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segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Crônica de uma vitória não anunciada



Fotos: Carmem Machado
Avenida Paulista/ São Paulo, 26/10/2014

O QG montado pelo Partido dos Trabalhadores, em um hotel na região da avenida Paulista, na capital de São Paulo, para acompanhar a apuração da mais dura eleição após a redemocratização do país neste domingo, 26 de outubro, foi um termômetro da ansiedade e da desinformação que marcaram por todo o país a contagem dos votos na disputa entre o tucano Aécio Neves e a petista Dilma Rousseff.

Já se sabia que o processo de apuração seria nervoso, mas não se esperava tanto. Eram aguardadas a presença de ministros do governo Dilma oriundos do estado de São Paulo, principalmente Aloizio Mercadante (Casa Civil), Marta Suplicy (Cultura) e José Eduardo Cardozo (Justiça), que haviam comparecido no mesmo hotel quando da eleição do prefeito Fernando Haddad, em 2012.

O semblante de militantes e das poucas lideranças que chegavam caladas, falando ao celular ou procurando informações entre si, era de angústia e dúvida. Depois das seis e meia da tarde, 90 minutos antes da prevista divulgação dos resultados, que seria atrasada em função do fuso horário e do horário de verão, nenhum ministro havia chegado. Informações sobre supostas pesquisas de boca de urna vazadas aqui e ali começaram a pipocar. Elas falavam em vitória de Dilma Rousseff, por 54% a 46%.

Também chegavam informações de que trackings de fontes confiáveis do PT davam uma disputa “pau a pau”. Diferentemente de situações desse tipo, em que lideranças “bem informadas” costumam dar alguma sinalização do que poderia estar ocorrendo, todos eram iguais no hotel: repórteres de todos os tipos de veículos de mídia, líderes sindicais, militantes e as poucas autoridades petistas que, aos poucos, foram chegando. Ninguém arriscava palpites nem tinha informação confiável.

As especulações começaram a dar conta de que as ausências de ministros e do próprio prefeito Fernando Haddad eram sintoma de que algo estava muito mal para a “candidata oficial”, como se referia a Dilma Rousseff o tucano Aécio Neves durante a campanha. Isso porque o PT é reconhecidamente competente no acompanhamento de informações de processos de apuração em eleições. A avaliação era de que, se não havia informação, era porque não havia boas notícias para os petistas, era porque a coisa "estava feia."

Confrontado com essa versão, o presidente do PT paulista, Emidio de Souza, afirmou que era natural que os ministros ficassem em Brasília, com Dilma. O secretário de Desenvolvimento e Trabalho do prefeito Fernando Haddad, Artur Henrique, também não sabia de nada. “Eu sei o que vocês sabem”, disse. Ele não estava blefando. O semblante mostrava isso.

Um importante líder sindical petista da região metropolitana de São Paulo, olhando para o telão, comentou: “é importante observar a expressão facial das pessoas. Olhe a cara do Walter Feldman", disse o sindicalista, no momento em que o líder da Rede de Marina Silva aparecia num debate televisivo. “Ele não perece estar muito feliz.” Era verdade. Contudo a TV também mostrava o recém-eleito deputado federal petista José Américo enquanto ele passava as mãos no rosto. E também o ex-candidato ao governo de São Paulo, Alexandre Padilha. Ninguém parecia estar muito feliz. Era a face de tucanos e petistas em todo o país.




A contagem regressiva começou quando faltavam oito minutos para as 20 horas e a militância começou a se agitar e entoar cantos e palavras de ordem. Porém, ao contrário do que essa manifestação poderia significar, não era nenhuma informação de vitória captada por alguma liderança e vazada que se alastrara de repente. Era pura e simplesmente torcida. Informação, de fato, ninguém tinha. Era como quando a prorrogação de uma final de Copa do Mundo acabou empatada e vai começar a disputa de pênaltis.

Aconteça o que acontecer, o PT precisa repensar as estratégias em São Paulo", disse um dos líderes presentes.

Então, lideranças do PT e de movimentos sociais, militantes, jornalistas e sindicalistas foram se aglomerando perto do telão ligado em uma emissora de TV, do lado esquerdo do palco tomado por fotógrafos, e da tela do TSE, do lado direito.

Havia quem chorava, quem passava a mão no rosto, quem andava de lá para cá, quem não queria nem ver e quem tentava animar a militância. Faltava um minuto para as 20 horas. “A tucanada vai cair, a tucanada vai cair”, gritavam algumas poucas dezenas de vozes entre as centenas de angustiados no anfiteatro.

A âncora da emissora de TV, então, anunciou que iria revelar os resultados das urnas para a Presidência da República.

Com cerca de 94% dos votos totalizados, Dilma Rousseff tinha 50,99% dos votos válidos, contra 49,01% de Aécio Neves. Explosão. Gritos de alegria, palavras de ordem. “Ei, Veja, vai tomar no c...”

No entanto a fatura não estava concluída. “Ainda faltam seis milhões de votos!”, exclamou um repórter. “Velho, estou tremendo”, disse outro, de um veículo da “mídia tradicional”.


Passaram-se vários minutos. Muito longos. Como se diz, o tempo é relativo. Até que, às 20h17, o presidente do PT de São Paulo, Emidio de Souza, subiu ao palco. Na companhia da vice-prefeita paulistana, Nádia Campeão (PCdoB), ele disse: "Em nome da coligação que sustentou a candidatura da Dilma, quero anunciar com orgulho a vitória da presidenta. É uma vitória da democracia contra os golpistas. Os golpistas têm nome e endereço. Eles se chamam revista Veja."

O resultado final da apuração seria 51,64% a 48,36%.

sábado, 25 de outubro de 2014

A resposta do programa de Dilma a Veja




Está mais do que na hora de o governo acabar com a inexplicável derrama de verbas publicitárias federais nesse esgoto em que se transformou essa revista vagabunda. Reelegendo-se domingo, Dilma tem a obrigação de dar uma resposta a parte de seus eleitores que esperam posicionamentos firmes contra essa orgia midiática que as famiglias dos chefões do quarto poder chamam de "liberdade de imprensa".

Se é difícil fazer a urgente Lei de Meios, que se comece cortando verbas publicitárias que alimentam essa máfia.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Aécio Neves não representa a direita por acaso



Igo Estrela/Coligação Muda Brasil
Aécio e Antônio Anastasia, seu sucessor no governo de MG

O comportamento de Aécio Neves como porta-voz de uma direita raivosa, aliado de forças obscurantistas e protofascistas, não é por acaso. Vem de berço.

