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domingo, 13 de julho de 2014

Alemanha é tetra no Maracanã


Resenha da Copa do Mundo [16 - domingo, 13 de julho]



Um grande e merecido título da Alemanha, a quarta Copa do Mundo de sua história. As outras foram em 1954, 1974 e 1990.

Ficha técnica

Alemanha 1 x 0 Argentina


Local:  estádio do Maracanã - Rio de Janeiro
13 de julho de 2014
Árbitro: Nicola Rizzoli (ITA)
Público:  74.738 espectadores
Gol: Gotze, aos 7 minutos do segundo tempo da prorrogação

Alemanha: Neuer; Lahm, Boateng, Hummels e Howedes; Schweinsteiger e Kramer (Schurrle); Muller, Kroos e Ozil (Mertesacker); Klose (Gotze) Técnico: Joachim Low

Argentina: Romero; Zabaleta, Demichelis, Garay e Rojo; Mascherano, Biglia, Enzo Pérez (Gago) e Messi; Lavezzi (Aguero) e Higuaín (Palacio) Técnico: Alejandro Sabella


Marcello Casal Jr/ Agência Brasil
Schweinsteiger com a taça: mais do que justo

J.P.Engelbrecht/ PCRJ


J.P.Engelbrecht/ PCRJ


Marcello Casal Jr/ Agência Brasil


Carmem Machado

A final da Copa do Mundo


Resenha da Copa do Mundo [15 - domingo, 13 de julho]


Marcello Casal Jr/ Agência Brasil
Schweinsteiger, um dos símbolos da revolução do futebol alemão

Poucos times mereceram tanto ganhar a Copa do Mundo  na história como a Alemanha hoje na final contra a Argentina no Maracanã. Pelo trabalho de renovação espetacular do futebol no país, feito desde 2002, algo que mexeu com a estrutura, alavancou os investimentos em talentos com parcerias entre clubes, empresas e  governo e revolucionou o esporte, algo que tanto se defende no Brasil.

Algo que países como Brasil e Argentina ainda estão longe de fazer, ambos afundados na administração oligárquica do futebol, pela nossa CBF e pela AFA de Julio Grondona, o Ricardo Teixeira argentino, que está no poder desde 1979.

O time de Schweinsteiger, Kroos e Khedira merece o título também também pelo grande futebol que jogou na Copa, fruto desse magnífico trabalho de longo prazo.

E finalmente pela alegria, cordialidade e respeito pelo Brasil e o profissionalismo com que se mantiveram em Santa Cruz Cabrália, na Bahia, na Vila de Santo André, deixando inclusive investimentos em uma escola pública.

Porém, os alemães têm pela frente um grande time, a Argentina de Alejandro Sabella, que cresceu pouco a pouco, foi se montando taticamente durante a competição e chega à final contra a equipe de Joachim Low para fazer um jogo de igual para igual.

A Alemanha é favorita e merece o título. Torço para a Alemanha. Mas, como se sabe, o futebol muitas vezes ignora o merecimento.



quarta-feira, 9 de julho de 2014

Alemanha e Argentina fazem a negra



Resenha da Copa do Mundo [14 - quarta-feira, 9 de julho]


Valter Campanato/ Agência Brasil
Hermanos comemoram ida à final, o que não acontecia desde 1990

Torci para a Holanda, mas não fiquei insatisfeito com a classificação argentina.

Minha rivalidade com a Argentina de Di Stéfano, Maradona e Messi é apenas futebolística, e não cultural, política ou outra. Adoro Buenos Aires e lá qualquer brasileiro é sempre muito bem recebido. Admiro o futebol argentino, que encanta e surpreende, mas sobretudo encanta com sua magia, porém achava, e ainda acho, que a Holanda merece um título, pela história que construiu no futebol.

Posto isso, a Argentina merece estar na final, depois de um jogo muito ruim em que tanto os hermanos como os orange só pensaram em não perder e não tomar gol. Renegaram o ataque. Os craques Messi e Robben, muito marcados, tiveram atuação apagada. As equipes preferiram deixar na mão dos deuses e ir para a disputa de pênaltis. Nenhum dos dois mereceu ganhar o jogo e qualquer um que vencesse os pênaltis teria merecido. Foi a Argentina.

A Alemanha tem enorme favoritismo na final. Não vai fazer 7 a 1 na Argentina. Mas se der a lógica, os germânicos devem levantar a quarta Copa do Mundo, repetindo 1954, 1974 e 1990, evitando que o time de Messi conquiste o Mundial, o que conseguiu em 1978 e 1986.

Nota curiosa é que Argentina x Alemanha fazem a negra. Decidiram as copas de 1986, vencida pelos sul-americanos comandados por Maradona por 3 a 2, e de 1990, que os germânicos conquistaram por 1 a 0 graças a um pênalti inexistente marcado pelo árbitro da partida no finzinho do jogo. Pareceu-me à época que aquele pênalti a favor da Alemanha na final de 90 foi premeditado, como se a Fifa, então, se vingasse da “mano de Diós” de Maradona de quatro anos antes.

Mas na final de domingo, a Argentina vai precisar encontrar uma fórmula mágica para vencer o coração da Alemanha, que é seu meio de campo monstruoso formado por Schweinsteiger, Kroos, Khedira e Özil, e ainda com Müller circulando pelo campo.

Mascherano (que tem jogado uma barbaridade, um verdadeiro líder que o Brasil nunca teve), Biglia, Enzo Pérez e Messi foi o meio de campo argentino que enfrentou a Holanda, e que não me parece páreo para o quarteto alemão, mesmo que Di Maria volte e jogue no sacrifício. Messi fez um jogo apagado contra a Holanda. Talvez o jogo mais franco e agressivo da Alemanha favoreça seu jogo, talvez ele encontre espaços.

Enfim, a Alemanha deve ser a campeã da Copa das copas no Maracanã, no próximo domingo. A menos que o imponderável apareça, e Messi brilhe. Senão, vai ser difícil. "Vai ser difícil porque [a Argentina] tem pela frente uma Alemanha quase perfeita", disse o comentarista argentino Juan Pablo Sorín, da Espn, agora há pouco, que sabe do que está falando. Foi um grande lateral esquerdo e jogou até 2006 pela seleção argentina.

