terça-feira, 28 de junho de 2011

Myrian Rios, Bolsonaros e a reação esperneiam, mas “a História é um carro alegre”

As declarações da atriz e deputada estadual Myrian Rios (PDT-RJ) não merecem a relevância que recebem. Não que as “ideias” manifestadas pela ex-esposa de Roberto Carlos não sejam condenáveis. São, e foram rebatidas categoricamente em nota oficial da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), que você pode ler aqui.

Mas esses soluços de reação me fazem lembrar a célebre frase de Regina Duarte, outrora “namoradinha do Brasil”, quando disse “eu tenho muito medo”, em 2002. São manifestações naturais quando transformações históricas e irrevogáveis estão em curso. Muitos setores não entenderam ainda o que significa estar em 2011, o primeiro ano da segunda década do século XXI, e simplesmente reagem. Reagem em vão.

(Parênteses: note-se que a deputada católica extremamente praticante é do partido, o PDT, de ninguém menos do que o deputado federal Brizola Neto. Precisa dizer mais alguma coisa? Precisa, e provavelmente por isso a deputada Myrian Rios logo veio a público pedir desculpas pelas ideias temerárias que andou defendendo em discurso na Assembleia Legislativa fluminense).

O fato é que os passos rumo a uma nação laica, com cada vez menos preconceitos e discriminação, estão sendo dados, e não só em retórica, luta ou discurso, mas juridicamente também. Jurisprudências vão se consolidando de maneira cabal, o que mostra o caráter inexorável da evolução.

Exemplos recentes mas já clássicos:

- O reconhecimento, por 10 votos a zero, pelo Supremo Tribunal Federal, da união homoafetiva, no início de maio (leia aqui).

- a decisão do juiz Fernando Henrique Pinto, da 2ª Vara da Família e das Sucessões de Jacareí (SP), autorizando esta semana que o casal gay Sérgio Kauffman e Luiz André Moresi realizasse um casamento civil (esta decisão já foi influência do entendimento do STF sobre união homoafetiva).

- o Estado laico também foi contemplado em maio de 2008, quando o STF considerou constitucionais as pesquisas com células-tronco embrionárias no país, uma decisão que derrotou as inclinações mais obscurantistas da sociedade, representadas no próprio Supremo, e deu aval para que a Ciência possa se desenvolver no país.

E outras decisões virão.

É certo que, como vimos na estratégia sórdida da campanha eleitoral tucana em 2010; nas agressões homofóbicas persistentes; ou na repressão covarde da polícia paulista à Marcha da Maconha em São Paulo, não se pode baixar a guarda. Mas, até neste caso, em julgamento neste junho de 2011, o STF deu um basta à intolerância, declarando liberadas as manifestações desse tipo, em nome da liberdade de manifestação e expressão.

Não se pode baixar a guarda, tampouco, no combate ao famigerado AI-5 digital, uma sombra que paira sobre as liberdades introduzidas pela internet na vida das pessoas e na própria forma de fazer política, combate urgente a ser travado nas instâncias de luta adequadas (das redes sociais ao Congresso Nacional).

Apesar de tudo, ao contrário dos soluços reacionários, as lutas é que não têm sido vãs, e as vitórias delas decorrentes são notórias, como vimos. Outras Reginas Duartes e Myrian Rios, outros Bolsonaros e quetais continuarão esperneando e vociferando. Mas, como escreveu Pablo Milanes em Canción por La Unidad de Latino América, interpretada lindamente por Chico Buarque e Milton Nascimento:

“A História é um carro alegre
Cheio de um povo contente
Que atropela indiferente
Todo aquele que a negue”

3 comentários:

Felipe Cabañas da Silva disse...

Uma luta progressista que ainda nem começou a ser travada no Brasil é a legalização do aborto. Dentre todos os temas progressistas que estão sendo discutidos e passando por avanços em quase todas as sociedades democráticas, este é o tema que desperta as reações mais arraigadas, irracionais e irredutíveis. É um forte, fortíssimo tabu no Brasil, que precisa ser derrubado. Questão de saúde pública, a proibição nos países menos desenvolvidos faz com que as mulheres de classe média e média alta o pratiquem com todo o conforto dos países de primeiro mundo, e as mulheres menos favorecidas o pratiquem de forma precária, clandestina e desesperada. Li recentemente sobre uma operação da Polícia Federal para desmantelar uma clínica de aborto em alguma cidade do Brasil. A operação se chamava Hipócrates. Afinal, quem é o hipócrita cara pálida?

O que aconteceu na campanha mostrou o nível em que a discussão se dá no Brasil. Com Serra no desespero tentando manipular esses sentimentos primitivos da população: já que não dá mais pra chamar a Dilma de "comunista comedora de criancinhas" ela virou a "Dilma matadora de criancinhas". Patético.

Sobre essa tal Myrian Rios não vale a pena nem comentar. E lembrar que o PDT é também o partido de Cristovam Buarque e Darcy Ribeiro. Coitado do Darcy, deve estar se remexendo no túmulo. Edu, sobre esse tal AI-5 digital, eu gostaria de saber mais, estou por fora...

Edu Maretti disse...

Felipe, neste link dá pra ter uma boa noção sobre o que é o "AI-5 digital"...

http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/sergio-amadeu-azeredo-quer-aprovar-o-ai-5-digital-nesta-quarta-feira.html

Sobre a operação da PF, talvez ela tenha esse nome não pelo sentido corriqueiro que damos ao termo hipocrisia, mas por ser de fato uma questão de saúde, daí a referência ao pensador grego Hipócrates (460–377 a.C.), "pai de medicina"...

http://pt.wikipedia.org/wiki/Hip%C3%B3crates

De fato, "Coitado do Darcy" hehe... e do velho Brizola

Mayra disse...

Então, todas essas "evoluções" são fruto de luta popular, pressão popular na rua, na imprensa - no nosso caso, aqui na blogosfera, lugar de possibilidades incríveis de existência e crescimento pra boa imprensa brasileira -, na justiça, no legislativo etc. Os nossos últimos bons governos - federal, e em alguns casos estaduais e municipais - são fruto desse amadurecimento incrível da sociedade brasileira. Que, na minha modesta opinião, pode amadurecer mais rápido ainda - eu sempre tenho pressa! - se for chamada pela classe política a participar, com mais frequência, do debate público das grandes questões...