quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Liminar a favor de Lula e reeleição de Picciani no mesmo dia é demais para a mídia golpista


Quando você quer saber se há notícias positivas para o país, uma das maneiras mais eficientes de se conseguir essa informação é visitar colunas e blogs de gente como Josias de Souza. Hoje o país amanheceu com a notícia de que o conselheiro-relator Valter Shuenquener de Araújo, do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), decidira na noite anterior suspender o depoimento que o ex-presidente Lula e sua mulher, Marisa Letícia, dariam pela manhã, sobre o caso do Condomínio Solaris.


"64 neles", diz camiseta de manifestante em frente ao Fórum onde Lula não depôs

O aspecto positivo da notícia se revelava logo de cara no título do post do jornalista da Folha, publicado às 06:19 da manhã, que registrava seu inconformismo indisfarçado já no título: “Fuga de depoimento carboniza imagem de Lula”.

“Lula sempre foi visto pelos devotos que o seguem como um mito. Ao fugir dos questionamentos do promotor Cassio Conserino, a quem acusa de perseguição, portou-se como alguém que descobriu que também está sujeito à condição humana. Potencializou, de resto, a impressão de que não dispõe de uma defesa consistente”, vociferou o jornalista.

Para Josias de Souza, como para Ricardo Noblat e toda a inumerável lista de assemelhados, o desrespeito à presunção de inocência, ao direito de defesa, à garantia da imparcialidade da jurisdição e outros princípios constitucionais, fundamentais a uma nação sadia, de nada valem diante da urgência em devolver o país a seus verdadeiros donos, as oligarquias de que falava Leonel Brizola e, mais além, aos Estados Unidos da América, cujos interesses estão acima de tudo para essa oligarquia apátrida.

Assim como de nada vale para eles o manifesto de centenas de advogados e juristas importantes, divulgado em janeiro, no qual manifestaram “publicamente indignação e repúdio ao regime de supressão episódica de direitos e garantias que está contaminando o sistema de justiça do país”.

Josias de Souza, Ricardo Noblat e assemelhados são adeptos do jornalismo “imparcial”, aquele mesmo que aprendíamos na faculdade como sendo um dos princípios básicos da profissão, mas depois soubemos tratar-se de uma hipótese improvável.

“Na fase em que ainda tocava trombone sob o telhado de vidro, Lula se comportava como um homem que lambe o dedo depois de enfiá-lo num favo de mel”, continua Josias em seu irrefreável inconformismo diante de uma decisão que lhe tirou o doce da boca, ele que já esperava se lambuzar com o espetáculo midiático do depoimento de Lula que não houve, por enquanto.

Mas, acima de tudo, o que mais impressiona na passagem do parágrafo acima é o ódio manifesto nas palavras do blogueiro-jornalista da Folha. Um ódio verdadeiramente assustador, o mesmo que alimentou durante anos a horda de neofascistas que hoje atacam pessoas simplesmente pela cor da camisa ou da bandeira que essas pessoas usam.

Gustavo Lima/ Câmara dos Deputados
Cunha e oposição tiveram que engolir Picciani 

Mas o dia de quarta-feira (17) prosseguiu, e, como se não bastasse a liminar concedida pelo CNMP suspendendo o depoimento de Lula, eis que Leonardo Picciani, o candidato de Dilma Rousseff, venceu a disputa contra Hugo Motta, apoiado por Eduardo Cunha, e se manteve na liderança do PMDB na Câmara. Mais uma derrota que Eduardo Cunha sentiu como um soco no fígado desferido por um George Foreman.

Um líder de bancada tem inúmeras responsabilidades, como indicar os candidatos a presidente das comissões a que tem direito seu partido ou bloco, solicitar votação secreta, regime de prioridade para propostas, adiamento de votação de propostas em regime de urgência etc. É um aliado e tanto que Dilma continua a ter. Por isso, Josias de Souza mais uma vez exprime o seu ódio incontível: “Ao marchar de forma resoluta em direção à desagregação, o PMDB está apenas homenageando a sua índole”.

É demais, mesmo. Duas notícias boas para o governo no mesmo dia ninguém aguenta.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Hillary Clinton diz que "Terra já deve ter sido visitada por alienígenas" e promete investigação


Divulgação/hillaryclinton.com         
"Sim, vou chegar ao fundo dessa história", promete Hillary

A questão OVNI é uma das mais apaixonantes discussões da atualidade. Alienígenas existem? Já estiveram na Terra ou - segundo creem alguns - na verdade estão por aqui? Normalmente, cientistas tradicionais e pessoas de "bom senso" costumam ridicularizar quem acredita "nessas coisas". Mas há cada vez  mais indicações de que as autoridades mundiais têm mais e mais dificuldades de esconder a verdade.

A candidata democrata à presidência dos Estados Unidos Hillary Clinton deu uma entrevista bombástica no penúltimo dia de 2015 cujo teor foi reproduzido pelo Huffington Post e vários outros veículos. Hillary disse: "a Terra já deve ter sido visitada por alienígenas". Em outro momento da entrevista, a ex-secretária de Estado afirmou: "Sim, vou chegar ao fundo dessa história (...)"

É evidente, no posicionamento de Hillary, a influência de John Podesta, coordenador da campanha da democrata à presidência e um dos mais próximos assessores do presidente Barrack Obama em 2014.

Podesta é antigo defensor da divulgação de arquivos secretos sobre OVNIs e é óbvio que uma pessoa com a posição dele (assessor de Bill Clinton, de Obama e de Hillary) não está simplesmente criando um "factoide".

A entrevista bombástica de Hillary foi concedida ao repórter Daymond Steer, do diário Conway Daily Sun, que o Huffington Post repercutiu. (Podesta) "Fez-me pessoalmente prometer que vamos obter as informações. De uma forma ou de outra. Talvez pudéssemos ter, tipo, uma força-tarefa para ir para a Área 51", disse Hillary.

Em 2002, em uma coletiva de imprensa, Podesta declarou: "É hora de abrir os livros sobre questões que permaneceram no escuro, sobre a questão de investigações do governo sobre OVNIs. É hora de descobrir a verdade sobre o que está lá fora. Nós devemos fazer isso, realmente, porque é certo, porque o povo americano, francamente, pode lidar com a verdade, e devemos fazê-lo porque é a lei".

Ao deixar a assessoria de Obama para se dedicar à campanha de Hillary no ano passado, Podesta afirmou, em sua conta no Twiter, que seu "maior fracasso de 2014" foi não ter conseguido a divulgação sobre arquivos ufológicos (abaixo).

