domingo, 19 de outubro de 2014

Meu pai e Aécio Neves


Roseli da Costa


Esse aí da foto acima, com a vassoura e a pazinha varrendo o quintal, é seu Oswaldo, meu pai.

Ontem conversei com ele por telefone, entre outros assuntos, sobre eleições. Meu pai é um paulistano e paulista típico.

Seu Oswaldo, que tem 85 anos completados em junho, estava indignado com "a falta de respeito" de Aécio Neves ao chamar Dilma Rousseff de "mentirosa".

Disse ele literalmente: "o cara chama a presidente da República, eleita pelo povo brasileiro, e mulher, de mentirosa, e fica por isso mesmo? Não tem como falar pras pessoas da assessoria da Dilma que ela não pode admitir isso?"

Seu Oswaldo vota na Dilma. Ele não é petista. É uma pessoa de classe média, fruto do milagre econômico dos anos 1970, que começou a trabalhar aos 10 anos de idade (em 1939, no início da Segunda Guerra) e viu a catedral da Sé ser erguida e inaugurada em 1954, quando tinha 25 anos.

Seu Oswaldo sabe, como muitos brasileiros, que o PSDB de Fernando Henrique e Aécio Neves não tem o menor compromisso com os trabalhadores ou com com os aposentados. Ele sabe isso tanto intuitiva como concretamente. Acho que meu pai é um personagem representativo de São Paulo.

Tenho a impressão de que o voto em Dilma vai crescer no estado, muito por causa das mentiras e ataques de Aécio Neves, que não colam, e o povo brasileiro amadureceu. Em São Paulo é que o bicho pega.

De resto, no Nordeste inteiro, no Rio de Janeiro e provavelmente em Minas Gerais, Dilma deve ganhar. Pernambuco, terra de Eduardo Campos, é uma incógnita. Lá, Marina venceu no primeiro turno. Tenho a impressão de que em Pernambuco Dilma vence. No Rio Grande do Sul, o governador Tarso Genro deve perder a eleição para o candidato do PMDB ao governo do estado, José Ivo Sartori. Mas Dilma ganhará no estado. Aécio deve vencer em Santa Catarina e Paraná, os dois menores estados do Sul.

As principais incógnitas são:
- como vai ser a votação em São Paulo?
- Dilma vai ganhar em Minas? Acredito que sim.
- Dilma vai ter uma dianteira importante em Pernambuco?
- quantos dos eleitores de Marina vão votar em Aécio ou Dilma?

Parece-me que as possibilidades de Dilma ganhar são grandes, se não houver "incidentes de percurso". A oposição (mídia, mercado financeiro, Estados Unidos, Aécio Neves) tenta ganhar ou já de antemão desgastar um possível segundo mandato de Dilma.

Seja como for, fica registrada a opinião do seu Oswaldo, meu pai.


sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Pensamento para sexta-feira [54] - Chico Buarque vota em Dilma Rousseff


"Em 2010, eu votei na Dilma muito por causa do Lula. Neste ano, voto na Dilma por causa da Dilma."
(Chico Buarque de Hollanda)


Bem, não tem como não mostrar nosso Chico Buarque de Hollanda declarar seu voto na Dilma Rousseff, como pensamento para esta sexta-feira, 9 dias antes da mais importante eleição do país desde 1989.

A fala de Chico está no programa da Dilma desta quinta-feira (16 de outubro), que segue na íntegra abaixo. Mas quem quiser ver apenas o depoimento dele, vá a 1:52 do vídeo.




PS: estou curioso para saber em quem vão votar os marineiros tropicalistas Caetano Veloso e Gilberto Gil, que ainda não manifestaram suas posições no segundo turno. Infelizmente, dona Canô, que em 2010 puxou a orelha do filho rebelde Caetano, que chamara Lula de "analfabeto", neste 2014 já não está mais entre nós.

PS2: Como informa Lourival Sakiyama em comentário a este post, Gilberto Gil declarou voto em Dilma. Importante, já que fez campanha pró-Marina no primeiro turno, e até musiquinha para a campanha dela.

Peço licença à família de Caetano, a quem muito respeito e a quem muito devemos todos nós que amamos a cultura brasileira, a poesia e a arte, para reproduzir o vídeo abaixo, de 2010.


 

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Dilma e Aécio no debate do segundo turno da Band: a gestora e o príncipe




Fotos: Ichiro Guerra e Marcos Fernandes


O debate inaugural do segundo turno, na Band, foi dividido em duas partes:

- na primeira, Aécio Neves, o neto de Tancredo (ministro de Getúlio Vargas), Aécio o Purificador, saiu na frente atacando, e Dilma perdeu essa parte em que prevaleceu o espírito udenista de Carlos Lacerda incorporado em Aécio, um golpista clássico (falta a Dilma um certo espírito brizolista para desconstruir a mentira de maneira eficaz);

- na segunda parte, confrontado com a realidade (Lei Maria da Penha, direitos dos trabalhadores, inflação, FHC versus Lula/Dilma, políticas sociais, redistribuição de renda, a história, Armínio Fraga etc.), me parece que Aécio ficou muito nervoso e acabou sendo batido "por pontos", como se diria no boxe, mas incontestavelmente. Há quem ache que foi nocaute, mas eu não acho que tenha sido nocaute devido à ignorância do povo brasileiro e à mesquinhez das elites ou dos que, coitados, pensam que são elite e cotidianamente agridem direitos ou apoiam a agressão a direitos.

