sábado, 15 de abril de 2017

Manifesto do Projeto Brasil Nação - por Luiz Carlos Bresser-Pereira



Foto: Marcia Minillo/RBA


Do Facebook de Luiz Carlos Bresser-Pereira


- um manifesto em busca de um Brasil novamente unido em torno do desenvolvimento e da justiça

O movimento Projeto Brasil Nação nasceu da grande preocupação com o que está acontecendo com o Brasil. É um movimento político para devolver ao Brasil a ideia de nação. Hoje, ao invés de uma nação coesa buscando a democracia e a justiça social, como éramos nos anos 1980, somos uma sociedade dividida, na qual um governo nascido de um golpe parlamentar tenta impor ao povo brasileiro uma política liberal radical. Hoje, ao invés de uma economia que cresce fortemente, a uma taxa superior a 4 % ao ano, somos desde 1980 uma economia semiestagnada, crescendo menos de 1%. Estamos, portanto, diante de uma crise econômica de longo prazo, que foi agravada pela descoberta de um amplo esquema de corrupção envolvendo empresas, políticos, lobistas e funcionários de empresas estatais. Embora a corrupção envolvesse políticos de todos os partidos, ela abriu espaço para um liberalismo radical moralista, de direita, como eu nunca havia visto antes. Uma verdadeira luta de classes de cima para baixo. Dada esse diagnóstico geral, realizamos uma série de reuniões para redigir o manifesto que agora estamos tornando público. 

O nome do movimento Projeto Brasil Nação é constituído de três substantivos unidos que dizem bem o que queremos: um Brasil que volte a ser uma nação e tenha um projeto de desenvolvimento econômico, político, social e ambiental. 

A última vez que a nação brasileira foi forte e soberana foi nos anos 1980, quando nos unimos para aprovar uma Constituição democrática e social. Mas em seguida começou a divisão, porque os liberais a viram como excessivamente social, envolvendo uma carga tributária alta demais, e porque boa parte dos brasileiros perderam a ideia de nação diante da hegemonia ideológica do liberalismo internacional. Em consequência o Brasil, desde 1990, através da abertura comercial, da abertura financeira, das privatizações de monopólios públicos, e de uma política de altos juros e câmbio apreciado crônica e ciclicamente, passou a ter um regime de política econômica liberal, desindustrializou-se e passou a crescer a uma taxa per capita quatro vezes menor do que a vigente no regime de política econômica anterior, que era desenvolvimentista. No período em que o PT esteve no poder (2003-2015) houve tentativas de mudar esse quadro, mas fracassaram. Afinal, tanto nos governos conservadores como nos progressistas, a alta preferência pelo consumo imediato dos brasileiros refletiu-se no populismo fiscal e principalmente no populismo cambial, que aumentou artificialmente o valor dos salários e dos rendimentos rentistas (juros, dividendos e aluguéis) enquanto causava desindustrialização e baixo crescimento. 

Diante desse quadro, entendemos que precisávamos de um documento que não fosse uma simples manifestação de protesto e indignação contra o atual governo, nem pretendesse ser um projeto para o Brasil que cobrisse todos os campos. Precisávamos de um documento que enunciasse valores, e definisse apenas uma das áreas desse projeto – a econômica. Foi daí que nasceram os cinco pontos econômicos do projeto:  

(1) regra fiscal que não seja mera tentativa de reduzir o tamanho do Estado a força, como é a atual regra;  

(2) taxa de juros mais baixa, semelhante à de países de igual nível de desenvolvimento;  

(3) superavit em conta-corrente necessário para que a taxa de câmbio assegure competitividade para as empresas industriais eficientes; 

(4) retomada do investimento público;  e 

(5) reforma tributária que torne os impostos progressivos. Enfim, precisávamos de um programa que fosse uma clara alternativa tanto ao populismo cambial combinado com desrespeito aos direitos sociais, quanto ao populismo cambial. O manifesto define essa alternativa. 

São dois os próximos passos: obter através de internet um grande número de assinaturas para o documento; e conversarmos com os partidos políticos e movimentos sociais que estiverem interessados em esclarecer e aprofundar as questões e as políticas que estão no manifesto. 

É importante assinalar que o movimento Projeto Brasil Nação não é partidário. Nem pretende ter a chave para todas as questões. É um movimento de cidadãos que quer mostrar que EXISTE UMA ALTERNATIVA PARA O BRASIL – uma alternativa que poderá unir trabalhadores, empresários, classes médias em torno das ideias de nação, desenvolvimento econômico, diminuição das desigualdades e proteção do ambiente. 

Caso queira se juntar a nós, entre no link www.bresserpereira.org.br/ , leia o manifesto Projeto Brasil Nação, o subscreva, e passe a divulgá-lo para que outros também o assinem. E para que todos nós possamos mostrar que a nação brasileira não está morta, que não estamos condenados à dependência, à divisão interna, à desigualdade e ao baixo crescimento.




domingo, 9 de abril de 2017

Dia de Guarani x Portuguesa, dia de tradição e nostalgia


Clássico de hoje pela série A2 do paulistinha: Guarani x Portuguesa. Pode soar como brincadeira ou ironia, mas não é. São dois clubes de grande tradição. 

Hoje, no Brinco de Ouro, a Lusa vencia até os 47 do segundo tempo, quando o juiz deu pênalti pro Guarani. Foi mão na bola, segundo o juiz, apesar de eu achar que foi bola na mão. Dúvida. Mas, na dúvida, a arbitragem sempre foi e sempre vai contra a Lusinha. Eita sina. Final, 1 a 1. O Bugre está em quarto lugar e hoje estaria na semifinal, enquanto a Lusa perdeu a chance de se aproximar dos 4 líderes e, agora em décimo lugar, tem poucas chances de disputar o acesso à primeira divisão estadual.

Grandes histórias


O Guarani foi o primeiro e único time do interior paulista a ser campeão brasileiro (1978). A Lusa era um dos indiscutíveis cinco grandes de São Paulo. Nos anos 70 tinha uma esquadra onde formavam Zecão, Calegari, Badeco, Dicá e o grande Enéas, entre outros. 

Em 1996 foi vice-campeã brasileira, perdendo a final em Porto Alegre para o Grêmio por 2 a 0. O tricolor gaúcho tinha mais time, foi campeão com justiça, mas foi uma pena a Lusa não ter levantado a taça, porque merecia ter sido campeã nacional.

A Portuguesa já foi uma fábrica de jogadores. Entre muitos que revelou para o futebol brasileiro, estava Enéas (nome do herói do poema de Virgílio), que jogou na época de Pelé (Santos), Rivelino (Corinthians), Pedro Rocha (São Paulo) e Ademir da Guia (Palmeiras).


