sexta-feira, 31 de julho de 2015

quarta-feira, 29 de julho de 2015

O Podemos da Espanha e as esquerdas


O partido espanhol de esquerda Podemos tem servido de inspiração, modelo e exemplo para várias pessoas, no Brasil inclusive. Pensando nisso, achei interessante o que disse hoje um de seus porta-vozes, o advogado Rafael Mayoral, sobre a questão da identidade, ou não, entre os movimentos de esquerda no mundo.




O dirigente disse o seguinte, ao ser instado a opinar sobre o “bolivarianismo” sul-americano, questão que pressupõe a comparação entre os exemplos venezuelano e espanhol como caminhos (paralelos ou não?) da esquerda: “Nós não copiamos ninguém. Podemos funciona porque é uma expressão política que responde às necessidades e às aspirações do nosso povo. Quando deixarmos de ser assim, deixaremos de funcionar. Se nos perguntarem o que se deve fazer, responderemos: que ninguém nos copie. Copiar é um erro.”

Membro da executiva do Podemos, o ativista concedeu coletiva a jornalistas na manhã/tarde desta quarta-feira no Centro de Estudos de Mídia Barão de Itararé, em São Paulo, onde estive como repórter da RBA (a matéria aqui). 

Essa abordagem (“copiar é um erro") das idiossincrasias nacionais é interessante, e de certo modo nova, politicamente, apesar do tom que denota também o conhecido orgulho espanhol. Mas a posição manifestada pelo dirigente do Podemos é, como eu disse, interessante. 

Sou um dos muitos que cresceram sob a égide da luta ideológica entre facções esquerdistas, que, segundo as conveniências ou meros gostos pessoais (muitas vezes baseados no desconhecimento das Culturas nacionais – com C maiúsculo mesmo), adotam esta ou aquela “corrente”.

“Sou trotskista”; “sou stalinista”; “não, a revolução é maoista”; “sou leninista”, “sou castrista, viva Cuba”; “acredito no PCI”...

Em 1989 a esquerda brasileira se dividiu entre Brizola e Lula – e deu em Collor.

Reflexões.

Mayoral enfatizou (ou se esforçou para esclarecer) que o projeto do Podemos, segundo ele, tem como uma das bases um princípio jurídico, o que é importante: “Queremos um projeto alternativo que converta a Declaração dos Direitos Humanos em uma realidade para os povos. Defendemos a necessidade da tipificação de delitos econômicos de lesa-humanidade”. O aumento da mortalidade infantil na Grécia, “sendo submetida a um terrorismo econômico”, é um exemplo de violação dos direitos humanos, disse.

No Brasil ainda estamos falando em golpe, algo que supostamente a Constituição de 1988 tinha abolido.

A Constituição brasileira de 1988 incorpora, ainda que tardiamente, o próprio espírito da Declaração dos Direitos Humanos das Nações Unidas, que é do longínquo dia 10 de dezembro de 1948.

Diz a Declaração das Nações Unidas, por exemplo:

Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos.”

Todo ser humano tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades  estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.”

A semelhança com os princípios inscritos no artigo 5° da nossa Constituição de 1988 não é mera coincidência. Mas esses princípios infelizmente ainda não vigoram no Brasil, nem em várias partes do mundo.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Pensamento para sexta-feira [60] – Ucrânia



Conhecido como miliciano “Texas”, cidadão norte-americano que foi combater no leste da Ucrânia contra as forças fascistas do governo ucraniano conta episódio em escola destruída na batalha.






quinta-feira, 2 de julho de 2015

A indignação de Joanna Maranhão


Reprodução
O depoimento em vídeo que a nadadora pernambucana Joanna Maranhão postou hoje na internet é muito significativo. “Vou para o Pan-Americano, vou defender o meu país, mas não vou estar representando essas pessoas que batem palmas pra Feliciano, Bolsonaro, Eduardo Cunha, Malafaia... Não são vocês que estou representando. A torcida de vocês não faço questão nenhuma de ter.”

A intervenção indignada (assista ao vídeo abaixo) foi um desabafo depois do espetáculo circense neofascista a que assistimos ontem na Câmara dos Deputados, patrocinado por Eduardo Cunha.

"Já e a segunda vez que eu amanheço e tomo conhecimento dessas manobras criminosas que Eduardo Cunha tem feito no Congresso e eu sinto um desgosto muito grande", disse Joanna, sobre a desfaçatez cínica com que o presidente da Câmara passou por cima da Constituição e da Democracia e fez aprovar em primeiro turno a redução da maioridade penal, exatamente como fizera com a PEC do financiamento privado de campanhas eleitorais.

O mundo de atletas é um mundinho estreito. A todo momento vemos esses analfabetos políticos dizerem (literalmente) amém a tudo, atribuir qualquer conquista ou derrota à vontade do senhor. Agora há pouco, minutos atrás, o atacante Fred, do Fluminense, chamado a falar de seu gol contra o Santos no Maracanã, começou assim: "fui abençoado com esse gol..."

Atualmente (e no jogo Santos x Fluminense os dois times festejaram gols assim) você não vê mais nem mesmo comemoração de gol. Os jogadores fazem uma rodinha, ajoelham e levantam as mãos ao céu. Quase todos os gols agora são comemorados assim! É inacreditável, é doentio. Estou convencido de que é também por causa dessa mente obtusa e acéfala que o futebol brasileiro está como está, embora haja outros fatores, que não vêm ao caso aqui.

Vi o River Plate eliminar o Cruzeiro da Libertadores por 3 a 0, em Minas, em maio. O jogo mostrou bem o que é um time que tem cérebro, tática e cultura (River) contra um bando de pentecostais que só falam no "senhor". Os argentinos jogam futebol e pensam, os brasileiros nem jogam bola e muito menos pensam mais.

