Drácula foi publicado em 1897, escrito a partir de pesquisas sobre um nobre do século XV que viveu na região da Transilvânia, na Romênia. Diz a lenda que Vlad empalava seus inimigos e por isso era conhecido como O Empalador. Ele, de fato, existiu, e combateu ferozmente os turcos no século XV. Numa época em que o mercado é inundado de lixos do tipo Crepúsculo, protagonizados por vampirinhos bonitinhos e ordinários, ler o original do autor irlandês Bram Stoker é recomendado. Eu, que na infância adorava assistir a filmes de terror com minha avó Emiliana (só eu e ela na sala), acho imprescindível que os jovens conheçam algo mais denso do que a idiotice dos vampirinhos de crepúsculo, e por isso dei esse livro de presente para uma sobrinha de 15 anos que é uma rara menina que adora ler.


Caninos Brancos, de Jack London (1876-1916). Sobre essa pequena obra-prima, já escrevi neste blog: A natureza selvagem segundo Jack London. As edições recomendadas são: a mais do que esgotada edição do Círculo do Livro (ainda vou escrever um post sobre o saudoso CL), que achei em “ótimo estado” num sebo virtual, e a da L&PM, também em loja virtual. London é um dos escritores mais importantes da essencial literatura norte-americana que se consolida durante o século XX. Ele é precursor de uma linhagem que depois vai passar por Hemingway, Jack Kerouac e Bukowski, por exemplo.

Caninos Brancos é a história de um lobo que tem de conviver com um predador mais poderoso do que ele, o homem. Pode ser lido por adultos e jovens, qualquer um dotado de sensibilidade.

As pessoas que gostam de animais, sobretudo cachorros, vão se envolver muito com a história, sobretudo porque sua narrativa não é a narrativa de qualquer um, é a de Jack London.



Audrey Hepburn é a capa da Cia. das Letras
Bonequinha de Luxo. Eis um pequeno romance, ou uma novela, adorável. É de 1958 e de outro notável escritor norte-americano, Truman Capote (1924-1984), o mais jovem dos citados neste post sobre livros que dei de presente de Natal. Só há um problema no caso desta obra: é que a única edição confiável fácil de achar é da Companhia das Letras: o livro é caro até em sebo, como é normal com as edições desta editora.

É a história de uma “caipira” dos Estados Unidos que vai para Nova York em busca de ambições. Seu “sonho de consumo”, mais do que ser uma atriz de Hollywood, é a famosa joalheria Tiffany's (daí o título do original em inglês, tanto do livro de Capote como do filme dirigido por Blake Edwards: Breakfast at Tiffany's).

A versão hollywoodiana (o filme) acrescenta soluções menos dramáticas do que a história contada por Capote. O conto mostra um cotidiano em que não existe um happy end como quer Hollywood, porque Capote vê a vida em Breakfast at Tiffany's apenas como a vida que flui e se transforma e acaba. Capote era implacável, e não foi à toa que escreveu talvez a obra mais importante da chamada literatura de não ficção, A sangue frio.

Porém, depois de ler o livro de Capote, veja o filme Bonequinha de luxo! Tirando o hollywoodianismo, a película de Blake Edwards conta com uma atuação ma-ra-vi-lho-sa de Audrey Hepburn. Poucas vezes vi uma atriz encarnar uma personagem tão bem como Audrey incorporou a Holly Golightly criada por Capote. Mas se você viu o filme e ainda não leu o livro, leia-o. Comigo aconteceu nessa ordem, e não foi menos encantador.

Por hoje, fico por aqui.


terça-feira, 10 de maio de 2011

Al Pacino vai atuar com John Travolta em filme sobre mafioso John Gotti


São sempre bem-vindos filmes com o ator de Um Dia de Cão, Serpico, O Poderoso Chefão e outros


Segundo o site Access Hollywood, Al Pacino vai atuar com John Travolta no filme Gotti: Três Gerações (Gotti: Three Generations), dirigido por Barry Levinson. Travolta fará o papel do gângster John Gotti e Pacino, o de Aniello Dellacroce, subchefe da família Gambino e sócio de Gotti.

