domingo, 30 de dezembro de 2012

Melancolia, de Lars von Trier





Quem conhece o cinema da Lars von Trier não deve se surpreender com nada. Dogville (2003) e Dançando no escuro (2000), suas grandes obras, são dois dos filmes mais impressionantes e inquietantes produzidos de uma década para cá, ou pouco mais.

O mais recente filme dirigido pelo polêmico cineasta dinamarquês não é diferente. Melancolia (do original Melancholia, de 2011) é o nome de um planeta, fictício, claro, cuja rota pode levá-lo a se chocar com a Terra.

Nesse contexto apocalíptico, desenvolve-se o drama de uma família dividido em duas partes ("Justine" e "Claire", nomes das irmãs Justine [Kirsten Dunst] e Claire [Charlotte Gainsbourg]). Na primeira parte, acontece uma festa em grande estilo na qual se dá o casamento de Justine. Aos poucos, a jovem passa a revelar um temperamento instável, enquanto sua irmã Claire, já casada e com um filho, parece representar a irmã forte da família. Mas a aparentemente desajustada Justine é uma espécie de antena, cuja sensibilidade é maior do que das pessoas com quem convive; essa "mediunidade", digamos assim, ela não consegue comunicar aos seus pares.

Na segunda parte, “Claire”, o drama começa a assumir proporções que transcendem os próprios protagonistas, humanos que são, pois o que se avizinha é o próprio fim do mundo e as personagens oscilam emocionalmente nessa realidade assombrosa de acordo com os limites de cada um (imagine você numa realidade como a descrita no filme. Como você reagiria?). É impressionante a construção das personagens operada pelo diretor no desenvolvimento desse enredo.

O marido de Claire, John (Kiefer Sutherland), um estudioso leigo de astronomia, se encarrega de monitorar a trajetória do astro. O que ele tenta saber, em seus estudos diletantes do fenômeno da aproximação do planeta estranho na órbita terrestre, sua cunhada Justine sabe intuitivamente. Pode-se dizer que cada um dos três personagens centrais representa um perfil: Justine representa a intuição e o conhecimento a priori, espiritual; John representa a dúvida; e Claire, o medo.

Apesar da temática assustadora (o fim do mundo), Melancolia é menos pesado do que Dançando no escuro (Dancer in the dark, no original). A possibilidade da aniquilação coletiva, que o planeta Melancholia anuncia, torna o tema morte paradoxalmente mais fácil de aceitar do que é em Dançando no escuro. Porque o desaparecimento da espécie humana é passível de consolo, e a morte individual, permeada pela injustiça das leis, não é. Fazendo uma analogia ao contrário (como diria Estamira), essa sensação de que a morte inexorável de todos é mais aceitável do que a morte solitária (a minha, a sua, a dele) é uma forma de egoísmo; e também uma visão ao contrário da sentença de Glauber Rocha em Terra em transe: “o homem é mais difícil de governar do que a massa” (sentença que tem um caráter existencialista evidente).

Uma solução estética interessante do filme Melancolia, e que parece ter passado despercebida pelos críticos, é o nervosismo da câmera, presente em Glauber e Godard, por exemplo: a câmera não é fixa, parada. Ela como que incorpora a instabilidade existencial (dos personagens) e cósmica (da Terra). Isso é genial no filme. Assim como é interessante a solução das imagens quase congeladas, em câmara (muito) lenta no início do filme, como a tentar dizer aquilo que todos nós sabemos mas não temos como explicar: o tempo é relativo. No final das contas, na minha humilde opinião, o filme acaba sendo realmente inquietante, e se não fosse não seria Lars von Trier.

Fora todas essas divagações, há que se falar em imagens e metáforas, riquíssimas no filme de Lars von Trier. Por exemplo: a percepção, por Justine, de que a estrela Antares, a estrela vermelha da constelação de Escorpião, desapareceu, pois ela está atrás do planeta Melancolia. Em Dogville, a inteligência estética do diretor vai além das metáforas para se transformar em alegoria. Me parece que o nome do planeta, Melancolia, é também uma alegoria, embora o filme como um todo não seja uma alegoria como é Dogville, a obra máxima de Lars von Trier.

Seja como for, terminamos 2012 e o mundo não acabou. E ver o filme do diretor dinamarquês é muito oportuno, como sempre acontece com os filmes dele.


Abaixo, um trailer do filme (o vídeo do filme na íntegra, que tinha no Youtube e estava disponível abaixo, foi tirado do ar "devido à reivindicação de direitos autorais Zentropa Entertainment", motivo pelo qual o internauta terá de alugar ou comprar o DVD: mas valerá a pena):


quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Livros (e filmes) à mancheia!


Neste fim de ano dei alguns livros de presente. É legal dar livros de presente, é lúdico. Seguem alguns interessantes:


Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira e Seymour, uma apresentação, de J. D. Salinger (1919-2010), escritor norte-americano mais conhecido pelo best-seller O Apanhador no campo de centeio, que não li. No volume da L&PM, as duas novelas do título, que se passam na primeira metade do século XX, são narradas por um professor universitário recluso relatando reminiscências de sua relação com os seis irmãos, filhos de um casal de artistas. O foco de ambas as histórias é o irmão mais velho e predileto do narrador e de toda a família: Seymour, o irmão-poeta, uma espécie de anjo rilkiano (ver As elegias de Duíno, de Rainer Maria Rilke).

Mas a vida e morte de Seymour não faz da história de Salinger um relato depressivo, ou repleto de comiserações, ou mesmo dramático. Pelo contrário, Salinger não fala da morte, mas da poesia, valendo-se de uma ironia permanente que chega por vezes a tangenciar o sarcasmo (não é por acaso que cita Kierkegaard no segundo relato). “Como é que eu posso registrar o que registrei e ainda sentir-me feliz? Mas me sinto. Alegre, não, nem de leve, porém meu entusiasmo parece ser à prova de qualquer choque”, diz o narrador.

A seta venenosa de Salinger, cuja ponta traz o veneno da ironia, é dirigida a todos, leitor inclusive, críticos literários principalmente. “Você nem pode imaginar os planos grandiosos que eu tinha para estas páginas. Acho que estavam fadados a fenecer no fundo de minha cesta de papéis”, escreve o professor enquanto tenta traçar o perfil do irmão morto (vale observar que o narrador também não esquece, como um de seus múltiplos alvos, da então hegemônica psicanálise, que causou frisson entre intelectuais de todos os segmentos na primeira metade do século passado).

A narrativa da primeira história, Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira, é feita com uma linguagem mais linear – mais fácil de ler – do que Seymour, uma apresentação. Este último relato é daqueles de perturbar editores que amam períodos curtos e parágrafos sucintos, de enervar os resenhistas sem tempo de realmente ler um livro – para uns e outros, é mais prático que o raciocínio obedeça a regras simples de redação e proporcione um entendimento tão imediato quanto raso.


Drácula, de Bram Stoker (1847-1912). Bem, este livro não precisa de muitas apresentações, a não ser que é preciso tomar cuidado com a edição. Recomendo duas: da Nova Cultural (a boa e velha de capa dura) ou a de bolso da L&PM. É a história clássica do vampiro da Transilvânia na qual se basearam depois incontáveis outros autores e os diretores de inúmeros filmes do gênero terror, do qual os melhores filmes são Nosferatu, de Murnau (1922), Nosferatu, de Herzog (1979), e Drácula de Bram Stoker, de Coppola (1992).

O livro Drácula foi publicado em 1897, escrito a partir de pesquisas sobre um nobre do século XV que viveu na região da Transilvânia, na Romênia. Diz a lenda que Vlad empalava seus inimigos e por isso era conhecido como O Empalador. Ele, de fato, existiu, e combateu ferozmente os turcos no século XV. Numa época em que o mercado é inundado de lixos do tipo Crepúsculo, protagonizados por vampirinhos bonitinhos e ordinários, ler o original do autor irlandês Bram Stoker é recomendado. Eu, que na infância adorava assistir a filmes de terror com minha avó Emiliana (só eu e ela na sala), acho imprescindível que os jovens conheçam algo mais denso do que a idiotice dos vampirinhos de crepúsculo, e por isso dei esse livro de presente para uma sobrinha de 15 anos que é uma rara menina que adora ler.


Caninos Brancos, de Jack London (1876-1916). Sobre essa pequena obra-prima, já escrevi neste blog: A natureza selvagem segundo Jack London. As edições recomendadas são: a mais do que esgotada edição do Círculo do Livro (ainda vou escrever um post sobre o saudoso CL), que achei em “ótimo estado” num sebo virtual, e a da L&PM, também em loja virtual. London é um dos escritores mais importantes da essencial literatura norte-americana que se consolida durante o século XX. Ele é precursor de uma linhagem que depois vai passar por Hemingway, Jack Kerouac e Bukowski, por exemplo.

Caninos Brancos é a história de um lobo que tem de conviver com um predador mais poderoso do que ele, o homem. Pode ser lido por adultos e jovens, qualquer um dotado de sensibilidade.

As pessoas que gostam de animais, sobretudo cachorros, vão se envolver muito com a história, sobretudo porque sua narrativa não é a narrativa de qualquer um, é a de Jack London.



Audrey Hepburn é a capa da Cia. das Letras
Bonequinha de Luxo. Eis um pequeno romance, ou uma novela, adorável. É de 1958 e de outro notável escritor norte-americano, Truman Capote (1924-1984), o mais jovem dos citados neste post sobre livros que dei de presente de Natal. Só há um problema no caso desta obra: é que a única edição confiável fácil de achar é da Companhia das Letras: o livro é caro até em sebo, como é normal com as edições desta editora.

