quarta-feira, 2 de maio de 2012

A indústria de vinho brasileira só quer concorrer consigo mesma


Não se sabe ainda como terminará a queda de braço entre a indústria de vinho brasileira (leia-se indústria gaúcha) e os importadores.

A última informação oficial mais consistente, de 15 de março, era de que, a pedido de entidades de classe dos produtores do país, a Secretaria de Comércio Exterior (Secex) havia mandado abrir investigação sobre a necessidade de salvaguardas para proteger o produto nacional. A investigação se justifica, segundo a Secex, dadas as informações “de que o crescimento das importações de vinhos ocorreu em condições que causaram prejuízo grave à indústria doméstica".

Resumindo, caro leitor: os produtores nacionais querem que o imposto de importação aumente (e muito, não é pouco, não) para protegê-los. Houve quem falasse em uma majoração do tributo de 27% para 55%! O que tornaria proibitivo aos que gostam de saborear um bom vinho a preços acessíveis, como os provenientes da Argentina, de Portugal e do Chile, por exemplo.

Os produtores gaúchos argumentam que produzem vinho de qualidade, mas que são sufocados pelas facilidades dos importadores. É um argumento falacioso e até cínico. Qualquer bebedor de vinho sabe que o que eles chamam de “bom vinho” brasileiro custa no mínimo o dobro de um similar argentino, para ficarmos apenas no país dos hermanos.

A reivindicação das vinícolas brasileiras, porém, sofreu um contra-ataque, quando restaurantes resolveram boicotar a aquisição de seus produtos, em protesto contra a possibilidade de se proibir, pelo preço, que uma pessoa comum possa beber um vinho decente, mas que possa pagar.

Os produtores brasileiros, se querem ser competitivos, que produzam então um vinho de qualidade e ganhem a concorrência honestamente. Pois o que querem é ajuda do governo para achacar o consumidor com seu produto de péssima qualidade ou de qualidade razoável a preços exorbitantes.

Esse argumento de, oh, tantas famílias de colonos italianos construíram a duras penas seu patrimônio etc etc, é muito tocante, mas o consumidor não tem nada a ver com isso, um enredo de novela. A verdade é que os capitalistas brasileiros só gostam do capitalismo à sua maneira. Globalização? Ótimo, muito bom, desde que não interfira em seus lucros. Concorrência? Claro, é a maior invenção da humanidade, mas só querem concorrer de maneira justa consigo mesmos. Alegam "concorrência desleal"... Mas são leais com quem mais interessa, o consumidor brasileiro? Não.

Espero sinceramente que o governo não venha apoiar esse retrocesso. Mas temo que sim. Em fevereiro, disse e presidente Dilma em Caxias do Sul: “Vivemos aqui um momento de respeito ao povo de Caxias e a todos os imigrantes que fizeram uma parte extraordinária do nosso país. Homens e mulheres corajosos que vieram fazer a vida neste novo mundo”, afirmou ela. Mas duvido que Dilma preferisse um Almaden a um Quara, para ficarmos em exemplos simples.

Se o governo apoiar, vai ser um desgaste político para preservar um setor que não pode se manter a custa de incapacidade de oferecer ao consumidor um produto bom que, repito, ele possa pagar.

Enfim, vou parando por aqui, que uma taça de vinho de Mendoza me aguarda.

5 comentários:

Felipe Cabañas da Silva disse...

Um post sobre a marijuana e outro sobre o vinho. Me lembrou Baudelaire, embora eu não tenha lido direito nenhum dos dois... hehehe... Minha droga se chama Sport Club Corinthians Paulista. Eu tento largar o vício, mas o tóxico é pesado. #vaicorinthians

heheheh

Edu Maretti disse...

Grande lembrança, Felipe. "Os Paraísos Artificiais" de Baudelaire é um belo livro.

Mas não foi intencional a sequência dos posts, rs. O motivo foi a indignação ante o cinismo desses capitalistas brasileiros, no caso do vinho.

E já que estamos em vinho e Baudelaire, lembro que o primeiro post da série "Pensamento para sexta-feira" foi justamente um belíssimo texto do poeta francês, "Embriagai-vos"...

http://fatosetc.blogspot.com.br/2010/04/pensamento-para-sexta-feira-1-embriagai.html

abraços

PS: cuidado com essa droga preto-e-branca aí hein, uma overdose é fatal... hahaha

daniel razon disse...

Edú, ua analise esta certissima, como sabes também sou apreciador de um bom vinho e não importa de onde seja desde que, como você disse seja a preços pagáveis.
Realmente, aqui no sul o produtor acostumou-se com a ideia de que o vinho gaúcho é bom, o melhor do Brasil e um dos melhores do mundo, isso porque o consumidor final não tinha acesso aos concorrentes,... assim como agora tem..., podendo fazer os comparativos e concluir que, os melhores daqui no máximo concorrem com os medianos que estão chegando já faz tempo.
A gente é sensível com os pequenos produtores e chega a dar pena de ver como se debatem para sobreviver mas, a luta é desigual, já que, por uma questão meramente geográfica e climática as cepas daqui não alcançam a qualidade necessária porem, como tu falas, a culpa não é da gente, o consumidor final não pode pagar este pato....são prerrogativas que o capitalismo nos oferece.
Se for aprovada esta lei de proteção só vai fazer com que; primeiro: os consumidores consumam menos (vinho estrangeiro), segundo: migrem apenas para alguns mais ou menos dos nacionais que ainda sejam suportáveis no seu preço e qualidade, terceiro:incentivara o aumento de importação individual que cada um faz nas fronteiras do RGS com a Argentina, Uruguay e Paraguay, onde consegue-se os vinhos com preços ainda mais acessíveis do que nas lojas do ramo e isto é claro ira prejudicar o pais pois neste tipo de importação o pais não recebe impostos, por isso , acho difícil que seja aprovada esta lei.
A exemplo seu, ficarei aguardando o desenlace desta "quada de braço" saboreando um "cassillero del diablo " vindo diretamente da minha terra natal, pelas mãos da minha irmã caçula que, por aqui andou neste feriadão e a despeito de ter se encantado com as coisas que viu e experimentou, em termos de bebidas preferiu ficar apenas na velha e boa "caipirinha de cachaça"..rsrsrs.

um abraço e saúde!!

Edu Maretti disse...

A velha "caipirinha de cachaça" que os turistas tanto apreciam... Eu já parei com isso faz tempo! hehe

alexandre disse...

Ter opções é um direito que temos como consumidor. Se isso for aprovado, que valha também para outros produtos de importação, o que não seria uma boa para a relação comercial do brasil. Não podem nos privar disso. Será que se a Dilma aprovar, vai tomar também somente os nacionais? Se for consumidora de vinhos, logicamente que não. Um vinho italiano, um francês ou português, seria (é) bem mais o seu estilo.
Cassillero del Diablo já provei. Bom vinho.