Aécio Neves é um político mais eficiente do que Dilma Rousseff. Mas Aécio representa exatamente o oposto da "nova política" e da "mudança".

Significativo que o nome de Marina Silva só tenha sido pronunciado, por Aécio, no fim do debate, nas considerações finais. Dilma não pronunciou a palavra Marina. É uma constatação interessante.

A decisão de Marina de apoiar Aécio desmentiu a própria história de Marina e rachou, pra não dizer implodiu, a Rede Sustentabilidade.

O ex-governador de Minas Gerais não conseguiu responder por que perdeu a eleição em seu quintal no primeiro turno. Ele, que começou atacando na questão da Petrobras, que fez um discurso muito claro como ventríloquo do mercado financeiro, não conseguiu responder sobre o aeroporto cujas chaves seu governo deu a seu tio para guardar.

Aécio começou confiante e acabou ficando muito tempo na defesa, na segunda parte do debate.

Na minha opinião Dilma atuou como o que é, uma gestora. Aécio, também como o que é: um político tradicional. Um coronel, ou um príncipe, segundo a narrativa de Maquiavel.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Segundo turno começa igual entre Dilma e Aécio e nem o mercado financeiro aposta no tucano



Ichiro Guerra


As pesquisas erraram muito no primeiro turno para serem consideradas confiáveis, até mesmo pelo mercado financeiro. Mesmo assim, o PT comemora o empate entre Aécio e Dilma no primeiro levantamento do segundo turno. 51% a 49% para Aécio é um rigoroso empate, apenas uma manchete circunscrita na margem de erro. Havia temores no PT de que o tucano pudesse ter uma dianteira de fato. Mas não tem. E se não tem na largada, não vai ser muito fácil tirar a diferença de 8,37 milhões de votos que Dilma teve sobre Aécio no primeiro turno, e consolidar a vantagem. Dilma obteve 43,27 milhões, contra 34,9 milhões do tucano.

Na segunda-feira, Aécio Neves disse em coletiva em São Paulo: “Quero convidar a candidata Dilma Rousseff para fazermos uma campanha em alto nível, propositiva, à altura do que esperam de nós os brasileiros.” Ele pode dizer isso com tranquilidade, porque sabe que a imprensa (Globo, Folha, Estadão, Band, Jovem Pan etc.) faz o jogo pesado por ele.

Mas, voltando ao início, a Bovespa fechou nesta quinta-feira 9, às 17 horas, cerca de 3 horas antes do horário previsto para sair Datafolha e Ibope, com uma discretíssima alta de apenas 0,37%. Como sabemos que os investidores sempre têm informações privilegiadas antes do consumo público, e às vezes até informações mais realistas do que a que chega ao público, a pequena alta indicava que o segundo turno começa muito mais equilibrado do que esperavam os apostadores em Aécio.

Aécio chegou a mostrar em seu programa de estreia no horário eleitoral do segundo turno a esquisita pesquisa da tal Paraná Pesquisas, publicada pela revista Época de ontem, dando-lhe uma vantagem farsesca.

Mas o mercado sabe mais do que é divulgado. Pelas informações que tenho diretamente do mercado financeiro, ou seja, dos anti-PT, a aposta deles é de que as chances são de 50% contra 50%. Se o mercado financeiro acha isso, é porque a situação é mais favorável a nós no momento, embora possa mudar.

O colunista do Estadão José Roberto de Toledo escreveu, após a divulgação de Ibope e Datafolha, que “os boatos sobre outras pesquisas, divulgadas ou não, dando ampla vantagem a Aécio ajudaram a criar a expectativa exagerada. Era um exagero não compartilhado pela maioria dos eleitores. A maior parte aposta mais na reeleição de Dilma (49%) do que na vitória do tucano (40%). Ele só é favorito aos olhos do eleitorado mais rico, com nível superior e entre quem mora na região Sul”.

A propaganda de Aécio na TV me pareceu mais convincente, como propaganda. Dilma começou o horário eleitoral no ritmo de João Santana, conservador, mas já lembrando que Dilma venceu Aécio em seu território, Minas Gerais, e que, além disso, o PT elegeu Fernando Pimentel em primeiro turno. É importante porque muita gente não sabe que Aécio perdeu do PT duplamente em seu próprio quintal.

A definição do dia 26 vai mostrar se o eleitor brasileiro amadureceu o suficiente para discernir sobre seu próprio destino. Nas eleições de 2006 e 2010 ele optou pela realidade. Em 2014 existe essa mística de mudança, a tal “voz das ruas”. Mas a juventude que foi às ruas em junho de 2013 pedindo novos tempos ajudou a reeleger Geraldo Alckmin.

Pastor Everaldo e Roberto Freire aparecerem na propaganda de Aécio Neves pode ter resultado muito ruim para Aécio. Pastor Everaldo teve menos de 1% dos votos, e Roberto Freire, do cada vez mais inexpressivo PPS, sequer foi eleito deputado. Assim como sua correligionária Soninha Francine, mais queimada do que carvão de churrasco.

