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segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

A adolescência segundo J. D. Salinger e John Fante


Um dos prazeres da leitura é a comparação. Comecei o ano lendo 1933 Foi um Ano Ruim, de John Fante, e não houve como não me lembrar de um dos maiores clássicos da literatura norte-americana, O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger. Ambos narram, em primeira pessoa, a história de adolescentes.

Adolescentes, como se sabe, são criaturas problemáticas, em transição. Não sabem o que querem ou, se sabem (ou pensam saber), têm certeza absoluta dos objetivos, mesmo que a realidade teime em desmentir seus sonhos. Às vezes têm todas as certezas do mundo. Outras, todas as dúvidas do mundo. Muitas vezes têm certezas demais e dúvidas de menos, maneira inconsciente de superar as inseguranças.

Salinger
O personagem de Salinger é Holden Caulfield, um garoto de 17 anos, de família rica (ou classe média alta), que não vê sentido na vida, na escola que frequenta na Pensilvânia, nos amigos e professores, nos valores burgueses onde se forjou, no futuro ou no passado. Não tem ambições e vive esmagado pela angústia. É um niilista. Mas é capaz de amar: ama seus irmãos, principalmente o que já morreu e a menininha caçula, a encantadora Phoebe. Pólos inatingíveis e opostos: o morto e a infância que não volta mais. Apesar de tudo, é um rapaz sensível e incapaz de fazer o mal.

Já Dominic Molise, de Fante, também de 17 anos, é uma figura socialmente muito diferente, para dizer não dizer o oposto, de Caulfield. Molise é pobre, filho de um pedreiro nascido na Itália, assolado por dúvidas e angústias adolescentes, mas tem uma certeza inabalável: a de que será um grande jogador de beisebol. Nesse sentido, o personagem é muito identificável com milhões de crianças e jovens que sonham em ser jogador de futebol, um grande astro do rock ou da MPB e acreditam que nasceram predestinados ao sucesso até que, cedo para uns, tarde para outros, descobrem que são apenas pessoas comuns, como todos nós.

Fante
A narrativa de 1933 Foi um Ano Ruim é direta e sem rodeios de linguagem, à tradição de Hemingway e Bukowski, com sua poesia seca. Porém, o livro não conta apenas a história do jovem, pobre e sonhador, Dominic Molise, mas o enquadra no contexto politizado e feroz dos Estados Unidos da depressão pós-1929, onde famílias como a dele foram empurradas para a pobreza sem remédio. O conflito capital-trabalho é claro e permeia o romance, que, aliás, não é de modo algum panfletário ou engagé, o que quase sempre é característica da literatura menor e desimportante, já que os grandes escritores de ficção, de modo geral (salvo raras exceções – como Sartre), não se submetem à História, mas a transcendem – daí a imortalidade dos clássicos. O livro de Fante transcende o próprio contexto histórico.

Mais sofisticado, O Apanhador no Campo de Centeio, cuja narrativa se desenvolve em 1949, difere do livro de Fante, entre outros aspectos, porque explora com maestria um recurso de que poucos são dotados: a ironia, esse legado que nos deixou Kierkegaard. Como nos ensina o mestre dinamarquês, a ironia não é uma solução fácil que você coloca numa frase, mas é o próprio espírito de uma obra. Portanto, é difícil você pinçar uma frase ou outra para ilustrar o caráter irônico de uma obra: a ironia está na obra, a envolve como um manto. Mesmo assim, apenas a título de exemplo, destaco isso, dito pelo personagem Holden Caulfield: “Magnífico. Se há uma palavra que eu odeie é magnífico”.

Ou esta passagem:

Puxa, depois que a gente morre eles fazem o diabo com a gente. Tomara que quando eu morrer de verdade alguém tenha a feliz ideia de me jogar num rio ou coisa parecida. Tudo, menos me enfiar numa porcaria dum cemitério. Gente todo dia vindo botar um ramo de flores em cima da barriga do infeliz, e toda essa baboseira. Quem é que quer flores depois de morto? Ninguém”.

Já o personagem de Fante não tem tempo para ironia – e nem o autor maneja esse recurso. A poesia está na realidade. O Dominic de Fante é um prisioneiro da realidade; o Holden Caulfield de Salinger a despreza e odeia. O primeiro, filho de imigrante italiano, é católico; o segundo, um cético.

