sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Contra impeachment, Rede avança para ocupar espaço à esquerda


Geraldo Magela/Agência Senado


A informação de que a Rede Sustentabilidade, o partido de Marina Silva, se posiciona contra o pedido de impeachment de Dilma é uma notícia importante. Mas, mais do que a notícia em si, ela aponta para algo mais: é mais um fato que vai consolidando a estratégia da Rede, desde já, de procurar ocupar um espaço à esquerda do espectro político e conquistar o eleitorado que hoje  se vê mais ou menos órfão, com "a maior crise da história" do PT, como disse o presidente da Confederação Sindical Internacional (CSI) e liderança orgânica do partido de Lula, João Felício, na semana passada.

Crise que decorre tanto do cerco e bombardeio ininterrupto que o PT tem sofrido por parte do Ministério Público, do Judiciário e da mídia desde 2005, quanto do desgaste natural a qualquer partido ou grupo que governa há 12 anos (vide Argentina, onde o kirchnerismo, depois de 12 anos, acabou perdendo a eleição para a direita de Maurício Macri).

Já citei anteriormente, mas volto a mencionar a avaliação da professora Maria do Socorro Sousa Braga, em matéria que fiz para a RBA quando a Rede conseguiu seu registro oficial no TSE: para ela, a estratégia da Rede é justamente tentar ocupar um espaço à esquerda, que é um terreno de disputa não apenas pela crise petista, mas também pela própria crise de representação e a rejeição de grande parte da população aos partidos conhecidos. “Existe um espaço a ocupar à esquerda. Esse espaço, PSTU e PSOL não conseguiram ocupar, não conseguiram a envergadura de um PT quando o partido de Lula começou a crescer nos anos 1990”, disse a professora na ocasião.

ida do ex-petista Alessandro Molon para  Rede, no final de setembro, foi outro importante indicativo de que o partido de Marina está, sim, visivelmente empenhado em se construir e viabilizar como alternativa num campo que enxerga como bastante fértil para ser semeado daqui a 2018. Mas a Rede vai obviamente tentar avançar também nos setores da classe média, da esquerda à centro-direita, pois se tem uma coisa que Marina não é, é boba. O discurso da sustentabilidade (que atrai vastos setores do espectro político) é sempre e cada vez mais importante no embate político, o que a tragédia de Mariana só reforça.

Marina tem ainda um "capital" eleitoral muito grande, que herda de 2010 e 2014. Muita coisa vai acontecer daqui até 2018. Mas parece certo que a Rede vai ser uma das forças de 2018. O que, politicamente, é interessante, porque será certamente uma força que pode em parte neutralizar, racionalizando o processo e o discurso, o crescimento da direita no país.

*****

Atualizado às 21:52 - Menos de um dia depois de se posicionar contra o impeachment, Marina Silva corrige sua posição (como fez na campanha eleitoral, quando se rendeu à pressão do pastor Silas Malafaia). Disse ela hoje: “Nossa atitude é de que de fato o Brasil seja passado a limpo. E se de fato os recursos da Petrobras foram usados pela campanha da presidente e do vice-presidente, o correto é que ambos os indicados possam ter o processo (eleitoral de 2014) anulado, como está lá no pedido que foi feito pelo PSDB”, afirmou, segundo o blog do Fernando Rodrigues. O problema de Marina Silva é justamente esse: suas posições não se sustentam. Ela cede a qualquer pressão.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Palmeiras mereceu o título - poema futebolístico modernista


Resumo

O Palmeiras mereceu o título da Copa do Brasil. O equilíbrio, na somatória após os dois jogos, foi total. Mas, na hora de decidir, o Santos tinha Marquinhos Gabriel, que caiu sentado, e o Palmeiras tinha Fernando Prass, que colocou a bola na rede.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Santos de Gabriel faz duelo final contra Palmeiras de Fernando Prass



Artilheiro da Copa do Brasil, Gabigol, e Prass, o melhor do Palmeiras

Desde quinta-feira passada, a discussão que tenho de enfrentar sobre a esperada final Santos x Palmeiras, com raras exceções, se resume a isso: foi pênalti, não foi pênalti, foi pênalti, não foi pênalti, foi pênalti, não foi pênalti. A enfadonha discussão começou com o protesto de palmeirenses no Facebook.

Quase ninguém parece ter-se lembrado de falar de futebol. Ou se preocupou em lembrar que esta final da Copa do Brasil entre os dois grandes clubes é a segunda desde os estertores dos anos 1950. A final do Paulistão de 2015, vencida pelo Santos nos pênaltis, foi a primeira decisão entre ambos desde 1959, embora aquela, vencida pelo Palmeiras, tenha sido um caso à parte: o Paulista daquele ano foi disputado em pontos corridos e, como Palmeiras e Santos terminaram empatados, tiveram de fazer uma disputa-desempate.

A montagem da imagem acima é proposital: o artilheiro da competição contra o melhor jogador do time da capital, o goleiro, o que, por si só, já diz muito do duelo. 

Mas o fato é que, nesta quarta-feira, 2 de dezembro, acredito que o Santos continua levemente favorito. Diria por 55% a 45%. O Santos é mais time. Tem no elenco jogadores talentosos e decisivos, como Gabriel (artilheiro da Copa do Brasil com 8 gols) e Lucas Lima. Tem o artilheiro de todo o país em 2015, Ricardo Oliveira, com 36 gols. Jogadores experientes, como o próprio camisa 9 e o volante Renato.

Além disso, a vitória por 1 a 0 na Vila deu ao Alvinegro uma vantagem não só matemática, mas também tática: ao contrário do jogo na Vila Belmiro, quando o Palmeiras não jogou futebol e não deu sequer um chute a gol (a não ser um cruzamento que foi direto à meta de Vanderlei a 1 minuto de jogo), no Palestra Itália o Alviverde vai ter que jogar – ou seja, se abrir, mesmo que com cautela – se quiser reverter o placar adverso. Isso é tudo que o Santos queria, e por saber disso é que veio a revolta e inconformismo dos palestrinos após a derrota na Vila. A principal arma do Santos de Dorival Jr. é o contra-ataque em velocidade, com Lucas Lima armando os golpes fatais de Ricardo Oliveira e/ou Gabriel, e foi assim que o Peixe eliminou o Corinthians em pleno Itaquerão por 2 a 1.

O Palmeiras pode contar como armas o aguerrimento e a torcida que vai lotar o estádio. Essa vantagem , porém, pode se virar contra o time se ele não fizer um gol logo. A ansiedade da equipe e da torcida vai crescer na medida em que o tempo passa. Se o Santos marcar um gol antes, a tarefa ficará ainda mais difícil para o Alviverde. O Peixe marcou pelo menos um gol em todas as 13 partidas disputadas até aqui na competição.