Aécio gosta de aparecer (e a mídia vende essa ideia com sofreguidão) como neto de Tancredo Neves. O senador e ex-governador de Minas Gerais é neto de Tancredo por parte de mãe.

Mas Aécio e seus incentivadores midiáticos nunca lembram de sua origem paterna. Aécio é filho do advogado Aécio Ferreira da Cunha, que foi quatro vezes deputado federal pela Arena, a Aliança Renovadora Nacional, o partido que era a máscara partidária da ditadura civil-militar que governou o Brasil entre 1964 e 1985.

O pai do candidato tucano à presidência da República em 2014 foi eleito em 1962 deputado pelo PR com financiamento do IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática). O IBAD era “sustentado por verbas dos Estados Unidos com intenção de derrubar o presidente João Goulart”. Esta informação não é de nenhum órgão de extrema esquerda comunista, é do portal Uol, do grupo Folha, que vocês podem ler clicando aqui.

Os sites mais próximos da famigerada esquerda-vermelha-que-come-criancinha vão um pouco além, só um pouquinho. “Nas eleições de 1962, ele (o pai de Aécio) foi financiado por empresas norte-americanas. O financiamento ocorreu por meio do IBAD, uma OnG ligada à CIA (Agência de Espionagem dos EUA)”, diz o site do ultra-esquerdista PCO, como vocês podem ler aqui. O que não é muito diferente do que diz o Uol.

A verdade é essa. Aécio Neves não representa a direita devido a uma fortuita conjugação de forças de um segundo turno das eleições de 2014. Aécio Neves É a direita, desde o berço.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

PT x PSDB


Manifestações pró-Aécio Neves e por Dilma Rousseff em Belo Horizonte, no último fim de semana, 18 e 19 de outubro. As imagens falam por si.





Dilma na PUC, na rua Monte Alegre


O que mais me marcou no belíssimo ato político do Partido dos Trabalhadores no Teatro da PUC de São Paulo, o Tuca, ontem dia 20, foi aquela multidão de jovens com expressão forte e determinada, mas alegre e falando do futuro. Sem ódio, sem preconceitos, só mesmo querendo um mundo melhor.

ICHIRO GUERRA / DIVULGAÇÃO


Sou um “filho da PUC”, como se diz, onde me formei em Comunicações em 1988, quatro anos depois das Diretas Já e um ano antes de Fernando Collor de Mello ser eleito presidente do Brasil, o que obscureceu o futuro de minha geração naquele momento.

Por isso, o evento no velho Tuca da PUC, onde aprendi coisas e conheci pessoas fundamentais, teve também um significado afetivo. No período em que fui estudante de jornalismo na PUC, D. Paulo Evaristo Arns era arcebispo de São Paulo e influenciava decisivamente a universidade católica. Era uma época em que a PUC era barata e era um ambiente politicamente efervescente. Dom Paulo foi um dos responsáveis pela eleição de Luiza Erundina em 1988.

Fora o aspecto histórico-afetivo pessoal, o ato político no Tuca desta reta final de campanha, que reuniu Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula, teve um caráter político ao mesmo tempo simbólico e concreto. No palco desse teatro emblemático de São Paulo, estavam reunidas lideranças políticas como Fernando Haddad, o ex-presidente do PSB Roberto Amaral, Gilberto Maringoni do PSOL, Michel Temer, artistas e intelectuais como Alfredo Bosi, Zé Celso Martinez Corrêa e Raduan Nassar, entre muitas outras figuras.

O grande jurista Celso Antonio Bandeira de Mello também estava no Tuca. Disse ele, em seu discurso, que Aécio Neves é “uma folha em branco”.

No palco do Tuca, como escrevi na matéria para a RBA, a escritora e artista plástica negra Raquel Trindade fez discurso emocionado, no qual clamou pelo Estado laico, pela diversidade cultural e pelo direito de culto. Ela contou que viveu um momento difícil quando da ascensão da ex-candidata Marina Silva (PSB) nas pesquisas. “Entraram no meu quintal e quebraram os assentos dos meus orixás. Todas as religiões têm de ser respeitadas. Nós vivemos num país laico”, disse ela, que naquele momento parecia uma mãe de santo.

O evento no Tuca me deixou otimista. Pelas notícias, Pernambuco também registrou um evento importante nesta reta final, quando a militância petista costuma decidir.

E a pesquisa Datafolha – que dá 4 pontos percentuais de Dilma sobre Aécio, com crescimento da presidente entre mulheres, entre a população de 2 a 5 salários mínimos e no Sudeste do país – já revela o que se divulgava nos trackings na sexta-feira, dia 17.

Acredito que a única coisa que pode evitar a reeleição de Dilma é o imponderável – inerente à política brasileira desde sempre.

Como se diz no futebol, "somos favoritos, mas ainda não ganhamos nada". No entanto, ao ver aquela multidão de jovens na rua Monte Alegre, pensei em Brecht, que escreveu:

Mas quem é o partido?
Ele fica sentado em uma casa com telefones?
Seus pensamentos são secretos, suas decisões desconhecidas?
Quem é ele?

Nós somos ele.
Você, eu, vocês — nós todos.
Ele veste sua roupa, camarada, e pensa com a sua cabeça
Onde moro é a casa dele, e quando você é atacado ele luta.

Mostre-nos o caminho que devemos seguir, e nós
o seguiremos como você, mas
não siga sem nós o caminho correto
Ele é sem nós
o mais errado.
Não se afaste de nós!
Podemos errar, e você pode ter razão, portanto
não se afaste de nós!

Que o caminho curto é melhor que o longo, ninguém nega
Mas quando alguém o conhece
e não é capaz de mostrá-lo a nós, de que nos serve sua sabedoria?
Seja sábio conosco!
Não se afaste de nós!

(Bertolt Brecht)

domingo, 19 de outubro de 2014

Meu pai e Aécio Neves


Roseli da Costa


Esse aí da foto acima, com a vassoura e a pazinha varrendo o quintal, é seu Oswaldo, meu pai.

Ontem conversei com ele por telefone, entre outros assuntos, sobre eleições. Meu pai é um paulistano e paulista típico.

Seu Oswaldo, que tem 85 anos completados em junho, estava indignado com "a falta de respeito" de Aécio Neves ao chamar Dilma Rousseff de "mentirosa".

Disse ele literalmente: "o cara chama a presidente da República, eleita pelo povo brasileiro, e mulher, de mentirosa, e fica por isso mesmo? Não tem como falar pras pessoas da assessoria da Dilma que ela não pode admitir isso?"

