sexta-feira, 16 de março de 2012

A personalidade das moscas

Pensamento para sexta-feira [27]


A Drosophila melanogaster (mosca de banana)
Esta semana, li uma matéria que parece piada, mas é muito interessante: “Moscas rejeitadas ingerem álcool para afogar as mágoas”, diz o título, explicando que “estudo feito com drosófilas mostrou comportamento diferente entre insetos machos que foram desprezados e aqueles que copularam”.

E ainda: “A cena é corriqueira: o cara leva um fora e vai para o bar afogar as mágoas de um amor malsucedido. A novidade é que cientistas americanos descobriram que as moscas-de-fruta (também chamadas de drosófilas) também fazem coisa parecida quando a fêmea refuta o acasalamento. O estudo mostrou que os machos da espécie Drosophila melanogaster ingeriram mais álcool após levar um não”, em redação de matéria do iG.

A conclusão do estudo pode parecer bizarra, mas me remeteu imediatamente a uma passagem do livro O Andarilho das Estrelas, de Jack London (1876-1916), um dos mais importantes escritores norte-americanos. No livro, um condenado à prisão perpétua (depois seria condenado à morte) passa os dias na solitária e procura coisas para passar o tempo e vencer o tédio e a dor. Aprende a meditar e faz viagens astrais em que relembra suas reencarnações na Terra (London dedicou esta obra à mãe, que era espírita, enquanto ele próprio dizia não acreditar em espírito e era socialista). Antes de dominar essa técnica, porém, o narrador condenado já tinha outros passatempos. Um deles é estudar a personalidade das moscas e brincar com elas por meio de um jogo que ele inventa.

Jack London (na foto ao lado) foi um dos escritores que mais profundamente conseguiram penetrar na alma humana. E mais: ele parecia conhecer também a mente animal, por incrível que pareça. No livro Caninos Brancos (uma de suas obras-primas) ele conta a história de um lobo (já escrevi sobre esse livro – o link está abaixo no post). Claro que ele dominava como poucos a técnica narrativa. Mas é impressionante e magistral.

Abaixo, segue o trecho de O Andarilho das Estrelas em que o personagem de London descreve sua relação com as moscas.

E o tempo passava muito devagar, as horas eram muito longas. Brinquei até com as moscas; as moscas domésticas que se infiltravam na solitária, com a luz cinzenta do dia. Então, descobri que elas também tinham um instinto competitivo. Por exemplo, deitado no chão da cela, estabelecia uma linha imaginária ao longo da parede, a um metro do chão e quando elas pousavam na parede acima dessa linha, eu as deixava em paz. No momento em que elas cruzavam essa linha, eu tentava pegá-las, tomando cuidado para não feri-las. Com o tempo, elas sabiam tão precisamente como eu onde estava a linha imaginária. Quando elas queriam brincar, cruzavam a linha e, frequentemente, uma única mosca jogava comigo por mais de uma hora. Quando se cansava, ia repousar no território seguro acima da linha.
“Dentre a dúzia de moscas que conviviam comigo, havia somente uma que não ligava para o jogo. Ela se recusava firmemente a jogar e, tendo aprendido a penalidade por cruzar a linha, evitava cuidadosamente o território inseguro. Aquela mosca era mal-humorada, enfadada; como diriam os condenados, “resmungava” contra o mundo e tampouco brincava com as outras moscas. Era forte e saudável. Eu a estudei por algum tempo. Sua indisposição para brincadeiras era temperamental, não física.
“Acredite, leitor, eu conhecia todas aquelas moscas (...) Ah, cada uma tinha sua individualidade, não apenas em relação ao tamanho e às características, mas à força, à velocidade de vôo, à maneira e jeito de voar e brincar, de fugir e correr, de voar em círculos e repetir ou inverter a direção, de tocar e caminhar sobre a área proibida ou fingir tocá-la e depois tocar em outro lugar, dentro da zona de segurança (...)
“Eu conhecia as mais nervosas, as fleumáticas. Havia uma pequenina que voava furiosa em verdadeiras rasantes, disparando às vezes contra mim, às vezes contra suas companheiras (...) havia uma mosca, a jogadora mais perspicaz de todas, que, depois de descer três ou quatro vezes sucessivas na zona de perigo, conseguindo escapar de minha mão, fechada em concha, ficava tão excitada e jubilante que voava ao redor de minha cabeça em plena velocidade, rodopiando, mudando de direção, invertendo o curso, mas sempre se mantendo dentro dos limites do estreito círculo no qual celebrava seu triunfo sobre mim (...)
Para mim foi uma glória quando a 'resmungona', que nunca brincava, pousou, num momento de distração, dentro da zona proibida e foi capturada imediatamente por minha mão. Depois disso, ela ficou amuada durante uma hora.”

