segunda-feira, 9 de março de 2015

‘Panelaço’ contra Dilma se restringiu a bairros ricos


Reprodução


As manifestações que aconteceram em algumas cidades brasileiras durante pronunciamento da presidenta Dilma Rousseff foram orquestradas para impedir o alcance da mensagem, mas fracassaram em seus objetivos.  A avaliação é do secretário nacional de Comunicação do PT, José Américo Dias, e do vice-presidente  e coordenador das redes sociais da legenda, Alberto Cantalice.

A comprovação do curto alcance do protesto veio pelas próprias redes. A hashtag #DilmadaMulher, em apoio à presidenta, tornou-se uma das mais usadas pelos internautas e entrou  para o trending topics do Twitter, durante a fala da presidenta em cadeia nacional de rádio e tevê.

O chamado “panelaço”, realizado por moradores de bairros de classe média , como  Águas Claras (DF),  Morumbi e Vila Mariana, em São Paulo, e Ipanema, no Rio, foram mobilizados durante o final de semana por meio das redes sociais, conforme monitoramentos do PT.

“Tem circulado clipes eletrônicos sofisticados nas redes, o que indica a presença e o financiamento de partidos de oposição a essa mobilização”, afirma José Américo.

“Mas foi um movimento restrito que não se ampliou como queriam seus organizadores”, completa.

O secretário avalia que apesar da intensa convocação e dos investimentos na divulgação do protesto, a mobilização não repercutiu nas áreas populares e perdeu o alcance.

Para Cantalice, a movimentação via internet tem ligações com outras reações ao governo, oriundas de setores que pretendem um golpe contra a atual gestão.

“Existe uma orquestração com viés golpista que parte principalmente dos setores da burguesia e da classe média alta”, define o vice-presidente.

Ele avalia que essas reações  são semelhantes às que estimularam as chamada  “Marchas da Família”, com o apoio da grande mídia, e se tornaram os baluartes do golpe que derrubou o presidente João Goulart.

“Hoje, reciclados, investem em novas formas de atuação buscando galvanizar os setores populares”.

O protesto dos moradores de áreas nobres foi ironizado na internet. O perfil do Facebook “Sem Panelaço” publicou levantamento no qual mostra que a manifestação se restringiu a poucos bairros de regiões ricas da capital paulista.

No Twitter, o panelaço virou piada. “Minha amiga agora: Aqui no Nordeste, nenhum panelaço. Acho que é porque não tem mais panela vazia por aqui”, postou Camila Moreno em seu microblog.

Ajustes - Durante pronunciamento em homenagem ao Dia Internacional das Mulheres, a presidenta Dilma defendeu o  ajuste fiscal, que vem sendo implementado pelo ministro da Fazenda,  Joaquim Levy.

Ela atribuiu a necessidade de ajustes à persistência da crise internacional e aos efeitos da seca que afeta as regiões Nordeste e Sudeste, tranquilizou a população e negou que o País viva um crise nas “dimensões que dizem alguns”.

Da Agência PT de Notícias

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Locaute não é greve, é [tentativa de] golpe


Agência Brasil


por Sandro Ari Andrade de Miranda, no Sul21

Sempre que observamos um movimento paredista de caminhoneiros a triste lembrança do Chile volta do passado. Na época, insuflados por uma ação da Agência Norte-americana de Inteligência, a CIA, um grupo de caminhoneiros realizou uma grande paralisação no país visando conferir legitimidade ao golpe militar que culminou no assassinato do Presidente, democraticamente eleito, Salvador Allende.

O resto da história já é do conhecimento de todos. O Chile viveu uma ditadura cruel, das mais selvagens da história, que contou com requintes de selvageria, como o massacre de milhares de oposicionistas do regime num estádio de futebol.

Sendo assim, quando os caminhoneiros do Brasil realizam uma paralisação em diversos estados é preciso separar o joio do trigo, a necessidade do golpismo, a luta política democrática do mero golpismo.

Sem ingressar no mérito das reivindicações, é preciso destacar que a maior parte das organizações de trabalhadores de transporte acolheu plenamente a proposta do Governo Federal costurada pelo sempre eficiente Ministro Miguel Rosseto. Daí fica a pergunta: se as entidades de classe acolheram a proposta apresentada pelo Governo, por que algumas cidades ainda sofrem com a paralisação e bloqueio de rodovias? Quem ganha com o caos?

Com certeza, não são os caminhoneiros, que terão uma Lei que garante uma série de direitos trabalhistas sancionada na íntegra pela presidenta da República, além da isenção do pedágio para caminhões vazios e o congelamento do preço do diesel por um período mínimo de seis meses, dentre outras vantagens.

A resposta está nas entrelinhas do movimento, nas suas contradições, e na presença de atores estranhos e alheios ou contrários à pauta de reivindicação dos trabalhadores.
Sugiro olhar e fotografar a placa da maior parte dos caminhões paralisados e, com certeza, teremos uma surpresa ao ver que grande parte é de Santa Catarina ou do Paraná. Ou seja, são caminhões das grandes empresas de transportes, que emplacam os seus caminhões em estados que fazem populismo com o IPVA, e se utilizam da desinformação imposta pela mídia da direita golpista, especialmente a Rede Globo, a Folha e a Veja, para sustentar uma crise fabricada.

Há uma imensa contradição entre a Agenda dos trabalhadores rodoviários, que hoje são submetidos a jornadas humilhantes, com garantias mínimas, ou forçados a falsificar contratos de terceirização dos serviços, e o das empresas de transporte, ou ainda do grande agronegócio, que se aproveitam da fragilidade legal do trabalho da categoria para impor um regime quase escravagista e baixos valores de fretes.

Assim, muitos dos trabalhadores que hoje fazem figuração no movimento paredista são vítimas da ação deliberada do grupo dominante, e sem a menor compreensão do processo político e social defendem a agenda dos seus maiores inimigos, que são os grandes empresários do agronegócio e das grandes empresas de transporte.
Isso não greve, e sim Locaute, ou Lockout, para utilizar a expressão britânica. Trata-se de uma prática proibida pela legislação brasileira, exercitada pelos empregadores, que tem por objetivo frustrar ou dificultar o atendimento de reivindicações dos empregados.

No Locaute impende-se o acesso dos trabalhadores aos meios de trabalho, ou simplesmente é suspendido o direito ao trabalho através do uso desproporcional da força econômica. O resultado buscado pelos dirigentes dos Locautes é sempre o enfraquecimento da pauta da classe trabalhadora organizada para impor um regime de interesse do capital. Não é por acaso que figuras desconhecidas, surgem, do nada, como líderes, normalmente “laranjas” muito bem pagos pelos interessados nos resultados do movimento contra-reivindicatório.

Assim, você brasileiro que hoje sofre com a chantagem egocêntrica de um grupo de caminhoneiros que violentamente bloqueiam a circulação de caminhões, ou com a campanha de pânico imposta pela mídia golpista, especialmente a Rede Globo, fiquem certos que não são os trabalhadores que lideram o essa organização paredista, Mas aqueles que se usufruem da exploração de milhares de trabalhadores que atuam no segmento do transporte.