Seu Oswaldo vota na Dilma. Ele não é petista. É uma pessoa de classe média, fruto do milagre econômico dos anos 1970, que começou a trabalhar aos 10 anos de idade (em 1939, no início da Segunda Guerra) e viu a catedral da Sé ser erguida e inaugurada em 1954, quando tinha 25 anos.

Seu Oswaldo sabe, como muitos brasileiros, que o PSDB de Fernando Henrique e Aécio Neves não tem o menor compromisso com os trabalhadores ou com com os aposentados. Ele sabe isso tanto intuitiva como concretamente. Acho que meu pai é um personagem representativo de São Paulo.

Tenho a impressão de que o voto em Dilma vai crescer no estado, muito por causa das mentiras e ataques de Aécio Neves, que não colam, e o povo brasileiro amadureceu. Em São Paulo é que o bicho pega.

De resto, no Nordeste inteiro, no Rio de Janeiro e provavelmente em Minas Gerais, Dilma deve ganhar. Pernambuco, terra de Eduardo Campos, é uma incógnita. Lá, Marina venceu no primeiro turno. Tenho a impressão de que em Pernambuco Dilma vence. No Rio Grande do Sul, o governador Tarso Genro deve perder a eleição para o candidato do PMDB ao governo do estado, José Ivo Sartori. Mas Dilma ganhará no estado. Aécio deve vencer em Santa Catarina e Paraná, os dois menores estados do Sul.

As principais incógnitas são:
- como vai ser a votação em São Paulo?
- Dilma vai ganhar em Minas? Acredito que sim.
- Dilma vai ter uma dianteira importante em Pernambuco?
- quantos dos eleitores de Marina vão votar em Aécio ou Dilma?

Parece-me que as possibilidades de Dilma ganhar são grandes, se não houver "incidentes de percurso". A oposição (mídia, mercado financeiro, Estados Unidos, Aécio Neves) tenta ganhar ou já de antemão desgastar um possível segundo mandato de Dilma.

Seja como for, fica registrada a opinião do seu Oswaldo, meu pai.


sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Pensamento para sexta-feira [54] - Chico Buarque vota em Dilma Rousseff


"Em 2010, eu votei na Dilma muito por causa do Lula. Neste ano, voto na Dilma por causa da Dilma."
(Chico Buarque de Hollanda)


Bem, não tem como não mostrar nosso Chico Buarque de Hollanda declarar seu voto na Dilma Rousseff, como pensamento para esta sexta-feira, 9 dias antes da mais importante eleição do país desde 1989.

A fala de Chico está no programa da Dilma desta quinta-feira (16 de outubro), que segue na íntegra abaixo. Mas quem quiser ver apenas o depoimento dele, vá a 1:52 do vídeo.




PS: estou curioso para saber em quem vão votar os marineiros tropicalistas Caetano Veloso e Gilberto Gil, que ainda não manifestaram suas posições no segundo turno. Infelizmente, dona Canô, que em 2010 puxou a orelha do filho rebelde Caetano, que chamara Lula de "analfabeto", neste 2014 já não está mais entre nós.

PS2: Como informa Lourival Sakiyama em comentário a este post, Gilberto Gil declarou voto em Dilma. Importante, já que fez campanha pró-Marina no primeiro turno, e até musiquinha para a campanha dela.

Peço licença à família de Caetano, a quem muito respeito e a quem muito devemos todos nós que amamos a cultura brasileira, a poesia e a arte, para reproduzir o vídeo abaixo, de 2010.


 

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Dilma e Aécio no debate do segundo turno da Band: a gestora e o príncipe




Fotos: Ichiro Guerra e Marcos Fernandes


O debate inaugural do segundo turno, na Band, foi dividido em duas partes:

- na primeira, Aécio Neves, o neto de Tancredo (ministro de Getúlio Vargas), Aécio o Purificador, saiu na frente atacando, e Dilma perdeu essa parte em que prevaleceu o espírito udenista de Carlos Lacerda incorporado em Aécio, um golpista clássico (falta a Dilma um certo espírito brizolista para desconstruir a mentira de maneira eficaz);

- na segunda parte, confrontado com a realidade (Lei Maria da Penha, direitos dos trabalhadores, inflação, FHC versus Lula/Dilma, políticas sociais, redistribuição de renda, a história, Armínio Fraga etc.), me parece que Aécio ficou muito nervoso e acabou sendo batido "por pontos", como se diria no boxe, mas incontestavelmente. Há quem ache que foi nocaute, mas eu não acho que tenha sido nocaute devido à ignorância do povo brasileiro e à mesquinhez das elites ou dos que, coitados, pensam que são elite e cotidianamente agridem direitos ou apoiam a agressão a direitos.

Aécio Neves é um político mais eficiente do que Dilma Rousseff. Mas Aécio representa exatamente o oposto da "nova política" e da "mudança".

Significativo que o nome de Marina Silva só tenha sido pronunciado, por Aécio, no fim do debate, nas considerações finais. Dilma não pronunciou a palavra Marina. É uma constatação interessante.

A decisão de Marina de apoiar Aécio desmentiu a própria história de Marina e rachou, pra não dizer implodiu, a Rede Sustentabilidade.

O ex-governador de Minas Gerais não conseguiu responder por que perdeu a eleição em seu quintal no primeiro turno. Ele, que começou atacando na questão da Petrobras, que fez um discurso muito claro como ventríloquo do mercado financeiro, não conseguiu responder sobre o aeroporto cujas chaves seu governo deu a seu tio para guardar.

Aécio começou confiante e acabou ficando muito tempo na defesa, na segunda parte do debate.

Na minha opinião Dilma atuou como o que é, uma gestora. Aécio, também como o que é: um político tradicional. Um coronel, ou um príncipe, segundo a narrativa de Maquiavel.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Segundo turno começa igual entre Dilma e Aécio e nem o mercado financeiro aposta no tucano



Ichiro Guerra


As pesquisas erraram muito no primeiro turno para serem consideradas confiáveis, até mesmo pelo mercado financeiro. Mesmo assim, o PT comemora o empate entre Aécio e Dilma no primeiro levantamento do segundo turno. 51% a 49% para Aécio é um rigoroso empate, apenas uma manchete circunscrita na margem de erro. Havia temores no PT de que o tucano pudesse ter uma dianteira de fato. Mas não tem. E se não tem na largada, não vai ser muito fácil tirar a diferença de 8,37 milhões de votos que Dilma teve sobre Aécio no primeiro turno, e consolidar a vantagem. Dilma obteve 43,27 milhões, contra 34,9 milhões do tucano.