A Lusa de 1975: Enéas é o segundo da esquerda para a direita, agachado

O Guarani era uma indústria fabulosa de craques. Careca, Neto, Zenon, Luizão, Evair, .Djalminha! Todos foram revelados lá. Há quem considere que, se Careca tivesse jogado contra a Itália em 1982 em Sarrià, o Brasil não teria perdido para a Itália de Paolo Rossi por 3 a 2. Mas Careca estava fora, e jogou Serginho Chulapa, que não estava à altura daquele time de craques (apesar do valor de Serginho e de tudo o que fez). Estou entre os que acham isso.

No meu Santos, dois bicampeões brasileiros (2002 e 2004) vieram do Bugre: Elano e Renato.

Estive muitas vezes no Canindé. Numa delas, em 1993, testemunhei o gol de placa de Dener, o jovem craque que morreu tão cedo num acidente de carro (em 1994, com 23 anos). Naquele 1 de maio de 1993, numa partida em que o Santos vencia por 2 a 0 no segundo tempo, de repente baixou o capeta no jovem Dener e, em cerca de 15 minutos, o jogo estava 4 a 2 para a Lusa.

Lusa e Guarani são dois grandes que hoje infelizmente estão mergulhados numa luta melancólica para sobreviver.

O gol de placa (com narração do velho e bom Silvio Luiz) foi esse:


sexta-feira, 7 de abril de 2017

A versão idiota de Hollywood sobre a ciência e a ficção científica



Independence Day: exemplo de filme que ninguém deveria ver

Ler um livro sério sobre os temas ciência e astrofísica não quer dizer que você não possa dar risada, se o autor é capaz de tirar umas linhas para usar a ironia e o bom humor. Como eu  gosto de cinema, de ficção científica e também de ciência e astrofísica (lógico que como um pobre e leigo mortal), me diverti com uma passagem do livro Morte no Buraco Negro, de Neil deGrasse Tyson.

É o trecho de um capítulo em que o autor comenta filmes hollywoodianos de ficção científica, no qual discorre sobre abordagens falhas, absurdas ou simplesmente idiotas de alguns desses filmes, sob a ótica da ciência ou mesmo da lógica. Afinal, alguma lógica deve basear a ficção científica ou as suposições de vida alienígena inteligente.

Gosto muito de filmes de ficção científica, como a obra-prima 2001: uma Odisseia no Espaço (Kubrick, 1968), Blade Runner (Ridley Scott, 1882) e Interestelar (Christopher Nolan - 2014). E mesmo de filmes menos "sérios", digamos assim, como Guerra nas Estrelas (George Lucas, 1977) e De Volta Para o Futuro (Robert Zemeckis, 1985), sem os quais, reconheçamos, a vida seria um pouco menos legal.

Mas não tive o desprazer de ver Independence Day (Roland Emmerich, 1996). É sobre esse filme o comentário abaixo do livro de Neil deGrasse Tyson:

"E não me façam falar do sucesso de bilheteria do verão de 1996, Independence Day. Não acho nada particularmente ofensivo em alienígenas malvados. Não haveria indústria cinematográfica de ficção científica sem eles. Os alienígenas de Independence Day eram definitivamente maus. Pareciam um cruzamento genético entre uma caravela-portuguesa, um tubarão-martelo e um ser humano. Embora concebidos mais criativamente do que a maioria dos alienígenas de Hollywood, seus discos voadores eram equipados com cadeiras de espaldar alto e descanso para os braços.  

Alegro-me que, no final, os humanos vencem. Conquistamos os alienígenas de Independence Day fazendo um computador laptop Macintosh introduzir um vírus de software na nave mãe (que é por acaso um quinto da massa da lua) para desarmar seu campo protetor. Não sei quanto a você, mas eu tenho dificuldade em fazer upload de arquivo para outros computadores dentro de meu próprio computador, especialmente quando os sistemas operacionais são diferentes. Há apenas uma única solução. Todo o sistema de defesa da nave mãe alienígena devia ser alimentado pela mesma versão do sistema de software da Apple Computer usada pelo laptop que introduziu o vírus.

Obrigado por me ouvirem. Eu tinha que desabafar."

Aqui entre nós: muito bom esse desabafo.

Leia também:

As maravilhas do cosmos: de Giordano Bruno ao buraco negro! – segundo a astrofísica

As maravilhas do cosmos, segundo a astrofísica (parte 2)

Interestelar: ficção inteligente, apesar de Hollywood

Um pouco mais sobre Interestelar


quinta-feira, 30 de março de 2017

Pensamento para sexta-feira [65] – Poesia



Foto: Carmem Machado


LUAR
(Gabriel Megracko)



O cometa não veio
O planeta misterioso
não veio
As estrelas não desabaram
O Sol não explodiu
Os extraterrestres
... há muito se exilaram
deste estrangeiro

Não identificado
o objeto não apareceu
causando desconforto
em nossos pescoços carentes
Cruzando a noite
só as fagulhas e os morcegos
Verdadeiras
são as sombras do Cerrado
-- noturnas, não se distraia! --
cercadas do azul prateado

E o mar!
O mar não invadiu a cidade
onde mendigos optaram
pela miserável liberdade
para a nossa obscura vergonha
Não, o mar não invadiu a cidade
como Hollywood sonha...
Mas quando o mar vier
varrerá também Hollywood da realidade
e levará para as profundezas
apocalipses e incertezas
mas isso também não aconteceu
na verdade

Rimas e outras milongas
também não são páreos para o luar
porque o luar não está no páreo
e sim em torno dele
E mesmo que naves alienistas
tenham caído por lá
na Lua
mesmo que os lunáticos afirmem
que os nazistas montaram base lá
aos meus olhos
nada há com o luar
além do além do luar
para o desespero dos farsantes

E não há infelicidade capaz de apodrecer esta noite:
O amor não é deste mundo
Os alquimistas já estão assassinados
O canto do Sol vem
na verdade
do fundo da noite
porque o Sol está morto

... a sombra está morta
os pássaros
corujas, urutaus e outras criaturas...
mortos
A justiça
tal como a concebem nossas sístoles
está também além
de nossas retinas perecíveis
É visível apenas para gatos, cactos
e semelhantes
cuja ética não estraga mais
porque está morta
morta

Homens...
toda uma vida nauseados
com este aroma de estrela decadente
Qual não será o seu espanto
-- ou terá sido o espanto esquecido? --
ao ver o rosto desencarnado de Deus
subitamente preenchido
de rápidos memoriais luminosos de suas ex-vidas!