Não há uma greve legítima, esta terminou na quarta-feira, na reunião entre o movimento dos caminhoneiros e o Ministro Miguel Rosseto. Temos, isto sim, um Locaute, medida absolutamente ilegal.

Quais os motivos deste movimento, que curiosamente começou no Paraná, Estado onde o Governador, vinculado ao PSDB, enfrenta protestos diários pelas denúncias de corrupção e pelo corte dos direitos de servidores públicos, e mostra alguma forma no Rio Grande do Sul, onde o Governador Sartori promete atrasar o pagamento da folha salarial dos servidores.

Talvez a resposta sejam a tentativa de abafar as denúncias contra Aécio Neves e FHC na operação Lava-jato, ou ainda o vergonhoso escândalo do HSBC, esquecido pela mídia, e que representa o maior caso de corrupção e de lavagem de dinheiro do Planeta, ou para dar gás à sede golpista de um grupo de conservadores que não consegue aceitar a perda das eleições de outubro, ou ainda, claramente, para atrasar a sanção da Lei dos Caminhoneiros, o que traria uma imensa e justa vantagem para esta importante categoria profissional.

Se estamos diante de um Locaute, e não de uma greve, não há mais exercício da Democracia, mas sim um típico caso de polícia, e que assim deve ser tratado pelo Ministério Público e pela Polícia Federal.

Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais



terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

A cara e os gestos do ódio: fascistas ofendem Guido Mantega em hospital


O ex-ministro da Fazenda Guido Mantega acompanhava a mulher, Eliane Berger, no hospital Albert Einstein, quando foi ofendido por um grupo com gritos de “Vai para o SUS”. Eliane luta contra um câncer. O casal se retirou do local depois das ofensas.


Sheyla Lea/Agência Senado
Os eleitores tucanos convictos, que perderam a eleição, têm as mesmas atitudes e a face do ódio de seu candidato derrotado Aécio Neves





Por Felipe Cabañas da Silva

Isso diz muito não somente da intolerância política em que estamos mergulhados, de um verdadeiro ódio de classe dirigido ao Partido dos Trabalhadores, embora este seja um governo democrático, sucessivamente aprovado pelas urnas em maioria democrática, mas também da mentalidade autoritária que tomou conta do paciente-consumidor.

Os gritos "Vai para o SUS" significam: “isso aqui é nosso, de quem tem grana para bancar este hospital caro, que cobra 5 reais por um band-aid e tem lanchonete Viena. Quem não tem ou representa quem não tem, cai fora! Aqui não é o seu lugar. Mesmo que você esteja morrendo ou acompanhando a sua mulher em tratamento de câncer”.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Sobre o aborto: “Campanha pela vida: cada um cuide da sua” (de um pára-choque de caminhão)


"Desde que a pessoa tenha dinheiro para pagar,
o aborto é permitido no Brasil"
(Drauzio Varella)

Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
“Aborto só será votado passando por cima do meu cadáver”,
diz presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, do PMDB 

Por Tania Lima

A reportagem publicada no jornal Folha de São Paulo hoje, Médico chama polícia após atender jovem que fez aborto na Grande SP, encheu-me de indignação. Os algozes do episódio, médico e policiais (o primeiro, espero mesmo que tenha seu registro cassado pelo Cremesp por violar o código de ética médica), são a personificação do que há de desumano em nossa sociedade composta de machistas e gente impiedosa.  Por que as pessoas se manifestam de forma tão contundente contra assuntos que a bem da verdade não são de sua alçada, ou pelo menos não lhes dizem respeito diretamente?

Sobre a legalidade do aborto, excluindo-se questões religiosas que não devem entrar no mérito, presumindo-se como premissa que o Estado, segundo a Constituição, é laico, e na prática deva desta forma comportar-se, há posições contrárias que não se sustentam à primeira argumentação, dada a sua fragilidade e contradição retórica.

O que se pretende com a legalização do aborto? Por mais que a resposta seja óbvia, há aqueles de julgamento apressado, que parecem entender que essa legalização traria como consequência o estímulo à pratica, e não uma política voltada para a saúde. A preguiça, pressa, falta de hábito de pensar e pesquisar etc. levam a conclusões imediatas e precipitadas e delas resulta a ideia de que a legalização incentivaria o aborto. Outra pergunta óbvia: alguém acredita mesmo no aumento de abortos em decorrência da legalização? Alguém acredita mesmo que uma mulher vá festivamente a um procedimento desses?

Embora não se possa ter uma estatística confiável do número de abortos no Brasil, uma vez que a maioria deles se dá de forma clandestina, principalmente no caso de mulheres de baixa renda, é leviano supor que a legalização provocaria o aumento do número de procedimentos. É razoável acreditar que haverá resultados positivos se forem realizados trabalhos de conscientização da população no sentido de se prevenir não apenas a gestação indesejável mas também o risco de se contrair doenças sexualmente transmissíveis.

Para os que ferozmente são contrários, levantando bandeiras em defesa da vida, detentores da verdade e da razão, com suas frases prontas e simplistas e estranhamente carentes de compaixão e solidariedade, e que dificilmente estão engajados em ações sociais práticas para a melhoria da vida dos que estão à margem (blá, blá, blás, não contam), eu sugeriria que tentassem trazer paz a seus espíritos para que pudessem, nessa condição, melhor refletir sobre o tema.

Do ponto de vista individual, a decisão pelo aborto é um direito de foro íntimo e a legalização apenas se prestaria a uma assistência no âmbito da saúde, e portanto a atuação do Estado deveria encerrar-se nesse âmbito. A questão não é ser contra ou a favor do aborto. Acho que ninguém é a favor, trata-se então de ser contra ou a favor de que se possa fazer um procedimento médico em condições de segurança.

De resto, de acordo com o grau de proximidade e liberdade oferecida, pode-se até tentar persuadir alguém a manter uma gravidez, mas é o máximo a se fazer, guardado o respeito pela decisão da mulher, que apenas a ela confere. Ser contra algo que não nos afeta diretamente deveria incluir a responsabilidade quanto às consequências dessa posição: se uma pessoa é contra, de que forma e com qual intensidade efetivamente se dispõe a ajudar?

Às mulheres contrárias, tranquilizo: você não seria obrigada a abortar. Aos homens contrários (há homens opinando!!!): você não engravidaria e então preocupação zero para você. Por fim, para acalmar todos os inflamados: a legalização do aborto não obrigará ninguém a abortar. Citando uma frase do pára-choque de um caminhão que vem a calhar (a mensagem, não o caminhão): “Campanha pela vida: cada um cuide da sua”.

PS do blog: o deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara dos Deputados, tem se manifestado contra todas as bandeiras progressistas ou que tenham a ver com o avanço dos direitos humanos no país. Sobre a descriminalização do aborto, disse ele: “Aborto só será votado passando por cima do meu cadáver”.

Leia também:




sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Pensamento para sexta-feira [56] - BARATAS (fatos reais)



"Agora eu só queria gelidamente uma coisa: matar cada barata que existe." (Clarice Lispector)

CRÔNICA DE VERÃO 2




Episódio 1

Eu costumava dizer com orgulho que moramos neste apartamento há mais de seis anos sem que nenhuma mísera barata tivesse aparecido por aqui. Sim, mais de seis anos. Estava quase me sentindo uma pessoa abençoada. Mas eis que de repente, algo aconteceu, na primeira semana de dezembro de 2014.

Eu estava pra sair de casa pra ir trabalhar quando me deu uma leve vontade de ir ao banheiro (necessidade número 2), e por prudência fui, e fui ao banheiro da área de serviço, porque a zeladoria tinha ligado minutos antes para informar que estava desligando a água do “banheiro social” por causa de um serviço de manutenção.

Fui então ao banheiro etc. Puxei a descarga, meio de costas, e quando me virei para fechar a porta do banheiro vi uma enorme barata. Mas, estranhamente, estava morta, muito morta, completamente morta.

Fiquei chocado, pois nunca tinha aparecido uma barata neste AP, nem viva, nem morta. Ela estava exatamente entre a porta, o tapetinho e a privada, onde teria sido impossível eu não tê-la visto ao entrar no banheiro ou enquanto eu estava ali, sentado.

Fiquei me perguntando: mas que diabo é isso? Peguei a pá e joguei a barata pela janela (no grande jardim onde há muitas árvores no condomínio), sempre me perguntando: mas como essa barata morta apareceu aí se não estava aí quando eu entrei no banheiro pra sentar na privada, num lugar tão visível que teria sido impossível eu não tê-la visto ao entrar?

Pensei no enigma, que exigiu de mim um esforço digno de Sherlock Holmes. A hipótese daquele exemplar da mais asquerosa das criaturas ter sido envenenada em alguma dedetização no condomínio, ter vindo tonta, subindo, até morrer ali, não era plausível, já que ela não estava lá quando entrei no banheiro.

Então, fez-se a luz e entendi. Antes de ir ao banheiro (estava meio frio pela manhã, apesar de ser dezembro), eu coloquei sobre o ombro uma blusa de lã azul que tinha levado à praia, nas férias, mas que ficou na mala sem uso. Como na praia tem muitas baratas e usei e abusei de um veneno de inseto, concluí, como um verdadeiro Hercule Poirot, que essa barata morta estava, já morta, desde a praia, dentro da blusa, envenenada pelo monte incalculável de baygon que esguichei nas dependências da casa da praia – pois num dos primeiros dias uma cena de horror aconteceu, quando descobrimos que baratas,  muitas, de repente corriam pelo chão da cozinha num certo início de noite, e foi aquela cena dantesca de baratas correndo até que conseguimos destruí-las todas, após descobrir que tinham feito um ninho. Enfim, a barata que apareceu morta no apartamento deve ter se escondido envenenada na blusa, e lá ficou. E justamente na hora em que me sentei na privada o maldito inseto morto caiu da blusa ali, por trás de mim, pela manga da blusa, pelas costas da blusa, sei lá.

Foi o que concluí.

Episódio 2

Está certo que a barata estava morta, mas aquilo me perturbou. Pois, morta ou não, era uma barata. Algo tinha querido dizer que já não éramos mais invulneráveis em nosso AP. Desde então, o apartamento nunca mais foi o mesmo.

E, de fato, como se aquele cadáver marrom fosse um aviso, cerca de 40 dias depois, num sábado de um calor insuportável, tarde da noite, eis que estava ali, na porta do armário da cozinha, vinda da escuridão da noite diretamente pela janela escancarada, uma gigantesca barata voadora, espreguiçando suas asas prontas para voar, logo acima de uma torta quentinha recém-tirada do forno. Com nossa súbita presença, lógico, ela voou. E todo mundo sabe o que significa uma barata voando numa cozinha de apartamento. Nem o mais bravo soldado mantém a dignidade.

A excomungada por fim se enfiou por trás de uma prateleira. Fomos tirando objeto por objeto, cada um com o cuidado e o temor de estar cutucando a mais terrível fera. Por fim, foi possível vê-la atrás de um vidro vazio, enorme, encaixada entre o frasco e a parede como se sempre tivesse estado ali. Para não correr o risco de ver o demônio de repente voar (é melhor cinco baratas tontas correndo no chão do que uma voando), já fui esguichando o veneno, com tanto gosto que poderia ter danificado a bomba que ejeta a nuvem de líquido mortífero. O animal asqueroso finalmente caiu no chão, correu, mas eu não esmoreci e continuei esguichando a nuvem, até que ela virou de costas, se debateu, e finalmente expirou (ao que parece, pois, como se sabe, as baratas têm uma característica assustadora: elas podem ressuscitar). Pelo sim, pelo não, coloquei-a na pá e atirei-a pela janela do oitavo andar.

Episódio 3

Foi hoje (12), menos de dois meses e meio após o funesto aparecimento da barata morta e pouco menos de um mês depois da barata voadora.

Por falta de opção melhor, comíamos uma pizza na sala quando, de repente, ouço um grito surdo, não escandaloso, mas de pavor, enquanto vejo algo voando baixo pela sala, que pude perceber ser um inseto ligeiramente grande, mas não muito.

Podia ser um besouro, mas imediatamente eu soube: era outra barata. Outra! Seis anos sem nada, nenhuma, e de repente, em 70 dias, uma morta e duas vivas!

Esta, embora menor, também era voadora (é melhor 5 baratas tontas grandes no chão do que uma média voando). E a maldita voou da sala para dentro do quarto. Já fiquei imaginando ter que dormir na sala ou, tarde da noite, desmontar o quarto atrás do famigerado inseto em algum dos infinitos cantos, dobras de roupa, interior de sapatos, por trás do colchão ou qualquer outro esconderijo onde pudesse entrar. Porque, se tem uma coisa que eu não faço, é dormir com uma barata no quarto. Mas, por sorte, ela estava na parede.

Sabem qual é a palava que designa fobia de baratas? Catsaridafobia. Ou seja, até o nome para esse medo causa repugnância.

Quando tirei o chinelo para destruí-la, ela voou, e veio na minha direção. Era só acertá-la em cheio, estava fácil, afinal sou ágil e mato até as ligeiras moscas com facilidade. Mas acontece que baratas são como espíritos que se materializam para perturbar as pessoas, e então errei a chinelada e, evidentemente, ela veio diretamente pra cima de mim, bateu na minha perna e correu para um lado, enquanto, claro, eu fui para o outro. Acho que não gritei, mas a única testemunha presente na casa (que havia gritado antes) afirma que sim.

Vi que ela se enfiou por baixo do criado-mudo. Peguei o veneno e esguichei. Arrastei o móvel e... cadê? Nada. Vários minutos depois, reapareceu correndo, embora tonta, na minha direção. Vi que esta era bem nojenta, meio esbranquiçada. Mais veneno. Com gosto. Ela rodopiou, correu mais um pouco e, filha da puta, entrou numa fresta do armário embutido, no canto da parede. Enfiei o bico do baygon no buraco e injetei uma dose aparentemente letal, até porque aquele buraco não tem saída, a não ser por onde ela entrou. Mas a desgraçada não saiu. Ficou lá. Acredito que tenha morrido. Mas baratas muitas vezes gostam de te deixar na dúvida. Mesmo mortas, como fantasmas em forma de insetos.

É por isso tudo, além do calor intolerável (e pelos relatos nos links abaixo), que eu odeio o verão.


Leia também da série insetos (fatos reais!)

Pensamento para sexta-feira: Eu e os insetos (ou, motivos para ter medo de insetos)

A volta da vespa noturna

A personalidade das moscas


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Vereadores de São Paulo aprovam projeto que autoriza animais em ônibus; Haddad precisa vetar



O prefeito Fernando Haddad tem a obrigação e o dever de vetar o projeto de lei 131/2013, do vereador David Soares (PSD), aprovado nesta quarta-feira (11), que autoriza o transporte de animais domésticos em ônibus municipais da capital paulista.

Como se já não bastasse a dificuldade que é andar de ônibus, sempre lotados, por mais que qualquer administração faça para melhorar essa realidade, agora teremos que conviver com animais disputando espaço com trabalhadores, estudantes e todo tipo de pessoas, inclusive deficientes?

Esse projeto é uma excrescência.

Leia também, da série vivemos numa sociedade humana ou canina? 


Vivemos numa sociedade humana ou canina?


Espetáculo jurídico-midiático de denúncias sem prova ameaça direitos individuais


José Cruz/ABr
“Querem acabar com o regime de partilha da Petrobras"
Da entrevista coletiva do presidente do PT, Rui Falcão, ontem (11), em São Paulo, destaco a afirmação de que todos os cidadãos estão ameaçados pela violação de direitos individuais que acontece hoje no país a pretexto de se apurar denúncias de corrupção na Petrobras: "Amanhã ou depois qualquer um de nós pode ser alvo dessa arbitrariedade.”

Há incautos sedentos por punição, mas não há só incautos. Há gente de má fé também. Os vulgos golpistas, que defendem interesses inconfessáveis nas entrelinhas das manchetes dos jornais impressos e televisivos. 

Repórteres aparentemente bem intencionados não estão nem aí para o que seus editores fazem com suas apurações. As apurações viram manchetes. As manchetes alimentam juízes. Que alimentam manchetes. Que alimentam juízes.

Desde 2005, o espetáculo midiático de denúncias sem provas é exibido pela mídia, alimentado por atitudes espetaculosas e ilegais de juízes a serviço não se comenta de quem. 

“Não podemos admitir que, em nome do combate à corrupção, se viole o Estado democrático de direito e se condicione uma investigação para cima de um partido”, disse Rui Falcão. “(Querem) acabar com o regime de partilha. Pedro Malan (ex-ministro da Fazenda) já falou em fim de regime de partilha, Fernando Henrique insinuou isso, vários colunistas têm se manifestado, o presidente da Câmara dos Deputados (Eduardo Cunha). Querem voltar o regime de concessão, e em ultima instância lá na frente privatizar a empresa.”

Rui Falcão disse que o PT quer esclarecimentos da Polícia Federal e do Ministério Público sobre o processo de investigação e vazamentos de informações considerados seletivos na operação Lava Jato, conduzida também por delegados da PF que manifestaram no facebook preferências eleitorais em 2014, por Aécio Neves. Mas essas postagens, disse Falcão, foram apagadas por seus autores.

“O que eu vejo é uma divulgação de vazamentos, de vazamentos seletivos."

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Franklin Martins, André Singer e Bernardo Kucinski debatem comunicações e poder


O lançamento do livro Cartas a Lula, do cientista político Bernardo Kucisnki, reuniu em uma mesa de debates, na tarde-noite de hoje (4), o próprio autor (ex-assessor da Presidência da República no primeiro mandato de Lula), o também cientista político André Singer (ex-secretário de Imprensa do Palácio do Planalto e porta-voz da Presidência da República no primeiro governo Lula -- 2003-2007), o jornalista Franklin Martins (ministro-chefe da Secom no primeiro mandato de Lula), o advogado Joaquim Ernesto Palhares (diretor do site Carta Maior) e o ex-candidato ao governo de São Paulo pelo PSOL, Gilberto Maringoni.

Na mesa de debate, temas como a conjuntura política e o papel da mídia no processo político e nas eleições, passadas e futuras. Destaco algumas falas dos debatedores:

Franklin Martins:  "Precisamos, mais dia, menos dia, enfrentar questões políticas como a democratização dos meios de comunicação e a reforma política. Acho extremamente importante que estejamos aqui, tendo ganho as eleições. Porque [pelo clima que se estabeleceu entre as pessoas do campo progressista] parece que perdemos. Mas se tivéssemos perdido, estaríamos discutindo como evitar que se entregasse o pré-sal [aos Estados Unidos], ou que acabasse o regime de partilha [modelo pelo qual a produção de um determinado campo de petróleo é compartilhado pelo consórcio vencedor do certame e pela União – pelo regime, vence o leilão quem oferecer ao governo a parcela maior].

“Há risco de retrocesso? Há. Mas há conquistas [ascensão social da população], foram fincadas raízes."

Joaquim Ernesto Palhares: "Fica um gosto amargo de derrota por não termos constituído um veículo de comunicação. [O governo] deveria ter colocado R$ 30 bilhões na EBC para constituir uma poderosa rede de comunicação. Eles [a  mídia, principalmente a Globo] formaram uma consciência da população que quase nos levaram à derrota. Tenho receio de que as próximas eleições estão perdidas, se algo não for feito".

Franklin Martins: "Não cabe ao governo criar veículos de imprensa, cabe à sociedade, aos partidos".

André Singer: "Não tenho convicção sobre o papel da comunicação [como indutora de vantagem político-eleitoral aos setores da direita]. Se fosse tão fundamental, [o PT] não teria vencido as eleições de 2006, 2010 e 2014. Não nego a importância da comunicação, mas não dou a mesma centralidade que os companheiros [da mesa: Franklin Martins, Bernardo Kucinski e Gilberto Maringoni].

Bernardo Kucinski: "Precisaria explicar [à população] como começou a corrupção na Petrobras, porque [a ideia de corrupção, pelo bombardeio da mídia] ficou atrelada ao petismo. Mas a corrupção começou há décadas".

sábado, 31 de janeiro de 2015

O MPL e sua "tática binária"



Movimento Passe Livre/Agência Brasil


“Por que o MPL e o Sindicato dos Metroviários preferem o Anhangabaú, ao lado da prefeitura de São Paulo, comandada por Fernando Haddad? (Pergunta ainda a responder.)”

Falei isso num post neste blog em 14 de agosto de 2013, sobre um dia em que havia convocação para duas manifestações em São Paulo: uma no Anhangabaú (do lado da prefeitura) e outra na Assembleia Legislativa (onde ficam os deputados estaduais, pra quem não sabe). Adivinhem onde estava o protesto do MPL? Do lado da prefeitura, claro.

Bom, agora é Lino Bocchini que aborda o tema em ótimo texto na CartaCapital de hoje (31) -- link abaixo.

No texto, ele lembra que, em 2015, O MPL realizou seis protestos. Desses, três “começaram ou terminaram na sede do poder público municipal --o prédio do Banespinha, no Viaduto do Chá, no Centro de São Paulo. O último deles, dia 29, passou pelo prédio no qual mora a família de Haddad”, lembra a matéria da CartaCapital.

Lembra ainda um fato político que o MPL insiste em ignorar em suas manifestações: “O governo do Estado, há mais de 20 anos nas mãos do PSDB, é o responsável pelo metrô, pelos trens da CPTM, por linhas de ônibus intermunicipais”.

Ressaltando que em uma democracia protestar é um direito constitucional, Bocchini constata: “Chamam atenção, entretanto, as escolhas do movimento. Geraldo Alckmin agradece”.

É curioso notar as reações quando você resolve minimamente questionar essa espécie de senso comum pró-MPL. Escrevi uma pequena reflexão sobre isso no Facebook, em tom jocoso, e logo um amigo jovem (mas não tão jovem quanto a massa adolescente que forma o MPL) veio com essa resposta irritada (ipsis litteris): “Pq vc não vai a um ato pelo menos uma vez? Talvez descubra na rua mais sobre estes ‘inhos’, ‘inhas’ e sobre democracia, a democracia paulistana”.

Sintomático isso: os que defendem o direito absoluto de protestar não conseguem conviver muito bem com questionamentos. Não vou nem falar dos meus questionamentos, mas cito uma observação do próprio Fernando Haddad, em entrevista recente ao DCM em que critica a “postura do MPL, sobretudo de pessoas que têm uma bagagem para entender o que é a intolerância. A intolerância não é de esquerda. É um fundamentalismo que eu lamento”.

Diz ainda Haddad sobre o MPL: “É possível ampliar os direitos gradualmente. Sem radicalizar. Mas a tática deles é claramente binária: ou levo tudo ou não levo nada. Ou você me dá 100% do que estou pedindo ou você é meu inimigo”.

É isso, amigos. Fiquem com a íntegra das matérias citadas:

Da CartaCapital: MPL mira em Haddad e alivia para Alckmin

A entrevista de Haddad ao DCM: Fernando Haddad fala sobre Marta, Chalita, a lógica do MPL

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Pensamento para sexta-feira [55]
O mosquito drone


Admirável mundo novo

Reprodução

  
Margo Seltzer, professora de ciência da computação na Universidade de Harvard, esteve na semana passada no Fórum Econômico de Davos, na Suíça. Vários sites pelo planeta repercutiram a fala de Seltzer sobre um mundo em que drones-mosquito como esse da foto poderiam, em tese, voar ao redor de você e sugar o seu sangue, mais especificamente seu DNA. Essa notícia não é muito nova, em 2012 ela já circulava. Ou mesmo antes.

“Bem-vindo ao presente. Nós já estamos nesse mundo”, disse a professora novaiorquina.

O pernilongo-drone é um vampiro cibernético.

A notícia sobre essa tecnologia assustadora me remeteu a um poema do nosso poeta maior, Carlos Drummond de Andrade. Na verdade, a um trecho de seu poema “O Sobrevivente”:

Se quer fumar um charuto aperte um botão.
Paletós abotoam-se por eletricidade.
Amor se faz pelo sem-fio.
Não precisa estômago para digestão.

Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta
muito para atingirmos um nível razoável de
cultura. Mas até lá, felizmente, estarei morto.”

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

De tênis e mitos



Divulgação
Djoko e Sharapova, sensacionais


Umas linhas sobre tênis, já que o Australian Open está rolando.

Comecei a gostar de tênis vendo jogos do antológico duelo entre Pete Sampras e Andre Agassi, no início dos anos 1990.

De lá para cá, muita coisa aconteceu, sendo um divisor de águas o auge de nosso Gustavo Kuerten, o Guga, no ano de 2000.

Hoje, torço para Novak Djokovic*, apesar de ficar dividido quando ele enfrenta Roger Federer, o jogador mais completo e mais elegante que já vi, mas hoje em decadência (porém, o tenista mais espetacular para mim foi o fabuloso Sampras, com seu saque-e-voleio, a potência e a categoria inigualáveis).

Fala-se muito em Wawrinka e Berdych, que jogam o estilo porrada, que não me agrada. O britânico Andy Murray é um jogador de muito mais recursos, extremamente técnico, mas às vezes instável. Não sei por quê, tenho uma antipatia invencível por Murray.

Nos últimos anos construiu-se uma espécie de dicotomia entre Federer e Rafael Nadal. Não gosto de dicotomias, mas sempre achei Nadal um tenista intolerável, embora reconheça que é um gigante, como já escrevi em outro post. Me irritam até o extremo o estilo pitbull do espanhol, sua força física incrível, a inclemência com que chega em todas as bolas, o fôlego impressionante, o estilo Lleyton Hewitt de jogar tênis (comparação limitada, embora razoável). Além de tudo isso, Nadal tem aqueles tiques nervosos ao sacar: puxa a cueca, arruma o cabelo de um lado, de outro, bate a bola incontáveis vezes...

Roger Federer é o maior colecionador de títulos de Grand Slams, com 17 troféus. Atrás dele vêm Pete Sampras e o próprio Nadal, com 14 cada. Torço muito para Nadal não superar Federer. Djoko tem 7 Grand Slams, e no ritmo em que vem jogando tende a no mínimo se aproximar cada vez mais de Nadal e Federer.**

Jamais esquecerei da incrível vitória do, então, imberbe Roger Federer contra o mítico Sampras em Wimbledon, em 2001. O suíço, com 20 anos, batia seu maior ídolo na lendária quadra central do All England Lawn Tennis Club pelas oitavas de final, lugar onde o norte-americano era rei. Após o jogo, o incrédulo jovem suíço, que viria a superar o ídolo em títulos, caiu de joelhos e chorou.

Sem me alongar muito, no feminino sou fã da Maria Sharapova, para quem sempre torço, a carismática russa que apareceu espetacularmente para o mundo ao bater a impressionante Serena Williams na final de Wimbledon (sempre Wimbledon) de 2004 por 2 sets a 0 (6-1,6-4).

A russa Maria é uma das poucas tenistas que venceram o Grand Slam de carreira, ou seja, conquistou os quatro maiores torneios do mundo: Wimbledon em 2004, Aberto dos EUA em 2006, Aberto da Austrália em 2008 e Roland-Garros em 2012 e 2014. Não é pouca coisa.

Sharapova tem um problema que Guga também tinha. Ambos jogam gritando, o que às vezes perturba quem está vendo.

Mas Serena, a irmã mais nova de Venus, às vezes me parece tão forte que chega a parecer injusto, em certo jogos, ela enfrentar uma mulher, tamanha é a desproporção, a potência de seus golpes, que, aliados à inteligência e seus recursos técnicos impressionantes, fazem dela uma adversária quase imbatível, quando está bem física e psicologicamente.

Nenhuma das duas, Serena ou Sharapova, porém, se compara à grande alemã Steffi Graf, a melhor de todas entre as que vi jogar. Como também já escrevi, nunca vou esquecer a maravilhosa final de Roland Garros de 1999, quando Steffi destruiu a suíça Martina Hings de tal maneira que Martina terminou a partida em meio a um crise nervosa e entre lágrimas.

Entre as mulheres, a australiana Margaret Court foi a que mais ganhou Grand Slams, com nada menos do que 24 títulos. Steffi Graff tem 22. Serena Williams, junto com Chris Evert e Martina Navratilova, tem 18, logo atrás de Wills Moody, com 19. Sharapova tem 5 Grand Slams.

PS: Este post foi escrito antes do término do Australian Open de 2015, vencido por Djokovic na final contra o britânico Andy Murray, o qual o sérvio esmagou por 3 sets a 1, parciais de 7-6 (5), 6-7 (6), 6-3 e 6-0. Djoko conta agora, portanto, com 8 Grand Slams.

* Ao escrever este post em janeiro de 2015, disse que "hoje, torço para Novak Djokovic, apesar de ficar dividido quando ele enfrenta Roger Federer". Um ano depois, refaço a frase para dizer: como sempre fui muito fã, e, mais do que isso, admirador de Federer, fiquei um pouco cansado de tanto ver Federer perder de Djoko, e em todos os confrontos entre ambos de um ano para cá, torço sempre para Federer.

** De janeiro de 2015 a janeiro de 2016, Federer se mantém como maior vencedor de Grand Slams, com 17 troféus. Sampras continua logo atrás, junto com Nadal (que não ganhou nada em 2015), com 14. Djoko, que tinha 7 títulos ano passado, já tem 10. Em 2015, só não levou Roland Garros (que ficou com Wawrinka). O sérvio ganhou na Austrália, em Wimbledon e nos Estados Unidos.


quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Aracaju, a capital que acorda ao cair da noite



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Praia do Atalaia


Texto e fotos por Roseli Costa

Aracaju, que significa “cajueiro dos papagaios”, é a junção de duas outras palavras: arara e caju, símbolos da capital de Sergipe, o menor estado brasileiro. A cidade acorda às 5 da tarde, quando começa a ser abraçada pela noite (é, lá anoitece cedo!). Antes disso, tem-se impressão de que teremos pouco a conhecer, a não ser a belíssima Orla de Atalaia, de 30 km de extensão, que entorna a cidade, com areal longo, diferente de todas as praias, mar verde e calmo, restaurantes, praças e lagos. Mas não é o que ocorre.

A partir desse horário, descortina-se a paradoxal beleza delicada e agreste do local. Passeios pela orla não bastam, pois há que se conhecer as feiras de artesanato riquíssimas, o oceanário, o Centro de Arte Sergipana e os vários passeios que se apresentam como opção, adornados por montanhas, rios, lagoas, dunas, manguezais, caatinga e pantanal.


Orla do do Atalaia

Um bom exemplo de passeio fora da orla é a Croa de Goré, pequena ilha que submerge diariamente com a alta da maré e nos mantém repentinamente com os pés dentro de água cristalina. No caminho desta, há a Ilha dos Namorados, com seus contornos de areia fina rodeada por água límpida. Também se deve conhecer a Praia do Saco, tida como a mais bela de Sergipe. Ressaltem-se as cidades históricas de Laranjeiras e São Cristóvão, com conjunto arquitetônico dos séculos XVI, XVII e XVIII, composto de ladeiras de pedra, casarões e igrejas inesquecíveis. Encontra-se também, como opção de lazer mais longínqua, o Canyon de Xingó, nascido do represamento do Rio São Francisco para a construção da Usina Hidrelétrica do Xingó, em 1994, na divisa de Sergipe e Alagoas, que com suas águas verdes e montanhas parcialmente submersas compõe maravilhoso e único espetáculo.


Croa do Goré

Quando se retorna dos passeios múltiplos que lá se pode fazer, não agradam menos as voltas pela orla bem projetada para o lazer e a convivência, tanto de dia quanto à noite, entre ciclistas, caminhantes, crianças, idosos, todos contemplados com bancos coloridos de alvenaria, comidas típicas da melhor qualidade, ciclovias, parques, profusão de lagos, pedalinhos, quadras de esportes, pistas de skate, monumentos que exaltam a raiz nordestina, trenzinhos, artesãos, cantadores de viola e de flauta, doceiros e restaurantes de todos os tipos. Por isso mesmo é aconselhável não fazer todos os passeios oferecidos e deixar de conhecer cada cantinho da cidade. É preferível visitar Aracaju mais de uma vez ou ficar mais que uma semana para dar conta de tanta beleza.

Depois de dois dias na cidade, acostuma-se a todo dia comer tapioca, tomar sorvete desse mesmo típico ingrediente; também o de castanha e o de caju, todos muito apreciados. Também se habitua na capital de Sergipe à brisa refrescante num frequente calor de 25 a 35 graus.


Ilha dos Namorados

Saindo da orla e adentrando Aracaju, temos bairros de casas simples com grandes quintais, algumas ruas de terra, que pouco lembram uma capital. E mais adiante, o centro histórico, com algumas construções antigas, shoppings, centro financeiro, o imenso Rio Sergipe, bem como o grande e marcante mercado sertanejo, alegria dos habitantes locais e dos turistas, já que nele pode-se encontrar de tudo, com forte marca sertaneja.

Aracaju não é o destino principal dos turistas sedentos por pacotes badalados e de grande projeção. Mas a característica da cidade que dorme até 17 horas repete-se nas descobertas de recantos que só os catamarãs, barcos, lanchas e jipes revelam, para compor uma visão mais acertada do que é a cidade das araras, dos cajus e do saboroso sorvete de tapioca.


Centro de Aracaju



sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Fernando Haddad e Gabriel Chalita



Apesar de Fernando Haddad e Gabriel Chalita, novo secretário de Educação, desconversarem sobre os planos deles próprios e de PT e PMDB para as eleições municipais de 2016, e dizerem que essa discussão é para depois, quem foi à concorridíssima cerimônia de posse de Chalita pôde constatar a força e o significado político das articulações que levaram o peemedebista a assumir o posto no governo.

Cesar Ogata/SECOM-PMSP


Além de deputados, vereadores, secretários municipais e líderes de vários escalões dos dois partidos, estiveram presentes à cerimônia figuras como José Renato Nalini (presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo), dom Odilo Scherer (cardeal arcebispo de São Paulo), Alexandre Padilha (ex-ministro da Saúde), Lygia Fagundes Telles (a mais importante escritora brasileira viva), Alexandre de Moraes (secretário de Segurança Pública de Geraldo Alckmin), representantes da OAB e diversas entidades políticas e civis, entre outros.

O evento mostrou que a posse de Chalita – se não houver pedras no caminho – é, sim, o prenúncio de uma possível dobradinha na chapa para a eleição de 2016.

A chegada de Chalita ao governo faz parte da já lendária (!) estratégia que deve neutralizar grande parte do capital que Marta Suplicy teria se, fora do PT, conseguisse se bandear para o PMDB. Agora, se ela quiser ser candidata, terá de ser por um partido muito menor.

Mas ainda tem o fator Russomanno, que não será desprezível como candidatura de direita que tem muitos votos nas periferias da capital.

"Aqueles que buscarem divergência de pontos de vista entre mim e Chalita vão semear em solo infértil", disse Haddad, ao ser questionado sobre críticas murmuradas aqui e ali por petistas e outros inconformados com a nomeação de um ex-secretário de Alckmin.

Haddad lembrou a participação de Chalita nas eleições de 2010 e 2012, pra dizer: “Chalita é parceiro também na política, por que não dizer? Não vejo nenhuma razão para não agradecer mais uma vez o apoio que recebi no segundo turno de 2012, e o esforço que ele fez em 2010 para não permitir que teses obscurantistas dominassem o debate político da eleição presidencial. Elevou o padrão e o nível do debate”.

A lembrança de Haddad é pertinente. Com os 833 mil votos que conseguiu no primeiro turno de 2012, Chalita foi decisivo para a vitória do petista contra José Serra (PSDB). No segundo turno, o então candidato do PT venceu o tucano por uma diferença de 679 mil votos.

Antes, em 2010, Chalita, que é católico, deu declarações defendendo a então candidata Dilma Rousseff dos boatos espalhados pelo mesmo tucano Serra, segundo os quais Dilma era favorável ao aborto. “A tentativa de desconstruir pessoas com boatos é ruim. Dilma nunca disse ser a favor do aborto. Ela abordou o tema como uma questão de saúde pública”, afirmou Chalita na época à Folha de São Paulo, quando era membro do PSB.

Sobre o “boato” mais explorado, o da interferência de Lula no processo, me parece que Haddad demonstra nas entrelinhas que acredita de fato na construção de uma nova geração de políticos, ao dizer: “procuramos o presidente Lula e o presidente Michel Temer para apresentar a eles nosso ponto de vista sobre o rejuvenescimento da política, a necessidade de novos quadros para revitalizar o debate político sobre políticas públicas”.

Com isso, Haddad quer dizer a Lula que está na hora de o Brasil acreditar na nova geração.

sábado, 10 de janeiro de 2015

As tolices em torno do atentado ao Charlie Hebdo


Ou: eu também Não sou Charlie


Após o ato terrorista que vitimou o jornal Charlie Hebdo, naturalmente muitos se apressaram para externar suas opiniões. Depois do horror do ato terrorista justificadamente repudiado por qualquer pessoa que tenha um mínimo apreço ao humanismo, à paz ou ao simples bom senso, logo surgiram as tolices que se seguem a acontecimentos desse tipo.

A primeira tolice foi aquela segundo a qual o atentado agredia a "liberdade de expressão", a "liberdade de imprensa" de todos nós. A segunda, entre as que li (e essa é mais tola de todas), foi aquela que dizia que a “extrema esquerda” tinha sido a verdadeira vítima dos terroristas. E a terceira tolice é essa que se resume no slogan “Je suis Charlie”, que rivaliza com a segunda em ingenuidade, mas vai muito além.

A primeira tolice não é exatamente uma tolice (é tolice apenas quando reproduzida por papagaios que sequer sabem seu sentido), já que, como se sabe, a liberdade de imprensa de que falam é a liberdade das grandes corporações midiáticas ocidentais, cuja cartilha prega a democracia dos patrões, do capitalismo sem freios, da selvageria denuncista praticada, entre nós brasileiros, por exemplo, pela meia dúzia de famílias donas das comunicações, enfim, a liberdade de imprensa da mentira travestida de jornalismo.

A segunda tolice nem sequer merece comentários. Dizer que a extrema esquerda foi a vítima do atentado é de tal ordem tolo que vou poupar o leitor mais inteligente de ler algumas linhas inúteis.

E a terceira tolice, segundo a qual “Je suis Charlie”, rivaliza com a segunda, mas é mais sofisticada, pois remete a uma solidariedade humanista e de certa maneira incorpora subliminarmente o clamor pela liberdade de expressão, ou de imprensa (ocidental).

Percebo que, quando digo “tolice”, na verdade me refiro aos que reproduzem esses raciocínios e não refletem direito sobre o que estão reproduzindo, já que evidentemente aqueles que os criam ou os consensos em torno dos quais esses raciocínios se formam não são exatamente tolos ou desprovidos de intenções. Quando um monte de amigos verdadeiramente bem intencionados dão pra repetir “Je suis Charlie”, “Je suis Charlie”, “Je suis Charlie”, provavelmente nem estão pensando no significado do que dizem. Por exemplo, no fato de que o Charlie Hebdo talvez tenha ido longe demais em sua política editorial de desrespeitar as religiões e a fé.

"O Corão é uma merda", diz Charlie Hebdo: humor?
Mas principalmente não pensam num aspecto que foi muito bem observado pelo blog Descolonizações, do Zuni: “Aqueles que ostentam orgulhosos o slogan Eu sou Charlie se dizem advogar pela liberdade de expressão, porém não questionam o que significa essa liberdade de expressão nem tampouco quem tem direito a essa liberdade. Ninguém se preocupa com a censura à liberdade de expressão religiosa islâmica na França”.

Em resumo, o blog citado chama a atenção para o fato de que o Charlie Hebdo (intencionalmente ou não – nota deste Fatos Etc.) insuflou incessantemente o preconceito e a já denominada “islamofobia”, o racismo e a violência contra a perseguida cultura islâmica, que na Europa, e principalmente na França, aumenta mais e mais, e incentivou também os discursos da extrema direita francesa. Basta se informar um pouco para saber o quanto o Estado francês tem acuado a cultura muçulmana na terra de Napoleão Bonaparte.

Quando o Charlie Hebdo estampa, numa capa, a frase "O Corão é uma merda", está fazendo humor? Não, está desferindo um ataque que nada tem a ver com humor.

Em entrevista à Folha de S. Paulo nesta sexta-feira (9), Marine Le Pen, presidente da Frente Nacional, partido francês de extrema direita, disse: “O islamismo, esse totalitarismo religioso que mata todo dia centenas de inocentes no mundo, declarou guerra ao nosso país. Devemos responder sem fraquejar”.

Esse discurso insidioso quer confundir o islamismo (uma religião monoteísta surgida na Arábia no século VII, tão importante quanto o cristianismo e o judaísmo) com os fundamentalistas que, infelizmente, são talvez os maiores inimigos da religião em nome da qual matam e massacram.

Aproveitando a estupidez e violência canalha dos inimigos autoproclamados mártires de Alá que, na verdade, trabalham para a causa sionista, Marine Le Pen disse mais: “Os franceses, a partir das manifestações espontâneas que emergiram após o atentado, tomaram consciência dessa declaração de guerra”. E ainda: “Diante do terrorismo islâmico, temos que nos defender com todos os meios possíveis. Acredito que nossos compatriotas entendem isso”.

Por tudo isso, embora solidário com todos aqueles ligados ao Charlie Hebdo que sofreram e sofrem com a insanidade do ataque, mas principalmente como defensor da liberdade e autodeterminação dos povos, do Estado da Palestina (e também, como o governo do Brasil, talvez ingenuamente, da convivência pacífica da Palestina com o Estado de Israel), como defensor da paz, declaro que também Não sou Charlie, como o blog acima citado defende, e você pode ler abaixo.



segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

A adolescência segundo J. D. Salinger e John Fante


Um dos prazeres da leitura é a comparação. Comecei o ano lendo 1933 Foi um Ano Ruim, de John Fante, e não houve como não me lembrar de um dos maiores clássicos da literatura norte-americana, O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger. Ambos narram, em primeira pessoa, a história de adolescentes.

Adolescentes, como se sabe, são criaturas problemáticas, em transição. Não sabem o que querem ou, se sabem (ou pensam saber), têm certeza absoluta dos objetivos, mesmo que a realidade teime em desmentir seus sonhos. Às vezes têm todas as certezas do mundo. Outras, todas as dúvidas do mundo. Muitas vezes têm certezas demais e dúvidas de menos, maneira inconsciente de superar as inseguranças.

Salinger
O personagem de Salinger é Holden Caulfield, um garoto de 17 anos, de família rica (ou classe média alta), que não vê sentido na vida, na escola que frequenta na Pensilvânia, nos amigos e professores, nos valores burgueses onde se forjou, no futuro ou no passado. Não tem ambições e vive esmagado pela angústia. É um niilista. Mas é capaz de amar: ama seus irmãos, principalmente o que já morreu e a menininha caçula, a encantadora Phoebe. Pólos inatingíveis e opostos: o morto e a infância que não volta mais. Apesar de tudo, é um rapaz sensível e incapaz de fazer o mal.

Já Dominic Molise, de Fante, também de 17 anos, é uma figura socialmente muito diferente, para dizer não dizer o oposto, de Caulfield. Molise é pobre, filho de um pedreiro nascido na Itália, assolado por dúvidas e angústias adolescentes, mas tem uma certeza inabalável: a de que será um grande jogador de beisebol. Nesse sentido, o personagem é muito identificável com milhões de crianças e jovens que sonham em ser jogador de futebol, um grande astro do rock ou da MPB e acreditam que nasceram predestinados ao sucesso até que, cedo para uns, tarde para outros, descobrem que são apenas pessoas comuns, como todos nós.

Fante
A narrativa de 1933 Foi um Ano Ruim é direta e sem rodeios de linguagem, à tradição de Hemingway e Bukowski, com sua poesia seca. Porém, o livro não conta apenas a história do jovem, pobre e sonhador, Dominic Molise, mas o enquadra no contexto politizado e feroz dos Estados Unidos da depressão pós-1929, onde famílias como a dele foram empurradas para a pobreza sem remédio. O conflito capital-trabalho é claro e permeia o romance, que, aliás, não é de modo algum panfletário ou engagé, o que quase sempre é característica da literatura menor e desimportante, já que os grandes escritores de ficção, de modo geral (salvo raras exceções – como Sartre), não se submetem à História, mas a transcendem – daí a imortalidade dos clássicos. O livro de Fante transcende o próprio contexto histórico.

Mais sofisticado, O Apanhador no Campo de Centeio, cuja narrativa se desenvolve em 1949, difere do livro de Fante, entre outros aspectos, porque explora com maestria um recurso de que poucos são dotados: a ironia, esse legado que nos deixou Kierkegaard. Como nos ensina o mestre dinamarquês, a ironia não é uma solução fácil que você coloca numa frase, mas é o próprio espírito de uma obra. Portanto, é difícil você pinçar uma frase ou outra para ilustrar o caráter irônico de uma obra: a ironia está na obra, a envolve como um manto. Mesmo assim, apenas a título de exemplo, destaco isso, dito pelo personagem Holden Caulfield: “Magnífico. Se há uma palavra que eu odeie é magnífico”.

Ou esta passagem:

Puxa, depois que a gente morre eles fazem o diabo com a gente. Tomara que quando eu morrer de verdade alguém tenha a feliz ideia de me jogar num rio ou coisa parecida. Tudo, menos me enfiar numa porcaria dum cemitério. Gente todo dia vindo botar um ramo de flores em cima da barriga do infeliz, e toda essa baboseira. Quem é que quer flores depois de morto? Ninguém”.

Já o personagem de Fante não tem tempo para ironia – e nem o autor maneja esse recurso. A poesia está na realidade. O Dominic de Fante é um prisioneiro da realidade; o Holden Caulfield de Salinger a despreza e odeia. O primeiro, filho de imigrante italiano, é católico; o segundo, um cético.

Seja como for, é um exercício interessante conhecer a adolescência segundo um e outro escritor. Tema que foi também abordado na obra de um dos maiores mestres da literatura, Gustave Flaubert, no romance Novembro, cujo protagonista é obcecado pelo Oriente mas não consegue abandonar o tédio de seu próprio quarto. Mas ficarei no critério de me restringir aos norte-americanos, ao século XX. O adolescente de Flaubert soaria deslocado, aqui.

O Apanhador no Campo de Centeio – o que muitos observam como se fosse um atributo do próprio livro – é dotado de uma aura “maldita”, já que era o livro que o assassino de John Lennon, Mark Chapman, tinha consigo quando matou o ex-beatle com cinco tiros. Um estigma que a obra-prima de J. D. Salinger não merecia.


Jerome David Salinger nasceu em Nova York, em 1° de janeiro de 1919, e morreu em Cornish (New Hampshire), em 27 de janeiro de 2010. O livro O Apanhador no Campo de Centeio foi publicado em 1951. No Brasil, é encontrado em belíssima edição da Editora do Autor.








John Fante era filho de italianos. Nasceu em Denver, em 8 de Abril de 1909, e morreu em Woodland (Califórnia) em 8 de Maio de 1983. 1933 Foi um Ano Ruim foi publicado postumamente, em 1985. É editado aqui pela L&PM, em edição pocket.