Leia também:

A natureza selvagem segundo Jack London

Pensamento para sexta-feira: Eu e os insetos (ou, motivos para ter medo de insetos)

A íntegra da matéria do iG

Na resenha esportiva da semana, destaque para Libertadores e Didier Drogba

Num medonho campo de futebol society grande, o Santos bateu o Juan Aurich em Chiclayo, no Peru, por 3 a 1, pela terceira rodada da fase de grupos da Libertadores. Com a vitória fora de casa, o Alvinegro fica confortável no grupo 1. A única dúvida é sobre qual time será o líder da chave, o próprio Santos ou o Internacional. Inter, Santos e The Strongest, em 3 jogos, somam seis pontos. O Aurich tem zero. O time de Muricy Ramalho, cada vez mais forte, fará na volta dois jogos em casa (The Strongest e Aurich) e um fora (Inter). A tabela do Colorado é inversa: pega bolivianos e peruanos fora e recebe o Santos no Beira Rio (na Vila, 3 a 1 para o Peixe - relembre aqui).




(Parênteses: a Libertadores ainda vive na “idade média” do futebol. No jogo Cruz Azul 0 x 0 Corinthians, o meia Alex não podia bater um escanteio tamanha era a quantidade de objetos de todos os tipos que lhe eram atirados. Ao fim do jogo, o time brasileiro teve dificuldades para sair do campo. Na partida do Santos, os atletas jogaram com um tipo de tênis para se adequar a um campo grotesco de borracha. No vale-tudo da Libertadores, cartões amarelos não acumulam de um jogo para outro, o que significa que a pancadaria é liberada. O futebol no continente ainda está no século passado, e é incrível que, passa ano e entra ano, tudo continua igual.)

Voltando. No grupo 6, o Corinthians está sossegado. Contra o Cruz Azul, na quarta, fora de casa, deu um banho nos mexicanos e só não ganhou porque o time, principalmente com Liédson e Paulinho, desperdiçou as chances que teve, embora (quem não faz, toma) a esquadra de Tite só não tenha tomado o gol da derrota no fim do jogo porque Chicão tirou milagrosamente uma bola quase de dentro da meta, como um cirurgião. O Timão só não pode tropeçar contra o mesmo Cruz Azul na semana que vem no Pacaembu.

No grupo 5, embora vice-líder, o Vasco da Gama está namorando com a tragédia de cair na primeira fase. Tudo depende da próxima rodada, quando a equipe cruzmaltina fará contra o Libertad (time ardiloso) sua última partida em casa, das três que restam. Se só empatar e o Nacional (URU) bater o Alianza Lima, acho que bau-bau.

No grupo 2, o Flamengo tropeçou contra o Olímpia do Paraguai, empatando no Rio em 3 a 3 nesta quinta. Fará agora dois jogos fora (Olímpia e Emelec) e um em casa (Lanús), na última rodada. O Rubro-Negro lidera, mas o grupo é equilibrado e ele está apenas dois pontos à frente do quarto colocado (Emelec) e um do 2° e do 3° (Olímpia e Lanús).

No grupo 4, o Fluminense segue em vôo de cruzeiro. Três jogos e três vitórias, inclusive contra o Boca Juniors em La Bombonera. Mas em Libertadores isso pode não significar nada.

O espetacular Drogba avança com o Chelsea

Dito tudo isso, viajando à Europa, encerro com a figura que para mim foi o destaque da semana. O grande Didier Drogba, que, junto com o meia Lampard e o zagueiro capitão Terry, levou o até então cambaleante Chelsea às quartas-de-final da Liga dos Campeões, ao bater o Nápoli em Londres por um improvável 4 a 1 (no jogo de ida, o time italiano vencera os ingleses por 3 a 1). Não gosto do Chelsea, torci pelo Nápoli. Mas Drogba, hoje com 34 anos, que nunca está na lista dos mais badalados, é para mim um dos maiores do mundo. E a vitória do seu time foi espetacular.

quinta-feira, 15 de março de 2012

O caos nos transportes e o cinismo do governador de São Paulo

Foto: José Cruz/ ABr
Após o inacreditável caos provocado por panes sucessivas na Linha 9 - Esmeralda da CPTM e Linha Vermelha do metrô, que redundaram em um efeito dominó de grandes proporções e afetaram no mínimo 200 mil pessoas na manhã de ontem (quarta, 14), em São Paulo, a população pode ficar tranqüila. O solerte governador Geraldo Alckmin já anunciou, no fim da manhã de hoje, que a Linha 9 terá a circulação interrompida em alguns domingos, para manutenção, segundo o portal Terra.

O governador afirmou ainda que os problemas que geraram o caos "estão sendo averiguados com absoluto rigor para avaliar se é falha técnica, se é falha humana”, disse ele. Alckmin não mencionou o sucateamento, falta de investimento, precarização do trabalho e outros probleminhas que não passam de intriga da oposição.

Quer dizer, caro internauta, que durante a semana você pode ir se acostumando, se ainda não se acostumou, com os problemas gigantescos que podem surgir a qualquer momento. Já aos domingos, quando é dia de passear com a família, ir a um jogo de futebol, no teatro ou fazer uma visita, quem não tem carro e precisa da Linha 9 da CPTM que fique em casa. Trabalhador pobre foi feito para isso mesmo, segundo a concepção de governo tucano que vige em São Paulo há 16 anos.