Seja como for, é um exercício interessante conhecer a adolescência segundo um e outro escritor. Tema que foi também abordado na obra de um dos maiores mestres da literatura, Gustave Flaubert, no romance Novembro, cujo protagonista é obcecado pelo Oriente mas não consegue abandonar o tédio de seu próprio quarto. Mas ficarei no critério de me restringir aos norte-americanos, ao século XX. O adolescente de Flaubert soaria deslocado, aqui.

O Apanhador no Campo de Centeio – o que muitos observam como se fosse um atributo do próprio livro – é dotado de uma aura “maldita”, já que era o livro que o assassino de John Lennon, Mark Chapman, tinha consigo quando matou o ex-beatle com cinco tiros. Um estigma que a obra-prima de J. D. Salinger não merecia.


Jerome David Salinger nasceu em Nova York, em 1° de janeiro de 1919, e morreu em Cornish (New Hampshire), em 27 de janeiro de 2010. O livro O Apanhador no Campo de Centeio foi publicado em 1951. No Brasil, é encontrado em belíssima edição da Editora do Autor.








John Fante era filho de italianos. Nasceu em Denver, em 8 de Abril de 1909, e morreu em Woodland (Califórnia) em 8 de Maio de 1983. 1933 Foi um Ano Ruim foi publicado postumamente, em 1985. É editado aqui pela L&PM, em edição pocket.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Uma bela criança


Na célebre foto, Capote e Marilyn dançam
“A Beautiful Child”, no original em inglês, é o título de uma maravilhosa narrativa de Truman Capote publicada no livro Música para Camaleões (1980). Nela, o autor de A Sangue Frio conta um episódio que viveu com a atriz Marilyn Monroe a partir de um encontro que tiveram nos funerais de Constance Collier, “uma das maiores atrizes shakespearianas da Inglaterra”, diz Capote, e que nas últimas décadas de vida fora professora de teatro de pessoas que já fossem profissionais. Marilyn, que lhe fora apresentada por Capote, era uma dessas alunas.

Na cerimônia fúnebre, na qual estabelecem um diálogo delicioso, mordaz, bem-humorado (o bom humor é da narrativa, não necessariamente do diálogo), eles discutem, por exemplo, quando Capote diz que vai esperá-la fora da capela. “Preciso fumar um cigarro”, diz ele. O papo segue:

Marilyn: “Não pode me deixar sozinha! Meu Deus! Fume aqui”.
Capote: “Aqui? Na capela?”
Marilyn: “Por que não? O que você vai fumar? Maconha?”

Você pode praticamente ver a cena de um baixinho assumidamente gay discutindo num funeral com uma deslumbrante loira escondida sob um figurino “apropriado a uma abadessa de um convento em audiência privada com o papa”, segundo descreve o autor. Não querendo ser reconhecida pelos fotógrafos, eles esperam o evento e a capela esvaziarem. “Seja paciente. Assim que pudermos sair, iremos a algum lugar e eu comprarei uma garrafa de champanhe para nós”, diz a atriz. Enquanto isso, continuam a conversa e depois de se certificar que não será fotografada, eles saem a peregrinar pelas ruas de Nova York.

Segue-se uma adorável pequena odisséia de ambos ao redor de vitrines de lojas de antiguidades até acabarem em um restaurante na Segunda Avenida. Ali, entre muitos drinks (fora os famosos comprimidos que a atriz, como se sabe, usava), trocam desafios sobre amores e amantes, e discorrem sobre as estrelas de Hollywood. Fazem fofocas mil, essa coisa que todo mundo nega mas adora, a partir de um jogo de adivinhação em que Capote tenta descobrir quem seria o amante de Marilyn. E as fofocas seguem. Tyrone Power tinha um caso com Errol Flyn, fica-se sabendo.

Constance Collier

Mas, embora pareça ser alimentado por meras futilidades, o texto é um registro poderoso e inigualável, eu diria espiritual, da figura de Marilyn Monroe, não como a estrela maravilhosamente bela e glamurosa que provocou tantas fantasias, mas principalmente como portadora da alma de “uma bela criança”, como diz o título, segundo a sensível visão de Capote, termo, aliás, usado pela própria Constance Collier, no enterro de quem o episódio inicia e de quem é a melhor definição da mitológica loira (que não era loira real e nem uma atriz na acepção do termo): “O que ela tem – essa presença, essa luminosidade, essa inteligência lampejante – jamais poderia vir à tona no palco (...) É como um beija-flor em pleno vôo”.
Marilyn Monroe, que foi amante do presidente John Kennedy, morreria em 5 de agosto de 1962 com 36 anos, em circunstâncias misteriosas até hoje não esclarecidas.