Podesta lamenta não conseguir "a divulgação dos arquivos ufológicos"

Como diria Shakespeare, "há mais mistérios entre o céu e a terra do que possa supor nossa vã filosofia". Talvez os próximos anos sejam aqueles em que finalmente vamos conhecer pelo menos parte do mistério dos aliens, sobre os quais cada vez mais pessoas de alto escalão têm falado, como o próprio Podesta, o ex-ministro da Defesa do Canadá Paul Hellyer, e agora Hillary Clinton, entre outros.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

O carnaval dos chatos – crônica para o Rei Momo



Imagem mostra arco-íris na zona nordeste
da cidade de São Paulo (Foto: Carmem Machado)


Várias e queridas pessoas do meu convívio adoram carnaval. Eu também adoro carnaval, mas por motivos diferentes.

Nesses quatro dias de liberdade, a cidade de São Paulo fica convidativa. Sem trânsito, pois milhões de pessoas estão ausentes, já que preferem a estrada, onde reencontram a neurose dos congestionamentos-monstro. Eu prefiro descansar.

Ou tomar uma cerveja no sossego da minha sala, ou na companhia de amigos agradáveis num barzinho agradável, pra colocar assuntos em dia, jogar conversa fora, contar causos.

Ou ver filmes. Sou dos que ainda alugam filmes, já que aqui no Butantã tem uma locadora, a SQP*, razoável, embora tenha perdido parte do acervo anos atrás num assalto. 

Mas também pode ser que chova o tempo todo. E que me desculpem os amigos que adoram carnaval no sentido ortodoxo (até porque a culpa não é minha, e sim da natureza), mas um carnavalzinho com chuva, como a que cai exatamente agora, à meia-noite em ponto no relógio do computador, na barra inferior à direita (agora já marca 00:01), é delicioso!

Cai uma chuva bela e torrencial (que está fazendo falta a São Paulo), e imagino que, se essa chuva estiver caindo no Sambódromo paulistano agora, os desfiles das escolas de samba (que têm de começar o carnaval exatamente quando a chuva começou no Butantã) não vão ser muito animados. A chuva tem o poder de estragar um desfile, seja de uma escola de samba, seja de um bloco rico, seja de um humilde bloco.

Eu sou do bloco mais humilde de todos, o Bloco dos Chatos, que comemora o carnaval sem carnaval. Viva o carnaval! 

Amanhã cedo vou tomar um café-com-leite e pão com manteiga sem nenhuma pressa.

*PS (no carnaval seguinte, de 2015): O que falei acima sobre a locadora SQP, no Butantã, não é mais verdade. Infelizmente, acuadas pelos novos tempos, a Regina e a Cida estão vendendo os DVDs e vão fechar a locadora. Tempos românticos, quando se alugavam filmes nas locadoras, que vão embora.

Publicado originalmente em 01/03/14 à 01:16



sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Favoritos do cinema (12): O Palhaço,
de Selton Mello



Selton Mello (centro) como o palhaço Pangaré

O Palhaço (2011, direção de Selton Mello), que revi recentemente, é sem dúvida um dos melhores filmes brasileiros do século XXI. No filme, o próprio Selton Mello interpreta o artista de circo Benjamin, que faz o palhaço Pangaré de uma trupe de circo mambembe que viaja pelas Minas Gerais, encantando cidades e pessoas.

O roteiro do filme é do próprio Selton Mello e Marcelo Vindicatto. Não é um roteiro explicativo, do tipo que procura encadear didaticamente a sucessão de fatos e sequências fílmicas. As cenas e sequências (e portanto a história) são truncadas como a vida. Mas o fio da meada não se perde, porque o fio da meada é o circo. A fotografia (sob a direção de Adrian Teijido) é primorosa enquadrando os planos fundos quase infinitos das Minas Gerais.

O precioso filme, que além de tudo emociona - embora não provoque a emoção vulgar que Buñuel considerava perniciosa -, traz ainda um prêmio extra para quem gosta de cinema e atores: Paulo José, que faz o palhaço mais velho do circo e pai de Benjamin/Pangaré (Selton Mello).

Benjamin vive uma angústia existencial, que é inerente ao ser humano: não é feliz com o que faz, não quer mais ser palhaço, não quer seguir o caminho do pai, mas não sabe ser outra coisa. É aquela velha e universal sentença de um personagem de Graham Greene: o homem sempre quer aquilo que não tem.


Com Paulo José 

O Palhaço não pode ser reduzido a um gênero, pois o filme não é apenas uma comédia, um drama, um filme de autor (como se dizia antigamente): é tudo isso ao mesmo tempo.

O personagem Benjamin (Selton) tem o caráter fleumático, quase abúlico, que o ator ensaiou em filme anterior, O Cheiro do Ralo (direção de Heitor Dhalia, 2007), em que interpreta Lourenço, dono de uma loja de objetos e “raridades”, imerso em uma atmosfera bizarra e cômica.

Várias cenas de O Palhaço têm uma característica incomum, rara no cinema, que só grandes diretores são capazes de criar, a qual Federico Fellini soube trabalhar como ninguém: emocionam sem se valer de artifícios baratos. A emoção é emanada às vezes pelo simples silêncio em um diálogo, pelo comportamento singelo de uma personagem (como no diálogo de Benjamin com uma moça gorda na frente de um bar de estrada), por um acontecimento cuja intensidade não se mede pela ação (recurso enfadonho nos filmes hollywoodianos), pelos olhares ou pela delicadeza da interação de dois personagens, como em várias cenas entre o pai e o filho palhaços.

"Eu faço todo mundo rir, mas quem é que vai me fazer rir?", diz o palhaço Benjamin à moça, à porta do bar. A frase seria um clichê, não estivesse tão impregnada da história e sua atmosfera poética. A poesia, como já mostrou Drummond, é construída  por aquilo que ninguém, a não ser o poeta, enxerga como poesia, arrancada das coisas e versos mais (aparentemente) simples.

Mas se o filme comove e emociona, também faz rir. Principalmente pela atuação de Selton com seu personagem que parece um psicótico, mas na verdade é sensível (o contrário do psicótico) e poético.


Benjamin em busca de identidade, sem a fantasia de Pangaré

 A procura de identidade, drama vivido por Benjamin, tema central do filme, recorrente na literatura, no cinema e na arte, poderia também ser outro clichê, mas a narrativa e o roteiro parecem, inclusive, procurar deliberadamente os clichês, para desconstruí-los e dotá-los de um novo significado.

Deveria lembrar a mais do que óbvia associação de O Palhaço, e seu Circo Esperança, com a Caravana Rolidei de Bye, Bye Brasil (Cacá Diegues, 1979). Mas aqui seria realmente um clichê deste blogueiro, até porque eu mesmo já falei sobre isso.

Lamento que não possa recomendar ao leitor ir à locadora mais próxima alugar O Palhaço, para assistir numa noite dessas. As locadoras não existem mais. Tem que procurar em outras mídias.


Publicado originalmente em 19 de jan de 2016 às 22:19


Leia também, da série Favoritos do cinema:








Acossado, de Godard

De Volta para o Futuro

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Por que as manifestações do MPL se esvaziaram?