Enfim, muito bem-vindo o depoimento de Joanna Maranhão. Corajosa e politizada, a atleta brasileira mostra que não é por ser uma esportista que a pessoa precisa ser despolitizada, egoísta e imbecil.

Veja o vídeo postado pela nadadora.


sexta-feira, 19 de junho de 2015

Drácula em São Paulo


Ilustração: Daniel Araujo
Acaba de sair pela editora Paulinas meu livro Drácula, da coleção Clássicos do Mundo. Nele, conto a história do conde que inspirou legiões de escritores, cineastas e desenhistas, a partir da obra de Bram Stoker.

A história é ambientada na São Paulo contemporânea e também, claro, na Transilvânia. 

Escrever essa obra foi uma licença poética. Pois a editora me deu total liberdade de contar (ou recontar) a história de Drácula, e o destino me incumbiu de falar de Drácula entre nós, longe da Londres vitoriana palco da obra do irlandês Bram Stoker. O que foi desafiador, mas ao mesmo tempo prazeroso e, por que não dizer, mágico. Pois a história do vampiro, depois da obra matriz de Stoker, foi recontada inúmeras (na verdade incontáveis) vezes por muitos artistas. Como disse José Arrabal no prefácio, foi “ao longo do tempo replicado em diversas novelas de outros autores, em programas de rádio, no cinema mudo e falado, em séries televisivas, letras de música, revistas em quadrinhos, videogames, também em criações da publicidade, obras de designers e demais artistas plásticos”.

Assim, me senti à vontade em dialogar com essa história extraordinária, que resultou em bem cuidada edição da irmã Maria Goretti de Oliveira, da Paulinas, e sua equipe, com ilustrações de Daniel Araujo.

*******

Um dia, altas horas, eu estava escrevendo uma passagem do livro e, de repente, do nada, uma mariposa entrou pela janela do escritório e veio direto em mim, no meu pescoço. É um fato de que não esqueço. Obviamente, tomei um susto enorme, estapeei o inseto e nem me lembro se o matei ou não.

Quando se escreve um livro, às vezes acontece de as coisas se materializarem. A ficção se confunde com a realidade? Terei sonhado com aquela mariposa?

Garcia Márquez é um escritor em cujas obras se veem borboletas que não se sabe se existem ou não existem, mas que evidentemente existem, em alguma dimensão.

O cineasta Luis Buñuel é outro em cuja obra está esse enigmático limiar entre a realidade e a imaginação, palavra que o espanhol gostava de usar – embora em Buñuel a imaginação estivesse mais vinculada a uma concepção psíquica do que mística ou mágica, esta uma especialidade de García Marquez.

Voltando ao Drácula, como escrevi no texto para a quarta capa do livro, “contar a história desse ser assustador e fascinante, situando-o na cidade de São Paulo de nossa época, no início do século XXI, e interagindo com personagens comuns como todos nós, imaginá-lo entre nós, foi uma experiência ao mesmo tempo desafiadora e gratificante”.

Drácula é um clássico, e o personagem já faz parte do imaginário de todos nós. Ele não morreu nem ao final do livro matriz de Bram Stoker, nem no impressionante (embora demasiado hollywoodiano, e portanto adocicado) filme de Francis Ford Coppola, nem no expressionista Nosferatu (1922), filme do alemão F.W. Murnau, nem em qualquer obra. 

Em uma das muitas abordagens sobre o tema obra clássica, o escritor argentino Jorge Luis Borges escreveu: “Clássico não é um livro que possui necessariamente tais ou tais méritos. É um livro que as gerações dos homens, motivadas por razões diversas, leem com prévio fervor e misteriosa lealdade”.

Bram Stoker criou um livro clássico e um personagem mítico. Drácula é imortal. Por isso, com a licença de seu criador, me permiti, como disse acima, a licença poética de contar a passagem de Drácula pela metrópole de São Paulo, onde ele pode muito bem ter passado alguns dias de sua eternidade.

Serviço:

Drácula – Eduardo Maretti – Editora Paulinas: http://www.paulinas.org.br/loja/dracula

sexta-feira, 5 de junho de 2015

A (feliz) campanha do Boticário e a doença da homofobia



Reprodução/Youtube


Ainda não conhecia e acabo de ver a polêmica peça publicitária d' O Boticário  para o Dia dos Namorados (você pode assistir em link abaixo neste post).

A primeira observação é que a campanha é muito feliz, enquanto propaganda em si. Criativa e delicada. Em segundo lugar, a peça é oportuna, diante da onda reacionária que está em todos os segmentos da sociedade brasileira por parte de pessoas que não entendem a realidade ou fingem que estão em outro planeta.

Curiosamente, um "consumidor" encaminhou uma reclamação a um site da grande imprensa para dizer que "o Boticário perdeu a noção da realidade, empurrando essa propaganda que desrespeita a família brasileira. Não tenho preconceito mas acho que a propaganda é inapropriada para a TV aberta", disse o missivista, concluindo: "a partir de hoje não compro mais nem um só sabonete lá e eu era cliente".

O destaque da fala do tal consumidor é a cômica frase "o Boticário perdeu a noção da realidade". De qual realidade essa pessoa está falando? É também típica a observação "Não tenho preconceito mas...", com a qual os preconceituosos costumam abrir suas perorações.

Dias atrás o pastor Silas Malafaia – esse porta-voz do obscurantismo medieval – "conclamou" seus seguidores evangélicos a não comprar no Boticário depois da campanha. O Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária), que não serve para nada, pois é controlado pelas próprias empresas de propaganda, abriu um processo para "julgar" a peça do Boticário devido às reclamações que recebeu.