No mínimo 200 mil usuários padeceram em mais uma manhã apocalíptica na capital

E a justificativa do ilustre governador para a manhã apocalíptica de quarta-feira? Ele argumentou solenemente que as falhas são poucas em relação ao grande movimento do sistema. "De janeiro a 12 de março deste ano, foi uma ocorrência a cada 16 milhões de passageiros transportados e 19 viagens", raciocinou.

Curiosa matemática essa, a do governador. Quer dizer que é bom parar de usar a insuficiente malha ferroviária metropolitana de São Paulo, pois quanto mais usuários, mais problemas. Então, não use trens nem metrô, caro usuário. Opte por andar a pé ou de bicicleta. Nesse caso, para facilitar sua vida e não chegar no trabalho todo suado ou acabar morto quando sua bicicleta for atropelada por um ônibus, mude-se para uma casa perto do trabalho.

O governo do Estado de São Paulo agradece.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Assinantes da Sky já podem ver Libertadores. Net ainda ignora assinantes


Torcedor do Santos assinante da Net terá de apelar a transmissões instáveis pela internet para assistir à partida com o Juan Aurich, às 19:45 desta quinta-feira

“A partir desta quarta, às 12h, o canal Fox Sports está disponível para os assinantes da Sky, a maior operadora de TV por assinatura via satélite. O acordo prevê a inclusão do Fox Sports em substituição ao Speed Channel, no canal 28.”

Flu de Deco vem de grande vitória contra o Boca
A informação está no próprio site da Fox Sports. Assim, segundo a empresa, o torcedor que assina a Sky já poderá ver hoje mesmo as partidas da Libertadores:

Fluminense x Zamora, às 19h45
Cruz Azul x Corinthians, às 22 horas

A emissora ainda usará o sinal do canal FX para passar Libertad x Vasco da Gama, por ser esta partida no mesmo horário do jogo do Corinthians, às 22 horas.

*Na quinta-feira, 15, os santistas que têm Fox Sports poderão ver Juan Aurich x Santos (direto do Peru), às 19:45. Mais tarde, às 21:45,  o canal transmite Flamengo x Olímpia.

Net continua ignorando seus assinantes

Resta a Claro TV e a Net. Esta última, segundo se divulga, detém aproximadamente 38% do mercado, mas por enquanto ignora seus assinantes, não lhe dá satisfação e parece estar apenas retaliando a concorrente, que resolveu exercer este ano seu direito de exclusividade e tirou a Net da parada. Oi, TVA, GVT, CTBC, Nossa TV, Telefônica, RCA e NeoTV já fecharam acordo com a Fox Sports, mas, juntas, elas detém apenas cerca de 15% do mercado. A Sky tem 30%.

Curioso que ontem, 13, até o “professor” Joel Santana se dirigiu a um repórter da Fox Sports em tom de reclamação e brincadeira e disse: “Vocês não me deixam ver a Libertadores”. A frase agora deve ser dirigida à Net. Seus assinantes merecem no mínimo uma satisfação. O acordo entre Fox Sports e Sky tende a pressionar a Net e a Claro TV, que agora estão isoladas em sua intransigência arrogante.

*Atualizado às 21:40

terça-feira, 13 de março de 2012

Gestão de Ana de Hollanda está em fase terminal


Elza Fiúza/Agência Brasil
Hora de deixar o ministério?
A ministra Ana de Hollanda, da Cultura, entrou num inferno astral daqueles, a indicar que sua gestão está em fase terminal. Hoje, a Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado aprovou convite para ela discorrer, digamos assim, sobre denúncia de suposto favorecimento, em sua pífia passagem de 14 meses pelo Minc, ao Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad). O requerimento de convocação da irmã de Chico Buarque foi proposto pelo senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP).

Ontem, o jornalista Jotabê Medeiros publicou matéria sobre as relações perigosas do Minc com o Ecad segundo a qual “documentos que agora emergem dos bastidores do poder sugerem uma sintonia siamesa”.

E no Twiter, o jornalista João Villaverde, do Valor Econômico, disse agora há pouco que a ministra não deve chegar até o fim do mês no cargo (clique na imagem abaixo para ler melhor).


Cobrança de blogueiros

Recentemente, vários blogueiros começaram a receber cobranças de até R$ 352 do Ecad por usarem vídeos do Youtube em seus posts, o que é uma aberração, já que fere qualquer conceito de compartilhamento inerente à internet tal como a conhecemos. Diante de repercussão negativa nas redes sociais, no Brasil e até no mundo, e perante a reação da Google, dona do YouTube, o Ecad suspendeu a cobrança.

No último dia 9, a Google divulgou nota esclarecendo sua posição de maneira enfática e dura: “O Ecad não pode cobrar por vídeos do YouTube inseridos em sites de terceiros”. E acrescenta: “Nós esperamos que o ECAD pare com essa conduta e retire suas reclamações contra os usuários que inserem vídeos do YouTube em seus sites ou blogs”.