Fotos: Rovena Rosa/Agência Brasil


Conversei ontem (28) com o deputado federal Paulo Teixeira, do PT de São Paulo, sobre esse embate Movimento Passe Livre x Fernando Haddad. A conversa foi antes da manifestação marcada pelo MPL para o final da tarde, que previa um “debate” para o qual estavam convidados o governador Alckmin e o prefeito, que não compareceram.

Nem mesmo o MPL poderia prever que as manifestações desta semana fossem tão pequenas que o movimento fosse obrigado a marcar a próxima apenas para daqui a quase um mês. Por quê?

Paulo Teixeira arrisca uma avaliação: “A própria juventude acaba interpretando o MPL. Na minha opinião, existe na juventude um sentimento de que o prefeito está atendendo (as reivindicações dos jovens), senão estaria toda na rua hoje. A maioria dos estudantes entende o esforço de Haddad. Se você comparar as manifestações de hoje com as de 2013, as de 2013 eram muito maiores”.

De acordo com a interpretação do deputado, os jovens (para além do movimento MPL que os pretende representar) compreendem as ações de Haddad na área de transporte público e mobilidade. Paulo Teixeira lembra que o prefeito ampliou a gratuidade do sistema de transporte, aumentou subsídios e o aumento dos ônibus foi abaixo da inflação. “Ele está fazendo mais do que pode diante da realidade econômica. Portanto, vejo que há uma situação em que ele está fazendo de tudo para atender, mas existem os limites. Acho que talvez tenha sido o prefeito que mais atendeu as demandas do MPL”, diz Teixeira.

O deputado diz que, ao dizer que Haddad e Alckmin são "a mesma coisa" (como dizem muitos jovens), "estão cometendo uma injustiça com Haddad".

É evidente que, embora limitadas pela realidade – leia-se dificuldades econômicas –, as ações da prefeitura têm impacto na limitadíssima mobilização que o MPL conseguiu esta semana.

Apesar de os militantes do MPL estarem justificando os protestos deste início de 2016 por “uma pauta única”, que é apenas a revogação do aumento de R$ 3,50 para R$ 3,80, a bandeira permanente do movimento continua sendo a tarifa zero. Tanto que em sua última publicação no Facebook (ontem), em que marca a próxima manifestação para o dia 25 de fevereiro, a certa altura o MPL diz:  “Todo aumento é um roubo porque haver tarifa é um roubo!”

Em que pese o serviço de ônibus em São Paulo continuar muito ruim (carros velhos, lotados e sujos), além da licitação dos transportes prometida para 2013 estar até hoje parada, a população como um todo parece muito distante de encampar os protestos do MPL este ano.

Provavelmente os 500 mil estudantes que potencialmente conquistaram o passe livre desde o ano passado entendem (coletivamente) que “haver tarifa é um roubo” para toda a população é uma retórica sem bases na realidade.

Outro fator para a pequena adesão às manifestações é que as pessoas, em geral, e os jovens, em particular, querem estar longe da extrema violência da polícia de Alckmin. 


Por outro lado, muitas pessoas que poderiam estar nas ruas, e também gente progressista e de esquerda, desaprovam cabalmente o uso de máscaras por ativistas que se dizem pacíficos, mas não são. As pessoas comuns não se sentem representadas por mascarados e vândalos.

De resto, parte significativa da esquerda e movimentos sociais criticam duramente Haddad por não ter se manifestado contra a truculência da polícia de Alckmin e pelo fato de o prefeito ter ironizado a bandeira de tarifa zero do MPL na semana passada. "Podia dar almoço grátis, jantar grátis, ida para a Disney grátis", disse o prefeito.

Apesar de a frase de Haddad ter sido muito mal recebida, e embora eu mesmo tenha diversas críticas ao prefeito e sua gestão (não apenas relativas a transportes), me parece que a associação com a Disney é sincera e realista (além de engraçada), ao apontar para a fantasia em que se baseia uma reivindicação que ignora deliberadamente o fato de que a cidade de São Paulo é uma das maiores metrópoles do mundo, com quase 12 milhões de habitantes na cidade e cerca de 20 milhões, se se considerar a região metropolitana.

Nesse sentido, a principal bandeira do MPL (tarifa zero) é mais demagógica do que realista (não se pode usar pequenas cidades como exemplos para dizer que a tarifa zero é possível em São Paulo). Assim como é demagógica a posição de blogueiros e jornalistas de esquerda que parecem morrer de medo de criticar o MPL e não conseguem apontar nem mesmo erros clamorosos de estratégia do movimento.

Seja como for, a julgar pelo fiasco das manifestações do MPL desta semana, os estudantes de São Paulo compreendem o que é demagogia e o que é realidade.

Vamos aguardar as manifestações marcadas para daqui a um mês.

Juventus resiste



Moleque Travesso de volta à Série A-2



Por Felipe Mascari

A estreia na série A-2 do Campeonato Paulista do tradicional e travesso Juventus da Mooca renova as esperanças de voltar à elite do futebol regional.

A tarefa deste ano será mais complicada na A-2 do que foi em 2015, já que a Federação Paulista de Futebol alterou as regras do torneio, e apenas dois times subirão de divisão – mais uma forma da FPF de tentar acabar com o Paulistão.

Após um acesso fácil em 2015, o clube grená aposta na força de jogar em sua casa, a Rua Javari, e também na liderança de experientes jogadores, como o atacante Gil (ex-Corinthians), o meia Adiel (ex-Santos) e o recém contratado e campeão mundial Elder Granja (ex-Internacional), para tentar desbancar outros tradicionais campeões paulistas (da série A-2), entre eles Portuguesa, Guarani, Bragantino, Santo André e Paulista de Jundiaí.

Por que acreditar que o time pode subir de divisão? Entre os principais favoritos na jornada do acesso, o Juventus manteve a base vitoriosa de 2015, reduziu a dívida do clube, planejou-se e trouxe reforços pontuais para o time. Entretanto, Guarani e Bragantino trouxeram excelentes reforços, e serão as principais barreiras para o retorno do Moleque Travesso à elite. Na contramão, a Portuguesa não contratou ninguém e possui preocupantes problemas internos, desde o obscuro descenso no Brasileiro de 2013.

Fora das quatro linhas, a volta do Moleque Travesso trará um ponto positivo ao futebol paulista. Sem se alimentar de títulos, o Juventus é um contraponto à modernização e mercantilização do esporte, símbolo de resistência.

A romântica Rua Javari é considerada um templo futebolístico, mantendo seu placar manual e a arquibancada de concreto, um tapa na cara do futebol atual, marcado pelas construções das frias arenas de plástico. Portanto, sim, a volta do Juventus é um respiro do que restou da essência de futebol – atualmente, em estado terminal.