Curioso que os homofóbicos preocupados com a saúde mental de uma sociedade doente (aliás, de uma doença da qual eles próprios são o principal sintoma), não se preocupam com a excrescência do Big Brother da TV Globo.

Também não se preocupam com as campanhas publicitárias de carro, que descaradamente incentivam a velocidade e o poder de imbecis que compram suas máquinas e saem pelas ruas atropelando o bom senso e matando pessoas.

Ou as piores publicidades que existem, as de medicamentos, que incentivam a automedicação e o uso de substâncias cujos verdadeiros efeitos ninguém, a não ser os laboratórios, conhece.

Estas sim, as propagandas de drogas, deveriam ser proibidas pelo Estado, mas os governos que se sucedem não têm coragem de se impor contra esse tipo de abuso, reféns covardes que são da "liberdade de expressão" em nome da qual tudo pode. 

O incentivo ao consumo de drogas de laboratório e à insanidade de motoristas cujos brilhantes automóveis são armas de matar nas ruas do país – isso, sim, deveria ser proibido. 

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Djokovic arrasa Nadal em Roland Garros



Alguns lances de um jogo que infelizmente não vi
What you missed Day 11 - There was a special atmosphere in the stadium for the big match Novak Djokovic - Rafa Nadal"...
Posted by ROLAND-GARROS on Quarta, 3 de junho de 2015

sábado, 30 de maio de 2015

A Argentina de Cristina Kirchner e os
800 mil na praça



“Va a pasar lo que ustedes quieran que pase”

Na última celebração do 25 de maio (segunda-feira passada, nas comemorações dos 205 anos da independência) como presidente da Argentina, Cristina Kirchner fala para 800 mil pessoas sobre os 12 anos de governo desde que Néstor Kirchner chegou ao poder e começou a mudar o país. Dá para refletir sobre várias coisas e analogias com nosotros, aqui no Brasil.

Foto: Reprodução

Por Werner Pertot, do 
Página12


"La bella señora está desencarnada”, sonaba de fondo Patricio Rey y sus Redonditos de Ricota cuando la presidenta Cristina Fernández de Kirchner irrumpió en el escenario. Lo recorrió de un lado a otro como una rockstar, ante las ovaciones de la multitudinaria tribuna pintada de celeste y blanco. En su discurso, relevó los hitos de su gobierno y del de Néstor Kirchner, que había asumido 12 años atrás. “Decían que íbamos a arreglar (con los fondos buitre). No tengan miedo. Pueden difamar a mi hija, maltratar a mi hijo, pero mientras sea Presidenta voy a seguir defendiendo los intereses del país. No tengo ninguna cuenta en el exterior que me puedan descubrir”, aseguró. Varios tramos estuvieron dirigidos al futuro posterior a su gobierno: “Este es un proyecto colectivo. No puede depender de una sola persona. ¡Depende de ustedes!”, remarcó. “Este proyecto debe continuar –insistió–. No es continuidad o cambio. Los que quieren cambio, que nos expliquen a todos qué cambio quieren.”

La Casa Rosada estaba iluminada y con el mapping en ventanas, puertas y banners. Justo antes de la entrada de la Presidenta, mostraba un diseño de rayos eléctricos que caían del cielo. Durante el discurso de la mandataria, en cambio, emulaban una bandera argentina ondeando. CFK ingresó, de hecho, con el tema “Juguetes perdidos” de los Redondos.

Con un traje gris brillante, la Presidenta entonó al himno, tocado por la orquesta El Arranque y cantado por Guillermo Fernández, que culminó con una primera salva de fuegos artificiales que iluminaron el cielo sobre la Casa Rosada. Su discurso –el último que dará como Presidenta un 25 de Mayo– estuvo cargado de recuerdos de los 12 años de gobierno.

Doce años ganados
  Pablo Piovano
Comenzó con una evocación de Néstor Kirchner: recordó que había asumido hacía 12 años “en una hermosa mañana de sol. Pronunció un discurso que algunos creyeron que era sólo eso: un discurso. Desde algún editorial se pronosticó que ese gobierno iba a durar apenas un año. Fallaron, como siempre”, dijo, y despertó la primera ovación de la multitud, que llevaba cartulinas con imágenes de pingüinos sosteniendo banderas de distintos colores o urnas que decían: “Voto joven”.

“Su concepto más recordado fue cuando dijo que no pensaba dejar sus convicciones en la puerta de la Casa Rosada para gobernar el país –indicó la Presidenta–. Pero después dijo que los dirigentes políticos íbamos a ser juzgados por los resultados. Veníamos de la dolorosa experiencia de discursos maravilloso y de gobiernos desastrosos.” “Nosotros somos el Gobierno de la transformación”, definió. Rememoró la Cumbre de las Américas en Mar del Plata y la renegociación de la deuda externa, en la que “obtuvo la reestructuración más importante de toda la historia del mundo”. “Quedaron aleteando algunos buitres, poderosos, que manejan medios de comunicación y ONG de ésas que uno nunca sabe de dónde sacan los fondos”, acusó. La mandataria afirmó que mantendrá la posición argentina hacia los acreedores.

“No tengo ninguna cuenta en el exterior que puedan descubrir. Al contrario, les descubrieron miles de cuentas a otros. ¿Vieron algún programa de investigación sobre esas cuentas?”, preguntó. Fue uno de varios pasajes destinados a los medios de comunicación. Otro llegó cuando se refirió a la inauguración del Sitio de la Memoria en la ex ESMA. “Me impresionó una frase que se repetía donde nacieron bebés en cautiverio: ‘¿Cómo puede ser que acá hayan nacido bebés?’”, recordó y propuso que se ponga otro cartel en la entrada de todos los sitios de memoria, que diga: “¿Cómo puede ser que los medios de comunicación ignoraron lo que pasaba?”

