quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Moniz Bandeira: "a Sra. Marina Silva joga o PSB na lixeira"


Inúmeros sites publicaram a carta do historiador e cientista político Luiz Alberto Moniz Bandeira, que dispensa apresentações, ao presidente do PSB, Roberto Amaral, sobre o partido ter permitido que Marina Silva "entrasse" na legenda. Não sei onde a carta foi publicada primeiro. Mas é um documento contundente que deve ser registrado e reproduzido. Na carta, Moniz Bandeira recomenda a Roberto Amaral "que renuncie à presidência do PSB" e afirma que "a Sra. Marina Silva joga e afunda (o PSB) na lixeira".

Reprodução/Youtube/Café na Política


Estimado colega, Prof. Dr. Roberto Amaral
Presidente do PSB,

A Srª Marina Silva tinha um percentual de intenções de voto bem maior do que o do governador Eduardo Campos, mas não conseguiu registrar seu partido – Rede Sustentabilidade – e sair com sua própria candidatura à presidência da República.

O governador Eduardo Campos permitiu que ela entrasse no PSB e se tornasse candidata a vice na sua chapa. Imaginou que seu percentual de intenções de voto lhe seria transferido.

Nada lhe transferiu e ele não saiu de um percentual entre 8% e 10%. Trágico equívoco.

Para mim era evidente que Sra. Marina Silva não entrou no PSB, com maior percentual de intenções de voto que o candidato à presidência, para ser apenas vice.

A cabeça de chapa teria de ser ela própria. Era certamente seu objetivo e dos interesses que representa, como o demonstram as declarações que fez, contrárias às diretrizes ideológicas do PSB e às linhas da soberana política exterior do Brasil.

Agourei que algum revés poderia ocorrer e levá-la à cabeça da chapa, como candidata do PSB à Presidência.

Antes de que ela fosse admitida no PSB e se tornasse a candidata a vice, comentei essa premonição com grande advogado Durval de Noronha Goyos, meu querido amigo, e ele transmitiu ao governador Eduardo Campos minha advertência.

Seria um perigo se a Sra. Marina Silva, com percentual de intenções de voto bem maior do que o dele, fosse candidata a vice. Ela jamais se conformaria, nem os interesses que a produziram e lhe promoveram o nome, através da mídia, com uma posição subalterna, secundária, na chapa de um candidato com menor peso nas pesquisas.

O governador Eduardo Campos não acreditou. Mas infelizmente minha premonição se realizou, sob a forma de um desastre de avião. Pode, por favor, confirmar o que escrevo com o Dr. Durval de Noronha Goyos, que era amigo do governador Eduardo Campos.

Uma vez que há muitos anos estou a pesquisar sobre as shadow wars e seus métodos e técnicas de regime change, de nada duvido. E o fato foi que conveio um acidente e apagou a vida do governador Eduardo Campos. E assim se abriu o caminho para a Sra. Marina Silva tornar-se a candidata à presidência do Brasil. 

Afigura-me bastante estranho que ela se recuse a revelar, como noticiou a Folha de S.Paulo, o nome das entidades que pagaram conferências, num total (que foi, declarado) de R$1,6 milhão (um milhão e seiscentos mil reais), desde 2011, durante três anos em que não trabalhou. Alegou a exigência de confidencialidade. Por que a confidencialidade? É compreensível porque talvez sejam fontes escusas. O segredo pode significar confirmação. 

Fui membro do PSB, antes de 1964, ao tempo do notável jurista João Mangabeira. Porém, agora, é triste assistir que a Sra. Marina Silva joga e afunda na lixeira a tradicional sigla, cuja história escrevi tanto em um prólogo à 8ª edição do meu livro O Governo João Goulart, publicado pela Editora UNESP, quanto em O Ano Vermelho, a ser reeditado (4a edição), pela Civilização Brasileira, no próximo ano.

As declarações da Sra. Marina Silva contra o Mercosul, a favor do subordinação e alinhamento com os Estados Unidos, contra o direito de Cuba à autodeterminação, e outras, feitas em vários lugares e na entrevista ao Latin Post, de 18 de setembro, enxovalham ainda mais a sigla do PSB, um respeitado partido que foi, mas do qual, desastrosamente, agora ela é candidata à presidência do Brasil.

Lamento muitíssimo expressar-lhe, aberta e francamente, o que sinto e penso a respeito da posição do PSB, ao aceitar e manter a Sra. Marina Silva como candidata à Presidência do Brasil.

Aos 78 anos, não estou filiado ao PSB nem a qualquer outro partido. Sou apenas cientista político e historiador, um livre pensador, independente. Mas por ser o senhor um homem digno e honrado, e em função do respeito que lhe tenho, permita-me recomendar-lhe que renuncie à presidência do PSB, antes da reunião da Executiva, convocada para sexta-feira, 27 de setembro. Se não o fizer – mais uma vez, por favor, me perdoe dizer-lhe – estará imolando seu próprio nome juntamente com a sigla.

As declarações da Sra. Marina Silva são radicalmente incompatíveis com as linhas tradicionais do PSB. Revelam, desde já, que ela pretende voltar aos tempos da ditadura do general Humberto Castelo Branco e proclamar a dependência do Brasil, como o general Juracy Magalhães, embaixador em Washington, que declarou: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil.”

Cordialmente,

Prof. Dr. Dres. h.c. Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Pra não dizer que não falei de Luciana Genro


O que penso sobre o PSOL e Luciana Genro já escrevi aqui.

