sábado, 30 de outubro de 2010

Debate da Globo não vai mudar nada. Não tem bala de prata, não tem quinta onda que mude a História

O debate da Globo não mudou em nada o rumo das eleições no segundo turno. Foi um evento espetaculoso, em que William Bonner representou uma espécie de Silvio Santos pós-moderno. Jornalismo zero. Perguntas forjadas (pelo Ibope) “feitas por eleitores indecisos” que ficaram “isolados, sem internet, sem telefone, sem contato com a família ou amigos”, segundo a Globo, esse foi o tom da reportagem pós-debate. Que foi algo realmente horrível.



A única virtude do formato global foi a introdução de temas pontuais: funcionalismo, agricultura, educação, saúde etc. Mas, infelizmente, o clima de show e o cenário farsesco tiraram do debate qualquer significação política mais importante.

A Band, dia 10 de outubro, fez de fato o debate do segundo turno, jornalisticamente falando: os candidatos se engalfinharam fazendo perguntas um ao outro, e eu achei que Dilma ganhou aquela contenda por nocaute técnico.

Com vantagem de 12 a 17 pontos percentuais nas pesquisas essa semana, Dilma Rousseff jogou pelo 0 a 0 no duelo da Globo nesta sexta-feira, 29 de outubro. Na minha opinião, poderia ter sido mais agressiva nas questões segurança pública, educação e saúde, por exemplo. Conceitualmente, Dilma deixou claro seu projeto a partir do tema funcionalismo público: é preciso valorizar o professor, o funcionário do Estado. Serra defendeu a meritocracia. Sobre os professores, Dilma lembrou os cacetetes com que Serra os tratou como governador de SP, enquanto o tucano falou na meritocracia.

Quando pôde, o candidato tucano voltou a evocar a imprensa (que lhe concedeu tantas manchetes favoráveis ao longo da campanha) para respaldar seus ataques ao “nível de corrupção como nunca houve” no governo federal. Mas, pego no contrapé (linguagem futebolística), Serra simplesmente ignorou a questão do escândalo dos sanguessugas colocada por Dilma. Lembrando: deputados e prefeitos supostamente (sic) recebiam propinas para intermediar a compra de ambulâncias superfaturadas, quando José Serra era ministro da saúde de FHC.

Houve um momento patético em que (quem assistir ao tape do debate pode conferir) Serra defendeu ser necessária uma força nacional, do governo federal, para combater... as forças da natureza! (as chuvas, que causam enchentes, por exemplo). Valha-nos deus!

E houve um momento de descontração em que Dilma reclamou sobre um erro de cronometragem, que Bonner reconheceu.

Dilma foi politicamente hábil ao lembrar que o debate na Rede Globo se dava no Rio de Janeiro, onde o governo federal tem parcerias importantes com a gestão de Sérgio Cabral (o leitor bem informado sabe que são bons os resultados do projeto das Unidades de Polícia Pacificadora – UPPs). Serra tentou puxar uns votinhos lembrando de Minas Gerais, onde deve perder por margem importante em votos (em MG, Aécio Neves derrotou Serra pelo silêncio).

Dilma debateu como gestora, articuladora de um governo que dotou a Casa Civil de um perfil organizacional do desenvolvimento (em contraposição ao perfil político de José Dirceu); Serra atuou no debate da Globo justamente como político, tentando convencer o eleitor com um discurso essencialmente vazio e evasivo. Alguns dos que votam em Dilma ficaram meio frustrados pelo desempenho dela, e se impressionaram, porque Serra, embora sempre mentindo, parece convincente aos incautos.

Mas isso importa pouco agora. Nenhuma bala de prata, nenhuma quinta onda, nada vai impedir que Dilma Rousseff seja nossa presidente na noite do próximo domingo.

6 comentários:

Victor disse...

Edu, comecei a ver o debate e confesso só vi a primeira parte e percebi que a coisa ficou morna e sem graça. O debate na Bandeirantes e Record foi bem melhor. Vi a questão dos sanguessugas colocada pela Dilma, chamando para o pau, mas o Serra arregou. De modo geral, se a audiência foi grande, quem assistiu ficou na mesma ou vota na Dilma, para continuar o que Lula tem feito. Para mim Dilma ganha mais esta disputa. Onde vai ser a festa? rsrs

Victor disse...

Acabei de conversar com uma amiga que disse que o erro foi o que acordou o debate...eheh..e a dificuldade dos candidatos falarem a palavra controladoria, disse a ela que isso não é questão de fonoaudiologia, é questão psicológica, quem é que gosts de controladoria...rs

Eduardo Maretti disse...

he he.O lance da controladoria foi engraçado mesmo...
A festa... vamos estar no bairro da Pompéia, de lá ainda não sei, deve ter festa na Paulista, né? Vamos pra lá!

Maria Celeste disse...

Embora morno o debate, gostei da relação da Dilma com seus interlocutores - respeitosa mas não subserviente - da convicção e do tom de sinceridade que a meu ver superaram em muito a falácia fácil do Serra. Foi sintomático o engasgo dos dois na palavra Controladoria, ele pra desmerecer, ela pra valorizar a CGU (lapso pelo qual Paulo Preto e Erenice invadiram curiosamente o discurso 'controlado' de ambos). A Folha (incrível!) destacou bem a contundência de Dilma na seleção que fez de suas frases (sobre corrupção, educação, emprego, crescimento econômico, olhar social, tributação, ética na campanha). Vale ver (especial eleições p. 8)
Celeste

Eduardo Maretti disse...

Obrigado pela dica, Celeste. Vou tapar o nariz e entrar lá na Folha online de novo (só li hoje lá a matéria em que o jornal expõe seu inconformismo por não ter acesso aos arquivos do Superior Tribunal Militar).

O debate foi tão morno, tão ruim, que foi possível medir pela audiência deste blog: os debates da Band e da Record geraram bem mais acessos do que o da emissora dos Marinho.

Victor disse...

Tapar o nariz...huahuhaua
Acho que a festa vai ser na Paulista em frente a Gazeta, mas deve ser lá pela meia noite, né? Perguntei para os petitas de plantão, mas ainda não recebi resposta.