A nota da Google na íntegra: Sobre execução de música em vídeos do YouTube

Sobre o MinC de Ana de Hollanda, leia também:

Ato de Ana de Hollanda sobre Creative Commons causa perplexidade e indignação

Ana de Hollanda deu uma canetada e se escondeu na concha

Dilma tem que pôr fim à arrogância de Ana de Hollanda

segunda-feira, 12 de março de 2012

Sai Ricardo Teixeira, entra José Maria Marin, o homem da medalha. Isto é CBF


Uma das coisas que sempre me espantaram no futebol é o caráter de imutabilidade do poder.

O que muda com a renúncia de Ricardo Teixeira, que presidiu a “entidade máxima do futebol brasileiro” como um imperador romano por incríveis 23 anos? Apesar da satisfação pelo fim de sua dinastia em si, na verdade nada vai mudar. O que se pode dizer quando se sabe que seu sucessor é José Maria Marin, não exatamente um modelo de homem público nem de gestor do que quer que seja? Talvez as coisas até piorem, o que faria com que algum saudoso esquecido um dia dissesse: viu, e vocês falavam mal de Ricardo Teixeira! Último governador biônico de São Paulo, Marin exerceu um mandato tampão como substituto do padrinho Paulo Maluf entre 14 de maio de 1982 e 15 de março de 1983, antes de Franco Montoro, que foi eleito na primeira eleição direta pós-ditadura.

Como disse o Felipe Cabañas em comentário a post sobre a seleção brasileira, digo, balcão de negócios, na semana passada: "Eu nem sei mais se adianta o Ricardo Teixeira cair. Acho que a CBF precisa é de uma refundação! Só uma revolução pra fazer a faxina necessária". O temor, então, era que o escolhido para substituir Teixeira fosse Fernando Sarney, um dos vices da CBF.

Mas, se não é um apaniguado do clã Sarney, o novo chefão da entidade, que ficará no cargo até abril de 2015!, é o homem cuja imagem pública mais recente é a do furto da medalha da Copa São Paulo, em janeiro último:



Basta ou precisa dizer mais? A cara de pau dos homens que “administram” o futebol brasileiro é tanta que eles devem se divertir fartamente com a indignação alheia. "Vocês vão ter de me engolir." A frase, dita pelo Zagallo após título da Copa América em 1997, para mim, ilustra à perfeição o status quo do sistema milionário da entidade que administra a “maior paixão brasileira”.

Zagallo, aliás, hoje um respeitável velhinho, é outra figura que nunca topei, com seu ufanismo tosco e a soberba de quem se sabe protegido pelos chefões, entronizado que foi como um símbolo mitológico da “amarelinha”. Um mito de papel. E o brasileiro continuará a engolir sapos. Anfíbio, desta vez, representado pelo presidente tampão José Maria Marin. Rejubile-se, caro torcedor brasileiro.

domingo, 11 de março de 2012

Salve Iansã!


Um vídeo caseiro impressionista



Não seja otário: não compre DVDs piratas


Uma coisa que, depois deste sábado, não farei nunca mais novamente: comprar DVD pirata. Não tenho nada contra as pessoas trabalharem. Mas, realmente, ao adquirir esses produtos você está à mercê de pilantras que não pagam impostos, vivem fugindo do “rapa” (porque não passam de criminosos) e enganam o consumidor. Pobrezinhos deles, não é? Precisam tanto trabalhar!

Eu tinha três filmes para ver nesta noite de sábado, que comprei de camelôs. O primeiro, O Evangelho segundo São Mateus (obra-prima de Pier Paolo Pasolini que queria rever). O filme inicia e vejo que tem dois problemas graves:

- as opções de idioma do DVD são inglês e português, o que não tem o menor sentido, pois o filme de Pasolini é intrinsecamente italiano, sua alma e seu idioma são italianos. Pasolini em inglês é para otários ou ignorantes, e eu não sou nem uma coisa nem outra.

- O DVD que comprei do camelô é colorizado, o que tem menos ainda a ver com um filme neo-realista de 1964.

Ou seja, a pessoa que compra o filme e não o conhece está vendo uma obra deturpada sem saber. E quem conhece e quer rever, só pode ficar frustrado e se sentir enganado.

O segundo filme comprado de camelô (na rua Augusta, perto do Espaço Unibanco), ao qual tentei assistir neste sábado, é o mais recente do iraniano Asghar Farhadi, A Separação, que acaba de ganhar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro . Mas as legendas do DVD que comprei não casam com as falas. Você fica vendo os diálogos e, enquanto um personagem está falando, a legenda está mostrando uma fala anterior. Mais uma vez: me senti um otário e tirei o filme.

E, com ingênua esperança, pus no drive o terceiro DVD que comprei de camelô. Um hollywoodiano, Justiça para todos, com Al Pacino. Foi tudo bem, passou todos os trailers, uma beleza! Mas na hora de começar o filme propriamente dito, simplesmente não rodou!

Enfim, meus amigos, parece até piada, mas eu tinha três filmes para ver neste sábado e não assisti a nenhum! Perdi a noite, fiquei nervoso, gastei dinheiro à toa e estou aqui a escrever este post.

E ainda tem gente que defende os pobrezinhos dos camelôs que batalham tanto, fogem tanto do “rapa”, coitadinhos. Porém, na falta de adjetivo melhor, eu diria mesmo que não passam de uns pilantras e vagabundos.