Deus não surgiu
especificamente
de entre nuvens
mas apenas entre as árvores
vulto
no ar em movimento
aqui
e não lá
Deus não veio para nos salvar
Éramos deuses
quando éramos mortos
mas havia pedra no feijão
e quebramos um dente

Veio o luar
entre os ventos
os galhos, na seca esticada
no ar
nesta umidade
-- Precisávamos ter sido mais úmidos --

Não veio asteroide, bomba e nem mar
Veio, sim, o luar
mudo retumbante
a mais branca morte
sem vida
contínuo, sem cortes
e deixou para lá o céu

Veio
e é ver para olhar!
Veio, sim
e é aqui
e aqui está

Sim, aqui
e não lá

Quando eu morrer
vocês já sabem onde me encontrar




sábado, 25 de março de 2017

Fernando Henrique agora se lembra de falar em democracia. Tarde demais


CINISMO


Tânia Rêgo/Agência Brasil

Depois de um golpe de Estado que recolocou o Brasil no patamar de república de bananas, e que repercutiu em todo o mundo democrático como o que de fato é, um golpe de Estado; depois da operação de entrega, em andamento, de um dos maiores tesouros nacionais conhecidos, o pré-sal; depois da consolidação do “estado de exceção no interior da democracia, capitaneado pelo Judiciário” (Pedro Serrano); depois da enxurrada de medidas que castram e abolem conquistas civis que o país levou décadas para conquistar e direitos trabalhistas de sete décadas; depois de PEC do Fim do Mundo e outras barbaridades que seu partido ajudou a fazer, Fernando Henrique Cardoso, o Nobre, agora vem reclamar do “protagonismo” da Polícia Federal e do Ministério Público.

Não há mais limite para o cinismo neste pobre país.

Questionado sobre o envolvimento generalizado de políticos e presidenciáveis na “megadelação da Odebrecht” (termo do repórter), o ex-presidente declarou em entrevista ao Valor Econômico de ontem: “A tentativa de passar a esponja não vai dar certo, a sociedade não vai aceitar isso. Agora, você pode dizer: você errou e não vai ser candidato, você errou e vai pagar por isso, você fez um crime e vai para a cadeia. Não é a mesma coisa. Todos têm erros e não estou dizendo que já que é assim, que venha o caixa dois, não é isso. Temos que responder à seguinte questão: quanto custa a democracia e quem paga. Esta é uma questão mundial, não é brasileira não. Quanto custa a democracia e quem paga, isto tem que ser posto claramente”.

Sobre o Ministério Público e a Polícia Federal, o ex-presidente declarou ao Valor: “Você não pode deixar que qualquer instituição do Estado tenha um protagonismo além do limite”.

FHC agora acaba de se lembrar da democracia, logo ele, líder de um partido que votou unanimemente pelo golpe contra Dilma Rousseff, partido que infelizmente, para ele, é citado na megadelação, mas até agora não teve um só cacique transformado em réu pela Lava Jato, enquanto Lula é perseguido como uma espécie de Lampião da política.

Que bom teria sido se o ex-companheiro do grande Ulysses Guimarães tivesse se lembrado da democracia antes. Se mesmo com as discordâncias políticas e mesmo ideológicas houvesse levantado a voz contra a ameaça quando ela ainda era uma ameaça. Mas agora é tarde, Fernando Henrique. Você perdeu seu lugar na imortalidade, como diria Milan Kundera.

domingo, 19 de março de 2017

As maravilhas do cosmos, segundo a astrofísica (parte 2)


"Todos temos algum conhecimento em que acreditamos cegamente, porque não podemos testar de modo realista toda afirmação pronunciada por outros. Quando eu lhe digo que o próton tem uma contraparte de antimatéria (o antipróton), você precisaria de equipamentos de laboratório de 1 bilhão de dólares para verificar minha afirmação. Assim, é mais fácil acreditar em mim e confiar em que, ao menos na maioria das vezes, e ao menos com relação ao mundo astrofísico, eu sei do que estou falando. Não me importa se você continua cético. Na verdade, eu encorajo sua atitude. Sinta-se à vontade para visitar o acelerador de partículas mais próximo e ver a antimatéria com seus próprios olhos."
(Neil deGrasse Tyson, em Morte no Buraco Negro)



Onda "de choque" da explosão da supernova SNR 0509,
na Grande Nuvem de Magalhães, a cerca de 160.000 anos-luz da Terra

Escrevi um post sobre o livro Morte no Buraco Negro, de Neil deGrasse Tyson, que merece uma complementação com um segundo post. Porque o livro é muito abrangente e porque eu aludi, na primeira publicação, que uma passagem da obra aproxima sua visão da abordagem do filme Interestelar, uma visão antropocêntrica sobre o cosmos.

Na verdade, o livro do astrofísico norte-americano não é antropocêntrico, como a princípio me pareceu. Antropocêntrica é a visão da física-ciência mais tradicional, como a do físico brasileiro Marcelo Gleiser, que, se é importante, é, entretanto, uma voz da ciência dominante, hoje relativamente ultrapassada, inclusive, e principalmente, por sua visão antropocêntrica da física e da ciência.

O astrofísico deGrasse Tyson, discípulo de Carl Sagan, relativiza o antropocentrismo da ciência tradicional. "Declarar que a Terra deve ser o único planeta com vida no universo seria uma arrogância indesculpável de nossa parte", diz o autor de Morte no Buraco Negro. E aí ele faz uma afirmação cabal: "Muitas gerações de pensadores, tanto religiosos como científicos, têm sido desorientadas por pressuposições antropocêntricas, enquanto outras foram simplesmente desencaminhadas pela ignorância. Na ausência de dogmas e dados, é mais seguro ser guiado pela noção de que não somos especiais, o que geralmente é conhecido como princípio copernicano".

Bem, a pequena obra-prima da literatura científica que é Morte no Buraco Negro tem inúmeras outras passagens que, só por cada uma delas individualmente, já valeria a pena ler.

Como o belíssimo capítulo 21, "Forjados nas estrelas", em que o autor discorre sobre o eterno ciclo de explosão e morte de uma estrela (supernova), a formação de poeira cósmica, que engendra reações químicas e assim até a formação de novas estrelas e sistemas, no ciclo interminável.

Sobre a vida


Lemos que os quatro elementos mais comuns no Universo são hidrogênio, hélio, carbono e oxigênio. "O hélio é inerte. Assim, os três elementos quimicamente ativos  mais abundantes no cosmos (hidrogênio, carbono e oxigênio) são também os três principais ingredientes da vida na Terra."  Por essa razão, pode apostar que, se for encontrada vida  em outro planeta, ela será feita de uma mistura semelhante de elementos."

