Com o perdão do clichê, uma imagem vale mais do que mil
palavras. As fotos do Alexandre Maretti falam por si. Entre as imagens, a primeira e a terceira foram feitas na manifestação deste 15 de março de 2017 na Avenida Paulista. A do meio é um registro de um dia qualquer (na verdade, 25 de fevereiro) e serve como um símbolo do Brasil de 2017.
sexta-feira, 17 de março de 2017
Pensamento para sexta-feira [64] – Fotografia, Brasil, manifestações
domingo, 5 de março de 2017
Leonardo Barreto: "Congresso não encontraria presidente mais vassalo do que Temer"
"(...) dificilmente o Congresso encontraria um
presidente que fosse mais vassalo do Congresso do que o Temer. É um presidente
que presta muita vassalagem ao Congresso, o tempo inteiro."
Algumas passagens da entrevista que fiz com Barreto (íntegra
em link abaixo) para a RBA:
"Esse é um governo que para continuar operando tem que aprovar a agenda econômica, é uma questão de vida ou morte para eles. Eles foram empossados para isso, para executar uma agenda econômica. Mas, por outro lado, é um governo que não tem insensibilidade política. Se ele vê a resistência (contra a reforma da Previdência) aumentar e essa resistência se transformar num 'Fora, Temer', acho que ele abre mão, por algo como uma CPMF da Previdência, por exemplo. Se tem uma coisa que esses caras do PMDB sabem fazer é sobreviver politicamente (...).A resistência no Congresso já tem uma sinalização, eles vão insistir, mas se perceberem que vai haver um tensionamento na sociedade a ponto de uma ruptura, eles recuam."
"Esse é um governo que para continuar operando tem que aprovar a agenda econômica, é uma questão de vida ou morte para eles. Eles foram empossados para isso, para executar uma agenda econômica. Mas, por outro lado, é um governo que não tem insensibilidade política. Se ele vê a resistência (contra a reforma da Previdência) aumentar e essa resistência se transformar num 'Fora, Temer', acho que ele abre mão, por algo como uma CPMF da Previdência, por exemplo. Se tem uma coisa que esses caras do PMDB sabem fazer é sobreviver politicamente (...).A resistência no Congresso já tem uma sinalização, eles vão insistir, mas se perceberem que vai haver um tensionamento na sociedade a ponto de uma ruptura, eles recuam."
"(...) a reforma da Previdência vem num momento em que
a pressão por causa da Lava Jato aumenta – o STF liberando Valdir Raupp para
julgamento, o Luís Roberto Barroso sugerindo uma mudança de interpretação do
foro privilegiado, além do Janot anunciando que vai soltar uma segunda lista na
semana que vem. Com tudo isso você soma elementos para uma combustão e
capacidade explosiva gigante. Acho que o Congresso vai fazer uma coisa – que
não deixa de ser uma chantagem também contra a sociedade: vai dizer que só vota
medidas econômicas se tiverem um salvo-conduto. Não à toa, o Temer encarou o
desgaste gigante de nomear o Alexandre de Moraes no STF, para ter algum tipo de
controle. Num cálculo puramente político, Temer nunca bancaria o Alexandre de
Moraes. Mas ele banca porque precisa oferecer alguma coisa para esse pessoal da
auto-salvação, inclusive seus aliados e talvez ele mesmo."
"(...) qual seria o limite da paciência das pessoas
para elas voltarem à rua? Eu acho que estamos sempre muito próximos desse
limite. Se você lembrar, a gente já teve manifestação, o pessoal pediu 'Fora
Maia', 'Fora Renan', mas era um prenúncio. A gente está o tempo todo com o copo
bastante cheio, esperando a gota. Podem ser as delações da Odebrecht? Como está
tudo muito à flor da pele, às vezes um evento menor pode acordar o monstro e
acordar a rua. Dentro do sistema político não há nenhuma força que tenha
interesse e seja capaz de motivar um novo processo de ruptura política. A única
força capaz de fazer isso é a rua."
Aqui, a íntegra da entrevista: Congresso não encontraria presidente mais vassalo do que Temer, diz cientista político
Aqui, a íntegra da entrevista: Congresso não encontraria presidente mais vassalo do que Temer, diz cientista político
domingo, 26 de fevereiro de 2017
Caetano, Pelourinho, Bahia e "Fora, Temer"
Deve ter sido inesquecível a noite com Caetano no Pelourinho. Se você
conhece o Pelourinho, deve imaginar.
Só acho que a mídia de esquerda deve se preocupar em ser fiel ao que acontece, porque falsear as informações não é legal. Nós, do lado de cá, não estamos a reclamar o tempo todo que a mídia golpista faz isso? Caetano não gritou "Fora, Temer" no Pelourinho (se alguém puder me desmentir, por favor desminta).
Dito isso, parto para a questão: Caetano deveria ter gritado "Fora, Temer", reverberando o coro da massa no Pelourinho? Ou a presença desse senhor de 74 anos cantando Alegria, Alegria basta, como um catalisador, um agregador de forças (eu diria espirituais) de um Brasil ainda possível? Caetano não pronunciou a frase "Fora, Temer". Mas Caetano não estava lá para isso. Ele estava lá para agregar, para que o povo gritasse no carnaval da Bahia.
Dito isso, parto para a questão: Caetano deveria ter gritado "Fora, Temer", reverberando o coro da massa no Pelourinho? Ou a presença desse senhor de 74 anos cantando Alegria, Alegria basta, como um catalisador, um agregador de forças (eu diria espirituais) de um Brasil ainda possível? Caetano não pronunciou a frase "Fora, Temer". Mas Caetano não estava lá para isso. Ele estava lá para agregar, para que o povo gritasse no carnaval da Bahia.
Como eu adoro a Bahia, Salvador, os baianos
e Caetano com sua canção e poesia, acho que basta a presença
de Caetano no Pelourinho. Que imagem bonita! "Quem lê tanta notícia?" Ali e dali emana uma energia emblemática, simbólica,
poderosa, que se fixa na mente da História.
Foto: Eduardo Maretti/2007
Essa energia se espraia. Ela sai do Pelourinho e dali se
espraia pelo país, como uma fagulha de eletricidade. Como na Tropicália.