Ao contrário de outros ensaios em que aborda celebridades, neste o autor nos aproxima do objeto de sua narrativa e admiração, compartilhando conosco sua intimidade com a estrela por meio de sua técnica narrativa de riquíssimos recursos que se conhece como literatura de não-ficção. Ao contar seu encontro com Marlon Brando em “O Duque em seu domínio”, por exemplo (texto que está em Ensaios, da editora LeYa), há um enorme distanciamento, uma frieza mesmo, nenhum elo de ligação pessoal ou afetiva, entre o narrador (Capote) e o objeto narrado (Brando).

“Uma bela criança” está em dois livros facilmente encontráveis nas livrarias: Ensaios (editora LeYa), uma coletânea reunindo textos de vários livros, e Música para Camaleões (Cia. das Letras), reunião feita pelo próprio Capote publicada sob esse mesmo título nos Estados Unidos em 1980. Apesar desta última edição ser a tradução de uma obra fechada pelo autor, prefira a da LeYa.

Leia também, sobre Truman Capote:

Impressões sobre Ensaios

Nota sobre A Sangue Frio

sexta-feira, 16 de março de 2012

A personalidade das moscas

Pensamento para sexta-feira [27]


A Drosophila melanogaster (mosca de banana)
Esta semana, li uma matéria que parece piada, mas é muito interessante: “Moscas rejeitadas ingerem álcool para afogar as mágoas”, diz o título, explicando que “estudo feito com drosófilas mostrou comportamento diferente entre insetos machos que foram desprezados e aqueles que copularam”.

E ainda: “A cena é corriqueira: o cara leva um fora e vai para o bar afogar as mágoas de um amor malsucedido. A novidade é que cientistas americanos descobriram que as moscas-de-fruta (também chamadas de drosófilas) também fazem coisa parecida quando a fêmea refuta o acasalamento. O estudo mostrou que os machos da espécie Drosophila melanogaster ingeriram mais álcool após levar um não”, em redação de matéria do iG.

A conclusão do estudo pode parecer bizarra, mas me remeteu imediatamente a uma passagem do livro O Andarilho das Estrelas, de Jack London (1876-1916), um dos mais importantes escritores norte-americanos. No livro, um condenado à prisão perpétua (depois seria condenado à morte) passa os dias na solitária e procura coisas para passar o tempo e vencer o tédio e a dor. Aprende a meditar e faz viagens astrais em que relembra suas reencarnações na Terra (London dedicou esta obra à mãe, que era espírita, enquanto ele próprio dizia não acreditar em espírito e era socialista). Antes de dominar essa técnica, porém, o narrador condenado já tinha outros passatempos. Um deles é estudar a personalidade das moscas e brincar com elas por meio de um jogo que ele inventa.

Jack London (na foto ao lado) foi um dos escritores que mais profundamente conseguiram penetrar na alma humana. E mais: ele parecia conhecer também a mente animal, por incrível que pareça. No livro Caninos Brancos (uma de suas obras-primas) ele conta a história de um lobo (já escrevi sobre esse livro – o link está abaixo no post). Claro que ele dominava como poucos a técnica narrativa. Mas é impressionante e magistral.

Abaixo, segue o trecho de O Andarilho das Estrelas em que o personagem de London descreve sua relação com as moscas.