O filme deve ser lançado em 2013. “Mais um filme de máfia”, pode objetar alguém. Mas filme com Al Pacino é sempre bem-vindo. Pacino não é apenas um ator, mas um ícone.

Ao falar dele, sempre me vem à memória a sequência do assassinato do mafioso Sollozzo numa cantina, no filme O Poderoso Chefão (The Godfather – 1972), extraordinária e emblemática de uma atuação inesquecível. Na cena, momentos antes de atirar nas vítimas, a tensão e a adrenalina de um homem prestes a debutar no mundo do crime operam uma transformação impressionante em sua face, até chegar aos olhos, que se movem desesperadamente, denunciando o espírito em convulsão.




Claro que, nesse filme e nos outros dois da trilogia, a direção de ator de Francis Ford Coppola é também essencial. A cena acima, aliás, não está neste post por acaso, pois essa obra-prima do cinema reúne não apenas Coppola e Pacino, além de fantástico elenco, como também o maior de todos, nesta humilde opinião: Marlon Brando.

Nascido no Bronx em 1940, Alfredo James Pacino, de ascendência italiana, tem portanto 71 anos hoje, completados em 25 de abril, o que é chocante, porque sempre temos ilusão de que os mitos não envelhecem.


Como o policial Serpico/ Foto: Divulgação

Entre seus cerca de 50 filmes, Um Dia de Cão (1975) e Serpico (1973) tornaram-se cults não apenas por terem Pacino como protagonista, mas também pela direção de Sidney Lumet, que traduziu nessas obras inquietações dos anos 70 sem nunca resvalar em chatices panfletárias, daí serem filmes que sobrevivem ao tempo (vale a pena assistir a ambos). Lumet que, diga-se, morreu no último dia 9 de abril.

Perfume de Mulher

Ainda sobre cenas, uma das mais marcantes das que me lembro desse ator genial é a de Perfume de Mulher (1992 - dir. Martin Brest). Com um roteiro simples e bem hollywoodiano, o filme conta a história de um militar cego (Pacino) que quer realizar um sonho (passar um fim de semana em Nova York antes de morrer) e para isso contrata um jovem como acompanhante, interpretado por Chris O'Donnell, muito bem no papel de Charles Simms. Esse filme mostra perfeitamente como um ator do tamanho de Al Pacino consegue fazer de um roteiro banal algo inesquecível (“tamanho” figurativamente, claro, pois o ator tem apenas 1,70m de altura).

Óbvio que sozinho ninguém faz milagres. Em Advogado do Diabo (1997), por exemplo, apesar de sua atuação ser sempre para mim o ponto alto dos filmes, o personagem, ninguém menos do que o próprio Diabo, me parece muito parecido com o Frank Slade de Perfume de Mulher em certas entonações, tiques e até o timbre de voz.

No ótimo O Informante (1999, dir. de Michael Mann), um dos filmes de que mais gosto entre os protagonizados pelo ator, Pacino faz um jornalista famoso e contracena com o impecável Russell Crowe. A sequência inicial é impressionante (só ela já vale a pena). Já li críticas sobre a duração desse filme, que seria exagerada (160 minutos). Eu, pelo menos, fiquei hipnotizado e não me entediou.

O filme mais recente dele de que tenho notícia, As Duas Faces da Lei (2008), do meio obscuro Jon Avnet, e com Robert De Niro, eu não vi.

Veja abaixo a filmografia de Al Pacino.