"A História é um carro alegre, cheio de um povo contente."
sábado, 25 de fevereiro de 2017
Vamos ver cinema? – uma pequena lista de grandes filmes
Antigamente a gente indicava filmes e as pessoas podiam ir à videolocadora e alugar, levar pra casa e assistir. Hoje, essa era romântica acabou, junto com as videolocadoras. Seja como for, seja no Netflix, na TV a cabo, baixando na internet ou por outra forma, qualquer um desses filmes listados abaixo deve agradar a amantes do cinema que gostam de aproveitar feriados para poder fazer coisas mais úteis do que não fazer nada, como ver um grande filme.
Os Imperdoáveis (Dir. Clint Eastwood - 1992).
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| Morgan Freeman e Clint Eastwood |
Era uma vez no Oeste (Dir. Sergio Leone - 1968) - O maior western de todos os tempos. Épico, antológico e genial. O texto publicado no blog é de Nicolau Soares e está no link: Era uma vez no Oeste.
Os outros (dir. Alejandro Amenábar - 2001). No gênero
"terror", uma obra-prima. Atuação magistral de Nicole Kidman. Mas o
termo "terror" não define este filme, que é mais próximo de uma
abordagem que eu considero espírita, comparável a O Sexto Sentido (direção
de M. Night Shyamalan – 1999). A resenha de Os Outros está
aqui: Os
outros, um filme espírita.
Interestelar (dir. de Christopher Nolan - 2014).
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| Matt Damon em Interestelar: interpretação magnífica |
Melancolia (dir.
Lars von Trier - 2011).
Um contraponto à ficção científica Interestelar, o filme
existencialista Melancolia, do diretor de Dogville e Dançando no
Escuro, é inquietante e belo. Quem conhece o cinema da Lars von Trier não deve se surpreender
com nada. Melancolia ("Melancholia", no original) é uma obra-prima
riquíssima em imagens e metáforas do diretor, dinamarquês como Sören
Kierkegaard.
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| Kirsten Dunst como Justine, no belíssimo Melancolia |
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| James Coburn e Rod Steiger |
The Ghost Writer (Dir. Roman Polanski)
The Ghost Writer, de Roman Polanski (2010). Ewan McGregor interpreta um ghost writer que acaba trabalhando para o primeiro-ministro britânico. Um thriller típico de Polanski.
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| Kim Cattrall e Ewan McGregor |
O thriller de Polanski, não ganhou o Urso
de Ouro em Berlim à toa. De fato, é um Polanski em grande forma. O diretor do antológico O Bebê de Rosemary continua
com seu estilo peculiar de fazer filmes. Quando você começa a se entediar achando
que o filme virou clichê, ele destrói o clichê. Como Coppola, Polanski usa bem
a máquina de Hollywood.
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| Vincent Gallo, em Tetro |
Um homem bom (Good, no original em inglês – direção: Vicente Amorim - 2008). O texto que publiquei no blog, Um homem tolo, foi escrito pelo companheiro Felipe Cabañas da Silva. Pode parecer um trocadilho infame, mas esse é talvez o mais delicado filme sobre o holocausto, muito valorizado pela atuação magistral de Viggo Mortensen como John Halder, um professor de literatura na Alemanha dos anos 30 que, devido a sua tese sobre a eutanásia, atrai a atenção do governo nazista. Halder/Mortensen se deixa envolver. A violência é psicológica, sem a híperdramatização fácil dos filmes do gênero. Uma curiosidade: o diretor do filme, Vicente Amorim, é filho do ex-ministro das Relações Exteriores Celso Amorim.
Sobre o mesmo tema holocausto, outro filme que vale a pena é O Menino do Pijama Listrado (dir. Mark Herman – 2008), uma impactante história de amizade entre dois meninos de sete ou oito anos, um judeu e um alemão.
Os Incompreendidos , de François Truffaut, é um filme que sempre vamos assistir com emoção.
A delicadeza com que o cineasta francês trata do tema da difícil adolescência de um menino rejeitado pelos pais – que odeia a escola, que descobre que a mãe tem um amante e, diante de tantas dificuldades, foge de casa – é muito diferente da proposta de permanente manifesto do cinema de seu contemporâneo, colega de Nouvelle Vague e amigo, depois inimigo, Jean-Luc Godard.
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| Frances McDormand |
Fargo,
um clássico dos irmãos Coen (1996). Em termos de thriller policial, é um dos
meus filmes preferidos. A direção de atores de Ethan e Joel Cohen já vale a
pena. Frances McDormand (à direita) como a policial provinciana de Dakota do
Norte é uma interpretação magistral, assim como de todo o elenco. Com o perdão
do trocadilho, crítica violenta à cultura da violência dos Estados
Unidos. Escrevi sobre Fargo neste
link.
Os Incompreendidos , de François Truffaut, é um filme que sempre vamos assistir com emoção.
A delicadeza com que o cineasta francês trata do tema da difícil adolescência de um menino rejeitado pelos pais – que odeia a escola, que descobre que a mãe tem um amante e, diante de tantas dificuldades, foge de casa – é muito diferente da proposta de permanente manifesto do cinema de seu contemporâneo, colega de Nouvelle Vague e amigo, depois inimigo, Jean-Luc Godard.
É difícil citar apenas um filme de Pasolini para colocá-lo
na série Favoritos do cinema. Não dá para começar a falar do diretor
italiano sem citar pelo menos cinco filmes:
- Accattone (1961)
- Mamma Roma (1962)
- Il vangelo secondo Matteo (1964)
- Uccellacci e uccellini (em português, Gaviões e passarinhos, 1966)
- Salò o le 120 giornate di Sodoma (em português, Salò ou os 120 dias de Sodoma, 1975).
Mais sobre esse grande cineasta neste link .
- Accattone (1961)
- Mamma Roma (1962)
- Il vangelo secondo Matteo (1964)
- Uccellacci e uccellini (em português, Gaviões e passarinhos, 1966)
- Salò o le 120 giornate di Sodoma (em português, Salò ou os 120 dias de Sodoma, 1975).
Mais sobre esse grande cineasta neste link .
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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017
Grandes atores (7): Leonardo DiCaprio
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| Em O Aviador, faz o excêntrico Howard Hughes |
Leonardo DiCaprio, na minha opinião, divide com Matt Damon um lugar na galeria de grandes atores de sua geração. Nascido em 11 de novembro de 1974 (nativo de escorpião), com 42 anos, é quatro anos mais novo do que Damon.