Quanto a alianças, se Aécio conseguiu o apoio oficial do PSB junto a outras forças de direita e extrema direita, outros apoios surgirão. É importante por exemplo o apoio a Dilma do deputado Jean Wyllys, do PSOL do Rio de Janeiro. "O muro não é meu lugar, definitivamente. Nunca gostei de muros, nem dos reais nem dos imaginários ou metafóricos (...) Por isso, aderindo à posição da direção nacional do PSOL, que declarou ‘Nenhum voto em Aécio’, eu declaro que, neste segundo turno das eleições, eu voto em Dilma e a apoio, mesmo assegurando a vocês, desde já, que farei oposição à esquerda ao seu governo", escreveu Wyllys em sua página do Facebook.

O apoio de Jean Wyllys é interessante porque, em si mesmo, questiona as conservadoras (sim, conservadoras) declarações de “não-voto” em Aécio dadas pela senadora Lídice da Mata (PSB-BA), Luiza Erundina (PSB-SP) e Luciana Genro (PSOL-RS).

Acho sinceramente que a campanha de Dilma Rousseff tem muitas chances de êxito. A canalhice midiática em torno do “delator” Paulo Roberto Costa sobre a Petrobras apenas repete a exploração semelhante feita em 2006 sobre o “mensalão” e em 2010 sobre o caso Ereni Guerra (arquivado pela Justiça Federal em 2012 por falta de provas). As chamadas “balas de prata” do vampirismo político.

É fato que, pela primeira vez em quatro eleições, existe a possibilidade real de perdermos. Mas acredito que, como disse Valter Pomar em entrevista em fins de maio, portanto há mais de quatro meses, “a Dilma vai ganhar as eleições. No segundo turno, numa disputa duríssima, mas vamos ganhar”.



quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Aécio Neves e todos contra Dilma


Entre outros, os apoiadores de Aécio Neves são os seguintes: Marina Silva, Pastor Everaldo, Ronaldo Caiado, Ronaldo Fenômeno, o PSB de Roberto Amaral, Beto Albuquerque e Luiza Erundina, Soninha Francine, Eduardo Jorge, Gilberto Natalini, Geraldo Alckmin etc; Rede Globo, jornais O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, revista Veja, Band (TV e rádio), Jovem Pan, o mercado financeiro etc.

A “nova política” se alia ao "desejo de mudança".

Os manifestantes de 2013 votaram majoritariamente em Geraldo Alckmin, em Marina e Aécio.

A aliança de Roberto Amaral com Aécio Neves sela o fim do PSB como partido de esquerda. Roberto Amaral traiu a memória de Miguel Arraes.

É uma pena, mas Roberto Amaral faz parte da galeria de políticos que o escritor tcheco-eslovaco Milan Kundera definiu como os dignos da “imortalidade risível”. Amaral jogou fora a sua própria história. Chega a dar pena, mas Roberto Amaral não é digno de pena.

Ainda não tem a foto de Marina Silva com Aécio Neves.


Valter Campanato/Agência Brasil


Igo Estrela/Coligação Muda Brasil


Orlando Brito/ Coligação Muda Brasil

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Dilma versus Aécio, crônica de um segundo turno anunciado


A verdade é que este blog nunca considerou Aécio Neves carta fora do baralho, nem mesmo quando Marina chegou ao auge de sua popularidade nas pesquisas, no fim de agosto. E o debate na Globo acabou por consolidar o crescimento que o tucano já registrava nas últimas semanas.

A diferença, em termos percentuais, entre o que José Serra teve em 2010 e o que Aécio conseguiu em 2014 é mínima. Aécio registrou cerca de 1 ponto percentual a mais do que Serra há quatro anos.

2010
Dilma: 46,91% - 47.651.434 votos
José Serra: 32,61% - 33.132.283 votos
Marina Silva: 19,33% - 19.636.359 votos

2014
Dilma: 41,59% - 43.267.438 votos
Aécio Neves: 33,55% - 34.897.196 votos
Marina Silva: 21,32% - 22.176.613 votos

A questão é que Dilma teve desempenho mais de 5% inferior no primeiro turno de 2014. O eleitorado de Marina é menos difícil de conquistar para Dilma do que seria o de Aécio, mais ideológico e politicamente consistente, caso o segundo turno fosse contra Marina. O da pessebista é um eleitorado que responde menos a comandos partidários do que o dos tucanos.

Um dado a se considerar é que o PSOL de Luciana Genro praticamente dobrou a votação de 2010, quando teve 886.816 votos, 0,87 %, com Plínio de Arruda Sampaio. Luciana Genro teve 1.612.186 votos, 1,55%.

Ao voltar para casa hoje (ontem) à noite, peguei um táxi de um rapaz do Pará. Disse que votou em Marina. “Mas agora não tem jeito, vou votar na Dilma”, disse o rapaz, e emendou: “Veja lá em Minas. O Aécio não ganhou lá por quê? Se nem o povo dele deu vitória a ele...”

