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sábado, 30 de julho de 2016

Lula propôs apenas um acordo com o capital, mas foi traído


"Por que essa ofensiva diante de um projeto, de um governo que o tempo todo tentou conciliar, desde 2003 até agora, e jamais apostou na ruptura e no enfrentamento?" (André Singer, em debate na USP - 13/04/2016)





Lula ter ido à ONU denunciar abuso de poder e violação da Convenção Internacional de Direitos Políticos e Civis, na "condução da Operação Lava Jato pelo juiz Sérgio Moro e os procuradores da investigação", nas palavras da CartaCapital, foi um fato político relevante. Mais simbolicamente do que na prática, já que, como se sabe, a ONU é uma espécie de "rainha da Inglaterra".

A ONU nada faz de concreto, a partir de sua sede (não por acaso) em Nova York. A destruição e a tragédia da Síria, que era talvez o mais laico e com certeza o mais belo país árabe do Oriente Médio, são a prova definitiva de que a ONU não serve para nada.

Mas, ONU à parte, aqui no Brasil a ofensiva segue na mesma toada, como mostra a capa da Folha deste sábado. Decisões judiciais alimentam manchetes, que por sua vez dão o tom de "verdade" às decisões judiciais, que citam as reportagens em seus arrazoados, e assim sucessivamente. O objetivo é óbvio: seja como for, tirar Lula da disputa pela presidência da República em 2018. A priori, a estratégia talvez não seja prendê-lo, o que poderia ser um tiro no pé.

Mas, voltando à manchete da Folha que ilustra este post, paradoxalmente, a própria Folha de S. Paulo publicou um texto que foi muito reproduzido pelo pessoal de esquerda nas redes sociais. No artigo do dia 26, intitulado "Escracho", a repórter especial do jornal Eleonora de Lucena escreveu:

" O impeachment trouxe a galope e sem filtro a velha pauta ultraconservadora e entreguista, perseguida nos anos FHC e derrotada nas últimas quatro eleições. Privatizações, cortes profundos em educação e saúde, desmanche de conquistas trabalhistas, ataque a direitos.

"O objetivo é elevar a extração de mais valia, esmagar os pobres, derrubar empresas nacionais, extinguir ideias de independência. Em suma, transferir riqueza da sociedade para poucos, numa regressão fulminante. Previdência, Petrobras, SUS, tudo é implodido com a conversa de que não há dinheiro. Para os juros, contudo, sempre há."

O texto da articulista é um dos melhores sobre o golpe, porque não fica apenas no episódio em si, mas resume de maneira cirúrgica o percurso golpista da elite brasileira desde 1932. É um texto precioso (leia a íntegra aqui).

Fico a me perguntar (como diria Mino Carta, cá com meus botões): como pode, um jornal que poderia desempenhar papel importante na defesa dos direitos constitucionais, mais uma vez embarcar num golpe oligárquico e mesquinho?

A elite brasileira e, particularmente, a paulista, poderia apresentar uma proposta de governo a partir da qual pudesse debater com a esquerda. Mas o que eles querem na verdade é só a destruição e o entreguismo.

O velho Claudio Abramo já escrevia, na antiga página 2 da própria Folha, que a burguesia brasileira é burra a ponto de não entender que um povo desenvolvido, esclarecido e inserido no mercado de consumo seria muito bom para o crescimento de todos, inclusive e principalmente do capital.

A perseguição a Lula é absurda. Lula nem mesmo tentou rompimentos. Ele propôs justamente e apenas uma aliança com o capital. Mas nem isso eles entenderam. O objetivo de Lula era superar a miséria para que todos crescêssemos, como mostra André Singer no livro Os sentidos do lulismo, que não chegou a abranger o primeiro mandato de Dilma, já que foi publicado em 2012, mas obviamente escrito antes. 

O fato é que a aliança proposta por Lula não deu certo porque o capital (a indústria e o mercado financeiro) rompeu o acordo unilateralmente, traiu Lula e Dilma e deu o golpe. E mais nada. Como a reacionária UDN faria. Triste país, o nosso.


domingo, 3 de abril de 2016

O golpe já era!‏



Por Laymert Garcia dos Santos *
Reprodução/Youtube
Hoje a Folha de S. Paulo publica um editorial pedindo a renúncia de Dilma. Uma leitura equivocada (cf. Fernando Morais) faz crer que ela reitera e aprofunda o seu apoio ao golpe. Parece-me, entretanto, que o enunciado reconhece que o impeachment não será possível e que, portanto, a Folha, desistindo de insistir na sua realização, se reposiciona.

Leiam a íntegra do editorial no link: Nem Dilma nem Temer

Nele se destaca o enunciado do realinhamento, ou melhor, do desembarque: "Esta Folha continuará empenhando-se em publicar um resumo equilibrado dos fatos e um espectro plural de opiniões, mas passa a se incluir entre os que preferem a renúncia à deposição constitucional".

Ato contínuo, o Uol, que no domingo sempre estampa esportes na manchete, publica uma longa reportagem sobre as ilegalidades de Moro desde a origem da Lava Jato. Pela primeira vez há uma brecha no front da mídia golpista, com o reconhecimento de que o juiz age sempre ao arrepio da lei. Ao que parece, além de desembarcar do golpe no plano político, a Folha começou a desembarcar também no plano jurídico. É esperar para ver... 


Não creio estar superestimando a importância da Folha. Mas como a turma de lá é perversa e, dentro do PIG, sai sempre na frente, seu posicionamento pode antecipar que o golpe já era!

_________________________________________________________

* Laymert Garcia dos Santos é sociólogo, professor titular do Departamento de Sociologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), autor de Tempo de Ensaio (Ed. Companhia das Letras, 1989) e Politizar as Novas Tecnologias (Ed. 34, 2003).

sábado, 14 de junho de 2014

Copa do Mundo, Dilma Rousseff e o mau-caratismo da elite branca brasileira


Não há muito o que dizer diante de imagens que, como se vê, valem sempre mais do que várias palavras.

O mais emblemático não é nem a manifestação vulgar e vergonhosa de meia dúzia de pessoas endinheiradas na ala vip da Arena da Zona Leste e seus "xingamentos raivosos (...) típicos de quem não sabe conviver com a divergência, mesmo em relação a uma governante legitimamente eleita pelo povo brasileiro", como bem escreveu Juca Kfouri em seu blog.

O mais emblemático é a abordagem desse gesto grosseiro da elite branca brasileira, ressentida e mau caráter, pela "grande" imprensa, sem exceção, abordagem muito bem ilustrada pelas capas dos dois maiores jornais de São Paulo, igualmente grosseiras, ressentidas e mau caráter.








quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A imprensa pauta o Judiciário - um episódio didático do círculo vicioso



Valter Campanato/ABr


Uma notícia que todo mundo deu e um detalhe que poucos notaram.