Acho que o PSOL tem uma visão míope sobre ser de esquerda. Tanto é que não é incomum que o partido se una ao PSDB em vários parlamentos do país. Basta procurar na internet para achar exemplos. Se consideram que ser de esquerda é posicionar-se radicalmente contra o PT e colocá-lo no mesmo saco que o PSDB e se, ao atacar o partido de Lula citando o "mensalão", por exemplo, corroboraram as decisões juridicamente absurdas de Joaquim Barbosa (ao lado da TV Globo e toda a mídia conhecida), só se pode ver miopia no PSOL. Ou algo pior: "uma estratégia eleitoreira das mais tradicionais", como observou o Felipe Cabañas da Silva em comentário ao post anterior acima citado/linkado: o PSOL "precisa desconstruir a imagem do PT enquanto partido de esquerda para disputar a fatia progressista do eleitorado e se viabilizar como alternativa de poder".

Seja como for, apesar de minhas críticas e ressalvas feitas, a candidata do PSOL à presidência da República aplicou um nocaute incontestável no tucano Aécio Neves, no debate promovido pela Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) na terça-feira (16). Por isso, a pouco mais de duas semanas do primeiro turno, fica o registro. Para quem não viu a única passagem importante do debate.





segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Dilma tem o apoio de quem não pensa só em si



Chico, Fernando Morais, Nachtergaele e Beth  
Luis Fernando Veríssimo, Chico Buarque, Matheus Nachtergaele, Beth Carvalho, Paulo Betti, Hugo Carvana, Ivana Bentes e Maria da Conceição Tavares, entre muitos outros artistas, intelectuais, produtores culturais e jornalistas assinam o manifesto de apoio à candidatura de Dilma Rousseff.

Segundo o manifesto,“o Brasil precisa de mudanças, como as manifestações de rua do ano passado revelaram (...) aprofundar as transformações na educação e na saúde públicas, na agricultura, consolidando com ousadia as políticas de cultura, meio ambiente, ciência e tecnologia, e combatendo, sem trégua, todas as discriminações (...) o Brasil precisa urgentemente de uma reforma política. Mas precisa mudar avançando e  não recuando ".

Deve-se notar que há algumas vozes dissonantes. As de Caetano Veloso e Gilberto Gil, por exemplo, que declararam voto em Marina Silva. Tempos atrás, dona Canô, mãe de Caetano, puxou a orelha do filho publicamente, porque ele tinha chamado Lula de "analfabeto", e declarou voto em Dilma. Infelizmente, dona Canô já morreu. Nada contra Caetano ou Gil votarem em Marina. É da democracia. Mas Caetano dizer que Marina representa a "chegada de evidentes fenótipos negros no posto da Presidência da República. Isso não é pouco", é bastante ridículo. "É a sociedade brasileira se movimentando para crescer com dores suportáveis", escreveu ainda Caetano, que tem uma obra tão bonita, e poderia nos poupar de tamanhas tolices.

Abaixo, a íntegra do documento assinado por Luis Fernando Veríssimo, Chico Buarque, Matheus Nachtergaele etc:

Os brasileiros decidem agora se o caminho em que o país está desde 2003 é positivo e deve ser mantido, melhorado e aprofundado, ou se devemos voltar ao Brasil de antes - o do desemprego, da entrega, da pobreza e da humilhação.

Nós consideramos que nunca o Brasil havia vivido um processo tão profundo e prolongado de mudança e de justiça social, reconhecendo e assegurando os direitos daqueles que sempre foram abandonados. Consideramos que é essencial assegurar as transformações que ocorreram e ocorrem no país, e que devem ser consolidadas e aprofundadas. Só assim o Brasil será de verdade um país internacionalmente soberano, menos injusto, menos desigual, mais solidário.

Abandonar esse caminho para retomar fórmulas econômicas que protegem os privilegiados de sempre seria um enorme retrocesso. O brasileiro já pagou um preço demasiado para beneficiar os especuladores e os gananciosos. Não se pode admitir voltar atrás e eliminar os programas sociais, tirar do Estado sua responsabilidade básica e fundamental.

O Brasil precisa, sim, de mudanças, como as próprias manifestações de rua do ano passado revelaram. Precisa, sem dúvida, reformular as suas políticas de segurança pública e de mobilidade urbana. Precisa aprofundar as transformações na educação e na saúde públicas, na agricultura, consolidando com ousadia as políticas de cultura, meio ambiente, ciência e tecnologia, e combatendo, sem trégua, todas as discriminações.

O Brasil precisa urgentemente de uma reforma política. Mas precisa mudar avançando e não recuando. Necessita fortalecer e não enfraquecer o combate às desigualdades. O caminho iniciado por Lula e continuado por Dilma é o da primavera de todos os brasileiros. Por isso apoiamos Dilma Rousseff.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Pensamento para sexta-feira [53]
Eleições: Veredas



"(...) Olhe: o que devia de haver, era de se reunirem-se os sábios, políticos, constituições gradas, fecharem o definitivo a noção - proclamar por uma vez, artes assembléias, que não tem diabo nenhum, não existe, não pode. Valor de lei! Só assim, davam tranquilidade boa à gente. Por que o Governo não cuida?!
Ah, eu sei que não é possível. Não me assente o senhor por beócio. Uma coisa é pôr idéias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias...Tanta gente - dá susto de saber - e nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuva e negócios bons..."

(Guimarães Rosa - trecho de Grande Sertão: Veredas, a partir de post de Gabriel Megracko no Facebook)

Ilustração: Poty (do livro Sagarana/1980- Livraria José Oympio)

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O racismo é inadmissível e é crime, mas é à Justiça que cabe julgar. E condenar





Concordo plenamente com a exclusão do Grêmio de Porto Alegre da Copa do Brasil pelas atitudes racistas de sua torcida contra o goleiro Aranha, do Santos, na semana passada. Aliás, defendi isso na minha página do Facebook: “Enquanto não houver severas punições aos clubes (perda de pontos, multas pesadas etc) casos absurdos como o do goleiro ... vão continuar acontecendo”, escrevi lá no dia 28. Por incrível que pareça, houve quem discordasse de que o clube deveria ser punido.