O segundo turno vai ser um embate importante sobre o futuro do Brasil. Desculpem o clichê.

sábado, 4 de outubro de 2014

Aécio Neves pode ter conseguido passagem ao segundo turno no debate da Globo







24 horas depois do confronto da Globo na quinta-feira, 2, após refletir e lembrar, durante o dia, dos embates desse que foi o melhor debate em muito tempo (incluindo os de eleições passadas), acho que, se tiver segundo turno, Aécio Neves pode ter conseguido ultrapassar Marina no encontro da Globo.

Lembrando a velha metáfora do boxe, onde reinaram Muhammad Ali e Mike Tyson, Aécio entrou com sangue nos olhos e, apesar de sua postura ardilosa e historicamente udenista, aliado à extrema direita representada por Pastor Everaldo, ele se destacou com um discurso direto e objetivo.

Nos bastidores do PT, existe a discussão sobre quem seria o adversário mais difícil no segundo turno. Uns acham que seria Marina, mas mesmo para esses parece que vai ficando claro que Aécio vai ser mais complicado de enfrentar.

Porque Aécio é mais coerente do que Marina, tem mais estrutura político-partidária, aglutina de forma mais consistente o ideário da direita, é mais difícil de ser desconstruído, tem mais condições de estabelecer interações com as forças políticas que Marina, presa à armadilha que construiu a si própria com o mantra da "nova política", tenta agora tardiamente conquistar, além de reconquistar o eleitorado que havia ganhado e perdeu, para Dilma e Aécio, tarefa quase impossível numa eleição.

As circunstâncias desconstruíram Marina, como Michel Temer previu. Consiga ela ou não passar ao segundo turno.


sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O debate da Globo




Luciana Genro, Aécio Neves e Pastor Everaldo se unem contra Dilma. Como sempre, junto com direita e extrema direita, o PSOL escolhe o PT como alvo.

Dilma vai mal e fica na defesa contra Aécio, que ataca usando o onipresente tema da corrupção, com foco na Petrobras. Mas Dilma se recupera contra Marina, dizendo que ela "confunde autonomia com independência" do Banco Central. Aqui, Marina começa a naufragar no debate, e suas intervenções expõem de maneira cabal as fragilidades de sua campanha e de seu "programa de governo em movimento".

Dobradinha de Pastor Everaldo e Aécio se repete por duas ou três vezes. Aliança obscurantista.

Eduardo Jorge chama Levy Fidelix pro pau. Um bom momento do debate.

Marina Silva insiste no tema corrupção em tabelinha com pastor Everaldo.

Fiel ao estilo metralhadora giratória, Luciana Genro/PSOL leva Marina às cordas.

Aécio resolve entrar na seara de Dilma, economia. Nesse momento, comentei aqui em casa: “Aécio está se arriscando”. E, de fato, leva um pau ao ouvir de Dilma que o PSDB fez um governo neoliberal, desempregou, elevou taxas de juros e ficou de joelhos perante o FMI. "Vocês quebraram o Brasil 3 vezes", lembra a presidente. Nesse embate, Dilma se recuperou depois de dois rounds anteriores em que, com seu jogo sofista e falseador, Aécio, falando de corrupção, fez o jogo sujo, inclusive em parceria com seu aliado de extrema direita, Pastor Everaldo, e Dilma não conseguiu responder.

Luciana Genro continua no ataque e leva também Aécio às cordas. Luciana volta a dizer, como no debate anterior, que Aécio não tem autoridade para falar de corrupção, lembrando o caso do aeroporto e que “o mensalão começou com o PSDB”.

Luciana é a melhor do debate. Estrategicamente atacou Dilma, Marina e Aécio, fazendo perguntas, na sequência, aos três – fiel ao estilo metralhadora giratória.

Marina teve um desempenho muito ruim. Hesitante, confuso, em uma de suas últimas falas repetiu o termo “programa de governo” inúmeras vezes. "Temos um programa de governo", insistiu desesperadamente Marina Silva, tentando convencer os milhões de eleitores que perdeu de três semanas para cá de que pode, sim, ser presidente da República. Acho que, se tiver segundo turno, Aécio está cada vez mais próximo de ultrapassar Marina, se o debate servir para alguma coisa, e, se servir, o desempenho desastroso de Marina será decisivo.

Pastor Everaldo é um pulha. "Um desserviço à humanidade”, como disse Carmem aqui na sala. Levy Fidélix, parece-me, deveria ser relegado à insignificância que lhe é inerente. Não sei por que as pessoas dão tanta importância a essa figura desprezível.

E o Jornal da Globo, com a carranca cínica de William Waack, abre a edição após o debate com a manchete sobre corrupção na Petrobras.

O Brasil precisa fazer o Marco Regulatório das Comunicações e acabar com essa canalhice de ignorar a Constituição de 1988.

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Lembremos a última pesquisa. Citando Ibope, como poderia ser Datafolha, mas tanto faz: em votos totais, Dilma teria 40%, Marina 24%, Aécio 19%. Em relação à última pesquisa, Dilma "oscilou" para cima 1%, Marina para baixo 1%, Aécio se manteve igual. Em votos válidos: Dilma 47%, Marina 28%, Aécio 22%.

