Foto: Edu Maretti
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Magistrado em São Paulo, nesta quinta |
O juiz Sérgio Moro esteve nesta quinta-feira (14) em São Paulo, para o lançamento do livro Bem-vindo ao Inferno, dos jornalistas Claudio Tognolli e Malu Magalhães. O livro é sobre a estilista Vana Lopes, vítima do ex-médico Roger Abdelmassih, e Moro é autor do prefácio, em uma conhecida livraria na Avenida Paulista, nos Jardins, bairro nobre da cidade e coração das manifestações contra a presidenta Dilma Rousseff nos dias 15 de março e 12 de abril.
Na livraria, mulheres e crianças têm nas mãos buquês de
flores brancas para ofertar ao “herói” que, segundo advogados e juristas, tem
negado a acusados de corrupção na Operação Lava Jato o direito fundamental da
ampla defesa, entre outras violações. Na impossibilidade de entregar as flores
ao próprio juiz, uma menina de cerca de 12 anos, na companhia da mãe orgulhosa,
consegue então o privilégio menor de depositar o buquê nas mãos da esposa do
magistrado.
“Tem que fazer parte disso, é um momento histórico, gente”,
diz um entusiasmado fã de Moro. “Ele é tão low profile”, afirma uma mulher,
bonita, no estilo típico da rua Oscar Freire, do tipo que de vez em quando,
sempre que pode, dá uma escapada para Miami.
O assédio ao juiz que “está mudando o Brasil”, por parte da
multidão de repórteres e cinegrafistas, assemelha-se à tentativa de se obter a
declaração definitiva de um chefe de Estado sobre os rumos de um país. Mas,
diante do homem tímido, de voz baixa e estatura média, que muitos acreditam
representar a Justiça brasileira hoje, nenhum representante da imprensa
brasileira parece se interessar em saber sua opinião sobre o posicionamento de
alguns dos mais importantes juristas e advogados do país sobre os rumos da
Operação Lava Jato quanto às alegadas violações de direitos.
Por exemplo, o posicionamento do advogado Luiz Fernando
Pacheco, para quem, "com a Operação Lava Jato, começa a ganhar corpo no
Brasil uma nova forma de se tratar o direito penal, que é o direito penal do
terror".
Ou a opinião do advogado Antônio Cláudio Mariz de Oliveira,
para quem é “extremamente preocupante” o fato de as decisões no âmbito da Lava
Jato estarem sistematicamente ignorando “o direito penal como direito de
garantia da pessoa humana”.
Ou o uso “indiscriminado e leviano”, segundo esses e outros
advogados e juristas, do instituto da delação premiada e da prisão preventiva.
As desesperadas investidas dos repórteres com seus microfones
na direção do magistrado, na livraria, não têm o objetivo de questionar
aspectos jurídicos ou constitucionais dos atos de um dos três poderes da
República hoje representado por Sérgio Moro. “O senhor se considera um herói?”,
pergunta uma repórter. “Juiz, por favor, apenas uma palavra!”, tenta outra, de
maneira quase pueril para uma representante do chamado quarto poder.
Diante da investida da multidão de repórteres e, por trás
destes, dos fãs – conjunto que parece compor uma cena do filme Celebridades, de
Woody Allen –, o ídolo se mantém numa postura tímida, blasé. “É sempre bom ter
o apoio da população”, diz apenas. “Não quero ser o foco”, acrescenta, diante
do desespero dos jornalistas, alguns dos quais são figuras bacanas, talentosas,
amigas, em alguns casos, mas que na cena fazem lamentavelmente lembrar a letra
da canção "As Mariposa", de Adoniran Barbosa, este sim, um gênio brasileiro: “As
mariposa quando chega o frio/Fica dando vorta em vorta da lâmpida pra si
isquentá”.
Diante da recusa de Sérgio Moro em dar qualquer declaração
em favor de uma manchete, uma manchetezinha que seja, enfim se instala um
conformismo. “Ele não vai falar, não adianta”, lamenta-se um. Mesmo assim, o
séquito, como um bando de mariposas, continua a acompanhar o magistrado, enquanto
ele se encaminha para fora da livraria sob aplausos intensos e o coro “fora PT,
fora PT”.
Quando Moro chegou à livraria, um artista de rua, anônimo,
cantava solitariamente na frente do famoso Conjunto Nacional, na avenida
Paulista, com seu violão. Ele interpretava a canção “The Sound of Silence”, da
dupla Simon & Garfunkel, lançada nos anos 1960, que atravessou a década de
1970 e até a de 1980. Um trecho dessa canção diz, em tradução livre: “Dez mil
pessoas, talvez mais/Pessoas conversando sem falar/Pessoas ouvindo sem
escutar”.
Quando o juiz foi embora, ninguém mais cantava na calçada, o
artista de rua já tinha ido embora. Um jovem, que se dizia do Movimento Brasil
Livre, quase adolescente, dá entrevistas. Declara que querem o impeachment de
Dilma "porque ela cometeu crimes de responsabilidade", diz que o
Brasil "não é um país livre porque tem muita intervenção do Estado em
todos os aspectos".
Esses jovens que estavam na livraria, idolatrando Sérgio
Moro, pedindo a cabeça de Dilma Rousseff, não fazem ideia de que adolescentes
do passado dançavam a canção de Simon & Garfunkel nos bailinhos, assim como
não sabem quem foi Adoniran Barbosa, e muito menos sabem o que significou a
luta pela democracia que hoje vivemos no Brasil, pela qual tantos tombaram.
Mas esses jovens não são inocentes. Parafraseando Jean-Paul Sartre, não existem vítimas, muito menos algozes inocentes.
Mas esses jovens não são inocentes. Parafraseando Jean-Paul Sartre, não existem vítimas, muito menos algozes inocentes.
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