Outro comentarista do mesmo canal, o Mauro Cézar, disse uma frase interessante: "A Argentina tem mais apetite, a Alemanha tem mais time".

Enfim, a ver.



terça-feira, 8 de julho de 2014

Alemães fulminam futebol brasileiro e colocam em xeque a dinastia da CBF

Resenha da Copa do Mundo [13 - terça-feira, 8 de julho]


Marcello Casal/Agência Brasil
Miroslav Klose é o maior artilheiro das Copas do Mundo

Não sou o primeiro nem serei o último a dizer que a derrota histórica do Brasil para a Alemanha por 7 a 1 no Mineirão hoje, pela semifinal da Copa do Mundo, tem um significado muito importante. É uma derrota do autoritarismo que comanda a CBF desde 1970, uma derrota da CBF de Felipão, de Parreira, de José Maria Marin, de Marco Polo Del Nero, desse esquema invulnerável que faz com que a gente questione: por que tudo muda no mundo, menos a CBF?

Durante o massacre alemão, conversei por telefone com amigos e pessoas íntimas que, de cabeça quente, vieram com as mais bizarras teorias da conspiração, que nem vou recontar porque cansa. Alguns não viram nada demais no time da Alemanha, um time “normal”, disseram, que só ganhou do Brasil de Luiz Felipe Scolari porque este errou, marcou bobeira, entregou a rapadura.

Legal foi a narrativa do meu pai, seu Oswaldo. Segundo ele, quando a Alemanha fez 2 a 0, ele foi cuidar de outras coisas. Meu pai é daqueles que dissimulam o nervosismo. Nervoso, me contou que, "fazendo outras coisas", começou a ouvir gols, e que achava que eram replays, mas não eram replays. "Eram gols mesmo!", disse, espantado.

“Isso não existe”, dizia um amigo. “Estou sonhando”, dizia outro. Outro ainda viu sintomas de um golpe de direita perpetrado pelo conluio de forças supranacionais (quiçá extraterrestres) que fizeram tudo certo para que o desfecho fosse essa tragédia. O que é cômico. Inclusive porque é arrogante, e ignora a superioridade (no caso dessa semifinal) esmagadora do adversário. Minha gente, a dinastia do futebol brasileiro acabou! Vocês não perceberam?

Em post deste blog em 7 de maio, quando Scolari convocou seus 23 jogadores, escrevi aqui: “De resto, o goleiro titular [Júlio César] e outros jogadores da ‘família Felipão’ formam um grupo de jogadores sem brilho e inexperientes em Copa, alguns dos quais eu nem conheço (...) É um time que, se Neymar não brilhar (e ele será duramente marcado), não tem muita chance (...) Sei não. Não quero secar, mas essa seleção não tem nem líder nem pinta de campeã”.

Em outros momentos, escrevi que a esse time faltavam jogadores que qualquer treinador de seleção do mundo queria ter em seu time, e citei especificamente Kaká, Robinho e Ganso, mas que Felipão, com a postura típica do autoritarismo da CBF, preteriu por nomes de sua “família”. Exemplos: o anão Bernard; o bisonho Jô; o envelhecido e lamentável Fred; o inútil Willian, que, nesta Copa, além de fazer propaganda da Guaraná Antarctica e desfilar com sua cabeleira black power, chamou a atenção por perder um pênalti na decisão contra o Chile nas oitavas; e ainda os cinco volantes convocados: Fernandinho, Luiz Gustavo, Hernanes, Paulinho e Ramires. A seleção de 1970 tinha um volante entre os 11 titulares: Clodoaldo, camisa 5, que não foi nem escalado por Zagallo, mas por Pelé, Carlos Alberto e Gerson, conta a lenda.

Pergunto: entre todos os medíocres convocados citados acima para a Copa por Felipão, não dava pra três (só três deles) darem lugar a Robinho, Kaká e Ganso? “Robinho é um mau caráter”, me disse um amigo; “Kaká não tá jogando”, me disse outro; “Ganso?”, questionou ainda outro, como se eu estivesse falando merda.

Então fomos com Neymar e mais ... Bernard, Willian, Jô, Fred, Maxwell (sabia que Maxwell era reserva de Marcelo, leitor amigo?) e mais um monte de volantes, e Felipão no comando, um técnico ultrapassado, ignorantão e paizão, coisa que não cabe mais no futebol. Enquanto estamos nessa política do século passado, a Alemanha está trabalhando faz tempo. Gosto muito do Gerd Wenzel (o velho e bom comentarista alemão da ESPN), que disse após o jogo: “A história recente do futebol alemão começou com a derrota para o Brasil na final de 2002”.

Essa administração amadora e “oligárquica” da CBF contrasta com a da seleção alemã, que é organizada, cheia de talentos e com um esquema tático espetacular, que esmagou um Brasil atônito a partir de um jogo brilhante baseado na blitzkrieg. Vejamos o que significa blitzkrieg segundo a Wikipédia: “termo alemão para guerra-relâmpago, foi uma doutrina militar em nível operacional que consistia em utilizar forças móveis em ataques rápidos e de surpresa, com o intuito de evitar que as forças inimigas tivessem tempo de organizar a defesa”.

Achei que foi isso. E isso é ótimo, porque futebol é uma metáfora para a guerra, e ainda bem que existe uma guerra metafórica ou poética, que o futebol incorpora.

Futebol, e futebol (o alemão) com uma eficiência tática e técnica impressionante, bonita de ver, espetacular mesmo. Méritos e palmas aos alemães.

Aos meus amigos, compadres, comensais e queridos de qualquer forma, só tenho a dizer que acho meio bobinhas as teorias da conspiração.

Aos teórico-conspiratórios, aos incrédulos, aos inconformados e aos céticos, eu digo: o esporte (e o futebol é o mais belo dos esportes) tem isso: surpreende, bate recordes, choca, estabelece novas marcas e novos marcos que daqui a décadas continuarão sendo comentados. O esporte é irônico. Perdemos do Uruguai em 1950, e da Alemanha em 2014.