A eleição está perto de terminar no primeiro turno. Mas isso ainda está muito longe de acontecer, como diriam os mais cautelosos, entre os quais este blogueiro se inclui.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Marina Silva e as circunstâncias



Até Hulk
No início de setembro, o vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB), candidato à reeleição ao mesmo cargo este ano na chapa de Dilma Rousseff, foi perguntado numa coletiva sobre a então ascensão de Marina Silva e se a campanha dele e da presidente iriam atacar a adversária do PSB. A resposta, digna de uma velha raposa da política, foi a seguinte: “Não vejo necessidade (de atacar Marina). Acho que a desconstrução eventual dela pode ser feita por outras pessoas, pelas circunstâncias. Na política é assim. As circunstâncias vão mostrando o que é melhor para o país”.

Pouco mais de três semanas depois, muitas circunstâncias concorreram para a desconstrução da candidatura de Marina Silva, inclusive, e talvez principalmente, ela própria, com suas idas e vindas, suas contradições, suas alianças obscuras e seus recuos, seu programa de governo que, para justificar mudanças súbitas, ela disse que é um "programa em movimento". A questão da CPMF é só mais uma das já quase incontáveis “circunstâncias” previstas por Temer.

Os recuos quanto ao casamento gay, a energia nuclear, o agronegócio, a ingênua tentativa de dizer que votou a favor da CPMF em 1995 (quando votou “não”) e as hesitações, que diante da câmera, num debate, são terríveis a uma candidatura, foram algumas dessas circunstâncias. Até chegar à quase cômica situação desta segunda-feira, quando a campanha da candidata, que desde domingo comemorava o apoio do ator Mark Ruffalo (o Hulk), que gravara até um vídeo por Marina, teve de engolir o próprio ator retirar seu apoio. “Descobri que a candidata à Presidência do Brasil, Marina Silva, talvez seja contra o casamento gay. Isso me colocaria em conflito direto com ela”, escreveu Ruffalo no Tumblr.

E Aécio Neves pode mesmo virar o jogo pra cima de Marina. Hoje, o assessor de um importante dirigente do PT me disse que pesquisas internas do partido estão mostrando empate técnico entre o tucano e a ambientalista. Essa tendência será confirmada? A conferir. Faltando cinco dias para a eleição, é cada vez mais possível que a ex-favorita doutora em “Nova Política” seja rebaixada ao mesmo terceiro lugar de 2010 justamente por praticar a velhíssima “velha política”, com o perdão do pleonasmo.  

A “velha política” de Marina, além de velha, demonstrou-se amadora, vacilante e falsa. Ela vem despencando vertiginosamente em todas as classes sociais e demais filtros das pesquisas, e em todas as regiões do país. 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

A 12 dias da eleição, pesquisas indicam cenário que a oposição e a direita não previram




A menos de duas semanas do primeiro turno e 40 dias depois da morte de Eduardo Campos, tragédia que alavancou a candidatura de Marina Silva, a "fotografia" do momento mostra um cenário que as forças conservadoras do país não previam. 

Na pesquisa Vox Populi divulgada no início da noite de hoje, a presidente Dilma Rousseff aparece com 40% das intenções de voto, 4 pontos percentuais acima do levantamento da semana passada. Marina Silva tem 22%, tendo despencado 5 pontos em uma semana, enquanto o tucano Aécio Neves tem 17%, dois a mais do que há uma semana. Segundo o Vox Populi, os indecisos são 12%.

Já o Ibope também mostra Dilma ascendente, com 38% (36% na pesquisa anterior), à frente de Marina, com 29% (30% na semana passada), e de Aécio com os mesmos 19%. O Ibope diz que os indecisos são 5%.

Ignoremos as “projeções” para o segundo turno, que, francamente, são conversa pra boi dormir ou assunto para manchetes garrafais quando a candidata do PT aparecia atrás da ex-seringueira, ex-senadora, ex-ministra do Meio Ambiente, ex-PV, ex (e talvez futura)-Rede e atual candidata do PSB, Marina Silva, a divulgadora da “nova política”.

Chamam a atenção nas pesquisas duas coisas.

A primeira: ambas mostram Dilma subindo, embora no Ibope apenas dois pontos (de 36% a 38%), enquanto no Vox ela subiu o dobro, e chegou a 40%. Curiosamente, no Ibope Marina apenas “oscila” de 30% para 29%, enquanto no Vox tem uma queda de 5% (27% a 22%).

A segunda coisa que chama a atenção é o número de indecisos: 12% no Vox Populi e apenas 5%, menos da metade, no Ibope. Interprete essa discrepância quem interpretar possa.

Mas o que portanto parece certo é que Dilma está crescendo na reta final, faltando 12 dias para o pleito, enquanto Marina mostra tendência de queda e Aécio de ficar estagnado ou “oscilar” um pouco para cima.

Ao que parece, se não houver fatos novos e muito significativos, a eleição levará Dilma ao segundo turno contra Marina ou Aécio. Insisto no que disse num post de 28 de agosto, 26 dias atrás: “Acho que vai ter segundo turno nas eleições de outubro, mas não considero Aécio já derrotado, apesar de a mídia (acrescento aqui: exceto o Estadão) aparentemente já ter tomado a decisão de apoiar Marina”.

