quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Líbia: "Vi morrer crianças, mulheres, homens... como se fossem animais"

Foto: Reprodução

Este abaixo é o trecho de matéria publicada ontem no jornal espanhol El País, com impressionante depoimento de um refugiado:

Praticamente todos os edifícios grandes foram destruídos”, afirmou um refugiado. “Não vi guerra mais suja do que esta, queixava-se o líbio de origem palestina Sami Alderramán. Os rebeldes combatem desde as 11 da manhã às sete da tarde. Mas o pior são os bombardeios da Otan, que ocorrem frequentemente a partir das 11 (23 horas). E disparam contra qualquer edifício. (...) Vi morrer crianças, mulheres, homens... como se fossem animais. Eu peguei minha família e a coloquei num porão, e quando pudemos saímos dali. Não há luz, apenas alimentos.... Nos últimos seis meses, pode ser que tenham morrido em Sirte umas 3 mil pessoas.” A matéria do El País  está aqui.

Atentemos para o fato de que, se a estimativa do homem estiver próxima da verdade, o número de mortos civis vítimas dos bombardeios e da luta sangrenta entre forças leais a Muamar Khadafi apenas em Sirte, cidade natal do ditador, é equivalente aos que morreram nas Torres Gêmeas em Nova York no 11 de setembro de 2001.

Ontem, terça-feira, 27 de setembro, as forças leais ao chamado “novo governo” chegaram ao centro de Sirte. Segundo as agências internacionais, os combatentes anti-Khadafi assumiram o controle do porto e de vários pontos estratégicos. Segundo os combatentes, Muamar Khadafi estaria em Ghadamis, perto da fronteira com a Argélia. Ele teria dito que vai lutar até o fim.

A pergunta que fica: a Líbia vai se transformar num novo Iraque?

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3 comentários:

Felipe Cabañas da Silva disse...

É possível que sim, com a pequena diferença que o Iraque foi uma decisão unilateral estadunidense com o apoio vassalo de Tony Blair. Na aliança da Otan que interviu na Líbia há mais países envolvidos e potencialmente mais interesses em jogo, o que pode piorar ou atenuar a situação, e isso até agora é uma incógnita porque o "pós-guerra" ainda não começou. Quais interesses exatamente estão em jogo? Se a justificativa é o massacre perpetrado por Muammar Gaddafi contra o povo, por que ninguém intervém na Síria, onde os massacres têm sido quase tão brutais?

Mas na Líbia temos o agravante de ser uma sociedade com mais divisões tribais que a iraquiana. As divisões ideológicas entre muçulmanos estão presentes em maior ou menor grau em todas as sociedades de maioria islâmica, mas a Líbia é um país muito mais dividido, divisão que Muammar Gaddafi (e sua tribo) sufocava com mão de ferro. Agora é possível que a Líbia se transforme numa colcha de retalhos.

Fica claro com o pouco que podemos absorver pela frieza do jornal que para o povo líbio não era mais possível não reagir ao sistema político esquizofrênico e repressor de Muammar Gaddafi, mas o futuro na líbia não se mostra muito promissor.

Com isso, fica cada vez mais claro que a decisão brasileira de se abster de apoiar uma intervenção militar incerta foi mais um acerto da sempre respeitada (desde os bigodões do Barão) diplomacia brasileira.

Paulo M disse...

Lembro de ter lido na Folha, bons anos atrás, o depoimento de um jornalista (faz muito tempo, não tenho nome de ninguém), que descreveu, numa narrativa rápida, a torpeza dos ataques de aliados contra o Iraque na primeira investida americana, sob ordens do Bushão pai, na Guerra do Golfo, em 1990. Ele (o jornalista que cobria) dizia ver, barbarizado, aviões americanos passando como bólidos e metralhando mulheres que fugiam dos ataques carregando crianças ao colo. O que ocorre na Líbia é idêntico: os mocinhos do épico, segundo denúncias de fiéis a Gadafi, atiram em tudo que se mexe. O povo líbio quer mudanças, mas o que ouço desde que tento entender o modelo autoritário de democracia no Ocidente é que não se faz justiça com as próprias mãos. A frase do Cabañas ("Quais interesses exatamente estão em jogo?") aplica-se a tudo que envolve a política externa dos Estados Unidos. Qualquer coisa pode ser verdade, menos a versão oficial.

Edu Maretti disse...

Concordo com tudo Paulo, com uma ressalva: as denúncias de fiéis a Gadafi têm o mesmo valor de verdade que as denúncias dos fiéis aos EUA.

Aliás, existem versões confiáveis numa guerra brutal como essa?