Mesmo assim, alguns cientistas consideram que o silício pode substituir o carbono na formação da vida. Até pode, mas com ressalvas importantes, como observa o autor. "Considere o silício, um dos dez principais elementos do universo. Na tabela periódica, o silício está diretamente abaixo do carbono, indicando que eles têm um configuração idêntica de elétrons, em suas cascas exteriores. Como o carbono, o silício pode se ligar com um, dois, três ou quatro átomos. Sob condições corretas, pode também criar moléculas de cadeia longa. Como o silício oferece oportunidades químicas similares às do carbono, por que a vida não poderia ser baseada no silício?"

Os problemas do silício, explica deGrasse Tyson, são dois: o fato de apresentar um décimo da abundância do carbono no cosmos e as fortes ligações que ele cria: "Quando você liga silício e oxigênio, por exemplo, não obtém as sementes da química orgânica; você obtém rochas".

Titã



Titã, a lua de Saturno, em cores não reais, mas captadas pela NASA em diferentes
longitudes de onda com espectrômetro de cartografia infravermelha 

As especulações sobre supostas condições de vida em nosso sistema solar são muito interessantes também, no livro. "Em 2005, a sonda Huygens, da Agência Espacial Europeia (...) aterrissou na maior lua de Saturno, Titã, que abriga muita química orgânica e sustenta uma atmosfera dez vezes mais pesada que a da Terra. Deixando de lado os planetas Júpiter, Saturno, Urano e Netuno, cada um feito inteiramente de gás e sem superfície rígida, apenas quatro objetos em nosso sistema solar têm uma atmosfera de alguma importância: Vênus, Terra, Marte e Titã", diz o autor.

O "currículo impressionante de moléculas" de Titã, continua, inclui água, amônia, metano e etano, "bem como os compostos de múltiplos anéis conhecidos como hidrocarbonetos policíclicos aromáticos". Segue o texto: "O gelo de água é tão frio que tem a dureza do concreto. Mas a combinação de temperatura e pressão do ar tem liquefeito o metano, e as primeiras imagens enviadas pela Huygens parecem mostrar correntes, rios e lagos de metano. Em alguns aspectos, a química da superfície de Titã se parece com a da jovem Terra, o que explica por que tantos astrobiólogos veem Titã como um laboratório 'vivo' para estudar o passado distante da Terra".

Enfim, o livro aborda uma temática tão vasta que pesquei apenas alguns aspectos quase aleatoriamente: se eu fosse falar de todos os temas e pensamentos do livro, ficaria aqui para sempre. A ideia não é essa. Eu sou um ignorante. Como aliás somos todos nós, pobre mortais humanos. Só digo que a leitura de Morte no Buraco Negro vale muito a pena.

Leia também:

As maravilhas do cosmos: de Giordano Bruno ao buraco negro! – segundo a astrofísica

Interestelar: ficção inteligente, apesar de Hollywood

Um pouco mais sobre Interestelar

sexta-feira, 17 de março de 2017

Pensamento para sexta-feira [64] – Fotografia, Brasil, manifestações


Com o perdão do clichê, uma imagem vale mais do que mil palavras. As fotos do Alexandre Maretti falam por si. Entre  as imagens, a primeira e a terceira foram feitas na manifestação deste 15 de março de 2017 na Avenida Paulista. A do meio é um registro de um dia qualquer (na verdade, 25 de fevereiro) e serve como um símbolo do Brasil de 2017.

Essas e outras fotos estão em Fotos e Imagens.





 




domingo, 5 de março de 2017

Leonardo Barreto: "Congresso não encontraria presidente mais vassalo do que Temer"



Gosto do termo vassalo, utilizado pelo cientista político Leonardo Barreto (da UnB), para definir a relação de Michel Temer com o Congresso Nacional. O Termo é extremamente bem colocado:

"(...) dificilmente o Congresso encontraria um presidente que fosse mais vassalo do Congresso do que o Temer. É um presidente que presta muita vassalagem ao Congresso, o tempo inteiro."

Algumas passagens da entrevista que fiz com Barreto (íntegra em link abaixo) para a RBA:

"Esse é um governo que para continuar operando tem que aprovar a agenda econômica, é uma questão de vida ou morte para eles. Eles foram empossados para isso, para executar uma agenda econômica. Mas, por outro lado, é um governo que não tem insensibilidade política. Se ele vê a resistência (contra a reforma da Previdência) aumentar e essa resistência se transformar num 'Fora, Temer', acho que ele abre mão, por algo como uma CPMF da Previdência, por exemplo. Se tem uma coisa que esses caras do PMDB sabem fazer é sobreviver politicamente (...).A resistência no Congresso já tem uma sinalização, eles vão insistir, mas se perceberem que vai haver um tensionamento na sociedade a ponto de uma ruptura, eles recuam."

"(...) a reforma da Previdência vem num momento em que a pressão por causa da Lava Jato aumenta – o STF liberando Valdir Raupp para julgamento, o Luís Roberto Barroso sugerindo uma mudança de interpretação do foro privilegiado, além do Janot anunciando que vai soltar uma segunda lista na semana que vem. Com tudo isso você soma elementos para uma combustão e capacidade explosiva gigante. Acho que o Congresso vai fazer uma coisa – que não deixa de ser uma chantagem também contra a sociedade: vai dizer que só vota medidas econômicas se tiverem um salvo-conduto. Não à toa, o Temer encarou o desgaste gigante de nomear o Alexandre de Moraes no STF, para ter algum tipo de controle. Num cálculo puramente político, Temer nunca bancaria o Alexandre de Moraes. Mas ele banca porque precisa oferecer alguma coisa para esse pessoal da auto-salvação, inclusive seus aliados e talvez ele mesmo."

"(...) qual seria o limite da paciência das pessoas para elas voltarem à rua? Eu acho que estamos sempre muito próximos desse limite. Se você lembrar, a gente já teve manifestação, o pessoal pediu 'Fora Maia', 'Fora Renan', mas era um prenúncio. A gente está o tempo todo com o copo bastante cheio, esperando a gota. Podem ser as delações da Odebrecht? Como está tudo muito à flor da pele, às vezes um evento menor pode acordar o monstro e acordar a rua. Dentro do sistema político não há nenhuma força que tenha interesse e seja capaz de motivar um novo processo de ruptura política. A única força capaz de fazer isso é a rua."

Aqui, a íntegra da entrevista: Congresso não encontraria presidente mais vassalo do que Temer, diz cientista político

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Caetano, Pelourinho, Bahia e "Fora, Temer"


Deve ter sido inesquecível a noite com Caetano no Pelourinho. Se você conhece o Pelourinho, deve imaginar.