Acho que não apenas a garota Patrícia, mas todos os que têm esse tipo de comportamento devem ser alvo da justiça, de acordo com investigações sérias e isentas, e impedidos de entrar nos estádios. As investigações devem chegar à torcida organizada, no caso a gremista, que, segundo depoimentos, incentiva, dissemina e pratica o racismo em suas manifestações.

O racismo é hoje inadmissível de acordo com qualquer parâmetro legal e de defesa dos direitos humanos. E é absurdo principalmente no Brasil, país multicultural e que tem na miscigenação das raças e culturas uma de suas maiores belezas.

Mas acho também que o devido processo legal e o direito à ampla defesa devem ser assegurados às pessoas que são acusadas de qualquer coisa. O Direito prevê punições e também atenuantes para qualquer crime, dependendo de inúmeras circunstâncias.

À Justiça é que cabe julgar. Estamos numa República, e não em um Estado teocrático. Determina a Constituição brasileira que “aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa” (inciso LV do artigo 5º) e que “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória” (inciso LVII do mesmo artigo).

Violência e linchamentos morais ou físicos, midiáticos ou perpetrados por pessoas, o ódio e a vingança não levam a construir nada. Não são justiça. Pelo contrario, só alimentam o conflito e fomentam o ódio num moto-contínuo sem fim. Há incontáveis casos para comprovar isso, é só buscar na memória. 

Essa histeria punitiva que cerca o caso Grêmio é apenas um exemplo. Há outros, de outro gênero, como o caso do "mensalão",  muito diferente, que vai ser esclarecido pela história, isso é certo, mas até lá a injustiça, a afronta a direitos constitucionais básicos, já estará mais do que consumada. Há o antigo caso da escola Base.

Na mídia, o que não falta são justiceiros, mas não cabe à mídia fazer justiça, embora ela própria tenha se autodenominado "o quarto poder" e seus representantes acreditem nisso.

Há alguns meses uma mulher inocente foi linchada por ser confundida com uma criminosa no litoral de São Paulo porque uma horda de ignorantes e criminosos achou por bem fazer justiça pelas próprias mãos, talvez alguns deles com a cabeça cheia de recalques alimentados por ódios pessoais e midiáticos bem-intencionados e politicamente corretos.

A sede de vingança distorce e deteriora as relações sociais.

E, como se diz, de boas intenções o inferno está cheio.

sábado, 30 de agosto de 2014

Marina se dobra a Malafaia. Imagine Marina presidente



Malafaia comemora no Twitter o recuo de Marina e ataca Jean Wyllys









Marina Silva deu a primeira grande brecha em sua campanha. Apenas 24 horas depois de lançar seu programa de governo, no qual defendia o casamento civil entre homossexuais, ela voltou atrás. A campanha da candidata alegou, em nota oficial, que o recuo foi causado por “uma falha de diagramação”. “Agora, a nova redação não defende alterações na legislação. Ressalta apenas a garantia 'de direitos oriundo da união civil entre pessoas do mesmo sexo', o que já foi reconhecido pelo Supremo Tribunal Federal (STF)”, esclarece matéria do Correio Braziliense. Ontem, no lançamento do seu programa de governo, Marina Silva já  havia dito, sobre o aborto, que defende o que prevê a lei já existente.

Mas isso não é tudo. A candidata do PSB recuou após pressão feita pelo deputado Silas Malafaia em sua conta no Twitter. Depois da divulgação do programa de governo de Marina, Malafaia chamou a proposta sobre a causa LGBT de “vergonha pior do que do PT e do PSDB”.  "Aguardo até segunda uma posição de Marina. Se isso não acontecer, na terça será a mais dura fala que já dei até hoje sobre um presidenciável", escreveu no twitter.

 O jornalista Ricardo Noblat, que todo mundo sabe não ser nenhum esquerdista que come criancinha, escreveu: "Pegou mal. Ontem, Marina retificou parte do seu programa de governo sobre energia nuclear. Hoje, sobre LGBT. O que de fato ela pensa?"

“Bastaram quatro tuites do pastor Malafaia para que, em apenas 24 horas, a candidata se esquecesse dos compromissos de ontem, anunciados em um ato público transmitido por televisão, e desmentisse seu próprio programa de governo, impresso em cores e divulgado pelas redes”, escreveu o deputado do PSOL do Rio de Janeiro Jean Wyllys no Facebook. “Marina, você não merece a confiança do povo brasileiro!”, acrescentou o parlamentar.

Imaginem Marina presidente do Brasil. Cedendo a pressões das bancadas mais reacionárias da política brasileira e do Congresso Nacional. Manipulável por neopentecostais, ruralistas, banqueiros e grandes empresários. E com uma fraqueza política comparável a Collor e Jânio Quadros.

Seria o pior dos mundos.

Chame-se Marina do que for, menos de "nova política" ou "terceira via"






O que explica que Marina Silva, uma candidata sem partido (hospedada temporariamente no PSB para não ficar de fora das eleições presidenciais deste ano), com um discurso que alterna diletantismo e conservadorismo, em crise com sua base política, alçada à condição de candidata pelo acaso e ainda com propostas confusas para diversas áreas, possa aparecer como uma opção viável de "terceira via" ou "nova política"?

Creio que, em parte, porque o massacre midiático anti-PT atingiu níveis críticos e, neste ano, parte expressiva do eleitorado está mais preocupada com quem vai sair do que com quem vai entrar, o que costuma ser uma opção eleitoral suicida.

Por outro lado, o PSDB passa por uma séria crise (a não ser, evidentemente, em seu feudo particular, o estado de São Paulo), e não se apresenta mais, mesmo com o candidato que muitos chegaram a ver como o mais promissor desde FHC, como opção de transformação. Esta mesma crise passará a rondar o PT se o partido perder o governo federal e não perceber que é já hoje um partido que carece de reformulação e da ascensão de novas lideranças, como Fernando Haddad.

