quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

De tênis e mitos



Divulgação
Djoko e Sharapova, sensacionais


Umas linhas sobre tênis, já que o Australian Open está rolando.

Comecei a gostar de tênis vendo jogos do antológico duelo entre Pete Sampras e Andre Agassi, no início dos anos 1990.

De lá para cá, muita coisa aconteceu, sendo um divisor de águas o auge de nosso Gustavo Kuerten, o Guga, no ano de 2000.

Hoje, torço para Novak Djokovic*, apesar de ficar dividido quando ele enfrenta Roger Federer, o jogador mais completo e mais elegante que já vi, mas hoje em decadência (porém, o tenista mais espetacular para mim foi o fabuloso Sampras, com seu saque-e-voleio, a potência e a categoria inigualáveis).

Fala-se muito em Wawrinka e Berdych, que jogam o estilo porrada, que não me agrada. O britânico Andy Murray é um jogador de muito mais recursos, extremamente técnico, mas às vezes instável. Não sei por quê, tenho uma antipatia invencível por Murray.

Nos últimos anos construiu-se uma espécie de dicotomia entre Federer e Rafael Nadal. Não gosto de dicotomias, mas sempre achei Nadal um tenista intolerável, embora reconheça que é um gigante, como já escrevi em outro post. Me irritam até o extremo o estilo pitbull do espanhol, sua força física incrível, a inclemência com que chega em todas as bolas, o fôlego impressionante, o estilo Lleyton Hewitt de jogar tênis (comparação limitada, embora razoável). Além de tudo isso, Nadal tem aqueles tiques nervosos ao sacar: puxa a cueca, arruma o cabelo de um lado, de outro, bate a bola incontáveis vezes...

Roger Federer é o maior colecionador de títulos de Grand Slams, com 17 troféus. Atrás dele vêm Pete Sampras e o próprio Nadal, com 14 cada. Torço muito para Nadal não superar Federer. Djoko tem 7 Grand Slams, e no ritmo em que vem jogando tende a no mínimo se aproximar cada vez mais de Nadal e Federer.**

Jamais esquecerei da incrível vitória do, então, imberbe Roger Federer contra o mítico Sampras em Wimbledon, em 2001. O suíço, com 20 anos, batia seu maior ídolo na lendária quadra central do All England Lawn Tennis Club pelas oitavas de final, lugar onde o norte-americano era rei. Após o jogo, o incrédulo jovem suíço, que viria a superar o ídolo em títulos, caiu de joelhos e chorou.

Sem me alongar muito, no feminino sou fã da Maria Sharapova, para quem sempre torço, a carismática russa que apareceu espetacularmente para o mundo ao bater a impressionante Serena Williams na final de Wimbledon (sempre Wimbledon) de 2004 por 2 sets a 0 (6-1,6-4).

A russa Maria é uma das poucas tenistas que venceram o Grand Slam de carreira, ou seja, conquistou os quatro maiores torneios do mundo: Wimbledon em 2004, Aberto dos EUA em 2006, Aberto da Austrália em 2008 e Roland-Garros em 2012 e 2014. Não é pouca coisa.

Sharapova tem um problema que Guga também tinha. Ambos jogam gritando, o que às vezes perturba quem está vendo.

Mas Serena, a irmã mais nova de Venus, às vezes me parece tão forte que chega a parecer injusto, em certo jogos, ela enfrentar uma mulher, tamanha é a desproporção, a potência de seus golpes, que, aliados à inteligência e seus recursos técnicos impressionantes, fazem dela uma adversária quase imbatível, quando está bem física e psicologicamente.

Nenhuma das duas, Serena ou Sharapova, porém, se compara à grande alemã Steffi Graf, a melhor de todas entre as que vi jogar. Como também já escrevi, nunca vou esquecer a maravilhosa final de Roland Garros de 1999, quando Steffi destruiu a suíça Martina Hings de tal maneira que Martina terminou a partida em meio a um crise nervosa e entre lágrimas.

Entre as mulheres, a australiana Margaret Court foi a que mais ganhou Grand Slams, com nada menos do que 24 títulos. Steffi Graff tem 22. Serena Williams, junto com Chris Evert e Martina Navratilova, tem 18, logo atrás de Wills Moody, com 19. Sharapova tem 5 Grand Slams.

PS: Este post foi escrito antes do término do Australian Open de 2015, vencido por Djokovic na final contra o britânico Andy Murray, o qual o sérvio esmagou por 3 sets a 1, parciais de 7-6 (5), 6-7 (6), 6-3 e 6-0. Djoko conta agora, portanto, com 8 Grand Slams.

* Ao escrever este post em janeiro de 2015, disse que "hoje, torço para Novak Djokovic, apesar de ficar dividido quando ele enfrenta Roger Federer". Um ano depois, refaço a frase para dizer: como sempre fui muito fã, e, mais do que isso, admirador de Federer, fiquei um pouco cansado de tanto ver Federer perder de Djoko, e em todos os confrontos entre ambos de um ano para cá, torço sempre para Federer.

** De janeiro de 2015 a janeiro de 2016, Federer se mantém como maior vencedor de Grand Slams, com 17 troféus. Sampras continua logo atrás, junto com Nadal (que não ganhou nada em 2015), com 14. Djoko, que tinha 7 títulos ano passado, já tem 10. Em 2015, só não levou Roland Garros (que ficou com Wawrinka). O sérvio ganhou na Austrália, em Wimbledon e nos Estados Unidos.


quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Aracaju, a capital que acorda ao cair da noite



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Praia do Atalaia


Texto e fotos por Roseli Costa

Aracaju, que significa “cajueiro dos papagaios”, é a junção de duas outras palavras: arara e caju, símbolos da capital de Sergipe, o menor estado brasileiro. A cidade acorda às 5 da tarde, quando começa a ser abraçada pela noite (é, lá anoitece cedo!). Antes disso, tem-se impressão de que teremos pouco a conhecer, a não ser a belíssima Orla de Atalaia, de 30 km de extensão, que entorna a cidade, com areal longo, diferente de todas as praias, mar verde e calmo, restaurantes, praças e lagos. Mas não é o que ocorre.

A partir desse horário, descortina-se a paradoxal beleza delicada e agreste do local. Passeios pela orla não bastam, pois há que se conhecer as feiras de artesanato riquíssimas, o oceanário, o Centro de Arte Sergipana e os vários passeios que se apresentam como opção, adornados por montanhas, rios, lagoas, dunas, manguezais, caatinga e pantanal.