A derrota humilhante e histórica do Brasil hoje para a Alemanha foi política e futebolisticamente merecida. Talvez sirva para alguma coisa. Felipão, arrogante como a CBF que manda no futebol brasileiro, não teve a dignidade de se demitir como fez o italiano Cesare Prandelli, que pediu demissão ao vivo, em plena entrevista coletiva, após a derrota para o Uruguai por 1 a 0 e a desclassificação de seu time da Copa do Mundo.

Vamos ver até quando esses caras da CBF e da Fifa, acusados de todo tipo de corrupção, vão resistir. Estão caindo pouco a pouco. É só observar o noticiário.

E, pra finalizar, palmas a Klose, o jogador que fez mais gols na história das Copas. Foram 16, contra 15 de Ronaldo.

E palmas a Neymar. Que além de ser a estrela do Brasil, de ter marcado 4 gols, tem um anjo da guarda muito forte que o impediu de estar em campo na tragédia do Mineirão. 

segunda-feira, 7 de julho de 2014

As semifinais



Resenha da Copa do Mundo [12 - segunda-feira, 7 de julho]


Brasil x Alemanha
Holanda x Argentina



Marcello Casal Jr/ Agência Brasil


Não tem como apontar favoritos. Com Neymar no time, jogando em casa e considerando que a Alemanha é freguesa do Brasil, o time de Felipão levaria um favoritismo, na minha opinião. Os times jogaram três partidas oficiais na história e a seleção brasileira ganhou todas: 4 a 0 (1999 - Copa das Confederações), 3 a 2 (2005 - Copa das Confederações) e 2 a 0 (2002 – final da Copa do Mundo). No total foram 21 jogos entre as duas seleções, com 12 vitórias brasileiras, 5 empates e 4 dos alemães.

A verdade é que o time brasileiro, que já era limitado, perde ainda mais “em carisma, futebol e alegria com a saída do Neymar”, como disse Paulo M. em comentário ao post anterior ao falar da Copa sem o craque brasileiro. Se o Brasil vai superar a perda e ultrapassar a eficiência germânica, seja com Willian ou Bernard, só conferindo. A escolha de Scolari deve ser Willian, que joga com Oscar no Chelsea e, além de ser mais jogador, é a solução mais óbvia também por isso.

Fala-se em garra e união para suplantar a ausência do craque do time e ter força para bater uma equipe que tem o goleiro Neuer, Lahm, Özil, Schweinsteiger, Müller e até Klose, jogador que às vezes joga, às vezes não, e pode fazer seu 16o. gol, ultrapassando Ronaldo como o jogador com o maior número de gols em todas as copas. Mais uma vez penso em como poderia ser diferente se o elenco tivesse jogadores como Ganso, Robinho e Kaká para poder usar numa hora dessa. E ainda tem que pensar na mudança na dupla de zaga, já que Thiago Silva, suspenso, será substituído por Dante.

Dante é canhoto, e David Luiz, embora destro, prefere jogar pela esquerda, mas vai ser deslocado para a direita da defesa para Dante entrar. Mudar uma defesa que está dando certo num jogo como esse... Ou seja, o time perde a força do ataque e muda a defesa contra um time organizado, forte no ataque, com uma bola parada perigosíssima, e que joga em bloco. 

Já a outra semifinal, também de impossível prognóstico, reúne um time que vem crescendo ao longo da competição (Argentina), mas perdeu Di Maria (o melhor da seleção sem contar Messi) e outro que joga com impressionante frieza (Holanda) e tem em Van Gaal um técnico que decide jogos.

Não tenho esse negócio meio bobo de torcer contra a Argentina, como muitos que ficam papagaiando uma rivalidade que, aliás, nem é tão grande para os argentinos, pois para eles os maiores rivais são historicamente Uruguai e Inglaterra.

Mas, no caso, vou torcer para a Holanda, embora às vezes a gente só descubra para quem vai torcer num jogo desse quando ele começa e a gente vê para onde o coração aponta.

Na verdade a Holanda é o único dos semifinalistas que não tem título mundial, já tendo passado perto muitas vezes e chegado ao vice-campeonato três vezes (1974, 1978 e 2010). Acredito que a Holanda mereceria um título, pela história que já construiu no futebol.

Argentina x Holanda vai ser a paixão com que os Hermanos encaram uma partida como essa contra o jogo matemático e tático com que o time de Van Gaal tem jogado nesta Copa. Falaram mal da Holanda por ter vencido a Costa Rica nos pênaltis. Mas, por incrível que pareça, dava a impressão que os holandeses tinham o tempo todo certeza de que venceriam. É impressionante a calma com que esse time joga. E às vezes é mais difícil vencer um timinho retrancado e limitado como essa Costa Rica do que um grande oponente. A Holanda chutou três bolas na trave, o goleiro consta-riquenho defendeu tudo e, ao fim, ganhou a Copa do Mundo com a classificação de um grande time.

Tenho acertado palpites aqui no blog. Disse no  post sobre as quartas de final (resenha 10) que “meu palpite é de que as semifinais serão Brasil x Alemanha e Holanda x Argentina”. E também, na resenha 11, antes de Brasil x Colômbia, que “acho que nesta sexta-feira nós passamos pela Colômbia. Meu palpite é 2 a 1”.

Os palpites anteriores eram baseados em alguma, ou muita, lógica, ao contrário das semifinais. Mas, para não perder o hábito, acho que a final vai ser Brasil x Holanda.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Brasil x Colômbia: o criticado Henrique pode ser um trunfo decisivo de Felipão



Resenha da Copa do Mundo [11 - sexta-feira, 4 de julho]


Ricardo Stuckert/ CBF
Ou vai ou racha


Scolari deve colocar contra a Colômbia novamente Paulinho (para substituir Luiz Gustavo, suspenso). Mas, além disso, pelo que se viu do treino de quinta-feira (3), poderia também pôr Henrique no lugar de Fred. Não se sabe se vai apenas substituir Luiz Gustavo por Paulinho, se vai substituir Luiz Gustavo por Henrique ou se, numa mexida tática mais ousada, entraria com Paulinho no lugar de Luiz Gustavo e, como se especula, também escalar Henrique sacando Fred, fazendo o time ser aparentemente mais defensivo mas, na prática, ter mais opções de jogo do que tem com um centroavante estático esperando a bola chegar (o que é infrutífero se não tem um armador criativo, tipo Ganso, no meio de campo). Não esquecer que há ainda outro volante, Fernandinho.

