sábado, 23 de julho de 2011

Amy Winehouse foi se juntar a outros anjos


Quem, se eu gritasse, dentre as legiões de anjos me ouviria? E mesmo que um me apertasse de repente contra o coração eu morreria da sua existência mais forte. Pois o belo não é senão o começo do terrível, que nós mal podemos ainda suportar, e admiramo-lo tanto porque, impassível, desdenha destruir-nos. E assim eu me reprimo e engulo o chamamento dum soluçar escuro. (Rainer Maria Rilke)


(Londres, 14/09/1983 - Londres, 23/07/2011)

Amy Winehouse se foi. Amy é mais uma que se vai, entre esses que passaram pela Terra para nos alegrar, trazer arte e beleza, ou mesmo nos entristecer com a melancolia de uma canção, e que nos deixa assim de repente, com uma sensação de vazio. Amy foi juntar-se a outros anjos que por aqui passaram, foi juntar-se a Kurt Cobain (1967-1994), Jim Morrison (1943-1971), Jimi Hendrix (1942-1970), Janis Joplin (1943-1970), Noel Rosa (1910-1937), todos mortos com 27 anos! (menos Noel, com 26), essas criaturas que viviam atormentadas a apelavam a álcool e drogas por não conseguir se sentir muito em casa, muito bem, neste mundo explicado.

Mesmo sabendo que Amy acabaria de repente sucumbindo tão jovem, a sensação de aridez do mundo é inevitável agora que sua voz se calou para sempre. Para mim, como para Rilke, os que morrem de morte precoce são anjos que por aqui passaram.

8 comentários:

Reginna Sampaio disse...

E o mundo perdeu uma voz incomparável , uma cantora de verdade . Um talento unico

Paulo M disse...

"E a minha vida ficava cada vez mais cheia de tudo." Manuel Bandeira

É a ambivalência do sentimento de preenchimanto do vazio pelo talento e do esvaziamento repentino desse preenchimento pela morte da Amy. Grande Rilke e grande Edu, muito bem postado. Adeus, Amy Winehouse. Obrigado.

Mayra disse...

Bacana essa associação que tá rolando das mortes precoces e notórias do rock com a morte do nosso sambista querido - vi a mesma relação hoje no facebook. E no mundo da literatura, então, quanta gente incrível não morreu cedo demais?! Só dos romãnticos a lista é enorme... Todos anjos, os delicados que preferiram morrer (para parafrasear o poeta brasileiro).

Edu Maretti disse...

Entre os mortos precoces com a fatídica idade de 27 anos, faltou citar no post o nome de Brian Jones (como lembrou meu irmão Alexandre, por telefone), que foi um dos fundadores dos Rolling Stones, e cujo talento era diretamente proporcional à loucura. Sua morte até hoje é meio mal explicada.

Sobre a citação do poeta brasileiro, Mayra, vai abaixo a passagem do poema "Os ombros suportam o mundo", que você menciona, um dos mais belos de Carlos Drummond de Andrade, que diz:

"Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação."

Felipe Cabañas da Silva disse...

Então, hoje o André Barcinski escreveu na Folha e completou a lista dos 27 anos com nomes menos conhecidos... Além dos já citados, tem Kristen Pfaff (do Hole), Gary Thain (da extraordinária banda Uriah Heep), Alan Wilson (Canned Heat, que não conheço), Pigpen (Grateful Dead) e Rudy Lewis (Drifters)... Ele faz lá uma psicologia barata sobre o porquê de tanto artista morrer com 27 anos, mas o que eu acho mais legal é a "maldição do 7"... rsrs

Bom, ao menos um desses artistas foi meu ídolo de adolescência, Kurt Cobain. Quando tinha 13 anos meu quarto só tinha pôster do Nirvana, e ainda não sei o que me atraía tanto naquela figura melancólica, largada e perdida... Ainda acho a música do Nirvana sensacional... O acústico do Nirvana é certamente o melhor show acústico que já vi (Talvez os únicos que possam se comparar sejam os do Whitesnake e dos 10.000 maniacs), mas é curioso o impacto que têm essas megastars problemáticas, autodestrutivas, com suas vidas desgovernadas... Bom, evidentemente estamos distantes da antiguidade clássica, em que o modelo buscado era a perfeição, sendo o artista antes de tudo um esteta, dedicado à ordem, ao belo, à integridade. Não defendo essa arte, evidentemente me emociono muito mais com uma música do Nirvana do que olhando para uma escultura grega, porque evidentemente estou mergulhado na minha sociedade, e o modelo estético atual é o antiestético, a busca pela quebra de paradigmas, pela ousadia, pela superação dos limites... O artista moderno é um antiartista, consequentemente é um anti-herói heroicizado... é uma loucura, não? Por que vivemos em sociedades em que a sensibilidade tem de se expressar pela dor? Bom, um músico fora do comum que não vi ninguém lembrar de ontem para hoje, que morreu bem mais cedo, foi Ian Curtis... Outro exemplo de sensibilidade se manifestando pela dor... Sofreu pacas... E morreu com 23 anos...

Paulo M disse...

Acho produtiva essa discussão sobre as mortes precoces desses personagens "malditos" do mundo do rock e da música anglo-americana. Certamente vou cansar de ouvir, ao longo da semana, no trabalho, mil boçalidades de tipos que zombam ou querem mostrar suas certezas acerca do envolvimento de Amy com drogas. Independentemente do assunto drogas, acho que ela surgiu também como uma figura polêmica num mundo completamente mudado dos anos 60/70 pra cá, no qual a polêmica se torna algo cada vez mais descartado e inconveniente. Quarenta anos atrás, Janis Joplin e Jimmy Hendrix morreram (o segundo não sei se de overdose) como heróis, enquanto Amy Winehouse morreu há 24horas, também de overdose, mas agora um pouco como vilã. É como diz Caetano numa de suas canções: "O certo é saber que o certo é certo." Ou então vamos de novo a um trecho do mesmo poema do Drummond: "As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda." Amy, como alguns outros, talvez não tenha se libertado.

Edu Maretti disse...

Felipe, anos atrás meu pai, então um senhor de mais de 70 anos, estava na minha casa numa hora em que passava o acústico do Nirvana. O magnetismo da banda, e particularmente do Kurt Cobain,naquele acústico, é tão forte que até meu pai, imagine!, ficou interessado, também em saber quem era aquela figura trágica. Figuras como Cobain, "melancólico, largado e perdido", atraem acho que exercem um fascínio que o ser humano tem pelas sombras, mesmo que inconsciente.

Por tudo isso, a discussão "é produtiva" mesmo, como disse Paulo, porque tem uma infinidade de ramificações a ser exploradas, que não acabam. Daria pra fazer uma tese. Uma tese sobre a tristeza.

Felipe Cabañas da Silva disse...

O acústico do Nirvana foi gravado no dia 18 de novembro de 1993, portanto alguns meses antes da morte do Cobain. O álbum só foi lançado depois da morte, o que reforçou a sensação de que naquele momento o líder do Nirvana já estivesse numa espécie de "estado terminal" do vício de heroína, que ele arrastava desde a adolescência.
A expressão fechada e melancólica com que ele canta do início ao fim, como se estivesse fazendo um esforço sobre-humano para estar ali e cantar aquelas músicas à perfeição, fazem o magnetismo daquele show. Em tempos de insensibilidade quase generalizada me parece que pessoas com tanta expressão parecem ETs, por isso sendo tão magnéticas, ou talvez de fato sejam anjos cuja passagem pela Terra foi um acidente fortuito e repleto de ensinamentos para os que ficam...