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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Pequena pensata sobre o 21 de dezembro


Hoje faltam 15 dias para o mundo acabar, dizem os consumistas da mais recente teoria apocalíptica, a já mais do que desmentida “profecia” maia que os maias nunca profetizaram, mas que é responsável por milhões de livros vendidos, filmes de gosto duvidoso e documentários oportunistas em canais pagos.

Foto: Edu Maretti
Parece o fim do mundo, mas é só o pôr do sol entre nuvens escuras

Seja como for, vou ver se nesses 15 dias publico alguns posts sobre esse tema. Vai que o mundo acaba mesmo! (risos).

Faz um tempo que sempre quando ouço algo sobre isso me vem à lembrança a cena de um filme que vi no início do ano e sobre o qual já escrevi aqui: A vida de Hildegard von Bingen.

No início do filme da diretora alemã Margarethe von Trotta, cuja história acontece no século XII d.C. na Alemanha, vemos um ambiente escuro, repleto de velas acesas, pessoas orando, chorando, se penitenciando, autoflagelando-se. Elas acreditam que estão vivendo a última noite antes do fim do mundo. É que o décimo primeiro século está acabando e, junto com ele, a Terra. Mas eis que de repente um homem acorda, e, com uma expressão de surpresa, quase assombro, ele percebe que a luz entra pelas frestas. Ele chama uma criança, uma menina, para mostrar-lhe que o dia está amanhecendo, que o sol nasce mais uma vez.

Essa cena é marcante no filme, que recomendo.

O problema é que, nos dias de hoje, até mesmo o outrora episódico fim do mundo virou mercadoria. Toda hora algum maluco prevê uma data para o armagedon, ou um perspicaz estudioso da cultura maia encontra uma data para fazer uma aposta (na maioria das vezes apostas que dão lucro). Antigamente o ser humano celebrava essa crença no fim só de século em século, no máximo. Era mais suave. Mas, apesar da fé humana no fim do mundo se renovar sempre, acabar mesmo parece que o mundo (ou a civilização) só acabou uma vez até hoje, pelo menos segundo a Bíblia. “O mundo acabou em água (Noé), e da próxima vez vai acabar em fogo”. Quem, de minha geração, hoje entre 40 e 50 anos, não ouviu essa frase quando criança, dos nossos avós? Mas era algo distante, quase como uma fábula, embora uma fábula pela qual nos eram transmitidos o medo e a culpa.

Agora não, não é mais de século em século, nem mesmo entre décadas: vira e mexe surge uma nova data para o final dos tempos. No ano passado mesmo um desses “pastores” norte-americanos disse que o 21 de maio de 2011 era o “Dia do Juízo”. Pronto, um monte de gente acreditou nesse cretino, mas, felizmente, o dia 22 de maio amanheceu, como sempre – e como se esperava.

Agora vamos aguardar o dia 22 de dezembro de 2012. Depois disso, pensar com mais calma, tendo consciência, claro, de que um dia o mundo vai de fato acabar. Ou em decorrência de fatores cósmicos – o que pode acontecer neste instante ou daqui a milhões de anos –, contra os quais o homem nada pode fazer, ou fruto da destruição da terra pelo próprio homem, possibilidade que parece mais provável na atual conjuntura da história do planeta, mas que o homem ainda pode evitar.

*PS: Os comentários postados no post (veja em "comentários", abaixo) me impelem a acrescentar esta nota para dizer que no dia 22 de outubro do ano passado eu publiquei aqui um áudio da Adriana Calcanhotto cantando um delicioso samba de Assis Valente que vem a calhar. Ouça aqui: "E o mundo não se acabou".

*Atualizado à 1:17 de 7/12/2012

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A vida de Hildegard von Bingen – filme fascinante sobre uma mulher além de seu tempo


CINEMA

Para não perder o hábito vai aqui um post para quem prefere filmes a carnaval.

O indicado da vez (vi recentemente) chama-se Visão – sobre a vida de Hildegard von Bingen (2009), da diretora Margarethe von Trotta. Trata-se da história da abadessa do título (abadessa é a irmã superiora de um mosteiro ou convento). Apesar do tema aparentemente circunspecto, árido ou mesmo chato, começo por dizer que é um belíssimo filme, que, parece, não foi lançado no Brasil (não tem na 2001, por exemplo). Mas se encontra com camelôs e qualquer um pode baixar na internet nos dias de hoje, não é?