Mas como assim, um volante-zagueiro (Henrique) no lugar de um centroavante (Fred)? Ainda mais Henrique, amigão do técnico, como escrevi no post anterior.

Mas acho que, ao contrário de algumas opiniões pessimistas, Henrique (ex-Palmeiras) pode ser de grande valia. Não é um craque, mas é um jogador versátil, que, além de ser da confiança de Felipão, sabe transitar com certa desenvoltura num setor amplo que vai da zaga ao meio de campo avançado. Dizem palmeirenses que Henrique sabe passar e até faz gol. Pode atuar como terceiro zagueiro num 3-5-2 ou como o volante que chega de trás para surpreender a zaga colombiana, assim como Paulinho. Talvez com Paulinho e Henrique, e sem o inoperante Fred, o poder de fogo do time aumente, até porque os laterais terão mais cobertura e até mesmo Oscar e Neymar ganham mais liberdade e apoio. 

E tem justamente o fator Neymar. Ele não fez gol no último jogo. Deve fazer na Colômbia. Alguns amigos me mandaram informações segundo as quais o treinador da Colômbia, o argentino José Pekerman, é um estudioso que ganhou do Brasil várias vezes nas disputas das seleções de base. Mas a mídia não fala que Pekerman era o treinador da Argentina na final da Copa das Confederações em 2005, quando o Brasil de Carlos Alberto Parreira massacrou os hermanos de Pekerman por 4 a 1.

Podem ser só elucubrações. Mas não acho que Henrique tenha sido a pior das piores escolhas de Felipão na convocação, como ouvi de amigos hoje. Jô, Bernard e Willian são três jogadores medíocres, para usar um termo ameno, que não deveriam estar entre os convocados e já mostraram isso. Não vejo Henrique como um problema entre os convocados, mas os três antes citados são convocações visivelmente equivocadas. Felipão se tocou de alguns erros, inclusive deixou transparecer isso no famoso papo com alguns jornalistas escolhidos por ele a dedo, esta semana.

Seja como for, repito, acho que nesta sexta-feira nós passamos pela Colômbia. Meu palpite é 2 a 1.

Para lembrar uma efeméride: hoje, 4 de julho, faz 20 anos que o Brasil de Parreira ganhou de 1 a 0 dos Estados Unidos na Copa do Mundo de 1994, sediada nos EUA, gol de Bebeto.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

As quartas de final



Resenha da Copa do Mundo [10 - quinta-feira, 3 de julho]


Marcello Casal Jr/ Agência Brasil
Felipão e seu capitão chorão Thiago Silva



O que espero da próxima fase da Copa do Mundo.


Brasil x Colômbia

Seria impensável antes da competição imaginar que uma partida de quartas de final da Copa do Mundo no Brasil reunindo a seleção brasileira e a colombiana fosse de difícil prognóstico. Mas a palavra para definir o que se pode esperar desse jogo é: imprevisível.

Técnica e taticamente o time de Felipão está dando nos nervos de quem entende e de quem não entende de futebol. São vários problemas conhecidos: ausência de um armador no meio de campo, ligação direta, laterais fracos, atacantes inoperantes (não apenas por não haver quem os abasteça de bolas, mas porque são fracos mesmo).  Jô é tão pior do que Fred que a opção que Scolari utilizou no treino como opção no lugar de Fred foi o volante-zagueiro Henrique, amigão do técnico. Até mesmo o “general” Felipão aparenta estar meio perdido.

Fora tudo isso, há o problema emocional. Tostão escreveu que, ao contrário da opinião geral, ele vê como positiva a emoção e a choradeira dos jogadores. “...a onda é dizer que o problema maior da seleção é emocional, que os jogadores não suportam a pressão e que choram demais, como se o choro fosse incompatível com a razão e a lucidez. Penso o contrário. O que salva a seleção é o envolvimento emocional dos jogadores”, disse. A opinião de Tostão é sempre respeitável, mas discordo dele. Como dizia minha avó, "tudo o que é demais enjoa". É choro demais. Um time emocionalmente desequilibrado, em que o capitão (Thiago Silva) pede pra não bater pênalti e fica sentado na bola chorando é meio ridículo. Espero que Tostão tenha razão, mas...

Enfim, não se pode cravar que vai dar Brasil. Mesmo assim, não sei por que, minha intuição me diz que passaremos pela Colômbia. Mas não sei se é intuição ou simples coração de torcedor.

França x Alemanha

Um jogo de difícil prognóstico. Acredito no favoritismo dos germânicos, que têm um time mais sólido e bem montado do que a equipe francesa, que tem vários talentos individuais e um jogo rápido. Mas o time, me parece, deixa muitos espaços e não é muito compacto. A Alemanha venceu a ótima Argélia num jogo espetacular pelas oitavas. A França bateu a fraca Nigéria, e não creio que tivesse superado os argelinos.

Holanda x Costa Rica

Acho quase impossível que os centro-americanos vençam os europeus nesse confronto. Parece-me o duelo mais fácil. Acredito que a Holanda, que despachou o México, vença, não com muita facilidade, mas nos 90 minutos, sem prorrogação. A Costa Rica bateu nas oitavas a limitadíssima Grécia.

Argentina x Bélgica

Um jogo em que a Argentina é favorita, para mim. Mas é um favoritismo que pode ser contrariado. O time sul-americano, que derrotou a retranqueira Suíça, tem mais talentos, mas o velho problema de sua defesa vulnerável pode comprometer. E o goleiro argentino, Romero, não é confiável. Os rápidos belgas, porém, demonstraram no dramático jogo com os Estados Unidos que, ao contrário da Suíça, sua defesa confessa, se apertada, e o time não parece destinado a se retrancar. Se se abrir contra os hermanos, perderá. Posso errar, mas acho que dá Argentina.