De todo modo, podemos dizer que, se há uma "imprensa de oposição" (e há, embora alguns veículos assumam oficialmente, como o próprio Estadão, e outros não), o tiro da campanha negativa anti-PT sairá pela culatra: o preço será a promoção de uma incógnita, ao contrário do que seria a eleição de Aécio Neves.

*******

Nos últimos dias temos ouvido falar da candidatura de Marina Silva como "terceira via". Creio que este é um conceito maltratado, muito mal utilizado e, com toda a certeza, boa parte do suposto eleitorado da ex-petista não tem a menor ideia do que seja.

Em termos de pensamento político no pós-guerra fria, terceira via significa sobretudo o meio termo entre o capitalismo liberal e socialismo de Estado, este último supostamente morto com a queda do muro. No caso, configurou-se na década de 1990 sobretudo como uma proposta socialdemocrata – e, por isso, com muitas raízes fincadas na esquerda, no pensamento progressista –, tendo Anthony Giddens como referência importante.

Ora, companheiros, não é preciso ser nenhum gênio para compreender que o governo do PT configura-se como uma via entre o capitalismo liberal desenfreado e o socialismo dirigista de Estado – tanto é que apanha tanto da extrema-esquerda, que gostaria de ver um governo mais radical, quanto da direita liberal por ser "muito estatista".

O que quero dizer é: um candidato que se assume como "Terceira Via" deve, antes, dizer a qual conceito de terceira via se refere. Se Marina Silva se refere ao conceito socialdemocrata de terceira via, ela está obviamente perdida politicamente, não conseguindo enxergar que o governo atual é, já, uma terceira via.

Se quer definir uma outra terceira via, deveria deixar claro em que ela consiste; se se refere unicamente a uma terceira via enquanto "mais uma opção além de PT-PSDB", está usando o conceito de forma equivocada. Enfim, chame-se a candidata do que for, menos de "nova política", e dificilmente de "terceira via".

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Sobre eleições e teorias da conspiração



Valter Campanato/Agência Brasil
Marina e Roberto Amaral, presidente do PSB

Raramente gosto de conversar quando surge qualquer teoria da conspiração. Acho um tipo de raciocínio anti-historicista. São sofismas, e sofismas simplistas.

Lembremos o que é sofisma, segundo o dicionário (Houaiss): “argumento ou raciocínio concebido com o objetivo de produzir a ilusão da verdade, que, embora simule um acordo com as regras da lógica, apresenta, na realidade, uma estrutura interna inconsistente, incorreta e deliberadamente enganosa”.

As teorias conspiratórias nascem sempre de fatos importantes. Em vez de raciocinar sobre causas e efeitos (políticos, esportivos, cotidianos ou cósmicos), a mente do teórico-conspiratório projeta uma explicação simplificada do que acha que serve a suas premissas (quase sempre falsas) e produz a tal ilusão. Quando se sentem incapazes de explicar alguma coisa, as pessoas tendem a procurar deuses, fantasias ou ilusões.

Todas as teorias conspiratórias me irritam. Seja na política, seja no futebol.

A tragédia da queda do avião de Eduardo Campos, que na minha opinião fez mal para o Brasil e, do ponto de vista político ou humano, foi muito triste, é a mais recente fonte de teorias do gênero.

Os atentados às Torres Gêmeas no 11 de setembro de 2001 foram uma das mais ricas fontes de inúmeras teorias do tipo.

É só a seleção brasileira de futebol perder, que lá vêm as teorias conspiratórias: perdeu de 3 a 0 da França em 1998 porque o time se vendeu, Ronaldo não teve convulsão nenhuma etc etc. Já em 2014, perdemos da Alemanha de 7 a 1 porque, na verdade, tudo fazia parte de um esquema para prejudicar a Dilma nas eleições etc etc. Os teóricos conspiratórios não enxergam que o time de Zidane em 98 era um grande time, muito superior ao medíocre Brasil de Zagalo; e que o time de Felipão de 2014 foi um dos piores da história do futebol brasileiro, senão o pior.

Outros, de espectro político oposto, diziam antes da Copa do Mundo deste ano que a Copa já estava comprada. “A Dilma e o PT já compraram, o Brasil vai ganhar a Copa, pode escrever”, me garantiu uma pessoa em meados de maio de 2014. Pois é.

E assim é.

Não estou conseguindo ver a eleição presidencial sob a ótica da teoria da conspiração. Embora alguns vejam, paranoicamente, até a CIA implicada no processo político brasileiro atual, as coisas estão caminhando de acordo com a evolução político-histórica do Brasil contemporâneo. O que quero dizer é que acho que existem conspirações, dos Estados Unidos inclusive, e que coisas estranhas acontecem, mas não são apenas as conspirações e as coisas estranhas que explicam os fatos históricos. Se dependesse dos EUA, Fidel Castro teria sido assassinado há décadas.

Acho que vai ter segundo turno nas eleições de outubro, mas não considero Aécio já derrotado, apesar de a mídia aparentemente já ter tomado a decisão de apoiar Marina. Marina é uma figura ambígua, e perigosa. Esse discurso contra a política tradicional de um (a) eventual presidente sem sustentação política ou facilmente manipulável – esse filme já vimos. Mas Marina não é apenas como que um produto projetado por George Soros e companhia, como querem alguns, como se projetar presidentes da República fosse como resolver uma operação algébrica simples. Pensar assim é ignorar a complexidade da política brasileira. Aécio Neves, que nem sabe se estará no segundo turno, já anunciou no debate da Band que seu ministro da Fazenda será Armínio Fraga, que é muito próximo de George Soros.

Pode ser que Marina seja uma bolha eleitoral, pode ser que não. As próximas semanas vão esclarecer.

Se acontecer uma possível derrota de Dilma Rousseff na eleição, não terá sido (pelo menos não apenas) decorrente de conspirações, mas de muitos fatores conjugados. No momento me parece improvável uma derrota de Dilma.

