segunda-feira, 19 de julho de 2010

A Folha de S. Paulo e a “neutralidade acomodada”

A Folha de S. Paulo deste domingo, 18, no caderno horrivelmente chamado “Poder”, publica um texto com tom de editorial para deixar clara sua postura isenta (sic) nas eleições deste 2010. “Folha reafirma princípios editoriais”, intitula-se, e, abaixo, a “linha fina” explica: “A Folha não apoia nenhuma candidatura; parâmetros ajudam a fazer cobertura isenta, sem deixar de ser crítica”.

Voltando a 1984, quando lançou o que chama de “primeiro Projeto Editorial”, continua o texto, “a Folha cristalizou no ‘Manual da Redação’ a opção por um jornalismo crítico, pluralista, apartidário e moderno” (leia na íntegra, só para assinantes). O jornal da Barão de Limeira, citando seu “Manual de Redação, afirma que “tais valores adquiriram a característica doutrinária que está impregnada na personalidade do jornal”. Bom, já que a Folha se encarrega de dotar a si mesma de uma aura tão humana, tendo até uma "personalidade", eu diria que se trata de uma criatura um tanto egocêntrica. Senão, não diria a seguir que, segundo ela mesma, "ajudou a moldar o estilo brasileiro da imprensa nas últimas décadas".

Tudo para dizer que “a cobertura eleitoral deste ano, assim, não poderia fugir desse script”. Claro, a Folha “não apoia nenhuma candidatura”, esclarece cabalmente o diário dos Frias, diferentemente de jornais como o New York Times, que apoiou Obama nos Estados Unidos, como explica nosso periódico.

Impressionante. Fiquei sabendo ontem dessa postura tão importante para o processo eleitoral no país, com esse texto tão esclarecedor. Ainda bem que meu amigo Emerson mo enviou, como se dizia antigamente. Senão eu poderia jurar que a Folha tem apoiado os candidatos tucanos em 2002, 2006 e 2010. Mas acho que foi impressão minha.

Só achei meio obscura a passagem do (artigo?, matéria?, arrazoado democrático?) texto, não assinado, onde afirma o seguinte: “E a atitude apartidária, que ‘obriga a um tratamento distanciado em relação às correntes de interesse’, não poderia ser ‘álibi para uma neutralidade acomodada’.”

O que viria a ser “álibi para uma neutralidade acomodada” em tal contexto? De qualquer maneira, pelo menos agora eu sei que a Folha foge da “neutralidade acomodada” como o diabo da cruz.

PS: Infelizmente, não sei em que página do jornal impresso está o texto. Como não comprei o exemplar, tentei saber desse detalhe de alguns amigos por telefone ou via MSN, mas nenhum deles tem, comprou ou assina o diário da Barão de Limeira.

5 comentários:

Felipe Cabañas disse...

Edu e leitores, Poder A7 é a página.

Eu ainda assino o "Diário da Barão de Limeira". Quase passei pra fazer o curso intensivo de jornalismo, pra ser "trainee" (por que não treineiro né?? hehe).

Depois da última reforma editorial, cada vez mais tenho vontade de trocar de jornal, ou de ler só Internet ou revistas semanais e mensais como Piauí e Carta Capital.

Os títulos dos cadernos tem umas cores escabrosas (é fundo azul e letra roxa!!!!!), e o primeiro caderno, antigamente caderno Brasil, que eu sempre achei bom, veio com esse título modernoso: "Poder". Achei péssimo.

O que estou compreendendo da política do jornal, como leitor com alguma consciência crítica, é que a Folha quer ser ao mesmo tempo atraente para o leitor médio (um sujeito que lê o jornal antes de ir pro trabalho, em meio às torradas e geléias do café da manhã e está ávido por notícias quentinhas e atraentes e não tá nem aí para um tal de "pensamento crítico") e fazer um jornalismo de alto nível. Trocando em miúdos, a Empresa Folha da Manhã quer e precisa continuar sendo a maior vendedora de jornais impressos do Brasil. Política comercial e política editorial se misturam e se confundem. To falando isso sobre a Folha, mas me parece que esse é o padrão atual do jornalismo. E o jornalismo impresso está cada vez mais ameaçado. O JB impresso foi pro saco na semana passada. O Ruy Castro diz que foi um "problema de gestão", mas (me corrija se estiver errado Edu) recentemente houve uma conferência reunindo os donos de grandes jornais da América Latina pra discutir o financiamento da notícia que sai na Internet, muitas vezes um Ctrl C - Ctrl V do que saiu no jornal.

Enfim...
Ah, e um outro protesto sobre a última reforma editorial. O melhor caderno do jornal, o Mais!, foi extinto, os melhores articulistas, como Renato Janine Ribeiro, José Arthur Giannotti (independente de sua posição política), etc, foram mandados às favas e foi criado um caderno estranho, sombrio, despropositado, chamado Ilustríssima. Engraçado que eu já vi vários desses textos "autoelogiantes" nos últimos meses, e a Ombudsman, pelo menos até agora, só desce a lenha...

Eduardo Maretti disse...

Valeu, Felipe.

Quanto a sua questão (uma conferência reunindo os donos de grandes jornais) não sei se você fala do assunto deste link:

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=579JDB011

O texto do link fala tanto do fórum "Democracia e liberdade de expressão", organizado pelo Instituto Millenium, quanto da Confecom, organizado por movimentos sociais e a parte da sociedade preocupada com a democratização dos meios de comunicação, concentração etc:

http://alainet.org/active/35661&lang=pt

Felipe Cabañas disse...

Eu acho que foi na Confecom que se discutiu entre outras coisas maneiras de se cobrar pelas notícias na Internet, que está colocando em risco os grandes jornais impressos...

Victor disse...

Ontem estive no Sindicato dos Bancários no lançamento dolivro Liberdade de Expressão x Liberdade de Imprensa do Venício Lima e também Ditadura da Mídia do Altamiro Borges e todas as questões sobre a monopólio da mídia e a propriedade cruzada e uma dos pontos para se equilibrar este jogo é apoiar os veículos alternativos, assinando e divulgando, como a Revista Fórum, Caros Amigos e Carta Capital e o site Carta Maior. A Apeoesp criará um Fórum Permanente de Mídia para discutir este assunto com todos os educadores. Dia 6 de agosto teremos a TV do Sindicato dos Metalúrgicos sendo inaugurada e dia 22 uma reunião para formar os blogueiros independentes. Estas são algumas ações. Podemos fazer mais. Abs

Edson disse...

Peço aos brasileiros para tomar conhecimento do passado de Serra e Dilma e o Ibope será melhor para Serra.