quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Grandes atores (1)


Estava eu zapeando quando parei em um filme que passava na televisão. Palavras ao Vento (direção de Douglas Sirk, 1956). Um melodrama hollywoodiano desinteressante, mas que traz em seu elenco o ator Robert Stack. Um ator medíocre, mas que minha mãe adorava, sobretudo por seu papel na antiga série Os Intocáveis, em que interpretava o agente Eliot Ness. Se fosse viva, dona Leila ficaria brava comigo por chamar de medíocre o galã Stack/Ness, mas, infelizmente, essa bronca ela não vai me dar.

Seja como for, o acaso (“o senhor de todas as coisas” – Buñuel) me levou a ver um trecho do filme e aqui estou para falar de atores. Grandes atores não são uma espécie muito comum, apesar dos zilhões de filmes que existem no mundo e de muitas vezes as pessoas confundirem beleza e glamour com arte dramática. O que é ser um grande ator?

Brando, grande dos grandes
Um grande ator é uma criatura que deixa de existir para dar lugar a um outro espírito, como um médium. Nesse sentido (e a subjetividade é inevitável ao se elencar nomes de qualquer gênero de arte), para mim, o grande dos grandes é Marlon Brando (1924-2004). Esse ator monstruoso que interpretou Don Vito Corleone em O Poderoso Chefão (Coppola, 1972), Emiliano Zapata em Viva Zapata! (Elia Kazan, 1952), Terry Malloy em Sindicato dos Ladrões (Elia Kazan, 1954), Walter E. Kurtz em Apocalypse Now (Coppola, 1979), entre tantos outros. Há uma sequência em O Poderoso Chefão que é impossível ver sem se emocionar: quando Don Corleone fica sabendo da morte de seu primogênito Sonny e em seguida dá as ordens para o dono da funerária fazer o “serviço” para que a mãe não veja o corpo do filho “massacrado”. A emoção aqui não se dá por artifícios de cena, por influência musical, por melodramatização de roteiro, mas unicamente pela interpretação de Brando.

Truman Capote, no belíssimo ensaio "O duque em seu domínio" (no livro Ensaios), descreve Brando, a quem conheceu ao fazer com ele uma entrevista em 1956, e fala da “facilidade de camaleão com que Brando adquiria as cores cruéis e duras do personagem, com que soberba, como uma salamandra sinuosa, ele se vestia com o papel, como sua persona evaporava”. Conta também Capote que Elia Kazan disse: – Marlon é simplesmente o melhor ator do mundo.

Bem, quem sou eu para discordar de Elia Kazan?

Hackman, durão e genial
Há atores que muitas vezes são coadjuvantes, mas, como coadjuvantes ou protagonistas, fazem invariavelmente de sua atuação a própria alma de um filme. Esse é o caso do genial Gene Hackman. Ele mostra por que é um dos melhores atores do mundo em filmes como A conversação (Coppola, 1974), Mississipi em Chamas (Alan Parker, 1988), Os Imperdoáveis (Clint Eastwood, 1992). Cito apenas três grandes filmes (porque do contrário este post seria uma enfadonha listagem de filmes), mas Hackman é daqueles atores que fazem com que você veja uma película só por vê-lo atuar, mesmo que o filme seja meia-boca. É outro monstro, com o perdão da repetição.

Hopkins, mestre
Anthony Hopkins é mais um que incorpora o espírito de criaturas que passam a existir graças a um talento assombroso. Em O Silêncio dos Inocentes (Jonathan Demme, 1991), a impressão que se tem é que o impiedoso personagem, o assassino Hannibal Lecter, se torna o mestre da policial Clarice Starling exatamente como o ator Hopkins se transforma no mentor de Jodie Foster. É com uma fascinação ao mesmo tempo iluminada e sombria que Starling/Foster interage com o criminoso Hannibal/Hopkins. Isso não se daria se o ator fosse outro que não Anthony Hopkins. O filme seria outro, indefinidamente inferior.

Esse é um filme paradigmático de uma grande atuação, porque Hopkins opera no personagem uma transformação que vai da brutalidade à doçura, da contemplação à explosão assassina, e essas nuances ele expressa em sua face como se fossem, cada uma, a face mesma da brutalidade, da doçura, da contemplação e da selvageria. É uma das maiores atuações que já vi.

Quem viu Quando Explode a Vingança (Sergio Leone, 1971) sabe por que outro que deve figurar em uma lista dessas é Rod Steiger (1925-2002). No papel do bandido Juan Miranda, contracenando com o ótimo James Coburn (que faz o terrorista John H. Mallory), ele emociona com o simples talento de interpretar.
Rod Steiger como bandido Juan Miranda
Rod Steiger atuou também em Al Capone (Richard Wilson, 1959), interpretando o personagem-título, e Doutor Jivago (David Lean, 1965), como Komarovsky, entre muitos outros, claro.