Orla do do Atalaia

Um bom exemplo de passeio fora da orla é a Croa de Goré, pequena ilha que submerge diariamente com a alta da maré e nos mantém repentinamente com os pés dentro de água cristalina. No caminho desta, há a Ilha dos Namorados, com seus contornos de areia fina rodeada por água límpida. Também se deve conhecer a Praia do Saco, tida como a mais bela de Sergipe. Ressaltem-se as cidades históricas de Laranjeiras e São Cristóvão, com conjunto arquitetônico dos séculos XVI, XVII e XVIII, composto de ladeiras de pedra, casarões e igrejas inesquecíveis. Encontra-se também, como opção de lazer mais longínqua, o Canyon de Xingó, nascido do represamento do Rio São Francisco para a construção da Usina Hidrelétrica do Xingó, em 1994, na divisa de Sergipe e Alagoas, que com suas águas verdes e montanhas parcialmente submersas compõe maravilhoso e único espetáculo.


Croa do Goré

Quando se retorna dos passeios múltiplos que lá se pode fazer, não agradam menos as voltas pela orla bem projetada para o lazer e a convivência, tanto de dia quanto à noite, entre ciclistas, caminhantes, crianças, idosos, todos contemplados com bancos coloridos de alvenaria, comidas típicas da melhor qualidade, ciclovias, parques, profusão de lagos, pedalinhos, quadras de esportes, pistas de skate, monumentos que exaltam a raiz nordestina, trenzinhos, artesãos, cantadores de viola e de flauta, doceiros e restaurantes de todos os tipos. Por isso mesmo é aconselhável não fazer todos os passeios oferecidos e deixar de conhecer cada cantinho da cidade. É preferível visitar Aracaju mais de uma vez ou ficar mais que uma semana para dar conta de tanta beleza.

Depois de dois dias na cidade, acostuma-se a todo dia comer tapioca, tomar sorvete desse mesmo típico ingrediente; também o de castanha e o de caju, todos muito apreciados. Também se habitua na capital de Sergipe à brisa refrescante num frequente calor de 25 a 35 graus.


Ilha dos Namorados

Saindo da orla e adentrando Aracaju, temos bairros de casas simples com grandes quintais, algumas ruas de terra, que pouco lembram uma capital. E mais adiante, o centro histórico, com algumas construções antigas, shoppings, centro financeiro, o imenso Rio Sergipe, bem como o grande e marcante mercado sertanejo, alegria dos habitantes locais e dos turistas, já que nele pode-se encontrar de tudo, com forte marca sertaneja.

Aracaju não é o destino principal dos turistas sedentos por pacotes badalados e de grande projeção. Mas a característica da cidade que dorme até 17 horas repete-se nas descobertas de recantos que só os catamarãs, barcos, lanchas e jipes revelam, para compor uma visão mais acertada do que é a cidade das araras, dos cajus e do saboroso sorvete de tapioca.


Centro de Aracaju



sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Fernando Haddad e Gabriel Chalita



Apesar de Fernando Haddad e Gabriel Chalita, novo secretário de Educação, desconversarem sobre os planos deles próprios e de PT e PMDB para as eleições municipais de 2016, e dizerem que essa discussão é para depois, quem foi à concorridíssima cerimônia de posse de Chalita pôde constatar a força e o significado político das articulações que levaram o peemedebista a assumir o posto no governo.

Cesar Ogata/SECOM-PMSP


Além de deputados, vereadores, secretários municipais e líderes de vários escalões dos dois partidos, estiveram presentes à cerimônia figuras como José Renato Nalini (presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo), dom Odilo Scherer (cardeal arcebispo de São Paulo), Alexandre Padilha (ex-ministro da Saúde), Lygia Fagundes Telles (a mais importante escritora brasileira viva), Alexandre de Moraes (secretário de Segurança Pública de Geraldo Alckmin), representantes da OAB e diversas entidades políticas e civis, entre outros.

O evento mostrou que a posse de Chalita – se não houver pedras no caminho – é, sim, o prenúncio de uma possível dobradinha na chapa para a eleição de 2016.

A chegada de Chalita ao governo faz parte da já lendária (!) estratégia que deve neutralizar grande parte do capital que Marta Suplicy teria se, fora do PT, conseguisse se bandear para o PMDB. Agora, se ela quiser ser candidata, terá de ser por um partido muito menor.

Mas ainda tem o fator Russomanno, que não será desprezível como candidatura de direita que tem muitos votos nas periferias da capital.

"Aqueles que buscarem divergência de pontos de vista entre mim e Chalita vão semear em solo infértil", disse Haddad, ao ser questionado sobre críticas murmuradas aqui e ali por petistas e outros inconformados com a nomeação de um ex-secretário de Alckmin.

Haddad lembrou a participação de Chalita nas eleições de 2010 e 2012, pra dizer: “Chalita é parceiro também na política, por que não dizer? Não vejo nenhuma razão para não agradecer mais uma vez o apoio que recebi no segundo turno de 2012, e o esforço que ele fez em 2010 para não permitir que teses obscurantistas dominassem o debate político da eleição presidencial. Elevou o padrão e o nível do debate”.

A lembrança de Haddad é pertinente. Com os 833 mil votos que conseguiu no primeiro turno de 2012, Chalita foi decisivo para a vitória do petista contra José Serra (PSDB). No segundo turno, o então candidato do PT venceu o tucano por uma diferença de 679 mil votos.

Antes, em 2010, Chalita, que é católico, deu declarações defendendo a então candidata Dilma Rousseff dos boatos espalhados pelo mesmo tucano Serra, segundo os quais Dilma era favorável ao aborto. “A tentativa de desconstruir pessoas com boatos é ruim. Dilma nunca disse ser a favor do aborto. Ela abordou o tema como uma questão de saúde pública”, afirmou Chalita na época à Folha de São Paulo, quando era membro do PSB.

Sobre o “boato” mais explorado, o da interferência de Lula no processo, me parece que Haddad demonstra nas entrelinhas que acredita de fato na construção de uma nova geração de políticos, ao dizer: “procuramos o presidente Lula e o presidente Michel Temer para apresentar a eles nosso ponto de vista sobre o rejuvenescimento da política, a necessidade de novos quadros para revitalizar o debate político sobre políticas públicas”.

