terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Lêdo Ivo (1924-2012)


Morreu o poeta alagoano Lêdo Ivo. Ele estava em Sevilha, na Espanha, com familiares, onde passaria o Natal, quando se sentiu mal, parece que ao jantar num restaurante. Tinha 88 anos. Ele nasceu em Maceió, a 18 de fevereiro de 1924.

Tive contato com Lêdo Ivo entre 2001 e 2002, quando eu organizava o livro Escritores – 43 entrevistas da Revista Submarino (editora Limiar). É que ele era um dos entrevistados. Na ótima entrevista concedida à repórter Camila Claro (então a mais jovem e mais erudita da equipe) ele mencionou que tinha em seu arquivo um poema inédito de Carlos Drummond de Andrade. Durante a organização, conseguimos que ele nos enviasse o poema de Drummond. Chama-se “Greta Garbo”. Está lá, publicado logo após a entrevista dele, na página 130 de Escritores.

Na época do lançamento, liguei para o poeta, conversamos um pouco e anotei seu endereço para enviar-lhe um ou dois exemplares. Graças a isso o livro Escritores está lá na biblioteca da Academia Brasileira de Letras, da qual ele era membro.

Lêdo Ivo era assim, solícito, simples, afável, receptivo, bem-humorado. Começou a longa jornada pelas letras muito jovem. “Aos 16 anos, em 1940, ligou-se ao grupo do poeta e ensaísta Willy Levin e participou do I Congresso de Poesia do Recife, a seu lado e de João Cabral de Mello Neto”, nos conta Camila na introdução da entrevista. Nesta, Lêdo Ivo revela muitas histórias de sua geração. Fala de literatura e de bastidores (ótimos bastidores), das gerações de 22 e de 45, de suas relações com os poetas João Cabral, Oswald de Andrade, Drummond e outros. Conta sobre suas divergências com Oswald de Andrade, narra um caso que mostra a vaidade e a ambição do poeta paulista.

Mordaz e bem-humorado, fala de um volume de correspondência trocada entre João Cabral, Drummond e Manuel Bandeira: “...há uma parte desse livro em que Cabral me trata com certa ironia. Ele envia para Drummond uma antologia e diz que ‘os Lêdos Ivos da Espanha também estão presentes nesse volume’. Mas isso é muito engraçado porque, ao mesmo tempo em que ele me ironiza, em 1947 escreve para mim falando mal de Drummond (risos)”.

Sobre a geração de 1922: “certos círculo literários achavam que a poesia só tinha um caminho, quando a poesia tem mão dupla, mão tripla, não é?”

Apesar das divergências, disse sobre Oswald de Andrade: "Existem amizades e inimizades, mas aí vem o tempo e apaga tudo. Tenho muitas saudades de Oswald de Andrade".

Humilde, disse também na entrevista: “o melhor de mim, se é que há algum melhor, são os versos longos, os respiratórios, o poema grande, narrativo. Em minha geração sempre fui considerado uma espécie de ovelha negra, fui expulso da geração de 45 sete vezes! (risos)”.

São muitas as histórias que Lêdo Ivo tinha em sua memória, algumas das quais estão na entrevista de Camila no Escritores. Agora, as histórias que ele contou e as que não contou, leva todas consigo para a escuridão do tempo.


*Publicado originalmente às 13:04 de 23 de dezembro de 2012


7 comentários:

Mayra disse...

Este belo poema de Ledo Ivo está na Antologia da Literatura Brasileira, de Bandeira:

A vã feitiçaria
Invento a flor e, mais que a flor, o orvalho
que a torna testemunha desta aurora.
Invento o espelho e, mais que o espelho, o amor,
onde eu me vejo, vivo, num sarcófago.
E a vida, este galpão de sortilégios,
deixa que eu a invente com palavras
que são dragões vencidos pela mágica.
E não me espanta que eu, sendo mortal,
sujeito à injúria de tornar-me em pó,
crie uma rosa eterna como as rosas
inexistentes nesta flora efêmera.
Sonho de um sonho, a vida, ao vento, escoa-se
em vãs lembranças. Minha rosa morre
por ser eterna, sendo o mundo vão.

Paulo M disse...

Soube agora, pelo blog. Mais um a nos deixar mais sozinhos neste mundo cada dia menos poético e mais real e indiscutível. Belo o poema que a Mayra postou. Sem palavras.

Felipe Cabañas da Silva disse...

Outro dia estava me entregando ao consumo literário desenfreado na Festa do Livro da USP, onde todo ano deixo uma boa parte do meu décimo terceiro (hehe), e dei de cara com o livro Escritores no estande da Limiar, bem na frente, em destaque. Me lembrei então daquela noite do lançamento, há dez anos, num barzinho da Apinagés que nem sei mais se existe. Falei pra minha irmã: "Olha, o livro do pai do Gabriel"...hehehe... No dia do lançamento eu não tinha um puto pra comprar o livro, mas dessa vez eu comprei...hehe... Está aqui e hoje à noite vou ler a entrevista do Lêdo Ivo. É uma perda grande para a literatura brasileira, um escritor que, me parece, foi menos valorizado do que merecia.

Edu Maretti disse...

Realmente, muito bonito o poema postado pela Mayra.

"Mais um a nos deixar mais sozinhos neste mundo", Paulo, é verdade. Mas virão outros, sempre virão.

Também acho, Felipe, que Lêdo Ivo "foi menos valorizado do que merecia". Mas pelo contato que tive com ele, me pareceu uma figura muito simples, um cara sincero, irônico, bem humorado, acolhedor como são os nordestinos. Eu disse "mas", acima, porque pela entrevista da Camila e pelo pouco contato que tive com ele por telefone, Lêdo Ivo me deu a impressão de ser uma figura que não estava muito aí para a glória mundana do sucesso. Talvez por isso ele não tinha muitas veleidades quanto a essa coisa de vaidade, de ser ou não valorizado... Sei lá, é uma impressão. Valeu aí por comprar o livro! - hehe.

abraços a todos.

Mr. brBlues disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mr. brBlues disse...

Apenas para constar: Lêdo Ivo foi responsável pela bela tradução entre nós dos poemas de Rimbaud:
"Uma Temporada no Inferno" e "Iluminações" - Clássicos Francisco Alves editora - 1985.

Segundo Bandeira, uma tradução que foge ao beletrismo, à opção fácil de uma aproximação literal. Antes, Ivo recria a sonoridade do idioma original, vertido em sentido poético em nosso próprio idioma. Coisa de poeta.

Frederico Lás disse...

um poeta nunca morre
apenas quando sua poesia, falida,
deixa de ser a voz do mais fraco
ou de sua própria verdade mais íntima


um poeta não morre
apenas se cala em respiro durante leitura de um poema
e a fugaz chama da vida


um poeta não se perde
sua voz é sempre ativa
o seu corpo insepulto apenas fede
quando sua poesia não deixa marca
não é viva