Na segunda-feira, Aécio Neves disse em coletiva em São Paulo: “Quero convidar a candidata Dilma Rousseff para fazermos uma campanha em alto nível, propositiva, à altura do que esperam de nós os brasileiros.” Ele pode dizer isso com tranquilidade, porque sabe que a imprensa (Globo, Folha, Estadão, Band, Jovem Pan etc.) faz o jogo pesado por ele.

Mas, voltando ao início, a Bovespa fechou nesta quinta-feira 9, às 17 horas, cerca de 3 horas antes do horário previsto para sair Datafolha e Ibope, com uma discretíssima alta de apenas 0,37%. Como sabemos que os investidores sempre têm informações privilegiadas antes do consumo público, e às vezes até informações mais realistas do que a que chega ao público, a pequena alta indicava que o segundo turno começa muito mais equilibrado do que esperavam os apostadores em Aécio.

Aécio chegou a mostrar em seu programa de estreia no horário eleitoral do segundo turno a esquisita pesquisa da tal Paraná Pesquisas, publicada pela revista Época de ontem, dando-lhe uma vantagem farsesca.

Mas o mercado sabe mais do que é divulgado. Pelas informações que tenho diretamente do mercado financeiro, ou seja, dos anti-PT, a aposta deles é de que as chances são de 50% contra 50%. Se o mercado financeiro acha isso, é porque a situação é mais favorável a nós no momento, embora possa mudar.

O colunista do Estadão José Roberto de Toledo escreveu, após a divulgação de Ibope e Datafolha, que “os boatos sobre outras pesquisas, divulgadas ou não, dando ampla vantagem a Aécio ajudaram a criar a expectativa exagerada. Era um exagero não compartilhado pela maioria dos eleitores. A maior parte aposta mais na reeleição de Dilma (49%) do que na vitória do tucano (40%). Ele só é favorito aos olhos do eleitorado mais rico, com nível superior e entre quem mora na região Sul”.

A propaganda de Aécio na TV me pareceu mais convincente, como propaganda. Dilma começou o horário eleitoral no ritmo de João Santana, conservador, mas já lembrando que Dilma venceu Aécio em seu território, Minas Gerais, e que, além disso, o PT elegeu Fernando Pimentel em primeiro turno. É importante porque muita gente não sabe que Aécio perdeu do PT duplamente em seu próprio quintal.

A definição do dia 26 vai mostrar se o eleitor brasileiro amadureceu o suficiente para discernir sobre seu próprio destino. Nas eleições de 2006 e 2010 ele optou pela realidade. Em 2014 existe essa mística de mudança, a tal “voz das ruas”. Mas a juventude que foi às ruas em junho de 2013 pedindo novos tempos ajudou a reeleger Geraldo Alckmin.

Pastor Everaldo e Roberto Freire aparecerem na propaganda de Aécio Neves pode ter resultado muito ruim para Aécio. Pastor Everaldo teve menos de 1% dos votos, e Roberto Freire, do cada vez mais inexpressivo PPS, sequer foi eleito deputado. Assim como sua correligionária Soninha Francine, mais queimada do que carvão de churrasco.

Quanto a alianças, se Aécio conseguiu o apoio oficial do PSB junto a outras forças de direita e extrema direita, outros apoios surgirão. É importante por exemplo o apoio a Dilma do deputado Jean Wyllys, do PSOL do Rio de Janeiro. "O muro não é meu lugar, definitivamente. Nunca gostei de muros, nem dos reais nem dos imaginários ou metafóricos (...) Por isso, aderindo à posição da direção nacional do PSOL, que declarou ‘Nenhum voto em Aécio’, eu declaro que, neste segundo turno das eleições, eu voto em Dilma e a apoio, mesmo assegurando a vocês, desde já, que farei oposição à esquerda ao seu governo", escreveu Wyllys em sua página do Facebook.

O apoio de Jean Wyllys é interessante porque, em si mesmo, questiona as conservadoras (sim, conservadoras) declarações de “não-voto” em Aécio dadas pela senadora Lídice da Mata (PSB-BA), Luiza Erundina (PSB-SP) e Luciana Genro (PSOL-RS).

Acho sinceramente que a campanha de Dilma Rousseff tem muitas chances de êxito. A canalhice midiática em torno do “delator” Paulo Roberto Costa sobre a Petrobras apenas repete a exploração semelhante feita em 2006 sobre o “mensalão” e em 2010 sobre o caso Ereni Guerra (arquivado pela Justiça Federal em 2012 por falta de provas). As chamadas “balas de prata” do vampirismo político.

É fato que, pela primeira vez em quatro eleições, existe a possibilidade real de perdermos. Mas acredito que, como disse Valter Pomar em entrevista em fins de maio, portanto há mais de quatro meses, “a Dilma vai ganhar as eleições. No segundo turno, numa disputa duríssima, mas vamos ganhar”.



quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Aécio Neves e todos contra Dilma


Entre outros, os apoiadores de Aécio Neves são os seguintes: Marina Silva, Pastor Everaldo, Ronaldo Caiado, Ronaldo Fenômeno, o PSB de Roberto Amaral, Beto Albuquerque e Luiza Erundina, Soninha Francine, Eduardo Jorge, Gilberto Natalini, Geraldo Alckmin etc; Rede Globo, jornais O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, revista Veja, Band (TV e rádio), Jovem Pan, o mercado financeiro etc.

A “nova política” se alia ao "desejo de mudança".

Os manifestantes de 2013 votaram majoritariamente em Geraldo Alckmin, em Marina e Aécio.

A aliança de Roberto Amaral com Aécio Neves sela o fim do PSB como partido de esquerda. Roberto Amaral traiu a memória de Miguel Arraes.

É uma pena, mas Roberto Amaral faz parte da galeria de políticos que o escritor tcheco-eslovaco Milan Kundera definiu como os dignos da “imortalidade risível”. Amaral jogou fora a sua própria história. Chega a dar pena, mas Roberto Amaral não é digno de pena.

Ainda não tem a foto de Marina Silva com Aécio Neves.


Valter Campanato/Agência Brasil


Igo Estrela/Coligação Muda Brasil


Orlando Brito/ Coligação Muda Brasil

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Dilma versus Aécio, crônica de um segundo turno anunciado


A verdade é que este blog nunca considerou Aécio Neves carta fora do baralho, nem mesmo quando Marina chegou ao auge de sua popularidade nas pesquisas, no fim de agosto. E o debate na Globo acabou por consolidar o crescimento que o tucano já registrava nas últimas semanas.