O caminho de volta do Juventus se inicia neste domingo 31, na própria Rua Javari, contra o Penapolense. E como canta sua fiel torcida, “voltaremos outra vez, voltaremos a ser primeiro, como em 83”, música que relembra o título da Taça de Prata conquistado naquele ano, diante o CSA de Alagoas.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Cinemateca Popular Brasileira disponibiliza mais de 1.200 filmes via Youtube



Você já ouviu falar de Os Óculos do Vovô? É uma comédia de quatro minutos e 40 segundos, dirigida por Francisco Santos em 1913. É o filme de ficção brasileiro, preservado, mais antigo. Ou de Fragmentos da Vida, drama social de 1929 dirigido por José Medina? Ou de O Ébrio Vicente Celestino (de Jaurez Maisner, 1946), que obviamente tem como tema o velho cantor? (lembro até hoje da notícia da morte de Vicente Celestino -- estava no barbeiro, com meu pai, quando ouvi no rádio --, e depois chegar em casa e contar à minha avó Emiliana, que adorava o romântico com voz de tenor).


Legenda do drama social Fragmentos da Vida, de 1929

Esses são apenas três preciosidades entre os 1.235 filmes nacionais disponíveis na íntegra na Cinemateca Popular Brasileira, canal criado no Youtube e organizado pelo Armazém Memória.

Pode-se, por exemplo, assistir a vários filmes fundamentais de Nelson Pereira dos Santos, diretor fundador do Cinema Novo. Rio 40 Graus (1955), que incorporava as técnicas neorrealistas desenvolvidas na Itália, ou Vidas Secas (1963), baseado na obra de Graciliano Ramos e reconhecido como a obra-prima do cineasta, são alguns de seus muitos filmes “em cartaz” no canal da Cinemateca Popular Brasileira.

A obra-prima Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos

 A filmografia do revolucionário Glauber Rocha também está no acervo, com filmes como Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), Terra em Transe (1967) e muitos outros, entre os quais o mítico Di, ou Di-Glauber, concebido pela mente genial e inquieta de Glauber no dia da morte do artista plástico Di Cavalcanti, em 1976, que ficou proibido por décadas, em decorrência de ação judicial da família do artista, e só pôde ser conhecido pelo público pela internet, e mesmo assim foi visto por muito poucas pessoas. O filme ganhou o Prêmio Especial do Júri do Festival de Cannes, em 1977, pouco antes de ser proibido. Glauber assim se defendeu das alegações da família de Di, que considerou que a obra desrespeitava o artista: "filmar meu amigo Di morto é um ato de humor modernista-surrealista que se permite entre artistas renascentes".


Jardel Filho (primeiro plano), Glauce Rocha e José Lewgoy no histórico Terra em Transe

A riquíssima lista disponível na Cinemateca Popular Brasileira – que nada mais é do que a reunião e organização de filmes dispersos no Youtube – é dividida em diversas categorias, entre outras,  como “Longa Metragem por Gênero”, “Diretores e Diretoras”, “Literatura e Teatro no Cinema”, “Literatura e Teatro no Cinema” ou por ordem cronológica, pela qual podem ser acessados muitos filmes da história da filmografia nacional.  

A reunião do canal utiliza como fonte de pesquisa o Dicionário de Filmes Brasileiros, de Antônio Leão da Silva Neto (1908-2002), e os catálogos da Agência Nacional do Cinema (Ancine, 2002-2013).

A extensa coleção, que contempla o cinema brasileiro de todas as décadas dos séculos 20 e 21, permite fazer uma verdadeira viagem estética e histórica pela filmografia nacional.

Vamos então ao assunto. Se uma imagem vale mais que mil palavras, paremos de falar. Você pode assistir a um dos mais de 1.200 filmes a partir do link abaixo.

Boa viagem.

Acesse clicando no link:

Cinemateca Popular Brasileira

Pensamento para sexta-feira [63] - My Death (Minha Morte), de David Bowie





Minha Morte (My Death - David Bowie)

Minha morte espera como uma velha libertina 
Então, confiante seguirei seu caminho 
Assobiarei para ela e o tempo que passa...

Minha morte espera como uma verdade da Bíblia 
No funeral da minha juventude 
Estamos orgulhosos por isso e o tempo que passa?

Minha morte espera como uma bruxa na noite 
Tão claramente quanto nosso amor é certo 
Não vamos pensar no tempo que passa...

O que quer que esteja atrás da porta 
Não há muito a fazer 
Anjo ou demônio, eu não me importo 
Porque na frente daquela porta está você 

Minha morte espera como um mendigo cego 
Que vê o mundo através de uma mente opaca
Dê uma moeda a ele pelo tempo que passa...

Minha morte espera para permitir a meus amigos
Alguns bons momentos antes do fim 
Então bebamos a isso e o tempo que passa

Minha morte espera lá entre suas coxas 
Seus dedos frios fecharão meus olhos 
Não vamos pensar sobre o tempo que passa

O que quer que esteja atrás daquela porta
Não há muito a fazer 
Anjo ou demônio, eu não me importo 
Porque na frente daquela porta está você 

Minha morte espera lá entre as folhas 
Nas misteriosas mangas do mágico 
Coelhos e cachorros e o tempo que passa...

Minha morte espera lá entre as flores 
Onde as mais escuras sombras se encolhem 
Então vamos colher lilases pelo tempo que passa...

Minha morte espera lá em uma cama de casal 
Panos do esquecimento e minha cabeça 
Então, puxe teus lençóis contra o tempo que passa

O que quer que esteja atrás da porta 
Não há muito a fazer
Anjo ou demônio 
Eu não me importo, porque na frente daquela porta está você



segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Documentário Amy, de Asif Kapadia, desmonta a historinha contada por Mitch Winehouse



Gravação de Back to Black no estúdio: emocionante

O documentário Amy, do diretor britânico Asif Kapadia, vira a página da história contada pelo pai de Amy Winehouse, Mitch.

O filme mostra que o pai-biógrafo, que cuidava da carreira e da conta bancária da filha, era uma pessoa manipuladora, egoísta e que claramente usava Amy como escada para seus próprios interesses. O ex-marido de Amy, Blake Fielder-Civil, que a introduziu na heroína, é ainda pior. Cercada por gente como essa, seus problemas só aumentaram com o sucesso.

Sucesso que ela não fazia questão de alcançar e mesmo repelia. “Eu enlouqueceria”, disse ela antes de explodir e virar alvo da mídia, que em sua vida exerceu papel tão ou mais pernicioso do que Blake Fielder-Civil. Ao ver o documentário, fica esclarecido que a condescendência de Mitch com a agressiva perseguição da mídia e dos paparazzi a Amy foi um comportamento calculado ao escrever seu relato biográfico da filha. Ele não queria ficar mal com eles.  

A omissão dos pais diante dos problemas da filha desde sua infância é notória no filme. A própria mãe conta que Amy, ainda menina, pediu mais atitude dela, que pegasse "mais pesado". A menina nunca ouvia "não". A omissão da família diante da bulimia, por exemplo, é declarada pela mãe.