A notícia que todo mundo deu: o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, derrubou na terça-feira (11) uma decisão do ministro Ricardo Lewandowski proferida no período de recesso do STF e das férias de Barbosa em janeiro, quando Lewandowski foi presidente em exercício da “mais alta corte” do país. Na decisão que Barbosa suspendeu, Lewandoswski determinava à Justiça do Distrito Federal a análise de pedido de trabalho externo, feito pelo ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu, que cumpre pena em regime fechado (ilegalmente, já que foi condenado ao semiaberto) em Brasília. O pedido de análise do benefício de trabalho externo de Dirceu foi suspenso pela Vara de Execuções Penais do Distrito Federal com base em nota do jornal Folha de S. Paulo de 17 de janeiro. Ao suspender a determinação de Lewandowski, o todo-poderoso Joaquim Barbosa disse que a decisão do colega foi “atropelamento do devido processo legal, pois deixou de ouvir, previamente, o Ministério Público Federal e o juízo das execuções penais, cuja decisão foi sumariamente revogada”.

O detalhe que poucos notaram: A decisão de Lewandowski de 29 de janeiro suspensa no último dia 11, em que ele mandava a Justiça analisar o pedido de Dirceu pelo benefício do trabalho externo, foi suspensa pela Vara de Execuções Penais do Distrito Federal com base, vejam bem (caso o leitor não tenha notado o detalhe no parágrafo acima), em nota da coluna “Painel” do jornal Folha de S. Paulo de 17 de janeiro. A nota da Folha “denunciava” que Dirceu teria usado um celular, infringindo assim normas do sistema penitenciário, prejudicando o pedido do direito ao trabalho externo.


Nota do "Painel" da Folha de S. Paulo de 17 de janeiro

Segundo Lewandowski, as investigações concluíram pela “absoluta falta de materialidade do fato" [o uso do celular por Dirceu] sugerido pela nota de jornal. A “veracidade” da nota da Folha de S. Paulo foi desmentida pelas investigações do Núcleo de Inteligência do Centro de Internamento e Reeducação do sistema penitenciário, disse Lewandowski na decisão que o presidente da "suprema corte" revogou.

Em resumo, é um episódio menor no contexto da Ação Penal 470, mas é muito didático para demonstrar a engrenagem que perpassou todo o processo do chamado “mensalão”: a imprensa pauta o Judiciário com denúncias sem prova, o Judiciário “acata” a denúncia e a transforma em decisão judicial, a imprensa por sua vez repercute, e o Judiciário dá seguimento a esse moto-contínuo, esse círculo literalmente vicioso.

Isso tem tudo a ver com o que me disse em entrevista o jurista Celso Bandeira de Mello na semana passada: “Quem conduziu tudo isso, o chamado mensalão, foi a imprensa (...) Nós não estamos vivendo um momento em que o Direito é muito valorizado” no país. 

Não sou eu quem está falando. É Celso Antônio Bandeira de Mello, mais um jurista de respeito a apontar a autocracia preocupante pela qual passa o país.


terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Imprensa trata eleições no Congresso Nacional com abordagem rasa e meias-verdades


As manchetes dos dois jornalões paulistas desta terça-feira são sintomáticas. “Eleito, Alves desafia STF e apoia mandato de mensaleiro”, diz o Estadão.  Nova direção da Câmara ameaça desobedecer STF”, dispara a Folha.
Rodolfo Stuckert/Agência Câmara

Não discuto aqui se as eleições de Renan Calheiros para a presidência do Senado e de Henrique Eduardo Alves para comandar a Câmara dos Deputados são éticas ou não. Politicamente, são legítimas. Afinal, foram indicações do PMDB e nenhum dos dois perdeu seus direitos políticos. Nem proponho discutir se o PMDB (que tem o vice-presidente da República Michel Temer e os presidentes das duas casas legislativas) tem hoje um acúmulo de poder preocupante (de fato é).

A questão é: as coberturas dos dois diários são rasas. São editorializadas e pouco sutis em suas intenções (continuar o processo de tornar a política sinônimo de sujeira e, ao mesmo tempo, continuar disseminando a tal judicialização da política – o Judiciário é quem manda e ponto final). Mas o problema maior é realmente como são pobres e despolitizantes em sua abordagem. Os jornais passam a ideia de que há um bando de corruptos lutando contra um grupo de 11 vestais investidos de grandeza e soberba, os ministros do STF.

N
enhum dos dois jornais informa que o artigo 55, inciso VI da Constituição determina “que perderá o mandato o deputado ou senador que sofrer condenação criminal em sentença transitada em julgado”, ressalvando em ser parágrafo 2° que a questão "será decidida pela Câmara dos Deputados ou pelo Senado Federal, por voto secreto e maioria absoluta”.

E o artigo 15 da chamada Carta Magna, por sua vez, determina a “perda ou suspensão” dos direitos políticos por “condenação criminal transitada em julgado, enquanto durarem os seus efeitos”. Em primeiro lugar, as sentenças não foram transitadas em julgado ainda.

Em segundo, como se vê, há um conflito entre os dois dispositivos (artigos 15 e 55 da Constituição). No julgamento em que o STF decidiu que os deputados João Paulo Cunha (PT-SP), Valdemar Costa Neto (PR-SP) e Pedro Henry (PP-MT) perdem os mandatos automaticamente após condenados no julgamento do “mensalão”, o tribunal resolveu a contradição segundo uma interpretação, aliás legitimamente contestada por inúmeros membros do Parlamento, independentemente de Estadão, Folha, Globo e Veja acharem que eles estão “desobedecendo” o sacrossanto Supremo Tribunal Federal.

Em resumo, ao dizer que a questão da perda dos mandatos será decidida no Legislativo e que a palavra final “é da Câmara”, o novo presidente da Casa está fazendo uma interpretação da Constituição. Ponto. Se haverá desdobramentos mais fortes, se a beligerância descambará para um conflito claro e indisfarçável entre os poderes, não se sabe. Mas é no que apostam os jornalões. Eles apostam no caos e na criminalização da política. Cada vez mais arrogantes e udenistas, e por outro lado com tiragens menores e com menos credibilidade, à medida em que passa o tempo.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Nas manchetes, Jefferson volta à ribalta


Wilson Dias/ABr
Em 2005, então deputado põe gelo no olho

A Folha de S. Paulo e o Estadão, como se esperava, saem hoje com manchetes destacando a versão do íntegro, ético e confiável ex-deputado e presidente do PTB, Roberto Jefferson, repercutindo a fala de seu advogado, Luiz Francisco Corrêa Barbosa, no julgamento do “mensalão” no STF.

Manchetes:

O Estado de S. Paulo: “Advogado de Jefferson diz que Lula ordenou mensalão”.

Folha de S. Paulo: “Lula ordenou esquema, diz defesa de Jefferson”.