A diferença, em termos percentuais, entre o que José Serra teve em 2010 e o que Aécio conseguiu em 2014 é mínima. Aécio registrou cerca de 1 ponto percentual a mais do que Serra há quatro anos.

2010
Dilma: 46,91% - 47.651.434 votos
José Serra: 32,61% - 33.132.283 votos
Marina Silva: 19,33% - 19.636.359 votos

2014
Dilma: 41,59% - 43.267.438 votos
Aécio Neves: 33,55% - 34.897.196 votos
Marina Silva: 21,32% - 22.176.613 votos

A questão é que Dilma teve desempenho mais de 5% inferior no primeiro turno de 2014. O eleitorado de Marina é menos difícil de conquistar para Dilma do que seria o de Aécio, mais ideológico e politicamente consistente, caso o segundo turno fosse contra Marina. O da pessebista é um eleitorado que responde menos a comandos partidários do que o dos tucanos.

Um dado a se considerar é que o PSOL de Luciana Genro praticamente dobrou a votação de 2010, quando teve 886.816 votos, 0,87 %, com Plínio de Arruda Sampaio. Luciana Genro teve 1.612.186 votos, 1,55%.

Ao voltar para casa hoje (ontem) à noite, peguei um táxi de um rapaz do Pará. Disse que votou em Marina. “Mas agora não tem jeito, vou votar na Dilma”, disse o rapaz, e emendou: “Veja lá em Minas. O Aécio não ganhou lá por quê? Se nem o povo dele deu vitória a ele...”

O segundo turno vai ser um embate importante sobre o futuro do Brasil. Desculpem o clichê.

sábado, 4 de outubro de 2014

Aécio Neves pode ter conseguido passagem ao segundo turno no debate da Globo







24 horas depois do confronto da Globo na quinta-feira, 2, após refletir e lembrar, durante o dia, dos embates desse que foi o melhor debate em muito tempo (incluindo os de eleições passadas), acho que, se tiver segundo turno, Aécio Neves pode ter conseguido ultrapassar Marina no encontro da Globo.

Lembrando a velha metáfora do boxe, onde reinaram Muhammad Ali e Mike Tyson, Aécio entrou com sangue nos olhos e, apesar de sua postura ardilosa e historicamente udenista, aliado à extrema direita representada por Pastor Everaldo, ele se destacou com um discurso direto e objetivo.

Nos bastidores do PT, existe a discussão sobre quem seria o adversário mais difícil no segundo turno. Uns acham que seria Marina, mas mesmo para esses parece que vai ficando claro que Aécio vai ser mais complicado de enfrentar.

Porque Aécio é mais coerente do que Marina, tem mais estrutura político-partidária, aglutina de forma mais consistente o ideário da direita, é mais difícil de ser desconstruído, tem mais condições de estabelecer interações com as forças políticas que Marina, presa à armadilha que construiu a si própria com o mantra da "nova política", tenta agora tardiamente conquistar, além de reconquistar o eleitorado que havia ganhado e perdeu, para Dilma e Aécio, tarefa quase impossível numa eleição.

As circunstâncias desconstruíram Marina, como Michel Temer previu. Consiga ela ou não passar ao segundo turno.


terça-feira, 30 de setembro de 2014

Marina Silva e as circunstâncias



Até Hulk
No início de setembro, o vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB), candidato à reeleição ao mesmo cargo este ano na chapa de Dilma Rousseff, foi perguntado numa coletiva sobre a então ascensão de Marina Silva e se a campanha dele e da presidente iriam atacar a adversária do PSB. A resposta, digna de uma velha raposa da política, foi a seguinte: “Não vejo necessidade (de atacar Marina). Acho que a desconstrução eventual dela pode ser feita por outras pessoas, pelas circunstâncias. Na política é assim. As circunstâncias vão mostrando o que é melhor para o país”.

Pouco mais de três semanas depois, muitas circunstâncias concorreram para a desconstrução da candidatura de Marina Silva, inclusive, e talvez principalmente, ela própria, com suas idas e vindas, suas contradições, suas alianças obscuras e seus recuos, seu programa de governo que, para justificar mudanças súbitas, ela disse que é um "programa em movimento". A questão da CPMF é só mais uma das já quase incontáveis “circunstâncias” previstas por Temer.

Os recuos quanto ao casamento gay, a energia nuclear, o agronegócio, a ingênua tentativa de dizer que votou a favor da CPMF em 1995 (quando votou “não”) e as hesitações, que diante da câmera, num debate, são terríveis a uma candidatura, foram algumas dessas circunstâncias. Até chegar à quase cômica situação desta segunda-feira, quando a campanha da candidata, que desde domingo comemorava o apoio do ator Mark Ruffalo (o Hulk), que gravara até um vídeo por Marina, teve de engolir o próprio ator retirar seu apoio. “Descobri que a candidata à Presidência do Brasil, Marina Silva, talvez seja contra o casamento gay. Isso me colocaria em conflito direto com ela”, escreveu Ruffalo no Tumblr.

E Aécio Neves pode mesmo virar o jogo pra cima de Marina. Hoje, o assessor de um importante dirigente do PT me disse que pesquisas internas do partido estão mostrando empate técnico entre o tucano e a ambientalista. Essa tendência será confirmada? A conferir. Faltando cinco dias para a eleição, é cada vez mais possível que a ex-favorita doutora em “Nova Política” seja rebaixada ao mesmo terceiro lugar de 2010 justamente por praticar a velhíssima “velha política”, com o perdão do pleonasmo.  

A “velha política” de Marina, além de velha, demonstrou-se amadora, vacilante e falsa. Ela vem despencando vertiginosamente em todas as classes sociais e demais filtros das pesquisas, e em todas as regiões do país. 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

A 12 dias da eleição, pesquisas indicam cenário que a oposição e a direita não previram




A menos de duas semanas do primeiro turno e 40 dias depois da morte de Eduardo Campos, tragédia que alavancou a candidatura de Marina Silva, a "fotografia" do momento mostra um cenário que as forças conservadoras do país não previam. 

Na pesquisa Vox Populi divulgada no início da noite de hoje, a presidente Dilma Rousseff aparece com 40% das intenções de voto, 4 pontos percentuais acima do levantamento da semana passada. Marina Silva tem 22%, tendo despencado 5 pontos em uma semana, enquanto o tucano Aécio Neves tem 17%, dois a mais do que há uma semana. Segundo o Vox Populi, os indecisos são 12%.