Havia pessoas sinceras e mais interessadas na saúde e bem-estar da estrela do que nos dividendos de sua arte, como Nick Shymansky, o primeiro empresário e amigo dela. O próprio depoimento do segurança, Andrew, parece demonstrar sincera dor. Mas no mundo em que Amy viveu, é preciso ser mais forte do que ela.

Amy não queria e não sabia lidar com a fama. “Se me deixarem em paz eu vou escrever músicas”, disse.

Um dos produtores diz no filme que Amy “era uma velha num corpo de jovem”.  É uma definição muito interessante. Toni Bennet declarou que Amy deveria ter sido encarada e tratada como uma Billie Holiday ou uma Ella Fitzgerald, porque “era tão grande” quanto elas.

Acho que o filme de Asif Kapadia dá exagerado destaque ao longo relacionamento com Blake. Nesse ponto poderia ter equilibrado mais, com um pouco menos de tempo dedicado aos aspectos da intimidade, e pelo menos um pouco mais de espaço à pura arte, como a cena emocionante da gravação de Back to Black com Mark Ronson.

Mas o fato importante é que Amy, de Kapadia, desmonta a historinha contada pelo mau caráter Mitch Winehouse. Não é por outra razão que a família ficou muito contrariada e afirmou que o filme é “enganador".

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

A maravilhosa Amy Winehouse – e sua biografia


Para Tania Lima e Paulo Maretti
(para a gente fechar 2015 com arte e espírito)




"Ao ouvido parece afroamericana, mas é judia britânica. De aparência sexy, não faz uso desse recurso. É jovem, mas tem voz de velha. Canta com sofisticação, mas fala grosso. Suave na melodia e agressiva nas letras." (jornal The Guardian)


Certa vez perguntaram ao Chico Buarque qual o melhor livro que já tinha lido (aquele tipo de pergunta tola de jornalista). “O melhor livro é sempre o último que a gente lê”, respondeu ele. Nem sempre essa sentença se aplica. Não dá pra dizer, por exemplo, que Amy – minha filha (editora Record - 2012), de Mitch Winehouse, que acabo de ler, seja melhor que Os degraus do Pentágono, de Norman Mailer, que li antes.

Mas é muito agradável a leitura da biografia de Amy Winehouse escrita (na verdade, ditada) pelo pai. Claro, isso para quem gosta e admira Amy e ama sua música (como eu), mas quer saber como se deu a trágica história da cantora e compositora nascida num hospital no norte de Londres, em  14 de setembro de 1983, mesma cidade onde morreu em 23 de julho de 2011.

Ela nasceu “em típico estilo Amy: chutando e gritando”, conta o pai-biógrafo. “Juro que seus gritos eram mais altos do que os de qualquer bebê que jamais ouvi. Gostaria de dizer a vocês que eram melodiosos, mas não – eram só altos. Amy estava 4 dias atrasada, e isso nunca mudou. Por toda sua vida, ela sempre chegou atrasada.”

Infelizmente, com seu espírito atormentado, Amy Winehouse só produziu dois discos em sua carreira: Frank e Back to Black, sua obra-prima, que a levou ao apogeu. Este álbum tem algumas de suas canções mais importantes (como a que dá nome ao CD e "Rehab", por exemplo). Porém, a história de Back to Black se mistura à própria tragédia: as experiências das quais Amy trouxe a inspiração visceral para produzir Back to Black (álbum e canção) vieram essencialmente de seu relacionamento apaixonado e turbulento com Blake Fielder-Civil, que a introduziu na heroína e outras drogas pesadas, um jovem perdido, sem rumo.

Mesmo assim, não foram as drogas pesadas que a mataram, mas o álcool, segundo a narrativa do pai. Quando morreu, Amy estava limpa de drogas, após longa e dolorosa batalha dela e da família, e havia rompido com Blake dois anos antes. Desde 2009 Amy tinha um relacionamento mais maduro com o diretor de cinema Reg Traviss, um cara boa praça e tranquilo, que, junto com a família dela, se empenhou o quanto pôde para tirá-la do vício do álcool e da mania de autodestruição. Segundo a comovente narrativa do livro, apesar da vigilância de seguranças de confiança da família, Amy morreu após uma ingestão suicida de bebida alcoólica.

A magistral interpretação de Back to Black


Mas o mais interessante numa biografia de celebridade como Amy é quando essa biografia traz a dimensão humana da personalidade, como no livro de Mitch Winehouse, que, com sua linguagem simples, evidentemente foi ditado a um ghost writer. O que, na verdade, em nada diminui o livro, já que sua importância é a de ser um testemunho, e não uma obra literária.

De família judia relativamente tradicional, Amy tinha características psicológicas bastante problemáticas, principalmente a baixa autoestima e a insegurança, o que a levava à autoflagelação: ao se relacionar com Blake Fielder-Civil ou ao se drogar (com drogas pesadas ou álcool), por exemplo. É interessante notar que a artista, que tinha influência decisiva do jazz, do reggae (de maneira incidental) e do estilo (visual e musical) dos anos 1960, tinha um bordão que acabou se transformando num dramático símbolo de sua consciência: "Depois do lançamento de Frank, Amy costumava começar suas apresentações entrando no palco batendo palmas e repetindo um slogan: 'droga pesada não está com nada'", conta o pai-biógrafo. 

A influência dominadora do pai e da avó são absolutamente marcantes na personalidade de Amy, apesar de que a relação era a de uma família unida, na qual existia amor e intenso relacionamento. Amy e seu pai se falavam praticamente todos os dias, onde quer que um e outro estivessem.

Num cartão (desses que as crianças fazem na escola), quando tinha 12 anos, a pequena menina Amy escreveu ao pai: “Papai, você é o rei de todos os pais. Feliz aniversário (...) Beijos desse desastre ambulante que é sua filha, Amy”. Isso é Freud. Mas é também bonito e poético, atributos que eram inerentes a Amy Winehouse.

É bonito no livro como o autor revela uma Amy que poucos (a não ser a família) conheceram: uma garota que tinha um humor agudo, era muito inteligente e intuitiva, mas absolutamente passional e irrefreável. Que não conseguia compor se estivesse feliz, daí o fato de seu grande álbum, Back to Black, ter sido composto na “fusão com as trevas” (título de um dos capítulos do livro). “Seu hábito de escrever canções com alto teor autobiográfico significava que, quando estava feliz, ela não pegava muito no violão”, diz o pai. Amy era, nesse sentido, uma figura baudelairiana.

E de fato uma figura fascinante.

Por tudo isso, adorei ler Amy – minha filha, de Mitch Winehouse.

Amy foi também, lembremos, vítima da estranha “maldição dos 27 anos”. Como ela, vários ícones do rock’n’roll morreram nessa mesma idade: Kurt Cobain (Nirvana), Brian Jones (da primeira formação dos Rolling Stones), Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison (The Doors), entre outros. Não é pouca coisa.