Como já escrevi em outro post, DiCaprio não está sempre trabalhando
com grandes diretores por acaso. Senão vejamos: atuou em filmes de Quentin
Tarantino (Django Livre - 2012), Clint Eastwood (Edgar - 2011), Steven
Spielberg (Prenda-me se For Capaz - 2002), Woody Allen (Celebridades - 1998) e
outros. Com Martin Scorsese, diretor com o qual tem o "casamento"
mais bem sucedido, o ator tem sua mais ampla parceria no cinema: foi
protagonista de O Aviador (2004), Gangues de Nova York (2002), Os
Infiltrados (2006), A Ilha do Medo (2010) e O Lobo de Wall
Street (2013). Em Os Infiltrados, aliás, um thriller policial, faz ótimo "dueto" com Matt Damon.
O time de diretores não é pouca coisa e já quer dizer muito.
Mas se você assistir a Edgar, O Aviador ou Django Livre, por exemplo, verá que
DiCaprio é dos atores que, como já disse em algum lugar, fazem um filme ser diferenciado, já que seus
personagens são dotados de alma. Tire DiCaprio de O Aviador, filme com quase
três horas de duração, mas que você não vê passar. Além da excelente trama e roteiro, que conta a vida do milionário
Howard Hughes (1905-1976), o filme tem cenas como na epifânica sequência em
que Hughes/DiCaprio filma (filme dentro do filme) um combate de Hell's Angels,
produção de cinema que “na vida real” o empresário lançou em 1930 com
estrondoso sucesso ao custo astronômico, para a época, de quase 4 milhões de
dólares. A interpretação do ator no filme é magistral.
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| Em Prenda-me se For Capaz, de Spielberg, um genial falsário, |
Em Django Livre, uma espécie de western em quadrinhos em forma de filme, ao estilo de Tarantino, que pode levar você à gargalhada ou às lágrimas, DiCaprio faz o vilão: o senhor de fazenda escravagista Calvin Candie. No filme, ele contracena com Jamie Foxx (que faz Django) e o espetacular Christoph Waltz (atua no ótimo Deus da Carnificina, de Polanski, e Bastardos Inglórios, também de Tarantino).
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| Como o vilão Calvin Candie, em Django Livre |
Escrevi no post anterior já citado (de 2014) que talvez DiCaprio, então com apenas 39 anos, precisasse de um pouco mais de estrada em sua carreira para amadurecer e se tornar realmente um dos grandes. Fazendo pequena correção, parece-me que ele já é.
Se você pesquisar sobre o ator, verá que ele é "mais
conhecido" pelos papeis de Jack Dawson, em Titanic, e Romeu, em Romeu e
Julieta. Dois filmes menores que não vi nem verei. Também não assisti a O
Regresso (dir. de Alejandro Iñárritu),
pelo qual ganhou o Oscar. Quero ver este fime,
que une DiCaprio e Iñárritu, diretor de Babel (2006) e 21 Gramas (2003).
A biografia do ator tem uma curiosidade. Segundo consta, seu
nome teria sido inspirado, de acordo com sua mãe, porque ele teria
dado seu primeiro pontapé quando ela, grávida, contemplava um quadro de
Leonardo da Vinci na Itália. Mas essa história precisaria ser checada talvez
com o próprio Leonardo DiCaprio...
Gandes atores (1): Anthony Hopkins, Gene Hackman, Marlon Brando, Rod Steiger
Gandes atores (2): Henry Fonda
Gandes atores (3): Paulo José: Macunaíma, Quincas Berro D'Água e O Palhaço
Gandes atores (4) Selton Melo
Gandes atores (2): Henry Fonda
Gandes atores (3): Paulo José: Macunaíma, Quincas Berro D'Água e O Palhaço
Gandes atores (4) Selton Melo
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017
Juca Ferreira: "Estamos vivendo um momento em que reina a mediocridade e a boçalidade"
Reprodução/Youtube/Instituto Lula
Conversei ontem com o ex-ministro da Cultura Juca Ferreira.
Como “militei” muitos anos em jornalismo cultural, sei bem como a cultura é, ou
era (nas redações dos jornais, por exemplo), a primeira coisa a se cortar em
épocas de crise.
Não é diferente no Brasil de Temer, com a diferença que aqui
e hoje, a devastação é mais generalizada do que talvez jamais tenha sido.
Disse Juca sobre o momento em que chegamos na história:
“Acabamos de sair do período mais longo de estabilidade e a
democracia mostrou que é um ambiente favorável para o desenvolvimento da
cultura brasileira e nós representamos isso (...) ". Agora, a reação
da área cultural é enorme, a consciência do negativo.
“(...) Eles agora vêm de novo ceifando tudo o que foi
construído, não só na área da cultura, mas nos direitos conquistados, leis
trabalhistas, aposentadoria, direitos das mulheres, avanços na relação entre
negros e brancos. Eles são devastadores. Como se quisessem nos reduzir a
uma republiqueta de banana. “
Sobre cinema brasileiro:
“Tudo indica que vão pra cima agora de uma das políticas
mais bem sucedidas, que é a do cinema. Só não foram ainda porque a Ancine tem
mandato e eles foram obrigados a respeitar o mandato. Mas estão se preparando
para atacar também.
“Só para você ter uma ideia, quando o Lula assumiu, em 2003,
eram produzidos menos de dez filmes por ano. Com a política desenvolvida pelo
Estado brasileiro – Minc e Ancine –, hoje são 150 filmes por ano.”
“(...) O Collor extinguiu a Embrafilme e depois os
tucanos não fizeram nada, pelo contrário, partiram da tese de que isso é
monopólio dos americanos, que o Brasil não tinha que se meter nesse assunto.
Fomos nós, no governo Lula e depois Dilma, que desenvolvemos toda uma política
pública de apoio ao cinema, aos artistas, empresas, em todo o território
brasileiro.”
A íntegra da entrevista está aqui.
sábado, 11 de fevereiro de 2017
As maravilhas do cosmos: de Giordano Bruno ao buraco negro! – segundo a astrofísica
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| Nebulosa da Águia, também conhecida como M16, uma das mais famosas imagens do Hubble |
“Em 1584, em seu livro De l’infinito universo e mondi, o
monge e filósofo italiano Giordano Bruno propôs a existência de ‘inumeráveis
sóis’ e ‘inumeráveis Terras (que) giram em torno desses sóis’. Além disso, ele
afirmava, baseando-se na premissa de um criador glorioso e onipotente, que cada
uma dessas Terras tem habitantes vivos. Por esses e outros delitos blasfemos,
Bruno foi queimado na fogueira por ordem da Igreja Católica.”