Já o Ibope também mostra Dilma ascendente, com 38% (36% na pesquisa anterior), à frente de Marina, com 29% (30% na semana passada), e de Aécio com os mesmos 19%. O Ibope diz que os indecisos são 5%.

Ignoremos as “projeções” para o segundo turno, que, francamente, são conversa pra boi dormir ou assunto para manchetes garrafais quando a candidata do PT aparecia atrás da ex-seringueira, ex-senadora, ex-ministra do Meio Ambiente, ex-PV, ex (e talvez futura)-Rede e atual candidata do PSB, Marina Silva, a divulgadora da “nova política”.

Chamam a atenção nas pesquisas duas coisas.

A primeira: ambas mostram Dilma subindo, embora no Ibope apenas dois pontos (de 36% a 38%), enquanto no Vox ela subiu o dobro, e chegou a 40%. Curiosamente, no Ibope Marina apenas “oscila” de 30% para 29%, enquanto no Vox tem uma queda de 5% (27% a 22%).

A segunda coisa que chama a atenção é o número de indecisos: 12% no Vox Populi e apenas 5%, menos da metade, no Ibope. Interprete essa discrepância quem interpretar possa.

Mas o que portanto parece certo é que Dilma está crescendo na reta final, faltando 12 dias para o pleito, enquanto Marina mostra tendência de queda e Aécio de ficar estagnado ou “oscilar” um pouco para cima.

Ao que parece, se não houver fatos novos e muito significativos, a eleição levará Dilma ao segundo turno contra Marina ou Aécio. Insisto no que disse num post de 28 de agosto, 26 dias atrás: “Acho que vai ter segundo turno nas eleições de outubro, mas não considero Aécio já derrotado, apesar de a mídia (acrescento aqui: exceto o Estadão) aparentemente já ter tomado a decisão de apoiar Marina”.

Só que, com 12 dias pela frente, se Marina continuar caindo, seus votos vão para quem? Supondo, hipoteticamente, que se dividam entre Dilma e Aécio mais ou menos igualitariamente, a candidata do PSB pode realmente nem ir para o segundo turno, se Aécio conseguir tirar dela 3 pontos no Vox Populi ou 5 no Ibope (lembrando matemática: se, por exemplo no Ibope, a diferença entre o tucano e a pessebista é 10 pontos, Aécio tirar 5 de Marina significa que ele ganha também 5 e estariam então empatados).

O ex-tucano Walter Feldman, coordenador-geral da campanha de Marina, disse hoje que sua candidata vai, sim, dialogar com a “velha política”. Na semana passada, o vice da ex-ministra, Beto Albuquerque, dizia que não dá para governar sem o PMDB. Estão tentando estancar a sangria. Quem ouve esses acenos à velha política de sempre (e, de resto, é a política que temos e só mudará com uma reforma política), quem escolhia Marina por ver nela algo novo, deve estar agora bastante decepcionado. Pudera. Depois de voltar atrás em pontos específicos do seu programa de governo por pressão de Malafaias da vida, de empresários do agronegócio e outras forças, agora a questão já é voltar atrás no conceito por trás do qual se forjou a candidatura. Muita gente que apostou nela, a essa altura, já deve estar arrependida.

Enquanto isso, Dilma Rousseff discursa amanhã na abertura da Assembleia Geral da ONU.

E Aécio Neves deve continuar sua desesperada cruzada para convencer o eleitorado de que votar em Marina e em Dilma é a mesma coisa, “é votar no PT”, como dizia um cartaz de sua campanha que vi hoje no centro da cidade.

Por incrível que pareça, a direita parece ter errado a estratégia, se dividiu e até mesmo no primeiro turno a eleição pode se decidir, embora seja ainda difícil. Mas não impossível.


* Publicado originalmente 23/09/14 às 23:37 de Brasília

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Pra não dizer que não falei de Luciana Genro


O que penso sobre o PSOL e Luciana Genro já escrevi aqui.

Acho que o PSOL tem uma visão míope sobre ser de esquerda. Tanto é que não é incomum que o partido se una ao PSDB em vários parlamentos do país. Basta procurar na internet para achar exemplos. Se consideram que ser de esquerda é posicionar-se radicalmente contra o PT e colocá-lo no mesmo saco que o PSDB e se, ao atacar o partido de Lula citando o "mensalão", por exemplo, corroboraram as decisões juridicamente absurdas de Joaquim Barbosa (ao lado da TV Globo e toda a mídia conhecida), só se pode ver miopia no PSOL. Ou algo pior: "uma estratégia eleitoreira das mais tradicionais", como observou o Felipe Cabañas da Silva em comentário ao post anterior acima citado/linkado: o PSOL "precisa desconstruir a imagem do PT enquanto partido de esquerda para disputar a fatia progressista do eleitorado e se viabilizar como alternativa de poder".

Seja como for, apesar de minhas críticas e ressalvas feitas, a candidata do PSOL à presidência da República aplicou um nocaute incontestável no tucano Aécio Neves, no debate promovido pela Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) na terça-feira (16). Por isso, a pouco mais de duas semanas do primeiro turno, fica o registro. Para quem não viu a única passagem importante do debate.





segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Dilma tem o apoio de quem não pensa só em si



Chico, Fernando Morais, Nachtergaele e Beth  
Luis Fernando Veríssimo, Chico Buarque, Matheus Nachtergaele, Beth Carvalho, Paulo Betti, Hugo Carvana, Ivana Bentes e Maria da Conceição Tavares, entre muitos outros artistas, intelectuais, produtores culturais e jornalistas assinam o manifesto de apoio à candidatura de Dilma Rousseff.

Segundo o manifesto,“o Brasil precisa de mudanças, como as manifestações de rua do ano passado revelaram (...) aprofundar as transformações na educação e na saúde públicas, na agricultura, consolidando com ousadia as políticas de cultura, meio ambiente, ciência e tecnologia, e combatendo, sem trégua, todas as discriminações (...) o Brasil precisa urgentemente de uma reforma política. Mas precisa mudar avançando e  não recuando ".

Deve-se notar que há algumas vozes dissonantes. As de Caetano Veloso e Gilberto Gil, por exemplo, que declararam voto em Marina Silva. Tempos atrás, dona Canô, mãe de Caetano, puxou a orelha do filho publicamente, porque ele tinha chamado Lula de "analfabeto", e declarou voto em Dilma. Infelizmente, dona Canô já morreu. Nada contra Caetano ou Gil votarem em Marina. É da democracia. Mas Caetano dizer que Marina representa a "chegada de evidentes fenótipos negros no posto da Presidência da República. Isso não é pouco", é bastante ridículo. "É a sociedade brasileira se movimentando para crescer com dores suportáveis", escreveu ainda Caetano, que tem uma obra tão bonita, e poderia nos poupar de tamanhas tolices.