Mas futebol é jogo e jogo é também sorte e azar. Se o Palmeiras marcar antes, pode conseguir se armar na defesa e na catimba, que terá de usar contra um time superior, e vencer o jogo. Se por um gol, para decidir nos pênaltis. Para ser campeão direto, precisa de uma diferença de dois gols.

***

Gosto dos comentários de Paulo Vinícius Coelho porque ele fala de futebol e informa, ao invés de ficar com blá-blá-blá de pênalti, não-pênalti. Ao comentar o jogo vencido pelo Santos, na semana passada, ele lembrou: “A final da Copa do Brasil se parece com a decisão do Paulistão”. Disse também o PVC no texto: “O Santos é mais time. Mas neste ano, agora são seis clássicos Santos x Palmeiras. O Santos ganhou todos na Vila, o Palmeiras venceu os dois no Allianz Parque e todas as vitórias aconteceram por um gol de diferença. Só falta isso e a decisão por pênaltis para repetir a final do Campeonato Paulista”.

Então é isso. Chega de papinho de pênalti, caros palmeirenses, como se aquele do primeiro jogo fosse o primeiro pênalti ou não-pênalti polêmico da história do futebol.

Como dizia o velho Osmar Santos: vamos pro jogo, garotinho.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Na era da tecnopolítica, informação é o que está oculto


No dia 12 de novembro passado, um dia antes dos ataques a Paris pelo Estado Islâmico, o sociólogo Laymert Garcia dos Santos, que foi meu professor na PUC lá se vão muitos anos, participou de seminário na Assembleia Legislativa e falou sobre o tema informação. Mais do que a análise, como sempre sofisticada e aguda, a respeito de vários aspectos da realidade atual – as relações entre informação, mídias e política –, foi marcante a abordagem sobre a dificuldade de compreensão, por parte da esquerda, desse fenômeno hoje.

Segue um trecho da exposição de Laymert, que fala por si.


Reprodução/Youtube
Há hoje uma dimensão totalitária da linguagem e a instrumentalização da linguagem política. Não vejo como a esquerda possa reagir diante dessa ofensiva totalitária da mídia.

"O que não me satisfaz no modo como os blogs sujos combatem essa linguagem totalitária [dos meios de comunicação de massa, da ‘grande mídia’ ou como se queira chamar] é que eles não entenderam ainda, apesar de estarem mais próximos do entendimento disso, que a política hoje é tecnopolítica, não é mais só política. Quem entendeu que a política não é mais a política tradicional, mas que tínhamos passado para uma dimensão da tecnopolítica, é Julian Assange, é Edward Snowden e outros menos heroicizados, mais desconhecidos, gente que entendeu a potência e o poder da informação (...) Eles entenderam que o poder e o controle hoje se dão em torno da informação, estão com quem detém a informação e a torna acessível. O Facebook, por exemplo, acho que sabe fazer tecnopolítica. Quando ele consegue vender para milhões e milhões de pessoas que o que interessa é mais do mesmo. De certa maneira, ele conseguiu trazer para o campo das novas mídias uma coisa das velhas mídias. O que a Globo faz é mais do mesmo. No Facebook também é mais do mesmo, porque o Facebook é o meu espelho. Eu só reconheço as coisas que estão lá, só me interesso pelo reconhecido. Não o conhecido, mas reconhecido. Todo mundo vai se comprazer em ficar olhando para um espelho narcísico, para si mesmo, para seus amigos ou sua própria imagem, ou para tudo aquilo que é mais do mesmo. Informação é diferente disso: informação é o diferente, não o mesmo.

Por que digo que Assange e Snowden são intelectuais do futuro? Porque eles entenderam que o problema da dominação é a questão da informação, vão procurar o que é o mais guardado, o que não pode ser exposto. O contrário do que faz o Facebook. ' O que o poder dos poderosos não quer mostrar? É isso que nós vamos mostrar. É isso o que interessa.’ Então (...), ao invés de ficar olhando para o próprio espelho, você cria uma ruptura, porque aparece uma outra dimensão, que é dada precisamente porque ela é aquilo que quem detém o poder não quer mostrar. Porque no mundo de hoje tudo é exposto, menos aquilo que devia ser exposto. O que devia ser exposto é o que Snowden mostra: todos nós somos vigiados, todos temos nossos dados manipulados (...) O que fazem as grandes corporações, como Google, Facebook? ‘ Temos especialistas que vão trabalhar com os sentimentos das pessoas, dos afetos das pessoas, os rastros afetivos, sociais, linguísticos, o cartão de crédito etc, e todos esses rastros deixados pelas pessoas vão nos permitir fazer uma leitura delas e conhecê-las melhor do que elas mesmas (...) É isso que é capitalismo hoje. São essas informações que vão contar.

O usuário comum do Facebook vai estar lá se deliciando com sua própria fotografia, sem saber que tem uma outra instância onde ele está sendo programado o tempo inteiro para ter a reação X, que vai ser cada vez mais ele ficar contente com seu narcisismo. Vejo a esquerda querer se contrapor a essa ofensiva – que trabalha neste nível, no nível da tecnopolítica – ainda com uma política da representação. Mas você está lidando com uma coisa que tem uma dimensão de ficção científica, e lida com isso dessa maneira, como se você estivesse no século XIX? É claro que você vai perder todas.

sábado, 14 de novembro de 2015

Paris, 13 de novembro de 2015




É impressionante a quantidade de análises afoitas (para não dizer tolas) que a gente lê quando acontece uma tragédia da dimensão da que o mundo testemunhou nesta sexta-feira 13, em Paris.

Do lado de lá, dos "analistas" conservadores ou reacionários, o debate é resumido por questão colocada por um "âncora" da Globo News: "como fica o combate ao terrorismo?"

Do lado de cá, "analistas" da esquerda sugerem que os ataques a Paris teriam sido uma reação "imediata" do grupo islâmico ISIS a derrotas por ele sofridas recentemente, como a propalada eliminação do chamado “Jihadi John”, o degolador. Esta análise é muito superficial, já que ignora ser impossível que um ataque coordenado nessas proporções, como o de Paris, fosse planejado, organizado e executado em tão pouco tempo.

O que é certo é que o mundo não vai ser mais o mesmo depois deste 13 de novembro de 2015.

Muitas publicações deram capas e manchetes sensacionalistas sobre os atentados de Paris (o termo mais utilizado foi "massacre"), mas a imagem que ilustra este post, do jornal esportivo L'Equipe, me parece a mais sintética.