Mas, de mim, tenham certeza, eles não vão ganhar nunca mais os “três real” por um DVD ou cinco por dois que cobram para enganar os otários, como me senti esta noite.

sábado, 10 de março de 2012

Agressões a moradores de rua serão discutidas por autoridades em reunião em Brasília


BARBÁRIE


Foto: ABr
Brasília – A secretária nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos (vinculada à Secretaria Nacional de Direitos Humanos), Salete Valesan Camba, condenou a onda de agressões a moradores de rua. Só hoje (10), dois moradores de rua foram mortos a tiros em Brasília e um terceiro queimado em Campo Grande (Mato Grosso do Sul). O assunto será tema da reunião da Coordenação do Comitê das Populações de Rua, no fim do mês, em Brasília.

“Há a necessidade de uma política federativa, construída a partir de ações comuns do governo federal com os governos estaduais e municipais e o apoio da sociedade. É preciso prevenir a violência e combatê-la”, disse à Agência Brasil Salete Camba. “Estamos muito preocupados. Parece que há uma circulação de violência. Isso é muito grave. A sociedade precisa se indignar e não pode aceitar tudo isso como normal.”

Segundo a secretária, desde o ano passado os governos se uniram em busca de alternativas para garantir assistência aos moradores de rua. Salete Camba lembrou que recentemente as agressões se voltaram às comunidades empobrecidas de São Paulo. “A partir daí, houve vários casos”, acrescentou.

Na manhã de hoje, por volta das 7h, dois moradores de rua de Brasília foram assassinados a tiros. Eles dormiam sob árvores, em uma região nos arredores da capital. Pelas investigações preliminares, o atirador disparou várias vezes contra os homens.

O caso é investigado pela 21ª Delegacia de Polícia. Ainda não há informações sobre as motivações do crime. A perícia esteve no local e localizou cápsulas das balas utilizadas. Os dois homens mortos estavam sem documentos.

Em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, um morador de rua também foi vítima de agressões hoje. O jovem, de 22 anos, foi amarrado a uma árvore e teve 40% do corpo queimados. Ele está internado.

Há duas semanas em Brasília, um comerciante contratou um grupo de jovens para queimar dois homens que moravem em frente à loja dele. Uma das vítimas morreu e a outra está internada em estado grave no Hospital Regional da Asa Norte (Hran).

A polícia identificou os homens que atearam fogo aos moradores de rua. Segundo os policiais, o comerciante que contratou os homens pagou R$ 100 pelo crime. De acordo com o comerciante, os moradores de rua atrapalhavam seu negócio.

No dia 20 de abril completa 15 anos de um crime que chocou o país. Jovens da classe média alta incendiaram e mataram o índio pataxó Galdino Jesus dos Santos. Em 1997, o índio foi morto no momento em que dormia em uma parada de ônibus na Asa Sul de Brasília. O local ganhou uma praça com o nome do indígena.

Da Agência Brasil

A queda do Imperador


"Adriano está fora da equipe, fora da concentração. Não treinou como eu gostaria que treinasse durante a semana e por isso está fora (...) Os trabalhos nessa semana não tiveram aplicação, intensidade e dedicação tal qual os outros.”

O camisa 9 quando chegou ao clube, há um ano

A fala de Tite na coletiva desta sexta-feira parece ter sido o ponto final na triste passagem de Adriano pelo Corinthians.

E pensar que houve quem dissesse que o tento que o camisa 9 marcou contra o Atlético-MG pelo Brasileirão de 2011 foi o “gol do título” do Corinthians, como se o “gol de R$ 4,5 milhões” tivesse valido mais do que o emprenho de todo o elenco e da comissão técnica, que durante toda a temporada suaram a camisa e trabalharam em busca do objetivo.O "atleta" ficou um ano no clube e fez acho que dois gols (ou pouco mais - sic).

A última imagem que deve ficar do jogador com a camisa alvinegra provavelmente será a do olé que tomou de Paulo Henrique Ganso na Vila Belmiro, no domingo 4 de março, quando o Peixe bateu o Timão por 1 a 0. Melancólica despedida de um ex-imperador.


quinta-feira, 8 de março de 2012

Neymar faz partida para a história do futebol e Santos destrói o forte Internacional na Vila


LIBERTADORES

Mais uma vez, quem viu, viu. Azar de quem não viu. Como se não bastasse a espetacular partida do time do Santos como um todo na grande vitória de 3 a 1 sobre o Internacional na Vila Belmiro pela segunda rodada da Libertadores, a jornada de Neymar foi uma daquelas para entrar nos anais da história do futebol.

Foram três gols do craque da camisa 11: o primeiro, de pênalti, sofrido por Borges, o único fato digno de nota do apagado 9 santista neste 2012; o segundo, antológico, do mesmo nível do que anotou contra o Flamengo no ano passado, que ganhou o prêmio FIFA de gol mais bonito da temporada no mundo; e o terceiro, logo após o Inter fazer 1 a 2, mais um de Rey. Este último foi só um chorinho de presente para o professor Dorival Júnior. Gosto de ver jogo no campo, e tenho inveja de quem esteve hoje na Vila Belmiro. Por isso tudo, este jogo merece uma ficha técnica para arquivar, que está abaixo no post.