Esse é um pequeno trecho do capítulo 7 do belíssimo livro
Morte no buraco negro e outros dilemas cósmicos, de Neil deGrasse Tyson (editora Planeta), que
estou lendo, uma verdadeira viagem pelo conhecimento e o cosmos, e seus infinitos
mistérios e maravilhas.
Por exemplo, você sabe o que é aerogel? Está lá na página
103 do livro: “substância estranha e maravilhosa” usada pela NASA na
missão Stardust. A meta da Stardust era “descobrir que tipos de poeira espacial
existem lá fora e coletar essas partículas sem estragá-las”. O autor então
explica o que é o aerogel: “a coisa mais semelhante a um fantasma que já
foi inventada. É um emaranhado seco e esponjoso de silício que consiste em
99,8% de nada. Quando uma partícula bate nesse emaranhado a velocidades hipersônicas,
ela perfura seu caminho e aos poucos vem a parar, intacta”.
Vamos para um dado científico no capítulo 14, que trata da
densidade das coisas: “Quando você sai da galáxia, deixa para trás quase todo o
gás, poeira, estrelas, planetas e entulho. Você entra num vazio cósmico
inimaginável. Vamos falar do vazio: um cubo de espaço intergaláctico de 200
mil quilômetros contém aproximadamente o mesmo número de átomos que o ar que
preenche o volume utilizável de seu refrigerador. O cosmos não só ama o vácuo,
ele é esculpido a partir dele”.
Mais à frente, num capítulo que fala sobre espectros de luz:
“Uma coisa é saber que de vez em quando estrelas de alta massa explodem. As
fotografias podem mostrar esse fenômeno. Mas os espectros de raio X e da luz
visível dessas estrelas moribundas revelam um esconderijo de elementos pesados
que enriquecem a galáxia e podem ser diretamente ligados aos elementos constituintes
da vida sobre a Terra. Não só vivemos entre as estrelas, as estrelas vivem
dentro de nós”. Isso é astrofísica, mas também poesia.
Outra passagem me remete diretamente a uma cena do filme
Interestelar. DeGrasse Tyson afirma nas páginas 166/167 de Morte no Buraco Negro,
sobre as sondas enviadas pelo homem ao espaço: “A história da descoberta humana
é caracterizada pelo desejo ilimitado de estender os sentidos além de nossos
limites inatos. É por meio desse desejo que abrimos novas janelas para o
universo (...) as sondas espaciais controladas por computador, que podemos
chamar corretamente de robôs, tornaram-se a ferramenta-padrão para a exploração
espacial. Os robôs no espaço têm várias vantagens claras sobre os astronautas:
são mais baratos de lançar; (...) e não são vivos em nenhum sentido tradicional
da palavra, por isso não podem ser mortos
num acidente espacial”.
Eu ia discordar dessa passagem, baseando minha discordância na magnífica cena em
que dr. Mann (Matt Damon), em Interestelar, percorre o planeta gelado e sem superfície e
diz a Cooper: "Máquinas não funcionam bem (numa missão a outro mundo)
porque não se programa o medo da morte".
Mas, no livro, logo após falar das supostas vantagens dos robôs
sobre o homem, na exploração espacial, Tyson diz: “...Mas até que os
computadores possam simular a curiosidade e as centelhas de insight humanas
(...) os robôs continuarão sendo ferramentas projetadas para descobrir o que
já esperamos encontrar”. Ao contrário do que parecia, isso acaba aproximando
sua visão da abordagem do filme dirigido por Chris Nolan, cuja visão sobre o cosmos é
claramente antropocêntrica, já que, em Interestelar, o homem é destinado a
explorar e talvez conquistar um universo cujo único habitante civilizado e
inteligente é (aparentemente) ele mesmo.
Aqui poderíamos voltar a Giordano Bruno (1548-1600) e fazer
a analogia com nós mesmos (conosco, para usar um português mais culto, mas
obsoleto), para dizer que, em nossa ignorância, talvez façamos hoje o papel que
a Igreja Católica fazia no século XVI: acusamos de “hereges” (mas hereges científicos),
hoje, os que acreditam em civilizações inteligentes extraterrestres, como os
católicos acusavam Giordano Bruno de herege há quatro séculos. Assim é.
Finalizo citando o belíssimo capítulo 22 do livro Morte no Buraco Negro, no qual
DeGrasse Tyson discorre sobre... É até difícil falar, porque é uma das coisas
mais bonitas que já li. Trata da evolução das reações nucleares das estrelas
primordiais: do hidrogênio, que se se funde em hélio, depois em carbono
(fundamental à vida), depois em nitrogênio, oxigênio, sódio, magnésio,
silício... até o ferro. “À exceção do hélio, que é quimicamente inerte, esses
elementos são os principais elementos da vida assim como a conhecemos. Dada a
variedade espantosa de moléculas que esses átomos podem formar, com eles
próprios e com outros, é provável que eles sejam também os ingredientes da vida
assim com não a conhecemos.”
Neil DeGrasse Tyson é um astrofísico conhecido por sua
inserção na mídia. Ele apresentou a série de documentário Cosmos, um remake da
série original criada por Carl Sagan nos anos 1980.
Carl Sagan, além de tudo o que é, é um personagem
intimamente ligado à chamada mensagem de Arecibo. Pesquisem na internet, e
vocês acharão informações interessantes.
Seja como for, na minha modesta e humilde opinião, nós não
estamos sozinhos.
Leia também:
Interestelar: ficção inteligente, apesar de Hollywood
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sábado, 21 de janeiro de 2017
Donald Trump: uma besta ou a besta?
Ou: Considerações acerca de uma incógnita
White House/Twitter
Não conseguia chegar a me definir se Trump seria um besta,
ou a besta. No primeiro caso, segundo o Michaelis, “Que ou aquele que é
grosseiro ou ignorante; burro”. Na segunda acepção, de acordo com o mesmo
dicionário, termo bíblico que significa “animal simbólico, tido como
responsável por grandes catástrofes” e que pode levar o mundo ao Apocalipse.