E o tempo passava muito devagar, as horas eram muito longas. Brinquei até com as moscas; as moscas domésticas que se infiltravam na solitária, com a luz cinzenta do dia. Então, descobri que elas também tinham um instinto competitivo. Por exemplo, deitado no chão da cela, estabelecia uma linha imaginária ao longo da parede, a um metro do chão e quando elas pousavam na parede acima dessa linha, eu as deixava em paz. No momento em que elas cruzavam essa linha, eu tentava pegá-las, tomando cuidado para não feri-las. Com o tempo, elas sabiam tão precisamente como eu onde estava a linha imaginária. Quando elas queriam brincar, cruzavam a linha e, frequentemente, uma única mosca jogava comigo por mais de uma hora. Quando se cansava, ia repousar no território seguro acima da linha.
“Dentre a dúzia de moscas que conviviam comigo, havia somente uma que não ligava para o jogo. Ela se recusava firmemente a jogar e, tendo aprendido a penalidade por cruzar a linha, evitava cuidadosamente o território inseguro. Aquela mosca era mal-humorada, enfadada; como diriam os condenados, “resmungava” contra o mundo e tampouco brincava com as outras moscas. Era forte e saudável. Eu a estudei por algum tempo. Sua indisposição para brincadeiras era temperamental, não física.
“Acredite, leitor, eu conhecia todas aquelas moscas (...) Ah, cada uma tinha sua individualidade, não apenas em relação ao tamanho e às características, mas à força, à velocidade de vôo, à maneira e jeito de voar e brincar, de fugir e correr, de voar em círculos e repetir ou inverter a direção, de tocar e caminhar sobre a área proibida ou fingir tocá-la e depois tocar em outro lugar, dentro da zona de segurança (...)
“Eu conhecia as mais nervosas, as fleumáticas. Havia uma pequenina que voava furiosa em verdadeiras rasantes, disparando às vezes contra mim, às vezes contra suas companheiras (...) havia uma mosca, a jogadora mais perspicaz de todas, que, depois de descer três ou quatro vezes sucessivas na zona de perigo, conseguindo escapar de minha mão, fechada em concha, ficava tão excitada e jubilante que voava ao redor de minha cabeça em plena velocidade, rodopiando, mudando de direção, invertendo o curso, mas sempre se mantendo dentro dos limites do estreito círculo no qual celebrava seu triunfo sobre mim (...)
Para mim foi uma glória quando a 'resmungona', que nunca brincava, pousou, num momento de distração, dentro da zona proibida e foi capturada imediatamente por minha mão. Depois disso, ela ficou amuada durante uma hora.”

Leia também:

A natureza selvagem segundo Jack London

Pensamento para sexta-feira: Eu e os insetos (ou, motivos para ter medo de insetos)

A íntegra da matéria do iG

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Pensamento para sexta-feira [22] – coisas que chocam

O pequeno trecho abaixo é retirado do texto "Autorretrato", de 1972, uma espécie de entrevista consigo mesmo, do escritor Truman Capote. Está no belíssimo livro Ensaios (editora Leya).


Pergunta: Você prefere animais às pessoas?
Resposta: Gosto dos dois da mesma maneira. Porém, tenho descoberto que existe alguma coisa de sigilosamente cruel nas pessoas que sentem mais carinho por cachorros, gatos e cavalos do que por outras pessoas.

(...)

P: O que o choca? Existe alguma coisa capaz disso?
R: Crueldade deliberada. Crueldade por si mesma, verbal ou física. Assassinato. Pena de morte. Gente que espanca crianças. E gente que espanca animais.
Uma vez, há muito tempo, descobri que meu melhor amigo, então com 18 anos, estava vivendo um romance inteiramente concretizado com a madrasta. Na época fiquei chocado; nem é preciso dizer que agora, pensando nisso, não me choco mais, posso perceber que a situação era provavelmente benéfica para os dois envolvidos. Desde então, não tenho me surpreendido, para não dizer que não me sinto chocado, por nenhum arranjo sexual-moral. Se fosse diferente, eu teria de liderar o desfile dos milhões e milhões de hipócritas da nossa nação.

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Truman Capote (1924-1984) foi um escritor e jornalista norte-americano, o maior expoente do romance de não-ficção. Capote é considerado o precursor desse gênero. O livro Ensaios, do qual o pequeno trecho acima é retirado, traz o perfil do ator Marlon Brando (narrativa intitulada "O duque em seus domínios"), feito a partir de entrevista num hotel no Japão onde o ator estava hospedado para as filmagens de Sayonara. O texto sobre Brando é considerado por alguns críticos como o primeiro do New Journalism, outra denominação do gênero não-ficção.

Leia sobre o livro: Impressões sobre Ensaios, de Truman Capote: é possível ser jornalista sem ser imbecil

Leia também: Nota sobre A Sangue Frio de Truman Capote

terça-feira, 5 de julho de 2011

Ernest Hemingway (1899-1961)


No último dia 2 de julho completaram-se 50 anos da morte de Ernest Hemingway (1899-1961), um dos mais importantes escritores norte-americanos da primeira metade do século XX, ao lado de Jack London (1876-1916), Scott Fitzgerald (1896-1940) e John Reed (1887-1920) – todos autores de uma geração anterior à de Norman Mailer e Truman Capote.