–Tomala vos / dámela a mí / el que no salta / es de Clarín –coreaba la multitud. El cantito se repitió cuando aludió a la ley de medios. “¿Cómo explicás que justificaste la tortura o que tiren gente al mar?”, reiteró sobre la prensa en la dictadura.

“Esto no es abrir ninguna grieta. Los argentinos estamos reconciliados”, sostuvo y puso como ejemplo el traslado del sable corvo de San Martín. “Esa es la verdadera reconciliación del pueblo con el ejército sanmartiniano. Díganme si recuerdan desde que volvió la democracia a tanta gente en la calle vivando a los Granaderos”, afirmó.

Tras una discusión con la “historiografía liberal que decía que Rosas era un tirano”, volvió sobre la represión en la dictadura (o previa al golpe), amagó con no decir algo y finalmente dijo: “Teníamos que hacernos cargo porque entre las víctimas había peronistas, pero entre los victimarios había otros que se decían o eran de nuestro movimiento”. CFK concluyó con la idea de que “los derechos humanos se han convertido definitivamente a nuestra democracia”.

Postales del futuro

Así como recordó los hitos del gobierno de Kirchner, CFK hizo un repaso por su gestión: mencionó la AUH, Aerolíneas Argentinas, YPF, las jubilaciones, las escuelas. Y al recordar el cierre de las paritarias de un grupo de gremios –entre ellos, la UOM de Antonio Caló–, indicó: “Espero que a partir del 10 de diciembre los mismos dirigentes sindicales pongan toda la fuerza para conseguir todos los aumentos que consiguieron en estos años. Si no lo hacen, yo les voy a decir a los trabajadores que cambien de dirigentes sindicales, para que sigan teniendo los mismos derechos”. Las menciones a los que la rodeaban llegaron en dosis homeopáticas: una fue para su ex jefe de Gabinete Jorge Capitanich por el resultado electoral en las PASO de Chaco. La otra, para Juan Cabandié cuando mencionó a los nietos recuperados nacidos en la ESMA.

También hubo advertencias para los opositores, sobre quienes dijo que “deben criticar. Está bien que critiquen. Deben proponer también, pero bueno...”. Luego los cuestionó porque “parece que les molesta que el Centro Cultural lleva el nombre de un ex presidente. ¿Por qué no construyen uno más grande y le ponen el nombre que quieran? ¿O creen que me gustan los nombres de algunas calles, avenidas, plazas? Si es por cambiar nombres, cambiémosles el nombre a todos”.

Señaló que desde la oposición “quieren hacerle creer a la gente que es bueno que cada cuatro años cambie todo. ¿Saben por qué? Porque cuando cada cuatro años cambia todo, todo sigue igual”. “Por eso, este proyecto debe continuar –remarcó CFK sin mencionar a ninguno de los candidatos a sucederla–. No es continuidad o cambio. Que nos expliquen qué cambio quieren.” “Ahora dicen que la AUH está muy bien y que no van a reprivatizar Aerolíneas ni YPF, pero cada vez que votamos fue en absoluta soledad”, afirmó. “Olvídense de que yo soy medio antipaticona y alguno puede decir: ‘Mirá qué soberbia’. Son defectos que tengo. Pero piensen: ¿están un poquito mejor que en 2003?”, le preguntó a la multitud.

–Síiiiiii –le respondieron, entre varios cantitos que pedían la reelección por un tercer mandato.

“Morocha, no te vayas”, decía uno de los carteles que colgaban del palco junto al escenario. “Muchos me miran con miedo y me dicen: ‘¿Qué va a pasar?’. Va a pasar lo que ustedes quieran que pase. Ustedes son los dueños de su destino. Lo más importante es que hemos construido otra vez la patria”, afirmó CFK. Sobre la economía, la Presidenta afirmó: “Hemos demostrado que no era un veranito. Vamos por doce veranos y queremos el verano número trece”. Y aprovechó para comparar con la situación de Europa. No faltaron las alusiones al juez de la Corte Suprema Carlos Fayt cuando mencionó a una candidata de Podemos en Madrid, que “es una ex jueza de 71 años (sí, en España parece que se jubilan antes)”.

Por último, la Presidenta recordó los saqueos y las insubordinaciones policiales de diciembre de 2013 y llamó a “estar atentos, porque tal vez intenten hacer cosas para enojar a la gente. En estos días, vimos episodios de sospechosa e inusitada violencia”, en una posible alusión al linchamiento de Monte Hermoso. En una de sus últimas alusiones al 2016, la mandataria afirmó: “Van a venir muchos 25 de mayo más donde el pueblo se volcará a la Plaza”.



domingo, 24 de maio de 2015

John Nash (1928-2015), um destino


foto:Agência FAPESP

O que é o destino. O matemático John Nash -- dono de uma "mente brilhante", personagem do mundo da matemática, cujas teorias lhe renderam o Prêmio Nobel de Economia em 1994 --, morreu neste sábado (23), aos 86 anos, na companhia de sua mulher, Alicia, ambos vítimas de um tolo acidente de carro. Como disse Luis Buñuel, "o acaso é o senhor de todas as coisas".

O grande ator Russell Crowe, que fez o papel de Nash no belíssimo filme Uma Mente Brilhante (A Beautiful Mind - 2001, dirigido por Ron Howard), que mostra sua trajetória na Princeton University e sua luta contra a esquizofrenia, escreveu a mensagem abaixo, em sua conta no twitter:


"Atordoado... Meu coração bate por John, Alicia e a família.
Uma parceria incrível. Mentes bonitas, corações bonitos."