Só acho que a mídia de esquerda deve se preocupar em ser fiel ao que acontece, porque falsear as informações não é legal. Nós, do lado de cá, não estamos a reclamar o tempo todo que a mídia golpista faz isso? Caetano não gritou "Fora, Temer" no Pelourinho (se alguém puder me desmentir, por favor desminta).

Dito isso, parto para a questão: Caetano deveria ter gritado "Fora, Temer", reverberando o coro da massa no Pelourinho? Ou a presença desse senhor de 74 anos cantando Alegria, Alegria basta, como um catalisador, um agregador de forças (eu diria espirituais) de um Brasil ainda possível? Caetano não pronunciou a frase "Fora, Temer". Mas Caetano não estava lá para isso. Ele estava lá para agregar, para que o povo gritasse no carnaval da Bahia.

Como eu adoro a Bahia, Salvador, os baianos e Caetano com sua canção e poesia, acho que basta a presença de Caetano no Pelourinho. Que imagem bonita! "Quem lê tanta notícia?" Ali e dali emana uma energia emblemática, simbólica, poderosa, que se fixa na mente da História.


Foto: Eduardo Maretti/2007

Essa energia se espraia. Ela sai do Pelourinho e dali se espraia pelo país, como uma fagulha de eletricidade. Como na Tropicália. "A História é um carro alegre, cheio de um povo contente."


sábado, 25 de fevereiro de 2017

Vamos ver cinema? – uma pequena lista de grandes filmes


Antigamente a gente indicava filmes e as pessoas podiam ir à videolocadora e alugar, levar pra casa e assistir. Hoje, essa era romântica acabou, junto com as videolocadoras. Seja como for, seja no Netflix, na TV a cabo, baixando na internet ou por outra forma, qualquer um desses filmes listados abaixo deve agradar a amantes do cinema que gostam de aproveitar feriados para poder fazer coisas mais úteis do que não fazer nada, como ver um grande filme.

Os Imperdoáveis  (Dir. Clint Eastwood - 1992).

Morgan Freeman e Clint Eastwood 
Os Imperdoáveis é um dos grandes filmes que já vi, e que vale a pena ver, se a alma não é pequena, ou seja, mesmo se você acha que o western é uma coisa imperialista, norte-americana e desprezível, e que a arte deve ser instrumento de luta política. A arte não tem nada a ver com luta política. A arte transcende isso. Um pouco mais sobre essa obra-prima de Clint Eastwood aqui: Os Imperdoáveis .


Era uma vez no Oeste (Dir. Sergio Leone - 1968) - O maior western de todos os tempos. Épico, antológico e genial. O texto publicado no blog é de Nicolau Soares e está no link: Era uma vez no Oeste.



Os outros (dir. Alejandro Amenábar - 2001). No gênero "terror", uma obra-prima. Atuação magistral de Nicole Kidman. Mas o termo "terror" não define este filme, que é mais próximo de uma abordagem que eu considero espírita, comparável a O Sexto Sentido (direção de M. Night Shyamalan – 1999). A resenha de Os Outros está aqui: Os outros, um filme espírita.






Interestelar (dir. de Christopher Nolan - 2014).


Matt Damon em Interestelar: interpretação magnífica
Algumas pessoas têm críticas que me parecem muito acadêmicas sobre este filme que, particularmente, me fascina. Tem que desculpar  alguns hollywoodianismos, como já escrevi. Para quem gosta de ficção científica, é uma maravilha. Para quem gosta de ciência, também. O filme discute questões ligadas à Física com uma abordagem possível, para a linguagem do cinema, dada a complexidade de algumas delas, como a Teoria da Relatividade e outras. Escrevi sobre o filme dois posts, que você pode ler a partir deste: Uma resenha sobre Interestelar.


Melancolia (dir. Lars von Trier - 2011).


Kirsten Dunst como Justine, no belíssimo Melancolia
Um contraponto à ficção científica Interestelar, o filme existencialista Melancolia, do diretor de Dogville Dançando no Escuro, é inquietante e belo. Quem conhece o cinema da Lars von Trier não deve se surpreender com nada. Melancolia ("Melancholia", no original) é uma obra-prima riquíssima em imagens e metáforas do diretor, dinamarquês como Sören Kierkegaard.


James Coburn e Rod Steiger
Quando explode a vingança, de Sergio Leone. Já escrevi sobre este filme  aqui. Não tem como não gostar, se você gosta de western. É uma epifania.


The Ghost Writer (Dir. Roman Polanski)

The Ghost Writer, de Roman Polanski (2010). Ewan McGregor interpreta um ghost writer que acaba trabalhando para o primeiro-ministro britânico. Um thriller típico de Polanski. 

Kim Cattrall e Ewan McGregor
O thriller de Polanski, não ganhou o Urso de Ouro em Berlim à toa. De fato, é um Polanski em grande forma. O diretor do antológico O Bebê de Rosemary continua com seu estilo peculiar de fazer filmes. Quando você começa a se entediar achando que o filme virou clichê, ele destrói o clichê. Como Coppola, Polanski usa bem a máquina de Hollywood.



Vincent Gallo, em Tetro
Tetro (dir. de Francis Ford Coppola – 2009). É em parte ambientado em Buenos Aires, com destaque para o bairro La Boca. Tetro (Vincent Gallo – na foto) é um homem solitário e enigmático que vive com sua companheira na capital argentina. Ele recebe a visita de seu irmão mais novo, Bennie (Alden Ehrenreich), em busca do contato perdido. Com esse filme, Coppola mostra que ainda existe arte no cinema. Imperdível. Se quiser saber mais sobre Tetro, clique aqui.

Um homem bom (Good, no original em inglês – direção: Vicente Amorim - 2008). O texto que publiquei no blog, Um homem tolo, foi escrito pelo companheiro Felipe Cabañas da Silva. Pode parecer um trocadilho infame, mas esse é talvez o mais delicado filme sobre o holocausto, muito valorizado pela atuação magistral de Viggo Mortensen como John Halder, um professor de literatura na Alemanha dos anos 30 que, devido a sua tese sobre a eutanásia, atrai a atenção do governo nazista. Halder/Mortensen  se deixa envolver. A violência é psicológica, sem a híperdramatização fácil dos filmes do gênero. Uma curiosidade: o diretor do filme, Vicente Amorim, é filho do ex-ministro das Relações Exteriores Celso Amorim.

Sobre o mesmo tema holocausto, outro filme que vale a pena é O Menino do Pijama Listrado (dir. Mark Herman – 2008), uma impactante história de amizade entre dois meninos de sete ou oito anos, um judeu e um alemão.