Ganso, soberbo

Mas, fora o craque maior, Paulo Henrique Ganso fez de sua parte uma partida soberba, gigante. No segundo tempo, quando Dorival Junior colocou Tinga e Dagoberto, ambos ao que parece para bater, Ganso só não tirou Dagoberto do jogo com cartão vermelho porque o árbitro gaúcho da federação paranaense não quis. Ganso ganhou o temperamental Dagol na provocação, no drible, duas ou três vezes em poucos minutos, e o enfezado ex-são paulino revidou com pontapés o que não conseguiu combater jogando bola. Desde os tempos de São Paulo, eu presto atenção em Dagoberto num aspecto que ele só confirma: me parece um dos jogadores mais desleais dos grandes clubes brasileiros de hoje.

Foto: Ivan Storti/ Divulgação - Santos FC
Quem pode quando esses dois estão inspirados?

É bem verdade que Paulo Henrique deu uma entrada no primeiro tempo, no jovem meia Oscar, que poderia ter-lhe rendido o vermelho. Mas é certo que Ganso não entrou na partida, sua melhor com a camisa do Santos em 2012, para bater. Não é do seu feitio. Mas os gestos do Ganso de hoje me lembraram o Ganso da final contra o Santo André em 2010. Altivo, categórico, impondo-se e levando o adversário ao desespero, à raiva e à impotência.

E Arouca? Outro gigante. Atuou em todo o campo, como um motor, um dínamo. Até os 12 minutos do primeiro tempo, tinham sido dele três finalizações perigosas contra o gol colorado, uma delas salva em grande defesa do goleiro com nome de anjo, Muriel.

Acuado no primeiro tempo, o Inter porém quase se deu bem no único setor falho do Santos, a lateral esquerda, por onde o time gaúcho penetrou várias vezes, nas duas etapas da partida. Seja nas bolas que Juan tomou nas costas, seja pela falta de cobertura no vazio deixado pelo lateral que não voltava a tempo. Numa dessas bolas, já no segundo tempo, Rafael fez um milagre em finalização acho que de Damião. Na lateral direita, Fucile não comprometeu.

Os beques Dracena e Durval fizeram partida quase impecável, não fosse pela falha no gol colorado, mas que foi uma falha geral do time.

E o jogo terminou em olé. Os gaúchos, que levaram um baile de bola em Santos, não vão querer deixar barato na volta em Porto Alegre. Mas se forem muito afoitos, vão perder lá também.

Corinthians e Fluminense

Termino o post a tempo de dizer que o Corinthians ganhou de 2 a 0 do pobre Nacional do Paraguai (lógica absoluta) no Pacaembu e o Fluminense ganhou com autoridade do Boca Juniors em La Bombonera. Destaque para Deco, que fez um jogo primoroso, e Fred, decisivo como sempre.

Ficha Técnica

Santos 3 X 1 Internacional
(Vila Belmiro - Santos)

Santos: Rafael; Fucile (Bruno Rodrigo), Edu Dracena, Durval e Juan; Henrique, Henrique, Ibson (Elano) e Paulo Henrique Ganso; Neymar e Borges (Alan Kardec). Técnico - Muricy Ramalho.

Internacional: Muriel; Nei, Rodrigo Moledo, Índio e Kléber; Bolatti (Tinga), Guiñazu, Elton (Dátolo), D'Alessandro (Dagoberto) e Oscar; Leandro Damião. Técnico - Dorival Júnior.

Gols: Neymar (pênalti), aos 18 minutos do primeiro tempo. Neymar, aos 9, Leandro Damião aos 18 e Neymar 19 minutos do segundo tempo.

Árbitro: Evandro Rogério Roman (Fifa-PR)

terça-feira, 6 de março de 2012

Escalada de proibições e obscurantismo
avança no Brasil

Estamos realmente entrando em uma escalada autoritária, moralista e obscurantista cujo fim não se pode prever. Na esteira de uma proibição, vem sempre outra, e outra, e outra. Quando os incautos, ingênuos e ignorantes percebem, eles mesmos começam a ser vítimas dos tentáculos do polvo que antes defenderam.

Depois da proibição do fumo, que muita gente apoiou, embora proibir seja sempre o caminho mais perigoso, agora a Assembleia Legislativa de São Paulo se sente à vontade e deve apresentar esta semana um novo projeto, desta vez para proibir a venda e consumo de álcool nos espaços abertos. O projeto é de autoria de Campos Machado (PTB). Se aprovado e sancionado pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), segundo a Agência Estado, “ficarão proibidos a venda e o consumo de bebida alcoólica em ambientes públicos, como praias, calçadas, postos de gasolina e estádios, entre outros lugares”.

E mais: “Como ocorre em províncias canadenses e estados americanos, ainda haverá restrição ao porte de bebida nas ruas. Carregar garrafas só será permitido em público com embalagens que escondam o rótulo”.