Abaixo, a íntegra do documento assinado por Luis Fernando Veríssimo, Chico Buarque, Matheus Nachtergaele etc:

Os brasileiros decidem agora se o caminho em que o país está desde 2003 é positivo e deve ser mantido, melhorado e aprofundado, ou se devemos voltar ao Brasil de antes - o do desemprego, da entrega, da pobreza e da humilhação.

Nós consideramos que nunca o Brasil havia vivido um processo tão profundo e prolongado de mudança e de justiça social, reconhecendo e assegurando os direitos daqueles que sempre foram abandonados. Consideramos que é essencial assegurar as transformações que ocorreram e ocorrem no país, e que devem ser consolidadas e aprofundadas. Só assim o Brasil será de verdade um país internacionalmente soberano, menos injusto, menos desigual, mais solidário.

Abandonar esse caminho para retomar fórmulas econômicas que protegem os privilegiados de sempre seria um enorme retrocesso. O brasileiro já pagou um preço demasiado para beneficiar os especuladores e os gananciosos. Não se pode admitir voltar atrás e eliminar os programas sociais, tirar do Estado sua responsabilidade básica e fundamental.

O Brasil precisa, sim, de mudanças, como as próprias manifestações de rua do ano passado revelaram. Precisa, sem dúvida, reformular as suas políticas de segurança pública e de mobilidade urbana. Precisa aprofundar as transformações na educação e na saúde públicas, na agricultura, consolidando com ousadia as políticas de cultura, meio ambiente, ciência e tecnologia, e combatendo, sem trégua, todas as discriminações.

O Brasil precisa urgentemente de uma reforma política. Mas precisa mudar avançando e não recuando. Necessita fortalecer e não enfraquecer o combate às desigualdades. O caminho iniciado por Lula e continuado por Dilma é o da primavera de todos os brasileiros. Por isso apoiamos Dilma Rousseff.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Pensamento para sexta-feira [53]
Eleições: Veredas



"(...) Olhe: o que devia de haver, era de se reunirem-se os sábios, políticos, constituições gradas, fecharem o definitivo a noção - proclamar por uma vez, artes assembléias, que não tem diabo nenhum, não existe, não pode. Valor de lei! Só assim, davam tranquilidade boa à gente. Por que o Governo não cuida?!
Ah, eu sei que não é possível. Não me assente o senhor por beócio. Uma coisa é pôr idéias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias...Tanta gente - dá susto de saber - e nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuva e negócios bons..."

(Guimarães Rosa - trecho de Grande Sertão: Veredas, a partir de post de Gabriel Megracko no Facebook)

Ilustração: Poty (do livro Sagarana/1980- Livraria José Oympio)

sábado, 30 de agosto de 2014

Marina se dobra a Malafaia. Imagine Marina presidente



Malafaia comemora no Twitter o recuo de Marina e ataca Jean Wyllys









Marina Silva deu a primeira grande brecha em sua campanha. Apenas 24 horas depois de lançar seu programa de governo, no qual defendia o casamento civil entre homossexuais, ela voltou atrás. A campanha da candidata alegou, em nota oficial, que o recuo foi causado por “uma falha de diagramação”. “Agora, a nova redação não defende alterações na legislação. Ressalta apenas a garantia 'de direitos oriundo da união civil entre pessoas do mesmo sexo', o que já foi reconhecido pelo Supremo Tribunal Federal (STF)”, esclarece matéria do Correio Braziliense. Ontem, no lançamento do seu programa de governo, Marina Silva já  havia dito, sobre o aborto, que defende o que prevê a lei já existente.

Mas isso não é tudo. A candidata do PSB recuou após pressão feita pelo deputado Silas Malafaia em sua conta no Twitter. Depois da divulgação do programa de governo de Marina, Malafaia chamou a proposta sobre a causa LGBT de “vergonha pior do que do PT e do PSDB”.  "Aguardo até segunda uma posição de Marina. Se isso não acontecer, na terça será a mais dura fala que já dei até hoje sobre um presidenciável", escreveu no twitter.

 O jornalista Ricardo Noblat, que todo mundo sabe não ser nenhum esquerdista que come criancinha, escreveu: "Pegou mal. Ontem, Marina retificou parte do seu programa de governo sobre energia nuclear. Hoje, sobre LGBT. O que de fato ela pensa?"

“Bastaram quatro tuites do pastor Malafaia para que, em apenas 24 horas, a candidata se esquecesse dos compromissos de ontem, anunciados em um ato público transmitido por televisão, e desmentisse seu próprio programa de governo, impresso em cores e divulgado pelas redes”, escreveu o deputado do PSOL do Rio de Janeiro Jean Wyllys no Facebook. “Marina, você não merece a confiança do povo brasileiro!”, acrescentou o parlamentar.

Imaginem Marina presidente do Brasil. Cedendo a pressões das bancadas mais reacionárias da política brasileira e do Congresso Nacional. Manipulável por neopentecostais, ruralistas, banqueiros e grandes empresários. E com uma fraqueza política comparável a Collor e Jânio Quadros.

Seria o pior dos mundos.

Chame-se Marina do que for, menos de "nova política" ou "terceira via"






O que explica que Marina Silva, uma candidata sem partido (hospedada temporariamente no PSB para não ficar de fora das eleições presidenciais deste ano), com um discurso que alterna diletantismo e conservadorismo, em crise com sua base política, alçada à condição de candidata pelo acaso e ainda com propostas confusas para diversas áreas, possa aparecer como uma opção viável de "terceira via" ou "nova política"?

Creio que, em parte, porque o massacre midiático anti-PT atingiu níveis críticos e, neste ano, parte expressiva do eleitorado está mais preocupada com quem vai sair do que com quem vai entrar, o que costuma ser uma opção eleitoral suicida.

Por outro lado, o PSDB passa por uma séria crise (a não ser, evidentemente, em seu feudo particular, o estado de São Paulo), e não se apresenta mais, mesmo com o candidato que muitos chegaram a ver como o mais promissor desde FHC, como opção de transformação. Esta mesma crise passará a rondar o PT se o partido perder o governo federal e não perceber que é já hoje um partido que carece de reformulação e da ascensão de novas lideranças, como Fernando Haddad.