2008 - As Duas Faces da Lei
2007 - Treze homens e um novo segred
2007 - 88 minutos
2005 - Tudo por dinheiro
2004 - O mercador de Veneza
2004 - Void moon
2003 - Contato de risco
2003 - O novato
2002 - Insônia
2002 - O articulador
2002 - Simone
2001 - Chinese coffee
1999 - Um domingo qualquer (Any given sunday)
1997 - Advogado do diabo
1997 - Donnie Brasco
1996 - Ricardo III - Um ensaio

1996 - City Hall - Conspiração no Alto Escalão
1995 - Fogo contra fogo (Heat)
1995 - Um dia para relembrar (Two bits)
1993 - Pagamento final (Carlito's Way)
1992 - O sucesso a qualquer preço (Glengarry Glen Ross)
1992 - Perfume de mulher (Scent of a woman)
1991 - Frankie e Johnny
1991 - Na cama com Madonna
1990 - O poderoso chefão 3 (The Godfather - Part III)
1990 - Dick Tracy
1989 - The Local stigmatic
1989 - Vítimas de uma paixão (Sea of love)
1985 - Revolução
1983 - Scarface
1982 - Autor em família
1980 - Parceiros da noite (Cruising)
1979 - Justiça para todos

1977 - Um momento, uma vida
1975 - Um dia de cão
1974 - O poderoso chefão 2 (The Godfather - Part II)
1973 - Espantalho (Scarecrow)
1973 - Serpico
1972 - O poderoso chefão (The Godfather)
1971 - Os viciados
1969 - Uma garota avançada
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domingo, 19 de dezembro de 2010

Francis Ford Coppola está de volta, com Tetro





Com Tetro, Coppola quer dizer que ainda é possível fazer, ou pelo menos tentar fazer arte com cinema. Que é possível falar da arte, no cinema. Que o cinema, ele mesmo, é arte.

No filme, Tetro (Vincent Gallo – na foto) é um homem solitário e enigmático que vive com sua companheira em Buenos Aires. Seu irmão mais novo Bennie (Alden Ehrenreich) chega na capital argentina em busca do contato perdido com esse primogênito, seu irmão Angie (uma sombra do passado), que em Buenos Aires se transformou em Tetro, abreviação de Tetrocini (seu sobrenome). Tetro, o protagonista, é “um gênio sem realizações”, segundo ele mesmo se define.

A história se passa em preto e branco. Flashbacks coloridos são como que a legenda dessa história. O passado é colorido, o presente é P&B.

Há muitas referências à história do cinema no filme, explícitas ou não, o que fortalece a obra. Uma explícita: Ava Gardner. Uma quase explícita: Fellini, nunca citado, mas quase onipresente, porque Coppola é claro ao insistir na arte como objeto da própria arte, conceito que o filme faz questão de registrar o tempo todo. Outra referência, que parece viagem minha: os atores Vincent Gallo (o irmão mais velho) e Alden Ehrenreich são incrivelmente parecidos com Willem Dafoe e Leonardo DiCaprio, respectivamente. Será casual? Não sei.

Trailer oficial:



O filme não propõe apenas contar a historinha de uma família. Ao dizer que “a linguagem está morta”, por exemplo, numa passagem em que um personagem se questiona, Coppola quer falar o avesso: porra, a linguagem está viva! É possível fazer arte no cinema, seus babacas!

E Coppola faz essa arte, embora faça também concessões à linguagem hollywoodiana, como fez em Drácula, filme genial em que infelizmente introduziu uma espécie de happy end idiota nada a ver com o livro de Bram Stoker.

Seja como for, vá ver Tetro. Vale a pena. É o velho e genial Francis Ford Coppola. E ainda tem para nós, nostálgicos, uma sequência gravada no velho Café Tortoni, o precioso Café Tortoni da avenida de Mayo, em Buenos Aires.

Ficha técnica
Tetro (título original: Tetro)

Origem: EUA
Ano de produção: 2009
Gênero: Drama
Duração: 127 min
Classificação: 14 anos
Direção: Francis Ford Coppola
Elenco: Vincent Gallo, Maribel Verdú, Alden Ehrenreich, Rodrigo De La Serna, Klaus Maria Brandauer.