É a história de uma “caipira” dos Estados Unidos que vai para Nova York em busca de ambições. Seu “sonho de consumo”, mais do que ser uma atriz de Hollywood, é a famosa joalheria Tiffany's (daí o título do original em inglês, tanto do livro de Capote como do filme dirigido por Blake Edwards: Breakfast at Tiffany's).

A versão hollywoodiana (o filme) acrescenta soluções menos dramáticas do que a história contada por Capote. O conto mostra um cotidiano em que não existe um happy end como quer Hollywood, porque Capote vê a vida em Breakfast at Tiffany's apenas como a vida que flui e se transforma e acaba. Capote era implacável, e não foi à toa que escreveu talvez a obra mais importante da chamada literatura de não ficção, A sangue frio.

Porém, depois de ler o livro de Capote, veja o filme Bonequinha de luxo! Tirando o hollywoodianismo, a película de Blake Edwards conta com uma atuação ma-ra-vi-lho-sa de Audrey Hepburn. Poucas vezes vi uma atriz encarnar uma personagem tão bem como Audrey incorporou a Holly Golightly criada por Capote. Mas se você viu o filme e ainda não leu o livro, leia-o. Comigo aconteceu nessa ordem, e não foi menos encantador.

Por hoje, fico por aqui.


terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Lêdo Ivo (1924-2012)


Morreu o poeta alagoano Lêdo Ivo. Ele estava em Sevilha, na Espanha, com familiares, onde passaria o Natal, quando se sentiu mal, parece que ao jantar num restaurante. Tinha 88 anos. Ele nasceu em Maceió, a 18 de fevereiro de 1924.

Tive contato com Lêdo Ivo entre 2001 e 2002, quando eu organizava o livro Escritores – 43 entrevistas da Revista Submarino (editora Limiar). É que ele era um dos entrevistados. Na ótima entrevista concedida à repórter Camila Claro (então a mais jovem e mais erudita da equipe) ele mencionou que tinha em seu arquivo um poema inédito de Carlos Drummond de Andrade. Durante a organização, conseguimos que ele nos enviasse o poema de Drummond. Chama-se “Greta Garbo”. Está lá, publicado logo após a entrevista dele, na página 130 de Escritores.

Na época do lançamento, liguei para o poeta, conversamos um pouco e anotei seu endereço para enviar-lhe um ou dois exemplares. Graças a isso o livro Escritores está lá na biblioteca da Academia Brasileira de Letras, da qual ele era membro.

Lêdo Ivo era assim, solícito, simples, afável, receptivo, bem-humorado. Começou a longa jornada pelas letras muito jovem. “Aos 16 anos, em 1940, ligou-se ao grupo do poeta e ensaísta Willy Levin e participou do I Congresso de Poesia do Recife, a seu lado e de João Cabral de Mello Neto”, nos conta Camila na introdução da entrevista. Nesta, Lêdo Ivo revela muitas histórias de sua geração. Fala de literatura e de bastidores (ótimos bastidores), das gerações de 22 e de 45, de suas relações com os poetas João Cabral, Oswald de Andrade, Drummond e outros. Conta sobre suas divergências com Oswald de Andrade, narra um caso que mostra a vaidade e a ambição do poeta paulista.

Mordaz e bem-humorado, fala de um volume de correspondência trocada entre João Cabral, Drummond e Manuel Bandeira: “...há uma parte desse livro em que Cabral me trata com certa ironia. Ele envia para Drummond uma antologia e diz que ‘os Lêdos Ivos da Espanha também estão presentes nesse volume’. Mas isso é muito engraçado porque, ao mesmo tempo em que ele me ironiza, em 1947 escreve para mim falando mal de Drummond (risos)”.

Sobre a geração de 1922: “certos círculo literários achavam que a poesia só tinha um caminho, quando a poesia tem mão dupla, mão tripla, não é?”

Apesar das divergências, disse sobre Oswald de Andrade: "Existem amizades e inimizades, mas aí vem o tempo e apaga tudo. Tenho muitas saudades de Oswald de Andrade".

Humilde, disse também na entrevista: “o melhor de mim, se é que há algum melhor, são os versos longos, os respiratórios, o poema grande, narrativo. Em minha geração sempre fui considerado uma espécie de ovelha negra, fui expulso da geração de 45 sete vezes! (risos)”.

São muitas as histórias que Lêdo Ivo tinha em sua memória, algumas das quais estão na entrevista de Camila no Escritores. Agora, as histórias que ele contou e as que não contou, leva todas consigo para a escuridão do tempo.


*Publicado originalmente às 13:04 de 23 de dezembro de 2012


A Santo Amaro da Purificação de dona Canô


Em 2007 estivemos em Santo Amaro da Purificação, a 71 quilômetros de Salvador, no Recôncavo. Estávamos na capital da Bahia, e naquele dia resolvemos conhecer a famosa cidade de dona Canô, mãe Caeteno Veloso e Maria Bethania, que morreu nesta terça-feira do Natal de 2012.
Cheguei a tentar uma entrevista com aquela mulher que de fato era uma celebridade (qualquer pessoa no município de cerca de 60 mil habitantes sabe indicar onde é a casa dela). Não tinha marcado nada, pois fomos para lá porque naquela manhã "deu na veneta" de ir. Toquei campainha na casa número 179 da avenida Vianna Bandeira, dizendo que era jornalista de São Paulo e uma jovem muito bonita, como uma personagem de Jorge Amado, atendeu e muito educadamente disse que dona Canô estava descansando (era por volta do início da tarde), e que se eu fosse no dia seguinte de manhã...
Bem, no dia seguinte não fui, tinha outros compromissos, como por exemplo embarcar para São Paulo. Seja como for, as fotos abaixo são de Santo Amaro: a casa de dona Canô, na avenida Vianna Bandeira; um detalhe da famosa feira de Santo Amaro, que é enorme e famosa em todo o nordeste; e a rodoviária da pequena cidade.

Fotos: Edu Maretti/Clique para ampliar
A casa de dona Canô




A famosa feira de Santo Amaro, no Recôncavo Baiano




A rodoviária da cidade

sábado, 22 de dezembro de 2012

Dez anos das pedaladas de Robinho

Da série Recordar é viver


Há dez anos, no dia 15 de dezembro de 2002, acontecia uma antológica final de Campeonato Brasileiro. No Morumbi, Corinthians 2 x 3 Santos e o Peixe se sagrava campeão nacional com direito à pedalada de Robinho pra cima do lateral Rogério.

Vai aqui o registro dos gols da partida, com certo atraso, mas em tempo, afinal não é por uma semana que se deve esquecer uma década, um time e um jogo memorável.



quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

No Japão já amanheceu


Mais ou menos 21 horas de 20 de dezembro, à espera do fim do mundo

Venta, chove, relâmpagos cortam o céu da noite em São Paulo, mas nada indica que o fim está próximo.

Um grupo de guris pré-adolescentes passa fazendo a algazarra natural à idade sob minha janela no oitavo andar. Um deles fala alto:

– Meia-noite vamo comemorar o fim do mundooo!


21h50

Eu conversava ao telefone com minha cunhada e amiga, a médica Elisa Machado Terra, da cidade de Rio Claro (SP), e de repente eu disse brincando:

– Bom, tô ligando pra dizer adeus. O mundo vai acabar amanhã, dia 21 de dezembro de 2012, lembra?

Ela riu e disse:

– No Japão já amanheceu!


quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Maria, José, a estrela de Belém e o muro israelense


Tendo como “gancho” o “espírito do Natal”, o artista britânico Banksy, cuja identidade real é desconhecida, é autor de um cartão de Natal com a imagem deste post, bastante compartilhada nas redes sociais em todo o mundo.

Reprodução/ Clique parra ampliar

Nela, a conhecida história de Maria – montada em um burro – e José, do Novo Testamento, é pintada de outra forma: eles aparecem no rumo da estrela de Belém, onde Jesus iria nascer, mas o caminho é interrompido por um muro, o muro de concreto de mais de 700 quilômetros de extensão e cerca de 8 metros de altura construído por Israel, a partir de 2002, separando Nazaré (antiga Galiléia) e Belém (na atual Cisjordânia). O pretexto israelense é conter supostos terroristas, mas o propósito real é consolidar a ocupação da Cisjordânia e Jerusalém Oriental.

A mensagem de Bansky é muito sugestiva: Jesus não poderia ter nascido em Belém nos dias de hoje. A jornada de José e Maria seria contida pelo muro.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Favoritos do cinema (6): Acossado, de Godard


Jean-Luc Godard foi um dos poucos cineastas que me fizeram chorar simplesmente por ver. Foi no filme Duas ou três coisas que sei dela (de 1967). Uma cena de uma mulher andando de bicicleta, assim sem mais. Epifania causada pelo cinema em forma de poesia e vice-versa.

Godard certa vez disse: “Sou um pintor de letras. Quero entrar na caverna de Platão iluminado pela luz de Cézanne”.

Glauber Rocha, no livro O século do cinema, escreveu sobre o filme Acossado, o primeiro longa da carreira do diretor francês (de 1960): “À bout de souffle [título original francês] é a retomada da crise da ficção contemporânea numa escala da evolução do romance do verbal para o visual (...) O cinema deixa de ser romance para ser poesia, a câmara não é narradora dos fatos mas instrumento de criação”.

O que comove e fascina em Godard? É o cinema como manifestação pura e espontânea, livre das amarras “clássicas” da narrativa, hollywoodiana ou não, despojado, visceral e revolucionário. Um contraponto de François Truffaut na Nouvelle Vague.

Um contraponto de todo cinema.