Barbara Sukowa: atuação magistral

A direção da alemã Margarethe Von Trotta é primorosa. A atriz Barbara Sukowa interpreta Hildegard von Bingen magistralmente. Do mesmo modo, Heino Ferch faz o irmão Volmer, apoiador e braço direito de Hildegard, de resto, numa obra em que a direção de atores é um dos pontos altos (o que para mim é fundamental em um filme). Luzes e sombras contrastam, a metaforizar a época.

Século XII

Hildegard von Bingen foi uma monja beneditina alemã nascida em Bermersheim vor der Höhe, em 1098, que morreu no Mosteiro de Rupertsberg em 1179. Além de religiosa e teóloga, foi escritora e compositora. Conhecia profundamente as plantas medicinais e desenvolveu métodos usando-as como médica informal. Tinha visões de criaturas (anjos?) e fatos místicos. Escreveu livros considerados avançados para sua época inspirados por essas visões, tratados sobre ciência natural, obras teológicas, entre as quais os estudiosos destacam Liber divinorum operum ("Livro das obras divinas"), sobre o prólogo do Evangelho de São João e sobre o livro do Gênesis. Legou uma obra grandiosa e por vezes hermética que está sendo cada vez mais estudada, a partir da segunda metade do século XX.

Uma mulher além do seu tempo

Filme foi rodado em mosteiros medievais
Como diz um texto em português publicado no Deutsche Welle e assinado por Carlos Albuquerque, “Ela aprendeu a olhar os lírios dos campos e a ver neles a presença divina que também levaria à cura de doenças. Para ela, o homem saudável estava em sintonia com Deus. Hildegard aliou a antiga medicina dos gregos, propagada por Galeno, à fé cristã. Para ela, micro e macrocosmo interagem lado a lado em sua percepção do homem e de Deus. Para honrar a Deus, o homem teria que interagir com seu meio-ambiente”. Segundo outro texto, este mais focado no filme (por Augusto Valente), do mesmo veículo alemão (entre os brasileiros não achei nada interessante), “Hoje, as farmácias vendem as ervas medicinais que foram pela primeira vez sistematicamente descritas e utilizadas por ela para fins medicinais”.

Porém, a influência dessa mulher incrível – que sofria de insistentes problemas de saúde e enxaquecas associados a sua visões – vai além do que produziu, pois, com sua personalidade marcante e agressiva, a abadessa impressiona por ter representado um papel de enorme significado e altamente atuante em plena Idade Média. Vejam, estamos falando do fim do século XI e início do XII. Hildegard von Bingen conseguiu realizar o impensável para uma mulher em plena escuridão de um mundo dominado por homens poderosos que, no entanto, segundo sua biografia, ela desafiava quando precisava atingir um objetivo.

Heino Ferch como o irmão Volmer
Segundo o filme de Margarethe Von Trotta, que pesquisou exaustivamente a biografia e a correspondência da abadessa, mesmo sendo hoje considerada “santa”, embora nunca oficializada como tal, Hildegard tinha atitudes e sentimentos bastante humanos (o que a distancia da pieguice de personalidades ou personagens perfeitos), como o ciúme e a possessividade, por exemplo em relação a sua noviça preferida.

Uma sequência do filme, rodado em mosteiros medievais, é emblemática da história e atuação dessa personalidade impressionante. As freiras recolhem ao mosteiro um homem cheio de feridas provocadas por autoflagelação. Ao recebê-lo, Hildegard lhe pergunta: “Você se flagelou?” O infeliz reponde: “Eu queria sofrer como ele sofreu por nós”. Ela devolve: “Aquele que mata a carne mata a alma que nele habita. Deus quer misericórdia, não sacrifícios”. Na belíssima cena, depois de indicar às irmãs a erva recomendada para tratamentos das horríveis feridas, ela diz ao enfermo: “A música também pode ajudar a curar suas feridas... e sua alma”. Segue-se a maravilhosa interpretação de uma freira ao violino, de uma música sacra composta por aquela que os mais simples – ao contrário da Igreja – entendem ser uma santa. Segundo os registros, ela previu sua morte para 17 de setembro de 1179, o que de fato ocorreu.

Não vi, mas fiquei muito curioso para assistir Rosa Luxemburgo, essa personagem tão interessante, com a mesma atriz no papel principal, dirigida por Von Trotta.

Trailer oficial:




Se quiser indicações sobre outros filmes “impróprios” para o carnaval, leia também:

Cinema para quem precisa - Indicações de filmes para um carnaval sem folia (2011)

Cinema para quem não pula carnaval (2010)