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domingo, 18 de setembro de 2016

Os rios são lindos, mas são traiçoeiros e matam


"Viver é muito perigoso"
(Riobaldo - Guimarães Rosa, em 
Grande Sertão: Veredas)



O rio São Francisco: belo e traiçoeiro, como todos os rios

A trágica morte do ator Domingos Montagner no rio São Francisco me fez pensar em duas coisas. Uma diz respeito à condição humana na sua relação com a natureza. A outra tem a ver com uma experiência pessoal.

A condição humana
Como diz povo do interior, você nunca entra no mesmo rio duas vezes. Um rio muda. Ontem ele era um, hoje é outro. A correnteza, os galhos, as pedras e o acaso se aliam numa espécie de complô da natureza contra o qual o ego, nossa teimosia em dominar a natureza, não pode nada. O ser humano sempre terá a impressão de que a natureza está sob seu domínio, mas não está. Não existe nada mais traiçoeiro do que as águas dos rios.

Lamento pela morte de Montagner, que, pelos relatos, era uma pessoa bacana. Mas a verdade é que os rios matam. Não se esqueça disso.

Uma experiência pessoal
Tive uma experiência com rio que poderia ter me custado muito caro. Estávamos na cidade de Barra Bonita, à beira do rio Tietê, onde você pode nadar (pelo menos era assim há uns dez anos). Havia uma pequena ponte de madeira de onde os meninos mergulhavam no rio, numa algazarra alegre típica de criança.

Vendo aquilo, decidi ir até a pontezinha e também dar um mergulho. Não era uma ponte de uma margem a outra, claro, porque o Tietê é bastante largo. Era uma espécie de pinguela ligando dois braços de terra. A altura da ponte de madeira às águas do rio era bem pequena, uns dois metros apenas. Animado, cheguei à ponte onde havia vários meninos de 12 a 15 anos do lado direito. Do lado esquerdo, célere, quase imediatamente saltei pra mergulhar. Nesse momento, no lapso de uns dois segundos entre o salto e o mergulho, eu ouço a voz de um menino dizendo: 

– Aí nããããããoo!!

A frase bateu diretamente no meu corpo. Num reflexo, eu fiz o que se pode chamar de uma arremetida (como se diz na aviação), e ao invés de mergulhar estiquei o máximo que pude os braços para cima e entrei na água de barriga. 

Ao voltar do mergulho abortado, dentro do rio, um rapaz de uns 16 anos nadou até mim e perguntou preocupado:

– Tudo bem, véio? 

– Tudo – respondi. 

É que eu tinha saltado justamente do lado da ponte em que era muito raso e cheio de pedras, tipo a um metro ou menos da superfície. Não fosse aquela vozinha de criança ("Aí nããããããoo!"), eu poderia ter quebrado a mão ou os braços, a cabeça, a coluna cervical ou mesmo ter morrido. Por sorte, aquele menino agiu como um anjo da guarda.

Por isso, eu sempre digo. Cuidado com o rio, se você não o conhece. E mesmo se pensa que conhece.

sábado, 20 de agosto de 2016

Considerações sobre as andorinhas


Para Carmem, Ivani, Roseli e Tania


Fotos: Carmem Machado


Nessa época do ano, em determinadas horas do dia, tem uma revoada de andorinhas por aqui, na árvore abaixo da janela da sala, no Butantã. Dezenas e dezenas delas voando em revoada. Uma ou outra pousa na árvore desfolhada pelo inverno.

As andorinhas voando são algo lindo de se ver. Em conjunto, formam um redemoinho  no ar. Individualmente, têm as costas azul-marinho, as asas pretas e o peito branco, de modo que em voo passando perto da janela causam uma impressão forte, porque são muito bonitas. Vendo-as pousadas, como a da foto, não dá a ideia. É preciso vê-las voando - mas esse espetáculo é impossível de fotografar, a não ser que você tenha um equipamento do tipo National Geographic.

Você escuta um leve dialogar, sutil, um piado suave que vem daquele redemoinho como se viesse do éter, de todas as partes.