Já a manchete de O Globo é mais equilibrada e relativiza o destaque (e, por tabela, a própria credibilidade) dado a Jefferson pelos diários paulistas: “Para enfraquecer procurador, Jefferson agora acusa Lula”.

Sempre acho digno de destaque o que os jornais manchetam. Num país em que a leitura de jornais tem índices risíveis, a manchete serve como uma espécie de “verdade” por atacado, e a repetição dessas “verdades” visa enraizá-las na mente das pessoas, no inconsciente coletivo. Fica lá na banca em todos os lugares (“O sol nas bancas de revista/me enchem de alegria e preguiça/Quem lê tanta notícia?” – Caetano, "Alegria, Alegria"), vai para clippings, é repercutida em telejornais etc. Enquanto as manchetes fazem o serviço principal, as ressalvas e outras versões ficam relegadas a espaços secundários e notas internas.

Mas qual a credibilidade de um homem com a “folha corrida” de Roberto Jefferson? Senão, lembremos (uso a Wikipedia como fonte para ficar no neutro, afinal ninguém pode dizer que a Wikipedia é de esquerda...):

“Jefferson passou a ser conhecido nacionalmente durante o processo de impeachment do então presidente Fernando Collor, em que atuou como militante da ‘tropa de choque’ de deputados que tentavam defender o então presidente.”

“Em 1993, seu nome foi citado entre os envolvidos no esquema de propina na CPI do Orçamento.”

“Em 2005, a revista Veja divulgou o suposto envolvimento de Roberto Jefferson num escândalo de corrupção nos Correios, na qual houve fraude a licitações e desvio de dinheiro público. Com a iminência da instauração de uma CPI no Congresso Nacional, Roberto Jefferson denunciou a prática da compra de deputados federais da base aliada ao governo federal (PL, PP, PMDB) pelo partido oficial: o PT. A prática ficou conhecida como o ‘mensalão’.”

“No dia 14 de setembro de 2005, o mandato de Jefferson foi cassado, perdendo seus direitos políticos por oito anos.”

Sete anos depois de cassado, eis que Jefferson retorna à ribalta e tem, talvez, seu último momento de estrelato. E a versão desse homem é a fonte das manchetes dos dois maiores jornais de São Paulo...

Mas, por outro lado, a mesma Folha, em suas páginas internas, informa: “Julgamento do mensalão não afeta avaliação do governo, diz Datafolha” (que pena, hein, Folha?). A matéria revela que “62% classificam administração Dilma como boa ou ótima, índice só 2 pontos abaixo do recorde”. Na pesquisa, diz o jornal, o “Datafolha também pediu para cada entrevistado atribuir uma nota de 0 a 10 ao desempenho da administração Dilma Rousseff. A nota média foi 7,4. Em abril, a nota foi só um pouco melhor: 7,5”.

Resta esperar como Jefferson vai aparecer na próxima edição da Veja, que, com certeza, não vai nos brindar com a verdade e a autocrítica, falando das ligações do jornalista Policarpo Jr., diretor de redação da revista em Brasília, com o presidiário Carlinhos Cachoeira.

Por falar nisso, a Rede Brasil Atual informa que a CPMI do Cachoeira está analisando a convocação de Gurgel, Policarpo, Civita e governadores. Leia aqui .

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O inesgotável ódio a Lula – exemplos são muitos

O ocorrido a propósito do título concedido pelo instituto francês Sciences Po ao ex-presidente faz lembrar outros episódios em que a mídia demonstra seu preconceito raivoso

Atualizado às 21:28

Os protestos de jornalistas brasileiros contra a concessão do título Honoris Causa ao ex-presidente Lula, pelo instituto francês Sciences Po, o primeiro da instituição a um latino-americano, é mais um de muitos emblemas do preconceito, e um dos maiores (mas há outros). A partir do texto “Escravistas contra Lula”, do jornal argentino Página 12, o blogueiro Eduardo Guimarães abordou o tema no seu Blog da Cidadania. Outros blogs continuaram a repercussão.

O propósito deste post aqui não é recontar o fato (que pode ser conhecido em detalhes nos links acima), mas lembrar alguns outros episódios marcantes do ódio de classe e, por ele ser nordestino, do racismo contra Lula.

1) Larry Rohter - Ocorreu-me o “célebre” texto do jornalista Larry Rohter, para o New York Times, “Hábito de bebericar do presidente vira preocupação nacional”. O que mais incomodou naquela matéria de maio de 2004, de resto mais tola do que séria, foi menos o texto em si do que o regozijo com que foi recebida pela imprensa brasileira.

A Folha de São Paulo, por exemplo, começava assim a matéria repercutindo o assunto: “O jornal The New York Times, o principal dos EUA e um dos mais influentes do mundo, publica na página 6 da edição deste domingo (9) uma reportagem...”

O leitor percebe que as qualificações da frase “o principal dos EUA e um dos mais influentes do mundo” servem como recurso de retórica para respaldar a “verdade” de que Lula é um beberrão. Curiosamente, nem a Folha nem o jornalista do NYT se lembraram de registrar que o então presidente George W. Bush é um reconhecido e assumido amante do álcool, e não se trata aqui do combustível para carros.

Acontece que – e ignorar isso é um dos principais erros da “nossa” mídia – o povão que adora Lula não bebe no pântano do preconceito, mas, ao contrário, é vítima dele. Quando, em um dos milhões de botecos do Brasil, o cara cansado da lida toma sua cachacinha no fim do dia, e vê uma informação como essa na TV do boteco, por meio da qual a intenção é difamar o presidente cachaceiro, aquele homem do povo não recebe a informação como querem os donos dos meios: o que ocorre é uma identificação imediata com o homem mais poderoso da República, mas que, entretanto, faz o que ele – pedreiro, metalúrgico, pintor ou mecânico – faz.

2) Capa da Folha - Na noite do dia 29 de setembro de 2006, o Jornal Nacional ignorou a queda de um avião da Gol para ocupar todo o tempo falando do “dinheiro do dossiê”, tentando evitar que Lula se reelegesse já no primeiro turno. No dia seguinte, a Folha de S. Paulo deu a capa que para mim é um dos maiores símbolos do preconceito da elite “escravocrata” (como diz o Página 12) brasileira contra Lula. A mensagem é subliminar. Acima, a foto do dinheiro apreendido pela Polícia Federal; abaixo, a imagem do presidente Lula, encapuzado, de forma a colar nele a imagem de um criminoso.

3) Capa da Veja - Desferindo toda sorte de mísseis de seu jornalismo indecente contra Lula desde seu primeiro mandato, a revista Veja trabalhou sistematicamente por oito anos tentanto propagar o preconceito da “elite branca”, a burguesia “cínica e perversa” (Claudio Lembo), mas não conseguiu nada, a não ser proporcionar um lazer tacanho a seus próprios leitores. Entre muitas capas em que exibe o nível vulgar de seu “jornalismo”, talvez a que expresse com maior propriedade o ódio de classe ao “sapo barbudo” é a que vai aí ao lado.