O filme acossado, cujo pequeno trailler ilustra este post, é protagonizado pelo casal Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg. O ator, nascido em 1933, ainda vive. Ela, nascida em 1938, morreu aos 40 anos, supostamente por uma overdose de barbitúricos.

A atriz teve uma vida conturbada. Teria sofrido perseguições do FBI por ter se relacionado com o grupo Panteras Negras. Se casou três vezes e sua filha morreu pouco depois de nascer.

Jean-Luc Godard compeltou 82 anos no último dia 3 de dezembro.


Leia também, da seção Favoritos do cinema
:

Quando explode a vingança (Sergio Leone)

Era uma Vez no Oeste (Sergio Leone)

Fargo (irmãos Coen)

Os Incompreendidos, de François Truffaut

Pasolini

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Favoritos do cinema (5): Pasolini



Reprodução


Pier Paolo Pasolini (1922-1975) é um mestre da geração que teve Buñuel, Godard, Glauber Rocha, Bertolucci, Truffaut, Fellini, Bergman e tantos outros.

Como acontece com Buñuel, é difícil citar apenas um filme de Pasolini para colocá-lo na série Favoritos do cinema, que às vezes publico aqui no blog, que são postagens sobre determinados filmes, e não diretores. Pasolini está entre as exceções.

Não dá para começar a falar do diretor italiano sem citar pelo menos cinco filmes:

- Accattone (1961)
- Mamma Roma (1962)
- Il vangelo secondo Matteo (1964)
- Uccellacci e uccellini (em português, Gaviões e passarinhos, 1966)
- Salò o le 120 giornate di Sodoma (em português, Salò ou os 120 dias de Sodoma, 1975).

Não vou discorrer sobre os filmes citados porque senão passaria a noite escrevendo. Mas qualquer busca no Google fornece informações. Salò, por exemplo, é um filme diante do qual uma pessoa estética e politicamente sensível não passa incólume. A beleza (a arte intrínseca ao filme) e a perversidade (o fascismo) se fundem nessa obra-prima. Costumo dizer sobre Salò que eu não veria de novo, mas foi essencial ter visto.

O Evangelho segundo Mateus
mostra um Cristo assertivo e belo, viril e transgressivo, dando uma conotação subversiva (no sentido mais profundo) à passagem de Mateus do Novo Testamento: “Não penseis que vim trazer paz à terra. Não vim trazer paz, mas espada” (Mat 10, 34).


Vittorio Cataldi, em Accattone

Todos os filmes acima (entre outros) são belíssimos, no sentido clássico do termo, mas também enquanto linguagem fundadora, inquietante e transgressora, que os anais da história registram como sendo o neorrealismo italiano. Se há esse conceito, Pasolini é seu espírito.

Para contextualizar: Pasolini nasceu em Bolonha (5 de março de 1922) e morreu em Óstia (periferia de Roma, em 2 de novembro de 1975), assassinado aos 53 anos em circunstâncias até hoje não suficientemente esclarecidas. A Itália de Pasolini, é bom lembrar, era um país conturbado, onde as disputas políticas eram permeadas por conflitos armados. Era a época das Brigadas Vermelhas, organização guerrilheira urbana marxista-leninista (e simpática ao maoísmo) que, entre outras ações, sequestrou e executou Aldo Moro, então ex-primeiro-ministro e presidente do partido direitista da todo poderosa Democracia Cristã Italiana.

Sendo erudito, Pasolini conseguiu evitar que o academicismo matasse sua arte. Pelo contrário. Era um artista genial: uniu o clássico (arte) ao contemporâneo (cinema) com desenvoltura. Cristão e comunista, viveu uma relação intensa “de amor e ódio”, como se diz, com duas instituições: a Igreja Católica e o Partido Comunista Italiano, o lendário PCI, que foi pensado, entre outros, por Antonio Gramsci (1891-1937). Pasolini brigou com o PCI e com a igreja, mas não brigou com o marxismo e nem com a arte.

Além do caráter político/estético dos filmes de Pasolini, estes tinham outra virtude: não eram simplesmente “filmes-cabeça”, (apenas) experimentalistas e chatos como A chinesa de Godard, um dos símbolos da chatice no cinema (adoro Godard, devo ressalvar e ressaltar, mas esse é outro post).

Depois que eu postar esta humilde impressão, com certeza lembrarei de outras coisas que poderia ter dito sobre Pasolini, mas não disse.

Por exemplo, me ocorre neste instante o magnífico diálogo entre o grande e velho ator Totó e o jovem Ninetto Davoli em Uccellacci e uccellini, uma alegoria na qual um velho e um jovem (pai e filho?) discutem filosofia (marxista) durante uma viagem a pé, interpelados o tempo todo por um corvo intrometido. Para quem gosta de gossips, consta que Pasolini, que era homossexual, adotou Davoli como seu ator e jovem amante. O mesmo Nineto Davoli trabalhou com Pasolini, entre outros filmes, em Decameron (1971), o primeiro (e melhor) da Trilogia, que se completa com Os contos de Canterbury (1972) e As mil e uma noites (1974).

Però, è finito. Arrivederci. Eu estava devendo um post ao mestre Pasolini. Espero que ele aceite isto como uma medíocre tentativa.


Leia também, da seção Favoritos do cinema
:

Quando explode a vingança (Sergio Leone)

Era uma Vez no Oeste (Sergio Leone)

Fargo (irmãos Coen)

Os Incompreendidos, de François Truffaut


*Publicado originalmente às 02:13 de 14 de dezembro de 2012

domingo, 16 de dezembro de 2012

Tite e o goleiro Cássio levam Corinthians ao título Mundial



O futebol tem umas coincidências curiosas. Em 2005, o São Paulo ganhou o Mundial de Clubes graças à atuação milagrosa de Rogério Ceni na vitória de 1 a 0 sobre o Liverpool. O Corinthians acaba de conquistar o Mundial batendo o também inglês Chelsea por 1 a 0, o placar favorito da  maneira Tite de jogar futebol, graças ao seu goleiro Cássio. Detalhe: Rafa Benítez era o técnico do Liverpool em 2005 e do Chelsea neste 16 de dezembro.

A trajetória espetacular do treinador corintiano começou realmente em 2011, quando então presidente do clube, Andrés Sanchez, bancou sua permanência após a desclassificação frente ao Tolima, da Colômbia, na pré-Libertadores. A partir daí, o Alvinegro conquistou o Brasileiro de 2011, a Libertadores e o Mundial de 2012.

Tite é o grande responsável e artífice da conquista. Imagino que o consumo de cerveja é alto hoje em São Paulo. Enfim, embriagai-vos, corintianos.

Eu vou abrir a primeira só agora. Claro que não para comemorar. É apenas um hábito de todos os domingos.





Abaixo, a lista dos seis brasileiros campeões do mundo e os vices que com eles disputaram.

1962      Santos - vice: Benfica (POR)
1963      Santos - Milan (ITA)
1981      Flamengo - Liverpool (ING)
1983      Grêmio - Hamburgo (ALE)
1992      São Paulo - Barcelona (ESP)
1993      São Paulo - Milan (ITA)
2000*    Corinthians - Vasco (BRA) / Boca Juniors - Real Madrid
2005      São Paulo - Liverpool (ING)
2006      Internacional - Barcelona (ESP)
2012      Corinthians -  Chelsea (ING)

* O título de 2000 é até hoje tema de debates acalorados. O time paulista levantou a taça participando do torneio, no Brasil, como "equipe campeã do país sede", sem vencer a Libertadores. Algumas listas omitem que o Boca bateu o Real Madrid em Tóquio, por 2 a 1, em 28 de novembro de 2000, sagrando-se campeão mundial. Antes, no início de 2000, a FIFA 
(entidade cujo "caráter" é bem conhecido) realizara o até hoje chamado "torneio de verão" conquistado pelo Corinthians. O Manchester United se sagrara campeão no fim de 1999 ao bater o Palmeiras por 2 a 1, no Japão. Quer dizer, houve três campeões do mundo entre 1999 e 2000. Manchester, Corinthians e Boca.

Na minha opinião, das duas, uma: ou Corinthians e Boca são campeões de 2000, ou, se tiver de ser um, é o Boca.

Atualizado às 18:28

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

São Paulo campeão da Sul Americana: título marcado pela violência


“...al final del primer tiempo hubo jugadores agredidos y que los amenazaron con armas de fuego.”

A violência contaminou a final da Copa Sul Americana, vencida pelo São Paulo ao bater o Tigre da Argentina por 2 a 0. Os argentinos, que não voltaram para o segundo tempo, acusam o Paulo F.C. e a Polícia Militar de usarem de violência, intimidar sua equipe, inclusive com arma de fogo (não se sabe ao certo se de seguranças do clube ou se da PM).

O presidente do clube argentino, Sergio Massa, disse: “Es una de las páginas más vergonzosas del fútbol brasileño. Vinimos a jugar un partido, no una guerra… Se tuvieron que comer un arma de fuego en el pecho y hay jugadores con puntos de sutura…”

Fora as aspas em espanhol, reproduzo trecho de matéria do Uol:

Segundo alegou a assessoria de comunicação do Tigre, os jogadores do clube foram recebidos aos socos e pontapés pelos seguranças do São Paulo ao chegarem no vestiário (...) e a PM também partiu para a violência, e armas foram sacadas, o que gerou a iniciativa de não voltar a campo para o segundo tempo (...) O fato foi negado pelos são-paulinos.

Enfim, ouvi no rádio entrevistas de gente do staff do Tigre e parece que o clube e torcida argentinos, que foram recebidos a pedradas pelos são-paulinos, precisam ser ouvidos. A violência protagonizada contra os argentinos precisa ser apurada.