(Há que se mencionar a importância de John Reed, escritor que, morto muito jovem, aos 33 anos, não deu sequência à carreira, mas cuja força pode ser medida mais pela pequena mas valiosa coletânea de contos A Filha da Revolução do que pelo best seller Os Dez Dias que Abalaram o Mundo, uma reportagem, aliás, extraordinária.)

Voltemos a Hemingway, que escreveu obras importantes como O Sol Também Se Levanta (1926), Adeus às Armas (1929), Por Quem os Sinos Dobram (1940) e outras, além de seus contos, embora seja mais popular pela novela O Velho e o Mar (1952).

Com sua narrativa direta, às vezes telegráfica, sem a intermediação de adjetivos, e com descrições, quando há, muito econômicas, Hemingway foi aquele escritor que muitos jovens ambiciosos gostariam de ter sido. Ele e Jack London são seminais na literatura que posteriormente gerou uma legião de herdeiros, entre os quais Charles Bukowski e Jack Kerouac.

Como personalidade, não é exatamente um exemplo . Gostava de armas e tinha entre seus hobbies a caça. Foi à Primeira Guerra como motorista de ambulância. Essa experiência serviria de fonte para um de seus melhores romances, Adeus às Armas. Nessa obra-prima, Hemingway incorpora muitas de suas experiências pessoais, mas ainda se mantém fiel à ficção. A solução de fazer literatura da vida real seria radicalizada por Capote, ao desenvolver a não-ficção do new journalism.

Para Hemingway, a caça e a guerra eram mais do que simples elementos de prazer ou literários. Estavam por trás de uma obsessão à qual o escritor finalmente acabaria sucumbindo em 2 de Julho 1961, em Cuba, quando se suicidou com um tiro de um fuzil de caça que, colocado sob o queixo, pulverizou seu cérebro.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Impressões sobre "Ensaios", de Truman Capote: é possível ser jornalista sem ser imbecil


Truman Capote/Reprodução

A leitura de livro Ensaios (Ed. Leya), de Truman Capote, é um desses prazeres que se deve comunicar, pois é egoísmo não compartilhar o brilhantismo inebriante de sua narrativa, que vai de paisagens subjetivas da alma, ao falar por exemplo de Nova Orleans (título do texto que abre o livro), onde ele nasceu, a relatos jornalístico-literários (sua especialidade) com variados temas.

Entre os textos marcantes de Ensaios, "O Duque em seu domínio”, que, mais do que uma entrevista, é o relato de uma entrevista, com Marlon Brando, em um hotel em Kyoto, em 1957, onde Brando trabalhava numa locação do filme Sayonara.

A bonita edição da Leya inclui “Ouvindo as Musas”, não-ficção de cento e poucas páginas que conta a incrível turnê de uma grande companhia de teatro americana para apresentar em Leningrado a superprodução Porgy and Bess. Detalhe: em pleno ano de 1956, com o mundo dividido pela Cortina de Ferro. Nesse contexto absurdo, a arte supera as ideologias, como fica registrado pela voz de um funcionário da embaixada soviética encarregado de ciceronear a companhia estadunidense: “Quando os canhões são ouvidos, as musas silenciam; se os canhões estão silenciosos, as musas são ouvidas”.

Como Truman Capote era um dândi do século XX, sempre ao redor de ricos e famosos, ele estava invariavelmente nos lugares certos na hora certa. Por exemplo, para relatar um cruzeiro pela Grécia, onde ouve uma história macabra contada pelo capitão do barco (a literatura está em toda parte); em Tânger, onde conhece prostitutas internacionais, por assim dizer; suas impressões sobre os fotógrafos Richard Avedon e Cecil Beaton, com os quais conviveu, pelo menos o suficiente para deles fazer o retrato que sua pena pintava daqueles que achava importantes. Aqueles que podem ser pessoas, lugares ou situações.

A Sangue Frio


O escritor na casa da família Clutter

Um dos pontos altos de Ensaios é o texto “Fantasmas ao sol: a filmagem da A Sangue Frio”, título em si próprio elucidativo. Trata-se do relato (mais um brilhante relato) de Capote, dessa vez sobre sua participação, como “consultor” do diretor Robert Brooks, no filme A Sangue Frio, baseado no livro (obra-prima do new journalism) realizado sete anos antes, sobre o assassinato da família Clutter, no Kansas.

É muito interessante saber detalhes da produção de um filme tão difícil, e conhecer os porquês da permissão de Capote para que “o diretor Robert Brooks agisse como intermediário entre livro e tela”. Diz Truman Capote no texto: “Ele era a única pessoa que aceitava inteiramente dois pontos importantes: eu queria o filme feito em preto e branco e queria um elenco de desconhecidos – isto é, atores sem rostos públicos”.

E mais uma coisa, elucida o autor de A Sangue Frio, é que o filme “tivesse cada cena filmada em seu local original”, onde realmente aconteceram os eventos descritos na reportagem literária do livro: a casa do crime, o tribunal onde os criminosos foram julgados, a loja de variedades onde os assassinos “compraram a corda e a fita usadas para imobilizar as quatro vítimas”, entre outros elementos.

Um corvo

Como se não bastasse o mergulho na psique norte-americana da primeira metade do século XX (cinema, arte, espetáculo, fotografia, crime, ilusões), o livro Ensaios traz relatos que literalmente saem do terreno da realidade, embora justamente da realidade tratem. Falo principalmente da narrativa “Lola”, sobre um corvo que o escritor ganhou de presente de uma doméstica, uma “jovem do vilarejo” que trabalhava para ele quando o escritor morou na Sicília. “Um presente espantoso”, avalia o autor.

É espantoso, mesmo. Um corvo. Só que esse pássaro, descobre o narrador, tem uma personalidade, talvez a personalidade de todos os corvos, esse ícone eternizado – mas também estigmatizado – por Edgar Allan Poe. Mas o fato, bizarro e ao mesmo tempo delicado e bonito, é que o corvo passa a interagir com as pessoas, com suas asas cortadas, como "O Albatroz" de Baudelaire, e o estranho personagem passa realmente a fazer parte do cotidiano das pessoas, como um cachorrinho de estimação desses que existem aos milhões hoje, e que todo mundo acha “tão inteligente que só falta falar”. Mas é um corvo, não um cachorrinho.

É tão absurdo que você se pergunta: mas isso é realidade ou ficção? Diante da beleza da narrativa, a resposta a essa pergunta é irrelevante, embora se saiba que Capote fazia de fato não-ficção.

Truman Capote mostrou que é possível ser jornalista sem ser imbecil.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Nota sobre "A Sangue Frio" de Truman Capote


O ataque do louco Jared Loughner no último sábado, que deixou seis mortos e de 12 a 14 feridos, entre os quais a deputada democrata Gabrielle Giffords, em Tucson, Arizona, me inspirou a escrever uma nota sobre o livro A Sangue Frio, de Truman Capote (1924-1984). Não é propriamente um “gancho”, pois são crimes muito diferentes.  De qualquer maneira, o ataque do louco do Arizona me remete por óbvia livre-associação a essa obra-prima da literatura norte-americana.

Nos Estados Unidos, as armas fazem parte do chamado american way of life, e os crimes reais ou fictícios pontuam a história desse gigantesco país: nas mortes de Lincoln e Kennedy às vidas cotidianas de pessoas comuns; nas histórias de personagens do cinema como em Easy Rider e Fargo, filmes dirigidos respectivamente por Dennis Hopper e os irmãos Coen, a uma celebridade como John Lennon, assassinado na frente do edifício Dakota. (Ok, no Brasil também há crimes e loucos, alguém pode objetar; mas aqui, geralmente, o crime está muito mais associado a questões sociais, por exemplo, do que lá, onde há uma quantidade enorme de assassinatos “sem motivo aparente”, muito devido à facilidade de se comprar armas e munição.)

Voltando à história real narrada em A Sangue Frio (acima, a manchete do jornal Garden City Telegram sobre o crime). Em 15 de novembro de 1959, dois ex-presidiários desocupados (Richard “Dick” Eugene Hickock e Perry Edward Smith) executaram um plano que terminou com o quádruplo assassinato de pai, esposa e um casal de filhos adolescentes na fazenda do senhor Herbert William Clutter, numa cidadezinha minúscula chamada Holcomb, no estado do Kansas. Depois de ler uma notinha no New York Times sobre a tragédia, Truman Capote se propôs a tarefa de escrever sobre a história, na qual mergulhou a ponto de ter dedicado seis anos a ela, fazendo anotações e escrevendo o livro a partir de sua convivência com os personagens do crime, inclusive os assassinos, dos quais a obra traça um perfil humano, familiar e psicológico-psiquiátrico, além do retrato da comunidade local: a chefe da estação ferroviária, a dona do bar, o policial encarregado de investigar o crime, a melhor amiga da adolescente Nancy Clutter, uma das vítimas, seu namorado etc. Ele fez a reportagem, que virou o livro, para a revista The New Yorker.