Só que, com 12 dias pela frente, se Marina continuar caindo, seus votos vão para quem? Supondo, hipoteticamente, que se dividam entre Dilma e Aécio mais ou menos igualitariamente, a candidata do PSB pode realmente nem ir para o segundo turno, se Aécio conseguir tirar dela 3 pontos no Vox Populi ou 5 no Ibope (lembrando matemática: se, por exemplo no Ibope, a diferença entre o tucano e a pessebista é 10 pontos, Aécio tirar 5 de Marina significa que ele ganha também 5 e estariam então empatados).

O ex-tucano Walter Feldman, coordenador-geral da campanha de Marina, disse hoje que sua candidata vai, sim, dialogar com a “velha política”. Na semana passada, o vice da ex-ministra, Beto Albuquerque, dizia que não dá para governar sem o PMDB. Estão tentando estancar a sangria. Quem ouve esses acenos à velha política de sempre (e, de resto, é a política que temos e só mudará com uma reforma política), quem escolhia Marina por ver nela algo novo, deve estar agora bastante decepcionado. Pudera. Depois de voltar atrás em pontos específicos do seu programa de governo por pressão de Malafaias da vida, de empresários do agronegócio e outras forças, agora a questão já é voltar atrás no conceito por trás do qual se forjou a candidatura. Muita gente que apostou nela, a essa altura, já deve estar arrependida.

Enquanto isso, Dilma Rousseff discursa amanhã na abertura da Assembleia Geral da ONU.

E Aécio Neves deve continuar sua desesperada cruzada para convencer o eleitorado de que votar em Marina e em Dilma é a mesma coisa, “é votar no PT”, como dizia um cartaz de sua campanha que vi hoje no centro da cidade.

Por incrível que pareça, a direita parece ter errado a estratégia, se dividiu e até mesmo no primeiro turno a eleição pode se decidir, embora seja ainda difícil. Mas não impossível.


* Publicado originalmente 23/09/14 às 23:37 de Brasília

Moniz Bandeira: "a Sra. Marina Silva joga o PSB na lixeira"


Inúmeros sites publicaram a carta do historiador e cientista político Luiz Alberto Moniz Bandeira, que dispensa apresentações, ao presidente do PSB, Roberto Amaral, sobre o partido ter permitido que Marina Silva "entrasse" na legenda. Não sei onde a carta foi publicada primeiro. Mas é um documento contundente que deve ser registrado e reproduzido. Na carta, Moniz Bandeira recomenda a Roberto Amaral "que renuncie à presidência do PSB" e afirma que "a Sra. Marina Silva joga e afunda (o PSB) na lixeira".

Reprodução/Youtube/Café na Política


Estimado colega, Prof. Dr. Roberto Amaral
Presidente do PSB,

A Srª Marina Silva tinha um percentual de intenções de voto bem maior do que o do governador Eduardo Campos, mas não conseguiu registrar seu partido – Rede Sustentabilidade – e sair com sua própria candidatura à presidência da República.

O governador Eduardo Campos permitiu que ela entrasse no PSB e se tornasse candidata a vice na sua chapa. Imaginou que seu percentual de intenções de voto lhe seria transferido.

Nada lhe transferiu e ele não saiu de um percentual entre 8% e 10%. Trágico equívoco.

Para mim era evidente que Sra. Marina Silva não entrou no PSB, com maior percentual de intenções de voto que o candidato à presidência, para ser apenas vice.

A cabeça de chapa teria de ser ela própria. Era certamente seu objetivo e dos interesses que representa, como o demonstram as declarações que fez, contrárias às diretrizes ideológicas do PSB e às linhas da soberana política exterior do Brasil.

Agourei que algum revés poderia ocorrer e levá-la à cabeça da chapa, como candidata do PSB à Presidência.

Antes de que ela fosse admitida no PSB e se tornasse a candidata a vice, comentei essa premonição com grande advogado Durval de Noronha Goyos, meu querido amigo, e ele transmitiu ao governador Eduardo Campos minha advertência.

Seria um perigo se a Sra. Marina Silva, com percentual de intenções de voto bem maior do que o dele, fosse candidata a vice. Ela jamais se conformaria, nem os interesses que a produziram e lhe promoveram o nome, através da mídia, com uma posição subalterna, secundária, na chapa de um candidato com menor peso nas pesquisas.

O governador Eduardo Campos não acreditou. Mas infelizmente minha premonição se realizou, sob a forma de um desastre de avião. Pode, por favor, confirmar o que escrevo com o Dr. Durval de Noronha Goyos, que era amigo do governador Eduardo Campos.

Uma vez que há muitos anos estou a pesquisar sobre as shadow wars e seus métodos e técnicas de regime change, de nada duvido. E o fato foi que conveio um acidente e apagou a vida do governador Eduardo Campos. E assim se abriu o caminho para a Sra. Marina Silva tornar-se a candidata à presidência do Brasil. 

Afigura-me bastante estranho que ela se recuse a revelar, como noticiou a Folha de S.Paulo, o nome das entidades que pagaram conferências, num total (que foi, declarado) de R$1,6 milhão (um milhão e seiscentos mil reais), desde 2011, durante três anos em que não trabalhou. Alegou a exigência de confidencialidade. Por que a confidencialidade? É compreensível porque talvez sejam fontes escusas. O segredo pode significar confirmação. 

