quinta-feira, 9 de junho de 2011

Gleisi Hoffmann entra no tabuleiro


Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil

Como diz a sabedoria popular, há males que vêm para bem. Passado o furacão da crise Palocci e as muitas polêmicas decorrentes dele, com opiniões bastante divergentes, e até opostas, mesmo do lado progressista da blogosfera, provavelmente não há pessoa mais aliviada e satisfeita com o desfecho dessa crise do que Dilma Rousseff.

Ao nomear Gleisi nova ministra-chefe da Casa Civil, Dilma deu um passo surpreendente para que seu governo conseguisse a distância mais do que necessária de dinossauros que, como gigantescas sombras, pairavam sobre sua independência: o defenestrado Antonio Palocci e o onipresente José Dirceu, que, diz-se por aí, tinha outra carta na manga para ocupar o lugar vago na Casa Civil.

Fora isso, a curitibana Gleisi Hoffmann, até a semana passada conhecida como senadora pelo PT-PR e “mulher do ministro das Comunicações, Paulo Bernardo”, tem um perfil e trajetória mais do que interessantes, até pelas semelhanças com o caminho percorrido por Dilma para chegar à histórica (saudada mundialmente) conquista da presidência da República do Brasil.

Sua militância começou no movimento estudantil, no segundo grau. Filiada ao PT em 1989, formada em Direito, secretária de Estado no Mato Grosso do Sul no governo de Zeca do PT e secretária de Gestão em Londrina (PR), em âmbito federal Gleisi atuou, como Dilma, na equipe de transição de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2002. Depois, foi diretora financeira da Itaipu Binacional, no primeiro mandato de Lula.

Também como a presidente da República, assume a Casa Civil após uma crise. Em 2005, Dilma, então ministra das Minas e Energia e conhecida por sua competência como gestora, substitui José Dirceu, levado pelos ventos do furacão chamado “mensalão”. Em 2011, a senadora Gleisi entra no lugar de Antonio Palocci, nas circunstâncias de todos conhecidas.

Gleisi Hoffmann é conhecida por sua atuação extremamente combativa no Senado Federal em defesa do governo do qual agora é peça importante. É estranho, mas um dos maiores problemas do PT, a renovação de seus quadros, carente de novas grandes lideranças, parece estar sendo resolvido como que a fórceps. No caso de Dilma, pelo menos, a solução encontrada em 2005 foi mais do que satisfatória.

Mas a ascensão de Dilma pegou a todos, oposição, mídia e aliados, em maior ou menor grau, de surpresa. Até por isso, no caso da nova ministra da Casa Civil, os olhos vão estar atentos desde já.

5 comentários:

Felipe Cabañas da Silva disse...

Tenho minhas reservas em relação aos tecnocratas. Mas os quadros políticos do PT têm "metido a mão na merda", para lembrar Paulo Betti.
A nova ministra, que disse que "a política dá sentido à técnica e esta qualifica a política", é uma das gestoras públicas duronas do PT. Parece pessoa bem intencionada, mas é moralmente um pouco conservadora, pois já disse que sua "formação cristã" não permite que seja favorável ao aborto. Eu tenho "formação cristã" e sou favorável ao aborto.

Enfim, é lógico que salta aos olhos um processo de "caminhada rumo ao centro" dentro do PT. E acho que é preciso pensar a hipótese, na realidade, de uma verdadeira direitização do partido (o que talvez seja um assunto delicado a se levantar nesse blog - hehe). Bom, o PSDB nasceu como um partido de centro-esquerda e no movimento internacional de direitização da social-democracia (com excessão, talvez, da social-democracia alemã), é evidente que o PSDB se direitizou completamente nas últimas duas décadas e já não faz mais questão de esconder isso. Então no Brasil o trabalhismo é o herdeiro ideológico dessa social-democracia? Até quando o trabalhismo brasileiro vai se ver como esquerda? Essas perguntas têm inquietado minha cabeça, principalmente no momento em que deposito meu voto na urna.

Edu Maretti disse...


Caro Felipe, não vejo (pelo menos até onde sei) a nova ministra-chefe da Casa Civil como uma tecnocrata. Pelo contrário, sua história de militância e sua atuação política me parece que a afastam suficientemente do conceito do "estadista ou alto funcionário que busca apenas soluções técnicas ou racionais para os problemas, sem levar em conta aspectos humanos e sociais", como é o tecnocrata.