Com isso, Haddad quer dizer a Lula que está na hora de o Brasil acreditar na nova geração.

sábado, 10 de janeiro de 2015

As tolices em torno do atentado ao Charlie Hebdo


Ou: eu também Não sou Charlie


Após o ato terrorista que vitimou o jornal Charlie Hebdo, naturalmente muitos se apressaram para externar suas opiniões. Depois do horror do ato terrorista justificadamente repudiado por qualquer pessoa que tenha um mínimo apreço ao humanismo, à paz ou ao simples bom senso, logo surgiram as tolices que se seguem a acontecimentos desse tipo.

A primeira tolice foi aquela segundo a qual o atentado agredia a "liberdade de expressão", a "liberdade de imprensa" de todos nós. A segunda, entre as que li (e essa é mais tola de todas), foi aquela que dizia que a “extrema esquerda” tinha sido a verdadeira vítima dos terroristas. E a terceira tolice é essa que se resume no slogan “Je suis Charlie”, que rivaliza com a segunda em ingenuidade, mas vai muito além.

A primeira tolice não é exatamente uma tolice (é tolice apenas quando reproduzida por papagaios que sequer sabem seu sentido), já que, como se sabe, a liberdade de imprensa de que falam é a liberdade das grandes corporações midiáticas ocidentais, cuja cartilha prega a democracia dos patrões, do capitalismo sem freios, da selvageria denuncista praticada, entre nós brasileiros, por exemplo, pela meia dúzia de famílias donas das comunicações, enfim, a liberdade de imprensa da mentira travestida de jornalismo.

A segunda tolice nem sequer merece comentários. Dizer que a extrema esquerda foi a vítima do atentado é de tal ordem tolo que vou poupar o leitor mais inteligente de ler algumas linhas inúteis.

E a terceira tolice, segundo a qual “Je suis Charlie”, rivaliza com a segunda, mas é mais sofisticada, pois remete a uma solidariedade humanista e de certa maneira incorpora subliminarmente o clamor pela liberdade de expressão, ou de imprensa (ocidental).

Percebo que, quando digo “tolice”, na verdade me refiro aos que reproduzem esses raciocínios e não refletem direito sobre o que estão reproduzindo, já que evidentemente aqueles que os criam ou os consensos em torno dos quais esses raciocínios se formam não são exatamente tolos ou desprovidos de intenções. Quando um monte de amigos verdadeiramente bem intencionados dão pra repetir “Je suis Charlie”, “Je suis Charlie”, “Je suis Charlie”, provavelmente nem estão pensando no significado do que dizem. Por exemplo, no fato de que o Charlie Hebdo talvez tenha ido longe demais em sua política editorial de desrespeitar as religiões e a fé.

"O Corão é uma merda", diz Charlie Hebdo: humor?
Mas principalmente não pensam num aspecto que foi muito bem observado pelo blog Descolonizações, do Zuni: “Aqueles que ostentam orgulhosos o slogan Eu sou Charlie se dizem advogar pela liberdade de expressão, porém não questionam o que significa essa liberdade de expressão nem tampouco quem tem direito a essa liberdade. Ninguém se preocupa com a censura à liberdade de expressão religiosa islâmica na França”.

Em resumo, o blog citado chama a atenção para o fato de que o Charlie Hebdo (intencionalmente ou não – nota deste Fatos Etc.) insuflou incessantemente o preconceito e a já denominada “islamofobia”, o racismo e a violência contra a perseguida cultura islâmica, que na Europa, e principalmente na França, aumenta mais e mais, e incentivou também os discursos da extrema direita francesa. Basta se informar um pouco para saber o quanto o Estado francês tem acuado a cultura muçulmana na terra de Napoleão Bonaparte.

Quando o Charlie Hebdo estampa, numa capa, a frase "O Corão é uma merda", está fazendo humor? Não, está desferindo um ataque que nada tem a ver com humor.

Em entrevista à Folha de S. Paulo nesta sexta-feira (9), Marine Le Pen, presidente da Frente Nacional, partido francês de extrema direita, disse: “O islamismo, esse totalitarismo religioso que mata todo dia centenas de inocentes no mundo, declarou guerra ao nosso país. Devemos responder sem fraquejar”.

Esse discurso insidioso quer confundir o islamismo (uma religião monoteísta surgida na Arábia no século VII, tão importante quanto o cristianismo e o judaísmo) com os fundamentalistas que, infelizmente, são talvez os maiores inimigos da religião em nome da qual matam e massacram.

Aproveitando a estupidez e violência canalha dos inimigos autoproclamados mártires de Alá que, na verdade, trabalham para a causa sionista, Marine Le Pen disse mais: “Os franceses, a partir das manifestações espontâneas que emergiram após o atentado, tomaram consciência dessa declaração de guerra”. E ainda: “Diante do terrorismo islâmico, temos que nos defender com todos os meios possíveis. Acredito que nossos compatriotas entendem isso”.

Por tudo isso, embora solidário com todos aqueles ligados ao Charlie Hebdo que sofreram e sofrem com a insanidade do ataque, mas principalmente como defensor da liberdade e autodeterminação dos povos, do Estado da Palestina (e também, como o governo do Brasil, talvez ingenuamente, da convivência pacífica da Palestina com o Estado de Israel), como defensor da paz, declaro que também Não sou Charlie, como o blog acima citado defende, e você pode ler abaixo.



segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

A adolescência segundo J. D. Salinger e John Fante


Um dos prazeres da leitura é a comparação. Comecei o ano lendo 1933 Foi um Ano Ruim, de John Fante, e não houve como não me lembrar de um dos maiores clássicos da literatura norte-americana, O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger. Ambos narram, em primeira pessoa, a história de adolescentes.

Adolescentes, como se sabe, são criaturas problemáticas, em transição. Não sabem o que querem ou, se sabem (ou pensam saber), têm certeza absoluta dos objetivos, mesmo que a realidade teime em desmentir seus sonhos. Às vezes têm todas as certezas do mundo. Outras, todas as dúvidas do mundo. Muitas vezes têm certezas demais e dúvidas de menos, maneira inconsciente de superar as inseguranças.

Salinger
O personagem de Salinger é Holden Caulfield, um garoto de 17 anos, de família rica (ou classe média alta), que não vê sentido na vida, na escola que frequenta na Pensilvânia, nos amigos e professores, nos valores burgueses onde se forjou, no futuro ou no passado. Não tem ambições e vive esmagado pela angústia. É um niilista. Mas é capaz de amar: ama seus irmãos, principalmente o que já morreu e a menininha caçula, a encantadora Phoebe. Pólos inatingíveis e opostos: o morto e a infância que não volta mais. Apesar de tudo, é um rapaz sensível e incapaz de fazer o mal.