No discurso de posse, o 45° presidente dos Estados Unidos
seguiu a receita da campanha vencedora e, depois de elogiar Obama e Michelle
pela postura “magnífica” no processo de transmissão do cargo, logo assumiu sua
personalidade truculenta e disparou: “Não estamos apenas transmitindo o poder
de uma administração a outra, ou de um partido para outro, estamos
transferindo o poder de Washington, DC, e devolvendo para vocês, o povo. Por
tempo demais um pequeno grupo na capital da nação recebeu os louros do governo
enquanto as pessoas pagaram pelo custo”.
Trump é um louco ou um demônio? Nenhum dos dois. É o
resultado de inúmeros fatores conjugados. Logo após a eleição que colocou o
republicano na Casa Branca, em 9 de novembro, Glenn Greenwald, no The
Intercept, escreveu o que para mim é o melhor texto sobre os porquês da eleição
que surpreendeu analistas e apostadores do mundo todo, principalmente os
ligados ao establishment democrata norte-americano, texto que você pode ler na
íntegra aqui: Democratas, Trump e a perigosa recusa em entender as lições do Brexit.
Dois trechos do texto acima mencionado:
1) “as elites formadoras de opinião estavam unidas de uma
forma extremamente incestuosa e tão distantes da população que decidiria essas
eleições, sentiam tanto desprezo por ela, que não foram capazes de observar as
tendências em favor de Trump e, além disso, aceleraram essas tendências
involuntariamente com seu próprio comportamento”.
2) “a escolha conivente que o Partido Democrata fez décadas
atrás: abandonar seu apelo popular e se tornar o partido dos tecnocratas
proficientes, dos gerentes do poder da elite pouco benevolentes. Essas são as
sementes de cinismo e interesse próprio que foram plantadas, e agora essa
plantação está sendo colhida. (E este trecho faz, não tão vagamente assim,
lembrar o nosso Partido dos Trabalhadores no processo que – embora por meio de
um golpe – o apeou do poder em 2016.)
Acredito que, se não se comportar de modo minimamente
aceitável de acordo com que esperam dele os poderes ocultos e não ocultos dos
Estados Unidos, a Roma contemporânea potencializada com um arsenal nuclear
capaz de destruir o mundo várias vezes, Donald Trump será igualmente apeado do poder,
de uma forma ou de outra, e não acredito que com gentileza. Como me disse o professor Luis Fernando Ayerbe, do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais da Unesp: “O receio do establishment é pelo estrago que Trump pode
causar, por incompetência, improvisação, falta de visão estratégica. Ele
preocupa fundamentalmente os setores do establishment tradicional,
representados pelos que se reúnem em Davos, as chamadas elites orgânicas do
capital" (a matéria da RBA com Ayerbe está aqui).
Embora eu tenha a tendência de não desconsiderar nem mesmo forças
místicas que giram em torno do poder neste mundo de matéria densa, e apesar de
em alguns momentos me parecer que Donald Trump pode até mesmo ser a besta,
penso que ele está mais para um besta alucinado mesmo, do qual o povo americano
pode se cansar bastante cedo, e aí o establishment terá a faca e o queijo na
mão.
Seja como for, para nós brasileiros (e esta é outra coisa em
que cada vez acredito mais), é provável que, se Donald Trump fosse presidente
dos Estados Unidos no ano passado, Dilma Rousseff não teria sido deposta,
pelo menos não com tanta facilidade. Trump parece não estar tão preocupado em
interferir na vida de outros países como os “falcões” Obama e Hillary Clinton, como lembrou Ayerbe na matéria acima linkada.
O que, aliás, pode até mesmo ser um dos motivos da irritação do establishment
com o novo presidente.
Teori Zavascki e o moralismo da esquerda brasileira
Nelson Jr./STF
As discussões, teses, análises e interpretações em torno da
morte do ministro do STF, relator da Lava Jato no Supremo, vão continuar por
muito tempo. No caso, a teoria da conspiração se justifica (e faço questão de
dizer isso porque eu não sou adepto de teorias da conspiração, mas o caso Teori
é muito estranho). É bastante difundida
a idéia de que coincidências não existem, seja sob a ótica espírita, seja sob a
de analistas políticos racionalistas de credibilidade, para citar apenas duas
vertentes.
O propósito deste post é só registrar meu espanto pela
postura moralista, machista (e portanto injustificável) de setores da esquerda
brasileira que usam como argumento contra Zavascki a "informação" de
que ele estaria na companhia de uma (traduzindo) garota de programa no avião
que caiu. São usados eufemismos, mas a tradução (maldosa) é de que ele estaria
no avião na companhia de uma prostituta.
Quem difunde essa "informação" como argumento precisa
refletir sobre seu papel, que não é, neste caso, digno de ser chamado de
esquerdista. Quem difunde essa "informação" é direitista, mesmo sem
saber. Roland Barthes afirmou que a opressão do homem pelo homem não se extinguiu
com governos de esquerda (Rússia, Cuba etc.) porque a opressão está na
linguagem, e não no sistema político.
Discuta-se o papel de Teori Zavascki enquanto relator da
Lava Jato politicamente, suas relações com o empresário dono do avião etc. Ele
tinha relações suspeitas com empresários? Que se investigue. Mas ninguém tem
nada a ver com sua vida pessoal.
Quem se considera de esquerda e julga Teori Zavascki por supostamente
estar na companhia de mulheres moralmente "suspeitas" no avião está
fazendo o jogo da TV Globo. Mas, muito pior do que isso, reproduz uma visão moralista,
machista e imbecil que assola o país.
Afinal, o que os esquerdistas têm contra as
prostitutas?
sábado, 14 de janeiro de 2017
Um pouco mais sobre Interestelar
![]() |
| Cooper (Matthew McConaughey) com dra Brand (Anne Hathaway ) |
Depois de rever Interestelar, confesso ser necessário
escrever um segundo post sobre este belo filme, que é um dos que hoje eu
colocaria entre os dez de uma lista de DVDs que levaria a uma ilha deserta
(onde tivesse como reproduzir, é claro), para fugir da solidão.
Também minha crítica ao diretor Chris Nolan foi talvez um
pouco exagerada. Meu amigo Emerson Lopes esclareceu, via Facebook, que Nolan já
declarou que Interestelar foi uma singela homenagem a 2001, de Kubrick. Humildade
faz bem. É evidente que minha ranzinzice do primeiro post não tem a capacidade
de diminuir o trabalho de Nolan como diretor do filme.