Semifinais

O vencedor de Brasil x Colômbia pega o que sobrar de França x Alemanha. Do outro lado vão se enfrentar os ganhadores de Argentina x Bélgica e Holanda x Costa Rica. 

Meu palpite é de que as semifinais serão Brasil x Alemanha e Holanda x Argentina.


terça-feira, 1 de julho de 2014

Crônica para argentinos e belgas em dia de céu azul em São Paulo - e saudações aos estadunidenses


Resenha da Copa do Mundo [9 - segunda-feira, 1o. de julho]


Viaduto do Chá

Hoje foi um dia em que, andando pelo metrô e pelas ruas de São Paulo, vendo incontáveis argentinos e, mais tarde, alguns belgas pelas ruas da cidade, trens, estações e plataformas do metrô, veio de repente à minha mente uma passagem da canção London, London, de Caetano.

He seems so pleased, at least
And it's so good to live in peace
And Sunday, Monday, years, and I agree

A Copa do Mundo no Brasil, seja pelo futebol, seja pela festa, cores e línguas, é espetacular e emocionante.

No centro da maior cidade da América do Sul, as pessoas vestidas de azul, de azul e branco, de amarelo, de preto vermelho e amarelo, passam por mim felizes, brincando, umas cantando, outras silenciosas, outras simplesmente bêbadas.

And it's so good to live in peace
And Sunday, Monday, years, and I agree


Esquina do Viaduto do Chá e rua Xavier de Toledo

Num hotel em que fui para cobrir um evento político, o evento não começou enquanto o duelo Argentina x Suíça não acabou. Jornalistas, políticos, funcionários do hotel olhavam para a televisão ligada no hall. A esmagadora maioria torcendo para a Suíça. Ou melhor, contra a Argentina. Torci para a Argentina, nem que seja para fazermos com eles a sonhada final da Copa das Copas do Brasil, embora, se fosse apostar hoje, só pensando em futebol, eu talvez apostasse numa final entre Alemanha x Holanda. Eu era um dos únicos a ver aquele absurdo que acontecia no estádio de Itaquera: um time, ainda que meio desorganizado, tentando a qualquer custo chegar ao gol, por todos os meios, pelas pontas, pelo meio, por chuveirinho, numa partida em que Di Maria acabou superando Messi e finalmente pôs fim à esperança suíça.

O time de vermelho calculou que conseguiria ficar 120 minutos destruindo, destruindo e destruindo para conseguir ganhar nos pênaltis. Calcularam e quase conseguiram, mas os deuses do futebol puseram fim àquela arrogância de querer matar a alegria. Pois o que queriam os suíços senão isso? Evitar, evitar e evitar o gol. Foi para isso que entraram em campo. E foram punidos ao tomar o gol quando as cortinas estavam se fechando.

Segundo a CBN, um argentino infartou no Itaquerão diante do drama em que se transformou a partida. Morreu no hospital. Acho que não viu seu time finalmente bater a Suíça. Se assim foi, não viu um dos gols mais bonitos da Copa, a jogada de Messi vencendo na corrida e no drible a zaga suíça, o passe perfeito na diagonal e a conclusão de craque do camisa 7 da Argentina. Realmente, espetacular.

O time argentino furou o ferrolho vermelho e agora pega a estranha Bélgica nas quartas, que ganhou dos Estados Unidos por 2 a 1 em outro jogo impressionante, que foi para a prorrogação depois de 90 minutos de 0 a 0 e incontáveis gols perdidos, principalmente da Bélgica, um time habilidoso, com jogadores como Mertens, Hazard, De Bruyne e Orig, mas que, não sei se por azar ou nervosismo, perdeu um caminhão de gols enquanto o time norte-americano, bem postado, taticamente bem armado, ameaçava nos contra-ataques.

Os Estados Unidos de Zusi, Bradley e Dempsey, contra todas as expectativas, não ganharam o jogo em Salvador porque, aos 47 minutos do segundo tempo, o atacante Wondolowski perdeu um gol inacreditável quando a bola subiu e caiu aos seus pés, na frente do goleiro, e ele chutou bisonhamente para fora, para desespero do técnico deles, o alemão Jurgen Klinsmann, por ironia um dos maiores atacantes da história da Alemanha. Deu dó de Klinsmann, que pôs as mãos no rosto para tentar talvez esconder a sua incredulidade.

Como o jogo acabou 0 a 0 e na prorrogação a Bélgica fez 2 a 1, o erro do Wondolowski custou a classificação dos americanos. E perderam outro numa linda jogada ensaiada no fim da prorrogação. Pela luta, mereciam ter conseguido o empate. Pena.

Vi norte-americanos muito simpáticos torcendo feito doidos pro time deles num restaurante em São Paulo semana passada. Não torci contra eles. Pelo contrário. Sou do contra. Já disse que para mim futebol e política não têm nada a ver.


Belgas e argentinos no metrô de São Paulo. Vão se ver nas quartas

Metrô - Linha 4-Amarela


Viaduto do Chá

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Colegas e até governo uruguaio inconformados com punição "desmedida" de Luis Suárez


A suspensão de 9 jogos e quatro meses do atacante Luis Suárez pela mordida no italiano Chiellini foi drástica. Os uruguaios foram tomados de um sentimento de inconformismo misturado a bravatas de que agora estão “más unidos que nunca”, como escreveu o colega de seleção e zagueiro Jose Maria Gimenez no Twitter.

Twitter de Matias Faral, assessor de imprensa da Celeste

Até a ministra do Turismo e Esporte do Uruguai, Liliám Kechichián, se manifestou na mesma rede social: “Nos dói a sanção desmedida. Agora é ver como ajudamos ao ser humano e como esse grupo consegue o melhor de seu amor à Celeste”.

“Suárez paga por haver eliminado a Itália”, esbraveja o atacante Javier Chevantón. “És verguenza total”, tuíta ele.

Acho que a ministra tem razão numa coisa apenas: o exagero da punição. No futebol tem essa coisa de punições sumárias e “desmedidas”. O goleiro chileno Roberto Rojas, banido do futebol, é o caso mais exemplar.

De resto, como Juca Kfouri, acho uma pena que a Copa perca um de seus destaques, que deu um colorido até aqui com seu talento e raça.