Nash foi um desses homens que dão um caráter mais rico à medíocre condição humana neste planeta e fazem nossa trajetória ser carregada de um tom misterioso e insondável. Que vá em paz.


sexta-feira, 22 de maio de 2015

Pensamento para sexta-feira [59] – Einstein



Wikimedia Commons


"Dois gêmeos idênticos marcam encontro em uma base de lançamento de foguetes. Um fica no solo, o outro inicia uma longa viagem em uma cápsula espacial. Atinge velocidades próximas à da luz, dá a volta em Sírius e volta à Terra. Segundo os relógios da base, passaram-se 100 anos. (Na volta) Os seus tataranetos fazem-lhe uma grande ovação. Ele pouco mudou. Em seu relógio de bordo passaram-se 3 meses."

(...)

"Nas vizinhanças do sol, os trilhos curvos do espaço alteram o curso dos raios luminosos. É por isso que nos eclipses se podem ver as estrelas que o disco solar normalmente deveria ocultar. Mesmo desviada pela massa do sol, sua luz chega até nós. Este fato, previsto por Einstein, foi verificado quando do eclipse de 1919 (...) 'Não compreendo, como é ´possível?', dirá o homem de bom senso. A resposta é que nada há para ‘compreender’. Negar o que se vê porque o que se vê não está de acordo com o que se pensa é bancar o avestruz."

"O tempo absoluto dissipou-se sob o olhar inquisidor de Einstein."


(Trechos do livro Um Pouco mais de Azul, de Hubert Reeves – editora Martins Fontes)

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Sérgio Moro, o herói do Brasil


                                                      Foto: Edu Maretti
Magistrado em São Paulo, nesta quinta

O juiz Sérgio Moro esteve nesta quinta-feira (14) em São Paulo, para o lançamento do livro Bem-vindo ao Inferno, dos jornalistas Claudio Tognolli e Malu Magalhães. O livro é sobre a estilista Vana Lopes, vítima do ex-médico Roger Abdelmassih, e Moro é autor do prefácio, em uma conhecida livraria na Avenida Paulista, nos Jardins, bairro nobre da cidade e coração das manifestações contra a presidenta Dilma Rousseff nos dias 15 de março e 12 de abril.

Na livraria, mulheres e crianças têm nas mãos buquês de flores brancas para ofertar ao “herói” que, segundo advogados e juristas, tem negado a acusados de corrupção na Operação Lava Jato o direito fundamental da ampla defesa, entre outras violações. Na impossibilidade de entregar as flores ao próprio juiz, uma menina de cerca de 12 anos, na companhia da mãe orgulhosa, consegue então o privilégio menor de depositar o buquê nas mãos da esposa do magistrado.

“Tem que fazer parte disso, é um momento histórico, gente”, diz um entusiasmado fã de Moro. “Ele é tão low profile”, afirma uma mulher, bonita, no estilo típico da rua Oscar Freire, do tipo que de vez em quando, sempre que pode, dá uma escapada para Miami.

O assédio ao juiz que “está mudando o Brasil”, por parte da multidão de repórteres e cinegrafistas, assemelha-se à tentativa de se obter a declaração definitiva de um chefe de Estado sobre os rumos de um país. Mas, diante do homem tímido, de voz baixa e estatura média, que muitos acreditam representar a Justiça brasileira hoje, nenhum representante da imprensa brasileira parece se interessar em saber sua opinião sobre o posicionamento de alguns dos mais importantes juristas e advogados do país sobre os rumos da Operação Lava Jato quanto às alegadas violações de direitos.

Por exemplo, o posicionamento do advogado Luiz Fernando Pacheco, para quem, "com a Operação Lava Jato, começa a ganhar corpo no Brasil uma nova forma de se tratar o direito penal, que é o direito penal do terror".

Ou a opinião do advogado Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, para quem é “extremamente preocupante” o fato de as decisões no âmbito da Lava Jato estarem sistematicamente ignorando “o direito penal como direito de garantia da pessoa humana”.

Ou o uso “indiscriminado e leviano”, segundo esses e outros advogados e juristas, do instituto da delação premiada e da prisão preventiva.

As desesperadas investidas dos repórteres com seus microfones na direção do magistrado, na livraria, não têm o objetivo de questionar aspectos jurídicos ou constitucionais dos atos de um dos três poderes da República hoje representado por Sérgio Moro. “O senhor se considera um herói?”, pergunta uma repórter. “Juiz, por favor, apenas uma palavra!”, tenta outra, de maneira quase pueril para uma representante do chamado quarto poder.

Diante da investida da multidão de repórteres e, por trás destes, dos fãs – conjunto que parece compor uma cena do filme Celebridades, de Woody Allen –, o ídolo se mantém numa postura tímida, blasé. “É sempre bom ter o apoio da população”, diz apenas. “Não quero ser o foco”, acrescenta, diante do desespero dos jornalistas, alguns dos quais são figuras bacanas, talentosas, amigas, em alguns casos, mas que na cena fazem lamentavelmente lembrar a letra da canção "As Mariposa", de Adoniran Barbosa, este sim, um gênio brasileiro: “As mariposa quando chega o frio/Fica dando vorta em vorta da lâmpida pra si isquentá”.

Diante da recusa de Sérgio Moro em dar qualquer declaração em favor de uma manchete, uma manchetezinha que seja, enfim se instala um conformismo. “Ele não vai falar, não adianta”, lamenta-se um. Mesmo assim, o séquito, como um bando de mariposas, continua a acompanhar o magistrado, enquanto ele se encaminha para fora da livraria sob aplausos intensos e o coro “fora PT, fora PT”.