Sobre futebol




Depois de quatro anos sem um título nem de campeonato de botão, o São Paulo ganha a Copa Sul Americana e a torcida comemora como se fosse uma Libertadores.  Como dizia um amigo meu, “título é título”. Comemore-se! Eu mesmo “comemorei” a Recopa Sul Americana que o Santos levantou este ano, na final contra o chileno Universidad de Chile  no dia 26 de setembro, mas, tempos depois, precisei ser lembrado do fato pelo companheiro corintiano Felipe Cabañas...

Mas a Recopa pelo menos tem um glamour. Já a Sul Americana só serve para uma coisa: classificar à Recopa, sem contar, claro, a recente norma que também classifica o campeão da competição à Libertadores (o que, no caso do São Paulo, nada significa, já que o Tricolor já estava na Libertadores de 2013 por sua quarta colocação no Brasileiro). Sendo assim, Corinthians x São Paulo farão a disputa pelo título da Recopa no ano que vem. Bacana.

Após o título Brasileiro de 2008, o Tricolor continua, sim, devendo um título importante a sua torcida.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Duelo de grandes com egípcios e mexicanos no caminho


MUNDIAL DE CLUBES

Tite e Benítez: dois favoritos, duas trajetórias, duas zebras no caminho

Este é um post de vida curta, efêmero. Pois já na manhã desta quarta-feira, 8:30 da matina, o Corinthians faz a semifinal pelo Mundial de Clubes contra o Al Ahly, do Egito. Claro que o post terá vida um pouco mais longa se o Timão não "mazembar".

Evidentemente, a esmagadora maioria de paulistanos e paulistas estará torcendo para a “Primavera Árabe” no futebol, com o perdão da figura de linguagem.

Teoricamente, sempre teoricamente, deve dar Corinthians, assim como o Chelsea (o São Paulo de Londres, como alguém já disse neste blog) é favorito contra o Monterrey do México, na quinta também às 08:30.

Particularmente, eu acharia muito interessante uma final entre egípcios e mexicanos. Seria a prova de que “um outro mundo é possível” também no futebol. Se assim for, no domingo 16 de dezembro veremos às 8:30 da manhã Monterrey x Al Ahly, disputando o título.

Ou será Corinthians x Monterrey? Ou Al Ahly x Chelsea? Ou Chelsea x Corinthians?

Fazendo um recorte, considerando apenas os grandes, temos dois treinadores: Rafael (Rafa) Benítez pelo Chelsea e Tite pelo Corinthians.

Rafa Benítez substituiu Roberto Di Matteo no Chelsea, campeão europeu, há apenas 20 dias, e parece ter estancado a crise no clube londrino. Tite é o técnico do Corinthians desde 2010, quando faltavam oito rodadas para o fim do Campeonato Brasileiro. Sobreviveu (mérito de Andrés Sanchez) à derrocada na pré-Libertadores em fevereiro de 2011, quando o Timão foi eliminado pelo Tolima da Colômbia, e conquistou o título sul-americano de 2012.

Fazendo outro recorte, considerando títulos internacionais relevantes, os treinadores conquistaram:

Benítez: Copa da Uefa (2003–2004), pelo Valência; Liga dos Campeões da UEFA (2004–2005), pelo Liverpool; Mundial de Clubes pela Internazionale de Milão em 2010 (contra o Mazembe).

Tite: Copa Sul-Americana (2008), pelo Internacional; Libertadores (2012) pelo Corinthians.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Em nota, PT defende Lula e diz que é alvo de setores que 'perderam privilégios'


Da Rede Brasil Atual

A Direção Nacional do Partido dos Trabalhadores divulgou há pouco uma nota oficial em que “lamenta o espaço dado pela imprensa para as supostas denúncias assacadas pelo empresário Marcos Valério contra o partido e contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva”.

Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, o empresário Marcos Valério teria afirmado, em depoimento prestado em setembro à Procuradoria-Geral da República, que o chamado esquema do "mensalão" ajudou a bancar "despesas pessoais" do ex-presidente.

De acordo com a nota do PT, assinada pelo presidente nacional do partido, deputado estadual Rui Falcão (SP), “caso essas declarações efetivamente tenham sito feitas em uma tentativa de ‘delação premiada’, deveriam ser tratadas com a cautela que se exige nesse tipo de caso. Infelizmente, isso não aconteceu”, diz o comunicado.

A nota diz também que depois de completar “quase dez anos à frente do governo federal, período em que o Brasil viveu um processo de desenvolvimento histórico e em que as classes populares passaram pela primeira vez a ter protagonismo no nosso país, o PT é alvo constante de setores da sociedade que perderam privilégios”.

O partido lembra “a vitória das eleições de outubro”, quando foi o mais votado no primeiro turno na soma das cidades, com 17,2 milhões de votos. “A campanha difamatória que estamos sofrendo nos últimos meses não impediu nossa vitória e nem conseguirá manchar o trabalho que nosso partido tem realizado em defesa do país, da democracia e, principalmente, da população mais pobre.”

A nota petista também declara que “as supostas afirmações desse senhor [Marcos Valério] ao Ministério Público Federal, vazadas de modo inexplicável por quem teria a responsabilidade legal de resguardá-las, refletem apenas uma tentativa desesperada de tentar diminuir a pena de prisão que Valério recebeu do STF”.

Em 14 de novembro, em coletiva realizada em São Paulo, o partido divulgou nota com duras críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo julgamento da Ação Penal 470, o mensalão. Na ocasião, o partido disse que "o Supremo recorreu a teoria nascida na Alemanha nazista" na condução do caso.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Lula na Alemanha: 'Democracia é uma sociedade em movimento à procura de novas conquistas'


Enquanto no Brasil o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é vítima de um ódio de classe sem fim e da perversa perseguição dos cães de guarda do preconceito, que se valem das vozes mofadas do udenismo redivivo para atacar a achincalhar o homem que mudou o país, na Alemanha ele é visto e tratado como estadista.

Lula participou ontem, 7 de dezembro, do Congresso Internacional dos Metalúrgicos da Alemanha, o IG-Metal, e de um evento na Fundação Friedrich Ebert, ligada ao Partido Social Democrata da Alemanha. Foi intensamente aplaudido. Depois, concedeu entrevista excclusiva à TVT. Assista:



Imagem da semana – jornalismo marrom


Por falta de tempo, publico só hoje, mas em tempo para pelo menos ficar registrado no blog mais um símbolo do caráter inescrupuloso da "oposição" a Lula. O colunista Ricardo Setti, da fétida revista Veja, conhecida pelo estilo jornalismo marrom da pior espécie, publicou em seu blog uma foto-montagem em que Lula aparece abraçado com dona Marisa e uma mulher que seria Rosemary Noronha, envolvida na chamada Operação Porto Seguro, da Polícia Federal, em que é apontada por ter supostamente recebido pagamentos em troca de favores. Só que a “Rose” da imagem que circulava na web na verdade não era “Rose”, cuja "cabeça" foi colada na foto de maneira grosseira.



Depois, o incauto colunista percebeu que, no afã de enlamear a figura do ex-presidente, usou uma foto falsa e tinha sido levado a erro. E admitiu:

"Errei ao publicar foto falsa de Lula com “Rose” e dona Marisa que, na verdade, era uma montagem. Peço desculpas aos leitores e às três pessoas que aparecem na montagem."

A foto original, que, ao melhor estilo stalinista, foi falseada, é esta abaixo, em que Lula aparece com dona Marisa, Neguinho da Beija-Flor e a mulher do sambista, Elaine Reis, feita no carnaval de 2009 (compare as cabeças da mulher à esquerda nas duas fotos). Sem comentários.

Foto: Ricardo Stuckert/Sambódromo, 2009
Na foto real, Lula, dona Marisa, Neguinho da Beija-Flor e a mulher, Elaine Reis

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Pequena pensata sobre o 21 de dezembro


Hoje faltam 15 dias para o mundo acabar, dizem os consumistas da mais recente teoria apocalíptica, a já mais do que desmentida “profecia” maia que os maias nunca profetizaram, mas que é responsável por milhões de livros vendidos, filmes de gosto duvidoso e documentários oportunistas em canais pagos.

Foto: Edu Maretti
Parece o fim do mundo, mas é só o pôr do sol entre nuvens escuras

Seja como for, vou ver se nesses 15 dias publico alguns posts sobre esse tema. Vai que o mundo acaba mesmo! (risos).

Faz um tempo que sempre quando ouço algo sobre isso me vem à lembrança a cena de um filme que vi no início do ano e sobre o qual já escrevi aqui: A vida de Hildegard von Bingen.

No início do filme da diretora alemã Margarethe von Trotta, cuja história acontece no século XII d.C. na Alemanha, vemos um ambiente escuro, repleto de velas acesas, pessoas orando, chorando, se penitenciando, autoflagelando-se. Elas acreditam que estão vivendo a última noite antes do fim do mundo. É que o décimo primeiro século está acabando e, junto com ele, a Terra. Mas eis que de repente um homem acorda, e, com uma expressão de surpresa, quase assombro, ele percebe que a luz entra pelas frestas. Ele chama uma criança, uma menina, para mostrar-lhe que o dia está amanhecendo, que o sol nasce mais uma vez.

Essa cena é marcante no filme, que recomendo.

O problema é que, nos dias de hoje, até mesmo o outrora episódico fim do mundo virou mercadoria. Toda hora algum maluco prevê uma data para o armagedon, ou um perspicaz estudioso da cultura maia encontra uma data para fazer uma aposta (na maioria das vezes apostas que dão lucro). Antigamente o ser humano celebrava essa crença no fim só de século em século, no máximo. Era mais suave. Mas, apesar da fé humana no fim do mundo se renovar sempre, acabar mesmo parece que o mundo (ou a civilização) só acabou uma vez até hoje, pelo menos segundo a Bíblia. “O mundo acabou em água (Noé), e da próxima vez vai acabar em fogo”. Quem, de minha geração, hoje entre 40 e 50 anos, não ouviu essa frase quando criança, dos nossos avós? Mas era algo distante, quase como uma fábula, embora uma fábula pela qual nos eram transmitidos o medo e a culpa.