Seja como for, é muito triste.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Pequena crônica de avião

Para Tatiana Fernández


Foto: Carmem Machado (clique para ampliar)
Você ver o sol se pôr acima das nuvens não tem preço

Cerca de 15 anos atrás, fumando um cigarro com um colega de trabalho na sacada de um edifício onde trabalhávamos no bairro da Vila Olímpia, na época considerada e chamada (um tanto imprecisamente) o "vale do silício brasileiro", diante de aviões que pousavam e decolavam na nossa frente, aquele colega fez um comentário: "um jato como esse é tão bonito que cada vez que cai um desse eu penso que é muito injusto".

Lembrei disso esta semana, quando caiu o A321 da companhia russa Metrojet, em 31 de outubro, depois de decolar de Sharm el-Sheikh com destino a São Petersburgo.

Apesar de já ter viajado muitas vezes de avião, e por mais que vá viajar no  futuro, para mim é sempre uma experiência mágica. Não tenho medo, mas fascínio. E não é coisa de turista bobo, mas uma maneira poética (ou espiritual, se quiserem) de sentir a coisa.

Sempre me parecem estranhamente fúteis ou insensíveis aquelas pessoas que, incompreensivelmente, antes mesmo de o avião decolar, já estão... dormindo! É impressionante uma pessoa, sóbria, sem nenhuma droga na cabeça, nem álcool, nem nada, dormir antes de o avião decolar. Ou será que essas pessoas só estão interpretando?

Se você sente um friozinho na barriga ou um medo paralisante, é uma questão pessoal. Eu, por exemplo, ultimamente, ando até preocupado, porque não tenho sentido medo nenhum. Mas... não sentir nada, absolutamente nada, dentro daquela máquina enorme, que vai voar por cima de cidades, continentes e mares, acima das nuvens, não sentir nada e simplesmente dormir, como se estivesse dentro de um ônibus que vai de São Paulo a Piracicaba, me parece demasiado dissimulado, típico de pessoas que não entendem que a poesia está em toda parte (claro, dependendo das circunstâncias, pode até estar num ônibus que vai a Piracicaba, mas o tema deste post é voar...)

E se cair?, você pensa. Ora, se cair, caiu. É melhor do que morrer de câncer.

Conheço quem tem tanto medo de viajar de avião que precisa estar literalmente dopado, para voar. Também acho que esse extremo é absurdo, mas pelo menos é mais humano. Só que a pessoa viaja 1.000 quilômetros de carro com tranquilidade e precisa se dopar para subir numa aeronave, mal sabendo que a probabilidade de morrer com uma simples derrapada no seu carro numa estrada é muitas vezes maior do que ao voar de avião.

E se cair?, a pessoa pensa. Ora, se cair, caiu. É melhor do que ficar vegetando por causa de um acidente de carro.

E você ver o sol se pôr acima das nuvens (a foto no alto deste post) não tem preço.

A sensação de estar voando (sim, estar voando), de decolar, pra mim é sempre mágica, seja na primeira ou na milésima vez que eu tenha tido ou vá ter essa experiência.


sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Notas de Buenos Aires


                                           clique nas fotos para ampliar
Avenida de Mayo é o coração de Buenos Aires


I

Jorge Luis Borges, que nasceu em Buenos Aires em 24 de agosto de 1899, escreveu sobre sua cidade natal:

los años que he vivido en Europa son ilusorios,
yo estaba siempre (y estaré) en Buenos Aires
.”

Os versos, do poema Arrabal, têm uma coloração metafísica, como se dissessem: se você conhece Buenos Aires, ela já não te deixará. Outro grande escritor argentino, Julio Cortázar, afirmou que caminhar por Buenos Aires era um de seus maiores prazeres.

Mesclando as abordagens de Borges e Cortázar, a mim Buenos Aires provoca uma sensação de nostalgia, no sentido que se dá à palavra na língua espanhola, uma mistura de nostalgia, melancolia e uma espécie de saudade sem objeto. Isso muito provavelmente pela arquitetura e cultura da cidade. De modo geral, essa tênue melancolia não atrapalha e o prazer provocado pela cidade prevalece.


Avenida Saenz Peña

O caráter severo e orgulhoso dos portenhos de Buenos Aires como que se reflete na arquitetura urbana europeia, de matriz madrilenha. Como Borges, os portenhos são orgulhosos, gentis, românticos e por vezes arrogantes.

II


Você está andando por aquela vila e de repente vê la cancha

Buenos Aires tem bairros muito interessantes, mas La Boca fascina sobretudo. O bairro é intrinsecamente ligado ao Boca Juniors. La Boca é muito cativante porque é popular.

Caminhando, entre as ruas daquela vila, de repente você se depara com la cancha, La Bombonera. O estádio é imponente, colorido, bonito, como uma antiga arena greco-romana plantada na Argentina.

Pensemos comparativamente: imagine o time de um bairro cujos torcedores misturassem o caráter do mais popular e do povo (o Corinthians) com o caráter dos ítalos (que em São Paulo estão na Mooca e na Pompéia, por exemplo – os palmeirenses), e com um estádio que sob vários aspectos lembra muito a Vila Belmiro naquela vila de Santos. O Boca Juniors é tudo isso.

No bairro, um jornaleiro já idoso, com uma banquinha humilde de revista na calle Brandsen, me diz que Cristina Kirchner quebrou o monopólio da mídia com a Ley de Medios e que Daniel Scioli, o candidato da presidente, vai ganhar na primera vuelta (primeiro turno). O senhor me diz que a Ley de Medios precisa vingar e por isso e outras coisas votará no candidato de Cristina.

III

A avenida de Mayo, na minha modesta opinião, é o coração de Buenos Aires. Não (apenas) por seu simbolismo, já que começa na Casa Rosada, sede do governo argentino, e termina no Congresso Nacional do país. Mas porque o lindíssimo bulevar de 1,5 km de extensão – com dezenas de cafés, bares e restaurantes de vários tipos – é um espaço democrático onde transitam pessoas de todas as idades durante todo o dia e até tarde da noite.

O mítico Café Tortoni, fundado em 1858, fica na avenida de Mayo. Diferentemente de São Paulo, onde você gasta os olhos da cara em qualquer barzinho medíocre metido a besta, você pode ficar horas no Tortoni, tomando um bom vinho (que na Argentina é muito barato) e comer um prato e gastar cerca de 300 pesos em duas pessoas (cerca de 85 reais, no câmbio de hoje: cada real valia 3,60 pesos no paralelo, enquanto estivemos lá).

Na avenida de Mayo, o mítico Tortoni

Se você está num hotel na avenida de Mayo, não precisará de mais nada. Não há nada parecido à avenida de Mayo em São Paulo. 

IV

Santelmo também é um bairro especial, acolhedor e agradável. Imagens como a desta senhora na foto abaixo, num restaurante onde almoçamos no bairro, falam por si. Tem muitos artesãos e lojas de antiguidades. 