O que faltou a Dilma durante seu mandato, e agora está fazendo falta em votos, é a capacidade de conversar e negociar com as diferentes forças políticas, inclusive com o mercado financeiro. A capacidade de Lula. Faltam quase 40 dias para o primeiro turno, muita água vai passar debaixo da ponte.

Acho que Dilma ganha a eleição, mas no segundo turno e sem facilidade. Dilma está sendo bombardeada por todos os lados e nem o PMDB de Michel Temer está ajudando no combate. Isso é política. O resto é teoria da conspiração.



sábado, 23 de agosto de 2014

Luciana Genro, uma adolescente de 43 anos



Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil


Apesar de seu discurso filosoficamente direitista, de vez em quando os "líderes" do PSOL conseguem acertar algumas frases. A candidata do partido à presidência da República, Luciana Genro, disse que “a alternativa Marina Silva é uma falácia, porque trata-se de segunda via do PSDB, no caso de Aécio (Neves) fracassar. Os economistas que a auxiliam são ligados aos tucanos. No entanto, o símbolo que ela tem é o da negação da política tradicional. Contudo, vou mostrar durante o processo eleitoral que quem é a terceira via é o nosso partido”.

Porém, a adolescente de 43 anos, filha de Tarso Genro, em entrevista ao Estadão, não perdeu a oportunidade de continuar a vociferar os ressentimentos do PSOL contra o PT. “O Lula, por exemplo, se revelou nunca ser de esquerda, mas apenas de oposição. Por que o Lula teve de fazer acordos e até o mensalão para aprovar assuntos no Congresso?"

Ora, Luciana, acho que você anda lendo demais a revista Veja. Você é muito confusa. Faz perguntas tolas. A seguir esse raciocínio, talvez em seu ortodoxo ministério coubesse um Joaquim Barbosa no Ministério da Justiça. Por que não? Ou, quem sabe, a Sininho para um futuro Ministério dos Direitos Civis?

Mas, falando sério, não que eu ache que não seja importante uma “oposição de esquerda” ao PT. Seria importante, se essa oposição à esquerda, que não existe, fosse capaz de construir uma crítica consistente. O PSOL é um partido que teria muito a acrescentar se sua prática e seu discurso incorporassem um mínimo conhecimento de História. Mas o discurso da “moça” é uma mistura de Reinaldo Azevedo mal construído com teorias políticas recortadas a partir de concepções estudantis incapazes de formular um pensamento digno de ser chamado de pensamento.

“Meu Ministério da Reforma Agrária estaria nas mãos do MST”, diz a revolucionária. 

Para essa gente, o PT e o PSDB são, senão a mesma coisa, quase a mesma coisa. Criticam Lula e Dilma como se a história brasileira tivesse começado em 1994, com a primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso, como se não tivessem existido Getúlio Vargas, João Goulart, ditadura militar, AI-5, luta contra a ditadura, torturados, pós-ditadura, redemocratização, Ulisses Guimarães, Sindicato dos Metalúrgicos...

Será que essa gente sabe da luta do Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo, onde Lula começou?

Será que sabem que são de direita?

Às vezes acho que sabem e são mal intencionados. Às vezes acho que não sabem e são instrumentos da direita como uns bobos da corte, e só precisam de uma boa terapia. Ou umas boas palmadas que papai e mamãe não deram quando era preciso.

Quando vejo Luciana Genro falar, não me sai da cabeça que ela, no fundo, inconscientemente, só quer magoar papai Tarso. Luciana precisava se atualizar e conhecer que Freud não é novidade faz muito tempo. 

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Eduardo Campos, as mortes (segundo Borges) e o destino


Foto: PSB


Ontem, ao deitar, abri o livro Nova Antologia Pessoal, de Jorge Luis Borges, uma obra que há muitos anos, vez ou outra, eu abro, para ler um texto ao acaso. O que reli ontem (e do qual já não me lembrava) é intitulado "A outra morte". Conta a história de um homem, chamado Pedro Damián, sobre cuja vida havia um relato de que em certa batalha havia morrido, muito jovem, sem demonstrar a coragem de um verdadeiro guerreiro. Mas essa versão, de um militar que presenciara a morte desse soldado, foi depois desmentida por outros fatos, que estranhamente engendravam uma outra história segundo a qual esse homem havia encontrado a morte não como um covarde, mas como um bravo. As histórias se entrelaçam de tal maneira que ambas se confundem com certas verdades que comprovavam as duas.

A confusão se transforma em uma discussão metafísica sobre o destino e certas suposições metafísicas sobre o tempo.

O conto de Borges, até porque o li ontem, me veio à mente hoje, com a trágica  morte de Eduardo Campos. Assim como me ocorreu um pequeno poema que é a epígrafe do meu livreto de poesia publicado quando eu era muito jovem, Amuletos. A epígrafe é do meu irmão, Paulo Maretti, e diz:

O destino não mente
Ele desmente
Os corações das pessoas é que mentem
Para o destino que já vem vindo sem saber de nada.

Essas associações são a maneira como recebi a morte de Eduardo Campos, um jovem líder que, segundo alguns, se antecipou à ordem natural da política ao lançar-se à presidência da República após romper com o governo de Dilma, e com Lula, após ter sido ministro da Ciência e Tecnologia do presidente, como ele, pernambucano, entre 2004 e 2005.

Para além das análises e cálculos políticos a respeito do que a morte de Campos trará como consequências à eleição, me espanta nessa morte o aspecto súbito e chocante com que ela chegou nesse dia cinzento, frio e chuvoso, ceifando uma liderança política importante, num 13 de agosto que é também a data da morte do avô de Eduardo Campos, Miguel Arraes, um dos mais importantes líderes da esquerda brasileira no século passado.

Líderes de todas as vertentes políticas, de esquerda e de direita, alguns com sinceridade, outros com a sórdida máscara da política, lamentaram a perda. Eu estou entre os primeiros. Lamento sinceramente.

Eduardo Campos era, ou é, muito querido em Pernambuco. Por certo, não por acaso.