Frances McDormand
Fargo, um clássico dos irmãos Coen (1996). Em termos de thriller policial, é um dos meus filmes preferidos. A direção de atores de Ethan e Joel Cohen já vale a pena. Frances McDormand (à direita) como a policial provinciana de Dakota do Norte é uma interpretação magistral, assim como de todo o elenco. Com o perdão do trocadilho, crítica violenta à cultura da violência dos Estados Unidos. Escrevi sobre Fargo neste link.




Os Incompreendidos de François Truffaut, é um filme que sempre vamos assistir com emoção.


A delicadeza com que o cineasta francês trata do tema da difícil adolescência de um menino rejeitado pelos pais – que odeia a escola, que descobre que a mãe tem um amante e, diante de tantas dificuldades, foge de casa – é muito diferente da proposta de permanente manifesto do cinema de seu contemporâneo, colega de Nouvelle Vague e amigo, depois inimigo, Jean-Luc Godard. 




É difícil citar apenas um filme de Pasolini para colocá-lo na série Favoritos do cinema. Não dá para começar a falar do diretor italiano sem citar pelo menos cinco filmes:

Accattone (1961)
Mamma Roma (1962)
Il vangelo secondo Matteo (1964)
Uccellacci e uccellini (em português, Gaviões e passarinhos, 1966)
Salò o le 120 giornate di Sodoma (em português, Salò ou os 120 dias de Sodoma, 1975).

Mais sobre esse grande cineasta neste link .



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Grandes atores (7): Leonardo DiCaprio



Em O Aviador, faz o excêntrico Howard Hughes

Leonardo DiCaprio, na minha opinião, divide com Matt Damon um lugar na galeria de grandes atores de sua geração. Nascido em 11 de novembro de 1974 (nativo de escorpião), com 42 anos, é quatro anos mais novo do que Damon.

Como já escrevi em outro post, DiCaprio não está sempre trabalhando com grandes diretores por acaso. Senão vejamos: atuou em filmes de Quentin Tarantino (Django Livre - 2012), Clint Eastwood (Edgar - 2011), Steven Spielberg (Prenda-me se For Capaz - 2002), Woody Allen (Celebridades - 1998) e outros. Com Martin Scorsese, diretor com o qual tem o "casamento" mais bem sucedido, o ator tem sua mais ampla parceria no cinema: foi protagonista de O Aviador (2004), Gangues de Nova York (2002), Os Infiltrados (2006), A Ilha do Medo (2010) e O Lobo de Wall Street (2013). Em Os Infiltrados, aliás, um thriller policial, faz ótimo "dueto" com Matt Damon.

O time de diretores não é pouca coisa e já quer dizer muito. Mas se você assistir a Edgar, O Aviador ou Django Livre, por exemplo, verá que DiCaprio é dos atores que, como já disse em algum lugar, fazem um  filme ser diferenciado, já que seus personagens são dotados de alma. Tire DiCaprio de O Aviador, filme com quase três horas de duração, mas que você não vê passar. Além da excelente trama  e roteiro, que conta a vida do milionário Howard Hughes (1905-1976), o filme tem cenas como  na epifânica sequência em que Hughes/DiCaprio filma (filme dentro do filme) um combate de Hell's Angels, produção de cinema que “na vida real” o empresário lançou em 1930 com estrondoso sucesso ao custo astronômico, para a época, de quase 4 milhões de dólares. A interpretação do ator no filme é magistral.

Em Prenda-me se For Capaz, de Spielberg, um genial falsário, 
Assim como no antológico Prenda-me se For Capaz, de Spielberg, em que interpreta um adolescente genial e fora da lei, perseguido pelo trapalhão policial Carl Hanratty (a cargo do excelente Tom Hanks). O f ilme é baseado na história real de Frank William Abagnale, Jr., um falsário que começou como falsificador de cheques na década de 1960 e, graças a sua genialidade, conseguiu se fazer passar por piloto da Pan Am, médico e advogado. O personagem é uma pessoa com sérios problemas psicológicos e manias, com raízes freudianas profundas. Manifesta uma obsessão – transtorno obsessivo compulsivo (TOC) – que lhe causa horror de pegar em trincos de portas (principalmente banheiros) e cumprimentar as pessoas, situações diante das quais Abagnale/DiCaprio é tomado pelo sincero pânico.

Em Django Livre, uma espécie de western em quadrinhos em forma de filme, ao estilo de Tarantino, que pode levar você à gargalhada ou às lágrimas, DiCaprio faz o vilão: o senhor de fazenda escravagista Calvin Candie. No filme, ele contracena com Jamie Foxx (que faz  Django) e o espetacular Christoph Waltz (atua no ótimo Deus da Carnificina, de Polanski, e Bastardos Inglórios, também de Tarantino).


Como o vilão Calvin Candie, em Django Livre

Escrevi no post anterior já citado (de 2014) que talvez DiCaprio, então com apenas 39 anos, precisasse de um pouco mais de estrada em sua carreira para amadurecer e se tornar realmente um dos grandes. Fazendo pequena correção, parece-me que ele já é.

Se você pesquisar sobre o ator, verá que ele é "mais conhecido" pelos papeis de Jack Dawson, em Titanic, e Romeu, em Romeu e Julieta. Dois filmes menores que não vi nem verei. Também não assisti a O Regresso (dir. de  Alejandro Iñárritu), pelo qual ganhou o Oscar. Quero ver este fime, que une DiCaprio e Iñárritu, diretor de Babel (2006) e 21 Gramas (2003).

A biografia do ator tem uma curiosidade. Segundo consta, seu nome teria sido inspirado, de acordo com sua mãe, porque ele teria dado seu primeiro pontapé quando ela, grávida, contemplava um quadro de Leonardo da Vinci na Itália. Mas essa história precisaria ser checada talvez com o próprio Leonardo DiCaprio...


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Juca Ferreira: "Estamos vivendo um momento em que reina a mediocridade e a boçalidade"


Reprodução/Youtube/Instituto Lula

Conversei ontem com o ex-ministro da Cultura Juca Ferreira. Como “militei” muitos anos em jornalismo cultural, sei bem como a cultura é, ou era (nas redações dos jornais, por exemplo), a primeira coisa a se cortar em épocas de crise.

Não é diferente no Brasil de Temer, com a diferença que aqui e hoje, a devastação é mais generalizada do que talvez jamais tenha sido.

Disse Juca sobre o momento em que chegamos na história:

Acabamos de sair do período mais longo de estabilidade e a democracia mostrou que é um ambiente favorável para o desenvolvimento da cultura brasileira e nós representamos isso (...) ". Agora, a reação da área cultural é enorme, a consciência do negativo.