A responsabilidade do diretor certamente tem muito a ver com o fato de um ator conseguir uma grande interpretação. Isso é mais ou menos óbvio, pois os grandes se procuram. Não é mero acaso, por exemplo, que Elia Kazan e Marlon Brando trabalhavam juntos; ou que Coppola tenha procurado Brando, Al Pacino, James Caan, Robert Duvall ( esses quatro fazem parte da constelação impressionante de O Poderoso Chefão), ou Gene Hackman e outros. Essa simbiose entre grandes diretores e grandes atores é natural, como é em qualquer profissão.

O que é interessante é quando um ator que se tem como medíocre um dia tenha atuação que faz você pensar: "nossa, mas esse cara é bom pra cacete!" E você fica com uma sensação de que é um ignorante que nunca entendeu, nem intuitivamente, do que seja uma interpretação. É o caso de John Travolta, que, como ator, sempre foi um ótimo dançarino. Mas aí você assiste a Pulp Fiction (Quentin Tarantino, 1995) e fica admirado, e pensa: “meu deus, mas o John Travolta é muito bom!” Nesse caso, penso eu, trata-se apenas de um milagre de que um grande diretor como Tarantino é capaz. De fato, Travolta estraçalha nesse filme. Mas cite outro!

Acontece também o contrário. Atores que parecem enormemente talentosos e de repente decaem para um limbo de mediocridade inexplicável. Esse é o caso de Johnny Depp. Quem viu Dead Man (Jim Jarmusch,1994) e Antes do Anoitecer (Julian Schnabel, 2000), no qual Depp interpreta magistralmente dois papéis, um policial e um travesti, e hoje vê a lista de lixo industrial-cultural a que Depp se submete para rechear sua conta bancária fica espantado.

Cabe lembrar que nem sempre um grande ator é uma estrela, e já escrevi sobre isso aqui, a propósito de Vincent D’Onofrio.

Mas, enfim, esse post para por aqui. O assunto vai longe. Voltarei para continuar a falar do tema e de outros atores (e também de atrizes, claro), alguns dos quais já citados de passagem neste post, e outros não.

Leia também:

Vincent D'Onofrio: um grande ator nem sempre é um superstar

Gandes atores (2): Henry Fonda

Gandes atores (3): Paulo José: Macunaíma, Quincas Berro D'Água e O Palhaço

5 comentários:

sell disse...

Muito interessante sua abordagem.você citou três atores que sempre me chamaram a atenção pela capacidade de mudar suas fisionomias para poder interpretar seus personagens: John Travolta, Johnny Deep e Vincente D'Onofrio. Meu preferido sempre foi D'Onofrio, mas um admirador de Travolta perguntou o que fazia dele, D'Onofrio ter a fama de ' camaleão', se Travolta, era capaz de se transformar completamente por um personagem também. Fiquei meio que sem resposta.Mas então lendo seu artigo, suas palavras iniciais a qual você se referiu a Brando poderiam ser a resposta que procurava. ISSO faz a diferença entre D'Onofrio e Travolta. Amo Deep, mas sequer tenho visto seu rosto debaixo de tanta caricatura que ele anda interpretando ultimamente, principalmente às mãos do diretor Tim Burton. espero ter a oportunidade de ler seu próximo artigo sobre o assunto.

Alexandre M disse...

Ótimo esse assunto. Um grande cineasta sempre irá exigir de um a ator toda sua essência.
Lembro de Robert De Niro em Taxi Driver, de Scorsese, ou na interpretação de Don Corleone mais jovem, num dos filmes da trilogia de Coppola,e De Niro ainda em Era uma vez na América, do próprio Leone, no elenco, a bela Jennifer Connelly.
Jack Nicholson em O Iluminado de Stanley Kubrick.

Edu Maretti disse...

Com certeza, escreverei em breve (quiçá antes do carnaval) um próximo artigo sobre o assunto.

De Niro e Nicholson, como não? Kubrick, como não?

Obrigado pelos comentários.

Abraços



Paulo M disse...

Muito bom o post.
Eu estava pesquisando na Internet sobre o bom "Pat Garrett e Billy The Kid", de Sam Peckinpah, achando que o filme, que vi há anos, tivesse sido estrelado por Paul Newman. Mas não. Newman fez "Butch Cassidy and the Sundance Kid".
Pat Garrett foi interpretado pelo mesmo James Coburn, de "Quando explode a vingança", mencionado no post.
Falando em westerns, uma das maiores interpretações que vi no cinema: a de Henry Fonda no papel de Frank, contracenando com Charles Bronson, em "Era uma vez no oeste", obra-prima de Sergio Leone.
Marcelo Mastroiani também merece menção, falar em cinema italiano.

Edu Maretti disse...

Pois é, como falei no post, esse papo vai longe... Henry Fonda é outro monstro.

Mastroiani, ecco! Talvez eu escreva uma hora um "Grandes atores" não americanos, pra fazer um recorte...

valeu