4) Caetano Veloso - Mais chocante do que as esperadas agressões da mídia, não se pode esquecer que ninguém menos do que Caetano Veloso chamou o então presidente Lula de “analfabeto”. Sobre esse fato, eu já escrevi na época: Uma triste polêmica

Vou parando por aqui, pois esses são apenas alguns dos episódios que manifestam ódio e preconceito contra Lula. Quantas vezes já lemos (por exemplo na seção de cartas do Estadão, onde podemos quase ver a baba da raiva) que Lula “não trabalha” ou ouvimos por aí que “é vagabundo”?

A propósito, e para encerrar, lembro de Bernardo Kucinski, em artigo na Rede Brasil Atual de 2008. Diz ele: “O preconceito contra Lula tem pelo menos duas raízes: a visão de classe, de que todo operário é ignorante, e a supervalorização do saber erudito, em detrimento de outras formas de saber, tais como o saber popular ou o que advém da experiência ou do exercício da liderança. Também não se aceita a possibilidade de as pessoas transitarem por formas diferentes de saber”.

Publicado originalmente às 19:24 de 29/09/2011

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A crise, a Unasul e a imprensa

“A integração latino-americana sempre foi mais evocada do que concretizada”, começa o jornal espanhol El País, em matéria de domingo, sobre a reunião dos países membros da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) na última sexta-feira, em Buenos Aires. “Desta vez, porém, a tormenta financeira que flagela os EUA e a Europa, que contagiou todo o mundo, impulsionou os países sul-americanos a unir forças para evitar que os efeitos da crise possam frear um crescimento econômico que, apesar das turbulências financeiras dos mercados internacionais, alcançou 6% no ano passado”, continua o periódico.

O interessante ao ler a matéria do jornal espanhol é a abrangência da abordagem. Embora a Folha.com tenha noticiado o evento (“Unasul anuncia medidas coordenadas para enfrentar a crise”), o texto da versão on line da Folha de S. Paulo se atém pontualmente aos fatos, de acordo com a cultura sintética de seu jornalismo (ao fazer a busca na Folha impressa não se encontra Unasul desde a data de 9 de agosto).

Opinião e fragmentação

Nos jornais brasileiros, muitas das informações mais complexas (ou nem isso) e os conceitos são jogados para artigos e editoriais, o que os faz quase sempre passar pelo filtro da opinião desses jornais, disfarçados de jornalismo imparcial.

Dificilmente você vai ler numa matéria comum de página 6 ou 7 nos diários dos Mesquita e dos Frias informações condensadas como essas, ainda do El País sobre a reunião da Unasul de sexta-feira: “até agora, a América do Sul conseguiu superar a crise econômica dos países ricos, principalmente porque seu crescimento depende mais da demanda chinesa por suas matérias-primas (agrícolas, minerais e energéticas), que se manteve alta”.

Como a Folha.com, o Estado de S. Paulo noticia a reunião da Unasul por meio de várias matérias, fragmentando as informações, com textos intitulados "Governo quer mais exportação regional”, “Crise será longa, diz Mantega na Unasul" e outras.

(No Brasil formou-se a cultura da objetividade jornalística absoluta e fragmentária das informações, e essa fragmentação, aparentemente, serve para facilitar a leitura. O brasileiro não gosta de textos mais longos porque é incentivado a evitá-los. Mas essa cultura impede que textos criativos, mais totalizadores, digamos, e capazes de formar conceitos, cheguem ao leitor, que é assim doutrinado a receber pílulas de informações prontas que o dispensam de raciocinar, fazer analogias etc.)

Muitas vezes o leitor é induzido a ter uma percepção alarmista da situação, pela lente do jornalismo tupiniquim. “Unasul termina sem acordo sobre fundo de reservas” ou a já citada chamada acima “Crise será longa, diz Mantega na Unasul", ambas do Estadão.

De maneira que, diante da atual realidade, em que você tem uma inesgotável fonte de informações na internet, seja de sites de instituições tradicionais como o El País (apenas um exemplo entre muitos) ou de incontáveis blogs progressistas e veículos alternativos, a necessidade de se informar pode ser uma aventura mais prazerosa do que a limitar-se à carrancuda, mal-humorada e descaradamente parcial imprensa brasileira.

Futebol
É muito didático, para uma melhor compreensão do que quero dizer com teste post, comparar matérias de jornais brasileiros e argentinos por ocasião de partidas de futebol, de preferência importantes. Os nossos diários ficam naquela enfadonha descrição cronológica da partida, enquanto os diários do país hermano, muitas vezes, enaltecem o que de épico, de grandioso e poético há numa partida.

Atualizado às 14:29 e às 15:09

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Duas visões sobre as mulheres do governo Dilma

É bastante didática a comparação de como o diário paulista dos Campos Elíseos aborda a questão das mulheres no governo Dilma Rousseff com, por exemplo, o texto de um jornal internacional do nível do El País, da Espanha.

Em editorial de terça-feira, 14 de junho (aqui – para assinantes), a Folha de S. Paulo diz o seguinte sobre a nova ministra Ideli Salvatti, em editorial intitulado “A escolha de Ideli”:

“A nomeação da senadora Ideli Salvatti, alçada do obscuro Ministério da Pesca para a até agora irrelevante pasta das Relações Institucionais, parece ter levado em consideração sua disposição inabalável, e muitas vezes beligerante, na defesa de aliados.
"Da linha de frente governista na batalha do mensalão, no auge do escândalo, ao apoio aos peemedebistas Renan Calheiros e José Sarney, a senadora sempre primou por combater ao lado do Planalto”, ataca o jornal da família Frias.

Mais para torcedor do desastre político do governo e fomentador de intrigas, o jornal dispara: “Embora Ideli seja credora da sigla do vice-presidente, Michel Temer, sua propensão para o confronto pode abrir novas frentes de atrito”.

Já o El País, de importância reconhecida na Europa, diz em sua edição online desta quarta-feira, 15, em matéria (íntegra aqui) assinada por Juan Arias:

“Chegou a hora da mulher no poder político no Brasil? ‘De repente, apesar de sua fama de machista, o Brasil desperta governado por mulheres’, escreveu ontem o famoso escritor [Carlos] Heitor Cony [curiosamente, na própria Folha – nota do blog]. Se refere à iniciativa recente da presidente Dilma Rousseff com a criação de um triunvirato de mulheres para governar o gigante sul-americano após a demissão do chefe de gabinete e ex-ministro da Fazenda estrela da era Lula, Antonio Palocci”.