Personagem de Santelmo

Apesar de estarmos em Santelmo, o ônibus (lo coche) abaixo retrata como é a frota da cidade. São modelos como esse que circulam em todos os lugares. Dificilmente você espera mais do que cinco minutos no ponto para pegar um coche. Não existe a função de cobrador nos ônibus. A passagem é paga com um cartão (Sube) que você carrega (como o nosso bilhete único) e usa na máquina ao lado do motorista. Mas não há um sistema como o bilhete único paulistano. Lá, você paga a mesma tarifa toda vez que pegar um transporte, ônibus ou metrô (lá é Subte); não existe desconto. Em compensação, uma passagem custa em média (não tem um valor fixo) 3,25 pesos, o que equivale a cerca de 1 real. O Estado nacional subsidia o transporte.


O ônibus 29 te leva a Santelmo



Não gosto do bairro La Recoleta, elitista e caríssimo para tudo. Mas lá está o Museu Nacional de Belas Artes. No acervo, podemos ver maravilhas como as bailarinas de Degas.





Ou o quadro Annabel Lee (também chamado Mulher na praia, de 1861), de Édouard Manet, referência a Annabel Lee, título do último poema completo composto pelo poeta americano Edgar Allan Poe, escrito em 1849. Nele, Poe escreve: "Faz já muitos anos. Em um reino além do mar vivia uma menina que podias conhecer pelo nome de Annabel Lee. Essa menina vivia sem nenhum outro pensamento a não ser me amar e ser amada por mim" (Edgar Allan Poe, 1849).


Ou este Van Gogh (Le Moulin de la Galette).



Ou este Picasso.



VI 

Palermo foi o bairro onde Jorge Luis Borges viveu parte da infância. Não à toa, o escritor virou nome de rua. Não conheci Palermo quando fui à cidade pela primeira vez, há uns 15 anos. Mas, de modo geral, achei o bairro um pouco monótono.




VII

Faltou, e aqui acrescento, falar do metrô (que em Buenos Aires se chama Subte - de subterrâneo), sobre o qual mais de uma pessoa me perguntou e o Paulo citou em comentário neste post: "Por toda parte, naquele subsolo, você lê versos nas paredes e nas verticais dos degraus das escadas e caminha sobre centenas de capas de livros desenhadas em pisos que parecem velhos, como os tetos e as paredes". Abaixo a estação Lima (na avenida de Mayo).


A estação da famosa Plaza de Mayo.



O metrô na cidade foi fundado em 1913 (é o mais antigo da América latina) e tem 56 km de linhas. As estações se espalham por toda a cidade, das regiões centrais à periferia. O metrô (Subte), porém, não chega a lugares importantes, como Recoleta e Santelmo.

As estações têm arte e características diferentes entre si. Muitas têm bancas de jornal em plena plataforma, o que mostra uma característica dos portenhos: eles consomem muito mais revistas e jornais (assim como livros) do que nós. O metrô funciona até as 11 horas da noite.




VIII

A julgar pelo que sinto em Buenos Aires, os argentinos da capital são orgulhosos, geralmente gentis, românticos e por vezes arrogantes. Muito mais politizados do que os brasileiros, apesar da campanha do Clarín. Foto abaixo – ao estilo Folha de S. Paulo – mostra manchete de página da segunda-feira, 5 de outubro.


Clarín: jornalismo ao estilo Folha de S. Paulo

Ao sair da cidade, o taxista que nos levou do hotel para o aeroporto de Ezeiza, bastante politizado, filho de antigo empleado de transportes, conta que o governo dos Kirchner promoveu justiça tributária, tentando implantar na medida do possível o princípio de um sistema progressivo, de “quem tem mais, paga mais”, e que, por esse e outros motivos, votará em Scioli. Assim como o velho jornaleiro de la Boca (embora menos kirchnerista do que este), mencionou políticas de Estado.

Por exemplo, consumo de gás. Daniel, o taxista, conta que num certo momento ele estava em dificuldades e não podia pagar a conta do gás de sua casa. O Estado então subsidiava o gás para ele. "Pero ahora ya lo puedo pagar, entonces ya no es necesario que ayudeme el Estado". Citou também uma lei graças à qual não perdeu seu imóvel quando sua vida esteve mais difícil: a lei aprovada no governo dos Kirchner impede a perda judicial, por dívidas, de um imóvel se este imóvel é o único da pessoa e onde ela mora.

Mas Daniel, o taxista, vai votar meio a contragosto em Daniel Scioli. O candidato de Cristina foi vice-presidente da Argentina e é o atual governador da província (estado) de Buenos Aires. Aparentemente, os eleitores de Scioli que o elegeram para governador da província não estão satisfeitos com seu governo. Votam no candidato da presidente para "no cambiar todo", o que aconteceria com a vitória da oposição, os tucanos deles.


Publicado originalmente em 15 de outubro de 2015, às 15:52



Favoritos do cinema (11) De Volta para o Futuro


"Vocês podem não estar preparados pra isso...
mas seus filhos vão adorar."
(Marty McFly)



Fotos: Reprodução
Dr. Doc e Marty McFly

Por preconceito ou surpresa, já aconteceu de amigos meus admirarem, ou não entenderem, ou simplesmente brincarem com o fato de eu dizer que gosto muito do filme De Volta para o Futuro (1985). Eu, que gosto de cinema “cult”, de Nouvelle Vague, de Cinema Novo, Neorrealismo italiano, Pasolini, Luis Buñuel...?

Sim, acho De Volta para o Futuro um filme espetacular, genial, e muitas vezes me parece que admitir isso ofende a um certo senso moralista segundo o qual cinema tem de ser “engagée”, seja no sentido político, seja no sentido estético, ou em ambos. Para mim, cinema é cinema.

Várias vezes aconteceu de eu estar zapeando e me deparar com o filme sendo exibido, em algum canal. Resultado: não consigo mudar de canal (claro, isso se o filme não é dublado, porque assistir a filmes dublados para mim é inconcebível).

Mas a magia do filme dirigido por Robert Zemeckis e produzido pelo poderoso e genial Steven Spielberg, 30 anos depois, continua a mesma, ou quase a mesma. Esta semana, exatamente ontem (21), marcou a data em que os personagens Marty McFly e Doc Brown (interpretados por Michael J. Fox e Christopher Lloyd, respectivamente) chegaram ao futuro no segundo filme da trilogia. O futuro era 21 de outubro de 2015.

Mas essa façanha já faz parte do segundo filme da trilogia (de 1989), que é muito ruim e mal consegui assistir – e não é objeto deste post.