Agora não, não é mais de século em século, nem mesmo entre décadas: vira e mexe surge uma nova data para o final dos tempos. No ano passado mesmo um desses “pastores” norte-americanos disse que o 21 de maio de 2011 era o “Dia do Juízo”. Pronto, um monte de gente acreditou nesse cretino, mas, felizmente, o dia 22 de maio amanheceu, como sempre – e como se esperava.

Agora vamos aguardar o dia 22 de dezembro de 2012. Depois disso, pensar com mais calma, tendo consciência, claro, de que um dia o mundo vai de fato acabar. Ou em decorrência de fatores cósmicos – o que pode acontecer neste instante ou daqui a milhões de anos –, contra os quais o homem nada pode fazer, ou fruto da destruição da terra pelo próprio homem, possibilidade que parece mais provável na atual conjuntura da história do planeta, mas que o homem ainda pode evitar.

*PS: Os comentários postados no post (veja em "comentários", abaixo) me impelem a acrescentar esta nota para dizer que no dia 22 de outubro do ano passado eu publiquei aqui um áudio da Adriana Calcanhotto cantando um delicioso samba de Assis Valente que vem a calhar. Ouça aqui: "E o mundo não se acabou".

*Atualizado à 1:17 de 7/12/2012

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O lendário Estádio Olímpico


Neste domingo, 2 de dezembro, foi realizada a última partida de futebol no Olímpico, um Gre-Nal emblematicamente sem gols, como se o próprio palco de tantas conquistas estivesse de luto. Nunca vi um jogo no Olímpico, inaugurado no dia 19 de setembro de 1954. Em junho de 2010, estivemos lá, as arquibancadas vazias, num meio de tarde, para uma visita turística ao místico e acolhedor estádio que em nome do progresso será demolido para dar lugar a um shopping. As fotos são dessa visita.

A nova casa do Grêmio partir de 2013 será uma moderna arena no bairro Humaitá, zona norte da cidade.

Fotos: Edu Maretti (exceto a última) - Clique para ampliá-las




sábado, 1 de dezembro de 2012

Santos bate fácil o Palmeiras na Vila na despedida do Brasileirão 2012; clássico, agora, só em 2014


Numa muito boa partida, mas sem nenhum interesse a não ser a velha rivalidade, o Santos perdeu a oportunidade de aplicar uma sonora goleada no Palmeiras na Vila Belmiro, na despedida de ambos os times do Brasileiro de 2012. Bateu o rival, já rebaixado, por 3 a 1 na Vila. Os times só voltarão a protagonizar o tradicional clássico pela "maior competição nacional" em 2014, se o Alviverde subir no ano que vem.

Ivan Storti - Divulgação/ Santos FC
O camisa 11 fez dois e deu o passe para outro. Fora o show

Um primeiro tempo disputado e empolgante, espetacular, com quatro gols, e um segundo decepcionante, que valeu por Neymar. O jogo começou com o Palmeiras abrindo o placar em lançamento de Barcos à la Gerson que colocou Maikon Leite livre para bater firme e fazer um golaço logo aos 4 minutos (veja os melhores momentos no vídeo abaixo).

Muitos palmeirenses devem ter se perguntado por que Maikon Leite não fez isso antes, em jogos nos quais perdeu gols mais fáceis, quando o time ainda brigava para não cair.

Apesar do placar adverso, o Peixe não se abateu e pressionou jogando na velocidade imprimida por Neymar. E, com facilidade, apesar dos sustos provocados pela avenida Juan (o péssimo lateral são-paulino que Muricy adora), virou o jogo. O craque desequilibrou, para variar. Deu o passe para Victor Andrade (aos 12) empatar e o próprio Neymar virou aos 22, de pênalti (indiscutível), e aos 38 minutos do primeiro tempo deu números finais ao placar, com um golaço ao seu estilo (não vou descrever, o link está abaixo).

O zagueiro Roman, do Palmeiras, foi a nota lamentável do ótimo primeiro tempo. Como um cavalo, deu um coice no tornozelo de Neymar por trás, tomou amarelo, e minutos depois puxou a camisa do 11 santista na área: pênalti e expulso. Jogador de segunda divisão, mesmo. Aos 21 minutos o Verdão tinha dez em campo. Acabada a primeira etapa, 3 a 1 fácil, com o time verde completamente envolvido pelo aversário.

Segundo tempo

A segunda etapa começou com a torcida santista sonhando com uma goleada histórica, o que parecia provável pela avalanche alvinegra ao virar a partida. Mas parece que o time preferiu puxar o freio de mão, em respeito ao adversário. Mesmo com o bom volante Alan Santos expulso pelo segundo cartão amarelo, aos 10, se forçasse, o time de Neymar ampliaria o marcador. Preferiu deixar o Palmeiras ter mais posse de bola e jogar para manter os 3 a 1, que acabaram sendo um pouco decepcionantes.

O que valeu no segundo tempo foi Neymar mesmo. Apesar da partida cair muito de ritmo, o camisa 11 fez jogadas de efeito, de craque, pouco vistas no futebol, mas que com ele se tornaram normal nos jogos do Santos. Continuou sua toada, dando show e recebendo coices e puxões como do tal Roman.

Bonito o gesto do Santos, que entregou pelas mãos de Neymar uma placa às mãos do palmeirense Mauro Beting, em homenagem ao falecimento de seu pai, o jornalista Joelmir, dia 29.

E assim termina o ano de 2012, trágico para o Palmeiras e melancólico para o Santos em seu centenário, com um único título, o Paulista, e sequer uma vaga na Libertadores. O pior é que os santistas teremos que aguentar a carranca de Muricy em 2013.

Peixe só perdeu um clássico; Verdão não ganhou nenhum

Seja como for, a despedida do Brasileirinho ganhando um clássico tem um sabor agradável. Na competição, o Santos perdeu apenas um jogo para grandes de SP: para o São Paulo (0 a 1) em 10 de junho pelo primeiro turno, o Peixe com o time reserva. No returno com o Tricolor, 0 a 0. Contra o Corinthians, uma vitória (3 x 2 na Vila) e um empate (1 x 1 no Pacaembu). E contra o Alviverde, duas vitórias alvinegras: 2 x 1 e 3 x 1.
Já o rebaixado Palmeiras, que ficou 32 rodadas entre os quatro últimos (o que mostra quão justo foi o rebaixamento), não ganhou sequer um clássico no campeonato.

Agora, só em 2014, se subir.

Santos 3 x 1 Palmeiras - Vila Belmiro, 1°/12/2012




*Atualizado à 01:27

'Temos a responsabilidade de apresentar um futebol bonito', diz Dilma em sorteio


Copa das Confederações 



Alguns trechos do discurso da presidente no sorteio dos grupos da Copa das Conferedações, que acontece em junho de 20013 no Brasil:

"...teremos uma dupla responsabilidade neste torneio. A primeira, claro, é apresentar nos gramados um futebol bonito, que honre a tradição brasileira pentacampeã mundial."

"Para nós, vencer a Copa das Confederações dentro de campo será uma missão.Também temos a obrigação de vencê-la fora de campo, construindo todas as condições para realizar uma Copa das Confederações inesquecível."

"...o Brasil que é um país democrático, que convive em paz com todos seus vizinhos, que tem uma economia forte (...), que não tem uma cultura de preconceitos nem tampouco uma cultura de exclusão."

A seleção brasileira está no grupo A do torneio, que dizem ser o "grupo da morte", com Japão, México e Itália. O grupo B terá Espanha, Uruguai, Taiti e uma seleção africana ainda não definida.

Leia também: A entrevista de Dilma ao El País e o 'mensalão', segundo o jornal espanhol.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Nações Unidas dizem sim à Palestina


Não podia descansar sem registrar um fato que, como eu já disse aqui, é a causa mais importante do início do século XXI: o reconhecimento da Palestina como Estado.

A Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou o pedido da Palestina de ser reconhecida como Estado observador na comunidade internacional. É o mesmo status que tem o Vaticano. O requerimento, apresentado pelo presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, foi aprovado por 138 votos das 193 nações votantes. Outros 41 países se abstiveram e apenas nove votaram contra, claro que Israel e Estados Unidos entre estes. Os outros sete contrários são Canadá, República Tcheca, Palau, Nauru, Micronésia, Ilhas Marshall e Panamá.


Placar da Assembleia Geral das Nações Unidas – quinta-feira, 29/11/2012

O fato tem uma importância política e diplomática enorme. Significa que a partir de agora “o território de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental passam a ser territórios ocupados [por Israel] de um Estado já reconhecido pela ONU”, me disse o embaixador da Palestina no Brasil, Ibrahim Alzeben, para matéria que vai sair nesta sexta na Rede Brasil Atual.

De resto, a posição de Israel e Estados Unidos foi fragorosamente vencida por 138 países contra nove e 41 abstenções (os que votaram envergonhadamente contra os palestinos). Entre os que se abstiveram, duas potências europeias, Alemanha e Grã-Bretanha.