Fui membro do PSB, antes de 1964, ao tempo do notável jurista João Mangabeira. Porém, agora, é triste assistir que a Sra. Marina Silva joga e afunda na lixeira a tradicional sigla, cuja história escrevi tanto em um prólogo à 8ª edição do meu livro O Governo João Goulart, publicado pela Editora UNESP, quanto em O Ano Vermelho, a ser reeditado (4a edição), pela Civilização Brasileira, no próximo ano.

As declarações da Sra. Marina Silva contra o Mercosul, a favor do subordinação e alinhamento com os Estados Unidos, contra o direito de Cuba à autodeterminação, e outras, feitas em vários lugares e na entrevista ao Latin Post, de 18 de setembro, enxovalham ainda mais a sigla do PSB, um respeitado partido que foi, mas do qual, desastrosamente, agora ela é candidata à presidência do Brasil.

Lamento muitíssimo expressar-lhe, aberta e francamente, o que sinto e penso a respeito da posição do PSB, ao aceitar e manter a Sra. Marina Silva como candidata à Presidência do Brasil.

Aos 78 anos, não estou filiado ao PSB nem a qualquer outro partido. Sou apenas cientista político e historiador, um livre pensador, independente. Mas por ser o senhor um homem digno e honrado, e em função do respeito que lhe tenho, permita-me recomendar-lhe que renuncie à presidência do PSB, antes da reunião da Executiva, convocada para sexta-feira, 27 de setembro. Se não o fizer – mais uma vez, por favor, me perdoe dizer-lhe – estará imolando seu próprio nome juntamente com a sigla.

As declarações da Sra. Marina Silva são radicalmente incompatíveis com as linhas tradicionais do PSB. Revelam, desde já, que ela pretende voltar aos tempos da ditadura do general Humberto Castelo Branco e proclamar a dependência do Brasil, como o general Juracy Magalhães, embaixador em Washington, que declarou: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil.”

Cordialmente,

Prof. Dr. Dres. h.c. Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Pra não dizer que não falei de Luciana Genro


O que penso sobre o PSOL e Luciana Genro já escrevi aqui.

Acho que o PSOL tem uma visão míope sobre ser de esquerda. Tanto é que não é incomum que o partido se una ao PSDB em vários parlamentos do país. Basta procurar na internet para achar exemplos. Se consideram que ser de esquerda é posicionar-se radicalmente contra o PT e colocá-lo no mesmo saco que o PSDB e se, ao atacar o partido de Lula citando o "mensalão", por exemplo, corroboraram as decisões juridicamente absurdas de Joaquim Barbosa (ao lado da TV Globo e toda a mídia conhecida), só se pode ver miopia no PSOL. Ou algo pior: "uma estratégia eleitoreira das mais tradicionais", como observou o Felipe Cabañas da Silva em comentário ao post anterior acima citado/linkado: o PSOL "precisa desconstruir a imagem do PT enquanto partido de esquerda para disputar a fatia progressista do eleitorado e se viabilizar como alternativa de poder".

Seja como for, apesar de minhas críticas e ressalvas feitas, a candidata do PSOL à presidência da República aplicou um nocaute incontestável no tucano Aécio Neves, no debate promovido pela Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) na terça-feira (16). Por isso, a pouco mais de duas semanas do primeiro turno, fica o registro. Para quem não viu a única passagem importante do debate.





segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Dilma tem o apoio de quem não pensa só em si



Chico, Fernando Morais, Nachtergaele e Beth  
Luis Fernando Veríssimo, Chico Buarque, Matheus Nachtergaele, Beth Carvalho, Paulo Betti, Hugo Carvana, Ivana Bentes e Maria da Conceição Tavares, entre muitos outros artistas, intelectuais, produtores culturais e jornalistas assinam o manifesto de apoio à candidatura de Dilma Rousseff.

Segundo o manifesto,“o Brasil precisa de mudanças, como as manifestações de rua do ano passado revelaram (...) aprofundar as transformações na educação e na saúde públicas, na agricultura, consolidando com ousadia as políticas de cultura, meio ambiente, ciência e tecnologia, e combatendo, sem trégua, todas as discriminações (...) o Brasil precisa urgentemente de uma reforma política. Mas precisa mudar avançando e  não recuando ".

Deve-se notar que há algumas vozes dissonantes. As de Caetano Veloso e Gilberto Gil, por exemplo, que declararam voto em Marina Silva. Tempos atrás, dona Canô, mãe de Caetano, puxou a orelha do filho publicamente, porque ele tinha chamado Lula de "analfabeto", e declarou voto em Dilma. Infelizmente, dona Canô já morreu. Nada contra Caetano ou Gil votarem em Marina. É da democracia. Mas Caetano dizer que Marina representa a "chegada de evidentes fenótipos negros no posto da Presidência da República. Isso não é pouco", é bastante ridículo. "É a sociedade brasileira se movimentando para crescer com dores suportáveis", escreveu ainda Caetano, que tem uma obra tão bonita, e poderia nos poupar de tamanhas tolices.

Abaixo, a íntegra do documento assinado por Luis Fernando Veríssimo, Chico Buarque, Matheus Nachtergaele etc:

Os brasileiros decidem agora se o caminho em que o país está desde 2003 é positivo e deve ser mantido, melhorado e aprofundado, ou se devemos voltar ao Brasil de antes - o do desemprego, da entrega, da pobreza e da humilhação.