“(...) Eles agora vêm de novo ceifando tudo o que foi construído, não só na área da cultura, mas nos direitos conquistados, leis trabalhistas, aposentadoria, direitos das mulheres, avanços na relação entre negros e brancos. Eles são devastadores. Como se quisessem nos reduzir a uma republiqueta de banana. “

Sobre cinema brasileiro:

Tudo indica que vão pra cima agora de uma das políticas mais bem sucedidas, que é a do cinema. Só não foram ainda porque a Ancine tem mandato e eles foram obrigados a respeitar o mandato. Mas estão se preparando para atacar também. 

“Só para você ter uma ideia, quando o Lula assumiu, em 2003, eram produzidos menos de dez filmes por ano. Com a política desenvolvida pelo Estado brasileiro – Minc e Ancine –, hoje são 150 filmes por ano.

“(...) O Collor extinguiu a Embrafilme e depois os tucanos não fizeram nada, pelo contrário, partiram da tese de que isso é monopólio dos americanos, que o Brasil não tinha que se meter nesse assunto. Fomos nós, no governo Lula e depois Dilma, que desenvolvemos toda uma política pública de apoio ao cinema, aos artistas, empresas, em todo o território brasileiro.”

A íntegra da entrevista está aqui.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

As maravilhas do cosmos: de Giordano Bruno ao buraco negro! – segundo a astrofísica



Nebulosa da Águia, também conhecida como M16,
uma das mais famosas imagens do Hubble

“Em 1584, em seu livro De l’infinito universo e mondi, o monge e filósofo italiano Giordano Bruno propôs a existência de ‘inumeráveis sóis’ e ‘inumeráveis Terras (que) giram em torno desses sóis’. Além disso, ele afirmava, baseando-se na premissa de um criador glorioso e onipotente, que cada uma dessas Terras tem habitantes vivos. Por esses e outros delitos blasfemos, Bruno foi queimado na fogueira por ordem da Igreja Católica.”

Esse é um pequeno trecho do capítulo 7 do belíssimo livro Morte no buraco negro e outros dilemas cósmicos, de Neil deGrasse Tyson (editora Planeta), que estou lendo, uma verdadeira viagem pelo conhecimento e o cosmos, e seus infinitos mistérios e maravilhas.

Por exemplo, você sabe o que é aerogel? Está lá na página 103 do livro: “substância estranha e maravilhosa” usada pela NASA na missão Stardust. A meta da Stardust era “descobrir que tipos de poeira espacial existem lá fora e coletar essas partículas sem estragá-las”. O autor então explica o que é o aerogel: “a coisa mais semelhante a um fantasma que já foi inventada. É um emaranhado seco e esponjoso de silício que consiste em 99,8% de nada. Quando uma partícula bate nesse emaranhado a velocidades hipersônicas, ela perfura seu caminho e aos poucos vem a parar, intacta”.

Vamos para um dado científico no capítulo 14, que trata da densidade das coisas: “Quando você sai da galáxia, deixa para trás quase todo o gás, poeira, estrelas, planetas e entulho. Você entra num vazio cósmico inimaginável. Vamos falar do vazio: um cubo d­e espaço intergaláctico de 200 mil quilômetros contém aproximadamente o mesmo número de átomos que o ar que preenche o volume utilizável de seu refrigerador. O cosmos não só ama o vácuo, ele é esculpido a partir dele”.

Mais à frente, num capítulo que fala sobre espectros de luz: “Uma coisa é saber que de vez em quando estrelas de alta massa explodem. As fotografias podem mostrar esse fenômeno. Mas os espectros de raio X e da luz visível dessas estrelas moribundas revelam um esconderijo de elementos pesados que enriquecem a galáxia e podem ser diretamente ligados aos elementos constituintes da vida sobre a Terra. Não só vivemos entre as estrelas, as estrelas vivem dentro de nós”. Isso é astrofísica, mas também poesia.

Outra passagem me remete diretamente a uma cena do filme Interestelar. DeGrasse Tyson afirma nas páginas 166/167 de Morte no Buraco Negro, sobre as sondas enviadas pelo homem ao espaço: “A história da descoberta humana é caracterizada pelo desejo ilimitado de estender os sentidos além de nossos limites inatos. É por meio desse desejo que abrimos novas janelas para o universo (...) as sondas espaciais controladas por computador, que podemos chamar corretamente de robôs, tornaram-se a ferramenta-padrão para a exploração espacial. Os robôs no espaço têm várias vantagens claras sobre os astronautas: são mais baratos de lançar; (...) e não são vivos em nenhum sentido tradicional da palavra, por isso não  podem ser mortos num acidente espacial”.

Eu ia discordar dessa passagem, baseando minha discordância na magnífica cena em que dr. Mann (Matt Damon), em Interestelar, percorre o planeta gelado e sem superfície e diz a Cooper: "Máquinas não funcionam bem (numa missão a outro mundo) porque não se programa o medo da morte".

Mas, no livro, logo após falar das supostas vantagens dos robôs sobre o homem, na exploração espacial, Tyson diz: “...Mas até que os computadores possam simular a curiosidade e as centelhas de insight humanas (...) os robôs continuarão sendo ferramentas projetadas para descobrir o que já esperamos encontrar”. Ao contrário do que parecia, isso acaba aproximando sua visão da abordagem do filme dirigido por Chris Nolan, cuja visão sobre o cosmos é claramente antropocêntrica, já que, em Interestelar, o homem é destinado a explorar e talvez conquistar um universo cujo único habitante civilizado e inteligente é (aparentemente) ele mesmo.

Aqui poderíamos voltar a Giordano Bruno (1548-1600) e fazer a analogia com nós mesmos (conosco, para usar um português mais culto, mas obsoleto), para dizer que, em nossa ignorância, talvez façamos hoje o papel que a Igreja Católica fazia no século XVI: acusamos de “hereges” (mas hereges científicos), hoje, os que acreditam em civilizações inteligentes extraterrestres, como os católicos acusavam Giordano Bruno de herege há quatro séculos. Assim é.

Finalizo citando o belíssimo capítulo 22 do livro Morte no Buraco Negro, no qual DeGrasse Tyson discorre sobre... É até difícil falar, porque é uma das coisas mais bonitas que já li. Trata da evolução das reações nucleares das estrelas primordiais: do hidrogênio, que se se funde em hélio, depois em carbono (fundamental à vida), depois em nitrogênio, oxigênio, sódio, magnésio, silício... até o ferro. “À exceção do hélio, que é quimicamente inerte, esses elementos são os principais elementos da vida assim como a conhecemos. Dada a variedade espantosa de moléculas que esses átomos podem formar, com eles próprios e com outros, é provável que eles sejam também os ingredientes da vida assim com não a conhecemos.”