De Volta para o Futuro (“o filme”, como se diz hoje em dia, em que McFly vai para o passado) é mágico e inteligente. É ficção científica, sem vulgarizar a ciência ou tratar o público como uma horda de imbecis comendo pipoca “no escurinho do cinema”, como a enorme maioria dos filmes de “ficção científica”; é também comédia (gênero do qual aprecio muito poucos filmes) de qualidade; fala de pessoas medíocres (como as personagens do gênio Flaubert – e aqui peço perdão aos amigos intelectuais liberais, como diria Norman Mailer), mas pessoas medíocres levadas a um destino sobrenatural; trata de questões ou questiúnculas morais e psicológicas como as de todos (ou quase todos) os mortais; possui elementos psicanalíticos bastante marcantes – embora o filme seja dirigido a um público juvenil –, o que se revela principalmente na relação com a mãe, na viagem de McFly pelo tempo.

Além de tudo isso, De Volta para o Futuro é um daqueles filmes que nos (ou me) remete a um tempo em que éramos crianças ou adolescentes. Bons tempos!

Algumas cenas são memoráveis, e só uma espécie de ranzinzice intelectual-acadêmica pode negar isso. Como os diálogos de McFly com o paí, ambos com aproximadamente a mesma idade. Não por acaso, Fly é um trocadilho com o verbo to fly, voar.

Ou, por exemplo, ninguém jamais usou um skate como Marty McFly na sequência (sequência eterna!) em que ele foge dos bad boys liderados pelo brutamontes Biff (Thomas F. Wilson). Aliás, quem não teve um Biff na sua vida? Na minha época (e provavelmente em todas), havia vários Biffs, esse tipo de garoto arrogante, forte e brigão (o tipo cujas células cerebrais se deslocaram para os músculos) que, por qualquer motivo, queria te “pegar na saída” ou te cercava na rua da tua casa. Seja como for, apesar de ser muito magro e menor do que os Biffs da minha vida, em alguns momentos fui obrigado a enfrentá-los, ou por não ter outra opção (o escorpião cercado) ou pelo sentimento de amor-próprio sem o qual eu tinha consciência de que me tornaria um irremediável covarde!


O vilão Biff

Ah, Biff miserável, um dia você vai ver! Nada como saber pilotar um skate ou precisar “salvar” uma garota sendo “atacada” no carro por um Biff qualquer – ainda mais se essa garota é... sua mãe!

O filme, pois, é meio catártico, e não só devido aos temas (inclusive de ficção), mas também pela enorme qualidade técnica, o que é um traço comum em quase todos os filmes produzidos ou dirigidos por Spielberg.

O roteiro e a montagem são hollywoodianos clássicos (cronológicos: com começo, meio e fim bem delineados), mas mesmo assim permite a associação com os sonhos – sem querer comparar, mas só para lembrar, quem levou ao extremo a mistura da realidade com a imaginação foi Buñuel.

Bem, teria mais coisas a dizer sobre De Volta para o Futuro (o primeiro). Mas ainda há pessoas que conheço que não o viram. E detesto aquele tipo de crítico de cinema que, para mostrar que está acima de todos em sua sabedoria e conhecimento, se compraz em contar o filme ou passagens capitais dos filmes, o que, na verdade, só mostra uma espécie de perversidade enrustida – e acho então que preciso parar por aqui.

Seja como for, termino a postagem com a sensação de dever cumprido, já que – não posso negar – adoro De Volta para o Futuro (repito: o primeiro!).

Publicado originalmente em 22/10/15, às 21:52

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Leia também, da série Favoritos do cinema:

Paradise Now

Os Imperdoáveis

Meu nome não é Johnny








quinta-feira, 29 de outubro de 2015

ANS dá mais 15 dias para usuários da Unimed Paulistana exercerem portabilidade


Eu e meus familiares estamos entre as 800 mil "vidas" da Unimed Paulistana que ficaram "na mão" com a quebra da operadora. Há pouco, a Agência Nacional de Saúde Suplementar divulgou que vai ser prorrogado o prazo por 15 dias para os clientes fazerem o exercício da portabilidade, prazo que se encerraria amanhã, 30 de outubro.

Diz nota no portal da ANS:

"A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) vai prorrogar por mais 15 dias o prazo para os clientes de planos individuais/familiares e coletivos empresariais com até 30 vidas da Unimed Paulistana fazerem o exercício da portabilidade extraordinária de carência para planos de sua escolha no sistema Unimed. A medida foi tomada para possibilitar que todos os consumidores nessas condições possam fazer uso do benefício. O prazo de 30 dias concedido inicialmente pela Resolução Operacional (RO) nº 1.909 encerra nesta sexta-feira (30/10). A prorrogação constará em nova RO que vai ser publicada na terça-feira (03/11) no Diário Oficial da União, passando a vigorar na mesma data."

Leia na íntegra da nota da ANS aqui.

domingo, 11 de outubro de 2015

De férias na Argentina




Os amigos devem ter notado que, faz tempo, estou devendo um post. Como estamos em Buenos Aires, nao consegui achar tempo para escrever minhas "notas de Buenos Aires", "notas de Argentina" e "notas de Rosário" (cidade a 300 km da muy linda capital argentina).

Aliás, o país está a duas semanas do pleito eleitoral que decidirá se Daniel Scioli, o candidato de Cristina Kirchner, a sucederá ou nao.

Devo dizer que a dificuldade que tenho em achar tempo para escrever aqui (mas com certeza nesta semana que entra agora, quando voltarei a Sao Paulo, farei isso) é a mesma para encontrar o cedilha e o til, mas isso é o de  menos.

Julio Cortázar certa vez disse que caminhar por Buenos Aires era o maior prazer (ou um dos maiores) de sua vida. O velho Cortázar tinha razao e quem conhece a capital da Argentina sabe que a avenida de Mayo, por exemplo, dá razao às palavras do escritor.

Fico por aqui, por enquanto, amigos. Até breve.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Saída de Alessandro Molon do PT é um gesto isolado ou indica uma tendência?



Gustavo Lima/Câmara dos Deputados


Péssima notícia, para o PT, o anúncio de desfiliação do deputado Alessandro Molon, do Rio de Janeiro. Ele deixa o partido para se filiar à Rede Sustentabilidade, que obteve esta semana o registro no TSE e agora é oficialmente um partido.

A notícia, que pegou muita gente de surpresa, indica estar correta a avaliação da cientista política Maria do Socorro Sousa Braga, da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), com quem conversei ontem para uma matéria para a Rede Brasil Atual sobre os novos partidos que obtiveram registro no TSE (a própria Rede e o Partido Novo – agremiação de direita assumida cujo ideário não tem nada de novo – mas isso não vem ao caso aqui).