Os assassinos Dick Hickock (esq.) e Perry Smith

Muitos são os motivos que levam uma pessoa a atravessar a fronteira que a leva a matar um semelhante. Mas é muito impressionante como o acaso pode levá-la a se afastar ou definitivamente atravessar a fronteira. Impressiona também como o autor, ao construir seu “jornalismo literário” (new journalism), sem nunca falar na primeira pessoa, e sim na terceira, como observador, distanciando-se da narrativa, transforma os dois criminosos em personagens, e esses personagens-monstros em simples seres "humanos, demasiadamente humanos" (Nietzsche). Um (Perry, descendente de um irlandês com uma índia cherokee) desprezado pela sorte e pelo destino, que passou a vida entre internatos onde era espancado rotineiramente; o outro (Dick, típico jovem americano de classe média) levado ao mal por algum motivo insondável de sua mente (ou espírito?).

Na história de A Sangue Frio, alguns, como a esposa do subxerife, se compadecem dos condenados, enquanto outros perguntam: "e que compaixão esses monstros tiveram daqueles que mataram?" (na foto, os quatro Clutter assassinados). Capote foi acusado por alguns de ter romanceado a história, a favor dos assassinos, principalmente Perry Smith, uma pessoa que misturava em sua complexa personalidade a sensibilidade artística e o instinto assassino. Como não existe narrativa jornalística que seja de fato imparcial (é só olhar os jornais e revistas nas bancas) não me parece que essa seja uma acusação válida. O autor se torna um interlocutor privilegiado de Hickock e Perry.

No Kansas, os condenados à morte cumpriam a pena na forca. Numa "cerimônia" de execução como essa (pois é disso que se trata) tem de haver testemunhas. Truman Capote, que não tinha direito legal de assistir aos enforcamentos, foi indicado pelos condenados como testemunha das execuções. É que, com o convívio durante todo o processo, os criminosos passaram a ter no autor um interlocutor em quem passaram a confiar. Segundo o bom e esclarecedor posfácio de Matinas Suzuki no livro da Companhia das Letras (em oposição ao pretensioso e egocêntrico prefácio de Ivan Lessa), Capote assistiu ao primeiro enforcamento (de Hickock), mas não teve condições psicológicas de ver o segundo.

Em seu diário, já no corredor da morte, Perry Smith escreveu: "Os ricos nunca são enforcados. Só os pobres e sem amigos. Acho um absurdo tirar a vida de uma pessoa desta maneira. Não acredito na pena de morte, nem do ponto de vista moral nem legal”.

Smith e Hickock foram enforcados na madrugada de 14 de abril de 1965.

Em tempo, não assisti ao filme A Sangue Frio (In Cold Blood, 1967), direção de Richard Brooks. Raras vezes tenho saco para ver um filme baseado em um grande livro. A propósito de o "jornalismo literário" ter sido inaugurado por Capote, discordo. Com esse nome ou não, muitos livros foram escritos sob esse conceito. O principal deles, entre nós, é o maravilhoso e monumental Os Sertões, de Euclides da Cunha, publicado em 1902.

Leia tambémImpressões sobre o livro Ensaios, de Truman Capote

O leitor Jared Loughner
Para terminar, voltando ao louco do Arizona. Segundo matéria da Folha de S. Paulo, Jared Loughner, de 22 anos, que atirou na deputada democrata no último sábado entre outras vítimas, tem em sua lista de livros favoritos Revolução dos Bichos, Admirável Mundo Novo, O Mágico de Oz, Fábulas de Esopo, Odisseia, Alice no País das Maravilhas, Manifesto Comunista, Sidarta, O Velho e o Mar, Mein Kampf e A República, entre outros.