Talvez conseguisse se alçar, no futuro, com reais chances de suceder um projeto popular com o apoio de Lula e Dilma, se se tivesse mantido aliado de Lula e Dilma, como um herdeiro legítimo das lutas que seu avô travou e das que, guardadas as diferenças de tempo e conjunturas políticas, como presidente, Lula realizou no Brasil. Mas num momento como esse, não são as vãs e mesquinhas conjecturas políticas aquilo que mais me assombra.

Quis o destino que Eduardo Campos encontrasse, prematuramente, uma outra morte, enigmática, traiçoeira e implacável, nesse 13 de agosto de 2014.

Quem sou eu para julgar, mais do que um homem, o destino de um homem que fez muito mais do que eu? O destino que já vinha vindo sem saber de nada.

PS: tive um único contato com Eduardo Campos. Eu estava cobrindo, como repórter, um evento do qual ele participou num hotel em São Paulo, poucos meses atrás. Quando ele chegou, eu estava sozinho à porta do hotel, e fui até ele para tentar algumas declarações exclusivas. Ele me olhou com aqueles olhos intensamente azuis e disse que não dava tempo, estava atrasado. Minutos depois, ao entrar no palco para sua palestra, me viu de longe e fez um gesto de cumprimento. Eu não retribuí, pensando que estava se dirigindo a outra pessoa (o que é muito comum em eventos dessa natureza).

Depois, vi que não havia ninguém atrás de mim. E só agora, ao ouvir relatos inclusive de pessoas de sua terra, segundo as quais era um homem muito educado, cordial e até doce, como me disse uma pessoa de Pernambuco, percebo que entre mim e ele ficou um gesto não retribuído, ou um gesto incompleto, e em mim um pequeno, pequeníssimo e incômodo remorso. 

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Robinho, quatro vezes campeão, volta para casa


Reprodução
Robinho volta ao Santos pela segunda vez.  Um amigo, são-paulino, disse no Facebook que é um “enganador”. Outro, palmeirense, afirmou anos atrás que “não vale nada”, e mais recentemente que é “covarde”.

Não sei por quais motivos as pessoas têm esses julgamentos. Considerando que meus amigos não conhecem Robinho pessoalmente, creio que só pode ser despeito, algo inerente ao futebol. Os santistas não temos nada a reclamar do menino das pedaladas. Robinho é sinal de títulos. Nas duas temporadas em que esteve na Vila Belmiro levantou troféus. Os campeonatos Brasileiros de 2002 e 2004, o Campeonato Paulista e a Copa do Brasil de 2010. Só não ganhou a Libertadores de 2011 porque saiu antes.

Nunca perdeu do Corinthians. Se não me trai a memória, foram sete vitórias e um empate contra o rival do Parque São Jorge.

Com uma perna só, poderia ter dado um brilho à seleção do general Felipão na Copa do Mundo que todos aqueles jogadores de quinta categoria que ele levou, juntos, jamais teriam a capacidade técnica, atlética ou mental de dar. Bernard, Jô, Hulk, a meia dúzia de volantes e outros. 

Dizem que está decadente. Vamos ver.

Em sua última passagem pela Vila Belmiro, jogou muito em 2010 e foi um dos principais protagonistas (junto com Neymar e Ganso) dos títulos paulista e da Copa do Brasil, de um time que foi um dos mais espetaculares do país nos últimos 20 anos.

Robinho disputou 213 jogos e marcou 94 gols pelo Santos. Dizem que já fez um golaço no treino. Na Vila, Robinho tem prazer de jogar. Não se pode dizer que vai arrebentar de novo.

Mas para os santistas, tanto faz que o adjetivem. Na Vila, ele está em casa.

Leia tambémO Espírito do Santos

domingo, 3 de agosto de 2014

Sininho e o dia seguinte na Terra do Nunca


Reproduzo aqui no blog pra registrar o que me parece ser a mais lúcida, cirúrgica e politicamente inteligente análise entre tudo o que li sobre a questão desde junho de 2013.


Fernando Frazão/ Agência Brasil (11/02/2014)



Sininho como representação e o desencanto de uma geração adultescente que acreditou na inconsequência como ação de transformação revolucionária da realidade.

Não há como não se enternecer, de alguma forma, com a figura da personagem Sininho. Traz em si a figura da filha adolescente, frágil e radical.

Até o codinome – Sininho – lhe cai apropriadamente bem. Uma personagem que saiu da “Terra do Nunca” da internet e inspira a tropa dos “meninos perdidos” na sua tentativa de alcançar a utopia pela destruição do mundo real.

Sintomático dos dias atuais é que há Sininho e há meninos perdidos, mas não há um Peter Pan. Sininho é a líder dos meninos perdidos.

Mas Sininho é uma ficção. Não é professora, não é sindicalista, não é bailarina, não é socialite. É qualificada ora como “ativista”, ora como “produtora cultural”.

Seu cavalo, Elisa Quadros Sanzi, no entanto, chegou à casa dos trinta, muito provavelmente com formação superior e tendo recebido da família a estrutura necessária para ser, hoje, uma jovem adulta de quem se espera a consequência nas ações.  E a consequência é o que se espera de adultos, mesmo, e talvez principalmente, em ações que busquem a transformação da realidade.

O oposto disso é a principal característica do que chama “movimento” – a inconsequência.

Quem forma esse movimento?

Anarquistas de internet, carbonários anacrônicos, incendiários saídos da Academia ou de histórias em quadrinhos, punheteiros imberbes, a criminalidade comum e os oportunistas de toda ordem.

Isso forma um movimento?

Lênin – Vladimir Ilitch Ulianov, já dizia que batatas dentro de um saco formam um saco de batatas, mas não formam uma organização.

Pena que Sininho e seus amigos não tenham lido “Esquerdismo, doença infantil do comunismo”.

