sexta-feira, 22 de julho de 2011

Lula faz o discurso e Dilma governa,
para desespero da mídia

Se tem uma coisa que a presidente Dilma Rousseff dificulta são as pautas fáceis para a imprensa. Com toda a crise nos Transportes, manchetes diárias sobre a corrupção em Brasília etc., Dilma se mantém como a gestora competente que sempre foi, impassível, fria e distante dos microfones, para desespero dos mancheteiros.

Mas eis que, de repente, quem aparece falando? O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nesta quinta-feira em Recife, por exemplo, Lula se pronunciou sobre a crise no Ministério dos Transportes. "Pune quem tem que punir e acabou", disse.

A frase em si não significa muito. O significado é o gesto (A Imortalidade - Milan Kundera). Querem que Lula ponha o pijama e pare de falar e militar, mas Lula não vai vestir o pijama. A oposição fica apavorada ante a ideia de que, se for candidato em 2014, Lula será imbatível. E por isso investe na intriga.

Congresso da UNE, em Goiânia, dia 14 de julho
Foto: Antonio Cruz/ABr

Muito claramente, a oposição midiática (pois a combalida oposição política só existe alimentada pela mídia) tenta opor Dilma a Lula perante a opinião pública. Por exemplo, dizendo que Lula interfere no governo Dilma. Avaliação que ignora o fato de que não importa exatamente se é Lula ou Dilma quem governa, pois ambos trabalham e militam juntos.

Com seu estilo, Dilma impõe um governo pragmático, comandado por uma mulher avessa aos holofotes, até onde isto é possível. Nesta quinta-feira, por exemplo, a presidente escalou o ministro Paulo Bernardo, das Comunicações, para dizer que, numa pasta como a do Ministério dos Transportes, com orçamento de R$ 14 bilhões, é impossível que não haja corrupção.

Enquanto isso, Dilma cumpre uma agenda protocolar, o que se pode constatar ao procurar as fotos do dia no banco de imagens da Agência Brasil.

Lula gosta de falar. Na semana passada, questionou as acusações de que a União Nacional dos Estudantes (UNE) organizou um congresso "chapa branca" por ter sido patrocinada por entidades estatais como a Petrobras ou a Caixa Econômica. "Você liga a televisão e tem propaganda de quem?”, questionou , para lembrar que TV Globo, revista Veja, Folha de S. Paulo, O Estado de São Paulo, entre outros, recebem gordas verbas de anunciantes federais. “Para eles é democrático, para vocês [a UNE] é chapa branca (...) alguns jornais se acham nacionais, mas os grandes [veículos] de São Paulo não chegam ao ABC”, ironizou o ex-presidente. “Há quanto tempo não faço um discursinho!”

Não tem problema nenhum Lula falar e Dilma não falar. Mudou o estilo, mas o projeto é o mesmo iniciado em janeiro de 2003.

Há senões. Por exemplo, o governo Dilma tem um débito urgente com a pasta da Cultura. O movimento contra o retrocesso da agenda de Ana de Hollanda está crescendo e será tema de posts neste blog.

3 comentários:

Mayra disse...

Bem esclarecedora essa costura que você fez: o Lula discursa enquanto a Dilva governa, cada um faz a sua parte no mesmo governo, é isso aí. Agora, a declaração do ministro de que a corrupção é fato porque a verba do ministério é gorda... pelamordedeus, não precisava falar se era pra dizer isso, você não acha? Até porque a corrupção independe de quantidade de verbas disponíveis; rola em qualquer parte com qualquer quantia - vide os criminosos que não têm escrúpulos em garfar grana de merenda, saúde, etc.

Victor disse...

Não vamos esquecer da Banda Larga que tem um ato público programado para o dia 15 de agosto pela CUT e movimentos sociais. E também da luta pela democratização da mídia com a Regulamentação dos Meios de Comunicação. O Paulo Bernardo precisa fazer uma audiência pública aqui em SP para explicar ao povo e aos movimentos. Depois de tanta luta não queremos que surjam leis fracas que privilegiem o privado.

Edu Maretti disse...

Mayra, só pra não ficar ambíguo, eu não quis dizer que Dilma escalou o ministro Paulo Bernardo pra dizer isso ou aquilo especificamente... Ou seja, quis dizer que ela escalou uma figura em que confia para falar em nome do governo.

De resto, concordo contigo: "não precisava falar se era pra dizer isso".

Valeu!