Mas como querem que o cara dê uma mordida em plena Copa do Mundo e fique por isso mesmo?

Na minha opinião, dois jogos de punição já estaria de bom tamanho. Mas eu preferiria um apenas, para Suárez enfrentar o Brasil nas quartas caso a Celeste passe pela Colômbia nas oitavas. Pois vão dar para a todo o sempre a desculpa de que foram eliminados da Copa por uma armação. Gostaria de ganhar deles com Suárez em campo.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

É Neymar e mais dez. Mas Camarões é tão ruim que não dá pra tirar conclusões



Resenha da Copa do Mundo [5 - segunda-feira 21 de junho]


Foto: Marcello Casal Jr/ Agência Brasil


Brasil 4 a 1, show de Neymar, num jogo em que o time finalmente ganha certa confiança.Vírgula.

Não dá pra considerar o péssimo time de Camarões como um parâmetro, como alguns comentaristas já observaram. O pior time africano da Copa, até o jogo de hoje, não havia marcado um gol sequer. Contra qualquer time razoavelmente bem montado, Neymar não sairia gingando no meio de buracos como os da defesa e de todos os setores do time de Camarões com aquela facilidade. Mesmo assim, o arremedo de time dos Leões chegou a empatar o jogo e dar alguns sustos...

As duas laterais brasileiras são vulneráveis, principalmente no setor direito de Daniel Alves, que parece um ex-jogador em atividade (vide o gol camaronês). Será um deus-nos-acuda se o arguto e inquieto técnico do Chile, o argentino Jorge Sampaoli, souber aproveitar...

A zaga brasileira parece segura, mas até agora ainda não enfrentou um ataque poderoso, e em alguns momentos das três partidas do grupo A deixou espaços preocupantes.

O meio de campo, como também já se observou, ganhou vida com Fernandinho no lugar de Paulinho, o jogador fantasma. Mas terá encorpado o suficiente para enfrentar times mais poderosos do que Croácia, México e o pobre Camarões?

Hulk, risível no ataque, onde Fred jogou um pouquinho, um pouquinho só, a mais do que nos jogos anteriores, e fez até gol. Mas só.

O Chile no sábado vai ser um jogo interessante. Será o melhor time que o Brasil terá enfrentado na Copa. Mas a tradição, a freguesia chilena e o fato de o time de Felipão jogar em casa deve no mínimo balançar a autoconfiança do time andino, que de resto parece que já começou a fraquejar ante a ótima seleção da Holanda. O retrospecto a favor do Brasil contra o Chile em Copas do Mundo é esmagador: 4 a 2 em 1962 no Chile (semifinais), 4 a 1 em 1998 (oitavas) e 3 a 0 em 2010 (oitavas). 11 gols a favor e 3 contra.

Jornal Marca da Espanha hoje
Retrospecto não ganha jogo e acho que esse deve ser o duelo mais difícil entre as duas seleções em Copas, mas aposto na vitória brasileira. "Se Neymar não jogasse no Brasil, o que seria de nós?", questiona José Trajano. Todos os jornais do mundo, da Itália à Argentina, da França à Espanha (foto ao lado, da versão online do jornal espanhol Marca) destacam a grande atuação do camisa 10. É como dizíamos no futebol de rua: "é Neymar e mais dez".

A outra oitava já definida será um grande jogo: Holanda e México. A tarefa dos holandeses, me parece, será mais difícil do que a dos brasileiros. 

Nas quartas-de-final nosso adversário será contra o 2º. do grupo D (Uruguai, Itália ou Costa Rica) ou 1º. do C (Colômbia).


sábado, 21 de junho de 2014

Argentina sofre, Alemanha derrapa e França surpreende


Resenha da Copa do Mundo [4 - sábado 21 de junho]



Divulgação/AFA


Injusta vitória argentina contra o Irã por 1 a 0. O futebol é impressionante. Todo mundo esperava que a Argentina passeasse frente aos persas, mas o que se viu foi os iranianos conseguirem bloquear o oponente com uma retranca eficiente e ainda terem as três melhores chances de gol, um pênalti a favor não marcado pelo juiz e, como imerecido castigo ("a bola pune"), o Irã acabou tomando um gol de Messi no finzinho do jogo. A Argentina é um time desorganizado e sem criatividade, apesar de contar com jogadores como Di María, Agüero e Higuaín. Se não fosse Messi ter feito dois gols decisivos contra Bósnia e Irã, os hermanos poderiam hoje estar amargando dois míseros empates.

Mas a vitória da Argentina acabou sendo dramática em um jogo sensacional, o que ninguém imaginava.




O empate da Alemanha com Gana em 2 a 2 foi outro belo jogo, que todo mundo esperava que fosse uma barbada, e não foi. A Alemanha cantada em prosa e verso quase perde de Gana, o que colocaria o grupo G (que ainda tem EUA e Portugal) num surpreendente equilíbrio.

A França começou desacreditada, mas depois dos 5 a 2 na Suíça, com um futebol agressivo de contra-ataques fulminantes, se credencia a pelo menos ir mais longe do que se esperava. É um time muito rápido, tecnicamente muito bom e disciplinado taticamente. Se o Brasil chegar às semifinais tendo sido primeiro do grupo A na fase de grupos e a França também chegar à semi como primeira do E, Brasil x França farão uma semifinal. Isso se a França passar pela Alemanha nas quartas (e se a Alemanha chegar às quartas...). O Brasil pega nas oitavas Chile ou Holanda e, pelo andar da carruagem, Uruguai ou Itália nas quartas.

Talvez seja cedo pra dizer isso, mas a última vez que o Brasil ganhou da França em Copas do Mundo foi em 1958 (5 a 2). Depois, foram três jogos decisivos e três vitórias francesas: 1986 (quartas-de-final, nos pênaltis), 1998 (final, 3 a 0 em Paris) e 2006 (quartas-de-final).

O Brasil, como a Argentina, é um time até aqui sem criatividade e nervoso. A responsa de jogar em casa está visivelmente pesando para o time, que, como já falei, não tem um líder em campo. A sorte é que o jogo decisivo de segunda-feira é contra o fraquíssimo Camarões.