O fato é que Interestelar emociona.
O som como que primevo a perpassar o filme; o som metafísico
quando aparece a nave Endurance; o som que marca o tempo no planeta de Miller, som
de relógio que dá uma carga de dramaticidade extrema à cena (uma das mais
espetaculares do filme) naquele planeta de água onde cada hora equivale a sete
anos terrestres e onde a gravidade é
130% a da terra.
A discussão sobre o tempo. A impossibilidade de mudar o passado.
A discussão sobre o tempo. A impossibilidade de mudar o passado.
O diálogo do astronauta Cooper (Matthew
McConaughey) com a filha Murph (Mackenzie Foy): "Só estamos aqui como lembrança dos filhos...
Quando você tem filhos, você se torna fantasma do futuro deles", diz ele à
filha inconformada pela partida do pai para uma jornada talvez sem retorno.
A sequência da partida de Cooper, da fazenda para o espaço.
A sequência do relógio quando Murph entende o código
binário.
Achados. Como Cooper, na varanda de sua fazenda com o sogro
Donald (John Lithgow), em cena que depois se repete quase exatamente, mas num
contexto em que seu interlocutor já não é humano, mas um robô.
O desespero para comunicar à filha Murph os dados quânticos
em alguma região da quinta dimensão.
A busca humana por sua perpetuação diante de um cenário de
morte em que a Terra está se extinguindo ("A humanidade nasceu na terra
mas não está destinada a morrer aqui").
No post anterior eu critiquei o fato de o filme necessitar
de um vilão. Mas até isso é justificável, já que uma pessoa na situação de dr. Mann
(hibernando num tanque em um planeta onde a vida é impossível) facilmente
enlouqueceria, mesmo sendo um genial cientista. Aliás, a interpretação de Matt
Damon é magistral. Até mesmo dentro de um capacete sua expressividade é
impressionante. "Máquinas não funcionam bem (numa missão a outro mundo) porque
não se programa o medo da morte", diz ele a Cooper enquanto exploram o
planeta gelado e morto.
As interpretações dos atores, até mesmo de Anne Hathaway
como dra. Brand (mea culpa), que se não é nenhuma Meryl Streep, pelo menos tem
uma atuação discreta. No post anterior creio que fui um pouco inclemente na
minha crítica com a atriz.
Três atrizes interpretam a filha de Cooper e cientista Murph.
Mackenzie Foy (na infância), Jessica Chastain (juventude e fase adulta) e Ellen
Burstyn (na velhice). Três belas interpretações. Isso para não falar de Michael
Caine como dr. Brand, pai da astronauta.
Os robôs TARS e CASE, que podem ser programados para ter
senso de humor e graus de sinceridade, que parecem aranhas geométricas
inteligentes e desempenham papel importante como personagens.
A fotografia deslumbrante do filme, combinada à música.
O conteúdo científico e a onipresente Teoria da Relatividade
Geral, de Einstein, assim como outros conceitos, entre os quais do "buraco
de minhoca", e elementos cósmicos como o buraco negro.Li alguns textos idiotas na "grande mídia" que
procuravam defeitos científicos no filme. Todos textos rasos e estúpidos,
escritos por gente que não conhece nada de ciência. (A má-fé e/ou ignorância da
mídia não tem a ver apenas com a política.)
Li também um tal crítico num blog falando
mal do filme por sua "inconsistência tonal". Provavelmente um
acadêmico mal humorado com problemas no fígado que quer aparecer em cima de
algo infinitamente maior do que ele. Deve adorar Gritos e Susurros de Bergman.
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Leia também: Interestelar: ficção inteligente, apesar de Hollywood
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Leia também: Interestelar: ficção inteligente, apesar de Hollywood
sexta-feira, 13 de janeiro de 2017
Marco Aurélio sobre impeachment: "O que houve foi uma deliberação das duas casas do Congresso"
Reproduzo aqui, ipis litteris, a entrevista que fiz hoje, para a Rede Brasil Atual
Carlos Humberto/STF
O ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, refuta a ideia de que a mais alta corte do país tenha sido conivente com o impeachment, segundo a expressão jurídica, ou golpe, de acordo com o termo político utilizado pelos representantes da esquerda brasileira. “O que houve foi uma deliberação, e deliberação das duas casas do Congresso. Em segundo lugar, nós ocupamos uma cadeira de envergadura maior. E não estamos engajados em qualquer política governamental”, disse Marco Aurélio à RBA.
A reversão do impeachment de Dilma Rousseff é defendida
como viável por juristas como o procurador da República Eugênio Aragão.
Empossado em 13 de junho de 1990, o ministro Marco
Aurélio discorda de que o país sofreu um golpe. “Não, de forma alguma”, diz.
Como o sr. avalia a tese de que a única forma de o país sair
da crise é a anulação do impeachment, cujo julgamento está no STF?
Se está no STF eu não posso antecipar qualquer ideia. Vamos
aguardar. Mas, evidentemente, foi uma fase que ficou para trás. Precisamos
esperar. Não conheço inclusive a articulação que se faz. Eu não poderia mesmo
emitir (opinião) por uma questão de dever profissional.
Qual articulação?
A articulação nas ações. Há vários mandados de segurança no
Supremo.
Há muito questionamento sobre por que o Supremo não se
pronuncia, já que o impeachment é um caso muito importante. Por quê? Poderíamos
explicar?
Porque a sobrecarga é inimaginável, considerando uma Suprema
Corte. Nós não somos mais operadores do Direito, nós somos estivadores do
Direito. É algo que, se você revela, por exemplo, a um integrante de um
tribunal estrangeiro, a esse nível, ele pensa até que é irreal. Por isso é que viemos apagando simplesmente incêndios, e a
jurisdição fica prejudicada em termos de celeridade.
Alguns juristas afirmam que, por omissão, o STF participa do
que eles chamam de golpe. O sr. teria algum comentário sobre isso?
Não, de forma alguma. De forma alguma. Primeiro, não cogito,
em si, de golpe. O que houve foi uma deliberação, e deliberação das duas casas
do Congresso. Em segundo lugar, nós ocupamos uma cadeira de envergadura maior.
E não estamos engajados em qualquer política governamental. A política presente
no Supremo é institucional e voltada a tornar prevalecente a lei das leis da
República, que é a Constituição.
O Legislativo representa a sociedade hoje?