A posição de Israel e Estados Unidos os isola ainda mais numa posição retrógrada que não chega nem perto do acordo de Oslo (Noruega) em 1993 (19 anos atrás), mediado pelo então presidente Bill Clinton e assinado pelo premiê israelense Yitzhak Rabin e o líder palestino Yasser Arafat. Pelo acordo de Oslo, por um momento o mundo acreditou que a paz surgira no Oriente Médio. Mas infelizmente Rabin foi assassinado por um fanático judeu ortodoxo ultradireitista e a paz dançou.

O Estado palestino agora tem poder de voz, e não ainda de voto, o que só chegará quando for admitido como Estado pleno. Mas o avanço é evidente.

Do primeiro ministro israelense, Benjamin Netanyahu, não se podia esperar atitudes enobrecedoras, é preciso admitir. Como direitista que é, prefere a guerra. Com sua intransigência, Netanyahu prefere negar o acordo com o moderado Mahmoud Abbas para continuar tendo como único diálogo o diálogo da guerra com o Hamas.

Mas de Barack Obama esperava-se alguma grandeza. No episódio histórico na ONU hoje, objeto deste post, a postura dos Estados Unidos de Obama mostra que, como estadista, ele é um zero à direita.

Leia também: entrevista com o antropólogo e fotógrafo Rogério Ferrari

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Felipão e Parreira são a mesmice, mas com Mano Menezes era avacalhação


Formada por Luiz Felipe Scolari (pentacampeão em 2002) e Carlos Alberto Parreira (tetra em 94), já temos a "supercomissão" técnica que comandará a seleção do Brasil na Copa de 2014. Para resumir em uma expressão, aliás já citada na rede hoje: mais do mesmo.


Agora é suar a camisa (e a toalha) pela famiglia Scolari

Como já falei, não gosto do futebol gaúcho e tampouco do parreirismo. Acho tão enfadonho repetir e ficar falando de Felipão e Parreira. De novo! Quem aguenta? O futebol brasileiro é um dos setores em que as décadas passam e tudo continua igual, a mesma cartolagem, os mesmos manda-chuvas e coronéis; os mesmos métodos e o cinismo de sempre. No caso de Felipão e Parreira juntos, arrogância redobrada.

Um colega de redação comentou hoje: "com Felipão fica mais fácil torcer contra". O outro rebateu, ao mesmo tempo sério mas também em tom de brincadeira: "torcer contra eu não torço! Isso é coisa de paulista". Enfim, à escolha do freguês. Não sei se é torcer contra, mas para mim a seleção cada vez interessa menos. Isso chegou ao ápice com Mano Menezes, período em que a "seleção canarinho" chegou quase à avacalhação, de fato. Parreira e Felipão pelo menos impõem mais respeito... É menos pior do que Mano, reconheçamos. O futebol brasileiro é tão retrógrado que a opção pelos treinadores campeões de 1994 e 2002 se torna uma evolução, se comparada com a finada era Mano.

Dedico três linhas a futebol propriamente dito: Parreira me parece taticamente mais inteligente do que Felipão. Este, francamente, era para mim a pior opção entre os nomes especulados. Falando só de futebol, eu escolheria Luxemburgo ou Pep Guardiola. Mas até Parreira eu preferia a Felipão.

De resto, repito as palavras que disse em post de dias atrás:

Não vibrei com Parreira em 94, mas vibrei com Felipão em 2002. Porém, vibrei menos pelo treinador do que pelos achados de Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo e Ronaldo Nazário nos jogos mais importantes, contra Inglaterra e Alemanha – neste, 2 a 0 na final, dois gols de Ronaldo. Vibrei até com Cafu erguendo a taça. Mas não com Scolari, que, ainda mais, hoje está totalmente ultrapassado.

Acrescento que, em 94, só vibrei com Romário. Especialmente na antológica jogada em que ele carrega a bola desde o meio campo e dá de bandeja pra Bebeto bater como um taco de sinuca, de primeira, no 1 a 0 contra os Estados Unidos. Um dos grandes gols que eu vi.

Parreira conseguiu um feito até então inédito: foi o primeiro a ganhar a final de uma Copa do Mundo nos pênaltis (em 2006, Marcello Lippi igualou a proeza com o título da Itália contra a França nas penalidades máximas). Mas de Parreira, o título de ineditismo nesse quesito ninguém tira.

E Felipão? Vamos ter que engolir.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Fora Muricy ou não?


Ricardo Saibun - Divulgação/Santos FC
Duas opiniões, opostas, sobre a questão: o Santos deve manter Muricy Ramalho ou deveria demiti-lo?

Olavo Soares, do blog Escanteio Curto (santista):

Pode soar um tanto quanto imediatista pedir a demissão de um técnico que deu ao Santos dois títulos paulistas e a tão sonhada Libertadores. Mas não há como não pensar diferente (...)

(...) o Santos, hoje, é um bando. Um time desorganizado, sem opções táticas (...) Não há criatividade ofensiva e nem mesmo uma solidez na defesa que poderia nos fazer crer que a insatisfação dos santistas com o técnico deriva de sua fama de retranqueiro.

(...) A ausência de Neymar em grande parte dos jogos deste ano era previsível (...) A previsibilidade é o que determina a falha de Muricy. Ele tinha a informação e, portanto, tinha a obrigação de saber lidar com ela. (...) Não há como fugir do óbvio outra vez: se não fosse Neymar e suas poucas aparições no Brasileiro, estaríamos na zona do rebaixamento.

(...) Por isso é hora de agradecer a Muricy pelo bom trabalho no primeiro semestre de 2011, e permitir que ele e o Santos tenham vidas novas, distantes um do outro.

Fora Muricy.


Rice Araújo, artista, ilustrador, chargista (e santista)

Eu acho que o Muricy deve continuar, sim. Claro que todos os times têm altos e baixos e se a cada curva negativa trocarmos as peças não teremos os benefícios de um grupo mais unido, sólido e estável. Não acho que a fase pela qual passa o Santos seja algo tão lastimável que só a troca do técnico consertaria.

Pra mim é uma flutuação normal de um time que tem que se reencontrar após um certo caos que ocorre após todas as mudanças, e a superexposição do Neymar, merecida diante de seu talento, deve estar causando também algumas dificuldades de relacionamento nos bastidores, o que era bem previsível que ocorresse em algum momento.

Creio que um técnico com a experiência do Muricy pode administrar os egos no vestiário e acelerar esse processo de acomodação da equipe, saindo dessa fase com um time tão unido quanto no final de 2011.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Operação da PF mostra 'banalização' da violação à privacidade

Foto: Marcelo Camargo/ABr
O superintendente da PF Roberto Troncon (centro) entre
os delegados Julio Cesar Baida (esq) e Valdemar Latance Neto
Publicado na
Rede Brasil Atual


A Operação Durkheim, deflagrada pela Polícia Federal hoje (26), prendeu 33 pessoas com mandados de prisão temporários e executou 87 mandados de busca e apreensão em seis estados: São Paulo, Goiás, Pará, Pernambuco e Rio de Janeiro, além do Distrito Federal.
Em entrevista coletiva, o superintendente da PF em São Paulo, Roberto Troncon, disse que a operação desbaratou dois grupos criminosos ao mesmo tempo a partir de um investigado comum às duas organizações. Um bando era especializado na espionagem ilegal da vida privada das pessoas usando a violação de sigilo fiscal, telefônico e até consulta de banco de dados criminais protegidos. O outro tinha como especialidade remessas ilegais ao exterior de recursos de origem ilícita ou não declarada.

Um senador, um ex-ministro, dois desembargadores, dois prefeitos, um banco e uma filial de emissora de televisão são vítimas dos criminosos, segundo a Polícia Federal. Investigado pela Operação Durkheim, o vice-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e presidente da Federação Paulista de Futebol (FPF), Marco Polo Del Nero, prestou depoimento pela manhã na sede da PF na capital paulista.

Troncon e dois delegados que participaram da coletiva disseram que nenhum dado sobre os acusados seria revelado, em respeito à preservação da imagem e à presunção da inocência. O processo corre em segredo de justiça. Sobre o cartola Del Nero, a única informação foi passada pelo delegado Valdemar Latance Neto: “Nesse caso, como há muita especulação, o que podemos garantir é que não diz respeito a futebol. Se ele foi indiciado ou não, essa informação está coberta por sigilo”, informou.

Latance afirmou que ficou clara nas investigações a “banalização da violação do direito à privacidade”, acrescentando: “Surpreendeu muito a grande facilidade em se obter esses dados sigilosos.” Segundo ele, há “uma quantidade imensa de vítimas das quadrilhas. Estimamos em cerca de cinco mil, sete mil, dez mil”.

Pessoas que se identificavam como “detetives” obtinham cadastros sigilosos por meio de funcionários ou pessoas ligadas a operadoras de telefonia, policiais e até um servidor público do Serpro. “Os dados sigilosos eram vendidos a preços módicos por intermediadores, por cerca de R$ 50 um extrato telefônico”, exemplificou Latance. “O cadastro chegava ao ‘consumidor final’ por 300 reais”. Os compradores adquiriam os cadastros por vários motivos, dos mais banais, como suspeita de traição, até os motivados por espionagem empresarial. Um grande escritório de advocacia estava envolvido no esquema, mas seu nome, como os outros, não foi revelado.

Do total estimado, há 180 vítimas comprovadas que tiveram sigilo fiscal, telefônico ou bancário devassados pelo grupo. Todas as vítimas identificadas, inclusive as autoridades dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, serão notificadas e ouvidas na qualidade de vítimas nas próximas semanas. De acordo com a PF, foram apreendidos R$ 600 mil e 27 veículos de luxo.