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terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Parabéns, AI-5


Oswaldo Corneti/Fotos Públicas
Analfabetismo político e fascismo


Domingo, 13 de dezembro de 2015, eu e uma companheira fomos a um bar tomar uma simples cerveja. Mas para essa cerveja tínhamos uma motivação especial: espairecer.

Enfim, sentamos à uma mesa na calçada do bar para tomar a cerveja. O bar era um galpão muito amplo com uma dezena de mesas de sinuca. Ao nosso lado havia uma mesa com um casal. Notamos que eles estavam discutindo. Solidarizamo-nos. Em algum momento, puxamos conversa para tirar o foco da discussão deles. Conversamos um pouco e, após a menina dizer angústias universitárias da sua vida, acabamos entrando em política; afinal, ao nosso lado estava a Universidade Federal do ABC, de Santo André, que vocês sabem o que significa. A menina havia dito que, se conseguisse fechar a última disciplina deste ano, faltariam dois anos para terminar sua faculdade.

Dissemos que precisávamos torcer para Dilma não cair, para que ela pudesse terminar a faculdade sem maiores dificuldades. Eles discordaram, dizendo que o direito à universidade estava garantido e que não tinha a ver com a mudança de governo. O rapaz, visivelmente sem problemas financeiros, filho de um médico (ao contrário da moça, de origem humilde), disse que até seria bom se Dilma saísse, para que o País voltasse à estabilidade econômica. Até então o papo estava argumentativo. Falamos das bolsas da universidade e que era importante o governo se manter para garantir as bolsas. A menina discordou, reiterando que as bolsas estariam garantidas independentemente do governo. Mais adiante, falamos sobre a intenção do deputado Ricardo Barros (PP-PR), relator do Orçamento, de reduzir os investimentos no Bolsa Família, o que tiraria 23 milhões de pessoas do programa e devolveria 8 milhões à extrema pobreza. O deputado afirma que o governo não tem recursos para manter o Bolsa Família. O governo discorda veementemente. Ou seja, o relator trabalha para maior caos no País. Enfim, esse papo, apesar de ser o mesmo, é outro.

Toquei no assunto Bolsa Família, a menina se interessou deveras pelo assunto e começou uma série de ataques. Disse que tinha morado na periferia e que lá havia um monte de "buchudas", se referindo às mulheres que "têm filhos para receber Bolsa Família". Discordei, argumentando que isso não só era uma grande minoria das mulheres que recebem recursos do programa como este era também um direito devido ao povo, considerando os séculos de flagelo a que o povo recém-democratizado foi submetido no Brasil, especialmente negros e índios. Bom, nesse momento ela começou a levantar a voz, dizendo que eu não tinha morado na periferia, então não poderia saber. Me disse que quando eu morasse na periferia a gente conversava. Eu disse a ela que conhecia muitas pessoas que, como ela, haviam morado na periferia e pensavam diferentemente dela, mas a essa altura ela já não ouvia mais. Disse que tem um primo que está preso e que sua mulher recebe dinheiro do governo, enquanto sua mãe se mata de trabalhar.

Enfim, aqueles argumentos que já conhecemos. Disse que foi a única de sua família que estudou e entrou na universidade. Eu respondi que não é bem assim, que as coisas têm suas razões, que ela era uma exceção e que a gente não podia pensar dessa forma, ou relegaríamos à pobreza sem solução grande parte da sociedade. Disse que, segundo esse pensamento, "uma criança que cata caranguejo no mangue tem a mesma chance de entrar na universidade que ela". Bom, ela já não ouvia mais e bradava histérica e repetitivamente seus argumentos. "Quando você morar na periferia você vem falar comigo". Depois de uma troca calorosa de argumentos, eu disse que ela estava histérica e que não dava pra conversar. Disse que segundo a perspectiva dela podíamos afundar a África no mar. Nesse momento um pessoal conhecido de uma outra mesa já gesticulava para desistirmos da conversa. Ainda houve tempo para minha companheira chamá-la de fascista. Então nos retiramos da nossa mesa e fomos conversar com o pessoal da outra mesa, em que havia três conhecidos sabidamente de esquerda, entre os quais um boliviano, que frequentemente canta canções revolucionárias.

Bom, conversamos um tempo com eles. Dois dos que estavam nesta mesa, junto com os três que conhecíamos, começaram uma conversa com o casal com o qual havíamos discutido. Não ouvi o que eles conversaram, mas foi uma conversa sem exaltações. Quando estávamos para ir embora, quase uma hora depois da discussão, conversei rapidamente com um sujeito, que havia conversado com o casal. Ao dizer que eu defendia o governo, ele me disse que eu era direitista e racista. Ele era mulato. Eu disse efusivamente que ele não sabia o que estava dizendo e que eu conhecia mais da cultura negra do que ele e, novamente, retirei-me. Coloquei meu copo no balcão e fui no banheiro.

Quando voltei, a menina com a qual havíamos discutido passou a meu lado e deu uma sinistra risada de bruxa, literalmente, e "foi no banheiro". Eu parei ao lado de minha companheira, no balcão, para pegarmos uma cerveja e ir embora. Quando ela voltou, parou ao meu lado, deu a mesma risada e começou a discutir insanamente comigo. Não entendi aquilo e disse que não estava falando com ela. Ela continuou. Era impossível ficar indiferente, era impossível não responder, pois ela havia ido até mim para isso. Ameacei sair de perto dela mas ela se pôs na minha frente, falando alto coisas que eu sinceramente não lembro. Disse pra ela sair de perto de mim. De repente, sem aviso, eu estava no chão. Tomei um tombo de costas que não afetou minha coluna por sorte, mas me deixou desnorteado, sem ar e sem reação. Rapidamente levantei e minha companheira também já estava no chão, com a tal menina em cima dela e um bolo de gente tentando apartar. Alguns outros seguravam o filho do médico, que não estava satisfeito. Procurei saída para evitar continuar o quebra-pau. Quando consegui encontrar minha companheira em meio à confusão, disse que tinha perdido meus óculos. Ela rapidamente o achou, torto e quebrado, e fomos embora.

Chegamos em casa transtornados e doloridos. Ela com arranhões no rosto e esfolamentos num dos braços, e eu com uma forte dor nas costas e esfolamento nos braços. Recuperamo-nos do susto e então tive a certeza de que o que eles tinham conseguido era um incentivo a uma militância mais efetiva.

Choramos pensando no que Lula e especialmente Dilma passaram e ainda passam em suas vidas para fazer o que fizeram e ainda fazem pelo povo do Brasil e do mundo. Essa é a luta, que precisa evoluir. Coloquei Hasta siempre (comandante Che Guevara), de Carlos Puebla, e derramei mais algumas lágrimas, dessa vez de alegria, por saber que existiram pessoas nesse mundo que deram suas vidas por esta causa. Parabéns, fascistas. Parabéns, AI-5, foi um aniversário a caráter.  