Já Dominic Molise, de Fante, também de 17 anos, é uma figura socialmente muito diferente, para dizer não dizer o oposto, de Caulfield. Molise é pobre, filho de um pedreiro nascido na Itália, assolado por dúvidas e angústias adolescentes, mas tem uma certeza inabalável: a de que será um grande jogador de beisebol. Nesse sentido, o personagem é muito identificável com milhões de crianças e jovens que sonham em ser jogador de futebol, um grande astro do rock ou da MPB e acreditam que nasceram predestinados ao sucesso até que, cedo para uns, tarde para outros, descobrem que são apenas pessoas comuns, como todos nós.

Fante
A narrativa de 1933 Foi um Ano Ruim é direta e sem rodeios de linguagem, à tradição de Hemingway e Bukowski, com sua poesia seca. Porém, o livro não conta apenas a história do jovem, pobre e sonhador, Dominic Molise, mas o enquadra no contexto politizado e feroz dos Estados Unidos da depressão pós-1929, onde famílias como a dele foram empurradas para a pobreza sem remédio. O conflito capital-trabalho é claro e permeia o romance, que, aliás, não é de modo algum panfletário ou engagé, o que quase sempre é característica da literatura menor e desimportante, já que os grandes escritores de ficção, de modo geral (salvo raras exceções – como Sartre), não se submetem à História, mas a transcendem – daí a imortalidade dos clássicos. O livro de Fante transcende o próprio contexto histórico.

Mais sofisticado, O Apanhador no Campo de Centeio, cuja narrativa se desenvolve em 1949, difere do livro de Fante, entre outros aspectos, porque explora com maestria um recurso de que poucos são dotados: a ironia, esse legado que nos deixou Kierkegaard. Como nos ensina o mestre dinamarquês, a ironia não é uma solução fácil que você coloca numa frase, mas é o próprio espírito de uma obra. Portanto, é difícil você pinçar uma frase ou outra para ilustrar o caráter irônico de uma obra: a ironia está na obra, a envolve como um manto. Mesmo assim, apenas a título de exemplo, destaco isso, dito pelo personagem Holden Caulfield: “Magnífico. Se há uma palavra que eu odeie é magnífico”.

Ou esta passagem:

Puxa, depois que a gente morre eles fazem o diabo com a gente. Tomara que quando eu morrer de verdade alguém tenha a feliz ideia de me jogar num rio ou coisa parecida. Tudo, menos me enfiar numa porcaria dum cemitério. Gente todo dia vindo botar um ramo de flores em cima da barriga do infeliz, e toda essa baboseira. Quem é que quer flores depois de morto? Ninguém”.

Já o personagem de Fante não tem tempo para ironia – e nem o autor maneja esse recurso. A poesia está na realidade. O Dominic de Fante é um prisioneiro da realidade; o Holden Caulfield de Salinger a despreza e odeia. O primeiro, filho de imigrante italiano, é católico; o segundo, um cético.

Seja como for, é um exercício interessante conhecer a adolescência segundo um e outro escritor. Tema que foi também abordado na obra de um dos maiores mestres da literatura, Gustave Flaubert, no romance Novembro, cujo protagonista é obcecado pelo Oriente mas não consegue abandonar o tédio de seu próprio quarto. Mas ficarei no critério de me restringir aos norte-americanos, ao século XX. O adolescente de Flaubert soaria deslocado, aqui.

O Apanhador no Campo de Centeio – o que muitos observam como se fosse um atributo do próprio livro – é dotado de uma aura “maldita”, já que era o livro que o assassino de John Lennon, Mark Chapman, tinha consigo quando matou o ex-beatle com cinco tiros. Um estigma que a obra-prima de J. D. Salinger não merecia.


Jerome David Salinger nasceu em Nova York, em 1° de janeiro de 1919, e morreu em Cornish (New Hampshire), em 27 de janeiro de 2010. O livro O Apanhador no Campo de Centeio foi publicado em 1951. No Brasil, é encontrado em belíssima edição da Editora do Autor.








John Fante era filho de italianos. Nasceu em Denver, em 8 de Abril de 1909, e morreu em Woodland (Califórnia) em 8 de Maio de 1983. 1933 Foi um Ano Ruim foi publicado postumamente, em 1985. É editado aqui pela L&PM, em edição pocket.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

É 31 de dezembro





Por Roseli Costa

É 31 de dezembro. E antes que você se empenhe em fazer as comidas que irão coroar os rituais dessa data tão esperada, na companhia de amigos e familiares, aquiete-se e medite. Muitos fatos que se queriam resolvidos não tiveram solução ou até pioraram. Judeus e palestinos não chegaram à paz; a fome existe e persiste; as mortes e violências verbais às minorias mancharam o decorrer de 2014; as famílias continuam gerando sem querer e os jovens quedam no Nada, cercados por celulares com Internet... Na sua morada pessoal – seu íntimo –, sonhos jazem inertes; nódulos emocionais permanecem sem solução; hábitos nocivos persistem a amenizar a perplexidade...

No seu escritório, livros observam sem ser lidos; e-mails de amizade calam nos dedos preguiçosos; contas a pagar não fecham em saldo positivo. Mas é 31 de dezembro, data que não se consegue passar como outra qualquer, em que costumes e tudo ao redor clamam por planejamentos, desejos, revisões, esperanças e novas tentativas. Então, se é cultural, se é mais forte do que nós sozinhos, sonhemos...

Sonhemos com um mundo mais digno, mais humano, mais justo, mais igual, menos fascista. Esperemos que ao menos um passo seja dado à frente para a solução de conflitos mundiais. Que a injustiça contra as mulheres, os negros, os índios, os trabalhadores, os homossexuais, os menos favorecidos, os animais seja diminuída com a implantação de direitos legítimos e ignorados.  Que, ao menos, não tenhamos forte ímpeto de virar as costas para as possibilidades, para as portas abertas, semifechadas, ou cerradas mas sem trinco...

Feliz Ano Novo, amigos! Não nos abandonemos a sós com nossas esperanças, com nossos verbos de bom-senso, de carinho, de compreensão. Alimentemo-nos juntos da arte, do vinho, da natureza e do respeito. Mas, sobretudo, não olhemos para o horizonte sinistro, criado pela própria Humanidade, como um muro inescalável e perpétuo; ao contrário, superemo-nos e sigamos de mãos dadas!

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Um papo exclusivo com Luiz Gonzaga Belluzzo sobre o Palmeiras



Reprodução


Conversei na sexta-feira (19) com o ex-presidente do Palmeiras, Luiz Gonzaga Belluzzo, para uma matéria de economia para a RBA. Na oportunidade, tivemos um breve colóquio sobre algo menos importante, mas que ele conhece tanto como economia: como vê hoje o clube que presidiu no biênio 2009/2010. “Acho que o Palmeiras está reformulando o elenco ao meu ver de uma maneira que dá esperança de que o time não tenha um desempenho tão ruim quanto teve em 2014, porque contrataram um profissional, Alexandre Matos (ex diretor de futebol do Cruzeiro), que pelo retrospecto é um sujeito judicioso. Claro, com limitações que têm que ser impostas mesmo. Mas ele tem um retrospecto que o recomenda. O Palmeiras está fazendo contratações que, no ambiente do futebol brasileiro hoje, são bastante razoáveis”, diz Belluzzo.

Sem citar nomes, o economista afirma que o presidente do clube, Paulo Nobre, ouviu pessoas sem a estatura digna do clube. “Como disse o Brunoro, ele se aconselhou com pessoas que não tinham gabarito suficiente para serem assessores, conselheiros de um clube grande como o Palmeiras. O aconselharam a encolher o clube. Ele já percebeu, espero que tenha percebido, e a torcida do Palmeiras não admite isso”, acredita.

O Alviverde anunciou ontem a contratação do meia Zé Roberto (ex-Grêmio), de 40 anos, e o atacante Leandro, destaque da Chapecoense no Campeonato Brasileiro. O técnico Oswaldo de Oliveira foi anunciado como novo treinador da equipe na semana passada.

Ainda sobre Paulo Nobre, Belluzzo diz que o presidente de um clube grande precisa pensar de acordo com essa grandeza. “Se você se fechar dentro do clube e ficar se aconselhando com quem não tem condições de dirigir um carrinho de pipoca, é difícil... O cara pode até ter superávit com um carrinho de pipoca, mas é um carrinho de pipoca.”

Para Belluzzo, a torcida do Alviverde “não admite” um time “mais ou menos”, que tem sido a política no clube nas últimas temporadas.

Ele se diz esperançoso de que o Palmeiras consiga finalmente se manter com uma estrutura profissional e acha que a Arena pode ser um pilar para isso. “O Palmeiras é um dos poucos clubes, talvez o único no Brasil, que tenha construído uma fonte alternativa de receitas adicional (a Arena) num momento em que o futebol brasileiro está com uma reputação muito ruim. O estádio foi pensado pra isso. Mas precisa conseguir parceiros, ir atrás de patrocinadores”, diz o ex-dirigente, que bancou a ideia da Arena quando presidiu a agremiação.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O preço do petróleo, Estados Unidos, Rússia, o Brasil e o fusca do Mujica



Ou: peças de um quebra-cabeça


Roberto Stuckert Filho/PR
Dilma cumprimenta Putin em reunião de cúpula dos Brics (22/11/2014)

A crise do preço do petróleo, que tem queda violenta e chega a 60 dólares esta semana é uma pancada considerável em países como Rússia, Venezuela e Irã. Principalmente para a Rússia.

Por incrível que pareça, a desvalorização do preço do petróleo pode favorecer o Brasil. Por quê? Porque pode reduzir o déficit que o país e a Petrobras assumiram ao manter artificialmente o preço do óleo abaixo do mercado internacional em tempos recentes. E porque o Brasil importa muito petróleo, ainda, embora tenha reservas enormes.

Para a Rússia, a situação é catastrófica. Cito matéria da Agência EFE:

"Como gás e óleo respondem por cerca de 75% das exportações russas, teme-se que o país perca condições de gerar divisas necessárias para cumprimento de seus compromissos comerciais e financeiros com o exterior.

O petróleo caiu devido a uma decisão unilateral da Arábia Saudita — maior exportador mundial do combustível e principal aliado dos EUA no Oriente Médio, ao lado de Israel."  

Leia a matéria da Agência EFE neste linkPutin afirma que EUA querem fazer da Rússia um 'troféu de caça'

Fecho aspas.

De outro lado, o restabelecimento das relações entre os Estados Unidos de Barack Obama e a Cuba de Raúl Castro, e a muito pouco divulgada, em nossas plagas, aproximação visível da Rússia com a Argentina.

O Brasil ao lado de Rússia, Índia, China e África do Sul nos Brics.

As poderosas Alemanha e China em estratégico silêncio.

E, no Leste, a preocupante situação na Ucrânia, sob um governo neofascista com apoio das potências ocidentais, Estados Unidos da América à frente.

O mundo é uma panela de pressão.

Enquanto isso, aqui na terrinha a galera está encantada com as sandálias e o fusca do Mujica.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Dilma se emociona ao falar aos que perderam familiares, amigos e companheiros na ditadura


Ex-guerrilheira e presidente da República, ao receber relatório da Comissão Nacional da verdade, nesta quarta-feira, dia 10.





... E na célebre foto na sede da Auditoria Militar no Rio de Janeiro, em novembro de 1970, quando tinha 22 anos. Depois de 22 dias sendo torturada, ela responde a interrogatório. No segundo plano, militares cobrem o rosto.





sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Favoritos do cinema (10) – Paradise Now, a Palestina e a beleza misturada à dor





Revi esses dias um filme que é preciso mesmo ver, no meu caso rever. Paradise Now, dirigido pelo palestino Hany Abu-Assad (2005).

É a sensível história dos amigos de infância Khaled (Ali Suliman) e Said (interpretado por Kais Nashef). São mecânicos e trabalham em uma oficina em Nablus, cidade localizada na Cisjordânia, a cerca de 60 km de Jerusalém, com população estimada  de 200 mil habitantes.

Sob a ocupação israelense, eles cresceram com os traumas de viver numa “cidade que virou uma cadeia”, como resume a personagem Suha (protagonizada pela linda atriz Lubna Azabal), uma jovem cosmopolita, filha de família palestina tradicional, que nasceu na França e viveu no Marrocos, e que não resiste a voltar às origens e a certa altura exclama: “Não sei o que estou fazendo aqui”.

A trama das vidas de Said e Khaled subitamente sofre dramática e definitiva transformação: do cotidiano comum – até onde se pode, sem ser cínico, chamar de “comum” a vida em um território militarmente sitiado –, os dois rapazes são de repente alçados à condição de mártires palestinos, e convocados pelas lideranças a uma missão suicida em que terão que representar mais uma vez os papeis que lhe são reservados nessa terrível e interminável tragédia de dois povos. Na narrativa do filme, fica claro que eles fazem parte de uma lista, como soldados alistados à espera de serem recrutados ao teatro da guerra, em seu caso uma guerra desigual.