De todo modo, podemos dizer que, se há uma "imprensa de oposição" (e há, embora alguns veículos assumam oficialmente, como o próprio Estadão, e outros não), o tiro da campanha negativa anti-PT sairá pela culatra: o preço será a promoção de uma incógnita, ao contrário do que seria a eleição de Aécio Neves.

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Nos últimos dias temos ouvido falar da candidatura de Marina Silva como "terceira via". Creio que este é um conceito maltratado, muito mal utilizado e, com toda a certeza, boa parte do suposto eleitorado da ex-petista não tem a menor ideia do que seja.

Em termos de pensamento político no pós-guerra fria, terceira via significa sobretudo o meio termo entre o capitalismo liberal e socialismo de Estado, este último supostamente morto com a queda do muro. No caso, configurou-se na década de 1990 sobretudo como uma proposta socialdemocrata – e, por isso, com muitas raízes fincadas na esquerda, no pensamento progressista –, tendo Anthony Giddens como referência importante.

Ora, companheiros, não é preciso ser nenhum gênio para compreender que o governo do PT configura-se como uma via entre o capitalismo liberal desenfreado e o socialismo dirigista de Estado – tanto é que apanha tanto da extrema-esquerda, que gostaria de ver um governo mais radical, quanto da direita liberal por ser "muito estatista".

O que quero dizer é: um candidato que se assume como "Terceira Via" deve, antes, dizer a qual conceito de terceira via se refere. Se Marina Silva se refere ao conceito socialdemocrata de terceira via, ela está obviamente perdida politicamente, não conseguindo enxergar que o governo atual é, já, uma terceira via.

Se quer definir uma outra terceira via, deveria deixar claro em que ela consiste; se se refere unicamente a uma terceira via enquanto "mais uma opção além de PT-PSDB", está usando o conceito de forma equivocada. Enfim, chame-se a candidata do que for, menos de "nova política", e dificilmente de "terceira via".

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Sobre eleições e teorias da conspiração



Valter Campanato/Agência Brasil
Marina e Roberto Amaral, presidente do PSB

Raramente gosto de conversar quando surge qualquer teoria da conspiração. Acho um tipo de raciocínio anti-historicista. São sofismas, e sofismas simplistas.

Lembremos o que é sofisma, segundo o dicionário (Houaiss): “argumento ou raciocínio concebido com o objetivo de produzir a ilusão da verdade, que, embora simule um acordo com as regras da lógica, apresenta, na realidade, uma estrutura interna inconsistente, incorreta e deliberadamente enganosa”.

As teorias conspiratórias nascem sempre de fatos importantes. Em vez de raciocinar sobre causas e efeitos (políticos, esportivos, cotidianos ou cósmicos), a mente do teórico-conspiratório projeta uma explicação simplificada do que acha que serve a suas premissas (quase sempre falsas) e produz a tal ilusão. Quando se sentem incapazes de explicar alguma coisa, as pessoas tendem a procurar deuses, fantasias ou ilusões.

Todas as teorias conspiratórias me irritam. Seja na política, seja no futebol.

A tragédia da queda do avião de Eduardo Campos, que na minha opinião fez mal para o Brasil e, do ponto de vista político ou humano, foi muito triste, é a mais recente fonte de teorias do gênero.

Os atentados às Torres Gêmeas no 11 de setembro de 2001 foram uma das mais ricas fontes de inúmeras teorias do tipo.

É só a seleção brasileira de futebol perder, que lá vêm as teorias conspiratórias: perdeu de 3 a 0 da França em 1998 porque o time se vendeu, Ronaldo não teve convulsão nenhuma etc etc. Já em 2014, perdemos da Alemanha de 7 a 1 porque, na verdade, tudo fazia parte de um esquema para prejudicar a Dilma nas eleições etc etc. Os teóricos conspiratórios não enxergam que o time de Zidane em 98 era um grande time, muito superior ao medíocre Brasil de Zagalo; e que o time de Felipão de 2014 foi um dos piores da história do futebol brasileiro, senão o pior.

Outros, de espectro político oposto, diziam antes da Copa do Mundo deste ano que a Copa já estava comprada. “A Dilma e o PT já compraram, o Brasil vai ganhar a Copa, pode escrever”, me garantiu uma pessoa em meados de maio de 2014. Pois é.

E assim é.

Não estou conseguindo ver a eleição presidencial sob a ótica da teoria da conspiração. Embora alguns vejam, paranoicamente, até a CIA implicada no processo político brasileiro atual, as coisas estão caminhando de acordo com a evolução político-histórica do Brasil contemporâneo. O que quero dizer é que acho que existem conspirações, dos Estados Unidos inclusive, e que coisas estranhas acontecem, mas não são apenas as conspirações e as coisas estranhas que explicam os fatos históricos. Se dependesse dos EUA, Fidel Castro teria sido assassinado há décadas.

Acho que vai ter segundo turno nas eleições de outubro, mas não considero Aécio já derrotado, apesar de a mídia aparentemente já ter tomado a decisão de apoiar Marina. Marina é uma figura ambígua, e perigosa. Esse discurso contra a política tradicional de um (a) eventual presidente sem sustentação política ou facilmente manipulável – esse filme já vimos. Mas Marina não é apenas como que um produto projetado por George Soros e companhia, como querem alguns, como se projetar presidentes da República fosse como resolver uma operação algébrica simples. Pensar assim é ignorar a complexidade da política brasileira. Aécio Neves, que nem sabe se estará no segundo turno, já anunciou no debate da Band que seu ministro da Fazenda será Armínio Fraga, que é muito próximo de George Soros.

Pode ser que Marina seja uma bolha eleitoral, pode ser que não. As próximas semanas vão esclarecer.

Se acontecer uma possível derrota de Dilma Rousseff na eleição, não terá sido (pelo menos não apenas) decorrente de conspirações, mas de muitos fatores conjugados. No momento me parece improvável uma derrota de Dilma.

O que faltou a Dilma durante seu mandato, e agora está fazendo falta em votos, é a capacidade de conversar e negociar com as diferentes forças políticas, inclusive com o mercado financeiro. A capacidade de Lula. Faltam quase 40 dias para o primeiro turno, muita água vai passar debaixo da ponte.

Acho que Dilma ganha a eleição, mas no segundo turno e sem facilidade. Dilma está sendo bombardeada por todos os lados e nem o PMDB de Michel Temer está ajudando no combate. Isso é política. O resto é teoria da conspiração.