sábado, 7 de janeiro de 2012

Marcos deixa os gramados e entra para a história


Com o anunciado fim da carreira do goleiro Marcos, do Palmeiras, aos 38 anos, os gramados perdem uma atração, mas o livro das lendas do futebol ganha mais uma página.

Reprodução
Marcão não era apenas um goleiro, mas uma espécie raríssima em total extinção. Vestiu apenas uma camisa. Em 19 anos de carreira, envergou o uniforme alviverde 532 vezes – claro, ressalve-se que ele também usou uma camiseta menos nobre, a do Lençoense, de Lençóis Paulista, onde iniciou sua jornada (nota: Émerson Leão jogou pelo clube 617 partidas).

O agora ex-goleiro Marcos estreou na meta alviverde em 16 de maio de 1992, em amistoso contra a Esportiva Guaratinguetá (Palmeiras 4 a 0, com uma defesa de pênalti do goleiro), mas foi reserva até 1999. Quis o destino que ele se tornasse titular do time na quinta partida da Libertadores daquele ano, no lugar de Velloso, que se contundiu. O time do Palestra Itália conquistaria então seu único título continental.

Mas seria na Libertadores de 2000 que Marcos faria a defesa que se tornou o símbolo de sua carreira, ao pegar o pênalti de Marcelinho Carioca (abaixo) que eliminaria o Corinthians na semifinal da competição na disputa de penalidades vencida pelo Alviverde por 5 a 4 (na final, o Boca Juniors de Riquelme bateu o Verdão e ganhou o título).




Sobre essa defesa, ele diria depois: “Já fiz grandes defesas, mas todo mundo diz que a mais importante foi o pênalti que defendi do Marcelinho Carioca, na Libertadores. Eliminar o Corinthians, pegando um chute dele realmente ficou marcado. É claro que me adiantei. Se o goleiro não fizer isso, ele bate com a cabeça na trave”.

O goleiro chegou ao auge da carreira na Copa do Mundo de 2002, com atuações seguras em toda a competição e defesas fundamentais na vitória brasileira por 2 a 0 (dois gols do Fenômeno), na final contra a Alemanha.

O último jogo de Marcos foi em 18 de setembro de 2011, no empate em 1 a 1 com o Avaí, em Florianópolis. O volante Batista anotou o último gol sofrido por “São” Marcos na carreira.

Eu sempre tenho simpatia pelos goleiros. Muito torcedores rivais citam o lance da final do Mundial de 1999, quando Marcos falhou ao não conseguir cortar o cruzamento de Ryan Giggs que resultou no gol solitário de Roy Keane, o gol do título do Manchester United. Falha, diga-se, que não foi só do arqueiro, mas que começou na lateral direita de Arce, vazada por Giggs. Por causa desse ou outros lances, principalmente no fim da carreira, cheguei a defender Marcão até de palmeirenses ingratos.

Marcos x Rogério Ceni

Já escrevi sobre o goleiro Rogério Ceni no blog (aqui), outro jogador espetacular da posição que para mim é a mais romântica do futebol. Numa época em que a gente vê atletas trocarem de camisa como trocam de cueca, figuras como Rogério e Marcos são dignos do livro das lendas. Marcos fabuloso embaixo dos três paus; Ceni nem tanto, mas, ave rara, é um 12° jogador, já que também atua como um líbero, passa com precisão e é atacante, com seus mais de 100 gols.

Mas a diferença entre o são-paulino e o palmeirense é evidente num aspecto: Ceni é ídolo dos tricolores, enquanto a esmagadora maioria dos outros torcedores (incluindo este escriba) têm por ele uma antipatia diretamente proporcional a sua arrogância.

Já Marcos – carismático, frasista, simpático – tem uma legião de fãs, de torcedores de todos os times, incluindo este escriba que vos fala. Ele mesmo disse um dia: “Já assinei muita camisa do Corinthians, do São Paulo, do Santos. Isso é normal, não tem problema nenhum".