E, por favor, pare com isso de dizer que esse ou aquele é "um assunto delicado a se levantar nesse blog". O espaço está aí para as discussões acontecerem. Não estou aqui para dizer amém a tudo o que vem do PT ou do governo, não mesmo. A crítica é essencial. Acho que os comentários como os daquele post sobre Palocci, postados por vc e Mayra, enriquecem muito os debates. Mas não acredito mais em revolução e nessas propostas de militantes de partidos que se dizem de esquerda mas na prática trabalham para a direita.

Sobre a questão cristianismo e aborto, acho o seguinte: a pessoa pode muito bem ser contra o aborto e saber diferenciar sua postura pessoal de sua conduta como gestora dentro de um Estado laico. Não vejo problema nenhum nisso.

Sobre a "direitização" do PT, não vejo exatamente assim. Acho que há uma diferença substancial entre as utopias das origens de um partido que nasceu com os ideais de mudar o país e a realidade concreta que foi posta a partir da tomada, via eleições, do poder... A realidade que exige negociações políticas, relação com Congresso e com todos os atores que organicamente compõem a sociedade, realidade que certos setores que se dizem à esquerda do PT não podem entender pq só se baseiam em fantasias (pelamordedeus, não me refiro a vc). Essa realidade que só pode ser entendida a partir de 2003, com Lula na presidência, Lula que soube como um mestre negociar e fazer o país andar rumo aos novos tempos em que vivemos, até então impensáveis. A inclusão de dezenas de milhões de pessoas a um mercado de consumo que sempre as excluiu mostra, ao contrário, não uma direitização do PT, mas uma nova maneira de o Estado se relacionar com seu povo. Há quem diga que o governo Dilma, aliás, está mais à esquerda do que Lula... Vamos ver, o tempo é o senhor da razão hehehe.

Grande abraço, camarada. Você é um ótimo interlocutor.

Edu Maretti disse...

PS: quanto ao trabalhismo. Esse é um conceito que não se aplica ao PT ou a Lula, e sim ao getulismo, Brizola etc. O PT e Lula são protagonistas de outra coisa, de um governo popular que o Brasil não conhecia antes de 2003, mesmo com as ressalvas e críticas pertinentes que possamos ter. Pena que não é possível que o mestre Antonio Candido possa vir aqui explicar tudo isso com as palavras dele, sempre geniais e imprescindíveis.

Felipe Cabañas da Silva disse...

Eu acho, de fato, que alguns petistas, principalmente após a ascensão de Dilma, estão sendo de forma inapropriada rotulados de tecnocratas. Comparando qualquer político do PT com os verdadeiros tecnocratas, temos uma diferença e tanto. Foi comum durante a campanha dizer que Serra e Dilma eram ambos tecnocratas, em campos ideológicos distintos. Não dá mesmo para aceitar essa interpretação.

Sobre o PT. Eu acho que muito do que diz respeito ao governo Lula e agora ao governo Dilma só poderá ser compreendido com a lucidez do distanciamento histórico. Há determinadas coisas que não enxergamos no calor dos debates e das lutas. Mas o governo Lula teve críticos na esquerda muito lúcidos que não hesitaram em vir a público defender a candidatura Dilma. Esse movimento na extrema-esquerda de colocar todos no mesmo saco termina contribuindo muito com a direita, de fato. É só observar o caso Palocci atual. Quais foram os partidos que mais se mobilizaram para derrubar Palocci, notadamente com o objetivo oportunista de tumultuar o governo? PSDB, DEM e... PSOL.

Nesse sentido, lembrei da fala do professor Vladimir Safatle no ato pró-Dilma que teve na campanha na USP. Em determinado momento ele afirma que "um dos traços fundamentais da inteligência é a capacidade de operar distinções" (http://www.youtube.com/watch?v=fqncV3zAdjM). Tem uma parte da esquerda que não está conseguindo diferenciar, pois só aceita as diferenciações maiores, e não consegue ver que tem uma série de diferenciações menores que têm um grande peso político. Essa parte da esquerda, na prática, vem se eximindo da participação - principalmente as novas gerações, já que para as gerações tradicionalmente identificadas com um pensamento de esquerda que lutaram contra a ditadura o voto nulo é tão impensável quanto votar na direita.

Enfim, o que quero dizer é que, embora tenha muito apreço pelo meu distanciamento crítico, consigo operar as distinções de que fala Vladimir Safatle. E, de fato, os grupos políticos que se colocam à esquerda do PT ainda não conseguiram trazer à cena política algo que tenha potencial real para substituir essa esquerda que, para o discurso radical, se direitizou. Por isso, na eleição de 2010 as opções eram votar na Dilma ou ajudar a direita. Apenas parte da esquerda percebeu isso.

Felipe Cabañas da Silva disse...

PS: Valeu, camarada Edu. Participar aqui no blog é sempre enriquecedor. Abraços!