O jornal europeu acrescenta: “Os três cargos mais importantes do Executivo estão com três mulheres: a própria presidente Dilma Rousseff; a nova ministra-chefe da Casa Civil, a senadora Gleisi Hoffmann; e a nova ministra de Relações Institucionais, a ex-senadora e ex-ministra da Pesca, Ideli Salvatti. Esta é responsável pelo sempre difícil entendimento entre a presidência, os dez partidos aliados do governo e o Congresso”.

Depois de analisar a conjuntura política e afirmar que a estratégia (por trás de demissão de Palocci e as novas nomeações) “revela maior autonomia de Rousseff em relação a Lula”, o El País diz que a cartada de Dilma representa uma “incógnita e uma aposta arriscada que poderá consolidar ou minar sua liderança política”, e conclui: “A grande polarização de grupos e líderes tem forçado aos sucessivos governos a forjar pactos e distribuir cargos e regalias para tornar possível a governabilidade. E o triunvirato não parece muito disposto a seguir esta tradição”.

A ministra que, para a Folha, "parece ter ciência das limitações com que assume", para o El País está num dos "três cargos mais importantes do Executivo".

Fica com o leitor a tarefa de comparar a rala e provinciana análise política do jornal paulista com a do diário espanhol. Eu vou me concentrar para assistir à final da Libertadores, daqui a pouco.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Pensamento para sexta-feira: o jornalista no teatro da guerra


É muito bonito e corajoso o trabalho da dupla de enviados especiais da Folha de S. Paulo (Marcelo Ninio e o fotógrafo Joel Silva) à cidade de Brega, na Líbia, um pequeno mas simbólico teatro da batalha do povo líbio contra o tirano Muammar Gaddafi. Assim como é bonito e corajoso o trabalho de Lourival Sant'Anna, do Estadão. A coragem desses profissionais faz pensar numa coisa: como poderia ser maior o jornalismo da “grande imprensa” se ele fosse menos ideologicamente mesquinho do que é na abordagem da política nacional.


Vendo essa reportagem da Folha (que você pode acessar aqui – para assinantes), pensei numa narrativa do livro Ensaios (Editora Leya), de Truman Capote, intitulada “Ouvindo as Musas” (1956):

“Quando os canhões são ouvidos, as musas silenciam; se os canhões estão silenciosos, as musas são ouvidas.”

Foto: Joel Silva (Folha de S. Paulo, 3/03/2011)

Lembrando Robert Capa
*Atualizado às 17h40

Esse adendo ao post é para acrescentar a pertinente lembrança trazida pelo comentário do Alexandre [04 Março, 2011 12:27], lembrando a foto de Robert Capa, abaixo reproduzida, feita na Guerra Civil espanhola em 1936, que mostra o momento em que um miliciano encontra a morte. Sobre essa foto, uma das mais famosas fotografias de guerra, houve até uma polêmica, depois que uns pesquisadores sugeriram que ela teria sido forjada, suspeita nunca comprovada.

Robert Capa, nascido em Budapeste em 1913, fundador da agência Magnum, morreu em pleno teatro de guerra em 25 de maio de 1954, trabalhando na Guerra da Indochina, quando pisou numa mina terrestre. Seu corpo foi achado com a câmera entre suas mãos.

Fico imaginando se um homem que cobriu entre outras a Guerra Civil espanhola, a Segunda Guerra Mundial, a Guerra árabe-israelense de 1948 e a Guerra da Indochina, e tendo morrido como morreu, arriscaria tudo isso falsificando uma foto. Mas no mundo, o talento sempre será perseguido pelos abutres.

Uma célebre frase do  fotógrafo: "Se suas fotos não são suficientemente boas, é porque você não está suficientemente perto".

Robert Capa - Guerra Civil espanhola/ 1936

sábado, 30 de outubro de 2010

Duas decisões judiciais importantes na reta final

STF - A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, negou ação cautelar da Folha de S. Paulo pedindo acesso aos arquivos do processo de Dilma Rousseff durante a ditadura militar. Impressionante o terror armado pela Folha de S. Paulo em torno desse processo, fiel à cartilha da extrema direita. O que quer? Acusar Dilma de ter sido presa e torturada?

Que imprensazinha. O link do STF com o andamento do processo está aqui.

TSE - A segunda decisão é do Tribunal Superior Eleitoral. A ministra Nancy Andrighi determinou a suspensão imediata do serviço de telemarketing utilizado pela campanha de José Serra.

Nas ligações disparadas pela campanha tucana, que já ficou famosa mundialmente pelo seu nível rasteiro e repulsivo, ouvem-se acusações falsas a Dilma sobre temas relacionados ao aborto e o caso Erenice Guerra, entre outros. Enfim, esta decisão é importante, mas, a meu ver, tardia (faz duas semanas que este humilde blog falou do tema!, como podem ver neste link). Se dependesse dela, a eleição estava perdida. Pelo menos Dilma podia dar um jeito de mencionar isso no debate. Porque a sordidez é nojenta.

A notícia no site do TSE está aqui.

*Atualizado às 15h25
Outra decisão importante que está sendo divulgada no twitter. O Tribunal Superior Eleitoral determinou a suspensão do “Vídeo 2012” e sua retirada de canais do Youtube.

No vídeo – que indignou muita gente – os tucanos exibem imagens de um Brasil que seria destruído se Dilma for eleita. Para o TSE, a montagem é de “teor ofensivo e inverídico” e “compromete o aprimoramento do Estado Democrático de Direito”.

Atualizado às 19h30
** Em Brasília, a Coligação Novo Caminho, do PT, que tem Agnelo Queiroz como candidato a governador do DF, obteve na Justiça liminar concedida pelo desembargador Mário Machado, determinando a busca e apreensão da edição 727 do DF Notícias – por trazer calúnias, ofensas e difamações contra Agnelo. Leia mais no blog Passe Livre.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Bento XVI, Rede Globo, aborto e fascismo

Chega a ser chocante que o Papa tenha resolvido se meter na eleição Brasileira? Para mim, é. Faz 120 anos que Estado e Igreja se separaram e o Brasil é um país laico. No entanto, bispos brasileiros, em reunião com o papa Bento XVI, conseguiram do “sumo pontífice” – transformado num vulgar cabo eleitoral da campanha mais suja da história do Brasil – a declaração: "Quando os projetos políticos contemplam, aberta ou veladamente, a descriminalização do aborto ou da eutanásia, o ideal democrático, que só é verdadeiramente tal quando reconhece e tutela a dignidade da pessoa, é traído em suas bases".
Junte-se a exploração do fato pela Rede Globo, a volta do tema aborto, e está cristalizada mais uma de (literalmente) incontáveis tentativas de golpe contra a candidata Dilma, escolhida para dar continuidade ao melhor governo que o Brasil já teve, o do presidente Lula. Não custa lembrar, porém, que quem fez aborto, e até a Folha de S. Paulo noticiou, foi a mulher de José Serra, Mônica (leia ou releia aqui)

Ora, se uma pessoa sensível olha o rosto dessa personagem funesta, chamada Joseph Ratzinger, nome de batismo de Bento XVI, pode pensar duas coisas: se acredita realmente em deus, não há como não associá-lo às trevas; se a pessoa não acredita em deus, o pensamento é claro: trata-se de um fascista. 