É impressionante a transformação operada pelo diretor nos personagens Said e Khaled, como mostram as fotos do primeiro, antes e depois de ser recrutado para a missão.

Said, o mesmo personagem, antes e depois...

Said é filho de um “colaborador”, ou seja, um palestino que se rendeu aos interesses israelenses, que entre nós chamamos “informantes”. Seu pai foi executado quando o jovem ativista era criança. Ao se dirigir ao líder que o recruta para a missão, Said justifica sua aceitação do destino, em uma fala marcante no filme:

Os crimes da ocupação são incontáveis. Mas o pior de tudo é explorar a debilidade das pessoas e convertê-las em colaboradores. Não só aniquilam a resistência, como também arruínam as famílias, sua dignidade e nosso povo. (Meu pai) era um homem bom, mas ficou frágil.”

Mas Paradise Now não propõe uma visão maniqueísta. A jovem Suha, com a experiência de ter vivido em outros contextos, por quem o jovem Said nutre uma paixão correspondida, mas impossível diante do destino histórico-fatalista que ele próprio se impõe, representa no filme a percepção de que a violência de um ataque suicida é não só inútil para a causa palestina como também a enfraquece ainda mais.

Dito assim, pode parecer que o filme de Hany Abu-Assad é baseado em um roteiro tolo e previsível. Mas não é assim. É um grande filme, que não ganhou por acaso vários prêmios, como o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro, o Anjo Azul do Festival de Berlim e um da Anistia Internacional. Foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2006. E também não foi por acaso que a indicação ao Oscar provocou protestos em Israel, por "humanizar" os suicidas muçulmanos denominados no Ocidente de "homens-bomba".

Paradise Now tem muitas virtudes estéticas: a construção da trama mantém o suspense até o fim; apesar de ambientado em um cenário opressivo, o filme não se rende à violência barata a que nos acostumamos a assistir sob o rótulo de Hollywood, que um certo cinema brasileiro faz questão de reproduzir; a fotografia, com a cidade de Nablus, milenar e moderna, ao fundo, é exuberante e emocionante; a delicada construção dos personagens, as amizades, as relações familiares, as cores usadas pelas mulheres (a jovem Suha ou a mãe de Said, a impressionante atriz Hiam Abbass, nascida em 1960 em Nazareth, Israel, mesma cidade onde em 1961 nasceu o próprio diretor Abu-Assad). A beleza misturada à dor.


Kais Nashef (como Said) e Lubna Azabal (Suha)

Uma associação inevitável: será por acaso que a cena inicial de Paradise Now remeta inequivocamente à cena de Eva (Eszter Balint) chegando a Nova York no filme Stranger than Paradise, de Jim Jarmusch, de 1984? Paradise Now, Stranger than Paradise. Não creio nesse acaso. Paraíso, paradise. Palestina, Nova York.

Tudo isso para dizer que Paradise Now é um filme que precisa ser visto.



segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Com Levy e Nelson Barbosa, Dilma tenta aliar equilíbrio e desenvolvimento



Da praia direto para a política econômica. Acabo de chegar de férias e, como a vida não para, conversei hoje com o professor Giorgio Romano Schutte para uma matéria para a RBA, sobre as escolhas da presidente Dilma Rousseff para a área econômica, Joaquim Levy (Fazenda), Nelson Barbosa (Planejamento) e Alexandre Tombini (mantido no Banco Central).

Wilson Dias/Agência Brasil
Joaquim Levy

Coordenador do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, Schutte discorda das avaliações segundo as quais a opção da presidente por Joaquim Levy seria uma guinada do governo à direita, no caminho do neoliberalismo. “Acho que estão se enganando. Não existe longo prazo, se existe caos no curto prazo. O Brasil não teria condições de segurar uma reação violenta se colocasse alguém claramente identificado com o PT na Fazenda. Você precisa tranquilizar o mercado e a partir daí conversar. Esse é o jogo”, diz o professor.

Não é demais dizer que concordo com ele. Além da difícil conjuntura atual (contas públicas desorganizadas, com déficit público nominal de 5% em 2014, seguidos resultados negativos da balança comercial e inflação no limite do teto), ele lembra que a estratégia política de Dilma não é novidade na história brasileira. “Ao indicar os dois juntos, Dilma quis sinalizar que precisa ter equilíbrio (com Joaquim Levy) e ao mesmo tempo colocar alguém mais ligado a uma visão desenvolvimentista [Nelson Barbosa]”, afirma o acadêmico da UFABC.

“O Lula fez em 2003, Getúlio fez em 1951. O Brasil não tem tradição de enfrentamento com o mercado. O governo também não tem maioria confiável no Congresso, não tem povo mobilizado e numa economia aberta os investidores vão embora rápido. São as limitações com as quais um projeto de transformação tem de saber lidar.”

E é isso, por enquanto. Está de bom tamanho, para um primeiro dia depois das férias.

A matéria da RBA, com links para outras opiniões na rádio, estão neste link.


terça-feira, 11 de novembro de 2014

Férias!


Fui dar uma banda e já volto. Até breve!














Filé de pescada ao molho de camarão

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Xico Graziano pede a quem "sonha com ordem militar" para deixar o PSDB



Oswaldo Corneti/ Fotos Públicas


Inúmeros analistas e blogueiros, desde sábado (1º. de novembro), comentaram essas manifestações de fascistas ou meros ignorantes pedindo ditadura militar, impeachment da presidente reeleita Dilma Rousseff e outras coisas absurdas.

Muitas páginas e textos foram dedicados a um ex-músico que se transformou numa triste caricatura decadente de si mesmo. Não sei por que dar tanta atenção, cartaz e audiência a uma figura insignificante como esse ex-rockeiro. É mais um indivíduo que vai passar à “imortalidade risível”, como diria Milan Kundera. E bota risível nisso.

Mas o fato realmente mais importante dos últimos dias foi o depoimento do Xico Graziano sobre as manifestações fascistóides que aconteceram em São Paulo contra Dilma. Segundo matéria da CartaCapital, Graziano, ex-deputado federal pelo PSDB-SP (1998-2006), chefe do gabinete do presidente Fernando Henrique Cardoso (1995), ao qual é muito ligado até hoje, e que ocupou vários cargos em governos tucanos, comentou o seguinte sobre o pedido de “intervenção militar” no Brasil: “Achei absurda tal manifestação. Antidemocrática, não republicana. Ainda por cima, pedindo a volta dos militares, meu Deus, estou fora disso”, afirmou ele no Facebook, conta a revista dirigida por Mino Carta.