TÍTULOS DE MARCOS:

Pelo Palmeiras:

Copa Mercosul (1998 – como reserva), Copa do Brasil (1998 – como reserva), Copa Libertadores (1999), Copa dos Campeões (2000), Torneio Rio-São Paulo (2000), Campeonato Paulista (1996 e 2008) e Brasileiro da Série B (2003)

Pela seleção brasileira

Copa América (1999), Copa do Mundo (2002), Copa das Confederações (2005)

*Atualizado à 00:47 de 08/01/2012

5 comentários:

Mayra disse...

Nossa! É verdade isso que você disse do Ceni & Marcos até pra mim! Que doido, como a gente respira futebol no Brasil mesmo sem acompanhar nada...

Por falar nisso, vi uma cena incrível aqui em Bs As dia desses... Numa acirrada partida de futebol no terraço de uma casa, um niño de 6 anos se jogou no chão despudoradamente fingindo uma falta - ninguém nem chegou perto dele, nada de nada... Sempre me irritou ver isso nos jogos da Argentina. Agora compreendi o quanto a coisa é arraigada... Bem, também nesse dia entendi o amor de los hermanos por esse esporte doido. Foi uma delícia assistir à partida dos hermanitos!

Paulo M disse...

"Não é fácil, o goleiro deles é o Marcos", disse certa vez Diego, meia do Santos, após um Santos e Palmeiras na Vila em que o Alvinegro bombardeou o adversário (1 a 1 no final) durante todos os 45minutos finais da partida e viu a bola parar no muro postado à frente da meta palmeirense. No primeiro jogo da Livertadores de 99, o Corinthians também parava diante da mesma parede, que o derrubaria de novo em 2000 com esta defesa olímpica (postada no blog) na cobrança do Marcelinho Carioca. Marcos imortalizou-se.

Os narradores e comentaristas esportivos de anos atrás usavam normalmente "arqueiro", "guarda-metas", "guarda-valas" para se referir ao número 1 do futebol. Daqui para a frente, quando eu me lembrar de Marcos, vou lembrar também de Leão, de Cejas e Manga. O agora ex-goleiro, palmeirense, decerto fora de época simplesmente por amar o clube e a profissão, está na lista dos maiores arqueiros de todos os tempos.

tania lima disse...

Verdadeiramente espero que o Marcos não desapareça do cenário futebolístico.
Trata-se daquela espécie rara de figuras que nos dá prazer ouvir, não porque traga em sua fala algo inusitado ou revelador, mas porque fala despretensiosamente, numa quase candura que afaga os sentidos. Um menino feito homem (E que homem!). Um homem que não perdeu o menino.

Edu Maretti disse...

Ótimos os comentários...

"como a gente respira futebol no Brasil mesmo sem acompanhar nada" (Mayra)

" 'Não é fácil, o goleiro deles é o Marcos' ", disse certa vez Diego, meia do Santos, após um Santos e Palmeiras na Vila em que o Alvinegro bombardeou o adversário" (Paulo M) -- lembro desse jogo, Paulo, pela fase de classificação do Brasileiro de 2002. Foi uma das maiores partidas que eu já vi de um goleiro. Que ódio que deu! Robinho marcou um golaço no primeiro tempo, e Arce empatou de falta no segundo. Marcão pegou até pensamento e o Parmera quase virou o jogo. Um jogaço.

"Um menino feito homem (E que homem!)" (Tania) -- Quanto ao seu comentário, Tania, só posso dizer que não faz o meu tipo! hehe

alexandre disse...

Bom, não estou com a mesma inspiração dos meus caros amigos, mas nessas alturas confesso que me emocionei ao ver esse lance único, me lembrando quando me via invadido por uma sensação de torpor por alguns segundos, frente à tv, ante a façanha pregada por esse grande arqueiro, que a nós palmeirenses nos proporcionou essa e outras alegrias. Deus salve os gênios.