Teriam aprendido com um mestre revolucionário que a transformação do mundo se faz num passo-a-passo onde a revolução não é sequer o primeiro passo, quanto mais o último ou o fim.

A transformação do mundo não é nada divertida. Assemelha-se mais ao trabalho de operários.

Ao invés disso, Sininho e seus amigos retomaram o grito de “não sabemos o que queremos, mas sabemos o que não queremos”. E o que não queremos é o sistema – seja lá o que entendam como sendo “o sistema”.

Nada disso é novo. Quem empunhava essa bandeira aos dezoito anos hoje já está na terceira idade – é provavelmente um aposentado de 65 anos. Isso se sobreviveu a “sexo, drogas e rock and roll”.

Lutar contra o sistema traz em si um dilema a ser resolvido de antemão, quando não um paradoxo. Quando se destrói o sistema, algo deve ser colocado, ou se coloca por si próprio, em seu lugar. E, então, outro sistema se estabelece.

Essa é a lição de Lenin que Sininho e seus amigos não aprenderam.

Na Terra do Nunca não há dia seguinte, logo, não há um sistema a ser substituído por outro sistema. Mas Sininho e seus amigos não estão mais na Terra do Nunca, foram trazidos a força à terra dos homens.

Não admira que estejam todos sem chão diante da responsabilização judicial. O que esses “revolucionários” esperavam das forças da repressão, das forças do partido da ordem? Que se se limitassem a fazer a segurança do playground e os deixassem brincar em paz?

Interessante também é notar que essa geração é ingênua a ponto de não ter percebido o quanto a sua ilusão de transformação radical foi instrumentalizada pelo reacionarismo.

Serviram a quem interessava criar um ambiente de instabilidade que ajudasse a enfraquecer o governo da esquerda democrática para facilitar o retorno ao poder do conservadorismo.

Sininho e os meninos perdidos não são mais úteis a essas forças. Podem ser descartados.

Aprenderão da pior forma que o Judiciário é o lixeiro do sistema ao qual serviram pensando que o estavam combatendo.

terça-feira, 29 de julho de 2014

De Palestina, política externa e falência moral



“Não podemos aceitar impassíveis a escalada de violência entre Israel e Palestina. Desde o princípio, o Brasil condenou o lançamento de foguetes e morteiros contra Israel e reconheceu o direito israelense de se defender. No entanto, é necessário ressaltar nossa mais veemente condenação ao uso desproporcional da força por Israel na Faixa de Gaza, do qual resultou elevado número de vítimas civis, incluindo mulheres e crianças.”

Esta fala da presidente Dilma Rousseff, no discurso de hoje (29 de julho) na Cúpula do Mercosul, é de entendimento fácil para quem sabe ler. Ela lembrou também, para quem tem um pouco de história na cabeça, que o posicionamento da diplomacia brasileira é historicamente favorável à coexistência entre dois Estados soberanos. “O Brasil, em todos os fóruns, em todas as aberturas da Assembleia-Geral da ONU, que nós temos o privilégio de dar início, manifestou que a construção da paz naquela região do mundo passa pela construção de um Estado de Israel já operante, já construído e já sólido, e por um Estado Palestino.”

Clique na imagem para ampliar
Votação na ONU sobre investigação de genocídio na Palestina

Na semana passada, o governo brasileiro divulgou nota oficial convocando o embaixador brasileiro em Tel Aviv “para consultas” (o que na linguagem diplomática significa discordância de uma determinada política). “Condenamos energicamente o uso desproporcional da força por Israel na Faixa de Gaza, do qual resultou elevado número de vítimas civis, incluindo mulheres e crianças”, disse a nota oficial do governo brasileiro.

Como resposta, o porta-voz do ministério das Relações Exteriores israelense, Yigal Palmor, com a arrogância peculiar e cínica do Estado de Israel, disse que a manifestação do Planalto Central "não contribui para encorajar a calma e a estabilidade na região" e que “o Brasil, um gigante econômico e cultural, continua a ser um anão diplomático".

Também na semana passada, o Conselho de Direitos Humanos da ONU aprovou uma resolução que determina a formação de uma comissão internacional para investigar o genocídio na Palestina. A determinação foi aprovada por 29 votos a favor. Foram 17 abstenções e um voto contra. De quem? Dos Estados Unidos da América. Entre os 17 abstinentes, todos os europeus que votaram e Japão. Entre os que votaram a favor (contra os interesses sionistas), os países da América Latina e os dos Brics: Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul (clique na imagem acima para ver a votação por país).

Dilma também falou hoje da crise da Argentina: "O problema que atinge hoje a Argentina é uma ameaça não só a um país irmão, atinge a todo o sistema financeiro internacional. Não podemos aceitar que a ação de alguns poucos especuladores coloque em risco a estabilidade e o bem-estar de países inteiros".

O mundo está mudando. Quanta dor e sofrimento a queda do status quo que vigora desde o fim da Segunda Guerra vai custar é difícil prever, mas o mundo está mudando. Infelizmente a história é lenta demais e uma vida humana diante dela é muitíssimo curta.
 Reprodução
A falência moral de uma revista
Enquanto isso, a revista Veja que está nas bancas esta semana traz uma matéria de capa justamente sobre a política externa do governo Dilma. Diz a revista semanal na chamada de capa: “Silêncio sobre o crime do Boeing cometido pela Rússia, ataque a Israel, o alvo número 1 do terror, e, em Brasília, tratamento servil ao ditador de Cuba mostram a falência moral da política externa de Dilma”.

Não tem como alguém minimamente sensato levar a sério a afirmação da decadente publicação da Abril, que muitos ainda leem, e muitas vezes para ficar com problemas no fígado. Eu há muito tempo sequer folheio essa revista. Olho na banca a capa de vez em quando, mas geralmente nem isso.

Acho aliás curiosa a expressão “falência moral” dessa revista ao se referir a um governo que tenta construir uma relação geopolítica no mundo que coloque o Brasil como sujeito da história, juntamente com ouras nações que não aceitam mais a subserviência aos interesses norte-americanos e israelenses.