Para Maria do Socorro, a estratégia da Rede Sustentabilidade, sob o comando de Marina Silva, é tentar ocupar um espaço à esquerda. Esse espaço que está aberto com a atual crise de representação e com a rejeição de grande parte da população a partidos como os conhecemos. “Existe um espaço a ocupar à esquerda. Esse espaço, PSTU e PSOL não conseguiram ocupar, não conseguiram a envergadura de um PT quando o partido de Lula começou a crescer nos anos 1990”, diz a professora.

O "passe" de Alessandro Molon dá à Rede no Rio de Janeiro um quadro combativo cuja perda o PT tem (ou deveria ter) muito a lamentar.

No Congresso Nacional, assim como Maria do Rosário, do PT gaúcho, Molon era um dos que seguravam os embates mais ferrenhos na defesa de princípios históricos de um tempo em que a pragmática não era exatamente a principal conselheira do partido de Lula e Dilma Rousseff.

As informações que circulam no Rio de Janeiro são de que Molon estava muito contrariado com a aproximação entre o PT e o PMDB no estado. Não custa lembrar que o manda-chuva no PMDB no Rio de Janeiro é ninguém menos do que Eduardo Cunha. Há duas semanas, o agora ex-petista declarou que "o PT do Rio está se rendendo ao PMDB e virando refém".

Nas polêmicas votações do financiamento privado de campanhas eleitorais e da maioridade penal, levadas a cabo com o tacão de ferro de Eduardo Cunha, Molon foi um dos que promoveram os debates mais acalorados contra as manobras de Cunha. “No Parlamento está se gerando instabilidade institucional e hipertrofia dos poderes de alguns em detrimento do poder de todos”, me disse Molon em entrevista à RBA.

No Rio, o que se diz é que o PT, presidido por Washington Quaquá (francamente, isso é nome de presidente de partido?), deve apoiar o candidato do PMDB à prefeitura. É uma situação de fato insustentável para um quadro como Molon. Mas, saindo do PT, ele abre novos horizontes a seus próprios projetos, já que tem todas as condições de ser ele mesmo o candidato da Rede à prefeitura.

Em entrevista que fiz em março com o cientista político André Singer, ele fez a seguinte análise (claro que bem mais simples do que a desenvolvida no seu livro Os sentidos do lulismo): “Na medida em que o PT foi estabelecendo um padrão de alianças indiscriminadas, alianças eleitorais, acho que o PT começa a perder a sua cara própria e começa, justamente, a predominar aquilo que chamo de segunda alma. De 2002 para a frente, mudou. Aqueles que representavam a primeira alma do PT ficaram no partido, mas ela não predomina mais no PT”.

A questão, portanto, é saber se o emblemático gesto de Molon de sair do PT é isolado ou se pode significar uma tendência dos grupos mais à esquerda do partido, os representantes do que Singer chama de “primeira alma” do partido. Se a saída de Molon for um indício de que essa alma está de fato abandonando a legenda, isso representaria o fatal esvaziamento de tudo o que o PT representou desde sua fundação. 

sábado, 19 de setembro de 2015

O papel do Supremo Tribunal Federal




 "A guerra às drogas fracassou", disse Barroso em seu voto

Na falta de um Legislativo digno de uma República na acepção do termo e já que o Executivo não teve "vontade política" e atualmente não tem sequer força política para tomar medidas que apontem para a modernidade ou para o futuro, o Supremo Tribunal Federal em alguns momentos tem cumprido um papel essencial no Brasil.

Nesse sentido, o julgamento em que o Plenário do Supremo derrubou o financiamento privado de campanhas políticas por 8 a 3, depois de o julgamento da ADIn 4.650 ficar na gaveta de Gilmar Mendes por um ano e cinco meses, é histórico.

Embora ainda não esteja concluído, um outro julgamento tem tudo para entrar para os anais da história: o que está em andamento para decidir sobre a constitucionalidade de o porte de drogas ser considerado crime ou não. A apreciação do caso está em 3 votos a zero pela descriminalização do porte de drogas, mas, caso esta tese vença, deve se restringir ao porte de maconha. O julgamento foi interrompido no dia 10 por pedido de vista do ministro Teori Zavascki. Votaram pela descriminalização Gilmar Mendes, Luiz Fachin e Luís Roberto Barroso.

Seja como for, o voto do ministro Luís Roberto Barroso já é em si histórico, riquíssimo tanto juridicamente como do ponto de vista de desmitificar moralmente a questão e separá-la do Direito.

Disse Barroso:  "A guerra às drogas fracassou. Passados 40 anos do combate à droga, convivemos com consumo crescente, não tratamos os dependentes e vemos uma explosão do tráfico. Insistir em uma política pública que não funciona há tantas décadas é fechar os olhos à realidade. É preciso ceder aos fatos".

Em outra passagem, Barroso faz uma separação muito inspirada entre a confusão entre moral e direitos, que se faz sobre o tema:  "se um indivíduo, na solidão das suas noites,beber até cair desmaiado na cama, isso pode parecer ruim, mas não é ilícito. Se ele fumar meia carteira de cigarros entre o jantar e a hora de dormir, isso certamente parece ruim, mas não é ilícito.O mesmo deve valer se ele, em vez de cigarro, fumar um baseado entre o jantar e a hora de ir dormir".

Nem é necessário comentar, tal a clareza do raciocínio.

O brilhante voto do ministro abordou também a questão social: "A má distinção entre usuário e traficante é o que faz com que, pela mesma quantidade (de maconha), pessoas sejam presas nos bairros pobres e não sejam nos bairros mais abastados".

Como escrevi em outro post depois de assistir a uma palestra de Barroso na Faculdade de Direito do Largo São Francisco,  ele "é um ser iluminista, muito esclarecido e capaz de falar com uma clareza impressionante sobre algumas coisas que estão emperradas no Brasil".

De resto, nos últimos anos o STF tem cumprido papel relevantíssimo quando julga questões que se associam ao conceito de Estado laico.

Leia também:



Anencefalia: mais uma vez, STF decide contra o obscurantismo

sábado, 5 de setembro de 2015

A tragédia síria e a hipocrisia



Reprodução


Há três anos e meio publiquei neste blog o post linkado abaixo (ou aqui). Na época, poucos estavam interessados no que acontecia na Síria, um dos países mais importantes do Oriente Médio, e consequentemente do mundo. Sua capital, Damasco, além de ser historicamente riquíssima, sempre foi talvez a mais laica e culta daquela região. Damasco ainda permanece de pé e se mantém como bunker do presidente Bashar al-Assad. É como se a capital estivesse sendo preservada enquanto o resto do corpo (o país) vai sendo consumido pela doença.

A Síria é um ponto geopoliticamente estratégico do planeta, como qualquer pessoa minimamente informada pode entender vendo o mapa aqui publicado.