Nós consideramos que nunca o Brasil havia vivido um processo tão profundo e prolongado de mudança e de justiça social, reconhecendo e assegurando os direitos daqueles que sempre foram abandonados. Consideramos que é essencial assegurar as transformações que ocorreram e ocorrem no país, e que devem ser consolidadas e aprofundadas. Só assim o Brasil será de verdade um país internacionalmente soberano, menos injusto, menos desigual, mais solidário.

Abandonar esse caminho para retomar fórmulas econômicas que protegem os privilegiados de sempre seria um enorme retrocesso. O brasileiro já pagou um preço demasiado para beneficiar os especuladores e os gananciosos. Não se pode admitir voltar atrás e eliminar os programas sociais, tirar do Estado sua responsabilidade básica e fundamental.

O Brasil precisa, sim, de mudanças, como as próprias manifestações de rua do ano passado revelaram. Precisa, sem dúvida, reformular as suas políticas de segurança pública e de mobilidade urbana. Precisa aprofundar as transformações na educação e na saúde públicas, na agricultura, consolidando com ousadia as políticas de cultura, meio ambiente, ciência e tecnologia, e combatendo, sem trégua, todas as discriminações.

O Brasil precisa urgentemente de uma reforma política. Mas precisa mudar avançando e não recuando. Necessita fortalecer e não enfraquecer o combate às desigualdades. O caminho iniciado por Lula e continuado por Dilma é o da primavera de todos os brasileiros. Por isso apoiamos Dilma Rousseff.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Pensamento para sexta-feira [53]
Eleições: Veredas



"(...) Olhe: o que devia de haver, era de se reunirem-se os sábios, políticos, constituições gradas, fecharem o definitivo a noção - proclamar por uma vez, artes assembléias, que não tem diabo nenhum, não existe, não pode. Valor de lei! Só assim, davam tranquilidade boa à gente. Por que o Governo não cuida?!
Ah, eu sei que não é possível. Não me assente o senhor por beócio. Uma coisa é pôr idéias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias...Tanta gente - dá susto de saber - e nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuva e negócios bons..."

(Guimarães Rosa - trecho de Grande Sertão: Veredas, a partir de post de Gabriel Megracko no Facebook)

Ilustração: Poty (do livro Sagarana/1980- Livraria José Oympio)

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O racismo é inadmissível e é crime, mas é à Justiça que cabe julgar. E condenar





Concordo plenamente com a exclusão do Grêmio de Porto Alegre da Copa do Brasil pelas atitudes racistas de sua torcida contra o goleiro Aranha, do Santos, na semana passada. Aliás, defendi isso na minha página do Facebook: “Enquanto não houver severas punições aos clubes (perda de pontos, multas pesadas etc) casos absurdos como o do goleiro ... vão continuar acontecendo”, escrevi lá no dia 28. Por incrível que pareça, houve quem discordasse de que o clube deveria ser punido.

Acho que não apenas a garota Patrícia, mas todos os que têm esse tipo de comportamento devem ser alvo da justiça, de acordo com investigações sérias e isentas, e impedidos de entrar nos estádios. As investigações devem chegar à torcida organizada, no caso a gremista, que, segundo depoimentos, incentiva, dissemina e pratica o racismo em suas manifestações.

O racismo é hoje inadmissível de acordo com qualquer parâmetro legal e de defesa dos direitos humanos. E é absurdo principalmente no Brasil, país multicultural e que tem na miscigenação das raças e culturas uma de suas maiores belezas.

Mas acho também que o devido processo legal e o direito à ampla defesa devem ser assegurados às pessoas que são acusadas de qualquer coisa. O Direito prevê punições e também atenuantes para qualquer crime, dependendo de inúmeras circunstâncias.

À Justiça é que cabe julgar. Estamos numa República, e não em um Estado teocrático. Determina a Constituição brasileira que “aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa” (inciso LV do artigo 5º) e que “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória” (inciso LVII do mesmo artigo).

Violência e linchamentos morais ou físicos, midiáticos ou perpetrados por pessoas, o ódio e a vingança não levam a construir nada. Não são justiça. Pelo contrario, só alimentam o conflito e fomentam o ódio num moto-contínuo sem fim. Há incontáveis casos para comprovar isso, é só buscar na memória. 

Essa histeria punitiva que cerca o caso Grêmio é apenas um exemplo. Há outros, de outro gênero, como o caso do "mensalão",  muito diferente, que vai ser esclarecido pela história, isso é certo, mas até lá a injustiça, a afronta a direitos constitucionais básicos, já estará mais do que consumada. Há o antigo caso da escola Base.

Na mídia, o que não falta são justiceiros, mas não cabe à mídia fazer justiça, embora ela própria tenha se autodenominado "o quarto poder" e seus representantes acreditem nisso.

Há alguns meses uma mulher inocente foi linchada por ser confundida com uma criminosa no litoral de São Paulo porque uma horda de ignorantes e criminosos achou por bem fazer justiça pelas próprias mãos, talvez alguns deles com a cabeça cheia de recalques alimentados por ódios pessoais e midiáticos bem-intencionados e politicamente corretos.

A sede de vingança distorce e deteriora as relações sociais.

E, como se diz, de boas intenções o inferno está cheio.