A investigação começou a partir da morte de um policial federal em Campinas (São Paulo) em dezembro de 2010. Ele teria se suicidado e antes divulgou uma série de dados sobre envolvimento de outros policiais em atos de corrupção e informações sigilosas. Daí o nome que inspirou a operação: Émile Durkheim (1858-1917) foi um sociólogo francês e autor do livro O Suicídio (1897).

sábado, 24 de novembro de 2012

Duas visões sobre a queda de Mano Menezes e o próximo técnico da seleção


Reprodução
Muita gente acha que a seleção brasileira, cada vez mais, só serve para atrapalhar o futebol no país. Para os torcedores do Santos, isso cala mais fundo atualmente. O clube fez um esforço inédito, manteve o craque Neymar contra a investida dos poderosos Chelsea, Barcelona e Real Madrid e, no entanto, o atleta desfalcou a equipe 12 vezes durante o Brasileirão.

O Santos ganhou no Campeonato Brasileiro de 2012 cerca de 70% dos pontos que disputou com Neymar no time (faço uma estimativa tendo em mente que, em setembro, o índice era realmente de 74% dos pontos conquistados com ele em campo, e pífios 24,5% sem o craque). O índice de aproveitamento da equipe com Neymar, em torno de 70%, é o índice de aproveitamento do Fluminense, campeão brasileiro.

Voltando ao fato do dia, a súbita queda de Mano Menezes vai fazer com que as apostas sobre seu substituto se prolonguem até janeiro, quando a CBF disse que vai anunciar o treinador que comandará o balcão de negócios na Copa do Mundo. Para quem ainda torce muito pela seleção brasileira (ainda há pessoas assim?), ou no mínimo tem interesse por ela, a queda do treinador deve ser comemorada, já que com Mano acho que ganhar a Copa seria muito difícil.

No caso deste blogueiro, penso que há duas maneiras de raciocinar sobre o tema queda de Mano Menezes e quem será o sucessor.

Raciocínio 1: esquecendo o lado “balcão de negócios”

Deixando de lado por um momento o caráter balcão de negócios de tudo isso, só pensando em futebol, temos algumas opções: Vanderlei Luxemburgo? Felipão? Muricy Ramalho? Abel Braga? Tite? Pep Guardiola? Eu preferiria Luxemburgo. Na seleção ele teria que render e para isso precisaria esquecer seu complexo de manager por (apenas) menos de dois anos, até a Copa do Mundo. Teria de ser uma gestão pragmática, mas o treinador entende muito de futebol e seria o candidato a apresentar um time mais bonito de se ver jogar.

Falam que Felipão é favorito. Será? Primeiro, opinião pessoal, escola gaúcha no me gusta. Portanto eu tiraria da lista de cara também Tite. Em segundo lugar, independentemente do que eu acho, com paulistas aparentemente no comando da CBF (Marin, Marco Polo Del Nero), será que optariam por uma solução gaúcha para o comando técnico? Pode ser que sim, pode ser que não. Meu palpite é que não. Ou será que torço pra que não?

Enfim, Muricy e Luxemburgo seriam candidatos fortes numa solução paulista para a seleção. Embora carioca, Luxemburgo de certa forma se “paulistanizou”, já que suas grandes conquistas foram em São Paulo por três grandes clubes do estado: Palmeiras (1993/94 e 96), Corinthians (1998) e Santos (2004 e o menos brilhante Peixe de 2006/07).

São só especulações, mas eu não acharia a solução Guardiola ruim. Consta que inclusive ele teria se oferecido ao cargo. É preciso parar com esse corporativismo meio falso. Todos os mais cotados treinadores brasileiros cobiçam o posto vago, embora se declarem condoídos com a demissão do colega Mano. Já Guardiola com certeza faria algo mais inquietante, eu diria, do que essa mesmice de Muricy, Tite e Felipão, e até de Abel Braga. Futebolisticamente falando, por mim, ficaria entre Vanderlei e Pep. Ponto.

Raciocínio 2 – Pensando como santista

Neste caso, meu raciocínio já seria outro. Como torcedor do Peixe, eu indicaria Muricy para substituir Mano Menezes. Seria a forma mais rápida e indolor, sem traumas, de meu time se livrar do treinador. Que tem seus méritos, reconheço, mas não é um estilo que combina com o Santos. O futebol dos seus times é feio, e eu não gosto do meu time jogando feio. (Não vibrei com Parreira em 94, mas vibrei com Felipão em 2002. Porém, vibrei menos pelo treinador do que pelos achados de Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo e Ronaldo Nazário nos jogos mais importantes, contra Inglaterra e Alemanha – neste, 2 a 0 na final, dois gols de Ronaldo. Vibrei até com Cafu erguendo a taça. Mas não com Scolari, que, ainda mais, hoje está totalmente ultrapassado.)

Indo para a seleção, portanto, Muricy ficaria feliz, realizaria o sonho de todo técnico, e o Peixe poderia retomar o rumo do futebol que tem a ver com suas tradições e sua escola, as quais o técnico são-paulino é incapaz de entender, pelo menos segundo o que demonstrou até aqui, um ano e sete meses após assumir.


*Atualizado às 02:20


quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Os caminhos da liberdade de Jean-Paul Sartre [1] – A idade da razão


Reprodução
Primeiro romance da trilogia Os caminhos da liberdade, o romance A idade da razão (1945) foi concebido na tensa Europa do pré-Segunda Guerra Mundial, quando as tensões e conflitos de interesses econômico-políticos e a ascensão do nazismo já faziam pairar sobre o continente as sinistras sombras da conflagração mundial.

Nesse ambiente em que a individualidade se esfumaçava, o romance, corajosamente, e traduzindo para a linguagem da ficção os preceitos da filosofia existencialista, faz prevalecerem os conflitos individuais e os problemas de consciência de pessoas comuns: o professor de filosofia Mathieu Delarue (alter-ego do próprio Jean-Paul Sartre) busca uma moral livre do modo de ser burguês e cristão (ou burguês e cartesiano, já que no livro a tensão se fragmenta entre os personagens como uma psique da própria França enquanto nação). Em Sartre, os conflitos individuais não ultrapassam a história. Os egos se espedaçam junto com a história da Europa, em particular a França, conflagrada.

Por meio de uma consciência rigorosa e crítica, porém impotente, Mathieu vive atormentado pela angústia e pela idéia de fracasso. Sua amante Marcelle convive com a paixão platônica de Mathieu pela aluna Ivich.

O homossexual Daniel, personagem considerado por alguns uma citação de André Gide, procura a liberdade anárquica no ato gratuito.

E a liberdade, para o personagem Brunet, não existe individualmente, mas apenas através do engajamento político (de esquerda).

Jacques é o homem cuja verdade consiste no casamento e numa vida “estável”. Cada um dos personagens exercita, na medida em que faz uso do livre-arbítrio, o conceito filosófico segundo o qual “o homem está condenado à liberdade”.

À maneira de Flaubert, todos os personagens de A Idade da razão são pequeno-burgueses medíocres. Ou, talvez, melhor dizendo, não-heróis.

A trilogia continua com Sursis (a obra-prima dos três livros) e Com a morte na alma. Em outra ocasião falarei dessas obras.

Leia também: Sartre resiste ao século.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

De volta à segunda divisão


Dez anos depois de cair pela primeira vez, Palmeiras é rebaixado para a Série B do Campeonato Brasileiro

Reprodução
Incredulidade: o sentimento palmeirense

Por Paulo Maretti

Sob o comando de Luiz Felipe Scolari até a 24ª. rodada, o time, com elenco limitado, optou por priorizar o mata-mata do primeiro semestre e “deixar pra lá” o começo da competição nacional, acreditando que facilmente poderia reverter eventuais adversidades. Ou, em uma segunda hipótese, Felipão preferiu ficar com as honras do título da Copa do Brasil e abandonar o barco no meio do caminho do Brasileiro para que o contrapeso do título não lhe recaísse sobre as costas e não manchasse seu currículo de grife milionária (a versão de que ele foi demitido é a oficial, mas há quem diga que houve acordo entre as partes).

O técnico agora processa Edmundo por este tê-lo acusado, em comentário na Band, de fazer negócios paralelos com empresários ligados a jogadores do São Caetano, em particular, um tal de Magrão, genro do presidente do Azulão e amigo de Galeano, ex-supervisor de futebol do Palmeiras.

Lembrando o episódio envolvendo o bom meia Pedro Carmona, da base do clube: durante a gestão de Felipão, o Palmeiras recebeu proposta de um clube japonês pelo jogador. De malas prontas para embarcar, a negociação do jovem atleta foi barrada por Scolari, sob a alegação de que o jogador fazia parte de seus planos. Depois disso, o técnico nunca o pôs em campo antes dos 35 do segundo tempo. E o garoto acabou negociado, a preço de banana, com o São Caetano: “O Carmona vai para o São Caetano e vai ser vendido por lá, tem outros vários jogadores do São Caetano caindo de paraquedas aqui. Eu não posso afirmar nada, mas tudo isso é estranho”, disse na ocasião Seraphim Del Grande, ex-diretor de futebol do Palmeiras.

Sobre as pífias administrações que levaram o clube à série B (a primeira de Mustafá Contursi e agora de Arnaldo Tirone, um fantoche dele), não vou ficar repetindo o que todos já sabem. A boa notícia para os palmeirenses é que, com a queda do time hoje, cai também, de uma vez por todas, um mandatário corrupto (Contursi, inclusive investigado pela Polícia Civil). Segundo se veicula, o clube nestas eleições de 2013 já pretende afastar candidatos vinculados ao cartola.

De se ressaltar, a meu ver, o trabalho de Gilson Kleina até aqui. Melhorou muito o time e trouxe vários jogadores da base. Pôs em jogo, hoje, corajosamente, um estreante no time profissional: Bruno Dybal. Pode ser um craque ou uma fiasco, mas só assim se encontra um grande valor entre mil apostas.