Era óbvio em 2012, na verdade desde o início do conflito, em 2011, o interesse na destruição da Síria como país, pois sua simples presença era uma ameaça à hegemonia israelense e estadunidense na região. A Síria era uma nação militar, cultural e politicamente incômoda. Uma ameaça tênue, é verdade, pois não poderia ameaçar de fato o maior império da Terra e seu preposto sionista. Mas, tênue ou não, uma ameaça não pode ser tolerada pelo império americano e sionista.

Mas ninguém falava nada. Na época, havia um silêncio quase unânime sobre a tragédia anunciada. O silêncio e a indiferença estavam na mídia, no jornalismo "alternativo", nas reuniões de amigos.

O jornalista Pepe Escobar era um dos únicos que rompiam essa indiferença diante da catástrofe anunciada da Síria. No meu post de 2012, eu citava uma análise do jornalista:

A crise síria “está fazendo aumentar os temores, no mundo em desenvolvimento, de uma insurreição armada apoiada pelo Ocidente, para tentar recriar, na Síria, o caos criado na Líbia. Segundo Escobar, o governo Assad não cai porque mais da metade da população síria ainda o apoia". O texto mencionado de Pepe Escobar, de 2012, está aqui.

Assad ainda não caiu, mas seu governo é hoje como uma alma sem corpo. O Departamento de Estado dos Estados Unidos defende que o presidente sírio renuncie para “facilitar” a luta contra o Estado Islâmico (EI – ou ISIS na sigla em inglês). É o cinismo habitual do país de John Wayne.

E agora, depois de anos de indiferença, agora que apareceu o corpo de uma criança morta numa praia da Europa, todo mundo ficou indignado. Todo o mundo parece ter acordado de um sono indigno. Muitos manifestam sentimentos verdadeiros, mas isso tudo seria piegas, se não estivéssemos falando de uma tragédia planetária e histórica. Mas estamos.

Meu coração está partido pela Síria, mas não é porque agora apareceu aquela criança morta. Eu já estava triste antes.

A tristeza do mundo já deveria ter batido antes, a indignação precisaria ter se manifestado antes. Muitas crianças já morreram antes. Agora é tarde. A indignação agora é tardia e hipócrita.

Ainda: A violência em Homs, minha história e o que importa ao mundo: qual o futuro da Síria?



quinta-feira, 3 de setembro de 2015

O que é ser de esquerda? [1]
Fernando Haddad, a política de trânsito e os 50 km por hora



Há tempos quero escrever uma série de posts sobre o que é ser de esquerda. Os temas perpassados por essa ideia são muitos: racismo, literatura, políticas públicas, linguagem etc. Começo por um tema aparentemente banal: as medidas que vêm sendo adotadas pelo prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, e que incorporam muito do que se chama de politicamente correto, mas nem tanto de uma visão verdadeiramente de esquerda.




Mesmo com a queda do Muro de Berlim, ser de esquerda não diz respeito a um conceito abstrato que deixou de ter razão no mundo contemporâneo, como querem alguns (ignorantes ou direitistas). Muito resumidamente, quem se situa no espectro da esquerda necessariamente se identifica com a defesa de princípios universais tais como humanismo, solidariedade, tolerância, harmonia entre as raças e gêneros, direitos humanos, igualdade, assim como com a prevalência dos direitos coletivos sobre os individuais, dos direitos dos trabalhadores sobre os do capital, da paz sobre a guerra, a prevalência do Estado laico, entre outros princípios.

Aqui entre nós brasileiros, devido aos curtos períodos de democracia espremidos entre ditaduras, e, em consequência disso, do desconhecimento histórico, as pessoas se arvoram em determinar o que é ser de esquerda com um simplismo assustador. Ser de esquerda muitas vezes se resume à identificação com pequenas políticas, sejam quais forem, desde que venham dos heróis eleitos (literal ou simbolicamente) para representar as pequenas políticas, hoje muitas vezes traduzidas pelo que se conhece como o politicamente correto.

Com esta série de posts pretendo falar de atitudes ou políticas elencadas numa espécie de cartilha tacitamente aceita para ser seguida pelos "esquerdistas" de hoje.

Começo então a série com temas que dizem respeito ao cotidiano dos paulistanos. Aqui, o fato de a capital de São Paulo ter uma tradição conservadora e ter sido governada por direitistas como Paulo Maluf ou Gilberto Kassab, ironicamente ministro das Cidades de Dilma Rousseff, obscurece a mente das pessoas que se dizem de esquerda ou acham que são de esquerda.

Disso, decorre que as pessoas, principalmente as mais jovens, rezam uma cartilha segundo a qual há verdades absolutas. Se o prefeito adota uma medida, não importa se bem ou mal executada, inteligente ou burra, técnica ou politicamente justificável, você tem de ser a favor, desde que a medida esteja de acordo com a cartilha. Se você não for a favor, você não é de esquerda.

Por exemplo, não importa se você sempre se posicionou (não só em palavras, mas sobretudo em atos) na defesa dos princípios universais citados acima. Se você tem críticas à implantação das ciclovias na capital de São Paulo tal como foi (muito mal) feita, ou se não está de acordo com a decretação de velocidade máxima de 50 km por hora na via local da Marginal, pronto. Você é um reacionário. Você não é de esquerda.

Eu concordo com a redução de velocidade em São Paulo. Mas não da maneira como foi feita, autoritária e sem critério. O limite é de 50 km/h tanto numa avenidazinha de pista única e estreita, como uma aqui perto de casa, como numa via expressa ou grandes avenidas de duas pistas e quatro faixas. Não faz o menor sentido. A redução de maneira linear e sem critério como foi feita só dá "brecha" a gente de direita, que aproveita para capitalizar o erro. Dá a impressão de que, como tudo o que Jilmar Tatto faz, é implementado sem estudos e por decreto.

É mais do que óbvio que o transporte público deve prevalecer sobre o individual; é mais do que urgente que a cidade deve incorporar o uso da bicicleta (ou a bike, como se prefere dizer hoje em dia) como um direito. É claro também que a cidade de São Paulo precisa se humanizar, o que pressupõe o uso racional dos automóveis e limites aos abusos e à irracionalidade.

Mas as medidas que mexem no cotidiano de milhões de pessoas têm de ser discutidas. De repente aparece uma animosidade política entre pessoas que usam bicicleta e as que usam carro muito como consequência de uma visão autoritária do atual prefeito (e eu posso garantir que o prefeito é considerado autoritário inclusive por deputados do PT paulista). Um pouco como o que aconteceu com os fumantes, que viraram inimigos públicos número 1 quando a lei do (lembremos) José Serra passou a vigorar em São Paulo. Fumar um cigarro ou dirigir seu carro parecem ter virado atos moralmente condenáveis como se fossem os fumantes e motoristas os responsáveis pelos males do mundo.