Um fascista que prega a um bilhão de fiéis humildes que não usem camisinha, pois é melhor morrer de AIDS e em Cristo do que praticar sexo seguro. É melhor freqüentar a Daslu e praticar aborto em clínicas caríssimas do que ser uma pobre coitada que o destino leva à morte num desses quintais chamados “clínicas”, sem assistência do Estado ou de deus.

Não se pode esquecer, também, que o papa é o chefe de um Estado (não esqueçamos que o Vaticano é um Estado) forrado a ouro, fornecido pela mãos de povos usurpados durante séculos. É por isso que nunca é demais repetir: a igreja católica defende a vida... dos ricos e poderosos do mundo.

Vamos ver o que sairá amanhã do esgoto contra Dilma e Lula.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Da série "Recordar é viver": Wanderley Guilherme dos Santos sobre imprensa

Antes de ler o post abaixo, caro leitor (Má-fé da "Folha de S. Paulo'" não tem limites...), cabe uma reflexão, a partir de comentário ali postado, no qual o Paulo resgata e copia link de uma entrevista muito atual. Trata-se do cientista político Wanderley Guilherme dos Santos falando a CartaCapital (junho de 2005).

"Isso [o chamado 'mensalão'] se disse à vontade do Sérgio Motta em situação muito mais complicada [o escândalo de compra de votos para a aprovação da emenda de reeleição de FHC]... E não aconteceu nada."

"A grande imprensa levou Getúlio ao suicídio com base em nada; quase impediu Juscelino de tomar posse, com base em nada; levou Jânio à renúncia, aproveitando-se da maluquice dele, com base em nada; a tentativa de impedir a posse de Goulart com base em nada. A grande imprensa em países em desenvolvimento é a grande porca das instituições, a grande emporcalhada."

A entrevista pode ser lida neste link.

E agora passemos à Folha abaixo.

Má-fé da "Folha de S. Paulo'" não tem limites, mas Polícia Federal reage

Na tarde desta quarta-feira, 20, a Polícia Federal divulgou nota oficial para, entre outras coisas, refutar “qualquer tentativa de utilização de seu trabalho para fins eleitoreiros com distorção de fatos ou atribuindo a esta instituição conclusões que não correspondam aos dados da investigação”.

Como se sabe, a Folha de S. Paulo desencadeia uma nova série de tentativas, com suas manchetes golpistas, para continuar tentando ganhar a eleição para seu candidato José Serra [trazendo à tona de novo o caso da quebra de sigilos fiscais]*. No mesmo dia, quarta, o jornal dos Frias havia dado a manchete: “PF liga quebra de sigilo à pré-campanha de Dilma”.

O diretor-geral da Polícia Federal, Luiz Fernando Corrêa, declarou à imprensa que a instituição “faz um trabalho investigando fatos”, ressaltando: “o que tem em torno desse fato de conotação política não pauta a investigação da PF”.

Disse mais: “A PF se pauta pelo devido processo legal. O que nos leva a antecipar em alguns dias [a divulgação de informações] é que não queremos também ver atribuídas à instituição coisas que ela não tornou públicas”. De acordo com Corrêa, “não queremos que a instituição seja usada indevidamente no processo eleitoral”.

A PF esclareceu que os dados que a Folha de S. Paulo diz terem sido usados na campanha de Dilma foram coletados pelo jornalista Amaury Ribeiro Júnior, quando era empregado do jornal O Estado de Minas. O leitor que tire suas conclusões. Mas o fato é: tudo indica que esse caso diz repeito a uma disputa de poder dentro do PSDB de Serra e Aécio Neves. A má-fé da Folha de S. Paulo não tem limites.

Leia abaixo, na íntegra, a nota oficial divulgada pela PF.

Ouça clicando aqui a fala do diretor-geral da PF, Luiz Fernando Corrêa

Ouça aqui a fala do delegado Alessandro Moretti

Íntegra:

NOTA À IMPRENSA

Brasília/DF - Sobre as investigações para apurar suposta quebra de sigilo de dados da Receita Federal, a Polícia Federal esclarece que:

1 - O fato motivador da instauração de inquérito nesta instituição, quebra de sigilo fiscal, já está esclarecido e os responsáveis identificados. O inquérito policial encontra-se em sua fase final e, depois de concluídas as diligências, será encaminhado à 12ª Vara Federal do Distrito Federal;

2- Em 120 dias de investigação, foram realizadas diversas diligências e ouvidas 37 pessoas em mais de 50 depoimentos, que resultaram, até o momento, em 7 indiciamentos;

3 - A investigação identificou que a quebra de sigilo ocorreu entre setembro e outubro de 2009 e envolveu servidores da Receita Federal, despachantes e clientes que encomendavam os dados, entre eles um jornalista;

4 - As provas colhidas apontam que o jornalista utilizou os serviços de levantamento de informações de empresas e pessoas físicas desde o final de 2008 no interesse de investigações próprias;

5 - Os dados violados foram utilizados para a confecção de relatórios, mas não foi comprovada sua utilização em campanha política;

6- A Polícia Federal refuta qualquer tentativa de utilização de seu trabalho para fins eleitoreiros com distorção de fatos ou atribuindo a esta instituição conclusões que não correspondam aos dados da investigação.

*Atualizado às 19h47

domingo, 17 de outubro de 2010

Aborto: quando a máscara cai

Não acho que uma campanha deva ser pautada por assuntos que dizem respeito a questões de foro íntimo das pessoas. No entanto, a baixaria instaurada pela campanha de José Serra e da grande mídia que o apóia elegeu o baixo nível como sua arma, e o aborto como tema para desviar a atenção de uma discussão de alto nível sobre o destinos do país, divulgando panfletos apócrifos e espalhando boatos sinistros sobre a posição de Dilma Rousseff sobre o aborto. Estratégia digna da direita bem conhecida dos tempos de Fernando Collor (quem diria, hein, José Serra) e, mais recentemente, da campanha de John McCain contra Barack Obama nos Estados Unidos.

Assim, é importante que o leitor saiba que o cinismo e a hipocrisia, ferramentas dos tucanos, foi desmascarada com a notícia de que Monica Serra, esposa de José Serra, já fez aborto. Logo ela, que afirmou publicamente ser Dilma Rousseff a favor de matar criancinhas.

O jornal Correio do Brasil deu antes. E, neste sábado, 16, foi nada menos do que a colunista da Folha de S. Paulo, Mônica Bergamo, que deu a informação no jornal que se arroga o direito de pautar o país.