Quando Moro chegou à livraria, um artista de rua, anônimo, cantava solitariamente na frente do famoso Conjunto Nacional, na avenida Paulista, com seu violão. Ele interpretava a canção “The Sound of Silence”, da dupla Simon & Garfunkel, lançada nos anos 1960, que atravessou a década de 1970 e até a de 1980. Um trecho dessa canção diz, em tradução livre: “Dez mil pessoas, talvez mais/Pessoas conversando sem falar/Pessoas ouvindo sem escutar”.

Quando o juiz foi embora, ninguém mais cantava na calçada, o artista de rua já tinha ido embora. Um jovem, que se dizia do Movimento Brasil Livre, quase adolescente, dá entrevistas. Declara que querem o impeachment de Dilma "porque ela cometeu crimes de responsabilidade", diz que o Brasil "não é um país livre porque tem muita intervenção do Estado em todos os aspectos".

Esses jovens que estavam na livraria, idolatrando Sérgio Moro, pedindo a cabeça de Dilma Rousseff, não fazem ideia de que adolescentes do passado dançavam a canção de Simon & Garfunkel nos bailinhos, assim como não sabem quem foi Adoniran Barbosa, e muito menos sabem o que significou a luta pela democracia que hoje vivemos no Brasil, pela qual tantos tombaram.

Mas esses jovens não são inocentes. Parafraseando Jean-Paul Sartre, não existem vítimas, muito menos algozes inocentes. 

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Pensamento para sexta-feira [58] – Luis Buñuel


"No mundo burguês existem muitas falsas revoltas." (Luis Buñuel)




Luis Buñuel (1900-1983) foi diretor de alguns dos mais inquietantes e impressionantes filmes do século XX: Los Olvidados (1950), Simão no Deserto (1965), Viridiana (1961), O Anjo Exterminador (1962), A Bela da Tarde (1967), A Via Láctea (1969), O Discreto Charme da Burguesia (1972), Esse Obscuro Objeto do Desejo (1977), para citar algumas de suas grandes películas.

Buñuel era um dos surrealistas, mas, como o poeta Federico García Lorca, transcendeu essa escola e esse rótulo. A frase citada acima fala por si e é emblemática do gênio espanhol -- além de caber perfeitamente no Brasil de hoje, à esquerda e à direita.

Se você não assistiu a filmes desse inquieto e revolucionário diretor e gosta de cinema, não sabe o que está perdendo.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Santos ganha Paulista, primeiro título de Robinho na Vila, em decisão com Palmeiras após 56 anos



Divulgação/Santos FC
Robinho e David Braz comemoram primeiro gol na Vila

Se fosse uma luta de boxe eu diria que o Santos ganhou por pontos, mas muito merecidamente. Poderia ter nocauteado, mas nocautear o Palmeiras não é fácil. 2 a 1 pro Alvinegro e 4 a 2 nos pênaltis.Foi o 21º título paulista e o 6º em dez anos: 2006, 2007, 2010, 2011, 2012 e 2015. 

O título foi o primeiro que Robinho conquistou dentro da Vila Belmiro, na primeira final que Santos e Palmeiras fazem em mais de meio século. Em 1959 os times disputaram uma decisão em três jogos depois de um campeonato em pontos corridos que terminou empatado entre as duas equipes, e o Palmeiras ganhou o título. 

Santos e Palmeiras disputaram 3 partidas no campeonato. Duas vitórias do Santos (2 x 1 na fase de classificação e 2 x 1 hoje) e o Palmeiras ganhou uma (1 x 0 no primeiro jogo da final). Duas vitórias a uma para o Alvinegro.

Parece-me que o Peixe não matou o jogo porque o técnico Marcelo Fernandes se acovardou quando ficou com um jogador a mais no segundo tempo e não foi pra cima. Quando Robinho saiu, o treinador preferiu colocar o discretíssimo Cicinho, e não alguém que ajudasse o time a ir para cima, como Gabriel.

Acho que o título paulista de 2015 é um prêmio justo a um time que jogou com o coração quando ninguém acreditava nele.

Muitos aplausos a três campeões que se destacaram: Robinho e Renato, que estiveram em campo. E Elano, que mesmo não tendo entrado na cancha, é um santista campeão sempre. Robinho, em particular, não passa pelo Santos sem levantar taça.

Destaque para Ricardo Oliveira, matador, que fez o segundo gol, um golaço, e Vladimir, o jovem goleiro que pegou um pênalti.


Aplausos também ao Palmeiras, que como sempre foi um grande adversário que só honrou o título do Santos na Vila Belmiro.

sábado, 2 de maio de 2015

Revolta da torcida do Santos contra a TV Globo não é recente


Não é verdade que "a revolta da torcida" do Santos com a TV Globo, como diz um portal em matéria de hoje, "se iniciou nas quartas de final do Paulista [de 2015]", quando a emissora dos Marinho preferiu exibir um filminho sem-vergonha no domingo em que o Peixe disputava a partida contra o XV de Piracicaba, às 16 horas do dia 12.

A revolta da torcida do Santos com a Globo já vem de longo tempo. O grito "chupa Rede Globo, é o meu Santos campeão de novo", entre outros ouvidos no treino do time hoje, véspera da final contra o Palmeiras, já vem de longa data. O vídeo abaixo, de setembro de 2012, quando o Peixe conquistou a Recopa Sul-Americana, no Pacaembu, é só mais um exemplo entre vários, como uma busca rápida na internet pode comprovar.


A recente partida contra o XV, é bom lembrar, foi no dia 12 de abril, data em que a Globo mudou escandalosamente o horário dos jogos dos estaduais para participar das manifestações golpistas contra a presidente Dilma na tarde daquele domingo, como já fizera no dia 15 de março.

A palavra é essa mesmo: escândalo, para definir o significado de uma empresa que atua por concessão pública adotar tais práticas. 