A Costa Rica, zebra das zebras, no grupo D já garantiu uma vaga e deixou para Itália e Uruguai decidirem a outra, numa chave em que a Inglaterra caiu fora no segundo jogo. O Chile, no B, despachou a campeã Espanha d’El Rey. Quem poderia imaginar?

Uma nota: ao fazer seu 15° gol em copas do mundo, o alemão (de origem polonesa) Miroslav Klose iguala Ronaldo. Ao contrário do que se poderia esperar, muitos brasileiros não apenas aplaudem o feito do alemão como torcem para Klose superar Ronaldo. Estou entre esses brasileiros.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Crônica de Uruguai x Inglaterra num dia de céu cinza e jogo épico na cidade de São Paulo


Resenha da Copa do Mundo [3 - quinta 19 de junho]
Itaquerão em dia do épico Uruguai x Inglaterra. Ou: uma tarde que Jean-Luc Godard poderia ter filmado em São Paulo







O clima em São Paulo hoje estava totalmente apropriado para Uruguai x Inglaterra. Um clima londrino, de céu cinza, frio, e por vezes garoa fina. O clima cinza que também é típico de Montevidéu. De maneira que os deuses parecem ter entendido que até a cara do céu tinha de ser adequada a esse capítulo da história do futebol marcado para a Arena do Corinthians em Itaquera, na ZL. 

No trem da Linha 3-Vermelha do metrô de São Paulo, rumo ao Itaquerão, uruguaios e ingleses dividiam o espaço sob enorme expectativa por um jogo decisivo que era matar ou morrer para a Celeste e o English Team. Era engraçado notar como, em terra estrangeira, ingleses e uruguaios se ignoravam mutuamente dentro do trem, como se não se enxergassem.

O uruguaio Claudio Poggio demonstrava otimismo diante do desafio de sua seleção, que perdera na primeira rodada para a Costa Rica por 3 a 1 e precisava da vitória, assim como os ingleses. “Estamos indo para o estádio ver o Uruguai, vamos saber como será. Estamos com muito entusiasmo para conseguir um resultado positivo. É uma partida difícil, mas estamos otimistas porque tenemos a Suárez en la cancha”, disse ele, que chegou hoje mesmo, quinta-feira, ao Brasil.




Dois negros, africanos, estavam encostados à porta do trem do metrô, e conversavam num idioma que não era nem inglês, nem francês, nem espanhol ou italiano, nem nenhuma língua que eu conheça.

Logo adiante, no mesmo vagão, um grupo de ingleses conversava animadamente. Um jovem que se identificou como John Smith – um de milhares de jovens semelhantes a Wayne Rooney -- disse que estava achando “fantástico” estar participando da Copa do Mundo no Brasil. Contou ter estado em Manaus na estreia da seleção inglesa contra a Itália e saiu com ótima impressão da capital do Amazonas: “Very good, Manaus!”, me disse ele. Na capital do mundo tropical, a Itália havia batido a Inglaterra por 2 a 1 no sábado dia 14.




Tinha mais uruguaios do que ingleses na ZL hoje. Segundo informações das rádios, eram cerca de 3 sul-americanos para um europeu (o prefeito Fernando Haddad disse ontem que 400 mil turistas estão em São Paulo).

Mal sabiam todos esses personagens que – além do lindo espetáculo cultural, a Babel colorida em que se transformou São Paulo, contrastando com o céu cinza como os de Londres ou Montevidéu – eles eram testemunhas, e mesmo protagonistas, de um jogo épico, o melhor até aqui da Copa do Mundo.




A vitória por 2 a 1, graças a dois golaços de Luis Suárez, que o Uruguai construiu com talento e coração, virtualmente elimina a Inglaterra, time do qual mais uma vez se falou tanto, e que mais uma vez não deu em nada, como acontece desde 1966, quando ganhou seu único título mundial em casa.

É curioso, como notou o comentarista Mauro Cezar Pereira, da ESPN, que a Inglaterra protagonizou as duas partidas mais espetaculares da Copa do Mundo até esta quinta-feira 19, mas por ironia está virtualmente eliminada, depois de perder para Itália e Uruguai pelo mesmo placar de 2 a 1.

Somando tudo, foi uma tarde emocionante, como uma epifania que só o futebol pode proporcionar.



Clima apropriado para um Uruguai x Inglaterra



Casal inglês olha o Itaquerão pela janela do metrô



Uruguaio otimista chega ao Itaquerão


quinta-feira, 5 de junho de 2014

Iniesta tem razão – e aqui em casa vai ter Copa


Para o companheiro José Arrabal


 


Tenho lido e ouvido muitas coisas sobre os motivos pelos quais se deve torcer para o Brasil ou contra o Brasil. Esta torcida pelo #VaiTerCopa ou #NãoVaiTerCopa embute muito mais significados do que parece. #VaiTerCopa ou #NãoVaiTerCopa é o sintoma de um país dividido.

Um dos componentes que alimentam a torcida para que tudo dê errado, para que o Brasil perca a Copa, para que os estádios desabem, para que nossa realização seja um fracasso e acabe em vergonha, vergonha incorporada justamente num dos nossos maiores símbolos e orgulho, o futebol, é o ódio insano a Lula, ao PT e a Dilma. Uma das parcelas da sociedade que torcem contra não suporta a ideia da distribuição de renda, e não tolera que um operário tenha tido a ousadia, mesmo sendo conciliador, de mudar alguns parâmetros das políticas públicas etc etc. “Somos contra tudo o que está aí”, dizem. Direitistas insanos e incendiários do PSTU, por exemplo, dizem, ou expressam, a mesma coisa.

Há outros que torcem contra porque simplesmente virou moda e também os que torcem contra sem saber por quê, o que no fim dá no mesmo. Não falo em moda à toa. A Ellus, conhecida marca de roupas usada por jovens, lançou uma absurda campanha na São Paulo Fashion Week este ano em que se viam camisetas pretas (que são vistas nas ruas hoje) com a frase estampada em letras garrafais: “Abaixo Este País Atrasado”.