Leia clicando aqui a matéria do Correio do Brasil

Leia clicando aqui a matéria de Mônica Bergamo, da Folha (só para assinantes)

PS: a partir da noite de hoje, vou começar a postar no blog relatos que exemplificam a truculência tucana, nas ruas e espaços públicos.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Em 2006, oposição ("grande imprensa") atirava com sua bala de prata num 29 de setembro

Vamos relembrar, que recordar é viver. Pois não podemos esquecer que, em março passado, Judith Brito, executiva da Folha de S. Paulo e presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ), deu a seguinte declaração:

- A liberdade de imprensa é um bem maior que não deve ser limitado. A esse direito geral, o contraponto é sempre a questão da responsabilidade dos meios de comunicação. E, obviamente, esses meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada. E esse papel de oposição, de investigação, sem dúvida nenhuma incomoda sobremaneira o governo [Lula].

Há quatro anos


Uma lembrança um pouco mais antiga. Em setembro de 2006, a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ainda no primeiro turno era iminente. Mas não aconteceu porque, valendo-se do chamado “escândalo do dossiê”, a oposição (leia-se “grande imprensa”) conseguiu a proeza de levar seu candidato, Geraldo Alckmin (PSDB), ao segundo turno.

Na noite do dia 29 de setembro de 2006, exatamente quatro anos atrás (mas era sexta-feira), o Jornal Nacional ignorou a queda de um avião da Gol (o maior acidente aéreo da história do país) para ocupar todo o tempo falando da bomba de lixo desferida contra a candidatura petista. A Folha de S. Paulo, claro, e todos os parceiros midiáticos da candidatura tucana, repercutiram a cobertura do JN no dia seguinte, sábado, 30, véspera da eleição. A Folha deu a famosa capa trazendo a foto do dinheiro apreendido e, abaixo, outra foto, esta do presidente Lula, encapuzado, de forma subliminar a colar nele a imagem de um criminoso.

Faltou 1,4% para Lula se reeleger no primeiro turno. Conseguiram, enfim, adiar a decisão do povo brasileiro. Mas foi inútil e tiveram que engolir o metalúrgico barbudo, reeleito consagradoramente contra um Geraldo Alckmin que terminou o pleito com menos votos no segundo do que no primeiro turno.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Para lembrar: a mídia contra a democracia em quatro momentos históricos

As vésperas das eleições têm sido invariavelmente tensas, desde que a população brasileira retomou o direito de votar, pós-ditadura. Não só nas eleições presidenciais. Exemplo inesquecível: a eleição de Leonel Brizola em 1982, no Rio, quando houve uma tentativa espúria de golpe, o chamado “caso Proconsult”, que o combativo ex-companheiro de João Goulart conseguiu abortar.

Brizola foi também personagem de outro momento histórico (item 3, abaixo), quando a TV Globo foi obrigada a lhe dar um direito de resposta de mais de três minutos em 1994. A participação decisiva da mídia no episódio do seqüestro de Abílio Diniz, em 1989, que ajudou a eleger Fernando Collor, é outro emblema do golpismo e do desprezo pela democracia. Relembrem, abaixo.


1) Caso Proconsult
Em 18 de novembro de 1982, com a demora na divulgação dos resultados da eleição para o governo do Rio de Janeiro, o então candidato Leonel Brizola, do PDT, apontado como virtualmente eleito na boca de urna, foi à imprensa internacional para denunciar uma tentativa de fraudar a apuração a favor do candidato do PDS e da ditadura, Moreira Franco. Foi o chamado escândalo da Proconsult (nome da empresa encarregada de apurar os votos). Trabalhando a favor da conspiração, a TV Globo foi forçada a recuar. Brizola venceu o combate, foi eleito e governou o estado. Leia mais clicando aqui.

2) Lula x Collor
Em 1989, às vésperas do segundo turno da eleição presidencial entre Lula e Fernando Collor, o empresário Abílio Diniz foi estranhamente sequestrado por ativistas políticos (argentino, chileno e canadense) que, supostamente, pretendiam com o resgate arrecadar fundos para a guerrilha em El Salvador. Collor ganhou, com apoio da Rede Globo, que ainda editou o último debate entre os candidatos de maneira suja. Se eram de fato militantes de esquerda (nunca se sabe), eram muito burros aqueles seqüestradores.

3) Brizola x Globo, de novo
Atacado pela TV Globo, que o chamou de senil, novamente Leonel Brizola, governador do RJ, venceu uma batalha e conseguiu um direito de resposta de mais de três minutos. O texto de Brizola foi lido por Cid Moreira no próprio Jornal Nacional. Era o dia 15 de março de 1994, ano de eleições para presidente da República e governadores de estado. O histórico direito de resposta está abaixo:



O link do video acima está aqui: http://www.youtube.com/watch?v=ObW0kYAXh-8

4) Mídia x Lula
Em 2006, depois de mais ou menos aceitar a inevitável eleição de Lula em 2002 após o catastrófico governo de Fernando Henrique Cardoso, e amparados na certeza de que o governo do metalúrgico fracassaria, os barões da grande imprensa tentaram de fato um golpe. A revista Veja trabalhou sistematicamente por quase todo o primeiro mandato de Lula tentando enfraquecê-lo com seu jornalismo marrom, produzindo manchetes que se alastravam para os jornais e que se auto-alimentavam em profusão, principalmente a partir do chamado “escândalo do mensalão”.

Veja não conseguiu abalar a popularidade do presidente, e, diante da iminente reeleição do petista, a mídia golpista estampou em capas apoiadas por manchetes as célebres fotos ilegais, tiradas por um policial, do dinheiro apreendido – no chamado “escândalo dos aloprados” – e supostamente destinado a comprar um dossiê contra o então candidato ao governo de São Paulo José Serra (PSDB), sempre Serra, que parece estar presente em todos os lugares onde aparece o termo “dossiê”. Por falar em jornalismo marrom, a capa inteira da Folha de S. Paulo de então – com Lula abaixo da página, encapuzado, proporcionando a óbvia associação com a imagem de um criminoso – é o mais acabado exemplo desse gênero de subjornalismo que o jornal da família Frias conseguiu produzir.

5) O trocadilho vagabundo de Veja

Por tudo isso, não surpreendem coisas do nível da capa de Veja desta semana, com a “manchete” valendo-se de um trocadilho vagabundo: “O polvo no poder”, para “denunciar” o “escândalo” da quebra do sigilo de adversários políticos do PT. A manchete denota, de resto, como é mesquinha e calhorda a elite brasileira diante da idéia do “povo no poder”, que é justamente o que ela sempre temeu. A frase de Veja é um significativo sintoma de seus temores. Talvez até um ato falho, em formato semântico. O problema para a publicação dos Civita, que se gaba de ter 1 milhão de assinantes, é que esse milhão é pouco diante dos 30 milhões de cidadãos que os oito anos de Lula elevaram às classes médias.