Para não falar de seu monopólio igualmente escandaloso não só do futebol brasileiro como do próprio calendário do esporte. Quem determina tabelas e horários do futebol no país não é a CBF, mas a emissora dos Marinho, como se sabe.

Quanto ao Santos, o clube é uma das incontáveis entidades prejudicadas por esse monopólio funesto que a Constituição proíbe, mas continua a vigorar no país. A Globo (com a subserviência da CBF) marca todos os jogos do time, nos fins de semana, para o horário noturno, salvo clássicos e decisões.

Quem quiser ver as partidas do Santos ou paga pay-per-view ou, no máximo, se conforma com a transmissão pelo canal pago Sportv, que também é da Globo, quando este acha por bem incluí-las em sua grade. Os jogos na Vila Belmiro só podem ser vistos no pay-per-view. Ou seja, mesmo pagando um "pacote" da TV a cabo, os santistas têm de pagar ainda mais se quiserem ver os jogos do seu time.

É por essas e outras que deve ser saudada a entrada da Fox Sports no circuito do futebol brasileiro. É a primeira emissora que de fato ameaça o monopólio espúrio da TV dos Marinho no futebol nacional. 


quarta-feira, 29 de abril de 2015

Fuzilamento na Indonésia: quatro dias na cela do condenado


Reprodução



O paranaense Rodrigo Muxfeldt Gularte, 42, foi fuzilado na tarde desta terça-feira (28) na Indonésia, depois de 11 anos de batalha nos tribunais deste pais asiático para escapar da condenação à morte por narcotráfico.

A família tentou até a última hora obter clemência alegando que ele estaria esquizofrênico.

Passei quatro dias conversando com Rodrigo em fevereiro de 2005, na cela dele. Perguntei se ele entendia os riscos e consequências de seu ato – ele foi preso pela alfândega local com seis quilos de coca escondidos em pranchas de surf, em julho de 2004.

Resposta: “Se a parada tivesse dado certo eu estaria surfando em Bali, cercado de mulheres”.

Não deu certo. Preso, ele confessou o crime e foi condenado à morte. Rodrigo enfrentou o pelotão de fuzilamento na companhia de um padre católico irlandês. O último pedido dele à prima Angelita Muxfeldt foi para ser enterrado em Curitiba. Há controvérsias sobre o estado mental dele na hora final.

A mãe, dona Clarisse, que lutou o bom combate para salvá-lo, não quis assistir o filho que trouxe ao mundo ser morto tão longe. A prima encomendou uma cruz de madeira artesanal para o caixão e vai trazer as cinzas dele para casa.

O Rodrigo que eu entrevistei na cadeia me pareceu um sujeito muito normal – pode ser que tenha pirado depois.

As autoridades indonésias afirmavam que ele fingia a doença para escapar da condenação.

Rodrigo era um traficante light. Fazia a rota Floripa-Bali-Amasterdã-Floripa para o traficante da pesada Dimi Papageorgiou, um carioca de pais gregos, apelidado de “barão do ecstasy”.

Rodrigo fizera várias viagens de “ensaio” para trazer ecstasy do exterior. Na primeira tentativa de levar tanta coca para Bali ele caiu. Dimi o visitou na cadeia, mas na volta ao Brasil foi preso pela PF.

Trechos das conversas na cadeia

O que mais me impressionou em 2005 foi o clima irreal na cadeia de Tangerang (subúrbio de Jakarta), onde Rodrigo e o carioca Marco Archer – fuzilado em janeiro – eram celebridades.

Entre a quarta-feira 9 e o sábado 12 de fevereiro, eles deram muitas gargalhadas relembrando suas aventuras.

Os dois não estavam nem aí para a possibilidade de enfrentar o Criador, via pelotão de fuzilamento, ou passar o resto de suas vidas presos na Ásia. Se sentiam como se tudo fosse apenas uma bad trip.

Rodrigo foi mais usuário do que traficante. Começou cheirando solvente aos 13 anos.

Dona Clarisse, a mãe de Rodrigo, mobilizou o Itamaraty para protegê-lo. Apelou para Lula, Dilma, papa Francisco e ao presidente da Indonésia, sempre sem sucesso.

Havia uma expectativa otimista no Itamaraty. No início, alguns diplomatas acreditavam que seria possível reduzir a pena de Rodrigo para prisão perpétua, em segunda instância, negociando em dinheiro uma redução maior ainda na terceira, para 20 anos, com soltura em sete, talvez 10 – na época o Judiciário indonésio adotava uma regra não escrita de trocar tempo de encarceramento por uma pena pecuniária.

Os custos para dar jeitinho nas sentenças e as despesas para manter Rodrigo numa cela cinco estrelas eram calculados em 200 mil dólares – a mãe dele é rica e tentou pagar.

Mudanças políticas na Indonésia acabaram com o projeto de resgate por dinheiro.

No julgamento de Rodrigo, em 2005, já era possível prever. O povo muçulmano lotou o tribunal e pedia ‘‘morte aos traficantes ocidentais cristãos’’, descrição na qual se encaixam Rodrigo e Marco Archer.

O pedido da massa deixou o governo firme para rejeitar as campanhas internacionais por direitos humanos, livre de dúvidas existenciais sobre a pena de morte.

Nos momentos de maior delírio Rodrigo sonhava em voltar às praias de Floripa e contar aos amigos como escapou daquela fria.

Ele admirava muito Marco Archer. Eu pedi um exemplo da vida dele, Marco: “Ué, viajou pelo mundo todo, teve um monte de mulheres, foi nos lugares mais finos, comeu nos melhores restaurantes, tudo só no glamour, nunca usou uma arma, o cara é demais.”