Ao falar em “falência moral”, Veja, talvez por um mecanismo inconsciente de seus chefes e capistas, parece falar de si mesma ao espelho. Pois é sua visão moribunda de política e relações internacionais que faliu moralmente. E não sou eu quem diz, são os fatos e a história que demonstram. Pelo mesmo mecanismo psicanalítico, a publicação também fala em "tratamento servil" ao ditador de Cuba. Veja tem saudade do servilismo aos Estados Unidos.

Veja tem saudade de um período quando o embaixador brasileiro nos Estados Unidos no governo militar de Castelo Branco, Juracy Magalhães, disse a célebre frase: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”.

Por tudo isso, as eleições deste ano no Brasil são muito importantes para o próprio Brasil, mas mais ainda para a América do Sul e América Latina, e também, ouso dizer, para o mundo.

Aécio Neves já disse que se eleito pretende “rever” a participação do Brasil no Mercosul. Como a Veja, ele defende uma política pela qual haja mais relações bilaterais. Com quem? Com os Estados Unidos da América. Uma visão de mundo moralmente falida.

Leia também




terça-feira, 22 de julho de 2014

Para lembrar: Dunga x Alex Escobar


Da seção Recordar é viver

No dia em que o Brasil bateu a Costa do Marfim por 3 a 1, pela primeira fase da Copa do Mundo de 2010 (20/06/2010), o então treinador Dunga (que volta oficialmente hoje ao comando da seleção após 4 anos) de repente se desentendeu com o jornalista Alex Escobar da Globo.





É um estilo realmente estranho para um treinador de seleção, embora Alex Escobar seja um tipo de jornalista que para mim está a anos-luz de distância do que eu considero um jornalista, e, também, apesar de muita gente considerar os xingamentos a ele dirigidos por Dunga bastante apropriados...

A equipe de Dunga, que, diga-se a bem da verdade, fazia uma Copa futebolisticamente melhor do que o grotesco time de Felipão este ano, acabou sendo eliminada nas quartas de final pela Holanda, perdendo por 2 a 1, com a ajuda do volante Felipe Mello, que foi expulso, e do goleiro Júlio César, que falhou feio no segundo gol holandês.


sábado, 19 de julho de 2014

Um brinde a João Ubaldo Ribeiro (1941-2014)



Foto: Nerivaldo Góes (ASCOM/FPC)

Uma vez, como repórter de cultura do Estadão (lá se vão 25 anos), tomei um uísque com João Ubaldo Ribeiro, acho que por ocasião da 20ª Bienal Internacional do Livro, em 1989, ano em que ele lançou o romance O Sorriso do Lagarto, que eu havia resenhado para o jornal (isso não tem na internet, naquela época ainda não existia nem Windows, a gente usava na redação um sistema DOS).

Lembro de um pequeno caso que ele contou à mesa durante aquele uísque. O caso foi que ele ficou sabendo de “fofocas” segundo as quais tinha sido visto passeando de mãos dadas com “uma moça” muito, mas muito mais jovem do que ele, no Rio de Janeiro. O que não era recomendável a um homem de 48 anos, casado. E mesmo que não fosse casado, era um pequeno escândalo, digno de ser comentado por aí.

– Só que aquela moça com quem eu estava andando é minha filha! – contou, entre risos, mas ao mesmo tempo indignado com a bisbilhotice tosca da sociedade, sedenta por saber (e falar mal) da vida alheia.

Ao contar isso, sorria aquele sorriso próprio dos baianos, divertindo-se com a estupidez dos fofoqueiros. Em João Ubaldo, o sorriso baiano ao narrar uma história fazia parte da linguagem, fosse a linguagem literária, fosse a de sua expressão facial.

Em palestras, João Ubaldo se referia a muitas pessoas como amigas (“fulano é meu amigo”; “beltrano é muito meu amigo”). Podia ser Antônio Carlos Magalhães, podia ser Jorge Amado, mas principalmente era Glauber Rocha.

Ubaldo era um ser político: todos que o conheciam minimamente sabiam que ele tinha uma amizade sincera, de irmão mesmo, pelo baiano Glauber Rocha, a quem amava, ou pelo baiano Jorge Amado, a quem igualmente amava, mas, no caso de Jorge, mais como uma espécie de padrinho espiritual-literário; e todos que o conheciam minimamente também sabiam que sua amizade pelo oligarca baiano Antônio Carlos Magalhães, ou pelo maranhense José Sarney, seu colega de Academia, era política.

João Ubaldo era um homem que transitava pela cordialidade, entendida sob a ótica mais ampla segundo o conceito de Sérgio Buarque de Holanda. Não estou dizendo que ele era o homem cordial, mas que entendia o que era esse conceito. Entendia vivendo.

Para ele, ser amigo independia de posições políticas. Podia ser o jardineiro, o senador, o cineasta, o porteiro do prédio ou o grande escritor, qualquer um desses podia ser seu amigo, se aquele cara merecesse esse epíteto, segundo o modo de ver o mundo de João Ubaldo, incapaz de trair qualquer tipo de lealdade.

Além de tudo, João Ubaldo era um grande escritor.

Quando muito jovem, muito tempo antes de conhecê-lo ou escrever sobre ele, li o livro que até hoje é o que mais gostei entre os que li de sua bibliografia: Sargento Getúlio, uma obra-prima da literatura brasileira, em exemplar do saudoso Círculo do Livro, há muito tempo extinto. Recomendo, seja em que edição for.

Enfim, espero que São Pedro, ou seja lá quem estiver ali na portaria, perdoe os pecadilhos do baiano de Itaparica João Ubaldo Ribeiro, que morreu na madrugada deste 18 de julho de 2014, e o deixe passar, e quem sabe ainda tomar uma última e prazerosa dose de uísque, de saideira.