Pergunto: estamos caminhando a uma volta ao período da Lei Seca dos anos 1920 dos Estados Unidos, que fomentou a máfia? Até onde vai a hipocrisia dos que querem ver as diferenças e as liberdades individuais proscritas? Você terá que andar escondendo uma latinha de cerveja na praia e na rua como se fosse um criminoso? E de fato será, caro leitor, pois está claro que afrontar uma lei é crime.

A propósito da proibição do fumo, acho que, como já escrevi aqui, “a legislação promove a discriminação das pessoas, incentiva a delação, prejudica o comércio, é inconstitucional e fascista”. No caso da lei do nobre Campos Machado, envereda-se pelo caminho do fascismo com uma sem-cerimônia assustadora.

Livros

A sanha proibitiva e, no fundo, como digo, fascista, não vem só do que chamamos de direita política. O episódio contra a obra de Monteiro Lobato em 2010 já mostrou que a chamada esquerda também tem gosto pela proibição. E de livros. Outro fato, este recentíssimo relativo a obras literárias, mira agora um outro livro. O dicionário Houaiss.

O Ministério Público Federal (MPF) entrou com ação na Justiça Federal em Uberlândia (MG) para tirar de circulação o dicionário, por discriminação ao povo cigano.

Ora, qualquer discriminação de cunho racista é abominável. Mas estamos falando de um dicionário, minha gente, pelo amor de Deus. O Houaiss registra várias acepções do termo cigano (como de qualquer outra etnia), entre as quais define expressamente como "pejorativa" esta: "aquele que trapaceia; velhaco, burlador".

O dicionário não está dizendo que o cigano é “velhaco”. Está dizendo que uma de suas acepções, “pejorativa”, é esta.

Concordo com o que diz Paulo Gurgel em seu blog EntreMentes: “o compromisso tácito” de “todo lexicógrafo que se preze” é o de “apresentar o repertório de significados atribuídos a cada palavra e indicar as particularidades de seu uso (‘informal’, ‘antiquado’, ‘chulo’, ‘regional’, etc.). Nosso douto procurador [Cléber Eustáquio Neves, que entrou com a ação contra o dicionário] deveria ter percebido que as informações apresentadas pelo Houaiss — que, desculpem lembrar a obviedade, não é uma enciclopédia — se referem ao termo, e não ao povo cigano. No dia em que registrar os valores depreciativos que certos vocábulos assumiram ao longo do tempo for considerado um crime, nossa língua — ou melhor, nossa civilização terá embarcado numa viagem sem volta para a noite escura da desmemória".

O caminho da proibição que se dissemina na sociedade brasileira – de fundo religioso, moralista, supostamente em prol da saúde ou em defesa do “direito das minorias”, seja qual for – é muito, muito preocupante. Já cansamos de ver na história (e não apenas no século XX) que esse é muitas vezes um caminho sem volta. Apoiado pela má-fé, por interesses obscuros e inconfessáveis ou pela ignorância.

PS (atualizado às 16:31): Logo após a publicação deste post, vi pelo twitter (por @ALuizCosta) que o Dicionário Houaiss divulgou release sobre sua posição a respeito do verbete "cigano", sugerindo uma solução para o problema em tais casos: "Registrar a palavra ou a acepção e dizer claramente, quando é o caso, que ela é pejorativa e preconceituosa". Íntegra aqui.

domingo, 4 de março de 2012

Peixe bate o Timão em jogo camarada


Peixe e Timão fizeram um jogo em ritmo de treino na volta do Peixe à Vila Belmiro após a reforma do gramado. Resultado: Santos 1 x 0 Corinthians, gol de Íbson, aos 12 minutos do segundo tempo.

Sem vários titulares (Liédson, Danilo, Alessandro, Chicão, Leandro Castán e Paulinho – que entrou no segundo tempo), o Timão fez valer o conjunto para tentar quebrar o óbvio favoritismo da equipe santista, com sua força máxima.

Só que a impressão que deu o clássico é que havia um acordo tácito, como se um time tivesse dito ao outro: quarta-feira tem Libertadores, vamos fazer um treininho sem drama! E assim foi.



O Santos fez uma partida de segurança. Neymar teve a atuação mais apagada de que tenho lembrança. Quem desequilibrou, cadenciando, dando inteligência e armando o time, foi Ganso. Foi dele o passe magistral para Íbson definir o placar aos 12 minutos do segundo tempo.

Enquanto o Corinthians fez seu jogo tradicional, pragmático, em que os desfalques parecem fazer menos efeito do que fariam se o time não tivesse um padrão de jogo tão definido como tem, goste-se dele ou não. Resumindo, foi um prélio de compadres, com poucas faltas duras (como têm sido os encontros entre os dois times nos últimos tempos) e uma gentileza de parte a parte de irritar torcedores que gostam de rivalidade e jogo pegado.

Na quarta-feira, 7, o Peixe tem partida importantíssima e difícil com o Internacional pela Libertadores na Vila precisando ganhar, já que perdeu do The Strongest na estréia (2 a 1). O Timão – que começou empatando com o Táchira na Venezuela (1 a 1) – enfrenta o Nacional do Paraguai no mesmo dia, no Pacaembu.