Vendo esse balé aéreo, fico espantado ao lembrar de ver colegas ou amigos na infância matar passarinhos como esses. Eu nunca matei sequer um, embora matar sempre tenha sido, ao longo dos séculos, uma prova de virilidade masculina e supremacia humana diante da natureza.



(Quando eu e meus irmãos éramos moleques, nós e dois de nossos amigos tínhamos uma espingarda de chumbo cada um. Eu nunca nem mesmo mirei em um pássaro. O único ser vivente que matei com aquela arma foi um rato que tinha caído na piscina do quintal da casa de um amigo: fizemos uma competição da qual participaram quatro de nós, pela qual cada um tinha sua vez de atirar no rato, de uma distância grande, creio que a uns 7 ou 8 metros dos atiradores, até que eu acertei o rato bem na espinha, e fiquei com dó, porque o tiro paralisou as patas traseiras mas ele ficava batendo as dianteiras enquanto afundava morto. Mas rato é rato.)

Eu, não. Passarinho nunca matei. Nunca me senti superior à natureza. Pelo contrário, diante dela não sou quase nada, sou apenas um fruto dela e estou sujeito a seus caprichos e belezas. 

segunda-feira, 18 de julho de 2016

O encantador canto do bem-te-vi e a histeria do periquitinho verde


Fotos: Reprodução
O lindo bem-te-vi e o passarinho histérico

Um dos maiores poetas do ocidente e fundador da poesia moderna, o francês Charles Baudelaire introduziu uma questão interessante que pode ser discutida até hoje: a natureza não é apenas a vida, mas também a morte. Óbvio. O que é difícil de aceitar.

Mas digo isso para apenas perguntar: você gosta de passarinhos? Eu gosto, mas alguns me agradam e outros me irritam profundamente. O canto do bem-te vi nunca é incômodo; já a histérica maritaca, quando chega em bando e começa a berrar embaixo da sua janela, você pode desistir de tudo: do filme que você está vendo, da soneca que está tirando, de qualquer coisa. É um bichinho realmente chato.

O bem-te-vi encanta. Ele é tão bonito fisicamente como seu canto é encantador e agradável. Ele canta logo que o dia amanhece, e também no fim da tarde. Seu canto não provoca insônia. Como que se mistura aos sons da natureza e do mundo. Parece que está aí desde sempre.

Já a maritaca (que eu prefiro chamar de baitaca) é o oposto. É um bichinho extremamente irritante. Em bandos, esses passarinhos predominantemente verdes ocupam enormes espaços no pouco verde que há na cidade, e você tem a impressão de que eles são tantos que nada mais pode cantar ou se manifestar na natureza urbana - se é que se pode admitir esse termo paradoxal, natureza urbana.

Por quê? Porque (sejamos racionais) para esses bandos de passarinhos verdes histéricos faltam predadores. Simples assim. Não existem gatos suficientes para abater uma parte dessa espécie insuportavelmente chata. E então ela vai tomando conta de tudo, quase como uma praga urbana. Como pequeninas pombas verdes.

É incrível a diferença entre a natureza de uma espécie agradável (o bem-te-vi) e uma espécie irritante (a maritaca). É o que sinteticamente mostram os curtos vídeos abaixo.


O canto do bem-te-vi:




A histeria da baitaca:

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Pensamento para sexta-feira [39] – A natureza



A águia é um dos animais mais bonitos da Terra

Sou daqueles que nunca mataram passarinho quando moleque. Desse ponto de vista, sempre fui politicamente correto... Nem com estilingue, nem com espingardinha de chumbo, como a gente dizia antigamente, eu matei passarinho. A única coisa que matei com espingardinha de chumbo, que eu e meus irmãos tínhamos, foi um camundongo, que estava nadando na piscina da casa de um amigo, e isso já faz mais de 30 anos. Tudo bem, ratos são dignos de matar*. Aliás, até insetos tenho dó de matar, exceto baratas, formigas, pernilongos, aqueles mosquitos escrotos de banheiro e coisas do tipo, criaturas que já me inspiraram um post neste blog, um dos mais lidos que já publiquei aqui.