É a premissa, e eles devem estar atentos aos anseios de
sociedade.
Mas parece que não estão, não é?
Não, eu não emito impedimento a respeito. Que cada qual faça
a sua parte. E apenas digo que em época de crise devemos guardar princípios,
sendo até um pouco ortodoxos nessa guarda.
Como um dos ministros mais antigos do STF, o sr. vislumbra
alguma saída para o país, que continua mergulhado numa crise profunda?
Nós estamos sangrando por motivos diversos. Evidentemente,
devemos procurar correção de rumos, dias melhores para o povo brasileiro.
Procurar um outro sistema político?
Não, precisamos ter uma compenetração maior, principalmente
da parte dos homens públicos quanto ao avanço cultural.
Avanço cultural que no nosso caso continua no século
passado...
Pois é, e com um mercado desequilibrado em que os jovens não
têm a menor chance de se realizarem. Isso é preocupante. Nós temos um
desequilíbrio marcante entre empregos e mão de obra. Houve um crescimento
demográfico desenfreado. Basta lembrar o chavão da Copa de 1970: “90 milhões de
brasileiros em ação”. Hoje, em plena crise, somos quase 210 milhões, um
crescimento de mais de 130% em cerca de 45 anos.
quinta-feira, 29 de dezembro de 2016
O Brasil de 2016: o país do golpe, do desencanto e da barbárie
Alguns amigos não entendem muito bem minha desesperança com
a política e com o Brasil. A questão é que esse desencanto não tem a ver apenas
com política, mas com o nível moral (espiritual) em que está ancorado este país,
este povo, e não apenas a chamada classe dominante, as "elites" -
"não há vítimas inocentes" (Sartre). Tenho amigos que desprezam a
religiosidade, outros que dela zombam, mas outros alimentam as coisas do
Espírito.
Para ilustrar o que quero dizer, repito o que disse no Facebook:
A selvageria assassina materializada no metrô de SP esta semana (quando o vendedor
Luiz Carlos Ruas, de 54 anos, foi assassinado por dois monstros por defender travestis
agredidas por esses mesmos monstros) só mostra algo que tenho pensado e falado
para as pessoas mais próximas: o Brasil é um lixo de país.
Eu sou espírita. Tenho amigos católicos e de religiões afro.
Principalmente entre os católicos, há entre eles quem tenha sido barbaramente
torturado durante a ditadura iniciada em 1964. Depois de décadas de luta pela
democracia, vimos o que aconteceu em 2016: um golpe sórdido, mas no entanto tão
fácil como tirar pirulito da boca de uma criança.
Esse trágico desenlace (que pode fazer o país retroceder
décadas do pouco avanço que conseguiu depois de séculos de exploração feudal) mostrou
quão pusilânime é o chamado "povo" brasileiro. Perdoem-me, mas, de
certa maneira, os monstros assassinos do metrô são como que a cara moralmente
radicalizada desse mesmo povo. Claro, só psicopatas como os assassinos do metrô teriam coragem de protagonizar a
barbárie, mas muitos e muitos a apoiam. Sim, apoiam. Basta ler comentários em sites e redes sociais.
Vejo esse povo nas ruas, no supermercado, na padaria. Ou
vocês acreditam que esse povo vai sair às ruas, às centenas de milhares,
defender... a democracia, os direitos do cidadão e do trabalhador?!
***
Estou terminando de ler um livro sobre o qual já escrevi
neste blog, Os Cátaros e a Heresia Católica, de Hermínio C.
Miranda . É uma abordagem historiográfica (sob um ponto de vista
espírita) muito interessante sobre os cátaros, um povo que tentou implementar
no mundo (a partir da Europa, particularmente no sul da França), entre os
séculos 12 e 13 de nossa era, o cristianismo do Cristo, e que foi sufocado e
eliminado brutalmente pela Igreja Católica de Roma.
Os cátaros, considerados hereges pela Santa Sé, foram
perseguidos pelas Cruzadas e pela Inquisição implacavelmente, humilhados e queimados
vivos em fogueiras enormes em nome de... Cristo!, eles que pretenderam
justamente defender as ideias trazidas pelo próprio Jesus. Morreram queimados
como morreram apedrejados e crucificados e nas arenas romanas os primeiros
cristãos, no início.
Digo isso como uma livre-associação.
Encerro dizendo: depois de tudo o que aconteceu
politicamente em 2016, notícias como a desse crime bárbaro no metrô de SP
apenas reforçam que este país é isso mesmo, um lixo. Desculpem a sinceridade.
Mas, se fosse possível, eu gostaria de fazer um acordo com Deus: que na próxima
encarnação me permita nascer em outro lugar. Neste aqui não acredito mais.
Cada vez mais acredito que só há uma solução: a
transformação interior, a partir da qual se pode espraiar a transformação do
mundo. Como ensinaram entidades como Jesus, Buda, Mahatma Gandhi e outros.
sábado, 24 de dezembro de 2016
O Natal, segundo Carlos Drummond de Andrade
Organiza o Natal*
Carlos Drummond de Andrade
Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10
meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo,
essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E
não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria
do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas
obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom.
Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas. Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagüi ou com o vestido de baile. E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.
Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afetuoso. A crítica de arte se dissolverá jovialmente, a menos que prefira tomar a forma de um sininho cristalino, a badalar sem erudição nem pretensão, celebrando o Advento.
A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro.
A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.
Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz.
O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.
Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível.
A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã.
O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive.
E será Natal para sempre.
Ah! Seria ótimo se os sonhos do poeta se transformassem em realidade.
*Texto extraído do livro "Cadeira de Balanço", Livraria José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1972, pág. 52.
Ainda sobre religiosidade:
Pensata sobre Maria Madalena a partir de uma notícia
Os cátaros, a política, o espiritismo
quinta-feira, 15 de dezembro de 2016
Duas passagens que tive com Dom Paulo Evaristo Arns
Reprodução/Youtube
Não vou repetir dados e informações biográficas sobre
dom Paulo Evaristo Arns, que foram
divulgadas à exaustão hoje (ontem).
Quero apenas contar duas passagens de minha vida em que tive
a honra de, mesmo que rapidamente, trocar algumas palavras com esse grande
homem.