Graziano é um tucano de alta plumagem. Seu posicionamento é um fato político relevante no atual contexto. É pelo menos uma indicação de que uma parcela importante do PSDB ainda pretende fazer uma oposição democrática, republicana e não golpista ao governo Dilma.

É relevante porque pelo menos alguém com voz, dentro do PSDB, emite um sinal de que é preciso isolar essa trupe udenista ignorante e retrógrada que importuna o país.

Depois de dizer que a manifestação contra Dilma era "antidemocrática" e "absurda", Graziano foi "xingado" de "comunista" e ofendido com palavras de baixo calão, e publicou o seguinte texto no Facebook:

"Mexi num vespeiro da política ao postar aqui, ontem, opinião contrária ao impeachment da Dilma. Julguei a causa antidemocrática, não republicana. Não gostei daqueles discursos irados, revanchistas e reacionários. Tomei um troco bravo. Recebi centenas de comentários, críticos a maioria, de baixo nível muitos deles. Vou aprofundar a polêmica. Sigam meu raciocínio.
Existe no Brasil uma ideologia própria da direita que se encontra desamparada do sistema representativo, quer dizer, sem partido político. Sua força se mostra na rede da internet. Essa corrente luta para destruir o PT, acusando-o de querer implantar o comunismo por aqui. Defendem as liberdades individuais, combatem tenazmente a corrupção organizada no poder, desprezam totalmente as lutas sociais, mostrando-se intolerante com o direito das minorias. O Deputado Bolsonaro e o ensaísta Olavo de Carvalho são seus expoentes.
Tudo bem. Acontece que, no período das eleições presidenciais, essa tendência se articula no seio do PSDB, trazendo para nosso partido suas causas. É normal existirem as alianças eleitorais, e para tal existe o segundo turno. O problema surge quando os militantes da direita exigem que nós, os sociais democratas, encampemos sua ideologia, o que seria um absurdo.
A intolerância mostrada em minha página do facebook reflete essa incompreensão. Criticam minha coerência, decepcionam-se com os meus valores imaginando que eu deveria assumir os deles. Pior, alguns tolamente me acusam de ser “petista infiltrado”. Dá até um pouco de dó.
Ora, nós, do PSDB, nascemos inspirados na socialdemocracia europeia, com viés da esquerda. Nossa origem reside no MDB autêntico, que foi decisivo na derrubada da ditadura militar. Nós fomos decisivos na Constituinte de 1988. Fomos nós, com FHC à frente, que criamos as bases socioeconômicas do Brasil atual, inclusive as políticas de transferência de renda e as cotas.
Na complexidade do mundo contemporâneo anda difícil rotular os partidos, e as pessoas, como de “direita” ou de “esquerda”, categorias válidas no século passado, mas ultrapassadas hoje em dia. De qualquer forma, quem concordar com as teses dessa turma aguerrida que vê o comunismo chegando, é contra os benefícios sociais, sonha com a ordem militar, por favor, deixem o PSDB. Vocês é que estão no lugar errado, não eu!

PS do blog: Não é o caso aqui de falar dos clichês repetidos ad infinitum pelas hostes tucanas ("Fomos nós, com FHC à frente, que criamos as bases socioeconômicas do Brasil atual", por exemplo), mas apenas registrar o fato político em si.

sábado, 1 de novembro de 2014

Data venia, discordo de André Singer


Jornalista e intelectual importante por sua visão relevante da economia, da sociologia e da política, André Singer não foi porta-voz e secretário de Imprensa da Presidência no governo Lula por acaso. É autor de aguda análise do período iniciado com o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, no livro Os Sentidos do Lulismo (Companhia das Letras). Sua trajetória passa por carreira jornalística sólida, de repórter a secretário de redação da Folha de S. Paulo. Mas (e por tudo isso) sua análise na Folha de hoje, com todo o respeito, me parece simplista. Leia neste link o artigo de André Singer, "Sinais trocados".

O mundo inteiro, da América do Norte à Europa (e até na China há reverberações não desprezíveis), passa por uma crise que diversos analistas consideram a maior do capitalismo desde 1929 (acredito que com exagero).

A crise que devastou a Europa e colocou em xeque a maior potência do planeta, os Estados Unidos, é real. Mesmo assim, o Brasil “milagrosamente” conseguiu no primeiro mandato de Dilma Rousseff manter o emprego e a política do salário mínimo, e sustentar o mercado interno.

Ao contrário de crises anteriores, do final dos anos 1990, sob Fernando Henrique, o Príncipe, a escolha de Dilma não foi promover o arrocho e o desemprego, uma das faces mais cruéis do neoliberalismo. Mas isso tem custo. A escolha do governo brasileiro de colocar o Estado (e seus agentes econômicos, como os bancos estatais) a serviço de políticas públicas, e também em investimentos em infraestrutura, ou seja, investimentos de longo prazo, tem preço. Como, por exemplo, “o rombo das contas públicas”, manchete da imprensa hoje.

O ano de 2015 não era previsto como fácil por economistas de todos os matizes, de neoliberais a “desenvolvimentistas”. Fosse quem fosse o vencedor da eleição, Marina, Dilma ou Aécio, o cenário seria, e será, difícil, como há muito se sabe. A conta a pagar seria e será alta, como teria sido em quaisquer circunstâncias. Por exemplo, no caso de, hipoteticamente, José Serra ter vencido as eleições de 2010. Só que as bombásticas manchetes de Folha, Estadão e congêneres deste sábado, 1º. de novembro, sobre o rombo das contas públicas, continuam a investir no pessimismo, como fizeram ao longo de 2013 e 2014.  O artigo de André Singer, data venia, reforça esse pessimismo.

O Estado brasileiro, de 2008 para cá, precisou desenvolver uma política econômica baseada num difícil equilíbrio para, ao mesmo tempo, não sucumbir à crise nem, por outro lado, ficar refém do mercado financeiro (leia-se: especuladores). A manutenção do emprego, na contramão da crise europeia que colocou contingentes enormes de desempregados nas ruas, foi conquistada com muitas dificuldades. Como disse acima, isso tem preço. Em período histórico recente, na era FHC, as contas públicas foram à bancarrota e a opção, perversa, foi jogar a fatura nas costas do trabalhador. O país chegou a mais de 11% de desempregados, segundo o IBGE.