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Votação histórica do STF começa a desmontar golpe de Cunha e seus aliados


"Ele [Eduardo Cunha] disse:
‘aqui vai ser secreto porque eu quero’.
A democracia não funciona assim.”
(ministro Luís Roberto Barroso)


Já escrevi aqui no blog sobre o espírito "iluminista” do ministro do STF Luís Roberto Barroso e de minha admiração pelo magistrado, esse sim, dotado dos requisitos teoricamente necessários a formar os quadros do Supremo: “notável saber jurídico e reputação ilibada”. É um homem realmente daqueles que fazem a diferença em uma República.


Fotos: Divulgação/STF
Barroso abriu a divergência com voto histórico

Tive a sorte e o privilégio, por dever de ofício, de acompanhar a votação histórica de hoje, e pude ouvir o voto de Barroso ao abrir divergência em relação ao “voto Pôncio Pilatos” dado pelo relator Luiz Fachin. O tribunal desempatou o jogo a favor da República, para continuar usando a metáfora do post de ontem. Entre outras decisões, o Supremo definiu que a votação para a formação da comissão especial processante do impeachment contra Dilma Rousseff deve ser aberta. Isso desmonta a manobra espúria de Eduardo Cunha, que conseguira fazer seus asseclas aprovarem a comissão especial por votação secreta. 

“A primeira das razões (para rejeitar o voto secreto) é que a Constituição prevê algumas hipóteses de votação secreta, e não prevê para formação de comissão especial para processar o impeachment”, disse Barroso ao votar e abrir divergência de Fachin. “A Lei 1079/1950 tampouco prevê. Alguém poderia imaginar que o regimento (da Câmara) pudesse prever a votação secreta. Mas no regimento interno, nenhuma das previsões prevê votação secreta”, afirmou ainda.

Mais do que isso, ele acrescentou: “O voto secreto foi instituído por uma deliberação discricionária do presidente da Câmara. Ele disse: ‘aqui vai ser secreto porque eu quero’. A democracia não funciona assim”.

Barroso é normalmente brilhante, claro e tecnicamente indefensável, e assim proferiu seu voto hoje.

Marco Antonio Ferreira fez o seguinte comentário no post anterior, no qual eu avaliava que o jogo estava empatado (não apenas em relação ao Judiciário) entre forças golpistas e o estado de direito: “Ontem tive raiva do Fachin, hoje me dá pena. Acachapante sua derrota. Imagina ficar só, com Toffoli e Mendes?”

De fato. Mas ontem e hoje (17), após o voto de Fachin, havia quem temesse (eu entre essas pessoas) que o golpe desse mais um passo importante no Supremo. E por pouco não passou, já que bastaria um único voto para que a corte tivesse referendado o voto secreto e absurdo que Cunha tentou impor. Mas não passou, e não passarão. Pessoas como Dias Toffoli não passarão.

Cabe ainda mencionar outro magistrado digno, e além disso discreto, do Supremo, o presidente Ricardo Lewandowski, um homem avesso a holofotes como deveriam ser todos os juízes. Seu voto “de Minerva” que deu a vitória à tese do voto aberto como inerente ao processo na comissão processante está também na história, logo após o voto longo, empolado, arrogante e reacionário do “decano” Celso de Mello.


Discreto e avesso a holofotes, Lewandowski desempatou

Destaco ainda o voto do ministro Marco Aurélio, que costuma ser sempre contundente. Ele ironizou, dizendo que o voto secreto é na verdade um “voto misterioso”. "Há de prevalecer sempre o interesse público, e este direciona à publicidade e transparência (...) Nada justifica a existência, no caso, do voto secreto. A votação tem que ser aberta”, justificou o ministro.

Vamos lembrar os votos: se manifestaram pela legalidade, pela democracia e pela República os seguintes seis ministros: Luís Roberto Barroso, Ricardo Lewandowski, Marco Aurélio Mello, Rosa Weber, Luiz Fux e Cármen Lúcia.

A Toffoli, o limbo da história
Votaram a favor do voto secreto, com Eduardo Cunha e suas manobras, os ministros Luiz Fachin, Teori Zavascki, Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Celso de Mello, aos quais está reservado um lugar bem localizado no limbo da história. O final do voto de Gilmar Mendes, que chegou ao cúmulo de citar um artigo “do senador José Serra”, terminou de maneira emblemática: ele se dirigiu ao presidente Lewandowski, e disse: “Vou pedir licença, porque tenho que viajar”. Lewandowski respondeu: "Boa viagem". Esse episódio já parecia o prenúncio de que o raivoso Mendes já sabia de antemão ser voto vencido.

Para finalizar, vê-se pela reação inconformada de comentaristas da reação (com o perdão do pleonasmo) que a decisão do Supremo contrariou interesses notórios de gente que não tem vergonha de ter um homem como Eduardo Cunha como veículo de aspirações sinistras e obscuras. “STF deu a Dilma o que ela pediu”, disse, por exemplo, o jornalista Josias de Souza.

Mas a ele e a outros, e a todos os aliados confessos ou não de Eduardo Cunha, dedico o dito de Machado de Assis e toda sua ironia: “ao vencedor, as batatas”.

Jogo entre forças golpistas e estado de direito está empatado





A semana que a deputada Maria do Rosário previu que não seria "para covardes" vai chegando ao fim com um empate entre as forças golpistas e aquelas que defendem o estado democrático de direito. Mas um empate preocupante.

O ato político promovido na Faculdade de Direito nesta quarta-feira por inúmeros intelectuais, professores, estudantes, cidadãos e jornalistas contra o golpe; as derrotas de Eduardo Cunha no Conselho de Ética e ao ver Rodrigo Janot pedir, finalmente, seu afastamento no STF; e a manifestação que levou certamente mais de 100 mil pessoas às ruas de São Paulo hoje são os pontos a favor das forças democráticas.

Mas o julgamento do STF do rito do impeachment nesse agitado dia 16 não começou como se previa, o que tem um peso suficiente para empatar o jogo. Não se pode sequer chamar de neutro o voto do relator Luiz Fachin.

Fachin negou pedidos fundamentais da ação do PCdoB, a saber: a necessidade de defesa prévia do presidente da República, mas principalmente a vedação ao voto secreto para a formação da comissão especial "avulsa", que Cunha impôs com seu tacão na semana passada. O julgamento será retomado nesta quinta-feira (17).

Diz-se que Fachin sucumbiu à pressão midiática e preferiu não se "intrometer" na competência do Legislativo, mas isso foi nada mais, nada menos, do que referendar as posições de Cunha, pelo menos momentaneamente. O que equivale a chancelar o achincalhe e a desfaçatez cínica do homem que faz o que quer com a República sem que, até agora, ninguém possa contra ele.