Vamos, sim, inaugurar a Arena na série B. Ser grande não é ganhar sempre.

domingo, 18 de novembro de 2012

A entrevista de Dilma ao El País e o 'mensalão', segundo o jornal espanhol


Ricardo Stuckert
Dilma discursa em Cádiz, Espanha, neste domingo, 18 
O jornal El País, da Espanha, publicou hoje uma matéria baseada em conversa do jornalista Juan Luis Cebrián com a presidente Dilma Rousseff, ocorrida na última segunda-feira, dia 12. A matéria não foi publicada à toa hoje: neste domingo, Dilma discursou na sessão de abertura da 22ª Cúpula de Chefes de Estado e de Governo da Conferência Ibero-Americana, em Cádiz, na Espanha. Nela, "voltou a defender o modelo brasileiro de investimento público e abertura de mercados como antídoto contra a crise econômica mundial", segundo a Agência Brasil.

Na matéria do El País, ao contrário do que vemos comumente nas edições publicadas pela mídia brasileira, percebe-se um distanciamento interessante entre o entrevistador, o jornalista do periódico espanhol, e a entrevistada, a presidente Dilma. Distanciamento que, no entanto, não esconde um notório respeito do autor do texto e mesmo admiração que perpassam a matéria, que é bastante abrangente.

Nela, Dilma fala sobre a crise européia, sobre política econômica europeia e brasileira, sobre a época em que o Brasil vivia sob a égide do Fundo Monetário Internacional, sobre a todo poderosa chanceler alemã Angela Merkel, sobre ditadura, sobre polítca.

Fazendo um recorte, me chamou a atenção que o Uol/Folha de S.Paulo também deu chamada para a entrevista de Dilma ao El País. Na edição do veículo dos Frias, o título da matéria é: "Em entrevista a 'El País', Dilma diz que 'acata' sentenças do mensalão". O veículo do grupo editorial sediado na rua Barão de Limeira nem de longe cita, porém, a seguinte passagem da matéria de Juan Luis Cebrián:

"O julgamento, no qual [José] Dirceu assegura ter sido condenado sem provas, foi respingado de interesses políticos e de uma nebulosa campanha midiática contra os acusados cujo objetivo indubitável era manchar a figura do próprio Lula da Silva."

Para melhor entender a entrevista, acho que o internauta pode ir direto à fonte e ler a matéria do El País na íntegra, que está aqui:

“Las recetas que se están aplicando en Europa llevarán a una recesión brutal”

sábado, 17 de novembro de 2012

A tragédia sem fim da Palestina



Fotos: ALI ALI/Lusa/ABr
Gaza - Palestina chora em funeral do irmão Audi Naser, 10 anos, em Beit Hanun,
no Norte da Faixa de Gaza. O garoto foi morto durante ataque aéreo israelense



Beit Hanun - Palestinos carregam corpo do garoto Audi Naser, 10 anos,
durante funeral dele, em Beit Hanun, no Norte da Faixa de Gaza

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A crise na segurança pública: Alckmin, José Eduardo Cardozo e as eleições de 2014


Resgato aqui um vídeo, entre os que se encontram na Web, que mostra um pouco do que o governador Geraldo Alckmin e o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disseram em coletiva na terça-feira 6 de novembro, dez dias atrás portanto, ao anunciarem no Palácio dos Bandeirantes a parceria entre os governos de São Paulo e federal para combater a onda de violência que assola o estado.




Até então, a crise envolvendo Polícia Militar e facções do crime organizado – que faz vítimas a um ritmo de no mínimo dez mortos por dia, segundo estimativas bastante otimistas – estava localizada em São Paulo.

Mas, além de São Paulo, incluindo o interior do estado, já está em Santa Catarina, Florianópolis e sua região metropolitana.

Além do drama representado pela crise na segurança propriamente dita, me parece que a situação tem uma conotação política muito evidente, pensando nas repercussões do tema na eleição de 2014. A impressão que tive, vendo o governador e o ministro se pronunciarem (in loco, lá nos Bandeirantes), foi de que a crise da segurança no fim das contas é uma armadilha na qual Alckmin caiu.

O governador de São Paulo foi obrigado a reconhecer que precisa do Ministério da Justiça e que não pode sozinho combater algo que já supera institucionalmente sua esfera de competência, apesar de ele tanto ter resistido em admitir isso.

O secretário de Segurança Pública de São Paulo, Antônio Ferreira Pinto, falou mais do que convinha durante o processo e agora parece que sumiu de cena. Não é por acaso que o delegado geral da Polícia Civil paulista, Marcos Carneiro, está mais visível. Um dos maiores problemas da gestão em São Paulo, segundo especialistas, é que as polícias militar e civil não conversam, não têm integração (pelo contrário, disputam os holofotes), prejudicando a investigação e a inteligência, de resto essenciais na guerra contra o crime organizado. O delegado Carneiro ter mais visibilidade agora significa o governo paulista tentando dizer mais ou menos o seguinte: “olha, pessoal, a Polícia Civil não está fora do processo, não, viu?”.

Do ponto de vista político, José Eduardo Cardozo aparece de repente como um candidatável ao governo de São Paulo em 2014. No processo que redundou no acordo entre o estado e a União, o ministro da Justiça teve presença mais marcante nas entrevistas coletivas do que o próprio Alckmin, o governador.

Do ponto de vista da segurança pública, a realidade é menos glamurosa. Os toques de recolher em São Paulo continuam, e, ao invés da violência diminuir, ela parece aumentar. A situação que se vê em Florianópolis dá margem a pensar que parece uma doença e os focos da infecção estão se alastrando, o que é muito preocupante.

Atualizado à 01:30 de 17-11-2012

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

"STF deu estatuto legal a uma teoria nascida na Alemanha nazista", diz PT sobre "mensalão"


Após a distribuição de nota oficial a jornalistas presentes no diretório nacional do PT, na tarde desta quarta-feira, o presidente nacional do partido, Rui Falcão, concedeu entrevista coletiva à imprensa. Nela, Falcão não acrescentou muito ao teor do texto previamente divulgado. No qual, aliás, não faltaram a ênfase e um tom há muito reclamado por petistas e mesmo não petistas perplexos diante do julgamento da ação penal 470, vulgo “mensalão”.
Foto: Uiara Lopes/PT
Leia abaixo trechos da nota oficial divulgada pela Executiva Nacional (a íntegra está em link abaixo dos trechos aqui citados).

1. O STF não garantiu o amplo direito de defesa

O STF negou aos réus que não tinham direito ao foro especial a possibilidade de recorrer a instâncias inferiores da Justiça. Suprimiu-lhes, portanto, a plenitude do direito de defesa, que é um direito fundamental da cidadania internacionalmente consagrado (...).

2. O STF deu valor de prova a indícios

Parte do STF decidiu pelas condenações, mesmo não havendo provas no processo. O julgamento não foi isento, de acordo com os autos e à luz das provas. Ao contrário, foi influenciado por um discurso paralelo e desenvolveu-se de forma “pouco ortodoxa” (segundo as palavras de um ministro do STF). Houve flexibilização do uso de provas, transferência do ônus da prova aos réus, presunções, ilações, deduções, inferências e a transformação de indícios em provas (...).

3. O domínio funcional do fato não dispensa provas

O STF deu estatuto legal a uma teoria nascida na Alemanha nazista, em 1939, atualizada em 1963 em plena Guerra Fria e considerada superada por diversos juristas. Segundo esta doutrina, considera-se autor não apenas quem executa um crime, mas quem tem ou poderia ter, devido a sua função, capacidade de decisão sobre sua realização (...).

Ao lançarem mão da teoria do domínio funcional do fato, os ministros inferiram que o ex-ministro José Dirceu, pela posição de influência que ocupava, poderia ser condenado, mesmo sem provarem que participou diretamente dos fatos apontados como crimes. Ou que, tendo conhecimento deles, não agiu (ou omitiu-se) para evitar que se consumassem. (...).

Ao admitir o ato de ofício presumido e adotar a teoria do direito do fato como responsabilidade objetiva, o STF cria um precedente perigoso: o de alguém ser condenado pelo que é, e não pelo que teria feito (...).

Trata-se de uma interpretação da lei moldada unicamente para atender a conveniência de condenar pessoas específicas e, indiretamente, atingir o partido a que estão vinculadas.

4. O risco da insegurança jurídica

As decisões do STF, em muitos pontos, prenunciam o fim do garantismo, o rebaixamento do direito de defesa, do avanço da noção de presunção de culpa em vez de inocência. E, ao inovar que a lavagem de dinheiro independe de crime antecedente, bem como ao concluir que houve compra de votos de parlamentares, o STF instaurou um clima de insegurança jurídica no País.

Pairam dúvidas se o novo paradigma se repetirá em outros julgamentos, ou, ainda, se os juízes de primeira instância e os tribunais seguirão a mesma trilha da Suprema Corte (...).

5. O STF fez um julgamento político

Sob intensa pressão da mídia conservadora—cujos veículos cumprem um papel de oposição ao governo e propagam a repulsa de uma certa elite ao PT - ministros do STF confirmaram condenações anunciadas, anteciparam votos à imprensa, pronunciaram-se fora dos autos e, por fim, imiscuiram-se em áreas reservadas ao Legislativo e ao Executivo, ferindo assim a independência entre os poderes.

Único dos poderes da República cujos integrantes independem do voto popular e detêm mandato vitalício até completarem 70 anos, o Supremo Tribunal Federal - assim como os demais poderes e todos os tribunais daqui e do exterior - faz política. E o fez, claramente, ao julgar a Ação Penal 470 (...).

Leia a íntegra da nota oficial  neste link.