Oswaldo Corneti/Fotos Públicas
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| Analfabetismo político e fascismo |
Por Gabriel Megracko
Domingo, 13 de dezembro de 2015, eu e uma companheira fomos
a um bar tomar uma simples cerveja. Mas para essa cerveja tínhamos uma
motivação especial: espairecer.
Enfim, sentamos à uma mesa na calçada do bar para tomar a
cerveja. O bar era um galpão muito amplo com uma dezena de mesas de sinuca. Ao
nosso lado havia uma mesa com um casal. Notamos que eles estavam discutindo.
Solidarizamo-nos. Em algum momento, puxamos conversa para tirar o foco da
discussão deles. Conversamos um pouco e, após a menina dizer angústias
universitárias da sua vida, acabamos entrando em política; afinal, ao nosso
lado estava a Universidade Federal do ABC, de Santo André, que vocês sabem o
que significa. A menina havia dito que, se conseguisse fechar a última
disciplina deste ano, faltariam dois anos para terminar sua faculdade.
Dissemos que precisávamos torcer para Dilma não cair, para
que ela pudesse terminar a faculdade sem maiores dificuldades. Eles discordaram, dizendo que o direito à universidade estava garantido e que não
tinha a ver com a mudança de governo. O rapaz, visivelmente sem problemas
financeiros, filho de um médico (ao contrário da moça, de origem humilde), disse que até seria bom se Dilma saísse,
para que o País voltasse à estabilidade econômica. Até então o papo estava
argumentativo. Falamos das bolsas da universidade e que era importante o
governo se manter para garantir as bolsas. A menina discordou, reiterando que
as bolsas estariam garantidas independentemente do governo. Mais adiante,
falamos sobre a intenção do deputado Ricardo Barros (PP-PR), relator do Orçamento,
de reduzir os investimentos no Bolsa Família, o que tiraria 23 milhões de
pessoas do programa e devolveria 8 milhões à extrema pobreza. O deputado afirma
que o governo não tem recursos para manter o Bolsa Família. O governo discorda
veementemente. Ou seja, o relator trabalha para maior caos no País. Enfim, esse
papo, apesar de ser o mesmo, é outro.
Toquei no assunto Bolsa Família, a menina se interessou
deveras pelo assunto e começou uma série de ataques. Disse que tinha morado na
periferia e que lá havia um monte de "buchudas", se referindo às
mulheres que "têm filhos para receber Bolsa Família". Discordei,
argumentando que isso não só era uma grande minoria das mulheres que recebem
recursos do programa como este era também um direito devido ao povo,
considerando os séculos de flagelo a que o povo recém-democratizado foi
submetido no Brasil, especialmente negros e índios. Bom, nesse momento ela
começou a levantar a voz, dizendo que eu não tinha morado na periferia, então
não poderia saber. Me disse que quando eu morasse na periferia a gente
conversava. Eu disse a ela que conhecia muitas pessoas que, como ela, haviam
morado na periferia e pensavam diferentemente dela, mas a essa altura ela já
não ouvia mais. Disse que tem um primo que está preso e que sua mulher recebe
dinheiro do governo, enquanto sua mãe se mata de trabalhar.
Enfim, aqueles argumentos que já conhecemos. Disse que foi a
única de sua família que estudou e entrou na universidade. Eu respondi que não
é bem assim, que as coisas têm suas razões, que ela era uma exceção e que a
gente não podia pensar dessa forma, ou relegaríamos à pobreza sem solução
grande parte da sociedade. Disse que, segundo esse pensamento, "uma
criança que cata caranguejo no mangue tem a mesma chance de entrar na universidade
que ela". Bom, ela já não ouvia mais e bradava histérica e repetitivamente
seus argumentos. "Quando você morar na periferia você vem falar
comigo". Depois de uma troca calorosa de argumentos, eu disse que ela
estava histérica e que não dava pra conversar. Disse que segundo a perspectiva
dela podíamos afundar a África no mar. Nesse momento um pessoal conhecido de
uma outra mesa já gesticulava para desistirmos da conversa. Ainda houve tempo
para minha companheira chamá-la de fascista. Então nos retiramos da nossa mesa
e fomos conversar com o pessoal da outra mesa, em que havia três conhecidos
sabidamente de esquerda, entre os quais um boliviano, que frequentemente canta
canções revolucionárias.
Bom, conversamos um tempo com eles. Dois dos que estavam nesta
mesa, junto com os três que conhecíamos, começaram uma conversa com o casal com
o qual havíamos discutido. Não ouvi o que eles conversaram, mas foi uma
conversa sem exaltações. Quando estávamos para ir embora, quase uma hora depois
da discussão, conversei rapidamente com um sujeito, que havia conversado com o
casal. Ao dizer que eu defendia o governo, ele me disse que eu era direitista e
racista. Ele era mulato. Eu disse efusivamente que ele não sabia o que estava
dizendo e que eu conhecia mais da cultura negra do que ele e, novamente,
retirei-me. Coloquei meu copo no balcão e fui no banheiro.
Quando voltei, a menina com a qual havíamos discutido passou
a meu lado e deu uma sinistra risada de bruxa, literalmente, e "foi no
banheiro". Eu parei ao lado de minha companheira, no balcão, para pegarmos
uma cerveja e ir embora. Quando ela voltou, parou ao meu lado, deu a mesma
risada e começou a discutir insanamente comigo. Não entendi aquilo e disse que
não estava falando com ela. Ela continuou. Era impossível ficar indiferente,
era impossível não responder, pois ela havia ido até mim para isso. Ameacei
sair de perto dela mas ela se pôs na minha frente, falando alto coisas que eu
sinceramente não lembro. Disse pra ela sair de perto de mim. De repente, sem aviso,
eu estava no chão. Tomei um tombo de costas que não afetou minha coluna por
sorte, mas me deixou desnorteado, sem ar e sem reação. Rapidamente levantei e
minha companheira também já estava no chão, com a tal menina em cima dela e um
bolo de gente tentando apartar. Alguns outros seguravam o filho do médico, que
não estava satisfeito. Procurei saída para evitar continuar o quebra-pau.
Quando consegui encontrar minha companheira em meio à confusão, disse que tinha
perdido meus óculos. Ela rapidamente o achou, torto e quebrado, e fomos embora.
Chegamos em casa transtornados e doloridos. Ela com
arranhões no rosto e esfolamentos num dos braços, e eu com uma forte dor nas
costas e esfolamento nos braços. Recuperamo-nos do susto e então tive a certeza
de que o que eles tinham conseguido era um incentivo a uma militância mais
efetiva.
Choramos pensando no que Lula e especialmente Dilma passaram
e ainda passam em suas vidas para fazer o que fizeram e ainda fazem pelo povo
do Brasil e do mundo. Essa é a luta, que precisa evoluir. Coloquei Hasta
siempre (comandante Che Guevara), de Carlos Puebla, e derramei mais algumas
lágrimas, dessa vez de alegria, por saber que existiram pessoas nesse mundo que
deram suas vidas por esta causa. Parabéns, fascistas. Parabéns, AI-5, foi um
aniversário a caráter.