Ele me disse aquilo e parou por alguns segundos. Refletiu um pouco e me pediu ajuda: “Por favor, brother, quando você for escrever, dê uma força, passe uma imagem positiva nossa, pra ajudar na campanha” (pela libertação).

Então diga lá o que você vai fazer quando for solto: “Bota aí que eu quero trabalhar 10 anos pro governo dando palestras pra crianças sobre a roubada que é o tráfico”.

Ele disse isto e saboreou o efeito das palavras. Tragou seu Marlboro. Parecia sério, até jogar a fumaça pra cima. Quando soltou tudo, o corpo já estava se chacoalhando. É que ele não conseguiu conter o riso.

Glória na cadeia

Rodrigo se exibiu para mim deslumbrado com a prisão, seu momento de glória: “Somos (com Marco) os únicos entre 180 milhões de brasileiros” (hoje o Brasil já tem 200 milhões).

Ele parecia deslumbrado com a notoriedade obtida com o narcotráfico – cujo pico de audiência é entre jovens ricos praticantes de esportes radicais.

Rodrigo queria botar um diário na internet, coisa que nunca faria.

Enquanto Rodrigo esteve em Tangerang ele comprou privilégios: “Aqui é como numa pousada, muito legal, só que jogaram a chave fora”, me disse. Parecia satisfeito, mesmo sendo acostumado ao conforto de sua suíte com sauna, na casa da família, em Curitiba.

Enquanto os 1300 presos muçulmanos viviam amontoados em 10 por jaula, ele tinha uma exclusiva. Equipada com TV, ventilador, geladeira, forno elétrico, som pauleira, jardim privativo. Ele criava pássaros, bonsais e a gata Tigrinha.

Ele usava os presos pobres como faxineiros cabeleireiros e pedicures. Podia receber gente sem formalidades, todos os dias. Rodrigo foi visitado pela família, pela namorada, a empresária carioca Adriana Andrade, e pelo parceirão Papageorgiou.

A balada na cadeia não parava nunca. Rodrigo também tinha uma namorada local, prima de outro condenado, em quem dava uns amassos na sala do comandante – subornado para usar o sofá.

Podia consumir ecstasy e outras drogas. Nas noites quentes rolava um chopinho gelado, cortesia de um chefão local, preso no mesmo pavilhão.

Como Tangerang é uma prisão provisória, nos arredores de Jacarta, Rodrigo vivia como naquela piada da hora do recreio no inferno. O secretário do diabo poderia anunciar o fim dos privilégios a qualquer momento.

Este dia finalmente chegou. Depois de sentenciado, ele foi transferido para a ilha onde seria fuzilado – um Carandiruzão com 10 mil presos muçulmanos.

Nas drogas desde os 13

Rodrigo nasceu em Foz do Iguaçu. É neto de latifundiário produtor de soja, filho de mãe milionária. O pai é um médico gaúcho de Santana do Livramento, Rubens Borges Gularte – fragilizado pela idade e por uma doença, ele desistiu de tentar salvar o filho. Era tudo com a mãe.

Aos 13, já em Curitiba, Rodrigo começou nas drogas, cheirando solventes. “Era um garoto maravilhoso, a alegria da família, nunca levantou a voz”, isso é tudo o que a mãe contava dele naquela época.

Com 18 foi preso fumando um baseado no parque Barigüi. O pai queria deixar que ele fosse processado. A mãe não concordou, subornou um delegado com mil dólares pra soltar o garoto: “Se fossem prender todos os que fumam”, justificou dona Clarisse.

O garoto ganhou seu primeiro carro. Botou amigos dentro e saiu pela América Latina como um Che Guevara mauricinho, bebendo e se drogando. “Fiz cada loucura”, me contou.

Aos 20 Rodrigo era um rapaz de 1,84m, magrão, modos educados, cheio de namoradas. Teve um breve romance com a professora catarinense Maria do Rocio, 13 anos mais velha, fazendo Jimmy, hoje com 23, autista. Raramente via o filho: “Eu não estava preparado para a paternidade”, disse – no dia do fuzilamento Rocio e o filho não foram localizados.

Rodrigo contou que viajava muito, na piração total: “Em Marrocos, fumei o melhor haxixe”. No Peru: “Coca da pura”. Na Holanda: “Ecstasy de primeira”.

Aos 24, sai bêbado e drogado de uma festa. Bate o carro num táxi, tenta fugir, bate noutro carro, abandona tudo e corre pra casa da mãe. Ela dá uma volta na polícia, chama um médico, interna o garoto.

Na ficha de internação, o médico anotou: “Mostrou onipotência, estava depressivo” – o diagnóstico de esquizofrenia só apareceria na reta final do fuzilamento.

Nos anos seguintes a mãe fez de tudo para ele dar certo. Abriu para Rodrigo uma creperia, em Curitiba. Não deu. Uma casa de massas, em Floripa. Não deu. Mandou pra fazenda da família. Não deu. Rodrigo foi estudar no Paraguai. Não deu. Ele se matriculou na UFSC. Não deu.

Rodrigo começou no tráfico: “Fiz várias viagens à Europa só para trazer skunk”, confessou pra mim.

“A cocaína é do mal”

A prisão: “Os carinhas (Dimi e seus asseclas) me deram as pranchas com cocaína dentro (em Floripa). Embarquei em Curitiba, onde o raio x é ruim, pra desembarcar em Jakarta”.

Ele se lamentou: “Só depois soube que os japoneses doaram um raio x potente pros indonésios, eles pegaram a droga”.

Rodrigo filosofou: “Meu erro foi a coca. O skunk é energia positiva, o ecstasy dá um barato legal, mas a cocaína é do mal”.

O desabafo: “Se a parada tivesse dado certo eu estaria surfando em Bali, cercado de mulheres”.