Reprodução
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| Tancredo com o então jovem neto (materno) Aécio Neves |
Em 21 de abril de 1985 morria Tancredo Neves. Nós que éramos
jovens naquela época víamos o primeiro presidente civil, desde a implantação da
ditadura em 1964, como uma esperança, apesar de Tancredo ter sido eleito num colégio eleitoral. Para alguns jovens de hoje – considerando
os que nasceram a partir da década de 1980 –, dizer que Tancredo era uma
esperança pode soar inexplicável, ou piegas.
Mas é preciso entender que o presidente que Tancredo
sucederia era o general João Baptista Figueiredo, ex-chefe do SNI em governos
anteriores, quando a tortura e o assassinato eram políticas justificáveis para
manter o Estado de segurança nacional. Figueiredo foi presidente como prêmio
por ter cumprido com eficiência seu papel no SNI.
Tínhamos vivido tempos obscuros. Eu não vivi a época da
ditadura, graças a deus, mas um grande amigo meu, da geração anterior, viveu.
Foi torturado etc, assim como outros que conheci depois. Mas até hoje esse meu
amigo chamado José considera Tancredo uma importante presença na política
brasileira. Um homem que foi ministro da Justiça e Negócios Interiores de
Getúlio Vargas. E que, diz a lenda, foi um dos mais bravos resistentes contra o
golpe udenista que levou Getúlio ao suicídio.
Morto Tancredo, assume Sarney, embora muitos, ou alguns,
defendessem a posse de Ulysses Guimarães. José Sarney, justamente o líder
maranhense cuja carreira política começou na esteira da morte de Getúlio Vargas
(1954). Sarney era da UDN. Com a extinção desta em 1965, abraçou a Arena.
Depois, o PDS.
Celio Azevedo/Senado Federal
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| Ulysses e Tancredo |
Essas poucas linhas são pra dizer que 30 anos atrás, em 21
de abril de 1985, a barra estava pesada: com a morte de Tancredo, nessa data
estranhamente simbólica, não sabíamos o que aconteceria. Atrás, era Figueiredo;
na frente, Sarney. Estávamos perplexos, nós com nossos vinte e poucos anos,
nossa fé no futuro e nossas dúvidas.
Havia teoria da conspiração na época, não pensem que isso é
uma invenção contemporânea. Tancredo havia simplesmente morrido ou tinha sido
assassinado? Como saber?, a gente se perguntava.
Curiosamente, Sarney fez um governo caótico, mas não
impopular. Embora de maneira tosca, e apesar do caos econômico, com o Plano
Cruzado ele conseguiu de certa maneira distribuir renda. O plano determinava o
congelamento de preços, trazia ao cenário os “fiscais do Sarney”, introduzia
antecipação do salário mínimo para incentivar o consumo. Enfim, um governo
populista, mas não impopular.
Mas depois, sim, aí veio o caos, com Fernando Collor de
Mello (1990), metaforicamente o Nero (imperador romano que governou de 54 até
68 d.C.) da história brasileira.
Foi desesperador. A primeira eleição para presidente no
Brasil desde Jânio Quadros (eleito em 3 de outubro de 1960) colocou Collor no
poder! Não era possível enxergar futuro para o Brasil.
Collor caiu e apareceu seu vice Itamar Franco, um político
fisiológico, mas que não tinha, como Sarney, origem oligárquica e coronelista. Itamar
era um pequeno-burguês, um engenheiro, começara no PTB de Vargas, partido que foi
extinto em 1965 junto com a UDN. Itamar foi do MDB (depois PMDB), do PL, do PRN
de Collor, depois voltou ao PMDB. Mas, para encurtar a história, Itamar fez um
governo populista mais ou menos como o de Sarney. O Brasil da conciliação.
Depois veio Fernando Henrique Cardoso, que propôs implantar
no Brasil o neoliberalismo de Margaret Thatcher e Ronald Reagan.
Depois veio Lula, depois Dilma (e aqui, ao invés de
comentar, prefiro indicar a leitura de Os sentidos do lulismo, de André Singer
– afinal, conhecer a história dá um pouco de trabalho, não é tão simples assim).
Estamos em 2015, 30 anos depois da morte de Tancredo Neves, e
o Brasil ainda está discutindo golpe e golpismo, sob a batuta do neto (na
linhagem materna) de Tancredo, Aécio Neves, personalidade que Milan Kundera
diria que está construindo sua imortalidade risível.

