Naquele post sobre insetos não falei dos tais mosquitinhos de banheiro, um dos insetos mais repugnantes que existe. Abelha, um inseto nobre, não mato de jeito nenhum, pelo contrário, tento até salvar quando vejo uma se afogando numa piscina. Assim como não mato lagartixas, essas figuras tão simpáticas. Como pode, matar lagartixa? Me d ecepcionei muito com pessoas que eu achava legais e depois descobri que matavam lagartixas. É sério.

Mas, voltando aos passarinhos. São muito bonitinhos e tal, mas quando um sabiá dá de ficar cantando aquele som repetitivo (os sabiás começam a cantar no meio da madrugada, entre 3 e 4 da matina) que parece um relógio, é impossível dormir, quando por acaso sua hora de dormir coincide com o despertar deles.

E o joão-de-barro? Que passarinho incrível, essa criaturazinha que canta (meio caoticamente, mas canta) e constrói. Aqui onde moro tem ninhos de joão-de-barro. São incríveis. Mas de manhã são irritantes. Do nada, explode de repente um estardalhaço que mais parece um despertador. Dura alguns segundos. Se é fim de semana ou feriado, você acorda meio de súbito.

Isso irrita, pois não era pra você acordar (é sábado!), mas aí você lembra que é sábado e pode voltar a dormir, dá um suspiro, vira de lado, ajeita o travesseiro e... de repente, mais um bombardeio sonoro dos joões-de-barro. Os intervalos entre os bombardeios variam. Dá pra ter uma ideia do som que eles fazem neste link (é obviamente editado, pois os intervalos entre as explosões de canto na realidade são maiores): canto do joão-de-barro.

Mas o bem-te-vi é curioso. Ele nunca é chato.

E as baitacas, tão brasileirinhas? Nossa, são verdadeiramente escandalosas, chegam a me irritar. Mas pelo menos são diurnas. Começam a cantar (mas gritam) todas ao mesmo tempo, em bandos, voando ou nas árvores. Dura alguns minutos, e depois pára. Como o alvoroço das baitacas não dura muito, não chegam a irritar tanto. Mas as baitacas me parecem um pouco neuróticas. “Neurótico é você”, diria Freud talvez. Ok, reconheço que baitacas berrando em bando é melhor do que seres humanos buzinando com seus carros em todos os lugares de São Paulo.

Tirando essas coisas mais estúpidas como "cidadãos" (na verdade energúmenos) buzinando seus automóveis (ou seus cérebros), passarinhos às vezes são chatos, sim.

A natureza é a mata, as lindas praias, o canto dos pássaros e as aves de rapina (a águia, por exemplo, é um dos mais lindos animais que há na Terra), o lobo, o tigre, o barulho do mar e o próprio mar, as nuvens e a lua atravessando as nuvens, mas é também às vezes (às vezes, pois não sou um mal-humorado inveterado, como pode parecer), às vezes a natureza é a pentelhação do canto do sabiá, a doença, a morte, o verme que come a carne morta.

Um casal de namorados está feliz da vida numa praça bucólica, numa cidade de interior, perto da natureza... Vão para casa e um dia depois acham um carrapato estrela no corpo de cada um. Com ela não acontece nada, mas ele pega a febre maculosa (transmitida pela espécie conhecida como carrapato estrela, comum no interior de São Paulo) e morre. Isso acontece, e é natural, o carrapato estrela é natureza.

A natureza é maravilhosa, epifânica. Mas é também sombria. Curioso que pensar nisso me remete a dois personagens muito diferentes, mais de um século distantes entre si, que falam desse lado não-perfeito da natureza que nós procuramos ocultar: o físico Marcelo Gleiser, autor de Criação Imperfeita, e o poeta Charles Baudelaire, autor de As flores do Mal. O que nós procuramos ocultar? Que a natureza é a vida e é também a morte.

*Coloquei o asterisco na frase "ratos são dignos de matar" porque me lembrei da minha mãe, Leila, que odiava o Jerry, o ratinho do Tom & Jerry, porque ela não se conformava com aquele ratinho ganhando sempre. Nunca o Tom ganhava, e isso era muito irritante no "desenho animado" de Hanna Barbera.