Quando Lula venceu a eleição em 2002, setores “progressistas” ficaram indignados com a escolha do presidente metalúrgico para a presidência do Banco Central, Henrique Meirelles. Mas não custa lembrar que Meirelles “iniciou sua gestão de presidente do Banco Central em um momento de crise econômica com o câmbio do dólar em valores próximos a R$ 4,00, taxa de juros Selic de 25% ao ano, inflação prevista para acima de 11% em 2003”. As aspas são da Wikipedia, mas os dados são esses mesmos.

Esses índices, em 2014, são os seguintes: o dólar está em R$ 2,48, a Selic em 11,25% e a inflação prevista pelo mercado para 2014 é de 6,45%.

Meirelles presidiu o BC de 2003 a 2010. Nesse período e no posterior, sob Dilma, os resultados das políticas públicas estão aí para quem quiser conferir. O “conservadorismo” de Lula na política econômica e no Banco Central esteve a serviço de uma política de distribuição de renda, o que é inegável.

Dilma tem um desafio enorme. Serão necessários ajustes para reequilibrar as contas públicas. 

Haverá impacto nas tarifas. A gasolina, calcanhar de Aquiles do mercado de consumo brasileiro, apenas como um exemplo, vai aumentar. “Não aumentou antes por causa da eleição”, dirão. Ora, e qual governo de centro-esquerda aumentaria o preço em tais circunstâncias, no meio de um dos mais difíceis processos eleitorais da história brasileira? Para entregar a presidência da República ao PSDB de Aécio Neves e Armínio Fraga?

Francamente, amigos, vão dar uma voltinha na Ucrânia e depois voltem para contar.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

E se a mentira de Veja tivesse mudado o resultado da eleição?






E se o "jornalismo de esgoto" – como se referiram à revista Veja os presidentes nacional e estadual do PT, Rui Falcão e Emidio de Souza – tivesse de fato logrado mudar o rumo da eleição do dia 26 e impedido a vitória de Dilma Rousseff?

A quem o PT, a coligação, seus eleitores e a democracia brasileira iriam recorrer? Evidente que, depois de uma eleição consolidada, mesmo que com resultados induzidos por uma reportagem mentirosa e eleitoralmente criminosa, seria praticamente impossível reverter a situação, até mesmo depois de comprovada a fraude promovida pelo "jornalismo de esgoto".

O Tribunal Superior Eleitoral e o Supremo Tribunal Federal, chamados a intervir para reparar o desfecho de um processo democrático comprovadamente contaminado pela "liberdade de informação" do jornalismo de esgoto, decidiriam por novas eleições, dada a gravidade do crime praticado pela revista? Duvido, até porque não é crível que tal decisão, mesmo embasada no "bom direito", fosse depois respeitada pela raivosa e protofascista oposição brasileira, formada pelos políticos tradicionais, pela mídia e pelos eleitores de Aécio Neves, eleitores cujo caráter golpista e truculento ficou claro nas manifestações e nas agressões racistas nas redes sociais e nas ruas, onde as agressões chegaram a ser físicas. Os tribunais estariam, de fato e de direito, diante de uma situação institucionalmente explosiva.

Aécio teria ganho a eleição, estaria configurado um golpe e haveria diante de nós uma encruzilhada diante da qual não acredito, como disse, que os tribunais tomassem uma decisão de anular o pleito por evidente contaminação e crime eleitoral grave.

Como então se recuperaria a credibilidade de uma República em que a eleição, o mais importante fato político e coroamento da democracia, tivesse sido decidida pela mentira e pela fraude?

Não se sabe quantos votos a sujeira espalhada pela revista da Abril desviou de Dilma para Aécio nas últimas 24 horas antes da eleição. Fala-se em 3 milhões, mas esse número é evidentemente um chute. Seja como for, parece lógico supor que um contingente significativo de indecisos votou no PSDB devido à capa da publicação da Marginal.

Em matéria de hoje (30), o jornal Valor diz que "o advogado que representa Alberto Youssef, Antonio Figueiredo Basto, negou envolvimento na divulgação de informações que teriam sido prestadas pelo doleiro no âmbito da delação premiada, sobre o conhecimento de suposto esquema de corrupção na Petrobras pela presidente reeleita Dilma Rousseff (PT) e pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. 'Asseguro que eu e minha equipe não tivemos nenhuma participação nessa divulgação distorcida'", diz a matéria. Ou seja, a matéria (da Veja) é uma farsa.

Em post publicado ontem no blog do Valter Pomar, intitulado "Comemoração e luta", a direção nacional da tendência petista Articulação de Esquerda volta a insistir na necessidade de "fazer reformas estruturais, com destaque para a reforma política e para a Lei da Mídia Democrática".

O post defende "a construção de um jornal diário de massas e de uma agência de notícias, articulados a mídias digitais (inclusive rádio e TV web), com ação permanente nas redes sociais, que sirvam de retaguarda e de instrumento do campo democrático-popular na batalha de idéias". Na minha opinião, já passou da hora de isso ser construído.

Os golpistas não ganharam, desta vez. Mas não descansarão.

Até porque as eleições de 2018 já começaram. Basta ver as movimentações políticas e o comportamento da oposição a Dilma no Congresso Nacional, encabeçada por lideranças do PMDB como Eduardo Cunha.

Em vídeo divulgado hoje, o ex-presidente Lula sugere que a revista da marginal seja tratada com indiferença. “A gente tem que ver que a Veja é uma revista de oposição ao governo. Pronto, acabou. A gente vai sofrer menos, não tem azia." Essa posição de Lula é ingênua. A revista poderia ter mudado o resultado de uma das mais importantes eleições do país e da história da América Latina. Não concordo com essa visão fleumática de Lula.

É preciso uma legislação que coíba severamente, com punições e multas pesadas, muito pesadas, essa sem-cerimônia criminosa com que veículos de imprensa e TV plantam notícias falsas, sem provas, e depois fica tudo por isso mesmo.

Nos Estados Unidos, país considerado modelo ocidental de democracia e liberdade pelos eleitores de Aécio Neves, o sujeito pode apresentar uma denúncia, no jornal, na revista ou na TV. Mas tem que provar. Senão terá de responder à justiça. Paulo Francis fez acusações gravíssimas de corrupção na Petrobras, e foi processado pela empresa nos Estados Unidos, segundo as leis americanas. Note-se, o governo de então não era do PT, mas de Fernando Henrique Cardoso, em 1997, ano da morte de Francis, de infarto, dizem que muito estressado e deprimido por saber que sua situação jurídica era irreversível e teria de pagar uma indenização milionária à Petrobras.