Na Faculdade de Direito, no ato dos professores (veja falas de Marilena Chaui e Luiz Carlos Bresser Pereira), André Singer me disse sobre o que espera do julgamento do STF: “Minha expectativa é de que haja uma sinalização clara de que a sociedade brasileira pode contar com o STF para barrar manobras no Legislativo que ferem a constituição”.

Ontem, Dalmo Dallari afirmou em conversa comigo: “O processo do impeachment está chegando ao fim. Apesar das tentativas claramente político-eleitorais de levar adiante, ele está se esvaziando”. Hoje, no ato da Faculdade de Direito, ele disse: "Tenho absoluta tranquilidade em afirmar que nenhuma proposta de impeachment tem fundamento jurídico”.

Claro, não se esperava (Dallari também não) que o Supremo entrasse no mérito, na questão do impeachment, mas tampouco que o voto do relator, que havia suspendido o processo na Câmara, fosse tão ao estilo de Pôncio Pilatos como foi.

O jurista Fábio Konder Comparato, com quem também conversei no Largo São Francisco, me pareceu mais precavido ou cético do que Dallari. Seu tom e também as entrelinhas do que me disse era o de quem vê a situação muito complicada na Câmara. "Não há nenhum fundamento constitucional para o impeachment. [Mas] A presidente teria que ser julgada pelo Senado. A manobra está sendo feita a partir do presidente da Câmara. E no Senado – que pode suscitar o recurso ao Supremo –  a conversa é outra.”

Saindo do Direito, vamos para a visão mais apocalíptica da filósofa Marilena Chaui, que disse o seguinte no ato da Faculdade de Direito: "Se o golpe vier, teremos, por causa de toda a discussão em torno do terrorismo internacional, uma ditadura que nos fará imaginar que a de 1964 foi pão doce com bolacha”.

No mesmo ato, afirmou Luiz Carlos Bresser-Pereira: “Tenho dito que não vai haver impeachment porque a democracia está consolidada. O Brasil não é o Paraguai. É uma minoria que quer o impeachment, como os liberais que são democratas só quando lhes interessa.”

E Fernando Haddad, conciliador: “Independentemente da coloração partidária, há pessoas aqui que podem ser oposição ao governo, mas entendem que é o momento de defender as instituições que levamos tanto tempo para consolidar”.

Enfim, só podemos esperar.

Abaixo, as falas de Marilena Chaui e Luiz Carlos Bresser-Pereira no ato político da Faculdade de Direito - 16 de dezembro de 2015, publicadas por Artur Scavone.








quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

A decisão de Fachin de suspender processo de impeachment e a "judicialização da política"


 Carlos Humberto/STF 
O ministro Luiz Edson Fachin

Juristas de enorme competência e conhecimento do Direito e da filosofia do Direito – como Celso Antonio Bandeira de Mello, Pedro Serrano e Luiz Moreira, entre outros – têm ressaltado com argumentos cabais as possíveis e preocupantes consequências do que é conhecido como a judicialização da política, fenômeno que parece ter no julgamento do “mensalão” seu paradigma  no Brasil, embora o fenômeno seja bem anterior, na Europa. Trata-se do processo pelo qual a política vai sendo substituída pela atuação do Judiciário.

Apesar da ação do Judiciário (especialmente do Supremo Tribunal Federal) ser de certa maneira demonizada pelos setores progressistas no Brasil – e não sem razão, vide Sérgio Moro e mensalão –, a decisão do ministro Luiz Edson Fachin de suspender o processo de impeachment contra Dilma, armado num circo grotesco por Eduardo Cunha nesta terça-feira na Câmara, mostra que a chamada judicialização da política pode ser uma via de duas mãos, e não simplesmente a incorporação de uma prática perniciosa e destrutiva de valores progressistas. Não fosse assim, não haveria a intensa comemoração da decisão nas redes sociais.

Ainda se acredita na superação da atual onda obscurantista no país, e o poder moderador do Supremo pode ser um freio à desfaçatez com que um bando encastelado no Legislativo se apropria da política em benefício próprio. Esta é a esperança.

No texto "O Supremo Tribunal Federal e a judicialização da política", o professor Marcus Faro de Castro, do Instituto de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade de Brasília, resume bem o tema:

”(...) a judicialização da política contribui para o surgimento de um padrão de interação entre os Poderes (...), que não é necessariamente deletério da democracia. A ideia é, ao contrário, que democracia constitui um ‘requisito’ da expansão do poder judicial (Tate, 1995). Nesse sentido, a transformação da jurisdição constitucional em parte integrante do processo de formulação de políticas públicas deve ser vista como um desdobramento das democracias contemporâneas. A judicialização da política ocorre porque os tribunais são chamados a se pronunciar onde o funcionamento do Legislativo e do Executivo se mostram falhos, insuficientes ou insatisfatórios.”

Aguardemos os próximos capítulos, com a esperança de que o STF exerça o papel de um poder moderador de fato (confirmando a decisão de Fachin), apesar de figuras como Joaquim Barbosa e Gilmar Mendes. Na quarta-feira, 16, quando o Supremo deve decidir a questão suspensa nesta terça por Fachin, teremos uma resposta, ou pelo menos a primeira resposta.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Mobilização dos estudantes de São Paulo entrou para a história


Virou notícia internacional. Lê-se, no jornal El País: "Los estudiantes de São Paulo tumban una reforma educacional del Gobierno" (Estudantes de SP derrubam reforma educacional do  governo):


Legenda do El País: "Estudiantes celebran en las calles este viernes" / 
Carlos Villalba R (EFE)

"Los jóvenes, en su mayoría menores de edad, han conseguido tumbar este viernes provisionalmente una reforma educacional del Gobierno del Estado, que preveía el cierre de escuelas. Lo han hecho valiéndose de protestas callejeras pacíficas —reprimidas de manera violenta por la Policía Militar— y ocupaciones de 200 centros de enseñanza. El intento fallido de reforma ha echado por tierra la popularidad del gobernador Geraldo Alckmin." (El País, 4/12/2015);

“Decidimos adiar e rediscutir, escola por escola, com a comunidade, com estudantes e em especial com os pais dos alunos”, disse o governador Geraldo Alckmin nesta sexta-feira, 4, ao recuar diante da marcha de meninos e meninas que decidiram "ocupar [as escolas] e resistir [à estupidez policial do governo]". Antes, o governador viu, pela manhã, a capa da Folha, da qual, obviamente, já tinha conhecimento antes mesmo de chegar às bancas.



A mobilização dos estudantes de São Paulo, não tenha dúvida, entrou para a história. Será discutida daqui a alguns anos.Talvez acadêmicos façam teses com sua linguagem empolada sobre esse movimento espontâneo que angariou apoios em vários setores da sociedade. Quem viveu, viu.

Foi uma notícia diferente, nova, nesses tempos obscuros.

Com sua truculência, Alckmin sem querer  fez algo bom: fomentou o surgimento de incontáveis novas lideranças dessa incrível juventude que vem vindo: