sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Santos, o artilheiro do mundo (ensaio sobre futebol)


Alvinegro da Vila é o time que marcou mais gols na história do futebol, 12.003, até a data de hoje. No sábado 1º de fevereiro, o menino Gabriel, agora mais um dos lendários meninos da Vila, com seus 17 anos, anotou o tento de número 12 mil da história do clube, contra o Botafogo de Ribeirão Preto na Vila Belmiro, na goleada por 5 a 1, após massacrar o Corinthians pelo mesmo placar três dias antes.


Ivan Storti/Divulgação Santos FC
O "menino da Vila" Gabriel, autor do gol 12 mil, aos 17 anos



O título do post é autoexplicativo. Nunca consegui falar de futebol de maneira muito informativa. São as minhas divagações de sempre, que às vezes fogem quase completamente do tema.

Os que me conhecem já devem estar pensando que venho dizer que o Santos é isso, que o Santos é aquilo, que é mágico, que é filho de Iemanjá, que parou uma guerra, que o Santos é o time mais glorioso de todos os tempos etc. etc. etc. Não, nada disso, não vim falar nada disso. Mesmo porque se dissesse isso diriam: "mas o Santos só tem dois títulos do Mundial de Clubes, um título da Recopa Intercontinental, três títulos da Copa Libertadores da América, um título da Recopa Sul-americana, um da Copa Conmebol, um da Supercopa Sul-americana, oito Campeonatos Brasileiros (títulos nacionais unificados), uma Copa do Brasil, cinco títulos do Torneio Rio-São Paulo, vinte do Campeonato Paulista, uma Copa Paulista etc. etc. etc." e sei lá o que mais diriam... Mas aos que diriam isso eu digo que também não vim falar disso, porque sei que há clubes no mundo com mais títulos que o Santos. Também meu objetivo não é justificar o fato de o Santos ser o único time grande do futebol brasileiro que não pertence à capital de seu Estado, pertence a uma cidade com menos de 500 mil habitantes.

Sei que o futebol é um ramo bastante poluído pelo enorme interesse que desperta. Há bilhões de dólares circulando no futebol. Seria um hipócrita se dissesse que é apenas um esporte e que os negócios pouco interferem. Porém, há motivos justos para se gostar do futebol, independentemente dos resultados, que são descaradamente manipulados, em alguns casos que todo boleiro bem informado conhece. E ainda assim há motivos para se gostar do futebol.

Os que me conhecem costumam dizer que sou santista porque meus pais são santistas. Este fato não nego, porém também não afirmo, pois não posso retroceder no tempo, alterar o destino e depois colocá-lo em andamento novamente para saber qual seria o resultado do meu presente. Mas uma coisa posso afirmar, se não fosse santista, muito provavelmente hoje em dia teria um certo desinteresse pelo futebol. Quando era criança, tive alguma empatia pelo Clube de Regatas Flamengo, mas apenas a ponto de querer que vencesse os demais times que não fossem o Santos. Hoje em dia o Mengão não passa de mais um clube dentre os tantos no mundo, com uma gigantesca torcida preta e vermelha, combinação que me agrada os olhos.

Retomando, vim aqui para dizer apenas uma coisa, todas as outras coisas que disse podem cair em argumentações sem fim e reafirmo que há outras atividades na vida além de discutir futebol.

Mas há algo que ainda vale a pena e em que dólar nenhum manda.

Há quem diga que título é o que importa. Para estes, eu diria que passem a ser fanáticos torcedores do Real Madrid (time pelo qual nutro verdadeira ojeriza), do Barcelona, do Bayern de Munique, do Milan, da Juventus etc. etc. etc. É natural que um time tenha a necessidade de ganhar títulos. O Santos não é o time com mais títulos no mundo.

Vincent Van Gogh, para os meus olhos o maior pintor de todos os tempos, vendeu apenas um quadro em sua vida, o que quer dizer que suas conquistas em termos de “títulos” beiraram o zero. Carlos Drummond de Andrade, para o meu cérebro comum, o maior poeta que já li e imenso contista, nem em dez reencarnações faria fortuna como já fez J. K. Rowling com seu Harry Potter. Esta é uma comparação desmesurada, claro, mas nem sequer posso comparar Drummond a algum poeta que tenha ficado rico apenas vendendo poesia, pois não há, a despeito de a poesia ser geralmente pioneira nas tendências da arte.

Sim, preciso ver arte no futebol, de outra forma teria verdadeira preguiça de assistir a jogos. Bom, cansei de dizer o que não diria. O único fato que me leva a redigir tantas letras em favor do futebol é a arte que nele há. E nisto diria que há ainda um motivo justo para se gostar de futebol, para ligar a diabólica televisão ou conectar-se à poluída internet para ver um jogo: o gol. É claro que só marcar gols não é suficiente para ganhar jogos nem títulos, mas é natural que um time que faça muitos gols ganhe muitos títulos, mesmo que não todos! O gol é a maior alegria de um torcedor. Jamais torceria para meu time ganhar um campeonato fazendo poucos gols e sofrendo menos que fazendo. Sinto verdadeiro tédio com isso.

Senti verdadeiro tédio quando, após ganhar a Libertadores com o padrão de jogo característico, Muricy Ramalho transformou o Santos em um time de futebol horroroso e retranqueiro. Para os adoradores do futebol de resultado, diria que poucas vezes me deu tanto prazer de ver futebol quanto no simples Campeonato Paulista de 2010. Há torcedores que não tiveram tanto prazer vendo seu time ganhar o Campeonato Brasileiro. Para mim, ver o Santos jogar nunca foi motivo de luta, guerra ou resultado, mas simplesmente bom futebol e acima de tudo gols!

Mas, infelizmente, não são todos os torcedores do mundo que elegem o gol e um futebol bonito de encher os olhos de leigos e troianos como as melhores características dos clubes para os quais torcem. O objetivo de um time de futebol é fazer gols. Também é não tomar, mas, como disse, sinto tédio com jogos em que o objetivo de um time é não tomar e, quem sabe, fazer. Ser um campeão invicto com um a zero, meio a zero, um décimo a zero é algo que, particularmente, não me agrada.

Estou aqui para lembrá-los de que a torcida do Santos Futebol Clube é a torcida mais feliz do mundo e que mais tem motivos para ignorar a desgraça política em que está metido o futebol. Gols, moleques que só querem saber de brincar com a bola e fazer gols. Fiquem com os seus Barcelonas (Muricy já foi embora e levou os quatro a zero com ele), Real Madrids, Milans, Palmeiras, Corinthians, São Paulos, Boca Juniors... o Santos é o artilheiro do mundo. Venham bater uma bolinha irreverente com o Peixe, e quem sabe, num dia inspirado, a poesia aconteça mais uma vez.

3 comentários:

Paulo M disse...

Legal. Pô, levei uma hora ontem escrevendo um comentário aqui para o post anterior, mas um dos meus dedos esbarrou em uma das letras do teclado e o texto sumiu, simplesmente. Eram expressões indignadas contra os maus serviços, em geral, prestados pelo atual governador (santista he he) de São Paulo.

O que não falta ao mundo é gente culta que acha que o futebol é contrário aos dogmas do intelecto, que é alienante, que distrai, anestesia e entorpece. Não é de todo errada a tese, mas o futebol talvez seja a mais universal das linguagens a superar o mito da Torre de Babel, e que o digam Chico Buarque, Pasolini, Albert Camus e Gabriel Megracko.

Mas, Megracko, se tudo der certo, vamos aí, sim, bater uma bolinha na praia na final do Paulista. Seria um brinde ao centenário palmeirense depois de quase meio século sem que os dois decidam a taça. Iemanjá tem muitos filhos paulistanos.

Edu Maretti disse...


Começando pelo fim, Paulo, torço (e convivo com palmeirenses que tb torcem) para ter essa final Santos x Parmera que ninguém nunca vê, o que é um sortilégio do futebol (o futebol e seus sortilégios!). Ironicamente, o "Paulistinha" é o teatro onde esse embate atualmente tem mais chance de acontecer (na Copa do Brasil é mais difícil). O Brasileirão virou essa chatice sem final.

O texto do Megracko expressa muito bem a alma do torcedor do Santos, mas melhor ainda a alma do próprio Santos (a torcida santista pode ser "a mais feliz do mundo", mas muitos não têm consciência disso e só reclamam - uma coisa meio de psicanálise). "O Santos é o artilheiro do mundo"! Pena que Camus não nasceu em Santos. Talvez tivesse vivido mais e escrito mais livros!

Mas chegando ao início, perder texto é uma merda...

Ah, e o governador atual é santista (e roxo), mas o anterior (o Serra) é palmeirense roxo. Até aí tamo empatado! (rss - pra ver como o clássico é equilibrado...)

Gabriel disse...

"O que não falta ao mundo é gente culta que acha que o futebol é contrário aos dogmas do intelecto, que é alienante, que distrai, anestesia e entorpece. Não é de todo errada a tese, mas o futebol talvez seja a mais universal das linguagens a superar o mito da Torre de Babel, e que o digam Chico Buarque, Pasolini, Albert Camus" Retiro meu nome porque... bom, é óbvio por quê.
Mas... tenho pensado muito nisso entre as aspas, e é ótima a observação. Mas gosto dos esportes em geral e, afinal, não há nada de errado com os esportes, muito menos com o futebol, que me parece ser dos mais ou o mais orgânico, mais coletivo e menos estático e repetitivo de todos. Isso de rejeitar o futebol por ideologia me cheira a um vegetarianismo por concepção. Um outro Gabriel concordaria com o García, mesmo que Márquez ficasse na solitude.
O futebol é uma invenção genial, por isso há tantos urubus sobrevoando, mas como é uma linguagem íntegra, só perde pra sua própria morte. O que difere de más novelas, Silvio Santos e Datena: farsas.
Paulo, melhor que venha o Verde mesmo, o Curíntia tá batendo uma bolinha quadrada. O Bão Baulo vai trazer o Desmuricydor, que não quero que pise na Vila nem Ramalho! Só na fase de grupos se for pra cumprir tabela.