Esperta como é, a indústria da moda ou pega carona em uma onda que vê se formar, ou ela mesma, se for capaz de criar essa onda, a cria. Não vou discutir estratégias de marketing aqui. Só não custa lembrar que a Ellus é acusada de utilizar trabalho escravo em sua produção. Esse é só um tipo de gente ou empresa que fomenta a moda segundo a qual o Brasil não presta, que vai dar errado, que tudo o que tem a ver com a Copa do Mundo é uma merda.

Se o Brasil não presta, vamos protestar. Vamos protestar contra tudo, vamos quebrar pontos de ônibus, vamos quebrar e incendiar ônibus, bancos, vidraças e lojas, vamos despedaçar nosso orgulho, nossa fama de país pacífico que recebe todas as raças e credos de braços abertos, vamos vilipendiar nosso futebol e nossa seleção, afinal para que serve o futebol a não ser para 22 otários correrem atrás de uma bola, não é mesmo?

De que servirá ganhar a Copa do Mundo se isso vai instaurar um clima positivo no país justamente às vésperas das eleições, e isso vai beneficiar a reeleição de Dilma Rousseff? Estão em jogo bilhões de dólares apenas no que vale a Petrobras.

Mas não é só isso, claro. Há os “politizados”, que protestam porque é importante protestar, porque protestar é um direito constitucional, porque, segundo dizem, o país está uma merda, a saúde está aos frangalhos, o transporte público não funciona, a educação idem, falta teto para morar, e os sem teto resolveram que agora, no período de Copa do Mundo (quando os protestos ganham mais visibilidade) e durante a gestão de Fernando Haddad, é a hora de botar pra quebrar. Vamos botar pra quebrar! Mal se lembram dos sistemáticos e estranhos incêndios que vitimavam comunidades e favelas até antes de Haddad tomar posse.

Recentemente, o meia Iniesta, um dos maiores jogadores de futebol do mundo na atualidade – aliás, autor do gol que deu o título à Espanha na Copa de 2010 na África do Sul – se manifestou sobre os protestos no Brasil: “É a Copa no país do futebol e não há nada mais belo do que isso. Todos deveriam festejar. Não sou ninguém para falar dos outros, especialmente sobre os problemas do Brasil. Só digo que é algo muito estranho”, disse Iniesta.

Achei muito interessante o que disse o craque espanhol. E me remeteu imediatamente à lembrança de um jovem espanhol que conheci há cerca de um ano no centro de São Paulo, exatamente na rua São Bento. Esse jovem estava na companhia de um meu colega de trabalho na Rede Brasil Atual. Conversamos um pouco, ele contou que estava no Brasil à procura de uma chance na vida, que na Espanha estava “una mierda, sin trabajo, sin possibilidades de vida”. E que veio para o Brasil porque tinha parentes que lhe contavam que aqui dava pra começar a vida, que tinha trabalho para um jovem. “Para un joven”!

Nunca mais o vi, mas era um menino quase imberbe, igual a esses que formam a multidão de jovens brasileiros mal ou bem intencionados que protestam, protestam e protestam, sem saber por exemplo que há até estrangeiros que vêm se tratar de Aids no Brasil, porque em seus ricos países não têm condições de pagar, e aqui encontraram o SUS.

Me lembro também de Nelson Rodrigues, e aqui reconheço que estou apelando a um clichê. Nelson que, revoltado com a babação dos brasileiros diante do futebol dos gringos, criou a expressão “complexo de vira-lata”, para se referir aos que viam o próprio esplendor, no futebol dos outros, diante do nosso pobre futebol de pernas tortas.

A palavra “complexo” me remete a outro tema. A psicologia, a psicanálise, a psique de um certo tipo de brasileiro que não quer dar certo. Freud tratou desse tema, na abordagem de indivíduos que boicotam a si mesmos, mas, se me permitem a licença, transponho esse conceito a um plano geral, para falar de um outro indivíduo, o brasileiro com complexo de vira-lata, característica de uma multidão composta por muitos:

1) os de “direita”, como os da banda da massa cheirosa e seus discípulos espirituais, que acreditam que tudo pode ir no rumo de seus desejos se nosso futebol fizer jus ao epíteto da Ellus, e querem que o Brasil pegue fogo, fracasse, perca a Copa do Mundo, que os estádios desabem;

2) os de “esquerda”, que, por má-fé, ingenuidade ou adolescência tardia, e por um problema psicanalítico, querem que o Brasil pegue fogo, fracasse, perca a Copa do Mundo, e que os estádios desabem. Muitos desses “se acham”. Consideram-se de “esquerda”. Até votaram no Lula e na Dilma, mas entendem que é muito importante protestar, que é legal, que é daora, que é constitucional, que é revolucionário, que é politicamente correto, que é quase assim como um gigantesco grafite em cinemascope, um grafite em movimento, tá ligado? Assim, se tudo der certo, um dia talvez sejamos uma imensa Cuba.

Então, dizem eles, #NãoVaiTerCopa. Também dizem: “somos contra tudo o que está aí”.

Alguns desse tipo conhecem história mas estão confusos, não sabem se comemoram o gol de Neymar ou se apoiam os protestos que comandante Fidel aprovaria (alguns vão a Cuba e voltam mais confusos ainda). Outros não conhecem história e não sabem que muitos foram torturados e mortos para que chegássemos aonde chegamos. Outros, ainda, não gostam ou não entendem nada de futebol, e embarcam na onda porque se sentem apoiados no seu não gostar ou não entender de futebol.

Disse Lula a CartaCapital esta semana: "O jovem hoje com 18 anos tinha 6 anos quando ganhei a primeira eleição, 14 anos quando deixei de ser presidente da República. Se ele tentar se informar pela televisão, ele é analfabeto político. Se tentar se informar pela imprensa escrita, com raríssimas exceções, ele também será um analfabeto político. A tentativa midiática é mostrar tudo pelo negativo. Agora, se nós tivermos a capacidade de dizer que certamente o pai dele viveu num mundo pior do que o dele, e se começarmos a mostrar como a mudança se deu, tenho certeza de que ele vai compreender que ainda falta muito, mas que em 12 anos passos adiante foram dados."

Enfim, acho triste, triste mesmo, que nossa Copa do Mundo tenha que ser assim.

Iniesta tem razão.