Por tudo isso, apesar da dianteira de Dilma Rousseff nas pesquisas, “é preciso estar atento e forte” nesta reta final do processo eleitoral. Não será surpresa se novas bombas de lixo forem atiradas contra a democracia pela aliança entre José Serra e a vergonhosa imprensa deste país.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

A Folha de S. Paulo e a “neutralidade acomodada”

A Folha de S. Paulo deste domingo, 18, no caderno horrivelmente chamado “Poder”, publica um texto com tom de editorial para deixar clara sua postura isenta (sic) nas eleições deste 2010. “Folha reafirma princípios editoriais”, intitula-se, e, abaixo, a “linha fina” explica: “A Folha não apoia nenhuma candidatura; parâmetros ajudam a fazer cobertura isenta, sem deixar de ser crítica”.

Voltando a 1984, quando lançou o que chama de “primeiro Projeto Editorial”, continua o texto, “a Folha cristalizou no ‘Manual da Redação’ a opção por um jornalismo crítico, pluralista, apartidário e moderno” (leia na íntegra, só para assinantes). O jornal da Barão de Limeira, citando seu “Manual de Redação, afirma que “tais valores adquiriram a característica doutrinária que está impregnada na personalidade do jornal”. Bom, já que a Folha se encarrega de dotar a si mesma de uma aura tão humana, tendo até uma "personalidade", eu diria que se trata de uma criatura um tanto egocêntrica. Senão, não diria a seguir que, segundo ela mesma, "ajudou a moldar o estilo brasileiro da imprensa nas últimas décadas".

Tudo para dizer que “a cobertura eleitoral deste ano, assim, não poderia fugir desse script”. Claro, a Folha “não apoia nenhuma candidatura”, esclarece cabalmente o diário dos Frias, diferentemente de jornais como o New York Times, que apoiou Obama nos Estados Unidos, como explica nosso periódico.

Impressionante. Fiquei sabendo ontem dessa postura tão importante para o processo eleitoral no país, com esse texto tão esclarecedor. Ainda bem que meu amigo Emerson mo enviou, como se dizia antigamente. Senão eu poderia jurar que a Folha tem apoiado os candidatos tucanos em 2002, 2006 e 2010. Mas acho que foi impressão minha.

Só achei meio obscura a passagem do (artigo?, matéria?, arrazoado democrático?) texto, não assinado, onde afirma o seguinte: “E a atitude apartidária, que ‘obriga a um tratamento distanciado em relação às correntes de interesse’, não poderia ser ‘álibi para uma neutralidade acomodada’.”

O que viria a ser “álibi para uma neutralidade acomodada” em tal contexto? De qualquer maneira, pelo menos agora eu sei que a Folha foge da “neutralidade acomodada” como o diabo da cruz.

PS: Infelizmente, não sei em que página do jornal impresso está o texto. Como não comprei o exemplar, tentei saber desse detalhe de alguns amigos por telefone ou via MSN, mas nenhum deles tem, comprou ou assina o diário da Barão de Limeira.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Em anúncio na Folha, Extra se antecipa e tira Brasil da Copa

O Hipermercado Extra publicou um anúncio hoje, na página D11 do caderno Copa 2010, da Folha de S. Paulo, curiosíssimo: dá adeus à seleção brasileira, como se ela tivesse sido eliminada ontem pelo Chile (como sabemos, foi 3 a o para o Brasil).

A peça publicitária, certamente publicada por engano, deveria estar pronta em caso de derrota brasileira e deve ter entrado em lugar de outra com conteúdo vitorioso (a não ser que alguém acredite numa sinistra teoria da conspiração). Está abaixo.

O texto do anúncio diz: “A l qembu le sizwe sai do Mundial. Não do coração da gente”. E em letras menores (na foto abaixo, ilegível): “Na África, no idioma Zulu, I qembu le sizwe é SELEÇÃO. Valeu, Brasil. Nos vemos em 2014”.

Veja o anúncio:


Atualizado às 16h15

terça-feira, 16 de março de 2010

Perguntar não ofende: estamos em Israel
ou no Brasil?

Lula e Shimon Peres/foto: Ricardo Stuckert
Se você ler os dois maiores jornais de São Paulo de hoje (ou nem ler, mas apenas olhar as manchetes nas bancas) provavelmente vai pensar que está em Israel e não no Brasil. A primeira visita de um presidente brasileiro ao Oriente Médio em 100 anos parece uma questão de Estado. Israelense.

"Israelenses cobram de Lula distância do Irã", diz a manchete da Folha de S. Paulo. De modo quase risível, o Estadão usa o mesmo verbo, "cobrar", como se os nobres diários fossem objeto de um ventríloquo. "Governo e oposição em Israel se unem e cobram Lula sobre o Irã", diz o jornal dos Mesquita na manchete.

Visivelmente incomodada (com o quê?), a Folha dedica espaço a ninguém menos que o boss Otavio Frias Filho, para que ele manifeste sua opinião no artigo "Uma política ingênua e errática". No texto, sobre a posição brasileira na visita de Lula a Israel, Frias se refere ao ministro Celso Amorim e ao presidente da República como "nosso simplório presidente e seu trêfego chanceler".

Classifica nossa política externa de "errática, cheia de distorções seletivas" e, como se escrevesse um ditado da embaixada norte-americana no país (já que ele não deve ter acesso tão fácil a Hillary Clinton e outros figurões), o articulista "exorta" o governo brasileiro por uma política de "equidistância comedida".

Diz mais, o artigo. Segundo ele, na política externa do Brasil "a questão dos direitos humanos, por exemplo, deixa de ter qualquer valor no trato com inimigos de Washington, os quais adulamos para sermos vistos como 'independentes'". Ora, todo mundo sabe que os direitos humanos não existem no Irã. Lá, mulheres são executadas a pedradas por cometerem o crime de adultério. É o horror. Mas, curiosamente, Frias se inflama pelos direitos humanos sem mencionar em seu longo texto sequer uma vez a palavra Palestina. Nem territórios ocupados.

Ainda bem que existe imprensa internacional. Nela podemos ler muita coisa interessante. Destaco uma análise de outubro, do articulista David Rothkopf, da prestigiada revista norte-americana Foreign Policy (Política Exterior), em que ele fala da política externa brasileira.

O texto não se restringe a um episódio, mas é uma análise do trabalho do Itamaraty sob Celso Amorim, por isso o artigo se mantém atual e cito-o aqui. “É difícil achar outro ministro das relações exteriores que tenha orquestrado com tanta eficácia uma transformação de tal magnitude do papel internacional de seu país", escreveu Rothkopf sobre o chanceler brasileiro.

Antes que eu me esqueça (os jornais de nosso país se esquecem frequentemente disso): o Brasil defende que não apenas Israel, mas também a Palestina, sejam territórios livres, soberanos e que possam viver em paz.

Observação: Texto também publicado no Observatório da Imprensa