Neil DeGrasse Tyson é um astrofísico conhecido por sua inserção na mídia. Ele apresentou a série de documentário Cosmos, um remake da série original criada por Carl Sagan nos anos 1980.

Carl Sagan, além de tudo o que é, é um personagem intimamente ligado à chamada mensagem de Arecibo. Pesquisem na internet, e vocês acharão informações interessantes.

Seja como for, na minha modesta e humilde opinião, nós não estamos sozinhos.

Leia também:

Interestelar: ficção inteligente, apesar de Hollywood

Um pouco mais sobre Interestelar

sábado, 21 de janeiro de 2017

Donald Trump: uma besta ou a besta?


Ou: Considerações acerca de uma incógnita


White House/Twitter

Enquanto assistia à posse do novo presidente dos Estados Unidos, pensamentos contraditórios passavam pela minha cabeça.

Não conseguia chegar a me definir se Trump seria um besta, ou a besta. No primeiro caso, segundo o Michaelis, “Que ou aquele que é grosseiro ou ignorante; burro”. Na segunda acepção, de acordo com o mesmo dicionário, termo bíblico que significa “animal simbólico, tido como responsável por grandes catástrofes” e que pode levar o mundo ao Apocalipse.

No discurso de posse, o 45° presidente dos Estados Unidos seguiu a receita da campanha vencedora e, depois de elogiar Obama e Michelle pela postura “magnífica” no processo de transmissão do cargo, logo assumiu sua personalidade truculenta e disparou: “Não estamos apenas transmitindo o poder de uma administração a outra, ou de um partido para outro, estamos transferindo o poder de Washington, DC, e devolvendo para vocês, o povo. Por tempo demais um pequeno grupo na capital da nação recebeu os louros do governo enquanto as pessoas pagaram pelo custo”.

Trump é um louco ou um demônio? Nenhum dos dois. É o resultado de inúmeros fatores conjugados. Logo após a eleição que colocou o republicano na Casa Branca, em 9 de novembro, Glenn Greenwald, no The Intercept, escreveu o que para mim é o melhor texto sobre os porquês da eleição que surpreendeu analistas e apostadores do mundo todo, principalmente os ligados ao establishment democrata norte-americano, texto que você pode ler na íntegra aqui: Democratas, Trump e a perigosa recusa em entender as lições do Brexit.

Dois trechos do texto acima mencionado:

1)as elites formadoras de opinião estavam unidas de uma forma extremamente incestuosa e tão distantes da população que decidiria essas eleições, sentiam tanto desprezo por ela, que não foram capazes de observar as tendências em favor de Trump e, além disso, aceleraram essas tendências involuntariamente com seu próprio comportamento”.

2)a escolha conivente que o Partido Democrata fez décadas atrás: abandonar seu apelo popular e se tornar o partido dos tecnocratas proficientes, dos gerentes do poder da elite pouco benevolentes. Essas são as sementes de cinismo e interesse próprio que foram plantadas, e agora essa plantação está sendo colhida. (E este trecho faz, não tão vagamente assim, lembrar o nosso Partido dos Trabalhadores no processo que – embora por meio de um golpe – o apeou do poder em 2016.)

Acredito que, se não se comportar de modo minimamente aceitável de acordo com que esperam dele os poderes ocultos e não ocultos dos Estados Unidos, a Roma contemporânea potencializada com um arsenal nuclear capaz de destruir o mundo várias vezes, Donald Trump será igualmente apeado do poder, de uma forma ou de outra, e não acredito que com gentileza. Como me disse o professor Luis Fernando Ayerbe, do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais da Unesp: “O receio do establishment é pelo estrago que Trump pode causar, por incompetência, improvisação, falta de visão estratégica. Ele preocupa fundamentalmente os setores do establishment tradicional, representados pelos que se reúnem em Davos, as chamadas elites orgânicas do capital" (a matéria da RBA com Ayerbe está aqui).

Embora eu tenha a tendência de não desconsiderar nem mesmo forças místicas que giram em torno do poder neste mundo de matéria densa, e apesar de em alguns momentos me parecer que Donald Trump pode até mesmo ser a besta, penso que ele está mais para um besta alucinado mesmo, do qual o povo americano pode se cansar bastante cedo, e aí o establishment terá a faca e o queijo na mão.

Seja como for, para nós brasileiros (e esta é outra coisa em que cada vez acredito mais), é provável que, se Donald Trump fosse presidente dos Estados Unidos no ano passado, Dilma Rousseff não teria sido deposta, pelo menos não com tanta facilidade. Trump parece não estar tão preocupado em interferir na vida de outros países como os “falcões” Obama e Hillary Clinton, como lembrou Ayerbe na matéria acima linkada. O que, aliás, pode até mesmo ser um dos motivos da irritação do establishment com o novo presidente. 

Teori Zavascki e o moralismo da esquerda brasileira


Nelson Jr./STF
As discussões, teses, análises e interpretações em torno da morte do ministro do STF, relator da Lava Jato no Supremo, vão continuar por muito tempo. No caso, a teoria da conspiração se justifica (e faço questão de dizer isso porque eu não sou adepto de teorias da conspiração, mas o caso Teori é muito estranho).  É bastante difundida a idéia de que coincidências não existem, seja sob a ótica espírita, seja sob a de analistas políticos racionalistas de credibilidade, para citar apenas duas vertentes.

O propósito deste post é só registrar meu espanto pela postura moralista, machista (e portanto injustificável) de setores da esquerda brasileira que usam como argumento contra Zavascki a "informação" de que ele estaria na companhia de uma (traduzindo) garota de programa no avião que caiu. São usados eufemismos, mas a tradução (maldosa) é de que ele estaria no avião na companhia de uma prostituta.

Quem difunde essa "informação" como argumento precisa refletir sobre seu papel, que não é, neste caso, digno de ser chamado de esquerdista. Quem difunde essa "informação" é direitista, mesmo sem saber. Roland Barthes afirmou que a opressão do homem pelo homem não se extinguiu com governos de esquerda (Rússia, Cuba etc.) porque a opressão está na linguagem, e não no sistema político.

Discuta-se o papel de Teori Zavascki enquanto relator da Lava Jato politicamente, suas relações com o empresário dono do avião etc. Ele tinha relações suspeitas com empresários? Que se investigue. Mas ninguém tem nada a ver com sua vida pessoal.

Quem se considera de esquerda e julga Teori Zavascki por supostamente estar na companhia de mulheres moralmente "suspeitas" no avião está fazendo o jogo da TV Globo. Mas, muito pior do que isso, reproduz uma visão moralista, machista e imbecil que assola o país.

Afinal, o que os esquerdistas têm contra as prostitutas?