Se não me engano foi Roland Barthes quem escreveu o seguinte (citação de memória): as revoluções não acabaram com a opressão do homem pelo homem porque a opressão está na linguagem, não no poder político. Não concordo integralmente com tal redução, acho que as coisas são mais dialéticas, mas o que disse Barthes é uma variável que tem de ser considerada.

Nesse contexto, é negativamente muito significativa a seguinte afirmação do secretário municipal dos Transportes de São Paulo, Jilmar Tatto, em entrevista publicada na Rede Brasil Atual: "Sobre os que defendem o carro, não acho que é má-fé ou ideológico, acho que é burrice, mesmo. É um problema de inteligência". É obtusa, para dizer o mínimo, tal declaração de um secretário de governo que se diz de esquerda.

Se é fundamental numa sociedade justa e mais evoluída que o transporte público deve prevalecer sobre o individual e que haja espaço para o ciclista, são condições para isso que o transporte público seja decente e que haja diálogo entre o poder público e os cidadãos.

Mas não há diálogo, muito menos transporte público decente. O metrô de São Paulo (gerido pelo governo do Estado, nas mãos do PSDB há 20 anos) tem um terço da extensão necessária. A Cidade do México, que começou a construir seu metrô mais ou menos na mesma época que São Paulo, tem hoje cerca de 200 km de linhas, enquanto São Paulo tem 74 km. E o serviço de ônibus na nossa cidade só melhorou na gestão Fernando Haddad na velocidade, com os corredores e faixas exclusivas. Mas o serviço em si continua péssimo. Os carros que a prefeitura chama de ônibus são quase literalmente carroças com uma capa de metal chamada carroceria.

Dia desses peguei um ônibus que rangia e fazia tanto barulho que fiquei curioso para saber qual era o ano de fabricação do carro. Perguntei ao motorista. Resposta: 2015. É esse tipo de serviço que temos em São Paulo, com Kassab ou com Haddad no fim do terceiro ano de sua gestão.

Outra constatação: muitos dos que aplaudem cegamente as medidas de Haddad referentes ao trânsito não dirigem ou não têm carro, o que pressupõe desconhecimento ou um certo ressentimento, talvez.

O prefeito de uma cidade como São Paulo tem de procurar proporcionar ciclovias planejadas e implantadas com fundamentos técnicos, não no improviso e na imposição, como tem sido feito; tem de procurar desenvolver um sistema de transportes moderno, eficiente e confortável; tem de procurar proporcionar, sim, aos motoristas, vias (ruas e avenidas) bem sinalizadas, modernas, e pensar numa política de trânsito do século XXI, com um sistema de semáforos inteligente, ao invés de impor por decreto que a partir de hoje você é obrigado a andar a 50 km nas marginais.

Enfim, o prefeito tem de procurar governar para tentar construir uma cidade realmente inclusiva, cujas diferentes formas de linguagem convivam de maneira harmônica. Se isso é uma utopia, é em busca da utopia que um governo de esquerda deve caminhar. E não por imposições, como faz a gestão Haddad, cujo secretário chama os cidadãos de burros.

O prefeito tem de ser o mediador dessas linguagens, sobretudo quando falamos de uma megalópole como São Paulo. Quero crer que inconscientemente, o prefeito alimenta divisões com suas disputas e bandeiras do politicamente correto contra o politicamente incorreto, que é tudo o que um governo dito de esquerda não deve fazer na atual conjuntura de animosidade política no país, e principalmente em São Paulo.

Citei Roland Barthes acima porque me parece oportuno falar em linguagem, que tem a ver com cultura, que tem a ver com poder. Não é porque o cara adora bicicleta que é do bem e porque o cara gosta, prefere ou precisa de carro que é do mal. É comum atitudes de ciclistas francamente contrárias ao bom senso, à educação e a qualquer princípio de esquerda ou cidadania. Muitos deles desrespeitam leis de trânsito e pessoas e adotam posturas agressivas incompatíveis com o que quer que se entenda por esquerda.

César Ogata/SECOM
Haddad e seu secretário de Transportes, Jilmar Tatto, 
que prefere xingar cidadão de "burro" do que dialogar 

Vamos falar francamente: 1) Sob alguns aspectos, Haddad está agradando gente mais próxima do pensamento de uma Soninha Francine do que de pessoas que votaram nele, muitas das quais estão irritadas com seu afã de querer radicalizar; 2) essa restrição exagerada à velocidade obedece muito fielmente à necessidade de a prefeitura arrecadar com as multas, a chamada “sanha arrecadatória” do estado.

Algumas medidas que Fernando Haddad adota no seu afã de radicalizar e “falar” a linguagem dos jovens o levam a esquecer que São Paulo é uma megalópole multicultural.

Nesta megalópole há também muitos milhares de pessoas que estão aborrecidas com o prefeito porque aqui há quem, como eu, é de esquerda, respeita os direitos dos outros, anda a 10 km por hora quando tem um ciclista perto de seu carro, que nunca atropelou sequer um cãozinho, mas é um cidadão, também gosta de dirigir, gosta de vias decentes e de uma política de trânsito competente. Que pecado há nisso?

Curiosamente, hoje a imprensa (a chamada mídia conservadora) publica balanço segundo o qual caiu em 27% o número de acidentes com vítimas nas marginais com o novo limite. Esse é o argumento principal. Vamos considerar, com boa vontade, que o balanço da CET seja fidedigno, e não manipulado. Mas tal argumento, levado ao limite, nos levaria a concluir que a melhor solução seria então que todos os carros ficassem parados, o que reduziria os acidentes em ideais 100%. O que me parece fundamental é que houvesse punição real a quem provoca acidentes criminosos. É comum que ricos cheios de dinheiro atropelem e matem (não raro, dirigindo bêbados) e fique tudo por isso mesmo. Se esses criminosos fossem punidos exemplarmente, se a lei previsse enquadramento inafiançável e outras sanções severas, não haveria necessidade de se recorrer ao mais simples.

O ex-presidente Lula, de cujo governo Haddad foi um ótimo ministro da Educação, como sempre foi preciso ao fazer o comentário em tom de brincadeira, no dia 1°, no lançamento do Memorial da Democracia no ABC paulista: "O Haddad tinha se comprometido a vir, mas não compareceu. Vai ver que ele tá vindo a 50 por hora, não chegou ainda aqui em São Bernardo. Ou tá vindo de bicicleta."

Humor (tão em falta hoje em dia), ironia e mordacidade. E não digam que Lula não é de esquerda. Ou pelo menos de centro-esquerda, como se depreende da leitura de Os sentidos do lulismo, de André Singer. Mas aí já é outro (longo) assunto.