Atualizado às 17h10

quinta-feira, 8 de abril de 2010

A natureza selvagem segundo Jack London

LITERATURA
Para meu amigo Xico Santos, que um dia me apresentou o livro Martin Eden



Falar do romance Caninos Brancos, de Jack London (foto), que acabo de ler, não exige gancho jornalístico. Porque, se tudo o que é belo na vida dependesse de gancho e de jornalismo, estávamos fritos.

Jack London (1876-1916) é um dos mais inquietantes e importantes da fértil literatura norte-americana que foi surgindo nas livrarias nas primeiras décadas do século XX. Desta geração fazem parte John Reed (1887-1920), Ernest Hemingway (1899-1961) e Scott Fitzgerald (1896-1940). Os dois últimos são reunidos sob o rótulo “geração perdida”, termo ao que parece cunhado pela escritora Gertrude Stein (1874-1946) e que me soa mais como rótulo do que como verdade literária. Reed, Hemingway e London têm em comum o fato de terem atuado como jornalistas.

Voltando ao livro Caninos Brancos (1906): você começa a ler uma história cujo enredo tem início nas geladas “terras do Norte”, no Canadá, e vai terminar em São Francisco (EUA), onde o próprio Jack London morreu em 1916. Nela, dois homens conduzidos por um trenó de cães tentam atravessar a “natureza selvagem”, o frio extremo, a paisagem desoladora do deserto branco infinito, e precisam chegar a seu destino, um tal Fort M’Gurry.

Mas você vai descobrindo, lenta e inexoravelmente, através da narrativa envolvente, seca, implacável e econômica de London, que a história não é a de um homem, de alguns homens, de uma tribo ou civilização, mas é a história de um lobo. Ou da família de um lobo, através das gerações.

Um lobo que se chama Caninos Brancos, nome que lhe foi dado por um de seus donos durante a vida (um índio). Na história, a natureza que é selvagem para o homem (a desgraça) é o habitat (a bênção, apesar da luta pela vida) do magnífico lobo, animal de grande poder e beleza que (parênteses) foi caçado covarde e incessantemente pelo homem branco durante a conquista da Terra. Por falta de outro adjetivo, é sobrenatural a maneira pela qual Jack London descreve a mente (trabalho que certamente demandou enorme e longa observação) desse animal que as gerações transformaram nesse ser domesticado, submisso e idiota do mundo contemporâneo: o cãozinho que não pára de latir durante a noite. Mas o lobo não late, o lobo uiva.

Mesmo tendo de se submeter ao “deus” homem, seja como cão de parelha ou cão de rinha (ritual sádico e demasiadamente humano), perdido entre o raiar da civilização que se lhe apresenta e a selva profunda de seus ancestrais, o lobo preserva a beleza do instinto, da ferocidade e da potência: “ainda possuía uma certa ferocidade oculta, como se a selva permanecesse dentro dele”. A transmutação do selvagem no animal domesticado que se processa na criatura Caninos Brancos não poderia ter sido espiritualmente tão bem forjada por ninguém como foi por Jack London.

O autor escreveu, entre outros livros, obras-primas como Martin Eden e O Lobo do Mar. É o escritor que, entre todos os que li, melhor descreve a morte, da maneira mais assombrosa (a morte verdadeiramente, a morte da consciência, em suma), no romance Martin Eden. A abrangência de sua literatura é grande: sem ela, a obra do venerado beatnik Jack Kerouac (1922-1969), por exemplo, pelo menos tal como a conhecemos, não teria existido.

Curiosamente, na história de Caninos Brancos, Jack London parece escrever com amor, ao contrário do que quando escreve apenas sobre humanos, quando sua literatura não consegue fugir da crueldade como inerente ao homem. Em Caninos Brancos, no qual o protagonista é um lobo, ser que inspirou até o fantástico lobisomem, o escritor olha para a vida com mais benevolência.

Jack London nasceu em São Francisco, onde também morreu em 22 de novembro de 1916, na fazenda Glenn Ellen. Uns dizem que se matou, outros afirmam que ele morreu acidentalmente de overdose de alguma droga, ou seja, suicídio involuntário. Segundo a lenda, o local ficou conhecido como Casa do Lobo. Não sei. Só sei que se você leu este texto até aqui, deveria ler Jack London.

Caninos Brancos (Jack London)
Editora Melhoramentos - 237 páginas.
R$ 37,90

Texto também publicado, em versão um pouco diferente, no Boteco Cultural