O clássico vovô de hoje foi mais importante como estatística do que como jogo ou classificação, num campeonato de regulamento político feito para classificar os grandes e mais quatro pequenos. Mas ganhar um clássico é bom até em jogo de botão. Então, está valendo, nação santista.

A última vitória do Corinthians sobre o Santos foi justamente na fase de classificação do Paulista do ano passado, por 3 a 1. Já são cinco jogos (links abaixo) sem vitória do Alvinegro do Parque São Jorge sobre o Alvinegro da Vila.

2011

Corinthians 3 x 1 Santos (Paulistão, primeira fase)

Corinthians 0 x 0 Santos (Paulistão, final - jogo de ida)

Santos 2 x 1 Corinthians (Paulistão, final - jogo de volta: Santos campeão)

Santos 0 x 0 Corinthians (Brasileiro, 1° turno)

Corinthians 1 x 3 Santos (Brasileiro, 2° turno)

2012

Santos 1 x 0 Corinthians (Vila Belmiro - Paulistão – primeira fase)

Ficha Técnica

Santos 1 x 0 Corinthians
Vila Belmiro, Santos, 4/3/2012
Árbitro: Wilson Luiz Seneme
Assistentes: Herman Brumel Vani (SP) e Danilo Ricardo Simon Manis (SP)
Renda/ público: R$ 284.240/ 12.818
GOL: Ibson 12′/2T (1-0)
Santos: Rafael; Fucile, Edu Dracena, Durval e Juan; Arouca (Felipe Anderson 44′/2T), Henrique, Ibson (Elano 25′/2T) e Ganso; Neymar e Borges (Alan Kardec 28′/2T). Técnico: Muricy Ramalho
Corinthians: Julio Cesar; Welder (Paulinho 34′/2T), Marquinhos, Wallace e Fábio Santos; Ralf, Edenilson, Willian (Ramírez 13′/2T) , Alex, Jorge Henrique; Adriano (Elton 24′/2T). Técnico: Tite



sábado, 3 de março de 2012

José Serra se transforma numa figura cômica. Ou: a política não foi feita para idealistas


Não tive tempo nesta sexta-feira, 2, de parar para postar aqui no blog. Mas (antes tarde do que nunca) ainda cabe a nota. O presidente do diretório do PSDB de Ermelino Matarazzo (zona Leste de São Paulo), Waldemiro Junior, passou uma descompostura no colega e pré-candidato tucano à prefeitura paulistana José Serra que reflete bem a divisão que a figura de Serra semeia no PSDB. Inclusive nacionalmente, pois a disputa surda entre ele e Aécio Neves é quase transparente, desde a eleição de 2010, aliás.

A mudança na fisionomia de Serra (e também de Bruno Covas) e o constrangimento geral durante a fala de seu correligionário de Ermelino Matarazzo (reduto de Marta Suplicy, diga-se) é notável, a partir do momento em que o tucano Waldemiro Junior diz, para espanto da assembléia: “Não é uma sensação agradável, Serra, hoje de tá aqui na sua frente”. Dá quase para ver a fumaça do ódio de José Serra invadir o ambiente.





Não por acaso, ocorreu-me a matéria de Fernando Rodriges na Folha de S. Paulo desta mesma sexta-feira, segundo a qual o prefeito Gilberto Kassab teria dito recentemente ao presidente nacional do PT, Rui Falcão, que “o Serra não vai mais ser candidato a presidente da República (...). Para a [presidente] Dilma, a melhor coisa que poderia acontecer é o Serra prefeito de São Paulo. Porque se tiver Dilma e Aécio, Serra é Dilma [na disputa presidencial de 2014]". Íntegra da matéria da Folha para assinantes . A política não foi feita para idealistas, meus amigos.

Não esqueçamos também a cômica passagem em que José Serra demonstra que não sabe nem mesmo qual é o nome do país que quis presidir, ao dizer a Boris Casoy que o Brasil chama "Estados Unidos do Brasil".

sexta-feira, 2 de março de 2012

O jornalismo, segundo Baudelaire – pensamento para sexta-feira (26)


"É impossível percorrer uma gazeta qualquer, seja de que dia for, ou de que mês, ou de que ano, sem nela encontrar, a cada linha, os sinais da perversidade humana mais espantosa, ao mesmo tempo que as gabolices mais surpreendentes de probidade, de bondade, de caridade, e as afirmações mais descaradas a respeito do progresso e da civilização.

Os jornais, sem exceção, da primeira à última linha, não passam dum tecido de horrores. Guerras, crimes, roubos, impudicícias, torturas, crimes dos príncipes, crimes das nações, crimes dos particulares, uma embriaguez de atrocidade universal.

É com esse repugnante aperitivo que o homem civilizado acompanha a sua refeição de cada manhã. Tudo, nesse mundo, transpira o crime: o jornal, a muralha e o semblante do homem. Não compreendo que uma mão pura possa tocar num jornal sem uma convulsão de repugnância."


"Meu coração desnudado" (Charles Baudelaire, texto 81
editora Nova Fronteira, 1981
Tradução: Aurélio Buarque de Holanda Ferreira
)