Uma foi em 2000, no dia da eleição que levou Marta Suplicy à
prefeitura de São Paulo. Chegávamos à PUC-SP, para votar. Quando passávamos
pela entrada da universidade, à rua Monte Alegre, um carro parou e dele desceu dom Paulo Evaristo Arns. Surpresos com a feliz coincidência (mas dizem que
coincidências não existem) dirigimo-nos a ele, dizendo algo como "veio
votar, Dom Paulo?", só para ter algo o que ouvir dele.
Com o olhar carismático e expressivo, e o falar calmo
característico dos homens que têm todas as coisas para dizer, e, sabedores
disso, sempre falam sem pressa, ele fixou os olhos nos olhos da Carmem e disse:
"chegou a hora das mulheres", com um sorriso convicto e alegre.
A outra ocasião foi ainda antes, cerca de um ano depois da
eleição de Luiza Erundina (1988). Era um evento no Tuca, o teatro da PUC de
tantas histórias, e eu, jornalista ainda muito jovem, me candidatei a fazer uma
pergunta ao arcebispo. Lembro que, diante daquela sumidade que tanto e sempre
respeitei, ao dirigir-me para pegar o microfone eu tremia. A insegurança de
jovem jornalista cresceu enormemente
naquele momento, naquela situação. É que a gente se sente pequeno às vezes,
quando está diante de alguém espiritualmente poderoso como ele.
Minha pergunta foi o que ele podia comentar sobre o papel decisivo
da Igreja, a qual ele comandava em São Paulo como arcebispo, na eleição de
Erundina. (No dia da eleição, a Folha de S. Paulo dera uma matéria de página
inteira, sob o título: "Igreja libera fiéis para voto em Erundina" --
cito o título de memória, que pode ser diferente em algum detalhe, mas era esse
essencialmente. Não há dúvida de que Dom Paulo foi decisivo naquela eleição.)
Hoje, 27 anos depois, não me lembro nem mesmo qual foi exatamente a
resposta de Dom Paulo. Mas foi uma resposta política, como se dissesse que o que tinha de ser feito já fora feito.
Enfim, dom Paulo Evaristo Arns, aos 95 anos, terminou sua
missão. Uma grande missão, cumprida com honra, serenidade e disposição para
ajudar a melhorar o mundo.
sábado, 3 de dezembro de 2016
Interestelar: ficção inteligente, apesar de Hollywood
![]() |
| Anne Hathaway: cenas espetaculares, atuação medíocre |
Sou apaixonado por filmes de ficção científica. Infelizmente, são poucos os que se salvam. Dos que vi, 2001: Uma Odisseia no Espaço (direção de Stanley Kubrick de 1968 - baseado no livro de Arthur Clarke), é o melhor. Não à toa, já que Kubrick é um gênio que soube usar as benesses de Hollywood para fazer uma obra definitiva no cinema. Blade Runner (Ridley Scott - 1982) é outro. E podemos pôr um etcétera aí.
Mas quero falar, brevemente, do filme Interestelar (no
original, Interstellar), de 2014, dirigido pelo obscuro Christopher Nolan, o
tipo de diretor que não faz diferença, já que, se não fosse ele, outro faria a
mesma coisa -- mais ou menos melhor ou pior.
Mas o filme, como resultado, é interessante e inteligente,
descontando os hollywoodianismos (a tendência ao happy end, a necessidade do
vilão, da luta física etc.).
Interestelar traz à ficção científica no cinema abordagens
que a ciência dominante, a ciência canônica, não considerava comprováveis há
apenas algumas décadas, como o buraco de minhoca, que em inglês é wormhole (este termo, na legenda do canal HBO, não é traduzido - o termo inglês worm significa mais "verme" do que "minhoca"). O buraco de minhoca continua sendo uma teoria contestada, mas já é considerada mais do que mera teoria. Outro conceito abordado pelo filme é o do buraco negro.
De fato emociona a maneira como o filme mostra o passado
como uma dimensão irrecuperável, inclusive considerando Albert Einstein e sua
Teoria da Relatividade. Não há na física a possibilidade de você mudar o
passado. O filme Interestelar joga fora abordagens tolas como a do
filme De
Volta para o Futuro (filme fascinante, mas tolo, do ponto de vista da
Física).
Interestelar é um filme antropocêntrico, como a visão do cientista Marcelo Gleiser, por exemplo. Ou seja, incorpora
a concepção de que o ser humano é a única entidade comprovadamente (mas comprovada pelo homem) inteligente do cosmos e
está destinado a povoar o universo. É uma tese hoje contestada. Há setores na Ciência que discordam de que o ser humano seja o único inteligente
no cosmos. O problema é que não há provas de que não estamos sós. Mas há muitas indicações de que está prestes a ser comprovado que não, nós não somos os únicos: o ceticismo de Marcelo Gleiser está ultrapassado.
Para finalizar, a produção de Interestelar resolveu muito mal o
papel da astronauta dra. Brand, interpretada pela péssima Anne Hathaway, que
mais parece uma coelhinha da Playboy do que uma cientista ou uma astronauta. Mesmo assim, ela protagoniza cenas espetaculares, como quando a missão da Nasa chega a um planeta estranho coberto por água, e os astronautas são surpreendidos por... Mas não vou contar.
Já o galã Matthew McConaughey, como o astronauta Cooper, foi
uma aposta vencedora. Está muito bem no papel do comandante da missão destinada
a encontrar um destino para a espécie humana para além de nossa galáxia. De
resto, o desempenho de Jessica Chastain (no papel de Murph como filha adulta de
Cooper) é muito superior ao da medíocre Anne Hathaway como a protagonista dra.
Brand. No filme, o excelente Michael Caine faz o pai da dra. Brand.
Infelizmente, como é Hollywood, os pecados se sucedem. Por
exemplo: o filme tem um elenco estelar, com o perdão do trocadilho. Além de
Michael Caine, traz como coadjuvante Matt Damon, uma real estrela da nova geração de Hollywood (junto, por exemplo, com Leonardo DiCaprio). Um luxo, ter Matt Damon como
coadjuvante. Só que, ao invés de aproveitar o personagem de Matt Damon, a
produção-direção, na minha modesta opinião, desperdiça a chance. Porque Hollywood precisa de heróis e vilões,
precisa do bem e do mal, e jogam fora o luxo de ter o ator em seu elenco.
Seja como for, Interestelar é um filme bastante
interessante. Merece ser visto. Assista.
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Leia mais: Um pouco mais sobre Interestelar
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Leia mais: Um pouco mais sobre Interestelar
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